Adolescência: modernidade e pós-modernidade



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Capitulo 14




Adolescência: modernidade e pós-modernidade



Não sou nenhum Spinoza para fazer piruetas no ar


Tchekhov


Outro título possível...

A metamorfose ambulante de Pedrinho Skywalker em Gotham City



Enunciado....

O enunciado básico desta bricollage, escrita em um style um tanto pós-moderno, é que vivemos um período onde a sociedade e a cultura sofrem intensas mudanças e transformações de paradigmas e valores que incidem poderosamente na existência dos adolescentes, criando um gap generacional, entre os eles e os adultos. Este período é denominado por alguns autores como pós-modernidade.



Definição


A pós-modernidade é um conceito multifacetado que chama a nossa atenção para um conjunto de mudanças sociais e culturais profundas que estão acontecendo neste final do século XX em muitas sociedades “ avançadas “. Tudo está englobado: uma mudança tecnológica acelerada, envolvendo as telecomunicações e o poder da informática, alterações nas relações políticas, e o surgimento de movimentos sociais, especialmente os relacionados com aspectos étnicos e raciais, ecológicos e de competição entre os sexos. Mas a questão é ainda mais abrangente: estará a modernidade em si, como uma entidade sociocultural, desintegrando-se e levando consigo todo o suntuoso edifício da cosmovisão iluminista ?

David Lyon



Metamorfose ambulante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor

lhe tenho horror

lhe faço amor.

Raul Seixas, Metamorfose ambulante


- I -
A clínica do quotidiano nos permite constatar que, efetivamente, uma série de paradigmas e valores de nossa Sociedade, circunstâncias que se mantiveram relativamente estáveis no decurso de várias gerações que nos antecederam, estão sendo contestados, modificados e, mesmo, subistituidos por outros muito diferentes. Esta observação pode ser descrita como o “ advento “ da condição pós-moderna ( ou “ ... a lógica cultural do capitalismo tardio “, como descreve F. Jamelson ), ou seja, a etapa intermediária entre o “ esgotamento “ da modernidade e o período que a irá suceder e que não sabemos, exatamente, como será.
Na sociedade humana ( escrevem vários autores, como Bertrand Russel ) desde os seus primórdios, sempre foi assim: durante um certo espaço de tempo, às vezes, abrangendo alguns séculos, uma série de elementos sociais, econômicos e culturais permanecem , aparentemente, estáveis até que em um determinado momento, que poderá ocupar algumas gerações, ocorre uma “ ruptura “, surgindo momentos de instabilidade, incertezas e mudanças bruscas, e após uma nova etapa se estabelece. Foi assim, por exemplo, ao final do medievo, em torno dos séculos XV e XVI, quando a modernidade começou a se estruturar.
Uma metáfora que costumo utilizar para dar uma maior nitidez ao que escrevo ( valendo sempre lembrar, com Goethe, que “ ...a nitidez é uma conveniente distribuição de luz e sombra ... “, ou seja, que não pretendo “ explicar tudo “ ) é o movimento das placas tectonicas. Estas placas, que compõem a superfície terrestre, durante longos espaços de tempo , aparentemente ( embora estejam, na verdade, em constante movimento e produzindo um acúmulo de energia ), parecem estar em repouso, até que o acúmulo de energia produz movimentos perceptíveis a que denominamos terremotos e novas acomodações surgem então. Não esqueçamos que nosso continente sul-americano era unido à Africa ... Estas novas acomodações darão lugar a novos terremotos e assim sucessivamente, num movimento contínuo. Com o desenvolvimento da sociedade Humana acontece algo parecido: a Idade Média, como comentei antes, foi “ estável “ durante alguns séculos, ocorreu um “ terremoto “ durante algumas gerações, e se estabeleceu, então, a Idade Moderna.
É possível, pensam alguns autores, que estejamos vivendo um “ terremoto “ – a condição pós-moderna - , período de transição entre a modernidade e o que a irá suceder ... logo surge a pergunta sobre que fatores provocam essas “ mudanças “ ? Voltemos, por breves momentos e com uma lente de maior aumento, até à Idade Média, caracterizada, especialmente, pela estrutura feudal e por uma visão de mundo teológica. O desenvolvimento do comércio trazido pelas grandes navegações, o avanço do conhecimento científico sobre a interpretação teológica do mundo, o desenvolvimento das cidades e do comércio ( surgem os “ burgos “, as cidades, muitas vezes cidades-estado , e os “ burgueses “, uma nova classe social ), a invenção da imprensa ( a descoberta de J. Gutemberg – 1397/1468 - colocou o conhecimento obtido através dos livros e da Bíblia- a primeira Bíblia foi impressa em 1454 -, em especial, ao alcance de muitos, o que antes era restrito ao trabalho dos monges copistas e que permanecia na posse da Igreja, originando mudanças das quais o livro de Humberto Eco, O nome da rosa , nos relata magnificamente ), na esteira desse processo surge a Reforma Protestante e a Contra-reforma, enfim, um sem número de fatores sociais, econômicos e culturais se modificaram, Houve um esvaziamento do medievo nos séculos XV, XVI e XVII e o nascimento e o desenvolvimento da modernidade. A modernidade , que é representada, por exemplo, pelo ideário da Revolução Francesa de 1779 - liberdade, igualdade e fraternidade – propiciou o surgimento da revolução industrial, a noção de Estado Nacional , o respeito pelo cidadão e pelas leis constitucionais, uma ênfase sobre a “ razão “ e no conhecimento cientifico, o estabelecimento da “ família burguesa “, configurando uma visão de mundo ( explicitada por filósofos como Spinoza, Descartes, Kant e Comte, entre outros ) considerada como o Iluminismo, período das luzes, em oposição a agora chamada idade das trevas , a Idade Média.
A Revolução Industrial, por exemplo, consolidou a modernidade e artistas a descreveram com clareza. No plano religioso a Reforma desencadeada por Martim Lutero ( não esqueçamos que foi ele quem traduzindo e assim difundindo a Biblia, com a possibilidade oferecida pela invenção de Gutemberg, unificou o idioma Alemão ) representou uma transformação ao atingir a hegemonia da Igreja Católica e do papado romano, criando o cenário para o tema que Max Weber explora em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo.
Neste período um novo conceito de família, a família burguesa, surge, como tão bem descreve Ph. Ariés . A própria arquitetura doméstica se modifica, surgindo a idéia de privacidade e, por exemplo, os quartos de dormir , o que não existia, praticamente, até então: todos dormiam numa mesma peça, adultos, crianças e visitantes ocasionais, próximos ao local de preparo das refeições, espaço aquecido. O crescimento das cidades criou, também, a necessidade dos nomes-de-famíia, pois se nas pequenas aldeias todos se conheciam e a genealogia era sabida pela coletividade, na cidade era necessário nomear a família para dar identidade : o pescador passou a ter um nome de família e a se chamar Johan Fisherman... ou o emigrante portugues, vindo para o Brasil no século XVIII, chamado Manuel e habitante da pequena Vila dos Outeiros, região de outeiros – morros - no norte de Portugal, quase na Galícia, passou a ser chamado de Manuel Outeiral ... O “ al “ acrescido pela influência moura de quase 900 anos de domínio na península ibérica.
A passagem da Idade Média para a Idade Moderna não se realizou sem “ traumas “, mas sim através de uma “ turbulência “, às vezes fraturas bruscas e outras uma suave découpage, que envolveu, muitíssimas vezes, a violência: Nicolau Copérnico e Galileu Galilei são exemplos desses tempos de mudança, quando ao afirmarem a teoria heliocentrica, com os astros girando ao redor do sol, em oposição a crença da época de que todos os astros giravam ao redor da terra, foram execrados por determinação do status quo ou do establishment vigente ( uso expressões em idiomas diferentes para marcar o texto, um hipertexto, pois, como sabemos ou não, o latim foi o idioma da Idade Média, o francês da Idade Moderna e o inglês é o da Pós-modernidade ... ). As idéias destes matemáticos e astrônomos colocavam em risco os paradigmas e os valores da época e eles foram punidos, na verdade, na busca do poder em banir as novas idéias laicas e o espírito científico que eles representavam e que colidiam com um modelo de interpretação teológico da vida e do mundo ( Gleiser, 1997 ).


  • II –

W. Bion, psicanalista inglês, escreve sobre estes fenômenos sociais ao desenvolver os conceitos de mudança catastrófica ( que se superpõe ao que denominei de “ terremoto “ na metáfora geológica ) e do papel do místico . Como médico e psicanalista meu vértice de observação dos fatos é, naturalmente, limitado: a complexidade destas questões exige, na verdade, o concurso de várias áreas do conhecimento. Até agora me aventurei de maneira arrogante, entre outros, na sociologia e na filosofia, elementos fora de meu quotidiano médico, mas buscava preparar o caminho para poder escrever sobre minha prática, articulando conceitos e buscando, se tiver engenho e sorte para tanto, fazer uma razoável tessitura destes campos.


L. Grimberg ( Grimberg, 1973 ) tece considerações sobre a mudança catastrófica, se referindo ao campo psicanalítico, mas expressando idéias que se aplicam à sociedade como um todo:
Mudança catatrófica é uma expressão escolhida por Bion para assinalar uma conjunção constante de fatos, cuja realização pode encontrar-se em diversos campos; entre eles, a mente, o grupo, a sessão psicanalítica e a sociedade. Os fatos a que se refere a conjunção constante podem ser observados quando aparece uma idéia nova ( ... ) a idéia nova contém, para Bion,, uma força potencialmente disruptiva que violenta, em maior ou menor grau, a estrutura do campo em que se manifesta. Assim, um novo descobrimento violenta a estrutura de uma teoria pré-existente (... ) Referindo-se a fatos em particular, tal como acontecem nos pequenos grupos terapêuticos, a idéia nova expressada numa interpretação ou representada pela pessoa de um novo integrante, promove uma mudança na estrutura do grupo. Uma estrutura se transforma em outra através de momentos de desorganização, sofrimento e frustração; o crescimento estará em função dessas vicissitudes...
Pelo exposto, pensando com W. Bion, teremos que quando um conhecimento ( ou um fato novo surge ), ele altera e transforma a estrutura de uma Sociedade, que não consegue mais exercer uma função continente adequada para o que era considerado um conjunto de verdades ( paradigmas, valores, etc... ); nesse momento ocorre uma mudança catastrófica e uma nova estrutura se estabelece. Uma outra concepção importante que nos oferece W. Bion diz respeito ao que ele denomina o místico e a relação deste com o grupo. O místico como o representante grupal de uma nova idéia ou concepção.
Vejamos, novamente, o que escreve L. Grimberg.
O indivíduo excepcional pode ser descrito de diferentes maneiras; pode-se chamá-lo de gênio, místico ou messias. Bion utiliza, de preferência , o termo místico para referir-se aos indivíduos excepcionais em qualquer campo, seja o científico, o religioso, o artístico ou outro (...) O místico ou o gênio, portador de uma idéia nova é sempre disruptivo para o grupo (...) de fato, todo gênio, místico ou messias será criativo e niilista, ambas as coisas seguramente (...) desde que a origem de suas contribuições será seguramente destrutiva de certas leis, convenções, cultura ou coerência de algum grupo...
Sugiro, seguindo essa linha de pensamento, que os adolescentes exercem ao longo de muitos momentos históricos o papel do místico, promovendo mudanças catastróficas e fazendo, assim, andar o carrossel da saga humana, a evolução de nossa sociedade. W. Bion, inclusive, postulou em uma palestra que adolescência é um exemplo de turbulência emocional, que ocorre quando uma criança que parecia calma, tranqüila, comportada e dócil se torna agitada, contestadora e perturbadora. Em um dos capítulos deste livro descrevi como os adolescentes, tanto por motivos internos ( buscando, por exemplo, externalizar ativamente na transformação social os processos internos de transformação corporal que sofrem passivamente, realizando a transformação do passivo em ativo, como sugere S. Freud ao descrever o par antitético passividade-atividade, ou na externalização social da rivalidade resultante da re-edição edípica nesta etapa) e/ou externos ( sentido crítico social aguçado ao alcançar níveis abstratos de pensamento, ausência de compromissos sociais como adultos, pais ou profissionais, etc. ) é, historicamente, um dos principais agentes de transformação social..


  • III –


Embora utilize, obviamente, referenciais teóricos, quero dirigir minhas idéias pela clínica e pelo quotidiano de minha prática, que representa mais de três décadas de atividade psiquiátrica e clínica com crianças, adolescentes e suas famílias. Não tenho o intento de estar construindo um paper ou ser um scholar, mas sim o de estar buscando interlocutores para discutir minhas idéias, ou a síntese de um conjunto de idéias que sou capaz de realizar hoje . Procuro também uma linguagem, tanto quanto possível, que seja comum, distante do jargão técnico habitual : se for possível, com esta linguagem com a qual nos relacionamos no dia-a-dia e tão ao gosto de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico. Vale citar, a propósito, um filósofo fundamental para a cultura contemporânea e, particularmente, para a pós-modernidade que foi F. Nietzsche ( Apud Souza, 1989 ).
Quem sabe o que é profundo, busca a clareza; quem deseja parecer profundo para a multidão, procura ser obscuro, pois a multidão toma por profundo aquilo que não vê: ela é medrosa, hesita em entrar na água.
Retomemos alguns conceitos que nos serão úteis, embora referidos mais profundamente nos capítulos iniciais. É bem conhecido que a adolescência é um período evolutivo onde transformações bio-psico-sociais acontecem, determinando um momento de passagem do conhecido mundo da infância ao tão desejado e temido mundo adulto. A adolescência é caracterizada por inúmeros elementos, dos quais quero referir alguns: (1) a perda do corpo infantil, dos pais da infância e da identidade infantil ; (2) da passagem do mundo endogamico ao universo exogamico ; (3) da construção de novas identificações assim como de desidentificações; (4) da resignificação das “ narrativas “ de self; (5) da reelaboração do narcisismo; (6) da reorganização de novas estruturas e estados de mente; (7) da aquisição de novos níveis operacionais de pensamento ( do concreto ao abstrato ) e de novos níveis de comunicação ( do não verbal ao verbal ); (8) da apropriação do novo corpo; (9) do recrudescimento das fantasias edípicas; ( 10) vivência de uma nova etapa do processo de separação-individuação; (11) da construção de novos vínculos com os pais, caracterizados por menor dependência e idealização; ( 12 ) da primazia da zona erótica genital; (13) da busca de um objeto amoroso; (14) da definição da escolha profissional ( 15) do predomínio do ideal de ego sobre o ego ideal ; enfim, de muitos outros aspectos que seria possível seguir citando, mas, em síntese, da organização da identidade em seus aspectos sociais, temporais e espaciais ( Aberastury & Knobel, 1971; Grimberg, 1971; Outeiral, 1982; 1992; 2000 ). Em vários trabalhos anteriores enfoquei diferentes aspectos deste momento evolutivo. As transformações da adolescência ocasionam flutuações que se caracterizam por momentos progressivos – onde predomina, entre outros aspectos, o processo secundário, o pensamento abstrato e a comunicação verbal – e momentos regressivos – com a emergência do processo primário, da concretização defensiva do pensamento e a retomada de níveis não verbais de comunicação.
É necessário, também, considerar que, da mesma forma com que o conceito de criança como indivíduo em desenvolvimento e com necessidades específicas surge em torno do século XVIII ( Ariés, 1975 ), o conceito de adolescência como período evolutivo se organiza no século XX, entre as duas grandes guerras mundiais ( 1914-18 e 1939-45 ). Assim, adolescência é um fenômeno bastante recente e que requer, ainda, muitas teorizações. Em capítulos anteriores este aspecto foi abordado com mais detalhes.
Alguns autores tem desenvolvido teses referindo que o conceito de criança se modifica de maneira intensa na cultura contemporânea. O Caderno Mais, da Folha de São Paulo ( 24 de julho de 1994 ), apresenta ensaios neste sentido e o editor escreveu o seguinte:
O reino encantado chega ao fim. A criança vira paródia dos devaneios adultos na era pós-industrial. A infância talvez tenha sido a mais duradoura das utopias concebidas pela modernidade. Como tantos outros ideais imaginados nos últimos 200 anos, o do mundo maravilhoso das crianças também entra em crise na era pós-industrial e pós-moderna. O aumento da violência contra crianças e o da criminalidade infantil, o abandono e o sacrifício a que estão sujeitas no centro e na periferia do capitalismo, o excesso de produtos tecnológicos destinados ao seu consumo não fazem hoje mais o que explicitar o outro lado deste sonho: uma criatura perversa do próprio mundo adulto.
Neste mesmo Caderno Mais, Alfredo Jerusalinski e Eda Tavares dão o significativo título a seu artigo: Era uma vez ... já não é mais. Entre uma mãe dispersiva e um pai desqualificado, a criança vai se introduzindo no mundo virtual.
A observação clínica me permite conjecturar que o período de latência, essencial ao desenvolvimento e tal como descrito por Sigmund Freud, se abrevia , invadido por uma adolescência cada vez mais precoce. Este período de latência, corresponde, de certa maneira, nas teorias do desenvolvimento à idade escolar . Laplanche e Pontalis, em seu clássico Vocabulário da Psicanálise, descrevem este período de latência nos relembrando de sua importância no desenvolvimento psíquico.
Período que vai do declínio da sexualidade infantil ( aos cinco ou seis anos ) até o início da puberdade e que marca uma pausa na evolução da sexualidade. Observa-se nele, desse ponto de vista, uma diminuição das atividades sexuais, a dessexualização das relações de objeto e dos sentimentos ( e, especialmente, a predominância da ternura sobre os desejos sexuais), o aparecimento de sentimentos como o pudor ou a repugnância e de aspirações morais e estéticas. Segundo a teoria psicanalítica, o período de latência tem sua origem no declínio do complexo de Édipo; corresponde a uma intensificação do recalque – que tem como efeito uma amnésia sobre os primeiros anos -, a uma transformação dos investimentos de objeto em identificações com os pais e a um desenvolvimento das sublimações.
Considerando que minha conjectura anterior tenha algum sentido, poderemos imaginar o que representa a excessiva exposição à sexualidade e ao erotismo genital a que são submetidas as crianças, numa forma que configura um abuso, através da cultura; me refiro por exemplo, aos meios de comunicação e a responsabilidade da família e da sociedade neste processo . A abreviação do período de latência resulta em dificuldades que repercurtirão, é evidente, em vários aspectos da estruturação do psiquismo, interferindo no desenvolvimento normal, tanto na área da conduta como nos processos afetivos e cognitivos. Num contraponto à “ invenção “ da infância pela modernidade temos, hoje, a “ des-invenção “ da infância pela pós-modernidade.
Não encontramos mais, com a mesma incidência, na clínica contemporânea, como escrevem diversos autores ( Outeiral, 2000 ), as clássicas histerias estudadas por S. Freud mas, em seu lugar, detectamos quadros correlatos da “ pós-modernidade “, como os transtornos narcísicos, síndromes borderline ( que Ch. Bollas em seu livro Hysteria define como a expressão atual das “ antigas “ histerias ...), tendências anti-sociais, fobias, transtorno de pânico, etc.... Se considerarmos os transtornos pela “ abreviação “ da infância como “ acontecimentos clínicos pós-modernos “, poderemos pensar que a velocidade e a fragmentação, junto com outros elementos etiológicos, configurariam como uma síndrome do zapping,” a dificuldade de concentração e a necessidade de ficar passando de um canal ao outro de televisão “, alguns dos transtornos vinculados ao déficit de atenção e à hiperatividade...

  • IV –

Quero, agora, convidar o leitor a compartir algumas observações, resultantes de três décadas de trabalho clínico e de observações do quotidiano. Estas observações se dirigem a transformações sofridas pela família e pelos adolescentes nestes trinta últimos anos. Recordemos a hipótese da metáfora geológica, a de que estamos vivendo o “ terremoto “ e que este acontecimento envolve, habitualmente, duas ou três gerações , para desenvolvermos nossas idéias...


Vejamos as transformações sofridas pela família, depois de muitas gerações com poucas mudanças e uma longa ( talvez alguns séculos ) estabilidade.
(a) na década de setenta as questões familiares nos conduziam a refletir sobre a passagem da família patriarcal para a família nuclear. Devemos considerar nesta mudança múltiplos elementos, dos quais quero referir dois: (1) o crescimento rápido e desordenado dos centros urbanos às custas de um intenso fluxo migratório vindo das zonas rurais ( na década de quarenta, no século XX, o Censo Demográfico do IBGE revelava que cêrca de 30 % da população vivia nas grandes cidades, enquanto 70% habitava as zonas rurais e pequenas cidades , situação que se inverte na passagem para o século XXI quando 80% da população habita nos centros urbanos maiores e apenas 20% nas zonas rurais ) e (2) o ingresso da mulher, a partir dos anos sessenta especialmente ( legalmente até 1962 a mulher necessitava da aprovação do marido para ter atividades fora do lar ), no mercado de trabalho. A família patriarcal, contituida por grupos familiares de vários graus de parentesco ( avós, tios, primos, etc ) , habitando espaços próximos e, às vezes, participantes de uma mesma atividade produtiva, oferecia à criança e ao adolescente uma rede familiar de proteção, no caso de dificuldades por parte dos pais, assim como um número maior de modelos para identificação ( mais uniformes, coerentes e estáveis e pertencentes a uma mesma cultura ) . Este grupo familiar é próprio das zonas rurais e dos pequenos vilarejos do interior. Com a rápida migração para os grandes centros urbanos passamos a encontrar a família nuclear, constituida por um casal ( ou somente pela mãe, em pelo menos um terço das famílias segundo o IBGE ) e um ou dois filhos, longe do grupo familiar de origem, anônimos, isolados e solitários na multidão das grandes cidades e desenraizados de suas culturas. Exatamente nesta década observamos que crianças e adolescentes passam a chamar de tios os adultos em geral e os professores em particular . Estes novos tios penso que são assim denominados por uma nostalgia pelo grupo familiar mais amplo e protetor: crianças e adolescentes ( e seus pais ) em busca da família perdida. Paulo Freire não concordava com esta denominação, mas penso que, se nos anos setenta, os alunos chamavam professores de tios, hoje os professores são convocados inclusive a exercer funções maternas e paternas.
(b) na década de oitenta as questões diziam respeito às novas configurações familiares: famílias reconsitituidas, com filhos de casamentos anteriores e do novo casamento, tendo este fato social o reconhecimento com a lei do divórcio. Numa sala de aula, nos anos cinquenta, poucas crianças tinham os pais separados, enquanto hoje um grande número vive esta situação.
(c ) na última década temos a possibilidade de uma mulher ter um filho sem relações genitais com um homem, através da fertilização assistida: o desenvolvimento tecnológico nos aporta novas estruturas familiares ... Não uma “ produção independente “, mas uma gestação e um bebê sem ter acontecido uma relação genital e “ o pai “ apenas um “ desconhecido doador de esperma “... Algumas pesquisas já especulam com a possibilidade de uma criança ser gerada apenas com células da mãe.
A mulher obtém uma definitiva inserção no mercado de trabalho e o tempo com os filhos se torna menor do que nas gerações anteriores. Creches, berçários e as escolas infantís se tornam necessárias para compensar a ausência materna, e nem sempre são locais adequados e às vezes a família não tem nem acesso a esses recursos. A função paterna é cada vez mais inexistente nos grandes centros urbanos. É interessante ler o que Zuenir Ventura escreve em seu livro Cidade Partida sobre esta questão. O autor descreve o Rio de Janeiro de hoje e suas dificuldades e comenta o que segue, a propósito de um baile funk, onde duas “ galeras “ começavam a brigar... Ari da Ilha, que estava presente, é um homem velho e doente, mas um respeitado líder da comunidade, e intervém da seguinte maneira para “ acalmar “ os ânimos ...
Ari da Ilha pegou o microfone, mandou parar o som e começou a falar. O discurso a princípio foi todo de persuasão.

-Nós estamos aqui para nos divertir. É um baile de paz. Vocês têm que dar um bom exemplo. Esse baile não pode ter tumulto.

Como um pai enérgico daqueles 2 mil jovens, foi aos poucos engrossando a mensagem, mas mantendo o bom humor.

-Vocês conhecem nosso regulamento, não conhecem ? Quem fizer coisa errada leva palmada na bunda.

Ficou claro até para mim que ele estava usando um eufemismo. Sem dúvida, palmada queria dizer palmatória, um castigo muito usado em Lucas e que poderia até quebrar mãos.

A ordem definitiva veio no final da fala:

- E vamos acabar com esse negócio de trenzinho. Isso dá confusão.
O que aconteceu ?
Ari da Ilha, velho e doente, mas respeitado, exerceu uma função paterna e restabeleceu a ordem na festa !
Agora vejamos as mudanças que observo nos adolescentes, período que a Organização Mundial da Saúde situa entre dez e vinte anos. Revisando os conceitos teremos que puberdade corresponde aos processos biológicos e adolescência a fenômenos psico-sociais. Nos anos setenta a criança se tornava púbere e após adolescia; nos anos oitenta puberdade e adolescência ocorrendo concomitantemente e na última década observo conduta adolescente ( namoro, contestação, etc. ) em indivíduos ainda não púberes, antes dos dez anos, com sete ou oito anos. Penso, inclusive, que o conceito de infância, como momento evolutivo e com necessidades específicas, conceito estabelecido com o Iluminismo, sofre o risco de sofrer profundas transformações: alguém terá escrito, em algum lugar, sobre o risco de termos o fim da infância na cultura contemporânea.
Existem, é necessário ressaltar, ainda outros diferenciais, como o ambiente socio-econômico e cultural onde o adolescente se desenvolve. Nas classes sociais menos favorecidas o processo adolescente começa e termina mais cedo, enquanto que nas classes sociais mais favorecidas acontece também mais cedo, mas termina bem mais tarde.
Em décadas anteriores a criança ( como nas sociedades primitivas ), após breves rituais de inciação se tornava um adulto ( Outeiral, 1998 ) . Hoje a adolescência se alonga cada vez mais, ocorrendo, inclusive, a adultescência, termo, veremos adiante, que designa o ideal de ser adolescente para sempre, com adultos tendo condutas adolescentes e faltando padrões adultos para os “ verdadeiros “ adolescentes se identificarem.
Concluindo, após várias gerações onde paradigmas e valores permaneciam estáveis temos, hoje, uma sociedade em mudança, com rápidas transformações, numa alteração, por vezes, frenética ou maníaca, onde a incerteza e a dúvida, nas famílias e nas escolas, são evidentes.


  • V –

Considerando que este conjunto de idéias seja verdadeiro, quais serão os paradigmas ou valores que estão sendo contestados, modificados ou substituídos por outros ?


Como adultos “ modernos “ ( pais, professores, etc. ) e adolescentes “ pós-modernos “ se relacionam ?
Como lidar com, por exemplo, a circunstância de que a globalização , pela facilidade e rapidez dos meios de comunicação, cria desejos e uma lógica cultural própria dos países com um desenvolvimento capitalista avançado em crianças e adolescentes de um país que, como o nosso, nem ingressou plenamente na modernidade ? Como, então, nós , adultos “ antigos “, posto que “ modernos “, poderemos entender e nos comunicar com adolescentes ( inclusive os de periferia ) que, por hipótese, querem um tênis de marca norteamericana e um boné do The Lakers usados por adolescentes classe média alta de Boston e Chicago ? A globalização dissemina, em espaços sociais e culturais muito diferentes , o mesmo desejo...
É difícil encontrarmos nos adolescentes de hoje uma continuidade com as experiências adolescentes dos pais: por exemplo, o Pedrinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato, típico adolescente da modernidade, honesto, respeitoso com os mais velhos, nacionalista, integrado na família, reflexivo e preocupado com os fatos sociais e da natureza, etc. O que encontramos, brinco, é um Pedrinho Skywalker , mistura complexa e confusa do Pedrinho do Monteiro Lobato e Luke Skywalker , o adolescente do seriado pós-moderno Guerra nas Estrelas de G. Lucas.
São muitas as perguntas e eu não tenho respostas: primeiro porque, é obvio, não tenho as respostas e se, por acaso, as tivesse , não mataria uma boa pergunta com uma resposta, como o filósofo Blanchot ensinou ( A resposta é a desgraça da pergunta ). Procuro, pois, produzir inquietação e dúvida, reflexão e pensamento. Novamente quero buscar a ajuda de duas citações de F. Nietzsche.
O que enlouquece é a certeza, não a dúvida.
É do caos que nasce uma estrela.
Como bons “ modernos “ e “ iluministas “, nascidos em um país que tem como dístico do pavilhão nacional a expressão Ordem e Progresso, vinda do positivismo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, obra de Augusto Comte, acreditamos que a dúvida e o caos são indesejáveis e com isto perdemos a chance de descobrir que é também na ausência, na falta, na dúvida e no caos que surge o pensamento e a razão e não só na ordem e na estabilidade.



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