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Adoramos Ler:

IDORU

William Gibson


Tradução de Leila de Souza Mendes
“Para Claire”




Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância.

A generosidade é a marca da distribuição, portanto:


Distribua este livro livremente!
Se você tirar algum proveito desta obra, considere seriamente a possibilidade de adquirir o original.
Incentive o autor e a publicação de novas obras!

“Para os Mercenários do mundo artistico”


Agradecimentos


Sogho Ishii, o diretor japonês, me apresentou à Cidade Murada de Kowloon por meio das fotografias de Ryuji Miyamoto. Foi Ishii-san quem teve a idéia de fazermos um filme de ficção científica lá. Nunca o fizemos, mas a Cidade Murada ficou me assombrando, embora tudo que eu sabia sobre ela foi adquirido pelas imagens assombrosas de Miyamoto, que mais tarde vieram a dar a textura para a Ponte, em minha novela Virtual Light.

O arquiteto Ken Vineberg chamou a minha atenção para um artigo a respeito da Cidade Murada na revista Arcbitectural Review, onde entrei em contato pela primeira vez com a City of Darkness, o esplêndido registro reunido por Greg Girard e Ian Lambrot (Watermark, Londres, 1993). De Londres, John Jarrold gentilmente providenciou para que eu recebesse uma cópia.

Tudo o que sei sobre o tema de cortar dedos, eu devo às memórias criminais de Mark Brandon "Chopper" Read (Chopper from the Inside, Sly Ink, Austrália, 1991). O sr. Read é muito mais assustador do que Blackwell, e tem um número ainda menor de orelhas.



Speed Tribes, de Karl Taro Greenfeld (HarperCollins, Nova York, 1994), alimentou profusamente meus delírios sobre o jet lag de Laney.

Stephen P. Brown (P de plausibilidade) deu uma de babá do processo de produção do livro por muitos meses, fazendo comentários diários, às vezes mais freqüentemente ainda, e sempre com muita paciência, sobre a desconcertante profusão de fragmentos desconexos que eu lhe mandava por fax e que, de alguma forma, se esperava que ele interpretasse como "progresso". Seu encorajamento constante e paciência aparentemente infinita foram absolutamente essenciais para a feitura deste livro.

Meus editores, de ambos os lados do Atlântico, também demonstraram enorme paciência, e eu agradeço.


  1. DEATH CUBE K

Depois de sair do Slitscan, Laney soube de outro emprego por Rydell, que fazia a segurança noturna no Chateau. Rydell era um cara grande e quieto do Tennessee, com um sorriso forçado, tímido e triste, óculos escuros baratos e um walkie-talkie permanentemente enfiado numa orelha.

- Paragon-Asia Dataflow - disse Rydell, lá pelas quatro da manhã, os dois sentados num par de enormes poltronas velhas. As vigas de concreto no teto foram pintadas à mão, de modo a lembrar vagamente carvalho descolorado. As poltronas, como o resto da mobília no saguão do Chateau, eram tão grandes que faziam com que todos que se sentavam nelas parecessem ser de outra escala, menores.

- É mesmo? - perguntou Laney, mantendo a farsa de que alguém como Rydell fosse saber onde ele ainda poderia encontrar trabalho.

- Tóquio, Japão - disse Rydell, e tomou seu latte gelado por um canudo de plástico. - Um cara que conheci em São Francisco no ano passado. Yamazaki. Trabalha pra eles. Disse que estão precisando de um internauta profissional.

Internauta. Laney, que gostava de ver a si mesmo como pesquisador, reprimiu um suspiro. - Por empreitada?

- Acho que sim. Ele não disse.

- Acho que eu não gostaria de morar em Tóquio.

Rydell usou o canudo para mexer a espuma e o gelo que sobraram no fundo do copo de plástico, como se tivesse a esperança de encontrar um brinde surpresa - Ele não disse que era para morar lá. - Levantou os olhos. - Já esteve em Tóquio?

- Não.


- Deve ser um lugar interessante, depois do terremoto e tudo. - O walkie-talkie estalou e sussurrou. - Tenho que sair e checar o portão perto das cabanas agora. Quer vir?

- Não - disse Laney. - Obrigado.

Rydell se levantou, esticando automaticamente os amassados na calça cáqui do uniforme. Ele estava usando um cinto trançado de náilon preto com vários estojos dependurados, todos pretos, uma camisa branca de mangas curtas e uma gravata preta peculiarmente imóvel. - Vou deixar o telefone no seu escaninho - disse ele.

Laney ficou vendo o segurança cruzar o piso de cerâmica e os vários tapetes e sumir depois dos painéis apagados do balcão da recepção. Pelo que deduzira, em outros tempos ele fizera alguma coisa num canal a cabo. Cara legal. Perdedor.

Laney ficou lá sentado até a aurora vir esgueirando-se pelas janelas altas e arqueadas, e até que o som dos talheres de Taiwan pudesse ser ouvido, suave, vindo do salão de café da manhã às escuras. Vozes de imigrantes, em algum dialeto das estepes russas que os grandes Khans poderiam muito bem ter entendido. Ecos despertaram do piso de cerâmica, das vigas altas sobreviventes de uma era que deve ter visto o advento de tipos como Laney ou seus predecessores, sua ecologia de notoriedade e a terrível e inviolável ordem daquela cadeia alimentar.

* * *


Rydell deixou uma folha de papel timbrado do Chateau dobrada no escaninho de Laney. Um número de Tóquio. Laney a encontrou na tarde seguinte, junto com uma estimativa atualizada de sua dívida enviada pelos advogados. Levou as duas para o quarto, que não mais podia nem sequer fingir que seria pago.

* * *


Uma semana mais tarde ele estava em Tóquio, seu rosto refletido no espelho de veios dourados do elevador, indo para o terceiro andar do agressivamente anônimo Edifício O My Golly. Indo ao Death Cube K, aparentemente um bar temático sobre Franz Kafka.

Saiu do elevador para um espaço amplo, anunciado em metal gravado a ácido como A Metamorfose. Onde assalariados de camisas brancas, havendo tirado seus paletós, afrouxado suas gravatas pretas e sentado num balcão de aço artisticamente enferrujado, bebiam. Os espaldares altos das cadeiras moldados a partir de alguma resina marrom quitinosa. Mandíbulas insetóides curvavam-se sobre as cabeças dos clientes como segadeiras.

Avançou para dentro da luz marrom, um murmúrio baixo de conversa. Não entendia japonês. As paredes, desigualmente transparentes, repetiam um motivo de élitros e abdomens bulbosos, membros finos marrons dobrados a intervalos regulares. Aumentou o passo na direção de uma escada em curva moldada para se parecer com uma lustrosa carapaça marrom.

Os olhos de prostitutas russas o seguiram de mesas em frente ao balcão do bar, apáticos e artificiais como de bonecas àquela luz de barata. As Natashas estavam por toda a parte, operárias despachadas de Vladivostok pelo Kombinat. Cirurgia plástica de rotina emprestava-lhes uma desgraciosa beleza de linha de montagem. Barbies eslavas. Uma operação mais simples implantara um dispositivo de rastreamento para o proveito de seus manipuladores.

A escada dava na Colônia Penal, uma disco, vazia a esta hora, pulsos de silenciosa luz vermelha marcando os passos de Laney pelo salão de dança. Um tipo de máquina estava dependurada no teto. Cada um de seus braços articulados, que sugeriam equipamento antigo de dentista, tinham pontas afiadas de aço. Penas de escrever, pensou ele, vagamente lembrando-se da história de Kafka. Sentença de culpa, gravada na carne das costas do condenado. Encolheu-se com a lembrança de olhos voltados para cima sem enxergar. Afastou esse pensamento. Seguiu em frente.

Uma segunda escada, estreita, mais íngreme, e entrou no Processo, de teto baixo e escuro. Paredes da cor de antracito. Pequenas chamas tremeluziam por trás de vidro azul. Hesitou, com cegueira noturna e jet lag.



- Colin Laney, não é?

Australiano. Enorme. Atrás de uma mesinha, ombros caídos como os de um urso. Algo estranho com o feitio de sua cabeça raspada. E outra figura, muito menor, sentada. Japonês, numa camisa xadrez de manga comprida abotoada até o colarinho grande demais. Piscando para Laney por trás de lentes redondas.

- Sente-se, sr. Laney - disse o grandão.

E Laney viu que a orelha esquerda dele estava faltando, tosada, só tendo

sobrado um toco retorcido.

* * *


Quando Laney trabalhava para o Slitscan, sua supervisora era Kathy Torrance. Loura das mais pálidas. Com tamanha palidez que chegava ao ponto de ser translúcida, alguns ângulos de incidência de luz sugeriam não sangue, mas algum fluido do tom de palha no verão. Em sua coxa esquerda, a estampa em azul-índigo puro de algo torcido e farpado, um pictoglifo extravagantemente primitivo. Visível todo sábado, quando ela tinha o hábito de ir trabalhar de shorts.

Reclamava, sempre, que a essência da notoriedade estava batida demais. Desgastada, inferiu Laney, por gerações de colegas dela.

Apoiou os pés na aba de uma hotdesk. Usava meticulosa reprodução em tamanho menor de botas de atacante, afiveladas no peito do pé e fortemente amarradas nos tornozelos. Ele olhou para as pernas de Kathy, a extensão de carne dura que ia do remate das meias de lã até a fímbria lixada dos jeans cortados. A tatuagem parecia algo de outro planeta, sinal ou mensagem marcada a fogo das profundezas do espaço, ali deixada para ser interpretada pela humanidade.

Laney perguntou o que ela queria dizer. Kathy tirou um palito de dente sabor menta da embalagem. Olhos que ele supunha serem cinza encararam-no por detrás de lentes de contato cor de hortelã.

- Ninguém mais é realmente famoso, Laney. Não percebeu?

- Não.


- Realmente famoso. Não sobrou muita fama, não como antigamente. Não o suficiente para todo mundo.

- Como antigamente?

- Nós somos a mídia, Laney. Transformamos esses panacas em celebridades. É um esquema de toma-lá-dá-cá. Eles vêm até nós para serem inventados. - As travas de Vibran bateram com um baque seco na hotdesk. Recolheu os pés, calcanhares contra os quadris de brim, joelhos brancos ocultando a boca. Equilibrada no pedestal da cadeira sueca articulada da hotdesk.

- Bem - disse Laney, voltando para sua tela -, isso também é fama, não?

- Mas é de verdade? Ele a encarou.

- Descobrimos como fazer dinheiro a partir dessa coisa - disse ela. -Nossa própria moeda. Bem, fizemos dinheiro demais; até o público sabe. Os índices de audiência mostram isso.

Laney assentiu, desejando que ela o deixasse trabalhar.

- Exceto - disse Kathy, separando os joelhos para que ele pudesse vê-la dizendo isso - quando decidimos destruir um deles.

Por trás dela, por trás da espiral anodizada da Gaiola, além da estrutura retangular de vidro que filtrava qualquer vestígio de poluição, o céu por sobre Burbank era perfeitamente inexpressivo, como um chip de tinta azul celeste provido pelo fornecedor do universo.

* * *

A orelha esquerda do sujeito era debruada de tecido rosa, suave como cera. Laney se perguntou por que não houvera nenhuma tentativa de reconstrução.



- Para que eu me lembre - disse ele, lendo os olhos de Laney.

- Lembre do quê?

- De não me esquecer. Sente-se.

Laney sentou-se em uma coisa que só vagamente sugeria7 uma cadeira, uma estrutura delgada de hastes de uma liga metálica preta e Hexcel laminado. A mesa era redonda e do tamanho aproximado de um volante. Uma chama votiva lambia o ar por trás do vidro azul. O japonês com a camisa xadrez e óculos de aro de metal piscava furiosamente. Laney observou o sujeito corpulento se acomodar, outra daquela coisa parecida com cadeira perdida por baixo de um corpanzil de lutador de sumo, que parecia ser totalmente feito de músculos.

- Já passou o efeito do jet lag?

- Tomei uns comprimidos. - Lembrou o silêncio do transporte supersônico, sua ausência de movimento aparente.

- Comprimidos - disse o homem. - O hotel é adequado?

- E - disse Laney. - Estou pronto para a entrevista.

- Muito bem - vigorosamente esfregando o rosto com mãos bastante marcadas por cicatrizes. Abaixou as mãos e olhou espantado para Laney, como se o visse pela primeira vez. Laney, evitando aquele olhar, observou o seu traje, um tipo de roupa de ginástica de nanoporo, feita para ficar folgada num homem menor mas ainda assim bem grande. De nenhuma cor em particular na escuridão do Processo. Aberta do pescoço até o esterno. Totalmente esticada por envolver toda aquela massa anormal. Pele exposta marcada e cruzada por um mapa de cicatrizes, desnorteantes em sua variedade de feitios e texturas. - Bem, então?

Laney levantou os olhos das cicatrizes. - Estou aqui para uma entrevista.

- Está, é?

- É você o entrevistador?

- Entrevistador? - O trejeito ambíguo do rosto do cara revelou uma óbvia prótese dental.

Laney virou-se para o japonês de óculos redondos. - Colin Laney.

- Shinya Yamazaki - disse ele, estendendo a mão. Cumprimentaram-se.

- Falamos ao telefone.

- É você que vai fazer a entrevista?

Uma azáfama de piscar de olhos. - Não, desculpe - disse ele. E, então:

- Sou um estudioso da sociologia existencial.

- Não entendi - disse Laney. Os outros dois não falaram nada. Shinya Yamazaki parecia embaraçado. O homem de uma orelha só fechou a cara.

- Você é australiano - disse Laney para o homem de uma orelha só.

- Da Tasmânia - corrigiu ele. - Tomamos o partido do Sul durante os Distúrbios.

- Vamos começar de novo - sugeriu Laney. - Paragon-Asia Dataflow. Vocês são eles?

- Veadinho persistente.

- Ossos do ofício - disse Laney. - Quer dizer, profissionalmente.

- Está certo. - O sujeito levantou as sobrancelhas, uma delas cortada por um cordão rosa retorcido de tecido de cicatriz. - Rez, então. O que você acha dele?

- Está falando do astro do rock? - perguntou Laney, após lutar com um problema básico de contexto.

Assentiu com a cabeça. O homem olhou para Laney com a maior seriedade.

- Da Lo/Rez? A banda? - Meio irlandês, meio chinês. Nariz quebrado, nunca consertado. Olhos verdes amendoados.

- O que eu acho dele?

No esquema de coisas de Kathy Torrance, havia um desdém especial reservado para o cantor. Ela o via como um fóssil vivo, um sobrevivente importuno de uma era anterior, menos evoluída. Ele era ao mesmo tempo maciça e insignificativamente famoso, dizia ela, da mesma forma que era maciça e insignificativamente rico. Kathy pensava a notoriedade como um fluido sutil, um elemento universal, como o flogisto dos antigos, algo disperso uniformemente no momento da criação por todo o universo, mas com tendência a aglutinar-se, sob condições específicas, em torno de certos indivíduos e suas carreiras. Rez, na opinião de Kathy, havia simplesmente durado demais. Monstruosamente demais. Ele estava afetando a unidade de sua teoria. Estava desafiando a ordem correta da cadeia alimentar. Talvez não houvesse nada grande o suficiente para comê-lo, nem mesmo o Slitscan. E enquanto Lo/Rez, a banda, ainda lançasse produtos numa base irritante -mente regular, numa variedade de mídias, o cantor teimosamente se recusava a destruir-se, matar alguém, tornar-se ativista político, admitir um interessante problema de uso de drogas ou algum hábito sexual misterioso -de fato, a fazer qualquer coisa digna de um segmento de abertura no Slitscan. Ele brilhava, embotadamente talvez, mas firmemente, fora do alcance de Kathy Torrance. O que era, Laney sempre supusera, a verdadeira razão dela odiá-lo tanto.

- Bem - disse Laney, após pensar um pouco, e sentindo uma peculiar compulsão de tentar dar uma resposta verdadeira. - Lembro que comprei o primeiro disco deles. Quando foi lançado.

- E o nome do disco? - O homem de uma orelha só ficou ainda mais sério.

- Lo Rez Skyline - disse Laney, grato pelo minúsculo evento sináptico que lhe permitira lembrar. - Mas não saberia dizer quantos outros discos lançaram depois disso.

- Vinte e seis, sem contar as compilações - disse o sr. Yamazaki, ajeitando os óculos.

Laney podia sentir os comprimidos que havia tomado, aqueles que supostamente amorteciam os efeitos do jet lag, como andaime famacológico em decomposição sob seus pés. As paredes do Processo/pareciam ficar mais próximas.

- Se você não vai me dizer do que se trata - disse ele/para o homem de uma orelha só -, vou voltar para o hotel. Estou cansado.

- Keith Alan Blackwell - e estendeu a mão. Laney deixou que sua mão fosse brevemente sacudida. As palmas da mão de Alan, pareciam equipamento de ginástica. - Keithy. Vamos tomar umas bebidas e bater um papo.

- Primeiro você me diz se são ou não da Paragon-Asia - sugeriu Laney.

- A firma em questão é um par de linhas de código numa máquina, dentro de uma sala dos fundos na Lygon Street - disse Blackwell. - Uma empresa fantasma, mas você pode dizer que é a nossa empresa fantasma, se isso fizer com que se sinta melhor.

- Não tenho certeza se faz - disse Laney. - Você me fez voar até aqui para me entrevistar para um emprego e agora está me dizendo que a companhia para a qual me candidatei a trabalhar não existe.

- Ela existe - disse Keith Alan Blackwell. - Está na máquina, em Lygon Street.

Chegou uma garçonete. Usava um macacão amorfo de algodão cinza e hematomas cosméticos.

- Chope grande. Kirin. Gelado. E você, Laney?

- Café gelado.

- Coca Light, por favor - disse o que havia se apresentado como Yamazaki.

- Perfeito - disse o Blackwell sem orelha, taciturnamente, quando a garçonete desapareceu na escuridão.

- Gostaria que você me explicasse o que estamos fazendo aqui - disse Laney. Ele via que Yamazaki estava freneticamente escrevendo na tela de um pequeno notebook, a caneta ótica piscando debilmente no escuro. -Você está anotando o que falamos? - perguntou Laney.

- Não, desculpe. Estou fazendo anotações sobre a indumentária da garçonete.

- Por quê? - perguntou Laney.

- Desculpe - disse Yamazaki, salvando o que havia escrito e desligando o notebook. Enfiou a caneta cuidadosamente numa reentrância na lateral. -Sou um estudioso dessas coisas. Tenho o hábito de registrar tópicos passageiros da cultura popular. A indumentária dela levanta a seguinte questão: refletirá apenas o tema deste clube, ou representará alguma resposta mais profunda ao trauma do terremoto e à subseqüente reconstrução?


  1. LO REZ SKYLINE

Encontraram-se numa clareira da floresta.

Kelsey havia feito a vegetação: grandes e brilhantes folhas tipo douanier Rousseau, orquídeas de desenho animado salpicadas do que ela chamava de cores tropicais (que lembravam a Chia, aquela rede de lojas de shopping centers que vendiam cosméticos "naturais" em tons totalmente desconhecidos na natureza). Zona, a única telepresente que já havia visto algo parecido com uma floresta de verdade, havia feito o áudio, suprindo cantos de pássaros, insetos invisíveis, mas de efeito doppler realista, e o episódico farfalhar da vegetação artisticamente sugerindo não cobras, mas alguma coisa arisca e peluda, de patas fofas e curiosa.

A pouca luz que havia era filtrada por uma cobertura vegetal alta, que Chia achou demasiadamente parecido com Disney - embora não houvesse necessidade real de luz num lugar que consistia apenas disso.

Zona, sua caveira asteca brilhando incorpórea, espectros de suas mãos azuis bruxuleando como pombas iluminadas por luz estroboscópica: - É claro que essa puta castrada, essa desencarnada, conseguiu aprisionar a alma dele. - Relâmpagos em ziguezague estilizados surgiram em torno da parte superior da caveira de néon, como ênfase deliberada.

Chia se perguntou o que ela havia realmente dito. Seria "puta castrada" um artefato da tradução automática on line, ou seria realmente algo que se podia dizer ou que se dizia em mexicano?

- Esperando confirmação positiva da filial de Tóquio - Kelsey lembrou-lhes. O pai de Kelsey era um advogado tributarista de Houston, e um pouco daquele tipo particular de jargão profissional tendendo a apresentar sua filha na hora da reunião; e também uma certa capacidade de esperar que Chia achasse irritante, particularmente porque se manifestava por uma figura tipo ninfa de olhos redondos tirada de algum antigo anime, revista japonesa de histórias em quadrinhos. Com a qual Chia tinha certeza de que Kelsey não parecia em tempo real, se elas fossem algum dia se encontrar daquela

forma. (A própria Chia estava se apresentando como uma versão só ligeiramente distorcida, pensava ela, de como o espelho lhe dizia ser sua verdadeira aparência. Nariz um pouco menor, talvez. Lábios um pouco mais cheios. Mas era só isso. Ou quase.)

- Exatamente - disse Zona, com calendários de pedra em miniatura rodopiando furiosamente no lugar dos olhos. - Ficamos esperando. Enquanto ele se aproxima cada vez mais da sua ruína. Ficamos esperando. Se eu e minhas garotas fôssemos ficar esperando assim, as Ratazanas nos varreriam das ruas. - Zona dizia ser a líder de uma gangue de garotas chilangas que andavam armadas de facas. Não a mais malvada da cidade do México, talvez, mas suficientemente preocupada com questões territoriais e cobrança de pedágio. Chia não sabia se acreditava nessa história, mas isso contribuía para uma atitude interessante nas reuniões.

- É mesmo? - Kelsey elevou seu eu-ninfa com dignidade de elfo, batendo de incredulidade as bastas pestanas de corça. - Se é assim, Zona Rosa, por que você não se manda para Tóquio e descobre o que está realmente acontecendo? Quer dizer, o Rez disse mesmo aquilo, que vai se casar com ela, ou o quê? E enquanto estiver lá, descobre se ela existe mesmo ou não, está certo?

Os calendários pararam de girar de repente. As mãos azuis desapareceram.

A caveira parecia retroceder para uma distância infinita e no entanto permanecia perfeitamente em foco, nítida em todos os seus detalhes texturais. Truque velho, pensou Chia. Ganhando tempo.

- Você sabe que não posso fazer isso - disse Zona. - Tenho responsabilidades aqui. Maria Conchita, a comandante das Ratazanas, disse que...

- Como se agente ligasse para isso, certo? - Kelsey lançou-se para cima, seu eu-ninfa transformou-se num borrão pálido contra o crescente emaranhado verde, até pairar um pouco abaixo da cobertura vegetal, um raio de luz de sol iluminando um impossível osso da face. - Zona Rosa só tem merda na cabeça! - urrou, nada parecido com uma ninfa'

- Não vamos brigar - disse Chia. - Isso é importante. Por favor. Kelsey desceu instantaneamente. - Então você vai - disse ela.

- Eu?


- Você - disse Kelsey.

- Não posso - falou Chia. - Para Tóquio? Como é que eu vou?

- De avião.

- A gente não tem o seu dinheiro, Kelsey.

- Você tem passaporte. A gente sabe que você tem. Sua mãe teve que tirar um para você quando ela estava fazendo aquela coisa da custódia. E nós sabemos que você está, para ser delicada, "mudando de escola", não é?

-É...


- Então, qual é o problema?

- Seu pai é um grande advogado tributarista!

- Eu sei - disse Kelsey. - E ele fica indo e vindo de avião pelo mundo todo, ganhando dinheiro. Mas você sabe o que mais ele ganha, Chia?

- O quê?


- Pontos de milhagem. É o fodão dos pontos de milhagem. Na Air Magellan.

- Mas que interessante - disse a caveira asteca.



  • Tóquio - disse a ninfa geniosa. Merda, pensou Chia.

* * *

A parede oposta à cama de Chia era decorada com uma ampliação a laser seis por seis da capa do Lo Rez Skyline, o primeiro disco deles. Não a que se compra hoje, mas a original, a foto do grupo que haviam tirado para aquele primeiro lançamento crucial no selo independente Dog Soup. Ela havia baixado o arquivo do site do clube na semana em que se inscrevera e encontrou um lugar perto do Mercado que podia imprimi-lo daquele tamanho todo. Ainda era o seu favorito, e não apenas, como sua mãe sempre sugeria, porque eles ainda pareciam muito jovens. Sua mãe não gostava que os membros da Lo/Rez fossem quase tão velhos quanto ela. Por que Chia não curtia música de gente da idade dela?

- Mãe, mas quem?

- Aquele Chrome Koran, por exemplo.

- Que piada, mãe.

Chia suspeitava que a percepção que sua mãe tinha do tempo diferia da sua própria, de modo radical e inexplicável. Não apenas do modo como um mês, para a mãe de Chia, não era muito tempo, mas do modo como o "agora" da mãe dela era uma coisa tão restrita e literal. Regulado pelas notícias, acreditava Chia. Com alimentação a cabo. Um presente talhado pelas notícias do repórter aéreo.

O "agora" de Chia era digital, frouxamente elástico, de acesso instantâneo, apoiado por sistemas globais que nunca teria que se dar ao trabalho de compreender.

Lo Rez Skyline fora lançado, se é que se pode falar assim, uma semana (bem, seis dias) antes de Chia nascer. Ela calculava que nenhum exemplar do disco teria chegado a Seattle a tempo do seu nascimento, mas gostava de acreditar que houvera ouvintes aqui, mesmo então, visionários da orla do Pacífico, pegando na rede novos sons de independentes tão obscuros, até, quanto o Dog Soup de Teipei. Com certeza, os acordes de abertura de "Positron Premonition" haviam impulsionado moléculas do ar de Seattle, em algum lugar, no porão de alguém, no fatídico momento de seu nascimento. Ela sabia disso, de algum modo, da mesma forma que sabia que "Stuck Pixel", que mal chega a ser uma música, apenas Lo dedilhando em alguma guitarra de loja de penhores, devia estar sendo tocada em algum lugar quando sua mãe, que mal falava inglês naquela época, escolheu o nome de Chia, a partir de alguma coisa que ficava passando no canal de compras, o afago fonético daquelas sílabas chegando até ela na sala de pós-parto como uma combinação satisfatoriamente suave de sons italianos e ingleses; seu bebê, já então de cabelos ruivos, depois batizada Chia Pet McKenzie (para o espanto de seu pai canadense ausente).

Esses pensamentos surgiram na escuridão pré-despertador, pouco antes do piscar infravermelho de seu despertador gaguejar em silêncio para o spot de halogênio, dizendo-lhe para iluminar Lo/Rez em toda sua glória Dog Soup. Rez, de camisa aberta (mas de modo totalmente irônico), e Lo, com seu sorriso forçado e arremedo de bigode que ainda não acabara de nascer.

Oi, caras. Procurando o controle remoto. Zapeando o infravermelho nas sombras. Zap: Espressomatic. Zap: aquecedor.

Debaixo do travesseiro, o volume não familiar do passaporte, como um cartucho de jogo daqueles bons, antigos, plásticos duros azul-marinho, da textura de corino, com a chancela dourada e a águia. As passagens da Air Magellan em sua capa de plástico mole, bege, da agência de viagem do shopping.

Partiu.

Respirou fundo. A casa de sua mãe parecia fazer o mesmo, sem tanto sucesso, seus ossos de madeira estalando no frio da manhã de inverno.



* * *

O táxi chegou no horário, como por encanto. E não, não tocou a buzina, exatamente como solicitado. Kelsey havia explicado como essas coisas funcionam. Exatamente como, entrevistando rapidamente Chia sobre as circunstâncias de sua vida, havia bolado a desculpa para sua ausência iminente: dez dias nas ilhas San Juan com Hester Chen, cuja mãe cheia da grana e com horror a tecnologia temia de tal forma radiações eletromagnéticas que vivia sem telefone num castelo de madeira reaproveitada e de telhado de céspede, e onde eletricidade era totalmente proibida. - Diga a ela que você vai dar um tempo dos meios de comunicação, antes do novo período letivo começar - dissera Kelsey. - Ela vai adorar isso. - E a mãe de Chia, que achava que ela passava tempo demais de luvas e óculos, adorou.

Chia gostava mesmo da meiga Hester, que parecia entender do que se tratava Lo/Rez, embora por algum motivo não se envolvesse tanto quanto era de se esperar, e Chia já havia na verdade experimentado os prazeres do retiro insular da sra. Chen. Mas a mãe de Hester havia feito com que as duas usassem bonés de beisebol especiais, feitos de um tecido à prova de radiação eletromagnética, para que seus jovens cérebros não fossem banhados tão constantemente pela sopa invisível do lixo da mídia.

Chia havia reclamado que os bonés faziam com que as duas ficassem parecendo proletas.

- Deixa de ser racista, Chia.

- Mas eu não sou.

- Classista, então.

- É uma questão de estética.

E agora, no táxi aquecido demais, com sua única bolsa de viagem no assento a seu lado, sentia-se culpada por causa dessa mentira; sua mãe dormindo por trás daquelas janelas escurecidas salpicadas de gelo, sob o peso de seus trinta e cinco anos e do edredão florido que Chia havia comprado na Nordstrom. Quando Chia era pequena, sua mãe usava os cabelos compridos numa trança, com a ponta enfeitada com contas de turquesa, madrepérola e pedaços de ossos esculpidos, como a cauda mágica de algum animal mítico balançando para Chia agarrar. E a casa, além disso, parecia triste; como se lamentasse que ela estivesse de saída, a tinta branca descascando do cinza das ripas de cedro de noventa anos. Chia teve um calafrio. E se ela nunca mais voltasse?

- Para onde? - disse o taxista, um negro numa jaqueta fofa de náilon e uma boina escocesa.

- SeaTac, o aeroporto de Seattle - disse Chia, e encostou os ombros no assento.

Ultrapassaram o velho Lexus que os vizinhos deixavam sempre sobre os blocos de concreto na entrada de carros.

* * *

Os aeroportos são lugares mal-assombrados de manhã cedo. Havia um vazio que podia assentar em você, uma coisa triste e vazia. Corredores e pessoas se afastando por eles. Na fila atrás de gente que nunca havia visto c nunca mais veria. Com a bolsa dependurada no ombro, o passaporte e a passagem na mão. Ela queria outra xícara de café. Deixara café no seu quarto, no Espressomatic. Que devia ter esvaziado e limpo, porque enquanto estivesse fora o café mofaria.



- Sim? - O homem por trás do balcão usava uma camisa listrada, uma gravata com o logotipo da Air Magellan repetido em diagonal, e um piercing de jade verde no lábio. Chia se perguntou que aparência teria o lábio inferior dele quando tirava o piercing. Ela nunca o tiraria, concluiu Chia, se tivesse um piercing assim. Ela lhe entregou a passagem. Ele suspirou e tirou-a da capa, deixando claro que Chia é quem devia ter feito isso.

Ela observava enquanto o homem passava um scanner na passagem.

- Air Magellan um-zero-cinco para Narita, ida e volta, classe econômica.

- Certo - disse Chia, tentando ser solícita. Ele não pareceu gostar disso.

- Documento de viagem.

Chia entregou-lhe o passaporte. Ele olhou para o passaporte como se nunca tivesse visto um antes, suspirou, e inseriu-o numa fenda em cima do balcão. A fenda tinha bordas de alumínio gastas, que alguém havia coberto com fita transparente, agora suja e descascando. O homem ficou olhando para um monitor que Chia não podia ver. Talvez fosse dizer que ela não poderia viajar. Ela pensou no café no Espressomatic. Ainda estaria morno.

- Vinte e três D - disse ele, quando um cartão de embarque saiu de outra fenda diferente. Pegou de volta o passaporte dela e o entregou, junto com a passagem e o cartão de embarque. - Portão 52, saguão azul. Bagagem?

- Não.


- Os passageiros que forem liberados pela segurança podem estar sujeitos a terem amostras de DNA colhidas de modo não invasivo - disse ele, unindo todas as palavras, já que o único motivo de dizer aquilo era que a lei o obrigava a isso.

Ela guardou o passaporte e a passagem no bolso especial do lado de dentro do casaco. Ficou segurando o cartão de embarque na mão. Saiu procurando o saguão azul. Teve de descer e pegar um daqueles trens que parecem elevador que anda de lado. Meia hora depois havia passado pela segurança e estava observando os lacres que haviam posto sobre os fechos de sua bagagem de mão. Pareciam anéis vermelhos elásticos de doce. Ela não contara com isso; havia pensado que encontraria um orelhão no saguão de embarque, e seria possível conectar-se para botar o clube a par do andamento das coisas. Eles nunca lacravam sua bagagem de mão quando ia para Vancouver ficar com seu tio, mas aquele vôo não era realmente internacional, não depois do Acordo.

Ela estava andando numa esteira de borracha indo para o Portão 52 quando viu a luz azul piscando, acima. Soldados e uma barricada. Os soldados organizavam uma fila com as pessoas que saíam da esteira. Estavam de uniforme de campanha e não pareciam ser mais velhos que os garotos de seu último colégio.

- Merda - ouviu a mulher na sua frente dizer, uma loura de cabelo comprido que obviamente tinha apliques. Lábios grossos vermelhos, camadas de maquilagem, obreiras até aqui, blusinha curta, botas-brancas de vaqueiro. Como aquela cantora country de quem sua mãe gostava, Ashley Modine Carter. Uma coisa meio proleta, mas com muito dinheiro.

Chia saiu da esteira e tomou seu lugar na fila atrás da mulher que se parecia com Ashleigh Modine Carter.

Os soldados estavam tirando amostras de cabelo e passando os passaportes das pessoas nas fendas. Chia assumiu que aquilo era para provar que você realmente era quem dizia ser, porque seu DNA estava no passaporte, convertido numa espécie de código de barra.

A amostra era colhida por um bastão prateado que puxava a vácuo as pontas de uns poucos fios e os cortava. Eles iam acabar tendo a maior coleção do mundo de pontas partidas, pensou Chia. Agora era a vez da loura. Eram dois soldados novinhos, um para operar o bastão de colher amostras e o outro para ficar matraqueando, dizendo que, como todos já haviam concordado com o procedimento, já que tinham chegado até ali, por favor, apresentem seus passaportes.

Chia viu quando a mulher entregou o passaporte e instantaneamente assumiu uma postura explicitamente sexy, como uma lâmpada se acendendo, com um largo sorriso para o soldado que o fez piscar, engolir a seco e quase deixar o passaporte cair. Sorrindo amarelo, ele meteu o passaporte num pequeno console anexado à barricada. O outro soldado levantou seu bastão. Chia viu a mulher levantar a mão e escolher uma mecha do aplique, oferecendo a ponta para ser tirada como amostra. A coisa toda talvez tenha levado oito segundos, incluindo a devolução do passaporte, e o primeiro soldado ainda estava sorrindo na vez de Chia.

A mulher seguiu em frente, tendo acabado de cometer o que Chia tinha quase certeza ser um crime federal. Será que ela devia contar ao soldado?

Mas não o fez, e aí já estavam lhe devolvendo o passaporte e Chia se encaminhava para o Portão 53. Procurou pela mulher, mas não a viu.

Ficou examinando os anúncios passarem nos painéis nas paredes, até que os passageiros foram chamados para formar fila para o embarque.

* * *


O assento 23E ficou vazio enquanto Chia aguardava a decolagem, chupando uma bala de menta que a aeromoça lhe dera. O único assento vazio no avião, ela imaginou. Se ninguém aparecesse para ocupá-lo, pensou, ela poderia dobrar o descanso para os braços para cima e usar os dois assentos. Tentou projetar um campo mental negativo, uma vibração que fosse impedir que alguém embarcasse no último minuto e se sentasse lá. Zona Rosa estava nessa, parte daquele negócio de gangue só de garotas ligadas em artes marciais. Chia não via como era possível acreditar que aquilo realmente funcionasse.

E não funcionou, porque lá vinha aquela loura e aquilo que Chia viu não era uma piscada de reconhecimento?




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