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Agradecimentos

Agradeço à minha mãe, ao meu pai, a Farrah, Digs e Dan por me aguentarem 18 meses falando do livro e, ainda assim, conseguirem demonstrar entusiasmo e apoio incansável, mesmo quando provavelmente já estavam entediados com o assunto. A Belinda Jones e Marie O'Riordan por darem chance a uma novata completa no jornalismo. Um enorme obrigada também a Louise Chunn, Polly Williams, Johnny Aldred, PB, Dog, Will Storr, Adrian Broadway, ao águia do direito John Kelly e Steven Wright pelos procedimentos policiais – qualquer erro cometido é meu. Matthew Williamson pelo endereço de Venetia, Katerine em Megeve, Deborah Joseph pela casa e pelas aventuras durante o Festival de Cinema de Cannes e a Basil Charles em Mustique, que sabia tudo que se pode saber sobre a ilha.

Ao Hospital St. Thomas e à minha adorável equipe de parto, que cuidou de mim depois da minha gravidez complicada acompanhada de um livro para escrever. À equipe fantástica da HarperCollins por ter acreditado em As filhinhas do papai e por trabalhar com tanto afinco no livro, principalmente Wayne Brookes, editor extraordinário, por suas opiniões impecáveis, seu apoio e por tornar esta experiência toda algo muito divertido. E, é claro, à minha agente Sheila Crowley, a Naomi Leon, Linda Shaughnessy e Teresa Nicholls da AP Watt.

Muito amor para o meu filho, Finlay, o despertador mais fofo do mundo, e, finalmente, ao meu marido e herói, John, escritor muito melhor do que eu, que estacionou seus próprios sonhos de escrever um romance para que eu pudesse concretizar o meu. Ele leu e ditou o manuscrito inteiro e fez inúmeras sugestões para que ficasse muito melhor. Obrigada por tudo - este é para você, querido.

Para John

Prólogo

Dia de Natal - presente

Ele estava atrasado. O tique-taque do relógio de pêndulo rebuscado as lembrava e como já tinha passado da hora. As irmãs Balcon nunca ficavam esperando por nada. Cada uma delas consultou seu relógio de pulso - Cartier, Rolex, Patek Phillipe -, imaginando se o visitante chegaria mesmo. Todas as quatro tinham mais o que fazer. O pai estava morto, precisavam organizar o enterro e tinham vidas cheias de agitação e glamour para seguir.

Cate Balcon olhou através das portas envidraçadas do castelo de Huntsford, observando enquanto as sombras enchiam o aposento escuro, com a neve se assentando nos peitoris. Lá fora, enxergou dois globos de luz se movimentando pela longa entrada de cascalho.

- Acho que ele chegou.

Alguns instantes depois, a pesada porta de carvalho que dava acesso à sala de visitas se abriu com um rangido, e David Loftus, um homem esbelto e forte, com olhos levemente juntos demais, entrou.

- Sr. Loftus - disse Cate, levantando-se para cumprimentá-lo com um aperto de mão. A mão dele era fria e ressecada, com as pontas dos dedos amareladas dos fumantes. - Este aqui é David Loftus, amigo de papai - disse ela para as outras mulheres. - O Sr. Loftus é escritor. Acabou de se mudar para cá, creio. Por favor, David, sente-se.

Ignorando-a, Loftus foi até a enorme lareira acesa, esfregando as mãos.

- Que tempo horroroso faz lá fora - disse, com a cabeça apontando para a janela. - O carro mal conseguiu passar pela entrada. Sabiam que tem uma dúzia de fotógrafos lá no portão?

Venetia Balcon assentiu.

- Por alguma razão, parece que a imprensa considera a morte de nosso pai uma notícia.

- E você se surpreende com isso? - disse Loftus com um olhar irônico. - Vocês são celebridades. Todos os sanguessugas deste país querem estar nesta sala hoje.

Deu um sorriso torto enquanto absorvia a grandiosidade do local. A antiga lareira galesa de ardósia, as paredes forradas de livros encadernados em couro. Seus olhos se deslocaram para o teto, todo raiado, como queijo envelhecido, por baixo da pintura. Rachado por baixo da superfície magnífica. Deu um sorriso amargo: igualzinho à família Balcon.

- Bom, agora que está aqui, o que deseja? - disparou Serena Balcon, que estava especialmente impaciente. Mesmo para uma atriz, já tinha vivido drama demais naquele Natal. Fora ela que encontrara o corpo do pai no fosso do castelo na manhã seguinte à da festa da véspera de Natal, a boca aberta, com a pele congelada e todo coberto de veias arroxeadas. Estremeceu com a lembrança, enquanto David Loftus a observava.

Ela era tão linda pessoalmente quanto na tela, pensou ele. Aliás, as quatro filhas de lorde Oswald Balcon eram exatamente como ele havia imaginado. Loiras e lindas, parecia que o privilégio se apegava a elas como um aroma dispendioso. E a maneira altiva como se portavam: consideravam-se tão especiais... Mas agora era ele que tinha o trunfo na manga e ia saborear cada minuto da situação.

Sem que ninguém lhe oferecesse, serviu-se de uísque de um decantador de vidro de Murano na mesa e fez o líquido rodopiar dentro do copo. Na posição de advogada, Camilla Balcon reconheceu a técnica dele. Já a havia usado no tribunal uma centena de vezes: faça com que o público espere. Deixe todo mundo nervoso.

- Imagino que a polícia já tenha estado aqui, não? - perguntou Loftus, tomando um gole da bebida.

- E por que isso é da sua conta? - perguntou Carnilla em um tom que destilava hostilidade.

- Oswald era meu amigo - respondeu Loftus. O uísque brilhava em seu lábio superior.

- Oswald era nosso pai - contrapôs Camilla, com firmeza.

Loftus caminhou até a janela; agora o terreno de Huntsford era só uma série de formas e sombras na escuridão.

- Morte acidental? É o que estão dizendo?

As moças se entreolharam, sem saber bem o quanto deveriam revelar a ele.

- Exatamente - Cate terminou por dizer, olhando para o fogo. – Ele caiu da amurada. Estava assistindo aos fogos de artifício.

- Caiu? - disse David, erguendo uma sobrancelha escura e encorpada em um arco acentuado.

Camilla lançou-lhe um olhar enviesado.

- O senhor está dando a entender que...

Loftus interrompeu Camilla.

- Vocês certamente sabem que muita gente queria ver o pai de vocês morto, não?

- Ele podia ser um tanto difícil - respondeu Cate, ácida. - Mas isso não é a mesma coisa de alguém querer vê-lo morto.

- Difícil? É assim que você o classifica? - perguntou ele, virando o resto do uísque. - Seu pai era desprezado pela metade das pessoas que o conheciam. Não, não acredito que seu pai caiu do telhado. Acredito que foi empurrado. Deliberadamente. - Fez uma pausa. - Acho que seu pai foi assassinado.

O fogo na lareira ardia e crepitava ao fundo, enquanto as irmãs olhavam para ele sem ousar dizer nada.

- E acho que uma das filhinhas do papai o matou.

Parte Um

1

Dez meses antes

A honorável Serena Balcon, estirada no convés superior do veleiro egípcio La Mamounia, tirou seu shortinho cor-de-rosa da Dior com movimentos sinuosos e se autoparabenizou com um gole preguiçoso de Mojito. Que ótima decisão, pensou, presunçosa, erguendo os olhos para ver as velas brancas do barco desfraldadas ao vento como duas enormes asas de borboleta. Quando estava em casa, no bairro de Chelsea, em Londres, ela não tinha muita certeza se deveria aceitar o convite do estilista de moda Roman LeFey para fazer um cruzeiro de dois dias de Edfu a Luxor. Como recebia mais de cem convites sociais em uma semana normal, recusava tudo com muita educação, a não ser os convites mais públicos e mais exclusivos - além de um gesto beneficente aqui e outro ali. Mas esta viagem estava mesmo parecendo muito promissora. Apenas trinta dos amigos mais fabulosos de Roman tinham sido convidados para o passeio totalmente classe A e, além de ter sido convidada, Serena havia recebido a suíte Cleópatra do La Mamounia, uma cabine espaçosa e exótica na popa, onde era possível abrir a janela e deleitar-se com a vista que ia recuando de dentro de uma banheira com pezinhos. Examinou seu repertório em busca de uma expressão que descrevesse a grandiosidade refinada da cena. Sorriu. A expressão era apropriado.

- Isto aqui não é maravilhoso? - disse Tom Archer, namorado de Serena, debruçando-se por cima da balaustrada do barco para obter uma visão de 360 graus. Ele era um dos atores mais bem-sucedidos da Grã-Bretanha, além de um dos mais lindos e fabulosos, e o cenário do Nilo combinava perfeitamente com ele.

- É, você está super-Agatha Christie, querido - disse Serena, com uma pontinha de sarcasmo, espiando por baixo da aba larga de seu chapéu de sol. - Mas não se debruce tanto. Pode haver piranhas ou qualquer coisa do tipo nessa água imunda, e eu é que não vou pular aí dentro para salvar você.

Tom havia se condicionado a não escutar as implicâncias de Serena. Em vez disso, continuou olhando para um búfalo que pastava na margem oposta, ao lado do qual uma velha lavava roupa na água cor de tabaco.

- Olhe só para isto - disse ele, sorrindo. - Continua parecendo tão bíblico ... Fico achando que vamos ver Moisés sentado ali na margem.

Serena ergueu os olhos, distraída.

- Achei que ele já tinha morrido.

- Quem?

- Moisés.



Tom revirou os olhos e Serena captou o gesto.

- Eu vi o que você fez - disse ela, amarga.

Ele se virou de frente para ela.

- O quê?


- Você revirou os olhos para mim, como se eu fosse burra.

- Bom, você falou a maior burrice. É claro que Moisés já morreu.

- Era piada - soltou ela, escondendo o rosto com um exemplar da Vogue italiana. - Mas, sim, você tem razão. Isto aqui é mesmo especial.

Tom deu um sorriso torto para a namorada, prevendo a resposta para sua próxima pergunta.

- Nesse caso, você me acompanha a Karnak depois do almoço? Parece que lá fica o maior agrupamento de templos do mundo. Roman perguntou quem estava a fim de ir. Mas duvido que muita gente neste grupo vá se interessar - disse ele, fazendo um gesto na direção do convés do mezanino, onde os demais convidados de Roman secavam o bar.

- Não seja tolo, querido. Para que você quer ir até lá? - perguntou Serena, largando a revista em cima dos joelhos bronzeados. - Vai estar cheio de poluição e turista. E, de todo modo - soltou um suspiro dramático -, estou ocupada demais pensando onde vamos fazer a minha festa de aniversário. Quer dizer, não existe nenhum lugar em Londres que comporte mil pessoas. É totalmente ridículo.

- Mil pessoas - disse Tom, as sobrancelhas arqueadas. - A gente tem tantos amigos assim?

- Você não tem, não.

Tom estalou a língua em sinal de desaprovação.

- Mas você não tem tantos amigos assim, tem? - disse ela, lançando-lhe um olhar feroz. - Além do mais, você não parece gostar muito de conhecer pessoas. Não pára de reclamar desde que chegou e não fez o menor esforço para conversar com ninguém, o que é a maior falta de educação, porque eu poderia ter convidado uma dúzia de amigos no seu lugar.

- Talvez devesse ter convidado.

- Bem, da próxima vez eu convido.

- Pode convidar.

Os dois ficaram se entreolhando.

- Olhe, pare de reclamar e vá pegar outra bebida para mim com aquele carinha ali de turbante - disse Serena, para encerrar a questão. – Quero champanhe Cristal. Estou morta de sede.

Tom foi até ela e arrancou-lhe a revista das mãos. Abaixou o rosto para que ela pudesse enxergá-lo por baixo da aba do chapéu.

- Bom, ele está ali - disse ele num tom raivoso, apontando para um homem de pele morena que carregava uma bandeja de bebidas. - Saia de cima do seu traseiro e vá pedir você mesma.

O relacionamento de Serena Balcon e Tom Archer estava no estágio que a maior parte dos terapeutas avalia como terminal. Unidos pelo hábito e pela conveniência, até mesmo a conversa mais inocente rapidamente se transformava em uma discussão hostil e cheia de irritação. Para Serena, a hostilidade era suscitada por decepção inflamada. Tom Archer no começo era um tipo de novidade; era fofo e descomplicado, o oposto completo da longa procissão de ex-namorados de Serena - ex-alunos do exclusivo colégio particular Eton, sujeitos que se pareciam com Hugh Grant, eram herdeiros de fortunas, usavam o cabelo desgrenhado e trabalhavam no mercado financeiro. No começo, o fato de Tom não ter pedigree não tinha importância: a mãe dele trabalhava em uma fábrica, o pai era jardineiro; não havia nenhum sinal de refinamento em toda a sua árvore genealógica. Mas ele era gostoso, o astro britânico mais sensual desde Jude Law, e tinha feito aumentar o valor de celebridade de Serena de modo incomensurável.

Antes de ela o conhecer, no set de um filme britânico independente bem pequeno cinco anos antes, Serena não passava de uma loira aristocrata que se dedicava a posar de modelo e importar pashminas. Era famosa nas páginas de coluna social por ser uma das fabulosas garotas Balcon, mas quem ia querer ficar empacada nas páginas da revista Tatler para sempre? Ela queria um palco maior, e foi o que conseguiu ao lado de Tom. A mídia amava os dois: a combinação improvável, mas classuda, era potente e irresistível; Tom, o astro de cinema de origem britânica, e Serena, a filha sexy de um barão. A imprensa voltada para a moda também não deixou passar em branco sua noção impecável de estilo. Depois de poucas semanas da estréia dos dois como casal no circuito de festas, ela era a "Garota do Mês" da Vogue dos EUA e, em menos de um ano, Tom & Serena já tinha se transformado em uma marca que era como um passe VIP para o mundo da fama.

Cinco anos depois, isso já não bastava. Sim, a família dela era cheia de títulos, mas, para a tristeza de Serena, os Balcon não eram uma família inglesa grandiosa como os Marlborough, os Wellington ou os Balfour. Serena queria uma posição que se equiparasse à dos Blenheim, queria a pequenina coroa ducal impressa em seu papel de carta pessoal timbrado e um casamento de Estado com um anel de noivado nas cores da bandeira nacional, igualzinho ao que o príncipe Rainier tinha dado para Grace Kelly. E o fato de a desgraçada da sua irmã Venetia ter conseguido se casar com um membro da semi-realeza a atormentava ainda mais. Para colocar as coisas de maneira simples, Serena queria mais do que Tom podia lhe dar.

Esticou suas longas pernas aristocráticas na espreguiçadeira e se virou para ver Tom, louco da vida, na outra ponta do convés. Deu um sorriso afetado. Até que não era assim tão mau. Não havia como negar que ele era lindo. Aquele maxilar quadrado; os olhos de um azul-escuro da cor do cobaIto enquadrados por cílios pretos como breu; o cabelo escuro, curto e penteado com musse; e aquele corpo incrível espreitando pela camisa branca aberta da Turnbail & Asser. A beleza de Tom era capaz de se integrar a qualquer situação social. Em um bar, ele exalava aquele ar comum de um sujeito que poderia ser o seu vizinho. Em um jantar na casa de campo com o pai dela, os belos traços ingleses de Tom assumiam um ar bastante nobre, ao estilo Memórias de Brideshead. E se posto em um cenário de filme de Hollywood, ele brilhava com aquele fator X indefinível que os agentes do mundo todo gostariam de representar.

Talvez ele não fosse assim tão mau...

- Desculpe por estar um pouco de mau humor - disse ela com suavidade, fazendo um biquinho com os lábios macios. - Venha aqui..

Apesar de tudo, Tom não conseguiu resistir à visão do corpo dela ali estirado, todo sugestivo, com aquele biquíni de lacinho da Missoni. Dirigiu-se cabisbaixo até a espreguiçadeira. Ela deu um agarrão nele, tirou a parte de cima do biquíni e apertou os seios nus contra o peito dele. Tom gemeu quando ela apertou suas coxas entre as dele.

- Que tal a gente voltar para a cabine e fazer as pazes do jeito certo...? - ronronou ela no ouvido dele.

- Ah, Serena - disse ele, debatendo-se entre duas emoções: tesão e raiva.

- Serena, Tom. Aqui está o casalzinho apaixonado! - a voz cantarolada de Roman LeFey perfurou o silêncio. O maior estilista francês desde Yves Saint Laurent, ele era um negro alto com a pele cor de cacau, a barriga protuberante escondida sob uma túnica verde-escura. - O que estão fazendo no convés superior em pleno sol do meio-dia? Só mesmo os loucos e os ingleses, hein?

- Loucos, exatamente, Roman - respondeu Tom, levemente acanhado, enquanto Serena colocava os pés bronzeados no chão, em busca de seu chinelo de dedo Manolo Blahnik, amarrando a parte de cima do biquíni sem demonstrar o menor sinal de constrangimento.

- Roman, querido - ronronou ela, dando beijos nas bochechas dele. - Só estava tentando convencer Tom a ser um pouco mais sociável.

- Parece que sim - Roman sorriu com ar de piada. - Bem, o almoço já vai ser servido, então parem de se esconder e desçam - disse ele, direcionando os dois a uma escada em caracol que serpenteava até o mezanino do barco.

- Ah, não posso ir com esta coisinha minúscula - reclamou Serena. - Preciso me trocar.

Cruzou o convés superior na ponta dos pés e deslizou para dentro da cabine, onde sentiu o efeito refrescante do ventilador de teto sobre a pele e o humor. Abriu as portas de madeira do guarda-roupa e começou a examinar a fileira de roupas de chiffon, linho e seda, pensando como era exaustivo ser conhecida por seu bom gosto. Se escolhesse maio modelo para o mais casual dos eventos... ela estremecia só de pensar.

Escolheu um vestidinho curto branco da Marni, tirou toda a roupa e cobriu o corpo comprido, esbelto e bronzeado com o tecido fininho, completando o visual com um enorme anel de quartzo e uma pulseira grossa de cobre ajeitada bem no alto do braço bronzeado. Prendeu o cabelo cor de mel comprido e cortado em camadas para cima, secou o rosto com uma toalha com gestos delicados e salpicou um blush levinho, cor-de-rosa, nas bochechas, para acentuar seus grandes olhos cor de água-marinha. Aos 26 anos, sabia que estava no auge da beleza física: despretensiosa, cheia de estilo, estonteante. Bem do tipo Julie Christie de férias, pensou, admirando seu reflexo no espelho.

Ajeitou um par de óculos Ray-Ban modelo aviador em cima do nariz e dirigiu-se para o convés do mezanino com passos lentos e deliberados, de modo que sua chegada fosse absolutamente notada. Fez uma pausa por um momento, para absorver a cena. Um aglomerado de pessoas bebia champanhe e mordiscava cana pés. O ar cheirava a cominho; uma pequena banda usando chapeuzinhos do tipo fez tocava música egípcia tradicional ao lado do bar. Ela atravessou a multidão, para longe do lugar onde Tom conversava com um monte de gente que ria, e pegou um martíni.

- O que achou do dahabeah? - perguntou Roman, que aparecera ao seu lado e tomara sua mão.

- Do quê?

- Do meu bebê! - Ele deu risada. - Um dahabeah é um veleiro egípcio.

- É fantástico - respondeu ela, dando-lhe um beijo brincalhão na bochecha e deixando um anel de gloss rosa-claro em sua pele. - E adorei nossa suíte.

- Achei que ia gostar da suíte Cleópatra. - Ele sorriu como quem sabe o que está dizendo e pegou um figo de uma bandeja abarrotada. - Eu deveria estar no ateliê terminando a coleção para o desfile de Milão - completou -, mas não consigo deixar de ser um menino mau.

- Você é tão decadente, querido. É por isso que eu adoro você. – Serena soltou um suspiro generoso, mas logo assumiu ar profissional. - Então, conte para mim quem está aqui - disse, esticando o pescoço comprido para examinar seu entorno. - Na verdade, ainda não fui apresentada a ninguém.

- Bem, vamos cuidar disto agora - sussurrou ele, em tom conspiratório.

- Para quem quer ser apresentada?

Ela examinou o convés, procurando rostos conhecidos ou pessoas interessantes de se conhecer. Alguém havia lhe dito que Leo DiCaprio estaria ali, mas ela não o via em lugar nenhum. Roman às vezes era tão aleatório em seus convites, pensou. Avistou um fotógrafo da Vogue EUA, a filha de um magnata da mídia, uma modelo da Victoria's Secret. Talvez a lista não fosse assim tão exclusivíssima como tinha sido levada a acreditar.

- Na verdade, não reconheço ninguém - disse ela, depois sorriu, tentando esconder a decepção.

Roman subiu em uma pequena plataforma e examinou todo o convés, erguendo um dedinho coberto de pintas para identificar seus convidados.

- Para esta viagem, quis convidar amigos que apreciariam o Egito – disse Roman, muito sério.

Serena sorriu, tentando parecer agradecida.

Roman repassou os convidados um por um, dando informações superficiais sobre cada um deles. A princesa russa, o decorador gay, o melhor cabeleireiro de produção de Nova York, uma florista da sociedade e um chef de Barcelona que recebera três estrelas do guia Michelin. No centro estava Michael Sarkis, o hoteleiro bilionário.

- Veio com a namorada - cochichou Roman.

O interesse dela estava se esvaindo.

- Ah, ali está Rachel Barnaby - disse Roman, batendo palmas e apontando para uma moça voluptuosa ao lado do bar. - Ela vai ser famosíssima. Você leu a reportagem de capa da Vogue deste mês?

Serena sorriu. Claro que tinha lido. A galesa estonteante com seu cabelo de corvo reluzente, sua pele de alabastro e seus lábios acolchoados tinha sido apontada como a próxima grande estrela. Talento enorme. Muito mais do que glamourosa. Os dentes dela rangiam só de pensar no assunto.

- Bom, todo mundo é a próxima grande estrela da Vogue, não é? - comentou, cheia de maldade. - Mas muita gente nunca chega lá, não é mesmo?

Roman deu um tapinha no bumbum dela.

- Não seja indelicada - sorriu. - Você não tem nada a temer. Ela ainda nem tem um relações-públicas adequado... tive que ligar para a mãe dela para convidá-la para o cruzeiro.

Serena deu um sorriso amplo. Claro que ela não tinha que se preocupar com uma adolescente bonitinha e sem sal. Certo, Rachel Barnaby tinha conseguido uma capa da Vogue. Alguém devia ter desistido no último momento. Serena, por outro lado, tinha seu lugar na primeira fila dos desfiles e seu contrato de dois milhões de libras com uma empresa de cosméticos. E, tudo bem, era verdade que por enquanto ela não tinha conseguido exatamente um papel de destaque em Hollywood, mas aqueles produtores pervertidos e acima do peso dos Estados Unidos preferiam a ralé mais maleável a uma pessoa com verdadeira classe e boa educação. E, de todo modo, ela era Serena Balcon. Cada movimento que ela e Tom faziam - brincadeiras nas férias, jantar no Ivy, uma passada de última hora na Harrods para comprar presentes de Natal – virava manchete de jornal. Quero ver você superar isso, sua ralé galesa, pensou cheia de presunção.


Recobrando a postura, Serena resolveu que Michael Sarkis era o melhorzinho entre os numerosos males do La Mamounia. Não sabia muito a respeito dele, a não ser que tinha nascido em Beirute - de mãe americana e pai libanês, como lera certa vez - e fora criado no Bronx. Um dos hoteleiros mais bem-sucedidos do mundo, Michael era um verdadeiro empreendedor, que saíra do nada e ganhara muito dinheiro vendendo férias extravagantes para árabes super-ricos. A marca registrada de seus hotéis eram cassinos no lobby, aquários de tubarões nos pátios e folheados a ouro por todos os lados; lugarzinhos vulgares a que Serena não iria nem morta. Ainda assim... ele era podre de rico e estava conversando com Rachel Barnaby.

Caminhou até onde Michael estava, ao lado de uma mesa comprida abarrotada de especialidades egípcias. Havia minúsculas baklavas glaceadas com mel, docinhos de pistache, pilhas de pêssegos brancos e tigelas com pão achatado partido em pedaços. Parecia a Última Ceia.

- Espero que esteja com fome - disse Serena, colocando uma azeitona verde-escura carnuda na boca e lançando seu sorriso mais estonteante para Michael.

- Espero que esteja com sede - respondeu ele, pegando uma garrafa de vinho e servindo uma taça para Serena. - Meu nome é Michael.

- Serena. Prazer em conhecê-lo.

Michael estendeu a mão bronzeada para cumprimentá-la. Quando ele pegou seus dedos, Serena reparou como as mãos dele eram extraordinariamente sensuais. Grandes, com uma cor bonita e um formato quadrado que parecia ter sido esculpido, os dedos eram macios e as unhas estavam bem cuidadas... o vistoso relógio de ouro no pulso também não atrapalhava nada.

Michael pareceu notar o interesse dela e permitiu-se um sorriso.

- Gostou do vinho? - perguntou.

- Do vinho? - repetiu Serena. - Maravilhoso. Pétrus, de 1947, creio?

Michael virou a garrafa para ler o rótulo.

- Você conhece as coisas boas.

- Bom, a safra de 1947 foi uma das melhores do século para a vinícola. É ainda melhor do que a de 1970, imagino. Realmente, é maravilhosa. - Ela se virou de frente para Rachel Barnaby. - O que você acha? Quarenta e sete ou setenta? - perguntou.

Rachel corou.

- Eu mal sei a diferença entre tinto e branco; outras coisas, nem pensar - respondeu RacheI e deu urna risadinha educada.

- Que amor! - Serena sorriu, lançando-lhe um olhar condescendente. - Bom, você é atriz, não sommelier.

De repente, Rachel Barnaby precisou ir ao toalete e Serena a observou enquanto se afastava.

- Uma menina legal - disse Michael.

- Muito doce e simples - disse Serena, sorrindo.

Michael examinou-a de alto a baixo com um olhar profundamente penetrante que a irritou. Passando o dedo lentamente para cima e para baixo na haste da taça, ele lhe lançou um sorriso lento e sedutor.

- Então, como é que você sabe tanto sobre vinho? - perguntou ele, tomando um golinho da bebida.

- O meu pai é aficionado por vinho - disse Serena, fazendo o contorno dos lábios com o dedo sem se dar conta.

- Lorde Balcon? - perguntou Michael, erguendo uma sobrancelha basta, que formava um arco descabelado.

- Ele mesmo. Você o conhece?

- Não exatamente - respondeu Michael com a testa franzida. - Ele faz parte do comitê de um clube de Londres que acabou de me dispensar.

Serena viu uma nuvem negra tomar conta do rosto dele e percebeu que Michael Sarkis era um homem que não estava acostumado a ser dispensado de nada.

- Qual clube? O White's? O Annabel's?

- O Hamilton's, na verdade.

Ela pegou um canapé e soltou uma risada ruidosa.

- O que você quer fazer lá? Só tem uns sujeitos empertigados que o meu pai conheceu na escola. Eu achei que você tinha mais cara de Bungalow 8 ou de Billionaire.

- Também tenho meus próprios clubes - ele sorriu -, mas às vezes a gente tem vontade de experimentar alguma coisa nova.

Ele chegou mais perto dela e pousou a mão em sua cintura. Foi um gesto repentino e íntimo que fez uma onda de prazer percorrer o corpo dela. Desconcertada, esforçou-se para racionalizar a situação. Ele não era velho demais? Era difícil determinar a idade daquele homem de cabelo escuro. Podia ter 40 anos, talvez até 50. Ela não diria exatamente que era bonito: o nariz adunco era comprido demais, os olhos escuros eram estreitos e a cabeça era pequena demais para o corpo; mas assim como muitos homens mais velhos e mais poderosos que ela conhecera por intermédio do pai, ele exalava um ar arrogante, quase perigoso, que era definitivamente sensual.

- Para onde você vai depois do cruzeiro? - perguntou ele em um tom que sugeria uma oferta iminente.

- As coisas não estão assim tão caóticas como de hábito - respondeu ela com um sorriso recatado. - Tenho de fazer um pouco de promoção para Ladrão de casaca, mas, fora isso, o mundo é a minha ostra.

- Ah, ouvi mesmo dizer que você tinha feito este remake. - Deu um sorriso em sinal de apreciação. - No papel que foi de Grace Kelly, é claro.

- Claro que sim - Serena sorriu, lisonjeada por ele estar a par de seu trabalho. - E David Clooney faz Roby, o ladrão de jóias bonitão. O elenco é ótimo.

- Onde vão ser as pré-estréias?

- Ah, é o maior tédio. Londres, Nova York, Los Angeles - respondeu ela, demonstrando uma falta de interesse adequada por ser levada em aviões particulares para diversas partes do mundo e ter a imprensa internacional ajoelhada a seus pés.

- Quando estiver em Los Angeles, dê uma ligada para mim para a gente se encontrar. Onde você mora?

Serena corou de leve e colocou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha.

- No momento, estou morando em Londres. Mas estou pensando em comprar mais umas casas para ficar dos dois lados do oceano. Por enquanto, estou hospedada no The Viceroy.

Ela ergueu os olhos para olhar o rosto dele, cuja expressão se encontrava em algum ponto entre decepção e perplexidade.

- Qual é o problema?

Ele sorriu.

- Não é nada.

- Não, o que foi? - repetiu ela, quase com petulância.

- Só estou aqui me perguntando por que você continua morando em Londres.

- Qual é o problema? Eu moro pertinho de Cheyne Walk.

A expressão dele se aproximava do aturdimento.

- Achei que uma mulher como você teria idéias mais grandiosas.

Ela franziu a testa em sulcos profundos.

- Não estou entendendo muito bem.

Michael fez uma pausa. A cabeça dele estava inclinada e ele sorria para si mesmo, como se estivesse contando uma piada em um diálogo mental.

- Estive em um jantar em Los Angeles na semana passada. Meu amigo Lawrence é dono da Clerc, a joalheria. Você conhece?

Ela assentiu. Tinham lhe emprestado um par de brincos de diamante em forma de gota para a cerimônia de entrega do Oscar do ano anterior.

- Eles estão atrás de um "rosto", de uma porta-voz, chame como quiser. Estão falando nos nomes óbvios: Julia, Gwyneth, Catherine. Alguém mencionou o seu nome e, agora que a conheci, vejo que seria a escolha perfeita. - Afagou a bochecha dela de leve. - Você é incrivelmente linda.

Serena desviou o olhar.

- Mas o seu nome foi descartado porque você não tem... ah, coloquemos assim... apelo internacional.

A boca de Serena imediatamente se curvou em uma expressão magoada e ferida.

- Para a sua informação, eu tenho muita visibilidade nos Estados Unidos - retrucou, aprumando a coluna. - A Vanity Fair está desesperada para fazer o meu perfil. Acho que isso não é exatamente tacanho.

Michael abriu as mãos grandes em um gesto de trégua.

- Engano meu. Achei que você gostaria de saber.

- Bem, agradeço muito pela opinião - respondeu Serena em tom gélido. - Agora, acho que é melhor eu ir falar com Roman.

Ela deu meia-volta, repentinamente consumida pela fúria por causa da obsessão irracional de Tom: continuar morando em Londres. E como é que ela pôde ser desprezada para uma importante campanha publicitária? Ela era uma estrela enorme. Ela tinha berço. E por acaso não eram os americanos que adoravam aquele papo de mulher de fino trato?

Um tremor obscuro de insegurança explodiu em sua consciência.

Serena atravessou a multidão com um ar decidido, já pensando nas reuniões com agentes, corretores de imóveis e assessores de imprensa. Sua ambição de conquistar Hollywood estava completamente atiçada mais uma vez.



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