A veracidade



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Profecias cumpridas

Uma das mais incríveis evidências para a inspiração divina da Bíblia são as

profecias que se cumpriram. Centenas de profecias feitas na Bíblia vieram a se

cumprir até o último detalhe. E a maioria delas foi cumprida quando o seu escritor

já havia morrido.
Por exemplo: Em cerca de 538 AC (Daniel 9:24-27), Daniel, o profeta, predisse

que Jesus viria como o Salvador e Príncipe prometido para Israel exatamente 483

anos depois que o imperador persa desse aos judeus permissão para reconstruir a

cidade de Jerusalém que estava em ruínas nesta época. Essa profecia foi clara e

definitivamente cumprida no tempo exato.
A Bíblia também contém uma grande quantidade de profecias tratanto de nações

e cidades específicas ao longo da história, todas as quais foram literalmente

cumpridas. Mais de 300 profecias foram cumpridas pelo próprio Jesus Cristo

durante a sua primeira vinda. Outras profecias lidam a difusão do Cristianismo

pelo mundo, falsas religiões e muitos outros assuntos.
Não há outro livro, antigo ou moderno, como a Bíblia. As profecias vagas e

geralmente errôneas, feitas por pessoas como Jeanne Dixon, Nostradamus, Edgar

Cayce e outros como eles, não podem, nem de longe, serem colocadas na mesma

categoria das profecias bíblicas. Nem outros livros religiosos como o Alcorão, os

escritos de Confúcio e literatura religiosa similar. Somente a Bíblia manifesta esta

evidência profética e ela a faz em uma escala tão gigantesca que torna absurda

qualquer outra explicação que não a sua inspiração divina.
Uma acurácia histórica única
A acurácia histórica das Escrituras é também uma classe de evidências por si só,

infinitamente superior aos registros escritos deixados pelo Egisto, Assíria e outras

nações antigas. As confirmações arqueológicas do registro bíblico são quase

inumeráveis. O Dr. Nelson Glueck, a maior autoridade em arqueologia israelita,

disse:
"Nenhuma descoberta arqueológica jamais contradisse qualquer referência bíblica.

Dezenas de achados arqueológicos foram feitos que confirmam em exato detalhe

as declarações históricas feitas pela Bíblia. E, da mesma maneira, uma avaliação

própria de descrições bíblicas tem geralmente levado a fascinantes descobertas

no campo da arqueologia moderna."

Acurácia científica

Uma outra espantosa evidência da inspiração divina da Bíblia é o fato de que

muitos princípios da ciência moderna foram registrados como fatos da natureza na

Bíblia muito antes que qualquer cientista os confirmasse experimentalmente. Uma

amostra destes fatos inclui:

A redondeza da terra (Isaías 40:22)

A quase infinita extensão do universo (Isaías 55:9)

A lei da conservação de massa e energia (II Pedro 3:7)

O cíclo hidrológico (Eclesiastes 1:7)

O vasto número de estrelas (Jeremias 33:22)

A lei do aumento da entropia (Salmo 102:25-27)

A suma importância do sangue para a vida (Levítico 17:11)

A circulação atmosférica (Eclesiastes 1:6)

A campo gravitacional (Jó 26:7)

e muitos outros

Estes fatos obviamente não são declarados no jargão da ciência moderna, mas

em termos da experiência básica no homem no dia-a-dia. Ainda assim, eles estão

completamente de acordo com o fatos modernos da ciência.

É significativo também que nenhum erro jamais foi demonstrado na Bíblia, seja em

ciência, história ou qualquer outro assunto. Muitos erros foram de fato declarados,

mas eruditos bíblicos conservadores sempre foram capazes de encontrar soluções

para esses problemas.



Estrutura única

A incrível estrutura da Bíblia deve ser colocada em perspectiva também. Embora

ela seja uma coleção de 66 livros, escritos por cerca de quarenta homens ao longo

de um período de cerca de 2000 anos, a Bíblia ainda assim é um só Livro, em

perfeita unidade e consistência.
Os escritores individuais, na época em que escreviam, não tinha idéia de que,

eventualmente, seus escritos seria incorporados em um só livro. Entretanto, cada

um desses escritos individuais preenche perfeitamente o seu lugar e serve a um

único propósito. Qualquer pessoa que estude diligentemente a Bíblia irá encontrar

padrões estruturais e matemáticos cuidadosamente bordados em seu tecido com

uma intrincácia e simetria que não são passíveis de explicação através do acaso

ou coincidência.
E o tema que a Bíblia desenvolve consistente e grandiosamente de Genêsis ao

Apocalipse é o majestoso trabalho de Deus na criação do universo e a redenção

de todas as coisas através de seu único filho, o Senhor Jesus Cristo.

O efeito único da Bíblia

A Bíblia também é única em seu efeito sobre homens em individual e sobre a

história das nações. Ela é o livro mais vendido de todas as épocas, tocando

corações e mentes, amada por pelo menos uma pessoa em qualquer raça, nação

ou tribo para a qual foi levada. Ricos ou pobres, educados ou simples, reis ou

plebeus, homens de qualquer origem ou modo de vida já forma atingidos por esse

livro. Nenhum outro livro jamais teve tal apelo universal ou produziu efeitos tão

duradouros.


Uma evidência final de que a Bíblia é verdadeira é o testemunho dos que

acreditaram nela. Multidões de pessoas, no passado e no presente, descobriram

por experiência própria que suas promessas são verdadeiras, seu conselho é

confiável, seus comandos e restrições são sábios e que sua maravilhosa

mensagem de salvação vai ao encontro de qualquer necessidade para todo o

tempo e eternidade.


Autores: Henry Morris e Martin Clark, adaptado do livro dos mesmos A Bíblia tem

a resposta, publicado por Master Books.


http://www.christiananswers.net/portuguese/q-eden/edn-t003.html
NÃO CRITIQUE A BÍBLIA!
por Richard Wurmbrand
Cada pessoa abriga um anseio pela verdade, bem como certa rebeldia contra

suas exigências quando esta é descoberta. O evangelho é o único livro religioso

do mundo que expressa a verdade juntamente com dúvidas a respeito dessa

mesma verdade. Portanto, é verdade.


Se estudá-la atentamente, decerto encontrará contradições na Bíblia. Eu

desconfio de relatos que se revelam coerentes em todos os detalhes. São

artificialmente elaborados. Creia na Bíblia, porque suas histórias não se

harmonizam.


Você nunca terá paz a respeito disso até que aceite o primeiro postulado da

dialética: de que não existe nada que não contenha contradições. Não existe

matemática sem mais e sem menos, nem eletricidade sem positivo e negativo,

nenhuma guerra sem ataque e defesa, nenhum santo sem pecado e nenhum

pecador sem virtudes.
Aceite-se a si mesmo com suas contradições. Lutero declarava que todo cristão é

“ao mesmo tempo justo e pecador, um homem que alcançou a meta e que se

empenha por alcançá-la”.
A contradição é universal e absoluta, portanto não se preocupe com o que parece

serem contradições na Bíblia.


Apegue-se à Bíblia. Não se impressione nem uma vírgula com quaisquer críticas a

ela, não obstante erudita possa ser. Não critique a Bíblia, antes permita que ela o

critique.
Numa exposição de arte moderna, havia uma tela em branco em lugar de uma

pintura. Abaixo da mesma achava-se o título, “Uma vaca pastando”. Um visitante

perguntou ao artista: “O que significa este total? Não vejo pasto algum. Onde está

a vaca pastando?” O artista respondeu: “A vaca comeu todo o pasto”. O visitante

insistiu: “Mas onde está a vaca?” O pintor replicou: “Para que a vaca ia

permanecer ali, se não restou nenhum capim?”


Pessoas críticas da Bíblia assemelham-se a esse artista. Deixam nas Escrituras

Sagradas apenas páginas vazias. Nenhum Deus, nenhum milagre, nenhum relato

confiável, diabo algum, nem inferno, nem Paraíso. Não preste qualquer atenção a

artistas desse tipo! São João Crisóstomo declarou: “Exortamo-vos a crerdes nas

Escrituras. Se alguém concorda com as Escrituras, este é um cristão”.
Não se impressione com o ceticismo de certos cientistas com respeito à Bíblia.

Quanto sabem os cientistas? Numa das novelas de Balzac, um cientista,

insensível às lágrimas da esposa, comenta: “O que são lágrimas? Eu as analisei:

Há um pouco de fosfato, de cálcio, cloreto de sódio, algum muco e certa

quantidade de água”. Quem considera a Bíblia com uma mente assim distorcida

está condenado a não entendê-la. Acredite em cada letra da Bíblia.

Um conferencista ateu tentava provar que a Bíblia é indigna de confiança. Ele a

abriu em Ecles. 1:9, que diz: “Não há nada de novo debaixo do sol”.

Zombeteiramente, argumentou: “Esta é uma clara mentira. Há tantas coisas novas

debaixo do sol-raios-X, radio, telégrafo, estradas de ferro! Tantas invenções a

respeito das quais a humanidade não tinha idéia séculos atrás”.

Um cristão respondeu sem se perturbar: “A Bíblia está certa em cada vírgula.

Nada há de novo debaixo do sol”. Agora o materialista ficou nervoso: “Como pode

ser tão teimoso e apresentar uma resposta tão estúpida? E novamente passou a

enumerar novidades como o raio-X, o rádio, as estradas de ferro, e assim por

diante.


A resposta do cristão foi: “Desde o princípio, os crentes têm dito aos descrentes:

‘Você não pode enganar a Deus com uma religião exterior. Deus olha para o

coração’. Os descrentes estavam certos de que Deus não pode ver o coração

porque esse está coberto de carne, ossos e pele. Fica bem oculto. Assim, Deus

pediu a Roentgen para construir a máquina de raio-X, com a ajuda da qual até

nós, os homens, podemos ver as partes interiores. Mas elas não são algo novo.

São ilustrações modernas de uma verdade conhecida há séculos”.

O descrente não esperava por essa. Ele perguntou: “E o que me diz a respeito do

rádio?” “Velho”, foi a resposta imediata. “tão velho quanto a própria humanidade.

Desde o princípio os fiéis têm dito àqueles que vivem no pecado: ‘Tenham cuidado

com o que falam! Deus ouve cada palavra’. Mas os infiéis somente respondem

com desprezo-‘os céus estão tão distantes. Eu não posso ouvir uma conversa que

se desenvolve num cômodo vizinho. Como pode Deus em seu distante céu ouvir

minhas palavras, especialmente as más, proferidas num sussurro?’ Assim, Deus

deu ordens a Marconi para que construísse um rádio que torna possível às

pessoas em Londres ouvirem um locutor tossir em Moscou. Tudo isso ajuda a

despertar nossas almas à verdade eterna. Você não vê aquele que fala no rádio.

Ele está muito distante. Assim, Deus no céu pode ouvir todas as suas palavras”.

O infiel estava no limite de sua paciência. “Você também poderia me mostrar que

as estradas de ferro não são novas?” “Certamente! Sempre temos advertido:

‘Arrependei-vos hoje! Amanhã pode ser tarde demais!’. As pessoas retardam o

seu arrependimento. Assim, Deus fez com que Stevenson criasse a estrada de

ferro. A fim de evitar colisões, todo trem tem que sair no tempo certo. Se você

chega um minuto atrasado, o trem terá desaparecido perante os seus olhos um

bom exemplo da velha verdade de que o tempo para o arrependimento é sempre

agora. Você pode ter um ataque do coração no próximo minuto”.

Assim, o conferencista ateu admitiu que com a Bíblia não se brinca.

A Bíblia é verdadeira; cada letra é verdade. É verdade mesmo em suas

contradições.
(Extraído de Victorious Faith e reproduzido em The Voice of the Martyrs, agosto de

2001, págs. 10 e 11).


Uma vez mais, concluo que este livro tem nele o próprio fôlego divino, pelo efeito

que produz sobre os homens. Há homens que estudam filosofia, astronomia,

geologia, geografia e matemática, mas já ouviu um homem dizer: “Eu era um

perdido, ébrio contumaz, uma vergonha para o meu povo e uma perturbação para


o mundo, até que comecei a estudar matemática e aprendi a tábua de

multiplicação, e então dediquei minha atenção a geologia, apanhei um martelo e

removi pedaços de rocha para estudar a formação da terra, e desde essa época

tenho sido feliz por todo o dia; sinto vontade de cantar o tempo todo; minha alma

está plena de triunfo e paz; e saúde e bênçãos têm retornado a meu desolado

lar”? já ouviu um homem atribuir sua redenção e salvação da intemperança e

pecado e vício à tábua de multiplicação, ou à ciência da matemática ou geologia?

Mas posso lhes apresentar, não um, nem dois, ou dez homens, porém milhares

que lhe dirão: “Eu estava condenado; era um perdido; parti o coração de minha

pobre mãe; levei meu lar à ruína; minha esposa vivia deprimida e desanimada;

meus filhos fugiam ao som de meus passos; estava arruinado, confuso,

desamparado, sem esperança, até que ouvi as palavras deste Livro!”

E ele lhe repetirá as próprias palavras que se ligaram a sua alma. Poderiam ter

sido, “Vinde a Mim, os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei

descanso”; talvez fossem, “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”;

como também poderiam ser, “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu

Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida

eterna”.


Ele pode lhe proferir as próprias palavras que salvaram a sua alma. E desde que

essa Palavra penetrou-lhe o coração ele contará de como a esperança raiou sobre

sua visão, como a alegria tem inspirado o seu coração e como sua boca está

repleta de cânticos de louvor. Ele lhe relatará que a cor retornou às pálidas faces

da esposa; que seus andrajos foram substituídos por roupas decentes; que seus

filhos correm para encontrá-lo quando ele chega; que há pão sobre a mesa, fogo

na lareira, e conforto em sua habitação. Ele lhe falará sobre tudo isso e lhe

contará que este livro operou a mudança.


Agora, este livro está operando tais milagres, e o faz cada dia. Se você tiver

qualquer outro livro que realize tal obra, apresente-o. A obra precisa ser realizada;

se você tiver outro livro que o faça, por misericórdia, apresente-o. No momento,

porém, enquanto esperamos por você, como sabemos que este livro cumprirá esta

obra, pensamos em utilizá-lo até que surja algo melhor.
O de que mais carecemos é do próprio livro. Ele é a sua melhor defesa. Os

cristãos às vezes tentam defender a Palavra de Deus. Isso parece como meia

dúzia de cãozinhos poodle tentando defender um leão em sua jaula. A melhor

coisa a fazer é levantarmos as barras móveis da jaula, deixar o leão sair e ele se


defenderá! E a melhor coisa a fazer é apresentar a Palavra de Deus e deixar que

a “espada do Espírito” comprove o seu poder, ao penetrar “ao ponto de dividir

alma de espírito”.
H. L. Hastings, Will the Old Book Stand? (Review and Herald, Washington D.C.),

s/d.


http://www.cacp.org.br/critica-biblia.htm

A DOUTRINA REFORMADA DA AUTORIDADE SUPREMA DAS ESCRITURAS


A doutrina que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental

importância na Reforma Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um

lado, à doutrina católica romana de uma tradição oral apostólica e, por outro lado,

ao misticismo dos assim chamados entusiastas ou reformadores radicais, os

Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. Essa

foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do misticismo

pessoal.
A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina puritanopresbiteriana. A ela os

puritanos tiveram que apelar freqüentemente na luta que

foram obrigados a travar contra as imposições litúrgicas da Igreja Anglicana.1 A

Confissão de Fé de Westminster professa a referida doutrina em três parágrafos

do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da origem ou fundamento

da autoridade das Escrituras:


A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida,

não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente

de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida,

porque é a Palavra de Deus.


O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da

autoridade das Escrituras:


Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente

apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia

da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o

escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do

único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências

incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente

se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e

certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna

do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos

corações.


O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do

Espírito Santo) a palavra final para toda e qualquer questão religiosa,

reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em matéria de fé e prática:
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser

determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios,

todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões
particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser

outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.


Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o

evangelicalismo moderno (particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise

teológica, eclesiástica e litúrgica, convém considerar novamente essa importante

doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta contra antigas e

novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de Deus. Tal é o

propósito deste artigo.


I. Definição

O que queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade

das Escrituras? Que, por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em

todas as suas afirmativas. Segundo esta doutrina, as Escrituras são a fonte

infalível de informação que estabelece definitivamente qualquer assunto nelas

tratado: a única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos

ao qual a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa.

Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina.

Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl

19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi registrada em nosso

coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus em nosso peito,"

"uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam

chamá-la.3 A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo

especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19;

Cl 1.15 e 3.9).
Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e

que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem

suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra

final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensação são as Escrituras

Sagradas.
II. Base Bíblica

A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é

tanto inferencial como direta.

A. Base Inferencial


É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina das

Escrituras. Visto que as Escrituras não são produto da mera inquirição espiritual

dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas da ação sobrenatural do Espírito Santo (cf. 2

Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na linguagem da Confissão

de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua autoria divina: "porque é a

Palavra de Deus."


Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a anular

a mente e a personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos não

escreveram mecanicamente. As Escrituras não foram psicografadas, ou melhor,

"pneumografadas." Os diversos livros que compõem o cânon revelam claramente

as características culturais, intelectuais, estilísticas e circunstanciais dos diversos

autores. Paulo não escreve como João ou Pedro. Lucas fez uso de pesquisas

para escrever o seu Evangelho e o livro de Atos. Cada autor escreveu na sua

própria língua: hebraico, aramaico e grego. Os autores bíblicos, embora

secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos de Deus. A

superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas características

e peculiaridades individuais. Por outro lado, a agência humana também em nada

prejudicou a revelação divina. Seus autores humanos foram de tal modo dirigidos

e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi registrado por eles nas

Escrituras constitui-se em revelação infalível, inerrante e autoritativa de Deus. Não

somente as idéias gerais ou fatos revelados foram registrados, mas as próprias

palavras empregadas foram escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre

instrumentalidade dos escritores.4
O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos divinos:

são perfeitas, fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras, justas (Sl 19.79) e

santas (2 Tm 3.15).5
B. Base Direta

Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta

apenas em inferências. Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema.

Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus,

introduzindo suas profecias com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo:

"assim diz o Senhor," "ouvi a palavra do Senhor," ou "palavra que veio da parte do

Senhor."6 No Novo Testamento, vários textos do Antigo Testamento são citados,

sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito Santo. Por exemplo: "Assim diz o Espírito

Santo..." (Hb 3:7ss).7
A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O

Apóstolo Paulo dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem

recebido as suas palavras "não como palavra de homens, e, sim, como em

verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em


vós, os que credes" (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar aos

gálatas no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do evangelho

que ele lhes havia anunciado, ainda que viesse a ser pregado por anjos? Só há

uma resposta razoável: ele sabia que o evangelho por ele anunciado não era

segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem algum, mas

mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12).


Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a

usa, para estabelecer qualquer controvérsia: "está escrito"8 (exemplos: Mt

4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a autoridade das mesmas, dizendo

em João 10:35 que "a Escritura não pode falhar."9


III. Usurpações da Autoridade das Escrituras

Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da

autoridade suprema das Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a

mesma tendência geral de diminuir a autoridade das Escrituras. E isso ocorre de

duas maneiras: por um lado, há a propensão em admitir fontes adicionais ou

suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de

Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras,

negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo.

Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares

usurpadoras da autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição

(degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a

razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um desses elementos é

indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída

ou mesmo suplantada.


A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo

Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religião

judaica havia se tornado incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a

revelação, os judeus, já no segundo século antes de Cristo, produziram uma

infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah. Essas

tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por séculos,

até serem registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser conhecidas como o

Talmude,10 a interpretação judaica oficial do Antigo Testamento até o dia de hoje.

Muitas dessas tradições judaicas eram, entretanto, distorções do ensino do Antigo

Testamento. Mas tornaram-se tão autoritativas, que suplantaram a autoridade do

Antigo Testamento. Jesus acusou severamente os escribas e fariseus da sua

época, dizendo:


Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.

Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disselhes ainda:

Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa

própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição que

vós mesmos transmitistes... (Mc 7.7-9,13).11
O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos

colossenses, ele advertiu:


Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas,

conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não

segundo Cristo... Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que,

como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não

proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos

homens? (Cl 2.8,20-22).


Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema:

as tradições contidas nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais

da igreja, nas decisões conciliares e nas bulas papais também degeneraram em

tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não

possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender

a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente, de

uma reação à posição da Igreja Católica.
Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente

ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele,

não sendo considerada normativa (autoritativa) a não ser que reflita realmente o

ensino bíblico, então não é má. Os próprios Reformadores produziram,

registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais também são

tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé não têm

autoridade própria, só sendo normativos na medida em que refletem fielmente a

autoridade das Escrituras.


O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no

tradicionalismo, que atribui à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui

autoridade às tradições, pelo simples fato de serem antigas ou geralmente

observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre usurpando a

autoridade das Escrituras.
B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo

Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a

emoção, quando degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente

conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor

exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. Quando tal
ênfase ocorre, facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e

interno, é explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação

divina direta, seja por meio do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos,

sonhos, visões, arrebatamentos, etc.


Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi, em

parte, através desses meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja e

registrada no cânon pelo processo de inspiração. O que se está afirmando é que o

misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do passado, para

reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não

diabólica). Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor

através do profeta Jeremias:
Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que

entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu

coração, não o que vem da boca do Senhor... Até quando sucederá isso no

coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do

próprio coração?... O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas

aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que

tem a palha com o trigo? diz o Senhor (Jr 23.16,26,28).
Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi

instrumento de revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para escrever

suas cartas canônicas. Nessa condição, ele sabia muito bem o que eram sonhos,

visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda assim, advertiu aos colossenses,

dizendo: "Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e

culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua

mente carnal" (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos advertem a Igreja

repetidamente contra os falsos profetas, os quais ensinam como se fossem

apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores.
Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada.

O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que

também as emoções foram corrompidas pelo pecado) tende sempre a usurpar, a

competir com a autoridade das Escrituras, chegando mesmo freqüentemente a

suplantá-la. Na época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram

grupos místicos por eles chamados de entusiastas12 que reivindicavam

autoridade espiritual interior, luz interior, revelações espirituais adicionais que

suplantavam ou mesmo negavam a autoridade das Escrituras. Esta tem sido

igualmente uma das características mais comuns das seitas modernas, tais como

mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os

movimentos pentecostais e carismáticos também não é incomum a emoção

degenerar em emocionalismo, produzindo um misticismo usurpador da autoridade

das Escrituras.

C. A Razão Degenerada em Racionalismo

A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das

Escrituras. O homem, devido a sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a

submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre tê-la

(a razão) como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da queda. Na

verdade, foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos

primeiros pais. Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que

à palavra de Deus. Desde então, essa soberba mental, essa altivez intelectual tem

tendido sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, oral (antes de ser

registrada) ou escrita.
Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus

nem lhe é grato? O Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus

(Rm 1:18), "...se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-selhes o

coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos... pois

eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em

lugar do Criador...’’ (Rm 1:21-22,25).


Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros

surgidos no curso da história da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o

arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o arminianismo são todos erros

provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à revelação

bíblica. Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação

bíblica que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um do

Antigo e outro do Novo Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez distinção

moral entre matéria e espírito. Já o arianismo originou-se da dificuldade de Ario

em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o docetismo surgiu da

dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente divino-humano. O

unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a doutrina bíblica da

Trindade, enquanto que o arminianismo surgiu da dificuldade de Armínio em

conciliar a doutrina da soberania de Deus com a doutrina da responsabilidade

humana (rejeitando a primeira).


A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido

especialmente forte nos últimos dois séculos. O desenvolvimento científico e

tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a acreditar

apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela lógica. A

ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. E a Igreja

passou a fazer concessões e mais concessões, na tentativa de harmonizar as

Escrituras com a razão e com a ciência. O relato bíblico da criação foi

desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas Escrituras foram

rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras passaram a assumir

uma postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi assim que surgiu o

método de interpretação histórico-crítico em substituição ao método históricogramatical.

Nele, é a suprema razão humana que determina o que é escriturístico

ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é verdadeiro ou falso

nas Escrituras.


Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua

história. Quão falível e mutável é! A grande maioria dos "fatos" científicos de dois

séculos atrás já foram rejeitados pela própria ciência. Além disso, com que

freqüência meras teorias e hipóteses científicas são tomadas como fatos

científicos comprovados!13
IV. Limitações da Autoridade das Escrituras

Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade

das Escrituras, existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica, negandoa,

subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. É o que têm feito a teologia liberal, a

neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação a três dos principais aspectos

da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três concepções de "autoridade"

bíblica precisam ser entendidas. Elas estão sendo bastante divulgadas em nossos

dias, e são, em certo sentido, até mais perigosas do que as tendências

anteriormente mencionadas, por serem mais sutis. Este assunto pode ser melhor

entendido considerando-se os três principais aspectos da doutrina da autoridade

das Escrituras: sua origem (ou base), certeza (ou convicção) e escopo (ou

abrangência).

A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras

A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado, encontrase na sua

autoria divina. As Escrituras são autoritativas porque são de origem

divina: o Espírito Santo é o seu autor primário. Para os Reformadores, as

Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus inspirada. Por isso são

infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc.

A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da Escritura,

negando a sua origem divina. Para ela, as Escrituras são mero produto do espírito

humano, expressando verdades divinas conforme discernidas pelos seus autores,

bem como erros e falhas características do homem. Sua autoridade, portanto, não

é divina nem inerente, mas humana, devendo ser determinada pelo julgamento da

razão crítica. Eis o que afirmam: "A verdade divina não é encontrada em um livro

antigo, mas na obra contínua do Espírito na comunidade, conforme discernida

pelo julgamento crítico racional."14 De acordo com a teologia liberal, "nós estamos

em uma nova situação histórica, com uma nova consciência da nossa autonomia e

responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. Não podemos mais

apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado."15

B. Certeza da Autoridade das Escrituras

A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras provém do testemunho

interno do Espírito Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua

doutrina e a sua extraordinária unidade são algumas das características das

Escrituras que demonstram a sua autoridade divina. Contudo, admitimos que "a

nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade

provém da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra,

testifica em nossos corações."17

O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se constituir

no meio pelo qual somos persuadidos da sua autoridade, mas não na base ou

fundamento da nossa persuasão. A nossa persuasão da autoridade da Bíblia dáse por meio

do testemunho interno do Espírito Santo com relação à sua

inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade

suprema das Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da açãodo Espírito

Santo. É ele, e só ele, quem pode persuadir alguém da autoridade da

Bíblia.
Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito.

Significa, sim, que a ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu

coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipa

as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração,

permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo

trata deste assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta,

que, "o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são

loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Co

2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade original

de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto, reconhecer a

autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na sua segunda

carta aos coríntios o Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar que,


...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está

encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos,

para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a

imagem de Deus... Porque Deus que disse: de trevas resplandecerá luz —, ele

mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da

glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).


O que Paulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como

resultado da obra do diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um

deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. Pode-se

compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta ilustração. O

testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através

da qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade

que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual.

Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que

esse testemunho interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com

relação à plena autoridade das Escrituras, e não à própria autoridade inerente das

Escrituras. A convicção de um crente de que as Escrituras têm autoridade é

subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não convencido

da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa. A neoortodoxia

existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade da

própria autoridade da Bíblia. Para eles, a revelação bíblica só é verdade divina

quando fala ao nosso coração. Como dizem, "as Escrituras não são, mas se

tornam a Palavra de Deus" quando existencializadas.18
C. Escopo da Autoridade das Escrituras

Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à

certeza da autoridade das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria

ainda (por ser mais sutil) é a questão relacionada ao escopo da autoridade das

Escrituras.

Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos

evangélicos (inclusive reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19),

conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo limita o escopo (a área)

da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. Segundo essa concepção,

a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos diretamente

relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20
A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das Escrituras e

o seu contexto salvífico, reivindicando autoridade e inerrância apenas para o

primeiro. Mas tal posição não reflete nem se coaduna com a posição reformada e

protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade das Escrituras é todo oseu cânon.

É verdade que a Bíblia não se propõe a ser um compêndio científico

ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as afirmativas nelas contidas, sejam

elas de caráter teológico, prático, histórico ou científico, são inerrantes e

autoritativas.21


Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à

autoridade das Escrituras são os seguintes: Primeiro, como distinguir o conteúdosalvífico

do seu contexto salvífico? É impossível. As Escrituras são a Palavra de

Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que está ou não está

diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da redenção

não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das

Escrituras ficariam de fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite, "a

Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas também o livro da história e o livro

da Criação..."22 Que áreas da vida humana ficariam de fora da obra da redenção?

A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem delimitaria as fronteiras entre o

que está ou não incluído no propósito salvífico? Admitir, portanto, o conceito neoevangélico

de autoridade das Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do


cânon, e colocar a razão humana como juiz supremo de fé e prática, pois neste

caso competirá ao homem determinar o que é ou não propósito salvífico.





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