Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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e) Outros exemplos de moldagens de formas materializadas por meio da parafina

Essas experiências podem dividir-se em quatro categorias, segundo as condições em que se produzem:

  • o médium está isolado; o agente oculto fica invisível;

  • o médium está em evidência; o agente oculto está ainda invisível;

  • o médium está isolado; o agente oculto aparece;

  • o agente e o médium são simultaneamente visíveis aos espectadores.
1) O médium está isolado;
o agente oculto fica invisível.

As melhores experiências dessa categoria são, sem contradição, as que foram feitas pelo Sr. Reimers (em Manchester), a quem conheço pessoalmente e que, desde o começo, me tinha comunicado o resultado delas, de maneira mui circunstanciada, independentemente dos relatórios que publicou nas revistas inglesas. Os leitores do Psychische Studien tiveram conhecimento delas pelos artigos que o Sr. Reimers mandou inserir ali em 1877 e nos anos subseqüentes. Copio da carta do Sr. Reimers, datada de 6 de abril de 1876, que está em meu poder, uma exposição circunstanciada da primeira experiência dessa espécie:

“A médium – uma mulher mui corpulenta – era coberta por um saco de filó que ocultava-lhe a cabeça e as mãos; o saco se fechava por meio de um cordão enfiado em uma bainha muito larga; esse cordão foi amarrado em torno da cintura da médium, de maneira que os braços, bem como toda a parte superior do tronco, estavam presos. Juntei as pontas desse cordão por meio de muitos nós bem apertados, que tornavam absolutamente impossível a saída da médium. Ligada de tal maneira, estava sentada em um canto de meu quarto. Intencionalmente torno saliente essa circunstância, porque exclui qualquer hipótese de uma porta secreta.

Depois de ter pesado cuidadosamente a parafina, coloquei-a em pequeno balde que enchi em seguida com água fervente; em pouco tempo a parafina estava fundida, e então coloquei o balde em cima de uma cadeira, ao lado da médium. Esse canto do quarto foi disfarçado por uma cortina de tecido de algodão; o ângulo era completamente ocupado por uma étagère, duas cadeiras, um tamborete, o balde e uma cesta para papéis, de maneira que não havia possibilidade alguma de se esconderem ali.

À luz branda, sentei-me defronte da cortina e logo verifiquei que a médium se achava em estado de transe. Nenhuma figura aparecia, mas uma voz pronunciou estas palavras: “Deu resultado; pega com cautela no molde que ainda está quente e toma cuidado para não despertar a médium.” Levantei a cortina e distingui uma figura que se conservava ao lado da médium, mas desapareceu imediatamente. O molde estava pronto. Tomei o balde e pedi à médium que mergulhasse a mão na parafina que ainda estava quente, a fim de obter o molde dela. Pesei em seguida os dois moldes juntamente com o resto da parafina. O peso era o mesmo, exceto uma pequena diminuição proveniente da aderência inevitável de um pouco de parafina nas paredes do balde. Antes de pôr a médium em liberdade, verifiquei cuidadosamente que os nós e ligaduras tinham ficado intactos. A porta única por onde se podia entrar no quarto tinha sido fechada à chave, e eu não perdi de vista, por um só instante, o canto oculto pelo pano. É tão evidente que nenhuma espécie de fraude pôde ser praticada que julgo inútil insistir nesse ponto. A escolha de um saco de filó foi uma idéia muito feliz. Devo-a ao professor Boutleroff, que a tinha posto em prática nas sessões com o médium Bredif. Ainda mesmo que os braços e as mãos da médium ficassem livres, a dúvida seria impossível.

Admitindo que a médium tivesse trazido ocultamente qualquer mão de gesso, de que maneira teria podido retirá-la sem quebrar ou pelo menos deteriorar a forma, que é muito delicada e friável? Mão fabricada com substância mole, elástica, não resistiria à temperatura do líquido, que era tão elevada que a médium não deixou de dar um grito de dor ao mergulhar a mão nele.

Suponhamos ainda que um molde em parafina tenha sido levado já feito; mas então esse molde seria mais espesso, e a fraude teria sido facilmente descoberta pela pesagem.”

Dessa maneira o Sr. Reimers obteve um primeiro gesso de mão direita, cuja conformação era igual à da que ele tinha distinguido durante alguns instantes, e da qual ele tinha anteriormente obtido uma impressão em farinha (vede Psychische Studien, 1877, pág. 401); essa mão diferia completamente, na forma e tamanho, da da médium, que era uma mulher idosa, pertencente à classe operária.

Essa primeira experiência se fez a 30 de janeiro de 1876, como se pode verificar pela carta que o Sr. Reimers dirigiu ao The Spiritualist a 11 de fevereiro de 1876 (encontrar-se-ão outros pormenores em seu artigo publicado em Psychische Studien, 1877, págs. 351-401).

O Sr. Reimers repetiu essa mesma experiência a 5 de fevereiro, ainda em seu quarto, em presença de duas testemunhas: o Sr. Oxley e o Sr. Sightfoot, o primeiro dos quais enviou dela um relatório ao The Spiritualist (11 de fevereiro de 1876). Tinham-se tomado as mesmas cautelas. O Sr. Oxley externou o desejo de obter a mão esquerda, que completava o par com a mão cujo molde já se tinha obtido. Em pouco tempo ouviu-se a agitação da água e, terminada a sessão, os assistentes encontraram no balde o molde, ainda quente, de mão esquerda, que deu um gesso completando perfeitamente o par com a mão direita, vazada no primeiro molde (vede Psychische Studien, 1877, págs. 491-493).

O Sr. Reimers mandou-me bondosamente o gesso dessa mão esquerda, que se distingue de todas as outras formas que ele obteve depois; na face dorsal, ela tem em relevo a forma de uma cruz que o Sr. Reimers tinha dado a uma aparição que se mostrou em todas as sessões ulteriores, sob o nome de Bertie, sempre com aquela cruz. O Sr. Reimers mandou-me além disso o gesso da mão esquerda da médium, que foi feito imediatamente depois que se produziu o molde da mão de Bertie, como ele o comunica ao Psychische Studien (1877, pág. 404).


Fotografias obtidas das moldagens da mão esquerda


do médium (acima) e da forma materializada (abaixo).

Os dois gessos, colocados juntos no foco do mesmo aparelho, foram fotografados em minha presença. As fototipias não reproduzem todas as minudências da fotografia; porém é bastante lançar um olhar para verificar a completa dessemelhança entre eles: a mão da médium é grande e vulgar, a de Bertie pequena e elegante; o que salta aos olhos particularmente é a diferença dos dedos e das unhas. Mas a diferença principal está na extensão dos dedos, como o demonstra a medição: os dedos da médium têm um centímetro mais do que os de Bertie. A circunferência da face palmar da mão da médium, medida imediatamente abaixo da raiz dos dedos, isto é, em uma região em que a largura da palma é invariável, é um centímetro maior; a circunferência do punho da médium excede a da mão materializada em 2 centímetros.

A reprodução fotográfica da mão de Bertie é tirada somente de uma cópia do gesso; mas o Sr. Reimers mandou-me também dois moldes em parafina, provenientes da moldagem das mãos de Bertie. A esse respeito, ele me escreveu em data de 4 de abril de 1876:

“O resultado notável que eu obtive conseguindo tirar o molde de mão materializada parece-me ter tal importância, que acredito proceder com acerto enviando-vos um exemplar do pequeno número dos que podemos possuir. A mão que vos envio foi obtida por nós nas mesmas circunstâncias em que obtivemos a primeira, em presença do Sr. Oxley e de um amigo (vede The Spiritualist de 11 de fevereiro de 1876).

A história da cruz é curiosa a mais não poder; eu tinha feito presente dela à aparição que se tinha apresentado, quando a médium estava metida no saco de filó. Logo que a médium despertou, verificou-se que a cruz tinha desaparecido. Só desatei o saco depois de ter esgotado todos os esforços para encontrar a cruz. Na sessão seguinte, Bertie apareceu com a cruz pendente do pescoço. A conformação de suas mãos é tal qual, exatamente, a que vedes sobre a prova em gesso que vos mando. Posso afirmá-lo em minha qualidade de bom desenhista. Até hoje, tenho obtido duas mãos direitas, três esquerdas – todas em posições diferentes –, o que não impede que as linhas e os sulcos sejam idênticos em todos os exemplares; é indubitavelmente à mesma pessoa que essas mãos pertencem.

Essa identidade de mãos, dotadas de vitalidade, é para mim uma prova decisiva de que nos achamos diante de um fenômeno de materialização.

O pacote já estava pronto para ser expedido, quando tive a lembrança de juntar-lhe ainda alguma coisa. Envio-vos agora duas formas em parafina, que obtive ontem. Eu tinha vestido na médium um saco de filó, como de ordinário, e, além disso, tinha prendido no vestido, a alfinete, as pontas do cordão, por trás das costas. Bertie apareceu em breve na abertura da cortina e acima do gabinete e desapareceu em seguida. Ouvi agitação na água e encontrei os dois moldes, resfriados, no balde... Enchei-os com uma solução de gesso muito fino, etc.; depois, tomai uma lente e comparai os gessos que tiverdes obtido com as mãos que vos envio: verificareis que provêm do mesmo indivíduo. Estou tão convencido disso que vos envio os moldes que acabo de obter agora mesmo. Sei de antemão que os resultados de vosso exame não conseguirão mais do que corroborar a minha asserção.”

Efetivamente, o gesso vazado da mão direita corresponde exatamente à mão esquerda moldada pelo Sr. Reimers. Quanto ao molde da mão esquerda, tive a imprevidência de conservá-lo em seu estado primitivo, isto é, sem enchê-lo de gesso, o que deu em resultado que ele se tivesse amassado. Só agora (dez anos depois) eu o encho de gesso. A palma está deformada, mas os dedos conservaram muito bem a sua forma; são os mesmos dedos; não há a menor dúvida.

Ultimamente pedi que me enviassem de Lípsia o gesso de um molde feito em uma sessão que se realizou a 17 de abril de 1876 (falarei dele mais adiante) e que era destinado especialmente aos “amigos de Lípsia”.

Se se compara esse gesso da mão direita ao que estava em meu poder, é fácil reconhecer que eles se referem a uma só mão; só há pequena diferença na posição dos dedos, coisa particularmente interessante de verificar.

Discutiu-se muito sobre a questão de saber em que condições a mão (ou outro órgão qualquer) deixa o molde. Será que ela se desmaterializa no molde que a envolve ou, antes, se retira de outra maneira? Parece, como certos dados o fazem supor, que um e outro caso se dão e que isso depende da forma do molde.

Há motivo de admitir uma desmaterialização quando a posição dos dedos se opõe de maneira absoluta a que a mão seja naturalmente retirada do molde. Citarei mais adiante um caso desse gênero; mas haverá sempre divergências de opinião sobre esse ponto.

Para mim a questão essencial é verificar que esses moldes são produzidos em condições que excluem toda possibilidade de fraude. O gesso representa cópia exata da mão da médium – será um exemplo precioso de desdobramento; esse fato, bem verificado, nos oferece o primeiro esboço do fenômeno da materialização. Se, pelo contrário, o gesso difere, pela forma, do membro do médium, achamo-nos em presença de um fenômeno muito mais complicado e que, forçosamente, nos conduzirá a conclusões de alcance muito diferente.

No ponto de vista das provas orgânicas, eu não poderia deixar em silêncio uma observação que fiz. Examinando atentamente o gesso da moldagem da mão de Bertie e comparando-a ao gesso da da médium, notei com surpresa que a mão de Bertie, com o contorno completo da mão de uma mulher moça, apresentava por seu aspecto, na face dorsal, as rugas distintivas da idade. Ora, a médium, como eu o disse mais acima, era mulher idosa. Ela morreu pouco depois da experiência. Eis uma particularidade que nenhuma fotografia pode produzir, e que prova de maneira evidente que a materialização se efetua à custa do médium, e que esse fenômeno é devido a uma combinação de formas orgânicas existentes, com elementos normais introduzidos por uma força organizadora estranha, a que produz a materialização. Senti um prazer intenso ao saber que o Sr. Oxley tinha feito as mesmas observações, como consta de sua carta datada de 20 de fevereiro de 1876 e relativa a provas de moldagem que ele me mandava e de que se tratará mais adiante. Diz ele:

“Coisa curiosa, reconhecem-se invariavelmente nesses moldes os sinais distintivos da mocidade e da velhice. Isso prova que os membros materializados, conservando inteiramente sua forma juvenil, apresentam particularidades que traem a idade do médium. Se examinardes as veias da mão, encontrareis ali indícios característicos e que se referem indiscutivelmente ao organismo da médium (trata-se da mão de Lili, da qual eu junto também uma fototipia).”

Citarei aqui um caso que se refere ao mesmo fenômeno, a moldagem de mãos absolutamente idênticas às precedentes, mas obtidas em condições muito notáveis: por obra de outro médium, pertencente mesmo ao outro sexo: o Dr. Monck. É verdade que a antiga médium, a Sra. Firman, assistia à sessão na qualidade de espectadora, de maneira que se poderia atribuir os resultados obtidos à influência que ela exercia a distância.

Outra particularidade notável dessa sessão: as formas humanas emergiam de trás da cortina e, depois de se ter retirado para proceder às moldagens, apareciam de novo apresentando os moldes aos assistentes, que os tiravam das mãos ou dos pés materializados. Eis em que termos o Sr. Reimers conta o fato:

“Em breve tempo a força oculta começou a agir; ouviu-se a agitação da água. Alguns minutos depois, fui convidado a levantar-me e estender as mãos, ficando em uma atitude inclinada para retirar os moldes. Senti o contato de um molde em parafina, e o pé materializado desprendeu-se dela com a rapidez do relâmpago, produzindo um som bizarro e deixando o molde em minhas mãos. Nessa mesma noite obtivemos também as duas mãos. Os três gessos mostram exatamente as linhas e traços característicos das mãos e pés de Bertie, como eu os tinha observado quando os moldes tinham sido obtidos nas sessões com a médium Sra. Firman.” (vede Psychische Studien, 1877, pág. 549).

Naquela mesma sessão, recebeu-se o molde de outra figura materializada, pertencente a um indivíduo que tomava o nome de Lili. Esse molde fornece uma nova e notável prova de autenticidade do fenômeno. Um relatório sumário daquela experiência, que se deu a 11 de abril de 1876, foi publicado pelo Sr. Oxley, que tinha tomado parte nela, no The Spiritualist de 21 de abril de 1876. Mais tarde, em 1878, ele comunicou àquela revista uma narração circunstanciada desses fenômenos, acrescentando ali os desenhos da mão e do pé, vazados por meio de moldes que ele próprio tinha retirado dos membros materializados (The Spiritualist de 24 de maio e 26 de julho).

O Sr. Oxley teve a fineza de me fazer chegar às mãos os gessos vazados nesses moldes; julgo útil citar o artigo que consagra à mão de Lili (incluso uma fototipia daquela prova, segundo uma fotografia feita em S. Petersburgo, em minha presença). Lemos, pois, no The Spiritualist de 24 de maio de 1878:

“A imagem do lado oposto reproduz exatamente o gesso da mão do Espírito materializado, que se apresentava com o nome de Lili, e que foi obtido por vazamento no molde deixado por esse Espírito na sessão de 11 de abril de 1876, e isso em condições que tornavam qualquer fraude impossível. Como médium tínhamos o Dr. Monck; depois de o termos examinado, a seu próprio pedido, ele foi posto em um gabinete improvisado pela colocação de uma cortina através do vão de uma janela; a sala ficou iluminada a gás durante todo o tempo da sessão. Aproximamos uma mesa redonda da própria cortina e ali tomamos lugar, em número de sete.

Logo depois, duas figuras de mulher, que conhecíamos com os nomes de “Bertie” e “Lili”, apareceram no lugar em que as duas partes da cortina se tocavam, e quando o Dr. Monck introduziu a cabeça através da abertura, essas duas figuras apareceram acima da cortina, enquanto que duas figuras de homem (“Mike” e “Richard”) a separavam dos dois lados e se faziam igualmente ver. Por conseguinte, divisamos simultaneamente o médium e quatro figuras materializadas; cada uma das quais tinha seus traços particulares que a distinguiam das outras figuras, como se dá entre pessoas vivas.

É escusado dizer que todas as medidas de precaução tinham sido tomadas para prevenir qualquer embuste e que nos teríamos apercebido da menor tentativa de fraude.

Além de que, a forma obtida e a prova em gesso falam por si mesmas: ali se distinguem nitidamente as menores saliências da pele, e a curvatura dos dedos não teria permitido retirar a mão do molde sem danificá-lo; a largura do punho era apenas de 1/4 x 2 polegadas, ao passo que a largura da palma entre o dedo indicador e o mínimo era de 3,5 polegadas. Levei essa forma à casa de um modelador, que fez o seu gesso.

Eu mesmo preparara a parafina e a tinha levado para o gabinete. Bertie entregou, em primeiro lugar e por sua própria mão, o molde ao Sr. Reimers e em seguida me deu o de seu pé. Depois disso, Lili me perguntou se eu desejava ter a forma de sua mão. Naturalmente ela recebeu resposta afirmativa. Mergulhou a mão na parafina (posso dizê-lo, porque ouvimos o ruído que produziu o deslocamento da água) e, um minuto depois, ma estendeu entre as cortinas, convidando-me a retirar a luva de parafina que a envolvia. Inclinei-me em sua direção, por cima da mesa; no mesmo instante sua mão desapareceu, deixando entre as minhas o molde pronto.

A autenticidade desse fenômeno está fora de dúvida, porque o médium foi examinado antes de entrar para o gabinete, e porque a mesa, próximo à qual estávamos sentados em semicírculo, tinha sido colocada justamente de encontro à cortina; por conseguinte, era impossível penetrar ali e de lá sair alguém sem ser visto, por estar a sala suficientemente iluminada para que se pudesse ver tudo quanto se passava ali.

No caso citado, a mão que serviu de modelo ao molde não era evidentemente nem a do médium nem a de qualquer dos assistentes. Então, desde que toda intervenção por parte de um ser humano ficava completamente excluída, é o caso de perguntar: Que mão serviu de modelo ao molde?

Sabemos que a figura que apareceu é de semelhança perfeita com uma mulher viva; ela estendeu fora do gabinete a mão coberta pela luva de parafina, e essa luva ficou entre as minhas mãos depois que desapareceu a mão materializada.

Se, em geral, se pode ter confiança no testemunho dos homens (e estamos prontos, todos os sete, a confirmar a exatidão dessa narração), possuímos no presente caso uma prova irrefutável da intervenção de uma força estranha, não emanando do médium, nem das pessoas presentes; assim, acha-se estabelecida, de maneira indiscutível, a existência de seres que vivem fora da esfera terrestre.”

Até onde posso julgar nesse caso, a curvatura dos dedos, nessa moldagem, seria um obstáculo insuperável à saída franca da mão moldada; por conseguinte, esse gesso, que não apresenta vestígio algum de fratura, nem fenda, nem soldagem, deve por isso mesmo ser considerado como a prova material de sua origem supranatural.

A prova em gesso do pé de Bertie, que recebi do Sr. Oxley, apresenta também particularidades notavelmente convincentes: as concavidades formadas pelos artelhos, no nível de sua reunião com a planta dos pés, necessariamente tiveram que ficar cheias de parafina e deveriam ter formado saliências verticais que teriam sido infalivelmente fraturadas se o pé se tivesse retirado de maneira ordinária; ora, a forma dos artelhos ficou intacta. Outra circunstância significativa: não são somente as cavidades e depressões que são reproduzidas com perfeição, pois as linhas sinuosas que sulcam a pele são não menos claramente acentuadas na planta do pé – em número de cerca de cinqüenta por polegada, como o verificou o Sr. Oxley.

Outra particularidade: o segundo artelho é mais levantado do que os outros e só tem 14 milímetros de largura na base, ao passo que mede 19 milímetros na região da unha, como verifiquei com minhas próprias medidas; e, entretanto, a forma do artelho e as menores saliências da pele acentuam-se com perfeita nitidez, principalmente no nível da base. Se o artelho tivesse sido retirado da forma à maneira ordinária, todas essas minudências teriam desaparecido, e o próprio artelho teria adquirido uma espessura uniforme em toda a sua extensão.

A fim de dar idéia tão completa quanto possível da personalidade que aparecia com o nome de Bertie, ponho à disposição do leitor uma fototipia do modelo em gesso de seu pé; o Sr. Oxley publicou uma descrição circunstanciada a seu respeito, acompanhada de desenhos e de um esquema, no The Spiritualist de 26 de julho de 1878, e também na obra da Sra. Hardinge Britten: Nineteenth Century Miracles (Manchester, 1884, pág. 204).

Por minha vez, posso acrescentar a particularidade seguinte: no decurso de minha correspondência com os Srs. Oxley e Reimers, na própria época em que se faziam essas experiências, o Sr. Oxley teve a bondade de enviar-me o contorno do primeiro modelo, vazado em gesso, do pé de Bertie, bem como o contorno do pé da médium, sendo ambos feitos pelo próprio Sr. Oxley. Colocando o gesso original do pé de Bertie sobre o primeiro desses desenhos, verifiquei que havia semelhança completa, sendo o comprimento do pé de 19,8 centímetros, em todo o caso não mais de 20 centímetros, enquanto que o pé da médium era 3 centímetros mais comprido.

Desejando possuir ainda alguns pormenores complementares sobre aquela notável sessão, escrevi ainda muitas cartas ao Sr. Oxley, apresentando-lhe diversos quesitos. Forneço, em seguida, as suas respostas, que contêm documentos mui interessantes:

“Bury New Road nº 65, Higher Broughton, Manchester, 24 de março de 1884.

Senhor,

Incluso lhe envio a planta da sala; ela só tem uma porta, cuja chave se retirava de cada vez no começo da sessão e ficava, quer em minha mão, quer nas do Sr. Reimers. É verdade que a sala ficava ao rés do chão e que a janela tinha sacada para o lado da rua, mas eu fazia todos os preparativos necessários para transformar o vão daquela janela em gabinete apropriado para as experiências; desciam-se as gelosias e fechavam-se as portas de dentro; mas, como a luz da rua penetrava sempre, pendurávamos defronte da janela um pano preto, que eu mesmo fixava por meio de pregos, subindo em uma escada.



Como pode compreender, a médium ficava na impossibilidade absoluta de transpor esses obstáculos, admitindo-se que o tivesse desejado, pois que qualquer tentativa nesse sentido teria produzido um ruído que seguramente chegaria aos nossos ouvidos, visto que estávamos sentados muito perto da cortina, como o indica o desenho.

Além disso, ainda mesmo que a médium tivesse subido a uma cadeira, não teria podido alcançar a parte superior da janela para pregar de novo o pano. Tenho, pois, razão de presumir que nenhuma negligência fora cometida em nossas medidas de precauções.


Demais, ouvimos sempre o ruído que produzia o objeto mergulhado na água. Para confronto, pesamos por muitas vezes a parafina antes de fazê-la fundir, e quando os moldes estavam prontos, nós os pesávamos de novo com o resto da parafina; os dois pesos eram exatamente iguais, o que prova que os moldes foram feitos atrás da cortina.

Aliás, a prova em gesso traz em si a indicação de sua origem, e os que pretendem que ela pôde ser obtida por um processo de moldagem, sem uma única soldadura, não têm mais do que experimentar.

Em relação ao artelho saliente sobre o qual me questiona, posso dizer-lhe somente que o agente oculto deveria tê-lo conformado assim. O pé da médium não tinha aquela particularidade; os artelhos da Sra. Firman são mais compridos e não têm semelhança alguma com aqueles. Convém também que o senhor se recorde de que o pé materializado saiu de trás da cortina, envolto pelo molde, e retirou-se imediatamente, deixando-o em minhas mãos.

Esses dados terão como resultado responder a todas as objeções. Espero que a minha missiva lhe chegue em breve e em bom estado.

Seu afeiçoado



Wm. Oxley.”

“Bury New Road nº 65, Higher Broughton, Manchester, 17 de maio de 1886.

Senhor,

Acabo de chegar em casa depois de uma ausência de cinco semanas, o que lhe explicará por que não respondi mais cedo à sua prezada carta.



Em resposta a seus quesitos, responder-lhe-ei que os moldes em parafina achavam-se nas mãos e pés materializados que saíam de trás da cortina. Vi distintamente uma parte descoberta da mão ou do pé acima do molde, e posso dar testemunho disso. Os fantasmas me diziam: “Tome”, e, logo que eu tocava na parafina, os órgãos materializados desapareciam, deixando as formas em minhas mãos. A mão dirigia-se para mim até uma distância que me permitisse alcançá-la, inclinando-me por cima da mesa.

O que é mais curioso é o próprio tamanho da mão. A aparição que reconheci ser a mesma invariavelmente “Lili”, variava de tamanho: umas vezes a sua estatura não excedia a de uma menina bem desenvolvida; outras vezes apresentava as dimensões de uma senhora; até acredito que ela não apareceu duas vezes de maneira absolutamente idêntica, mas eu a reconhecia sempre e não a confundia nunca com as outras aparições. Eu sabia, por experiência, que a estatura e a aparência exterior das figuras materializadas são submetidas a condições dependentes das pessoas que fazem parte das sessões. Por exemplo, se uma pessoa estranha estava presente, eu notava certa diferença nas manifestações. Algumas vezes as figuras não se formavam completamente: não se distinguia mais do que a cabeça e o busto; outras vezes se mostravam de pé, segundo as condições. Quanto à mão de Lili, apresenta uma mescla bizarra de juventude e de velhice, o que prova, a meu ver, que as figuras materializadas se utilizam, até certo ponto, dos traços característicos do médium.

Mas a própria mão da médium não tem a mínima semelhança com a que lhe envio, e a diferença entre elas é tão grande quanto possível. Sucedeu-me freqüentemente ver o Espírito que eu conhecia com o nome de Lili em outras casas e entre amigos, mas somente com os mesmos médiuns: a Sra. Firman ou o Sr. Monck. Na casa de meu amigo o Sr. Gaskell, sucedeu-me uma vez ver aquela figura materializar-se e se desmaterializar perante nossos olhos, com uma claridade muito intensa; ela se mantinha durante todo o tempo suspensa no espaço, sem tocar no soalho uma só vez. Toquei com a mão em seu corpo e em suas vestes. O médium era o Sr. Monck. Daquela vez, a sua estatura não excedia a três pés, mais ou menos. Mas essas particularidades em nada impugnam a autenticidade do fenômeno, que está provado para nós de maneira positiva.

Seu afeiçoado



Wm. Oxley.”

Antes de dar por terminadas as experiências do Sr. Reimers, citarei ainda o processo verbal de uma sessão rigorosamente fiscalizada, que foi organizada em Manchester, a 18 de abril de 1876. O relatório competente foi publicado no The Spiritualist de 12 de maio do mesmo ano, e em seguida no Psychische Studien (1877, págs. 550-553). Dentre as cinco testemunhas daquela experiência conheço três pessoalmente; são: os Srs. Tiedeman-Marthèze, Oxley e Reimers.

Eis esse processo verbal:

“Nós, abaixo assinados, certificamos pela presente que fomos testemunhas dos fatos seguintes, que se passaram, a 17 de abril de 1876, no aposento do Sr. Reimers.

Depois de ter tomado uma quantidade de parafina com o peso exato de três quartos de libra, pusemo-la em um balde; em seguida deitamos por cima água fervente, que fundiu a parafina.

Se se mergulha a mão nesse líquido, repetidas vezes, ela se cobre de uma camada de parafina; retirando-se cuidadosamente a mão, obtém-se assim um molde que pode servir de forma para fazer modelos em gesso.

Depois de ter enchido um segundo balde com água fria (para apressar o resfriamento das formas), colocamos os dois baldes em um gabinete quadrangular, formado em um ângulo do aposento por meio de dois pedaços de um tecido de algodão, medindo 6 x 4 pés e ligados a hastes metálicas. A parede exterior do aposento não fazia corpo com a casa vizinha, e todo o espaço compreendido no ângulo em questão estava ocupado por diversos móveis; a existência de uma porta dissimulada era inadmissível.

Quando os baldes foram conduzidos para o gabinete, cobriu-se a médium com um saco de filó que lhe envolvia a cabeça, as mãos e todo o busto até à cintura; a corrediça foi apertada fortemente e o cordão atado atrás das costas, por muitos nós, nos quais se tinha passado um pedaço de papel, que devia escapar-se ao menor esforço que se fizesse para desatar os nós; as pontas do cordão foram presas no saco por meio de alfinetes, nas costas, entre o pescoço e a cintura. Todas as testemunhas foram unânimes em reconhecer que era absolutamente impossível a médium soltar-se sozinha sem se trair. Assim presa, a médium foi ocupar o lugar que lhe tinha sido marcado no gabinete, o qual só continha móveis e os baldes, e nada mais, como nos asseguramos à viva luz do gás. Quando todas as testemunhas se reuniram, isto é, logo no começo desses preparativos, a porta foi fechada à chave. Então diminuímos a luz, que ficou, entretanto, bastante intensa para permitir distinguirem-se todos os objetos que se achavam no quarto; ocupamos nossos lugares, que estavam a uma distância de 4 a 6 pés do gabinete.

Enquanto estávamos à espera, entoamos alguns cânticos; em pouco tempo divisamos, na abertura em forma de janela deixada na parte superior da cortina, uma figura que se mostrou a princípio na face anterior, depois ficou de lado. Todos os assistentes viram com igual clareza uma grinalda luminosa com um enfeite branco, na cabeça da figura, e uma cruz de ouro pendente de seu pescoço por uma fita preta. Uma segunda figura de mulher apareceu depois, trazendo do mesmo modo uma grinalda na cabeça, e ambas se elevaram acima da cortina, dirigindo-nos amáveis saudações com a cabeça. Uma voz de homem, partindo do gabinete, deu-nos o bom dia e nos informou que ensaiava fazer modelagens. Em seguida, a primeira dessas figuras apareceu de novo na abertura da cortina e convidou o Sr. Marthèze a aproximar-se dela e lhe apertar a mão. Então o Sr. Marthèze pôde ver, ao mesmo tempo, o fantasma e a médium coberta com o saco e sentada na extremidade oposta. O fantasma desapareceu imediatamente, dirigindo-se para o lado da médium. Quando o Sr. Marthèze voltou para o seu lugar, a mesma voz nos perguntou, por trás da cortina, qual a mão que desejávamos obter. Depois de algum tempo, o Sr. Marthèze teve que se levantar de novo para receber um molde de mão esquerda. Em seguida foi a vez de o Sr. Reimers aproximar-se para retirar o molde da mão direita, a que ele devia mandar aos amigos de Lípsia (como tinha sido prometido).

Nesse momento, a médium começou a tossir. No começo da sessão, os acessos eram tão violentos que tivemos apreensões pelo bom êxito da experiência; entretanto, eles se acalmaram no decurso da sessão, que se prolongou por mais de uma hora. Logo que a médium deixou o gabinete, examinamos os nós e o mais, e verificamos que tudo se achava em seu lugar, mesmo o alfinete, que estava muito pouco introduzido no tecido e teria facilmente podido soltar-se se a médium tivesse feito um movimento brusco.

Retirada a parafina que havia ficado no balde, pesamo-la juntamente com as duas formas obtidas: o peso era um pouco mais do que três quartos de libra; mas esse excesso se explica naturalmente pela água que teve de ser absorvida pela parafina, em uma certa quantidade, como podemos verificá-lo, comprimindo o resíduo.

Feito isso, estava terminada a nossa sessão. As provas em gesso, feitas nos moldes assim obtidos, distinguem-se completamente das mãos da médium, sob muitos pontos de vista; elas trazem o cunho de mão perfeitamente viva, e outras particularidades indicam que elas provêm do mesmo indivíduo, o mesmo que por diversas vezes já tinha produzido moldes semelhantes em parafina, nas mesmas condições de rigorosa fiscalização.

Manchester, 29 de abril de 1877.

J. N. Fiedeman-Marthèze – 20, Palmeira Square, Brighton.
Christian Reimers – 2, Ducie Avenue, Oxford Road,
Manchester.
Thomaz Gashell – 69, Oldham Street,
Manchester.
William Oxley – 63, Bury Newroad,
Manchester.
Henry Marsh – Birch Cottage,
Fairy Lane, Bury Newroad, Manchester.”

Eis uma recapitulação sucinta dos fatos estabelecidos pelas experiências do Sr. Reimers:

1º – A médium estava isolada em condições que ofereciam todas as garantias desejáveis; as outras medidas de fiscalização estavam igualmente combinadas de maneira a não deixar subsistir nenhuma suspeita de fraude. Quanto à opinião do Sr. Hartmann relativamente à nulidade absoluta das medidas de isolamento e de atadura, como provas da não identidade da médium com o fantasma, voltarei a esse ponto no capítulo seguinte, que trata da fotografia das figuras materializadas.

2º – Além disso, nos casos examinados, as provas da realidade do fenômeno não se fundam apenas no insulamento da médium, mas ainda na diferença anatômica entre os órgãos materializados e os membros correspondentes da médium, diferença verificada não só pelas testemunhas como ainda pela evidência das moldagens.

3º – O mesmo tipo de órgão materializado reproduziu-se em todas as sessões, que foram numerosas e às vezes feitas em lugares diversos, o que prova a presença de um mesmo agente. O número das formas obtidas atinge a cifra de 15.

4º – As provas em gesso correspondiam exatamente às mãos e aos pés materializados, que as testemunhas tinham visto e tocado por numerosas vezes antes, durante e depois da moldagem.

5º – A posição dos dedos é diferente em cada modelo.

6º – Por muitas vezes os moldes foram apresentados aos assistentes, enquanto revestiam os órgãos em torno dos quais se tinham formado.

7º – O mesmo tipo anatômico de membro materializado reproduziu-se, apesar da substituição do médium feminino por um médium masculino.

8º – Finalmente, algumas dessas provas em gesso testemunham claramente sua origem supranatural, pois não puderam ser obtidas por qualquer dos processos de moldagem.

O conjunto dessas particularidades dá uma importância excepcional às experiências do Sr. Reimers.



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