Alberto Mangel



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Alberto Mangel

Uma História da Leitura
Tradução Ana Saldanha

Editorial Presença

FICHA TÉCNICA
Título original: A History of Reading

Autor: Alberto Manguel

Copyright © Alberto Manguei 1996

Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 1998

Tradução: Ana Saldanha

Capa: Rapariga a ler, pintura de Gustav Adolph Hennig, Leipzig, Alemanha

Pré-impressão: Multitipo - Artes Gráficas, Lda.

Impressão e acabamento: Guide - Artes Gráficas, Lda.

1.ª edição, Lisboa, Setembro, 1998

Depósito legal n.O 125527/98


Reservados todos os direitos para Portugal à

EDITORIAL PRESENÇA

Rua Augusto Gil, 35-A 1000 Lisboa

Email: info@editpresenca.pt

Internet: http://www.editpresenca.pt!
A Craig Stephenson,
No dia em que juntou as nossas cabeças,

O destino deu provas da sua imaginação,



A minha cabeça tão cheia com o tempo lá fora,

A tua com o tempo interior.
À maneira de Robert Frost

Agradecimentos
Ao longo dos sete anos que este livro me tomou, acumulei um número razoável de dívidas de gratidão. A ideia de escrever uma história da leitura começou com a tentativa de escrever um ensaio. Catherine Yolles sugeriu­-me que o assunto merecia um livro - a minha gratidão pela confiança que depositou em mim. Agradeço também aos meus editores - a Louise Dennys, leitora amabilíssima, que me incentivou com a sua amizade desde os tempos distantes de The Dictionary of Imaginary Places; a Nan Graham, que deu o seu apoio ao livro no início, e a Courtney Hodell, cujo entusiasmo o acompanhou até ao fim; a Philip Gwyn Jones, cujo estímulo me ajudou a continuar a ler passagens difíceis. Com mil cuidados e uma perícia digna de Sherlock Holmes, Gena Gorrell e Beverley Beetham Endersby reviram o meu manuscrito: para todos os meus agradecimentos, como de costume. Paul Hodgson encarregou-se da parte gráfica com meticulosidade e inteligência. Os meus agentes Jennifer Barclay e Bruce Westwood afastaram-me da porta lobos, gerentes bancários e cobradores de impostos. Vários amigos fizeram sugestões - Marina Warner, Giovanna Franci, Dee Fagin, Ana Becciú, Greg Gatenby, Carmen Criado, Stan Persky, Simone Vauthier. Os professores catedráticos Amos Luzzatto, Roch Lecours, M. Hubert Meyer e Fr. F. A. Black acederam com generosidade a ler e emendar alguns dos capítulos; os erros que permanecem são da minha total responsabilidade. Sybel Ayse Tuzlac encarregou-se de parte da investigação inicial. Os meus sinceros agradecimentos aos bibliotecários que me desencantaram livros raros e me responderam com paciência a perguntas de leigo na Metro Toronto Reference Library, Robarts Library, Thomas Fisher Rare Book Library - todas em Toronto -, Bob Foley e o pessoal da biblioteca no Banff Centre for the Arts, a Bibliotheque Humaniste Sélestat, a Bibliotheque Nationale de Paris, a Bibliotheque Historique de la Ville de Paris, a American

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Library em Paris, a Biblioteca da Universidade de Estrasburgo, a Bibliotheque Municipale em Colmar, a Huntington Library em Pasadena, Califórnia, a Biblioteca Ambrosiana em Milão, a London Library e a Biblioteca Nazi onale Marciana em Veneza. Gostaria também de agradecer ao Programa de Jornalismo Cultural MacIean Hunter e à Livraria Pages em Calgary, onde foram lidos pela primeira vez excertos deste livro.


Ter-me-ia sido impossível terminar este livro sem a ajuda financeira do Arts Council de Ontário e do Canada Council, assim como do fundo George Woodcock.
Em memória de Jonathan Warner, cujo apoio e conselhos tanta falta me fazem.

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Ao Leitor


A leitura tem uma história.
ROBERT DARNTON The Kiss af Lamaurette, 1990
O desejo de ler, como todos os outros desejos que distraem as nossas tristes almas, pode ser analisado.
VIRGINIA WOOLF «Sir Thomas Browne», 1923
Mas quem há-de ser o mestre? O escritor ou o leitor?
DENIS DIDEROT, Jacques le Fataliste et san Maítre, 1796
Índice

A ÚLTIMA PÁGINA

A última página, 17
ACTOS DE LEITURA
Leitura de sombras, 39

Os leitores silenciosos, 53

O livro da memória, 67

Aprendizagem da leitura, 79

A primeira página ausente, 97

Leitura de imagens, 107

Leitura ouvida, 121

O formato do livro, 135

Leitura íntima, 159

Metáforas da leitura, 173


PODERES DO LEITOR
Primórdios, 185

Ordenadores do universo, 195

Leitura do futuro, 209

O leitor simbólico, 219

Leitura entre paredes, 231

Furto de livros, 243

O autor como leitor, 251

O tradutor como leitor, 263

Leitura proibida, 279

O tolo dos livros, 291

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PÁGINAS DE GUARDA
Páginas de guarda, 307
NOTAS, 319

FONTES DAS ILUSTRAÇÕES, 351


ÍNDICE REMISSIVO, 355
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A Última Página

Ler para Viver.
GUSTAVE FLAUBERT
Carta a Mlle. de Chantepie, Junho de 1857



Legenda de imagem:

Uma confraria universal de leitores



Da esquerda para a direita e de cima para baixo: o jovem Aristóteles, por Charles Degeorge; Virgílio, por Ludger tom Ring, o Velho; São Domingos, por Fra Angelico; Paolo e Francesca, por Anselm Feuerbach; dois estudantes islâmicos, por um ilustrador anónimo; o Menino Jesus discursando no Templo, por discípulos de Martin Schongauer; o túmulo de Valentine Balbiani, por Germain Pilon; São Jerónimo, por um discípulo de Giovanni Bellini; Erasmo no seu quarto de estudo, por um artista de gravura anónimo.

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A Última Página


Com uma das mãos caída ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desenrolado no colo, sentado numa cadeira almofadada, com um pé por cima do outro. Exibindo umas lunetas encavalitadas no nariz aquilino, um Virgílio de turbante e barba volta as páginas de um volume rubricado, num retrato executado quinze séculos após a morte do poeta. Descansando num degrau largo, com o queixo apoiado ao de leve na mão direita, São Domingos está absorto no livro que tem aberto sobre os joelhos, alheado do mundo. Dois amantes, Paolo e Francesca, aconchegam-se debaixo de uma árvore enquanto lêem um verso que os conduzirá à perdição: Paolo, à semelhança de São Domingos, tem o queixo apoiado na mão; Francesca segura o livro aberto, marcan­do com dois dedos a página que jamais alcançarão. A caminho da escola de medicina, dois estudantes islâmicos do século XII param para consultar um dos livros que levam consigo. Apontando para a página da direita de um livro aberto no regaço, o Menino Jesus explica a sua leitura aos anciãos no Templo enquanto estes, atónitos e incrédulos, voltam em vão as páginas dos respectivos tomos em busca de uma refutação.

Tão bela como em vida, observada por um atento cãozinho de regaço, a dama nobre milanesa Valentina Balbiani folheia as páginas do seu livro de mármore, na tampa de um túmulo que representa, em baixo-relevo, a imagem do seu corpo descarnado. Longe da cidade movimentada, por entre areia e penedos ressequidos, São Jerónimo, qual viajante idoso à espera do comboio diário, lê um manuscrito em formato de tablóide, sendo escutado por um leão que se encontra a um canto. O. grande humanista Desidério Erasmo partilha com o amigo Gilbert Cousin uma piada do livro que está a ler, aberto no atril à sua frente. Ajoelhado por entre flores de aloendro, um poeta indiano do século XVII cofia a barba enquanto reflecte sobre os versos que acaba de ler em voz alta para melhor lhes captar o sabor, segurando o livro ricamente encadernado na mão esquerda. Junto a uma estante de


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prateleiras toscas, um monge coreano pega numa das oitenta mil placas de madeira da Tripitaka Koreana, uma obra com sete séculos de existência, e segura-a na sua frente, lendo com atenção silenciosa. «Estuda para atingir a quietude» é o conselho dado pelo artista desconhecido do vitral que retrata o pescador e ensaísta Izaak Walton a ler um pequeno livro nas margens do rio Itchen, perto da Catedral de Winchester.




Legenda de imagem: IDa esquerda para a direita e de cima para baixo: um poeta mongol, por Muhammad Ali; a biblioteca do Templo Haeinsa na Coreia; Izaak Walton, por um pintor inglês anónimo do século XIX; Maria Madalena, por Emmanuel Benner; Dickens numa sessão de leitura; um jovem num quai de Paris.

Uma Maria Madalena nua, bem penteada e aparentemente nada arrepen­dida, deitada sobre um pedaço de tecido estendido sobre um penedo num ermo, lê um livro ilustrado de formato grande. Recorrendo ao seu talento de actor, Charles Dickens segura na mão um dos seus romances, de que se prepara para ler excertos a um público entusiástico. Apoiado num parapeito de pedra sobre o Sena, um jovem perde-se nas páginas de um livro (qual será?) que segura aberto à sua frente. Impaciente ou apenas aborrecida, a mãe


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Legenda de imagem: Da esquerda para a direita: mãe a ensinar o filho a ler, por Gerard ter Borch; Jorge Luis Borges, por Eduardo Comesaiía; uma cena num bosque, por Hans Toma.

segura um livro enquanto o filho, ruivo, tenta seguir as palavras com a mão direita na página. Jorge Luis Borges, cego, fecha os olhos para melhor ouvir. as palavras de um leitor invisível. Numa floresta cheia de sombras, sentado num tronco coberto de musgo, um rapazinho segura com ambas as mãos um pequeno livro que está a ler em doce sossego, senhor do tempo e do espaço. Todos são leitores, e os seus gestos, a sua actividade, o prazer, responsabilidade e poder que obtêm na leitura partilho-os com eles.

Não estou sozinho.
Descobri pela primeira vez que sabia ler aos quatro anos. Já tinha visto vezes sem conta as letras que sabia (porque mo tinham dito) serem os nomes das imagens debaixo das quais se encontravam. O menino desenha­do em traços negros e grossos, com uns calções vermelhos e uma camisa verde (os mesmos tecidos vermelhos e verdes usados em todas as outras imagens do livro, cães e gatos e árvores e mães magras e altas), era também, de alguma forma, apercebi-me então, as formas negras e hirtas que se encontravam por baixo, como se o corpo do menino tiVesse sido esquartejado em três figuras nítidas: um braço e o tronco, b; a cabeça separada, tão perfeitamente redonda, o; e as pernas, bambas e pendentes, y. Desenhei uns olhos no rosto redondo, e também um sorriso, e preenchi o círculo oco do tronco. Mas havia mais: eu sabia que aquelas formas não só reflectiam o menino que se encontrava por cima delas, mas que também me podiam dizer exactamente o que o menino estava a fazer com os braços esticados e as pernas afastadas. O menino [boy] corre, diziam as formas. Não estava a saltar, como eu poderia ter julgado, ou a fingir que estava imobilizado ou a jogar um jogo cujas regras e objectivos me eram desconhecidos. O menino corre.
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No entanto, estas revelações eram actos comuns de magia, menos interessantes porque alguém os tinha realizado por mim. Um outro leitor - tal­vez a minha ama - tinha-me explicado as formas e depois, de cada vez que as páginas se abriam para revelar a imagem deste exuberante menino, eu sabia o que as formas debaixo dele queriam dizer. Havia nisto um certo prazer, mas depressa se esgotou. Faltava a surpresa.

Então, um dia, da janela de um carro (o destino dessa viagem está esquecido), vi um cartaz ao lado da estrada. Não o devo ter visto durante muito tempo; talvez o carro tenha parado por um momento, talvez tenha abrandado o suficiente para eu poder ver, a pairarem em ponto grande, formas semelhantes às do meu livro, mas que eu nunca vira. No entanto, de repente, soube o que elas eram; ouvi-as na minha cabeça, o resultado de uma metamorfose de linhas pretas e espaços brancos numa realidade sólida, sonora e com sentido. Tinha feito tudo isto sozinho. Ninguém realizara a magia por mim. Eu e as formas estávamos sozinhos juntos, revelando-nos mutuamente, num diálogo em respeitoso silêncio. Ao con­seguir transformar simples linhas em realidade viva, tornara-me todo­-poderoso. Sabia ler.

Já não me lembro de qual era a palavra do cartaz desse passado distante (recordo vagamente uma palavra com vários ás), mas a impressão de subitamente ser capaz de compreender o que antes só podia ver permanece tão nítida hoje como naquela altura. Foi como ad­quirir um sentido inteiramente novo, de modo que a partir desse momento certas coisas não consistiam apenas no que os meus olhos viam, os meus ouvidos ou­viam, a minha língua saboreava, o meu nariz cheirava, os meus dedos sentiam, mas também no que o meu corpo todo decifrava, traduzia, lia, em tudo aquilo a que dava voz.


Legnda de imagem: Um exemplar de Chia-ku-wen, ou «escrita de osso e concha», numa carapaça de tartaruga, de cerca de 1300-1100 a. C.

Os leitores de livros, em cuja família eu estava a entrar sem o saber (pensa­mos sempre que estamos sós em cada descoberta e que cada experiência, da morte ao nascimento, é aterradoramente singular), expandem ou condensam uma função que nos é comum a todos. Ler letras numa página é apenas uma das suas muitas manifestações. O astróno­mo a ler um mapa de estrelas que já não existem; o arquitecto japonês a ler a terra­


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onde uma casa vai ser construída para a proteger de forças malignas; o zoólogo a ler o rasto dos animais na floresta; o jogador de cartas a ler os gestos do seu parceiro antes de arriscar a carta decisiva; o dançarino a ler as notações do coreógrafo e o público a ler os movimentos do dançarino no palco; o tecelão a ler o desenho complicado de um tapete a ser tecido; o organista a ler várias pautas de música orquestradas na página; os pais a lerem no rosto do bebé sinais de alegria, medo ou surpresa; o adivinho chinês a ler as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante a ler às cegas o corpo da pessoa amada, à noite, entre os lençóis; o psiquiatra a ajudar os pacientes a lerem os seus próprios sonhos confusos; o pescador havaiano a ler as correntes do oceano, mergulhando a mão na água; o lavrador a ler no céu o tempo que vai fazer - todas estas pessoas partilham com o leitor de livros a capacidade de decifrar e traduzir signos. Algumas destas leituras são influenciadas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para este fim específico por outros seres humanos - notações mu­sicais ou sinais de trânsito, por exemplo - ou pelos deuses - a carapaça da tartaruga, o céu nocturno. Outras são obra do acaso.

Porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibili­dade ou lha concede; é o leitor que tem de atribuir significação a um sistema de signos e em seguida decifrá-lo. Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais.

Só aprendi a escrever muito mais tarde, quando tinha sete anos. Talvez pudesse viver sem escrever. Não acho que pudesse viver sem ler. Descobri que a leitura precede a escrita. Uma sociedade pode existir - e muitas o fazem – sem escrita [N1], mas nenhuma sociedade pode existir sem a leitura

Segundo o etnólogo Philippe Descola, [N2] as sociedades sem escrita têm um sentido linear do tempo, ao passo que nas sociedades letradas o sentido do tempo é cumulativo; ambos os tipos de sociedade se movimentam dentro destes tempos diferentes, mas igualmente complexos, através da leitura da multiplicidade de signos que o mundo tem para oferecer. Mesmo nas sociedades que registam a sua existência, a leitura precede a escrita; o escritor em potência tem de ser capaz de reconhecer e decifrar o sistema social de signos antes de os inscrever na página. Para a maior parte das sociedades letradas - para o Islão, para as so_edades judaicas e cristãs como a minha, para os antigos Maias, para as vastas culturas budistas -, a leitura está na base do contrato social; aprender a ler foi o meu rito de passagem.

Depois de ter aprendido a ler as letras, lia tudo: livros, mas também avisos, anúncios, as letras miudinhas nas costas dos bilhetes de eléctrico, cartas deitadas no lixo, jornais velhos apanhados debaixo do meu banco no
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jardim, grafitos, a contracapa de revistas nas mãos de outros leitores no autocarro. Quando descobri que Cervantes, na sua paixão pela leitura, lia «até os pedaços de papel rasgado na rua»,[N3] fui capaz de reconhecer exacta­mente o impulso que o dominava. Esta veneração do livro (em pergaminho, papel ou ecrã) é um dos fundamentos de uma sociedade letrada. O Islão leva esta ideia ainda mais longe: o Alcorão não é apenas uma criação de Deus, mas também um dos Seus atributos, tal como a Sua omnipresença ou a Sua compaixão.

A experiência das coisas tive-a em primeiro lugar através dos livros. Quando, mais tarde, me deparei com um acontecimento, circunstância ou personagem semelhantes àqueles sobre os quais tinha lido, o resultado era nonualmente uma sensação algo perturbante mas desencantada de déjà vu, pois imaginava que o que se estava a passar nesse momento já me tinha acontecido em palavras, já tinha sido nomeado. O texto hebraico de pensamento sistemático e especulativo mais antigo que se conhece - o Swfer Yezirah, escrito no século VI - explica que Deus criou o mundo através de trinta e dois caminhos de sabedoria secretos, dez Sefirot, ou números, e vinte e duas letras.[N4] A partir dos Sefirot foram criadas todas as coisas abstractas; com as vinte e duas letras criaram-se todos os seres reais nos três estratos do cosmo - o mundo, o tempo e o corpo humano. O universo, na tradição judaico-cristã, é concebido como um Livro escrito, feito de números e letras; a chave para compreender o universo reside na nossa capaci­dade para ler estes números e letras adequadamente e conseguir o domínio das suas combinações, aprendendo assim a dar forma a alguma parte desse texto colossal, numa imitação do nosso Criador. (Segundo uma lenda do século IV, os eruditos talmúdicos Hanani e Hoshaiah estudavam o Sefer Yezirah uma vez por semana e, através da combinação acertada das letras, criavam um vitelo de três anos, que comiam ao jantar.)




Legenda de imagem da página 23: Uma página do texto cabalístico Pa' amon ve-Rimmon, impresso em Amsterdão em 1708, representando os dez Sefirot.

Os meus livros eram para mim transcrições ou glosas daquele outro Livro colossal. Num soneto, Miguel de Unamuno [N0] fala do Tempo, cuja fonte está no futuro; a minha vida de leitor dava-me essa mesma impressão de ir contra a corrente, de viver o que já tinha lido. A rua lá fora estava cheia de homens maus empenhados nos seus negócios escuros. O deserto, que não distava da nossa casa em Telavive, onde vivi até aos seis anos, era um prodígio, porque eu sabia que havia uma Cidade de Bronze enterrada debaixo da areia, do lado de lá da rua asfaltada. A gelatina era uma substância misteriosa que eu nunca tinha visto, mas que conhecia dos livros de Enid Blyton, e que nunca chegou a alcançar, quando finalmente a provei, a qualidade daquela ambrósia literária. Escrevi à minha avó, que vivia muito longe, a queixar-me de um problema sem importância, pensando que ela seria a fonte da mesma liberdade magnífica que os meus órfãos literários encontravam quando descobriam parentes há muito perdidos; em vez de me resgatar, ela enviou a carta aos meus pais, que acharam os meus queixumes


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vagamente divertidos. Eu acreditava em bruxaria e tinha a certeza de que um dia me seriam concedidos três desejos que inúmeras histórias me tinham ensinado a não desperdiçar. Preparei-me para encontros com fantasmas, com a morte, com animais falantes, com batalhas; fiz planos complicados para viajar para ilhas de aventura, nas quais Sinbad se tornaria meu amigo íntimo. Só quando, anos mais tarde, toquei pela primeira vez o corpo da pessoa amada é que me apercebi de que a literatura pode por vezes ficar aquém do acontecimento.

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O ensaístã canadiano Sfãn Persky disse-me uma vez que «para os leito­res, deve haver um milhão de autobiografias», visto que se nos afigura encontrarmos, em cada livro, vestígios das nossas vidas. «Anotar as impres­sões da leitura de Hamlet, ano após ano», escreveu Virginia Woolf, «seria praticamente registar a nossa própria autobiografia, pois, à medida que ficamos a saber mais sobre a vida, Shakespeare vai comentando o que aprendemos.» [N6] Para mim, era algo diferente. Se os livros eram autobiogra­fias, eram-no antes do acontecimento, e eu reconhecia situações posteriores no que tinha lido em H. G. Wells, em Alice no País das Maravilhas, no lacrimoso Cuore de Edmondo De Amicis, nas aventuras de Bomba, o Menino da Selva. Sartre, nas suas memórias, confessa ter tido uma expe­riência semelhante. Comparando a flora e a fauna descobertas nas páginas da Enciclopédia Larousse com as suas correspondentes nos Jardins do Luxemburgo, descobriu que «os macacos no jardim zoológico eram menos macacos, as pessoas nos Jardins do Luxemburgo menos pessoas. À seme­lhança de Platão, passei do conhecimento ao seu objecto. Encontrei mais realidade na ideia do que na coisa, porque aquela me tinha sido dada primeiro e como coisa. Foi em livros que encontrei o universo: resumido, classificado, rotulado, meditado, ainda cheio de força».?



Ler forneceu-me uma desculpa para a privacidade ou talvez tenha dado um sentido à privacidade que me era imposta, visto que, durante toda a minha infância, depois de termos regressado à Argentina em 1955, vivi à parte do resto da minha família, a cargo da minha ama numa outra zona da casa. Nessa altura, o meu lugar de leitura preferido era o chão do meu quarto, deitado de bruços e com os pés enganchados numa cadeira. Mais tarde, a minha cama, pela noite dentro, tornou-se o lugar mais seguro e mais isolado para ler naquela região nebulosa entre a vigília e o sono. Não me recordo de alguma vez me ter sentido só; de facto, nas raras ocasiões em que me encontrava com outras crianças, achava as suas brincadeiras e conver­sas bem menos interessantes do que as aventuras e os diálogos que lia nos meus livros. O psicólogo James Hillman acredita que aqueles que leram histórias ou a quem foram lidas histórias na infância «estão em melhor forma e têm um prognóstico mais favorável do que aqueles que têm ainda de ser familiarizados com a ficção […] Chegando no início da vida, é já uma perspectiva sobre a vida». Para Hillman, estas primeiras leituras tornam-se
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«algo vivido e experimentado, uma forma através da qual a alma se situa na vida». [N8] A estas leituras, e por esta razão, voltei repetidas vezes, e volto ainda.

Como o meu pai estava no serviço diplomático, viajávamos muito; os livros davam-me um lar permanente, um lar que habitava à minha vontade, em qualquer altura, por mais estranho que fosse o quarto onde tinha de dormir ou por mais ininteligíveis que fossem as vozes ouvidas do outro lado da minha porta. Muitas noites, acendia o candeeiro enquanto a minha ama trabalhava à sua máquina de tricotar eléctrica ou ressonava na cama em frente à minha e eu tentava chegar ao fim do livro que estava a ler e, simultaneamente, adiar o final tanto quanto possível, relendo algumas páginas, procurando uma parte que me agradara especialmente, verificando pormenores que suspeitava terem-me escapado.

Nunca falava com ninguém sobre as minhas leituras; a necessidade de partilhar veio mais tarde. Na altura, eu era soberbamente egoísta e identificava-me completamente com os versos de Stevenson:
Este era o mundo e eu era rei;

Para mim vinham as abelhas a zunir,



Para mim voavam as andorinhas.[N9]
Cada livro era um mundo em si e nele eu procurava refúgio. Embora me soubesse incapaz de inventar histórias como as que os meus autores preferidos escreviam, sentia que as minhas opiniões muitas vezes coincidiam com as deles e (usando a frase de Montaigne) «Comecei a andar muito atrás deles, murmurando: 'Apoiado, apoiado!'.»lo Mais tarde, consegui dissociar-me da ficção contida nos livros; mas na infância e em grande parte da adolescência, o que o livro me dizia, por mais fantástico que fosse, era verdade na altura em que o lia e tão tangível como a matéria de que o próprio livro era feito. Walter Benjamin descreve uma experiência semelhante: «O que os primeiros livros foram para mim - para recordá-lo teria primeiro de esquecer todo o restante conhecimento de livros. É certo que tudo o que sei deles hoje reside na presteza com que então me abri aos livros; porém, enquanto agora, conteúdo, tema e assunto são alheios ao livro, antes encontravam-se única e inteiramen­te dentro dele, não sendo mais externos ou autónomos do que são hoje em dia o número das suas páginas ou o papel. O mundo que se revelava no livro e o livro em si não eram nunca separáveis. Assim, em cada livro, também o seu conteúdo, o seu mundo, estavam palpavelmente lá, à mão. Mas, da mesma forma, este conteúdo e este mundo transfiguravam cada parte do livro. Ar­diam dentro dele, resplandeciam dele; localizados não apenas na capa ou nas ilustrações, estavam encerrados nos títulos de capítulos e capitulares, parágra­fos e colunas. Não se liam livros de ponta a ponta; vivia-se, residia-se entre as suas linhas e, ao voltar a abri-los após um intervalo, era-se apanhado de surpresa no lugar onde se tinha interrompido a leitura.» [N11]
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Mais tarde, adolescente na biblioteca pouco usada do meu pai em Bue­nos Aires (ele tinha mandado a sua secretária encher a biblioteca e ela comprara livros a metro e mandara-os encadernar à medida das prateleiras, de forma que os títulos no topo das páginas e, por vezes, até as primeiras linhas estavam cortados), fiz uma outra descoberta. Tinha começado a procurar na gigantesca enciclopédia espanhola Espasa-Calpe as entradas que eu julgava relacionadas com o sexo de uma forma ou de outra: «Mas­turbação», «Pénis», «Vagina», «Sífilis», «Prostituição». Estava sempre so­zinho na biblioteca, já que o meu pai apenas a utilizava nas raras ocasiões em que tinha um encontro marcado com alguém em casa e não no escritó­rio. Eu teria doze, treze anos; estava todo enroscado numa das enormes poltronas, absorvido na leitura dos efeitos devastadores da gonorreia, quan­do o meu pai entrou e se instalou à secretária. Por momentos, fiquei aterro­rizado com a ideia de que ele iria reparar no que eu estava a ler, mas apercebi-me então de que ninguém - nem sequer o meu pai, sentado a alguns passos de mim - podia penetrar no meu espaço de leitura, decifrar o que me estava a ser dito licenciosamente pelo livro que eu segurava nas mãos, e que nada, a não ser a minha própria vontade, poderia permitir a alguém sabê-lo. O pequeno milagre permaneceu silenciado, conhecido ape­nas por mim. Terminei o artigo sobre a gonorreia mais exultante do que chocado. Mais tarde ainda, na mesma biblioteca, para completar a minha educação sexual, li O Conformista, de Alberto Moravia, O Impuro, de Guy Des Cars, Peyton Place, de Grace Metalious, Main Street, de Sinclair Lewis, e Lolita, de Vladimir Nabokov.

Havia privacidade não apenas na leitura, mas também na decisão sobre o que ler, na escolha dos livros nas livrarias há muito desaparecidas de Telavive, de Chipre, de Garmisch-Partenkirchen, de Paris, de Buenos Aires. Muitas vezes escolhi livros pela capa. Houve momentos que recordo ainda agora: por exemplo, lembro-me de ver a sobrecapa de brilho mate dos Rainbow Classics (publicados pela World Publishing Company of Cleveland, de Ohio) e ficar encantado com as encadernações estampadas por baixo, saindo da livraria com Hans Brinker ou The Silver Skates (de que nunca gostei e que não cheguei a acabar), Mulherzinhas e Huckleberry Finn. Todos estes livros tinham introduções por May Lamberton Becker, intituladas «Como Surgiu este Livro», e o seu tom bisbilhoteiro ainda continua a parecer-me uma das formas mais excitantes de falar sobre livros. «Assim, numa fria manhã de Setembro de 1880, com uma chuva escocesa a martelar nas janelas, Stevenson aproximou-se da lareira e começou a escrever», lia-se na introdução da Sra. Becker à Ilha do Tesouro. Aquela chuva e aquela lareira acompanharam-me durante todo o livro.

Recordo, numa livraria em Chipre, onde o navio em que viajávamos tinha atracado por alguns dias, uma montra cheia de histórias de Noddy, com as suas capas de cores berrantes, e o prazer de imaginar que ia construir
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a casa do Noddy com ele, usando uma caixa de blocos de construção de brincar representada na capa. (Mais tarde, sem vergonha nenhuma, deleitei­-me com a série da The Wishing Chair, de Enid Blyton, que eu não sabia ter sido considerada «sexista e snob» pelos bibliotecários ingleses.) Em Buenos Aires descobri a série brochada do Robin dos Bosques, com o retrato de cada herói delineado a negro num fundo amarelo, e li as aventuras de piratas de Emilio Salgari - O Tigre da Malásia -, os romances de Júlio Verne e The Mystery oi Edwin Drood, de Dickens. Não me lembro de alguma vez ler os comentários às obras na contracapa para descobrir do que tratavam os livros; não sei se os livros da minha infância os tinham.

Penso que lia pelo menos de duas formas. Uma consistia em seguir, com a respiração suspensa, os acontecimentos e as personagens, sem pausas para reparar nos pormenores, com o ritmo acelerado da leitura muitas vezes a precipitar a história para além da última página - como quando li Rider Haggard, a Odisseia, Conan Doyle e o autor alemão de histórias do Far West, Karl May. A outra consistia numa exploração cuidada, perscrutando o texto para compreender o seu sentido enredado, achando prazer nos meros sons das palavras ou nas pistas que as palavras não queriam revelar, ou no que eu suspeitava estar escondido no fundo da própria história, algo demasiado terrível ou maravilhoso para se poder olhar de frente. Este segundo tipo de leitura - que tinha algo a ver com a forma de ler romances poli­ciais - descobri-o em Lewis Carroll, em Dante, em Kipling, em Borges. Também lia segundo o que julgava que o livro pretendia ser (classificado pelo autor, pelo editor, por outro leitor). Aos doze anos, li A Caça, de Chekhov, numa série policial e, tomando Chekhov por um escritor de policiais russo, li em seguida «Senhora com Cãozinho», como se tivesse sido escrito por um rival de Conan Doyle, e gostei, embora achasse o enredo pouco elaborado. Samuel Butler conta uma história semelhante a respeito de um certo William Sefton Moorhouse, que «julgou que estava a ser convertido ao cristianismo ao ler Anatomy oi Melancholy, de Burton, que adquirira por engano, pensando tratar-se de Analogy, de Butler, livro que lhe fora recomendado por um amigo seu. Mas ficou bastante per­plexo».[N12] Numa história publicada nos anos 40, Borges sugere que a leitura de A Imitação de Cristo, de Thomas à Kempis, como se tivesse sido escrito por James Joyce, «seria uma renovação suficiente para aqueles ténues exer­cícios espirituais».[N13]


)No seu Tractatus Theologico-Politicus de 1650 (denunciado pela Igreja Católica Romana como um livro «forjado no inferno por um judeu renega­do e pelo demónio»), Espinosa tinha já observado: «Acontece com frequên­cia lermos em livros diferentes histórias em si mesmas semelhantes, mas que julgamos de forma muito diversa, de acordo com as opiniões que formámos dos autores. Lembro-me de uma vez ter lido num livro qualquer que um homem chamado Orlando Furioso, montando uma espécie de mons­tro
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alado, sobrevoava todos os países que queria e matava sem ajuda um elevado número de homens e gigantes, e outras fantasias como estas, que, do ponto de vista da razão, são obviamente absurdas. Li uma história muito semelhante em Ovídio, sobre Perseu, e também, na Bíblia, nos livros dos Juízes e Reis, sobre Sansão, que, sozinho e desarmado, matou milhares de homens, e sobre Elias, que voou pelos ares e, por fim, subiu ao céu num carro de fogo puxado por cavalos indómitos. Todas estas histórias são obviamente semelhantes, mas julgamo-las de formas muito diferentes. A primeira pro­curava apenas divertir, a segunda tinha um objectivo político, a terceira um objectivo religioso.»[N14] Também eu, por muito tempo, continuei a atribuir objectivos aos livros que lia, imaginando, por exemplo, que Pilgrim' s Pro­gress, de Bunyan, me faria sermões, porque me tinham dito que se tratava de uma alegoria religiosa - como se eu tivesse a capacidade de escutar o que se passava na cabeça do autor no momento da criação e de obter provas de que ele estava mesmo a falar verdade. A experiência e algum senso comum ainda não me curaram completamente deste vício supersticioso.

Por vezes, os próprios livros eram talismãs: uma certa edição em dois volumes de Tristram Shandy, uma edição da Penguin de The Beast Must Die, de Nicholas Blake, um exemplar em mau estado de Annotated Alice, de Martin Gardner, que mandei encadernar (e me custou uma mesada inteira) numa livraria escusa. Lia estes livros com um cuidado especial e guardava­-os para momentos especiais. Thomas à Kempis aconselhava os seus alunos a pegar «num livro nas vossas mãos tal como Simeão, o Justo, pegou ao colo no Menino Jesus para o levar e o beijar. E quando ti verdes acabado de ler, fechai o livro e dai graças por cada uma das palavras saídas da boca de Deus; porque no campo do Senhor encontrastes um tesouro escondido» [N15]. E São Bento, escrevendo numa altura em que os livros eram relativamente raros e dispendiosos, ordenou aos seus monges que segurassem «se pos­sível» os livros que liam «na mão esquerda, envolta na manga da túnica, e de joelhos; a mão direita deve estar descoberta para segurar as páginas e as voltar» 16. As minhas leituras de adolescente não envolviam tal veneração profunda nem rituais tão meticulosos, mas estavam imbuídas de uma certa solenidade e importância secretas que não negarei agora.

Eu queria viver entre os livros. Aos dezasseis anos, em 1964, encontrei emprego para o período depois das aulas na livraria Pygmalion, uma das três livrarias anglo-alemãs de Buenos Aires. A proprietária era Lily Lebach, uma judia alemã que tinha fugido aos nazis e se instalara em Buenos Aires no final da década de 30, e que me encarregava diariamente da tarefa de limpar o pó a cada um dos livros da livraria - método pelo qual ela julgava (acertadamente) que eu depressa ficaria a conhecer a existência e a sua localização nas prateleiras. Infelizmente, muitos dos livros aliciavam-me para além da mera limpeza; queriam que eu pegasse neles, os abrisse e inspeccionasse e, por vezes, nem mesmo isso bastava. Algumas vezes furtei
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um livro tentador; levava-o para casa comigo, escondido no bolso do casaco, pois não me bastava lê-lo; tinha de o possuir, de o chamar meu. A romancista Jamaica Kincaid, ao confessar o mesmo crime de furtar livros da biblioteca na sua infância em Antígua, explicou que não era sua intenção cometer um furto; mas «depois de ler um livro, não suportava a ideia de me separar dele» [N17]. Também descobri em pouco tempo que não se lê apenas Crime e Castigo ou A Tree Grows in Brooklyn. Lê-se uma certa edição, um exemplar específico, reconhecível pelo grão do papel, rugoso ou suave, pelo seu odor, por um pedacinho rasgado na página 72 e uma mancha de café no canto direito da contracapa. A regra epistemológica para a leitura, estabele­cida no século lI, segundo a qual o texto mais recente substitui o anterior, visto que supostamente o contém, raramente tem sido aplicável no meu caso. No início da Idade Média, os escribas tinham o dever de «corrigir» os erros que detectassem no texto que copiavam, produzindo desta forma um texto «melhor»; para mim, no entanto, a edição na qual lia um livro pela primeira vez tornava-se a editio princeps, com a qual todas as outras tinham de ser comparadas. A imprensa deu-nos a ilusão de que todos os leitores de Dom Quixote lêem o mesmo livro. Para mim, mesmo hoje em dia, é como se a invenção da imprensa nunca tivesse acontecido, e cada exemplar de um livro permanece tão singular como a fénix.

No entanto, a verdade é que determinados livros emprestam certas características a determinados leitores. Encontra-se implícita na posse de um livro a história das suas leituras prévias, ou seja, cada novo leitor é afectado por aquilo que imagina que o livro foi nas mãos dos seus predecessores. O meu exemplar em segunda mão da autobiografia de Kipling, Something of Myself, que comprei em Buenos Aires, tem um poema manuscrito na página de guarda, datado do dia da morte de Kipling. Será que o poeta repentista dono deste exemplar era um ardente imperialista? Um apreciador da prosa de Kipling que reconhecia o artista mesmo através da sua pátina jingoísta? O meu predecessor imaginário afecta a minha leitura, porque dou comigo a dialogar com ele, defendendo este ou aquele argumento. Um livro traz a sua própria história ao leitor.

A Sra. Lebach sabia decerto que os seus empregados surripiavam livros, mas suspeito que, enquanto ela achasse que não excedíamos certos limites tácitos, continuaria a permitir a prática desse crime. Uma ou duas vezes, quando me viu embrenhado nalgum livro recente, mandou-me meter mãos ao
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trabalho e guardar o livro para o ler em casa nos meus tempos livres. Passaram -me pelas mãos livros maravilhosos na sua livraria: José e os Seus Irmãos e Thomas Mann, Herzog, de Saul Bellow, The Dwmf, de Par Lagerkvist, Nine Stories, de Salinger, The Death ofVirgil, de Broch, The Green Child, de Herbert Read, Confissões de Zeno, de Italo Svevo, os poemas de Rilke, de Dylan Thomas, de Emily Dickinson, de Gerard Manley Hopkins, os poe­mas de amor egípcios traduzidos por Ezra Pound, a epopeia de Gilgamesh.
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Uma tarde, Jorge Luis Borges veio à livraria acompanhado pela mãe, uma velha senhora de oitenta e oito anos. Era famoso, mas eu lera apenas alguns dos seus poemas e histórias, e não me sentia avassalado pela sua literatura. Estava quase completamente cego, mas, mesmo assim, recusava-se a usar bengala, e passava a mão pelas estantes como se os seus dedos pudessem ler os títulos. Andava à procura de livros para estudar anglo-saxão, que era a sua paixão mais recente, e tínhamos enco­mendado para ele o dicionário de Skeat e uma versão anotada de Battle of Maldon. A mãe de Borges começou a ficar impaciente; «Ó Jorginho», exclamou ela, «não sei porque perdes o teu tempo com o anglo-saxão, em vez de estudares uma coisa útil, como latim ou grego!» Por fim, ele voltou-se e pediu-me vários livros. Encontrei alguns deles, tomei nota dos títulos dos outros e então, quando já estava para se ir embora, perguntou­-me se tinha os serões ocupados, porque (disse-o em tom de desculpa) precisava de alguém para lhe ler em voz alta, visto que a mãe se cansava muito depressa. Eu acedi.

Nos dois anos seguintes li para Borges, à semelhança de muitos outros dos seus conhecidos afortunados e casuais, quer ao serão, quer de manhã, quando o horário escolar mo permitia. O ritual era sempre o mesmo. Voltando as costas ao elevador, subia as escadas até ao seu apartamento (esca­das semelhantes às que Borges subira uma vez, levando um exemplar recém-adquirido das Mil e Uma Noites; não reparou numa janela aberta e fez um lanho fundo que infectou, o que lhe provocou um delírio em que imaginou que estava a endoidecer); eu tocava à campainha; era conduzido pela criada, através de uma entrada com cortinados até à pequena sala de estar onde Borges me recebia, com as mãos suaves estendidas. Não havia preliminares; sentava-se, expectante, no sofá, enquanto eu tomava o meu lugar num cadeirão e, numa voz ligeiramente asmática, ele sugeria a matéria de leitura desse serão. «Escolhemos Kipling para hoje, está bem?» E é claro que se tratava de uma pergunta retórica.

Nessa sala de estar, sob uma gravura das ruínas circulares de Roma de Piranesi, li Kipling, Stevenson, Henry James, várias entradas da enciclopé­dia alemã Brockhaus, versos de Marino, de Enrique Banchs, de Heine (mas ele sabia de cor estes últimos, pelo que, mal eu começava a ler, interrompia­-me e, na sua voz hesitante, recitava os poemas de memória; a hesitação estava somente na cadência, não nas palavras em si, que ele recordava com exactidão). Eu não tinha ainda lido muitos destes autores, de forma que o ritual era bastante curioso. Eu descobria um texto lendo-o em voz alta, enquanto Borges usava os ouvidos como outros leitores usam os olhos para esquadrinhar uma página à procura de uma palavra, de uma frase, de um parágrafo que confirmassem um registo da memória. Durante a leitura, interrompia-me, fazendo comentários ao texto a fim de (penso eu) tomar notas mentais.
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Interrompendo-me depois de uma frase que achou muito cómica em New Arabian Nights, de Stevenson «vestido e pintado para representar uma pessoa relacionada com a Imprensa em circunstâncias difíceis» - «Como é que alguém pode vestir-se assim? O que achas que Stevenson tinha em mente? Estava a ser incrivelmente preciso? Não achas?»), passou a analisar a figura de estilo que consiste em definir algo ou alguém por meio de uma imagem ou categoria que, embora pareça exacta, obriga o leitor a construir uma definição pessoal. Ele e o seu amigo Adolfo Bioy Casares tinham jogado com aquela ideia num conto de dez palavras: «O forasteiro subiu as escadas no escuro: tic-toc, tic-toc, tic-toc.»

Durante a leitura do conto de Kipling «Beyond the Pale», Borges inter­rompeu-me depois de uma cena em que uma viúva hindu envia uma men­sagem ao seu amante, constituída por diferentes objectos numa trouxa. Comentou a adequação poética da cena e questionou-se sobre se Kipling teria inventado esta linguagem concreta e também simbólica 18. Em seguida, como se estivesse a consultar uma biblioteca mental, comparou-a à «lingua­gem filosófica» de John Wilkins, em que cada palavra é uma definição de si própria. Por exemplo, disse Borges, a palavra salmão não nos diz nada sobre o objecto que representa; zana, a palavra correspondente na língua de Wilkins, baseada em categorias pré-estabelecidas, significa «um peixe de água doce com escamas, de carne avermelhada» 19: z para peixe, za para peixe de água doce, zan para peixe de água doce com escamas, e zana para peixe de água doce com escamas, de carne avermelhada. As minhas leituras em voz alta para Borges resultavam sempre numa reordenação mental dos meus próprios livros; nesse serão, Kipling e Wilkins ficaram lado a lado na mesma prateleira imaginária. .

Numa outra vez (não recordo o que me tinha pedido para ler), começou a compilar uma antologia improvisada de versos de má qualidade por auto­res famosos, que incluíam «O mocho, apesar das suas penas, estava frio», de Keats, «Ó minha alma profética! Meu tio!», de Shakespeare (Borges achava «tio» um vocábulo inapropriado e pouco poético para ser dito por Hamlet e teria preferido «Irmão do meu pai!» ou «Parente da minha mãe!»), «Somos apenas as bolas de ténis das estrelas, em The Duchess 01 Malfi, de Webster, e os versos finais de Milton em Paradise Regained - «ele desper­cebido / / Ao lar da casa de sua mãe solitário regressou» - que transfor­mava Cristo (segundo Borges) num cavalheiro inglês de chapéu de coco regressando a casa da mãezinha para o chá das cinco.

Borges utilizava por vezes as leituras nos seus escritos. A descoberta de um tigre fantasma no conto de Kipling «The Guns of 'Fore and ' Aft», que lemos pouco antes do Natal, levou-o a elaborar uma das suas últimas histórias: i«Blue Tigers»; «Two Images in a Pond», de Giovanni Papini, inspirou os u «August 24, 1982», data que, nessa altura, pertencia ainda ao futuro; a sua irritação com Lovecraft (cujas histórias me mandou começar e aban­donar


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uma meia dúzia de vezes) fê-lo criar uma versão «corrigida» de uma história de Lovecraft e publicá-la em Dr. Brodie's Report. Frequentemente, pedia-me que registasse alguma coisa nas páginas de guarda do livro que estávamos a ler - uma referência a um capítulo ou um pensamento. Não sei como se servia destas anotações, mas também adquiri o hábito de falar de um livro nas suas costas.

Há um conto de Evelyn Waugh em que um homem, socorrido por outro em plena selva amazónica, é obrigado pelo seu salvador a ler Dickens em voz alta para o resto da vida. [N20] Eu nunca tive a sensação de estar apenas a cumprir um dever nas minhas leituras para Borges; em vez disso, a expe­riência parecia-me uma espécie de feliz cativeiro. Ficava deslumbrado não tanto com os textos que ele me fazia descobrir (muitos dos quais acabaram por se tornar meus favoritos), mas com os seus comentários, que eram de uma vasta mas discreta erudição, muito cómicos, por vezes cruéis, quase sempre indispensáveis. Eu sentia que era o único proprietário de uma edição cuidadosamente anotada, compilada para meu benefício exclusivo. Evidentemente que não o era; eu (como muitos outros) era apenas o seu caderno de apontamentos, um aide-mémoire de que o escritor cego necessitava para organizar as suas ideias. Encantava-me a ideia de ser usado.

Antes de conhecer Borges, ou lia silenciosamente, ou alguém me tinha lido em voz alta um livro da minha escolha. Ler em voz alta para aquele velho cego era uma experiência curiosa, porque, embora sentisse, com algum esforço, que o controlo do tom e do ritmo da leitura me pertenciam, era no entanto Borges, o ouvinte, que se tornava o dono do texto. Eu era o condutor, mas a paisagem, o espaço que se desenrolava, pertencia àquele que estava a ser conduzido, a quem cabia apenas apreender o que se avistava das janelas. Borges escolhia o livro, Borges mandava-me parar ou pedia-me que prosseguisse, Borges interrompia-me para fazer um comentário, Borges permitia às palavras que fossem até si. Eu era invisível.

Rapidamente aprendi que a leitura é cumulativa e avança numa progressão geométrica: cada nova leitura assenta naquilo que o leitor leu antes. Comecei por fazer suposições sobre as histórias que Borges escolhia por mim - que a prosa de Kipling seria afectada, a de Stevenson infantil, a de Joyce ininteligível -, mas em breve o preconceito deu lugar à experiência em si, e a descoberta de uma história fazia-me antecipar o prazer de uma outra que, por sua vez, se enriquecia com a lembrança das minhas próprias reacções e das de Borges. As minhas leituras nunca obedeciam a uma sequência cronológica convencional. Por exemplo, ler-lhe em voz alta tex­tos que eu já lera sozinho alterava essas leituras prévias solitárias, alargava e imbuía a minha recordação delas, fazia-me aperceber do que não me apercebera na altura, mas julgava lembrar agora, uma lembrança desencadeada pela reacção de Borges. «Há quem, ao ler um livro, lembre, compare, reviva emoções de leituras prévias», comentou o escritor argentino Ezequiel


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Martínez Estrada. «Esta é uma das formas mais delicadas de adultério.» [N21) Borges não acreditava em bibliografias sistemáticas e defendia estas leituras adúlteras.

Para além de Borges, alguns amigos, vários professores e uma recensão crítica aqui e ali têm-me sugerido títulos de vez em quando, mas, de forma geral, os meus encontros com livros têm sido uma questão de acaso, como aqueles estranhos seres que, no décimo quinto canto do Inferno de Omite «se entreolham quando a luz do dia se desvanece na noite e uma nova lua aparece no céu» e subitamente encontram numa aparência, num olhar, numa palavra, uma irresistível atracção.

Comecei por arrumar os meus livros por ordem alfabética, por autor. Em seguida, passei a separá-los por género: romances, ensaios, peças de teatro, poesia. Mais tarde, tentei agrupá-los por língua e quando, durante as minhas viagens, fui obrigado a ficar apenas com alguns, separei-os em três grupos, os que quase nunca lia, os que andava sempre a ler e os que esperava vir a ler. Por vezes a minha biblioteca obedecia a regras secretas, nascidas de associações idiossincráticas. O romancista espanhol Jorge Semprún conser­vava Lotte in Weimar, de Thomas Mann, junto dos livros sobre Buchenwald, o campo de concentração onde estivera internado, porque o romance começa com uma cena no Hotel Elefante de Weimar, aonde ele foi conduzido após a sua libertação 22. Uma vez, pensei que seria divertido construir, com base nestes princípios de organização, uma história da literatura que explorasse, por exemplo, as relações entre Aristóteles, Auden, Jane Austen e Marcel Aymé (na minha ordem alfabética), ou entre Chester­ton, Sylvia Townsend Warner, Borges, São João da Cruz e Lewis Carroll (entre aqueles que mais prezo). Parecia-me que a literatura ensinada na escola - na qual se explicavam os laços entre Cervantes e Lope de Vega, baseados no facto de pertencerem ao mesmo século, e na qual Piatero y yo, de Juan Ramón Jiménez (uma história fantasiada da paixão de um poeta por um asno) se considerava uma obra-prima - era uma selecção tão arbitrária ou tão permissível como a literatura que eu mesmo poderia organizar, baseada nas minhas descobertas ao longo do caminho tortuoso das minhas próprias leituras e no tamanho das minhas estantes. A história da literatura, tal como aparece consagrada em manuais escolares e bibliotecas oficiais, não me parecia nada mais do que a história de certas leituras, mesmo que mais antigas e mais bem informadas do que as minhas, mas não menos dependentes do acaso e das circunstâncias.

Um ano antes de terminar o liceu, em 1966, quando o governo militar do general Onganía subiu ao poder, descobri mais um sistema mediante o qual os livros de um leitor podem ser catalogados. Sob a suspeita de serem comunistas ou obscenos, certos títulos e certos autores entravam para a lista da censura e, nas rusgas policiais cada vez mais frequentes em cafés, bares e estações ferroviárias ou mesmo nas ruas, tomou-se tão importante não ser


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visto com um livro suspeito nas mãos como andar munido de bilhete de identidade. Os autores banidos - Fabio Neruda, J. D. Salinger, Máximo Gorki, Harold Pinter - formavam uma outra história da literatura, uma história diferente, cujas relações não eram nem evidentes nem duradouras e cujos traços comuns eram revelados exclusivamente pelo olhar perscrutador do censor.

Mas não são apenas os governos totalitários que receiam a leitura. Há tanta perseguição aos leitores nos pátios das escolas e nos vestiários como nas repartições governamentais e nas prisões. Praticamente em todo o lado, a comunidade de leitores tem uma reputação ambígua, que lhe advém da sua autoridade adquirida e do poder que lhe atribuem. Reconhece-se algo de sábio e frutuoso na relação entre o leitor e o livro, mas que também é vista como desdenhosamente exclusiva e exclusivista, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado a um canto, aparentando indiferença às andanças do mundo real, sugere uma privacidade impenetrável, um olhar egoísta e actos secretos. «Sai e vai viver!», dizia a minha mãe quando me via a ler, como se a minha actividade silenciosa contradissesse o seu sentido do que significava estar vivo.) Afonso da Maia, no romance de Eça de Queirós Os Maias, perfilha uma opinião semelhante, repreendendo o padre, que acredita que uma criança deve ler e estudar os clássicos: «Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande su­perioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande... » [N23] O receio muito disseminado do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao temor intemporal sentido pelos homens do que as mulheres possam fazer nos lugares secretos do seu corpo e do que as bruxas e alqui­mistas possam fazer no escuro, adentro de portas fechadas à chave. O mar­fim, de acordo com Virgílio, é o material do Portão dos Falsos Sonhos; segundo Sainte-Beuve, é também o material de que é feita a torre do leitor.

Borges contou-me uma vez que, durante uma das manifestações populistas organizadas pelo governo de Perón em 1950 contra os intelectuais oposicionistas, os manifestantes entoavam a palavra-de-ordem «Sapatos sim, livros não». A réplica «Sapatos sim, livros sim» não convenceu nin­guém. A realidade - a realidade dura e necessária - era vista em conflito irredirnível com o mundo de sonhos e de evasão dos livros. Com esta desculpa, e cada vez com mais resultados, a dicotomia artificial entre a vida e a leitura é activamente promovida por aqueles que se encontram no poder. Os regimes demóticos exigem que esqueçamos e, por consequência, classi­ficam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos e, por consequência, banem, ameaçam e censuram; de manei­ra geral, tanto uns como os outros exigem que nos tomemos estúpidos e


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aceitemos a nossa degradação com humildade, e, por conseguinte, promo­vem o consumo de leituras fúteis. Em tais circunstâncias, os leitores têm de ser subversivos.
E assim, de forma ambiciosa, passo da minha história como leitor para a história do acto da leitura. Ou, melhor dizendo, para uma história da leitura, visto que essa história - constituída por intuições particulares e circunstâncias privadas - apenas pode ser uma entre muitas, por mais impessoal que tente ser. Talvez a história da leitura seja, em última instância, a história de cada um dos seus leitores. Mesmo o seu ponto de partida tem de ser fortuito. Numa crítica a uma história da matemática publicada em meados dos anos 30, Borges escreveu que sofria «de um defeito grave: a ordem cronológica dos acontecimentos não corresponde à sua ordem lógica e natural. A definição dos seus elementos aparece muitas vezes em último lugar, a prática precede a teoria, os labores intuitivos dos seus precursores são menos compreensíveis para o leitor profano do que os dos matemáticos modemos».[N24] Pode dizer-se mais ou menos o mesmo de uma história da leitura. A sua cronologia não pode ser semelhante à da história política. O escriba sumério, para quem ler era uma prerrogativa de grande valor, tinha um sentido de responsabilidade mais aguçado do que o leitor na Nova Iorque ou Santiago dos nossos dias, visto que um artigo da lei ou um ajuste de contas dependiam exclusivamente da sua interpretação. Os méto­dos de leitura dos finais da Idade Média, que definiam quando e como ler e distinguiam, por exemplo, entre o texto que deve ser lido em voz alta e o texto a ler em silêncio, estavam muito mais claramente estabelecidos do que os métodos ensinados na Viena do fin-de-siecle ou na Inglaterra eduardiana. Uma história da leitura também não pode seguir a sucessividade coerente da história da crítica literária; a desilusão expressa pela escritora mística do século XIX Anna Katharina Emmerich (de que o texto impresso nunca se equipararia à sua experiência) [N25] foi formulada ainda mais incisivamente dois mil anos antes por Sócrates (que considerava os livros um obstáculo da aprendizagem) [N26] e, nos nossos dias, pelo crítico alemão Hans Magnus En­zensberger (que faz o elogio do analfabetismo e propõe o regresso à criati­vidade original da literatura oral).[N27] Esta posição foi refutada pelo ensaísta americano Allan Bloom,[N28] entre muitos outros; com um esplêndido anacro­nismo, Bloom foi corrigido e melhorado pelo seu precursor, Charles Lamb, que, em 1833, confessou que adorava perder-se «nas mentes de outros homens. Quando não estou a caminhar», disse ele, «estou a ler; não consigo sentar-me a pensar. Os livros pensam por mim».[N29] A história da leitura também não corresponde às cronologias das histórias da literatura, já que a história da leitura de um autor em particular tem muitas vezes o seu início não no seu primeiro livro, mas num dos seus futuros leitores: o marquês de Sade foi resgatado pelo bibliófilo Maurice Heine e pelos surrealistas fran­ceses
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das estantes de literatura pornográfica em que estivera condenado a apanhar pó durante mais de 150 anos; William Blake, ignorado durante mais de dois séculos, renasce na nossa época com o entusiasmo de Sir Geoffrey Keynes e de Northrop Frye, tomando-se leitura obrigatória em todos os cursos de Literatura Inglesa.

A visados da ameaça de extinção, nós, os leitores de hoje, ainda temos de aprender o que é a leitura. O nosso futuro - o futuro da história da nossa leitura - foi explorado por Santo Agostinho, que tentou estabelecer a distinção entre o texto visto na mente e o texto dito em voz alta; por Dante, que pôs em questão os limites dos poderes interpretativos do leitor; por Lady Murasaki, que defendeu a especificidade de certas leituras; por Plínio, que analisou o acto da leitura e a relação entre o escritor que lê e o leitor que escreve; pelos escribas sumérios, que imbuíram o acto de ler de poder político; pelos primeiros artesãos de livros, que acharam os métodos de ler em rolos de pergaminho (semelhantes aos que usamos agora para ler nos nossos computadores) demasiado limitativos e incómodos e nos proporcionaram a alternativa de folhear páginas e escrevinhar nas margens. O passa­do dessa história encontra-se perante nós, na última página do futuro premonitório descrito por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, no qual os livros não existem no papel, mas sim na mente.

À semelhança do próprio acto de ler, uma história da leitura avança aos saltos para o nosso tempo - até mim e às minhas experiências como leitor - e depois regressa a uma página anterior num século distante e estrangeiro. Salta capítulos, lê ao acaso, selecciona, relê, recusa-se a seguir a ordem convencional. Paradoxalmente, o receio que está na origem da oposição entre leitura e vida activa, e que levava a minha mãe a mandar-me trocar a cadeira onde me sentava e o livro que estava a ler pelo ar livre, esse mesmo receio reconhece uma solene verdade: «Não se pode embarcar de novo na vida, nessa viagem única, uma vez terminada», escreve o romancis­ta turco Orhan Pamuk em The White Castle, «mas se tiver um livro nas mãos, por mais complexo ou difícil de compreender que seja, quando o terminar, pode, se quiser, voltar ao princípio, lê-lo novamente e assim compreender aquilo que achou difícil e, ao mesmo tempo, compreender também a vida .» [N30]
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