Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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B2 – Efeitos físicos


As provas fornecidas pelos efeitos físicos não podem, segundo o Sr. Hartmann, servir de provas da materialização, pois que a percepção visual da mão não passa de uma alucinação, e o movimento de um objeto impresso por essa mão não passa de um efeito produzido pela força nervosa do médium de acordo com a alucinação que ele comunica aos assistentes:

“O deslocamento de objetos, verificado após a sessão, pode servir de prova de que esse deslocamento foi real, objetivo. Se esses deslocamentos não se produzem fora da esfera da atividade da força nervosa do médium, isto é, se não excedem os limites dos efeitos que aquela força pode produzir quanto ao seu gênero e ao seu poderio, não há razão alguma para atribuí-los a uma outra causa. Nesse caso, o médium sonâmbulo combinou em sua imaginação a sua alucinação com o deslocamento de objetos a produzir. Efetuou inconscientemente esses deslocamentos, por meio da sua força nervosa mediúnica, acreditando de boa fé que são as imagens da sua fantasia que realizaram esses deslocamentos por seu próprio poder; fazendo os assistentes participarem de sua alucinação, ele transmitiu-lhes ao mesmo tempo a convicção de que esses deslocamentos de objetos são devidos realmente aos fantasmas.” (págs. 101 e 102).

Temos aqui, por conseguinte, uma alucinação dupla de força nervosa. Mas é inútil nos determos por mais tempo nesse ponto; dever-se-á notar apenas que a inconseqüência lógica daquela explicação teria aumentado de um grau, enquanto que de um outro lado o testemunho da vista e do tato se acharia corroborado pela produção de um efeito físico correspondente. O Sr. Hartmann emprega freqüentemente as expressões “fora ou dentro da esfera de ação da força nervosa do médium”. Ele, porém, não nos indica os limites daquela força nervosa; está, por conseguinte, no caso de recuar esses limites à sua vontade, ou, melhor ainda, considerar aquela força como ilimitada. Em presença da falta de definição, é impossível verificar a teoria do Sr. Hartmann por fatos.

B3 – Efeitos físicos duradouros


Passamos agora às provas que são, em nossa opinião, provas positivas e que consistem na produção de efeitos físicos permanentes:
a) Escrita direta

Abordamos aqui a escrita produzida por mão materializada, destacada na aparência de qualquer outro corpo, em plena luz, sob as vistas de testemunhas, e estando o médium visível durante todo o tempo. Segundo o Sr. Hartmann, esse fenômeno também não seria outra coisa mais do que uma alucinação dupla da força nervosa:

“Não seria surpreendente ouvir falar em breve tempo de uma escrita mediúnica a distância, sendo visível pelos assistentes a mão escrevente, o que não se produziu ainda, que me conste, pelo menos nas sessões em pleno dia. Não haveria razão alguma para considerar aquela mão como outra coisa além da transmissão de uma alucinação da vista.” (pág. 101).

Sem nos determos nesse raciocínio, que não difere dos precedentes, passaremos à categoria seguinte, onde ele atinge seu auge e torna-se uma impossibilidade. Faremos notar somente que o Sr. Hartmann, persuadindo-se de que esse fenômeno ainda não tinha sido observado à luz, fez bem em acrescentar: “que me conste”, pois que esse fenômeno foi verificado por várias vezes. Robert Dale Owen, por exemplo, conta uma sessão com Slade, na qual, em plena luz, uma primeira mão, saindo de baixo da mesa, escreveu uma comunicação em inglês, em uma folha de papel posto sobre uma ardósia, colocada nos joelhos do Sr. Dale Owen; depois uma outra mão escreveu na mesma folha de papel algumas linhas em grego (ver, para as particularidades, com o fac-símile da escrita o The Spiritualist, 1876, II, pág. 162). Olcott, em seu livro Povo do Outro Mundo, chega a dar o desenho de certa mão materializada escrevendo em um livro que lhe apresentam. É preciso ver também as numerosas experiências do Dr. Wolfe mencionadas em sua obra Fatos surpreendentes do Espiritualismo Moderno, que apareceu em Cincinnati, em 1874, págs. 309, 475, e passim.

O Sr. Hartmann ilude-se dizendo:

“As poucas referências acerca da escrita pela mão visível de um Espírito não têm importância alguma, porque são referentes a sessões sem luz, no decurso das quais ter-se-ia visto de maneira indistinta o delineamento confuso de certa mão esboçando-se sobre papel fosforescente (pág. 53).

O testemunho do Sr. Crookes é sobre esse ponto categórico:

“Mão luminosa desceu da parte superior do quarto e, depois de ter planado durante alguns segundos a meu lado, tomou o lápis, depois se elevou acima de nossas cabeças e desapareceu gradualmente nas trevas.” (Psychische Studien, 1874, pág. 159).

Um fato semelhante, produzido em presença de várias testemunhas, é referido pelo Sr. Jencken no The Spiritualist, 1876, II, pág. 126, com o desenho da mão que escreve.


b) Impressão de mãos materializadas

É muito natural que se tenha procurado desde muito tempo obter impressões de mãos que se viam momentaneamente aparecer e desaparecer nas sessões; pois que semelhante impressão devia servir para provar positivamente que se tratava, não de alucinações, porém de formações reais de um certo corpo. Não posso precisar quando foram feitas as primeiras tentativas desse gênero, mas possuo nas minhas notas uma indicação que remonta a 1867; uma impressão foi recebida sobre argila mole (Banner of Light, 10 de agosto de 1867). Mais tarde, fizeram-se impressões sobre farinha e papel coberto de negro de fumo. Também temos, em relação a esse fenômeno, as experiências concludentes dos professores Zöllner e Wagner (Psychische Studien, 1878, pág. 492; 1879, pág. 249). É preciso mencionar também o fato análogo obtido pelo Sr. Reimers, referido nos Psychische Studien, 1877, pág. 401, e Jencken, The Spiritualist, 1878, II, pág. 134; Médium, 1878, pág. 609.

Nesses casos, a mão ou o pé que tinham produzido as impressões não foram vistos; mas as condições nas quais elas se produziram são tais que excluem toda idéia de fraude; é assim que em casa do Sr. Zöllner as impressões foram feitas entre duas ardósias que ele conservava em cima dos joelhos, e em casa do Sr. Wagner, entre duas ardósias lacradas.

Em outros casos, entretanto, a forma materializada que produziu a impressão foi vista durante a produção do fenômeno, e verificou-se que o resultado estava de acordo com a forma observada.

“Aquela experiência – diz o Sr. Hartmann – não foi feita em parte alguma, que me conste; só conheço um relatório isolado que estabelece o fato da impressão de um pé de criança produzido em uma sessão de materialização; esse pé era visível, mas não tangível.” (Psychische Studien, VII, 397, pág. 100).

“Esse fato requereria antes de tudo ser confirmado por experiências análogas feitas por outras pessoas.” (págs. 100 e 101).

Posso fornecer essa confirmação: são as experiências que o Dr. Wolfe fez com a médium Sra. Hollis. Essas experiências foram feitas durante sessões, em torno de uma mesa, em pleno dia. A mesa era guarnecida simplesmente em seu contorno, por uma fazenda de algodão preto de franjas pendentes até o soalho e apresentando uma abertura de seis polegadas quadradas.

Na experiência que segue, o Dr. Wolfe estava só com a médium; damos-lhe a palavra:

“A primeira experiência foi feita com um prato de farinha; coloquei o prato em cima de uma cadeira, diante da abertura, e pedi a Jim Nolan (um dos operadores invisíveis) que fizesse ali a impressão de sua mão direita. Dois ou três minutos depois apareceu uma certa mão elegante e delicada, assemelhando-se muito pouco à de Jim, e que desapareceu depois de ter planado por alguns instantes acima do prato. Ela reapareceu cinco minutos depois e penetrou profundamente na farinha, deixando a sua impressão visivelmente desenhada na camada mole e branca como a neve. Mandei buscar em seguida um outro prato com farinha, por pedido de Jim, e dessa vez ele imprimiu ali a sua própria mão, que deixou uma impressão uma vez e meia maior do que a primeira. Depois de ter examinado minuciosamente a mão da Sra. Hollis, na qual não se encontrou a mínima partícula de farinha, pedi-lhe que colocasse a mão nas impressões obtidas. Em uma dessas últimas, aquela mão teria podido ser colocada duas vezes; verificou-se também que a outra era muito maior do que a sua mão: a impressão que ela fez em seguida com a mão era menor e de forma muito diferente.” (Startling Facts, pág. 481).

Eis o mesmo fato contado por outra testemunha, o Sr. Plimpton, um dos editores de um jornal de Cincinnati, em artigo publicado por ele no jornal The Capital, editado em Washington pelo Coronel Down Piatt. Conforme uma planta do quarto junto ao artigo, vê-se que a mesa se achava no meio do dito quarto; o médium estava de um lado e defronte dele, no outro, perto do ângulo da mesa, achava-se o Dr. Wolfe; a abertura na cortina que rodeava a mesa ficava no terceiro lado. Defronte dessa abertura achava-se o Sr. Plimpton, um passo distante da mesa. Eis o relatório daquela sessão.

“O Dr. Wolfe levou um prato de farinha e perguntou se os operadores invisíveis podiam deixar ali a impressão da mão; as pancadas deram uma resposta afirmativa. A convite expresso pela escrita, o doutor manteve o prato diante da cortina, o mais distante que pôde da Sra. Hollis. A mão apareceu e fez evoluções de uma rapidez elétrica, deteve-se por um instante no prato e retirou-se depois de ter sacudido as partículas aderentes. Pediu-se à Sra. Hollis que aplicasse a mão sobre a impressão; os dedos marcados sobre aquela última eram mais longos do que os seus uma polegada. A impressão representava a mão de um homem feito, com todas as particularidades anatômicas. Convém acrescentar que se a Sra. Hollis tivesse empreendido a operação, teria sido obrigada a inclinar-se até o bordo da mesa para poder alcançar aquela distância. Ela, porém, não mudou de posição, e esse fato estabelece a impossibilidade material de sua intervenção pessoal. De outro lado, um homem não poderia ter-se escondido sob a mesa, que eu inverti imediatamente depois da produção da impressão. Houve acaso uma ilusão? Mas a impressão na farinha foi vista depois por outras pessoas; e eu estou tão convicto de ter visto a mão que produziu a impressão quanto estão convictas essas mesmas pessoas de terem visto aquela impressão.” (ibidem, pág. 541).

E dizer que para encontrar uma explicação para esse fenômeno o Sr. Hartmann não se afasta em nada de sua teoria... Ele admite, com efeito, que não é uma alucinação.

Ele não diz mais, como acima, falando do sentido do tato, que “a possibilidade de um efeito real, produzido por uma causa objetiva, é excluída”; ele chega a afirmá-lo de maneira positiva nestes termos:

“As impressões obtidas oferecem uma prova comprobatória de que não nos achamos em presença do efeito de uma alucinação.” (pág. 52).

Mas que explicação ele dá desse fenômeno? Há fundamento em supor que ninguém, ainda que fosse o sábio mais positivo, possa negar que uma impressão obtida nas condições precitadas – com mais forte razão se a autenticidade do fenômeno é admitida – teve de ser produzida por um corpo temporariamente materializado, isto é, tendo tomado uma forma humana tangível. Mas o Sr. Hartmann tirou outra conclusão: para ficar fiel à sua teoria da força nervosa, ele dá a esta última um desenvolvimento extremo. Aquela força estaria no caso não somente de produzir o deslocamento de objetos, mas também efeitos plásticos. Segundo ele pensa, aquela impressão é produzida pela “força nervosa emanada do médium; esta se traduz por um sistema de radiações, produzindo efeitos de tração e de pressão.” (Ein System von Druck und Zuglinien der fernwir kenden Nerven kraft”, pág. 150).

E quando o corpo (ou nesse caso a mão) que produz esse resultado é visível, é de novo, como nos casos precedentes, uma alucinação – a combinação de um resultado real com uma alucinação. Como o vemos, e como era fácil de o prever, a inconseqüência lógica na qual cai o Sr. Hartmann – inconseqüência que não passava de uma presunção, quando se tratava de aplicação de sua hipótese à explicação da sensação tátil – não deixou de aumentar, e quando ele quer aplicar a mesma hipótese à explicação das impressões, essa inconseqüência chega ao cúmulo e torna-se um fato.

Vejo tal mão aparecer: é uma alucinação. Vejo essa mão, toco-a, sinto-a: a sensação do tato pode ser real, mas a percepção visual é uma alucinação. Vejo essa mão mover um objeto, escrever: o efeito físico produzido é real, mas a percepção visual é uma alucinação! Vejo essa mão produzir uma impressão, estabelecendo que é realmente uma tal mão: a impressão é real, mas a percepção visual é uma alucinação!

Em virtude desse sistema, o testemunho de nossos sentidos é aceito por uma série de efeitos reais, mas é repelido por uma forma especial da impressão da vista, posto que um dos efeitos reais e permanentes obtidos – a impressão – prove a concordância dos testemunhos da vista e do tato, com aquele efeito real. Assim também, de outro lado, temos um fenômeno que apresenta todas as aparências de um corpo e cuja realidade é estabelecida por todos os efeitos que um corpo pode geralmente produzir: é visível, tangível, move um outro corpo, deixa vestígios permanentes, imprime-se em outro corpo; todas essas propriedades lhe são concedidas pelo Sr. Hartmann como reais, objetivas, menos a visibilidade. Por quê? Por qual raciocínio lógico?

Essa lógica nos parecerá ainda mais estranha, quando pedirmos ao Sr. Hartmann a definição de um corpo, em geral, segundo a sua própria filosofia.

A matéria, responderá, não é outra coisa mais do que um sistema de forças atômicas, um sistema de dinamides (Philos. des Unbew., 1872, pág. 474). Assim, quando tomo em minha própria mão uma outra mão natural, tomo, segundo o Sr. Hartmann, “um sistema de forças atômicas”, e ele não lhe recusa a propriedade da visibilidade; ele não qualifica de alucinação esse testemunho de meus sentidos. Mas, quando conservo em minha mão semelhante mão materializada, que sinto e vejo, e à qual o Sr. Hartmann aplica a mesma definição, pois que a considera como “um sistema de linhas de força”, nesse caso, diz-nos ele, a sensação do tato é real, mas a impressão da vista daquela mão é uma alucinação.

Por quê? Em virtude de que lógica?

Uma vez admitido que um “sistema dinâmico” é capaz de produzir, em nosso organismo, uma sensação tátil real e objetiva, onde, pois, está a dificuldade de admitir que o mesmo “sistema dinâmico” possa ocasionar a sensação de visibilidade real e objetiva, desde que o testemunho subjetivo em favor de uma ou da outra dessas sensações é o mesmo? Nunca o Sr. Hartmann poderá provar a lógica dessa negação. Assim, depois de todas as concessões que ele fez, admitindo a realidade do mesmo fenômeno para outras percepções sensoriais, sua hipótese da alucinação torna-se logicamente insustentável.

Quanto à explicação física que o Sr. Hartmann dá, acerca das impressões obtidas por via mediúnica, está em tal contradição com todas as leis físicas conhecidas, que a Física e a Fisiologia jamais poderão aceitá-las; e o que é curioso é que o desenvolvimento lógico da explicação física do Sr. Hartmann nos conduz inevitavelmente a uma conclusão que ele repele com todas as forças. Para o provar, devo entrar em algumas explicações. Tendo grande importância o fenômeno das impressões de formas orgânicas – considero-o como o antecedente da prova absoluta da materialização –, devemos prestar toda a atenção à explicação que nos dá a seu respeito o Sr. Hartmann, que, por sua vez, julga que esses fenômenos “pertencem aos mais surpreendentes nesse domínio.” (pág. 52). Eis a dita explicação:

“Figure-se uma outra disposição das radiações dinâmicas da força nervosa mediúnica, disposição que correspondesse à impressão produzida pela face palmar da mão estendida inteiramente sobre uma matéria plástica; então o deslocamento das partículas de matéria, produzido por semelhante sistema dinâmico, deveria estar em relação com o deslocamento produzido pela impressão da mão, isto é, deveria ser a reprodução de uma forma orgânica, sem que uma forma orgânica, que produzisse essa impressão, se achasse materialmente presente.” (pág. 50).

Essa explicação apresenta, no ponto de vista da física, uma série de impossibilidades. Lembrarei aqui que as impressões de que se trata são de duas espécies muito diferentes: elas se produzem ou sobre substâncias moles, como a farinha e a argila, reproduzindo em relevo, com perfeita exatidão, todas as particularidades anatômicas de um órgão, ou ainda sobre substâncias duras (superfícies enegrecidas) reproduzindo essas mesmas particularidades, em parte, pois que toda a superfície de um órgão não pode, sem dúvida, tocar a superfície plana de um corpo duro, a menos que sofra uma pressão extraordinária.

Vejamos agora as impossibilidades da hipótese do Sr. Hartmann, em primeiro lugar no que diz respeito às impressões em substâncias moles:

1º – Toda força de atração ou de repulsão propaga-se em linha reta; para desviar-se dessa direção, ela deve receber a ação de outra força emanando de outro centro de atividade. Aqui temos uma outra força física, chamada força nervosa, emanando de um órgão do médium, propagando-se, não em linha reta, mas em direções sinuosas das mais irregulares, para ir encontrar o corpo sobre o qual deve imprimir-se, e sobre o qual, para produzir esse efeito, deve agir perpendicularmente, pois, do contrário, a imagem do corpo a imprimir seria inteiramente irregular. Lembremo-nos das impressões de pés produzidas em uma ardósia colocada nos joelhos de Zöllner. – Quais são essas outras forças que determinam as mudanças de direção da força nervosa? Ser-lhes-iam precisos também centros onde elas emanassem e agissem em determinada direção. Não podendo esses centros encontrarem-se no corpo do médium, onde se encontram?

2º – A direção dessas radiações dinâmicas da força nervosa, para produzir uma impressão, deve ser absolutamente paralela, sem o menor encontro dessas radiações; mas as desigualdades de um órgão humano, onde essa força tem a sua fonte, opõem-se a esse paralelismo, devendo a força nervosa irradiar-se em diversas direções, por causa dessas desigualdades.

3º – Todas essas linhas de pressão devem, para conseguir-se o resultado desejado, ser não somente da mesma extensão, porém ainda de determinada extensão, para corresponder, em distância conhecida, a todas as desigualdades do órgão cuja impressão deve produzir-se. Que é uma linha de pressão física de extensão determinada?

4º – Esse sistema de linhas de pressão consiste necessariamente em radiações que emanam inteiramente de cada ponto do órgão a reproduzir, e por conseguinte deve formar um feixe de linhas correspondentes em sua seção ao contorno da impressão obtida. Esse feixe de radiações dinâmicas teria, pois, determinada espessura?

5º – Desde o momento em que (segundo o Sr. Hartmann) a ação dinâmica da força nervosa mediúnica penetra livremente em qualquer espécie de matéria, do mesmo modo que a ação da força magnética, é claro que a força nervosa que emana de um órgão do médium não pode agir exclusivamente na superfície do corpo sobre o qual ela deve produzir uma impressão, porém, ainda, atravessá-lo. Por exemplo, a força nervosa que emana da mão de um médium, colocada em uma mesa, passa através dessa mesa, mas, segundo o Sr. Hartmann, ela se detém na superfície da farinha, em um prato colocado sob a mesa – ou na superfície de um papel impregnado de negro de fumo, colocado entre duas ardósias, depois de ter também atravessado, sem obstáculo, a primeira ardósia. Por quê? Seria preciso, pois, imaginar que em determinado ponto – por que e para que fim? – essa força adquire tal consistência que deixa de passar através da massa dos corpos. Assim, pois, tratar-se-ia aqui de uma força que teria certa consistência. Nunca uma força física teve iguais propriedades.

Se passarmos agora às impressões produzidas em superfícies duras e planas (papel impregnado de negro de fumo e colado em uma ardósia), encontraremos novas impossibilidades:

1º – Emanando as radiações da força nervosa de todos os pontos do órgão que deve imprimir-se, é evidente que todos os pontos desse órgão devem ser reproduzidos na impressão obtida. Mas tal não é o resultado: vemos nas imagens fotográficas duas impressões desse gênero – uma publicada pelo professor Zöllner e outra pelo professor Wagner (Psychische Studien, junho de 1879) –, que as cavidades formadas pelo centro da planta do pé e pelos artelhos, e a cavidade formada pela palma da mão, não deixaram na impressão, nos lugares correspondentes, vestígio algum; nas impressões obtidas, essas partes ficaram em negro. Por quê, então? Nos casos em que a impressão se forma em substâncias moles, todas as linhas de pressão agem sobre a substância para deprimi-la; aqui, pelo contrário, ainda que um simples contato bastasse – o que é mais fácil –, uma parte dessas mesmas linhas de pressão não age mais. As radiações da força nervosa não se teriam manifestado senão nos pontos salientes do órgão? Segundo a hipótese da materialização, é, pelo contrário, perfeitamente natural que sejam esses pontos salientes que tocam a superfície enegrecida.

2º – Esse sistema de radiações da força nervosa, para produzir uma impressão sobre papel coberto por uma camada de negro de fumo, deve retirar e fazer desaparecer uma parte desse negro de fumo, como habitualmente o observamos. Como compreender que uma força física, exercendo uma pressão, retire uma matéria qualquer e a faça desaparecer?

Se o Sr. Hartmann tivesse de responder às objeções dos parágrafos 1 a 4 pelo seguinte argumento: “No que diz respeito à disposição das linhas de pressão, ela é determinada pela imagem que o médium, em estado de sonambulismo, imagina” – é claro que aqui não se trata mais de uma força puramente física –, pois é assim que o Sr. Hartmann encara a força nervosa, porque a compara à gravidade, ao calor, ao magnetismo, e admite que ela pode ser transformada em luz, calor, eletricidade, etc.

Finalmente, quando o Sr. Hartmann nos diz que essa mesma força nervosa não está no caso de reproduzir somente impressões correspondentes aos órgãos do médium, como fonte dessa força, mas que pode produzir da mesma maneira todas as formas de membros humanos que aprouver à fantasia sonambúlica do médium criar, procuramos indagar por que motivo essa fantasia se limitaria a produzir membros humanos. Sem dúvida ela produziria também impressões de plantas, de animais e de outros objetos. Finalmente, o médium teria a preciosa faculdade de produzir impressões segundo a sua fantasia. E o Sr. Hartmann, para conservar-se fiel à lógica da sua hipótese, não poderia ter o direito de negá-lo.

Eis a que ponto nos leva sua hipótese. Pelo que tomo a liberdade de lhe dizer que no ponto de vista da Física, a teoria da força nervosa, nas aplicações que ele lhe dá, é uma heresia evidente, e que, arriscando semelhante hipótese, o Sr. Hartmann peca contra os princípios metodológicos que ele próprio indicou, pois que não fica “os limites das causas, cuja existência é estabelecida, quer pela experiência, quer por deduções indubitáveis.” (pág. 118).

Acabamos de ver que a hipótese de uma força nervosa, que produz impressões, coage forçosamente a admitir que essa força tem uma extensão, uma espessura e uma consistência ou densidade, em outros termos, que ela possui as mesmas qualidades que servem para definir um corpo; somos pois coagidos a supor que essas impressões são produzidas pela ação de um corpo invisível, cuja substância é derivada do organismo do médium. O que me surpreende sobretudo é que seja precisamente o Sr. Hartmann quem considera “inútil” admitir a hipótese de uma “matéria que toma uma forma, mas que é invisível e impalpável” e que precisamente ele considere essa hipótese como “não tendo base alguma científica”, ao passo que segundo a sua própria teoria filosófica, como o dissemos acima, “a matéria nada mais é do que um sistema de forças atômicas” e que “a própria força não é outra coisa além da vontade”: donde deduz o Sr. Hartmann que “as manifestações das formas atômicas são atos individuais da vontade, cujo conteúdo consiste na representação inconsciente do ato que vai ser realizado. A matéria é, assim, decomposta em vontade e representação. A diferença fundamental entre o espírito e a matéria é, por isso, suprimida, e não pelo fato da morte do espírito, mas, pelo contrário, pela animação da matéria.” (A Filosofia do Inconsciente, 1872, págs. 486 e 487).

Segundo aquela filosofia, teríamos encontrado nos fenômenos mediúnicos de materialização uma demonstração ad oculos da “objetivação” da vontade e, principalmente, uma objetivação gradual, não uma transformação direta do espírito em matéria; está aí um fato particularmente importante, pois que essa gradação corresponderia à idéia de uma “matéria invisível e intangível, mas não informe”.

Por conseguinte, esses fenômenos forneceriam precisamente uma “prova científica” às deduções especulativas daquela filosofia, e estamos convictos de que o Sr. Hartmann, quando tiver reconhecido a realidade desses fenômenos, não procurará outra explicação para eles.



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