A vida secreta de uma mãe caótica fiona neill



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A VIDA SECRETA DE UMA MÃE CAÓTICA
FIONA NEILL

Tradução de

CÁSSIA ZANON
EDITORA RECORD

2010
Para Ed


"Toda mulher é uma ciência, pois aquele que meditar sobre uma mulher por toda a sua vida irá depois de um longo tempo descobrir-se necessitado de conhecimento a respeito dela."

John Donne
"É possível sonhar sonhos diferentes compartilhando a mesma cama."

Provérbio chinês

1
"Um marido surdo e uma esposa cega

sempre formam um casal feliz"
Deixo minhas lentes de contato de molho durante a noite numa xícara de café e acordo de manhã para descobrir que o Marido de Pavio Curto as bebeu de madrugada. Pela segunda vez em menos de um ano.

— Mas eu disse que elas estavam ali — protesto.

— Você não pode querer que eu me lembre desse tipo de detalhe — ele diz. — E eu não vou tentar vomitar desta vez. Use os óculos.

Tom está sentado na cama, com os cabelos desalinhados, usando um pijama listrado amassado abotoado até o colarinho e os braços cruzados na defensiva. Estou com um pijama de flanela, com alguns botões faltando. Eu me pergunto: quando os dois começam a usar pijama na cama significa o começo ou o fim de alguma coisa num relacionamento? Ele se estica para empilhar três livros na mesa de cabeceira por ordem de tamanho e para alinhar a caneca que antes continha minhas lentes de contato de modo equidistante do abajur que está do outro lado.

— Eu simplesmente não entendo por que você põe as lentes numa xícara de café. Há milhões de pessoas em todo o país que realizam o mesmo ritual todos os dias, e elas nunca recorrem a uma caneca para guardar algo tão essencial à sua rotina diária. Isso é uma forma de sabotagem, Lucy, porque você sabe que existe o risco de eu querer beber alguma coisa durante a noite.


  • Mas às vezes você não tem vontade de viver um pouco perigosamente? — pergunto. — De tentar o destino um pouco, sem machucar ninguém que você ama no processo?

  • Se eu achasse que havia questões filosóficas não respondidas por trás disso, em vez de uma garrafa vazia de vinho e uma consequente amnésia, estaria preocupado quanto ao seu estado mental. Eu poderia ser mais compreensivo se você demonstrasse alguma preocupação comigo. Isso podia ser uma emergência — responde ele, petulantemente.

  • Mas da última vez não deu em nada — eu o interrompo rapidamente, para tentar impedir a inevitável queda na hipocondria.

Resisto à vontade de dizer que no momento há coisas mais importantes, como a necessidade de deixar nossos filhos na escola na hora certa no primeiro dia de aula do semestre. Tenho uma vaga lembrança de ter deixado uma lente de contato cair no carpete há uns dois meses e começo a examinar meticu­losamente o chão do meu lado da cama. Numa inspeção quase casual, encontro, não necessariamente nesta ordem: uma lente que o caçula tirou dos meus óculos na semana anterior, um biscoito comido pela metade de tanto tempo atrás que está petrificado e uma multa de estacionamento não paga que rapidamente enfio de volta embaixo da cama.

— Você precisa de alguns sistemas de organização, Lucy — diz o Marido de Pavio Curto, sem saber o que está acontecendo a poucos metros de distância dele. — Com eles, a vida fica muito mais simples. Enquanto isso, por que você não usa os óculos velhos? Você não precisa impressionar ninguém, afi­nal. — Ele sai da cama e vai para o banheiro para a próxima parte de seu ritual matinal.

Uma década atrás, no sopé do nosso relacionamento, esse tipo de conversa teria sido qualificado como uma briga com­pleta, uma daquelas violentas erupções que tinham o potencial de acabar com tudo. Mesmo há cinco anos, aproximadamente na metade do nosso casamento, seria considerado um desa­cordo significativo. Agora não passa de uma nota de rodapé na narrativa da vida de casados.

Enquanto subo a escada até o último andar para acordar as crianças, penso que relacionamentos são como pedaços de elástico nos quais uma pequena tensão é permitida, até desejável, caso se queira que as duas pontas se mantenham uni­das. Se ficam soltos demais, tudo desmorona, como aqueles casamentos em que as pessoas dizem que nunca discutem e então, da noite para o dia, se transformam em nada, nem mesmo recriminação. Se há tensão demais, eles se rompem. É tudo uma questão de equilíbrio. O problema é que normalmente não há um aviso sobre quando se está prestes a perder esse equilíbrio.

Digo um palavrão ao tropeçar num modelo de Lego dei­xado na escada que se parte em pedacinhos, unindo forças a alguns carrinhos de brinquedo e a um braço que costumava pertencer a um boneco. Meu queixo vai parar no último degrau e, enfiado ao lado do carpete, vejo um minúsculo sabre de luz, de menos de um centímetro de comprimento, que pertence a um dos bonecos de Guerra nas Estrelas de Joe. Havia desaparecido fazia uns dois meses em circunstâncias suspeitas depois que nosso agitado bebê, Fred, montou uma operação secreta no quarto do irmão nas primeiras horas da manhã.

Quantas horas perdi procurando por esse sabre de luz? Quantas lágrimas foram derramadas por causa de seu desaparecimento? Por um breve instante, descanso a cabeça no ta­pete, sentindo algo parecido com satisfação.

Paro do lado de fora do quarto de Sam e Joe e empurro a porta devagarinho. Sam, o mais velho, está na pole position, dormindo na cama de cima do beliche. Joe está na cama de baixo, e Fred está no chão. Como um club Sandwich. Não importa quantas vezes eu leve Fred para seu próprio quarto du­rante a noite, ele tem um GPS inato que o leva ou de volta ao quarto dos irmãos ou para nossa cama, onde frequentemen­te o encontramos dormindo de manhã.

Fico olhando maravilhada para meus filhos dormindo, com os braços e as pernas atravessados nas camas e no chão, e mi­nha irritação desaparece. Durante o dia, eles estão em movi­mento contínuo, e é impossível congelar qualquer instante por mais que alguns segundos. Com eles dormindo, há a possibi­lidade de observar a exata inclinação de um nariz ou uma constelação de sardas. Toco a mão de Sam para acordá-lo, mas, em vez de ele acordar, seus dedos envolvem os meus. Seus reló­gios internos ainda estão em ritmo de férias. Sou instantanea­mente transportada de volta para aquele primeiro instante logo depois que ele nasceu, quando fez isso pela primeira vez e aque­la onda absoluta de amor maternal transbordou, e eu soube que nada mais voltaria a ser o mesmo.

Sam tem quase 9 anos. Não consigo mais levantá-lo há mais ou menos dois anos. Está grande demais para sentar no meu colo, e não tenho mais permissão de beijá-lo quando o deixo na escola. Logo estará completamente perdido para mim. Claro que haverá reservas de afeição que ele poderá usar durante os sombrios anos da adolescência, quando nos verá com todos os nossos defeitos. Observando-o deitado na cama, com o já desajeitado corpo de pernas e braços compridos, com a adolescência logo ali, dou-me conta de que estou olhando para os últimos vestígios de infância. Tenho certeza de que é por isso que algumas mulheres nunca param de ter filhos, para que sempre haja um receptáculo desejoso de seu amor. Joe se vira primeiro. Tem o sono leve, como eu.

— Quem vai ajudar o Major Tom? — ele pergunta, antes de abrir os olhos, e sinto meu coração afundar um pouco.

Tocar David Bowie no caminho para Norfolk durante as férias de verão havia parecido uma grande evolução no duro mundo do entretenimento automobilístico. Pensamos que a qualidade narrativa das letras das músicas apelaria para a imaginação dos meninos. E apelou mesmo. Mas nunca passamos da primeira faixa de Changes.


  • Por que o foguete deixou ele? — Joe pergunta agora, espiando de debaixo do edredom.

  • Ele se soltou — respondo.

  • Por que não tinha outro piloto para ajudar ele? — Joe pergunta.

  • Ele queria ficar sozinho — eu digo, acariciando seus cabelos. Aos 5 anos, Joe é feito à minha imagem, com os cachos castanhos revoltos e os olhos verde-escuros, mas o tem­peramento foi herdado do pai.

  • O foguete deixa ele para trás?

— Sim, mas tem uma parte dele que quer fugir — explico.

Joe faz uma pausa.



  • Mamãe, você quer fugir da gente às vezes? — ele pergunta.

  • Às vezes, mas só para o quarto ao lado — respondo, rindo. — Não tenho planos de ir para o espaço.

  • Mas às vezes quando eu falo com você, você não escu­ta. Onde você está nessas horas?

A essa altura, Sam desceu sua escada e já está vestindo o uniforme da escola. Peço a Joe que faça o mesmo. Fred, de 2 anos e meio, será vestido no último minuto, porque no instante em que viramos as costas ele simplesmente tira tudo. Volto ao banheiro atrás de Tom — o marido, não o major.
Houve um tempo em que as abluções de Tom me fascinavam, mas muito embora elas ainda sejam impressionantes em sua meticulosidade, a familiaridade diminuiu a sensação de novidade. Resumidamente, ele entra no banheiro e prepara tudo o que precisa para fazer a barba: pincel, espuma e lâmina ficam sobre uma mesinha ao lado da pia. Ele abre a torneira fria da banheira por exatamente três minutos e depois desvia a atenção para a torneira quente. Dessa forma, diz ele, não há desper­dício de água. Sempre argumentei que a lógica funcionaria melhor ao contrário, mas ele nunca aceitou o desafio. "Por que mudar o que está funcionando, Lucy?" Enquanto prepa­ra o banho, liga o rádio e escuta o programa Today.

O processo do banho só é interessante pelo fato de que ele passa uma quantidade desmedida de tempo esfregando o sabonete com a esponja. Normalmente, durante essa parte dos procedimentos ele conversa. Mesmo depois de estarmos morando juntos por uns dois anos, eu às vezes ainda avaliava mal o momento em que brincar era permitido. Interrompê-lo na hora errada podia levar a humores difíceis de serem dispersos, mas o timing perfeito o fazia expansivo e generoso. Assim, a dança do casamento foi se aperfeiçoando.

Enquanto vasculho as gavetas do banheiro, tento expli­car que os óculos azuis-claros do Serviço Nacional de Saúde dos anos 1980 não são o tipo de acessório que se usa para le­var os filhos à escola, mas ele já se retirou para a fase seguinte, que envolve a submersão até a ponta do nariz e o fechar dos olhos embaixo d'água numa pose meditativa da qual nenhum volume de gritos infantis é capaz de tirá-lo.

Agora ele está fora de alcance, e sou deixada sentada numa cadeira com as pernas cruzadas, os cotovelos apoiados nos joelhos, a palma da mão no queixo, conversando sozinha, uma metáfora do nosso relacionamento.

Sou brevemente transportada de volta para a primeira noite que passei com Tom no apartamento dele em Shepherd's Bush, em 1994. Acordei de manhã, decidi ir embora rapidamente e saí pé ante pé procurando pelas minhas roupas no quarto. Como não consegui encontrá-las, refiz meus passos até a sala de estar, porque me lembrava com alguma clareza de que ha­víamos passado um bom tempo no sofá antes de finalmente irmos para o quarto. Mas as roupas não estavam lá. Eu estava completamente nua, e então me lembrei de alguma menção a colegas de apartamento. Corri de volta ao quarto na ponta dos pés para não acordar ninguém e comecei a me perguntar se aquilo era alguma brincadeira. Ou se, apesar das recomen­dações em contrário, havia um lado sombrio de sua perso­nalidade que envolvia manter cativas mulheres que dormiam com ele no primeiro encontro. Quando voltei para o quarto, ele havia desaparecido, e realmente comecei a entrar em pâ­nico. Chamei pelo nome dele, mas não ouvi resposta. Então, vesti cuidadosamente um velho roupão que encontrei atrás da porta para fazer uma busca em todos os cômodos.

Quando entrei no banheiro, dei um berro. Ele estava de­baixo d'água, de olhos fechados, completamente imóvel. Pensei que tivesse caído no sono e se afogado. Tive uma grande sen­sação de perda por nunca mais poder fazer sexo com aquele homem de novo, já que tinha sido tão bom. Então pensei em ligar para a polícia e tentar explicar o que havia acontecido. E se eles pensassem que eu estava envolvida de alguma ma­neira? Todas as provas apontariam nessa direção. Por um ins­tante, pensei em fugir. Então lembrei que estava sem roupa. Lentamente, tentando manter a respiração sob controle, fui até a banheira, olhei fixamente para ele durante alguns segundos, notando o tom pálido de sua pele, e apertei bem forte com o indicador na parte macia entre as sobrancelhas para ver se ele estava consciente. O alívio da força da cabeça dele empurrando minha mão de volta foi rapidamente substituí­do por choque quando ele agarrou meu braço com tanta for­ça que pude ver a pele ficando branca entre seus dedos e gritou:



  • Meu Deus! Você está tentando me matar? Porque eu achei a noite muito boa.

  • Achei que você tivesse se afogado — falei. — Não con­segui encontrar minhas roupas.

Ele apontou para uma cômoda no baú do lado de fora do banheiro, onde minhas roupas estavam dispostas numa pi­lha bem-arrumada. A calcinha do dia anterior, adoravelmente dobrada no meio em cima de um sutiã que teve dias melho­res e uma velha Levi's 501.

— Você fez aquilo? — perguntei, nervosa.

— Atenção aos detalhes, Lucy — ele disse. — Isso é tudo. — E voltou a afundar debaixo d'água.

A conversa tinha acabado, mas não dava para dizer que eu não soubesse o que viria pela frente. E, sim, nós voltamos para a cama.

Enquanto ele se esparrama no banho e eu escovo os den­tes, faço um inventário crítico do corpo dele, começando por cima. Os cabelos ainda estão escuros, quase negros, com uma leve calvície, mas apenas para olhos atentos. Rugas de sorriso e de preocupação brigam pela supremacia ao redor dos olhos. Um leve franzido entre as sobrancelhas que aumenta e diminui dependendo do progresso de seu projeto da biblioteca em Milão. Está com um pouco de queixo duplo, porque come mais quando está preocupado. Há menos ângulos, está com a bar­riga e o peito mais macios, mas surpreendentemente encan­tadores. Preciso me lembrar de lhe dizer isso. É um homem confiável, que promete conforto e sexo convencional inspirado num repertório bem praticado. É atraente, dizem minhas amigas. Tira a cabeça da água e pergunta o que eu estou olhando.


  • Há quanto tempo nos conhecemos? — pergunto.

  • Há mais ou menos 12 anos — ele responde. — E três meses.

  • Em que ponto do nosso relacionamento nós dois começamos a usar pijama na cama?

Ele pensa cuidadosamente na pergunta.

— Acho que foi no inverno de 1998, quando estávamos morando na zona oeste da cidade e acordamos numa manhã com a janela congelada do lado de dentro. Na verdade, você costumava pegar o meu emprestado.

Ele tinha razão. No começo, eu havia adotado uma abordagem íntima e fácil de compartilhamento que acreditava re­fletir a profundidade e a amplitude do nosso relacionamento. Mas depois do primeiro ano juntos, ele me fez sentar com ele na cozinha e me disse que aquilo não funcionaria se eu não parasse de usar a escova de dentes dele.

— Você tem noção de quantos germes temos na boca? Qualquer dentista de respeito vai dizer que temos mais na boca do que na bunda. A saliva transmite várias doenças.

— Não acredito — falei, sem saber o que dizer.


  • Hepatite, AIDS, ebola... todas podem ser transmitidas oralmente — ele insistiu.

  • Mas você as pegaria de qualquer maneira, porque fa­zemos sexo — racionalizei.

  • Não se estivermos usando camisinha. Quando você lam­be as lentes de contato antes de botar nos olhos, é como se as estivesse passando na bunda antes de usá-las.

Aparentemente, aquela conversa vinha se formando fazia algum tempo. Concordei com ambas as questões, e elas nunca mais voltaram a ser um problema. Eu ainda uso a escova de dentes dele e lambo minhas lentes de contato, mas nunca na frente dele, embora às vezes ele passe o dedo sobre as cerdas à noite e me olhe com ar desconfiado, imaginando por que estão úmidas.

  • No que você estava pensando embaixo d'água? — per­gunto com sincera curiosidade.

  • Eu estava calculando quanto tempo economizaríamos de manhã se deixássemos os sucrilhos nas tigelas na noite anterior. Poderíamos ganhar até quatro minutos — ele diz, antes de afundar novamente.

Mas reaparece depois de alguns segundos para anunciar, como forma de pedido de desculpas pela explosão de mais cedo, que vai levar Fred para a nova creche.

— Eu gostaria muito de levá-lo — diz ele. — Além disso, você pode se perder.

E eu fico contente, porque, embora devesse sentir alívio por Fred estar começando a ir à creche e pela primeira vez em oito anos eu tenha a perspectiva de algum tempo para mim mesma, o dia está marcado por uma pesada sensação de per­da, e eu sei que posso chorar.

Então ocorre que, meia hora mais tarde, eu me flagro caminhando pela calçada com a mão no ombro de Sam de um jeito que espero que pareça maternal.



  • Estamos atrasados? — ele pergunta, já sabendo a res­posta, porque exatamente quando estávamos prestes a sair pela porta Joe passou correndo pela mesa da cozinha e derrubou uma caixa de leite sobre o uniforme dele e minhas calças jeans, provocando um crítico atraso de dez minutos. Apesar dos planos cuidadosos, dos almoços preparados na noite anterior, do uniforme dobrado sobre as cadeiras, dos sapatos alinhados ao lado da porta da frente, da mesa do café já deixada arrumada, das escovas de dentes deixadas ao lado da pia da cozinha, não se pode desconsiderar desastres imprevisíveis. Chegar à escola na hora é um processo de sintonia tão fina como o controle de tráfego aéreo no aeroporto de Heathrow: qual­quer leve mudança pode levar todo o sistema ao caos.

  • Nada desastroso — respondo. Fico absolutamente impressionada com o fato de que eu costumava conseguir apron­tar o segmento principal do programa Newsnight em menos de uma hora, mas seja tão singularmente incapaz de vencer o desafio de aprontar meus filhos para a escola todas as manhãs.

Parece inacreditável que eu conseguisse convencer minis­tros de Estado a ir ao estúdio tarde da noite para serem fritos por Jeremy Paxman, mas não consiga convencer meu filho mais novo a ficar vestido.

  • Deus é maior que um lápis? — pergunta Joe, que se preocupa demais para um menino de 5 anos. — Se não é, ele poderia ser comido por um cachorro?

  • Não pelo tipo de cachorro que anda por essas ruas — respondo, num tom tranqüilizador. — Eles são muito bem-educados.

E é verdade. Estamos caminhando pelo território de maior renda per capita da região noroeste de Londres. Não há garotos pálidos de cabeças raspadas passeando com pit bulls por aqui. Não há apostas esportivas. Não há merendas industria­lizadas. Não há gravidez adolescente. Estamos no coração da terra dos banquetes.

É o primeiro dia de aula do semestre, e os padrões já decaíram. Caminhando pela calçada, as crianças complementam pedaços de torrada com punhados de cereais tirados de al­guns daqueles pacotes de sabores variados.

Minha visão está reduzida pela miopia a pinceladas extremamente impressionistas, e me lembro de um momento duas semanas atrás numa praia em Norfolk, quando fiquei parada diante do mar do Norte com um chapéu de lã enfiado até as sobrancelhas e um cachecol enrolado no pescoço até pouco abaixo dos olhos. Um vento leste, incomum para a época do ano, soprava em meu rosto, fazendo os olhos lacrimejarem.

Eu precisava ficar piscando para não permitir que a vista borrasse. Era como se eu estivesse olhando através de um pris­ma. Bastava focar o olhar numa gaivota ou em alguma pedra particularmente bonita, que a cena se partia num espectro de diferentes formas e cores. Ocorreu-me então que era exata­mente assim que eu me sentia em relação a mim mesma. De alguma forma, ao longo dos anos eu havia me fragmentado. Agora, diante da perspectiva de meu filho mais novo come­çar a frequentar a creche três manhãs por semana, está na hora de me reconstruir, mas não lembro mais como todas as peças se encaixam. Tem o Tom, as crianças, a minha família, os ami­gos, a escola, todos esses elementos diferentes, mas nenhum todo coerente. Nenhum fio ligando tudo. Em algum lugar no redemoinho doméstico, eu me perdi. Consigo ver de onde vim, mas não estou segura quanto a para onde estou indo. Tento me agarrar ao quadro maior, mas não consigo mais lembrar o que ele deve ser. Desisti do emprego que amava como pro­dutora de um telejornal oito anos atrás, quando descobri que jornadas de 13 horas e maternidade eram uma parceria ins­tável. Quem quer que tenha sugerido que trabalhar em tem­po integral e ter filhos significava ter tudo não era muito bom em matemática. Sempre havia algum dos lados no negativo. Incluindo nossas contas bancárias, porque não sobrava mui­to depois que pagávamos à babá. E, além disso, eu sentia muita falta de Sam.

O que eu deveria fazer aqui e agora, com o pátio da escola se aproximando, era pensar em algumas respostas padrão para aquelas bobagens amigáveis que marcam o início de um novo ano escolar. Algo resumido, porque a maioria das pessoas não está realmente interessada nos detalhes. "O verão foi difícil, culminando numa desastrosa viagem de férias a um acampa­mento em Norfolk, porque estamos com pouco dinheiro, durante a qual assumi meu espírito introspectivo atual, reavaliando áreas-chave da minha vida, incluindo — sem uma or­dem em particular, porque meu marido tem razão, eu não sei priorizar — minha decisão de parar de trabalhar depois que tivemos filhos, o estado do meu casamento e nossa falta de dinheiro", eu me vejo dizendo, imaginando as palavras e usando a mão direita para ilustrar a profundidade do meu sentimento. "Ah, e eu contei que meu marido quer que aluguemos a nos­sa casa e moremos com minha sogra durante um ano até nossa situação financeira melhorar?" As férias foram um divisor de águas, e ambos sabíamos disso. Mas as repercussões eram menos imediatamente evidentes.

— Mãe, mãe, você está me ouvindo? — pergunta Sam.

— Desculpe, eu estava sonhando acordada — respondo, e ele me pergunta se ele é como um cão-guia.

— Algo parecido — eu digo, olhando mais adiante na rua.

Localizo o contorno embaçado de um dos pais da escola caminhando em nossa direção. Ele está falando ao celular e passando os dedos pelos fartos cabelos escuros num gesto que me era familiar do ano letivo anterior. É o Pai Sexy Domesticado, com suas sensatas opiniões sobre o que constitui uma lancheira nutritiva e uma atração pelos cafés matinais das mães. Mas não são essas características que o fixam em minha mente. É a aparência dele e o jeito como ele se move. Algo muito mais primário. Na verdade, quanto menos ele fala, mais me atrai.

Mesmo a distância posso reconhecer sua forma. Nessa estranha justaposição de pensamentos aleatórios, de repente me ocorre que, ao aparecer, ele inadvertidamente se tornou par­te do quadro mais amplo em que eu estava pensando. Amal­diçoo a roupa que vesti rapidamente: calça de pijama de fla­nela por baixo de um casaco comprido e desengonçado, no que eu esperava que fosse passar por casual chic numa moda "pijama para sair". Mas é tarde demais para me esconder atrás das cercas vivas com meus filhos, de modo que confiro dis­farçadamente a maquiagem do dia anterior que eu não havia tirado no retrovisor externo de uma caminhonete 4x4.

Dou um salto quando o vidro automático desce e alguém se estica por cima do assento do passageiro para perguntar o que estou fazendo.


  • Meu Deus, você está parecendo um panda—diz a Mãe Gostosa N° 1, minha nêmesis em termos de estilo. Ela abre o porta-luvas, revelando conteúdos típicos de um spa, incluin­do meia garrafa de Moêt, uma vela Jo Malone e lenços de remoção de maquiagem.

  • Como você faz isso? — pergunto, limpando os olhos com gratidão. — Você tem sistemas de organização?

Ela parece intrigada.

  • Não, só empregados — responde.

  • Teve um bom verão? — pergunto.

  • Maravilhoso. Toscana, Cornuália. E você?

  • Ótimo — respondo, mas ela já está olhando para a rua, batucando no volante.

  • Preciso ir, senão vou me atrasar para minha aula de ashtanga. Aliás, você está vestindo flanela? Que prático.

O Pai Sexy Domesticado caminha lentamente pela rua em minha direção. Posso vê-lo acenando e não tenho escolha a não ser falar com ele. Então percebo que o outro braço está engessado. Ah, que felicidade, um óbvio tema de conversa.

  • Você quebrou o braço — digo, com um pouco de entusiasmo demais.

  • Sim — diz ele. — Caí de uma escada na casa de um amigo na Croácia.

Ele fica me olhando com expectativa. Então sorri, e ouço a mim mesma falando com uma estranha lentidão.

— Deve ter sido muito... relaxante.

Só que digo isso com um tom rouco que faz com que eu fale parecido com a apresentadora Mariella Frostrup.

O sorriso dele se fecha levemente. Aquilo não estava de acordo com o previsível padrão de gentilezas entre pais que ele estava esperando.

— O que pode haver de relaxante em quebrar um braço? Principalmente na Croácia?

Sam olha para mim, igualmente perplexo.



  • Ele tem razão, mãe.

  • Na verdade, Lucy, é muito... dolorido. — O Pai Sexy Domesticado está imitando minha voz. — E não acho que minha mulher concordaria que seja algo relaxante. Não ando sendo muito útil no momento. Não consigo fazer nada, digitar dói muito. — Ele sorri. De repente, penso nos encontros casuais antes do casamento e suas infinitas possibilidades, e imagens de uma vida anterior invadem meus pensamentos. Meias listradas na altura dos joelhos com os dedos separa­dos, walkmans da Sony, botinhas modernas. Lembro-me de ter comprado um disco do The Cure em Bristol de um garo­to que usava uma calça jeans skinny preta muito justa e um casaco de angorá e cheirava a óleo de patchuli. Lembro in­clusive da letra da maioria daquelas canções. Lembro-me de um voo para Berlim em que um homem me perguntou se eu queria ir para o hotel com ele e eu aceitei, e então a mulher dele se virou da poltrona da frente e sorriu. Lembro-me de estar apaixonada na universidade por um cara que nunca desfez as malas e tinha três calças jeans Levi's idênticas e três cami­sas brancas que revezava todos os dias. Tom o aprovaria. Por que aquelas lembranças ficaram comigo enquanto outras es­tão perdidas para sempre? Se é disso que me lembro agora, do que me lembrarei dentro de vinte anos?

A menção da super mulher do Pai Sexy Domesticado me traz de volta à realidade, porque nunca pensei nele no plural, e deixo minha expressão com um ar amigável, mas profissional.

  • E como está ela? Conseguiu descansar?

  • Ela nunca consegue fazer isso direito, tem muita energia. Escute, você quer tomar um café depois de deixar os meninos?

  • Ótimo — digo, tentando parecer contida diante daquela inesperada incursão em meus devaneios. Então noto que ele está olhando com ar desconfiado para meus pés.

  • Você está usando um pijama de flanela embaixo desse casaco? — ele pergunta. — Talvez seja melhor deixarmos o café para outra hora.




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