Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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2) O médium é invisível; o fantasma
é visível e reproduzido pela fotografia.

Passemos à fotografia ordinária das figuras materializadas, cujas imagens acabamos de ver reproduzidas por via transcendente, mas nas condições inversas das da primeira categoria, isto é, o médium estará invisível, ao passo que a figura, visível aos assistentes, será reproduzida em fotografia.

Nesta categoria citarei duas experiências, a primeira das quais é publicada pelo Medium and Daybreak (1875, pág. 657); o artigo é do Sr. Barkas, homem de ciência positiva e geólogo consumado. Ele mora em Newcastle-on-Tyne, onde, de tempos em tempos, faz conferências sobre Astronomia, Geologia, Óptica e Fisiologia. Eis um extrato desse artigo:

“A 20 de fevereiro de 1875, sexta-feira, fui convidado a dirigir-me a uma casa particular, em Newcastle, para assistir a experiências fotográficas de figuras materializadas. Na primeira sessão, que se realizara a 6 de fevereiro, tinha-se feito um primeiro ensaio que deu em resultado a fotografia de pequena figura velada. Era o Sr. Laws quem manejava o aparelho fotográfico nas duas sessões em questão. Essa primeira fotografia foi designada com o número 1; os negativos, obtidos em minha presença, têm os números 2, 3 e 4.

A 20 de fevereiro, às 8 horas, reunimo-nos no salão de honra. A assistência constava de duas moças médiuns, quatro senhoras, catorze testemunhas e dois fotógrafos: o Sr. Laws e seu filho. O Sr. Laws não era espírita; nunca se tinha ocupado de semelhante assunto, e antes de 6 de fevereiro, sexta-feira, dia em que obteve a primeira fotografia, nunca tinha tido ocasião de observar tais fenômenos. Em um ângulo do salão, separado do resto do aposento por um biombo, colocaram-se dois travesseiros para as médiuns, que entraram nesse gabinete às oito horas e vinte e sete minutos; elas estavam vestidas de tecidos de cores escuras e usavam capas. O fogão e o espelho que ficavam por cima foram cobertos com um pedaço de tecido verde-escuro, que devia ao mesmo tempo servir de fundo para a fotografia.

À frente do fogão, a dois pés e meio da passagem que ia ter aos fundos do biombo, colocou-se uma cadeira. A lâmpada de magnésio estava em cima de uma mesinha perto do biombo; o Sr. Laws pai tomou lugar em uma cadeira, muito perto, para acender o magnésio no momento oportuno. Colocou-se o piano no centro do aposento, pouco mais ou menos, cerca de dez pés distante do fogão; foi em cima do piano que se colocou a máquina fotográfica. O foco foi calculado para o espaço que separava o biombo da cadeira. Com o fim de determinar melhor a altura das figuras que teriam de aparecer, pregaram-se com alfinetes três folhas de papel branco no pano que cobria o fogão, a quatro pés do soalho, como se pode verificar nas fotografias. As pessoas presentes tomaram lugar em alas, à esquerda, à direita e por trás do piano, e em frente à passagem que dava acesso para o gabinete, lugar onde se esperava que aparecessem os fantasmas. Todos os assistentes tinham formado cadeia. A luz foi diminuída a ponto de nos deixar às escuras. Conservamo-nos assim cerca de uma hora, entoando de vez em quando canções populares. Às nove horas e três minutos, pediram-nos, por pancadas, e depois pelas palavras de um médium em estado de transe, que aumentássemos a chama do gás e que acendêssemos uma lâmpada de álcool, a fim de atenuar, para a figura esperada, a transição à luz mais intensa do magnésio, que é indispensável para a fotografia; seguimos essas instruções; o aposento ficou, por conseguinte, suficientemente iluminado. Às 9 horas e 40 minutos disseram-nos que conservássemos as nossas chapas prontas. Quando anunciamos que estávamos preparados, um lado do biombo se abriu e divisamos pequena forma feminina ou, pelo menos, um pequeno ser vivo, trajando vestes femininas. Ela se conservava perto do lado aberto, defronte do aparelho. Imediatamente, acendeu-se o fio de magnésio. Uma luz intensa iluminou toda a aparição e pôde-se ver que ela estava inteiramente envolta por uma veste, que deixava a descoberto apenas o rosto e as mãos, que eram de cor escura carregada, quase negros, sendo uma das mãos mais clara do que a outra. Essa roupagem parecia ser de cassa ordinária, caindo em largas dobras até aos pés, e tinha o aspecto de ser muito nova, não estando enxovalhada nem machucada. O rosto tinha a cor escura carregada dos pretos; os olhos eram grandes, ternos, as pálpebras abriam-se e fechavam-se pesadamente; eles eram sanguíneos, como os dos negros; o nariz era grande e chato e os lábios espessos e de um vermelho brilhante. Segundo as nossas idéias inglesas, esse rosto não era belo, certamente. Ela mostrava uma espécie da timidez e da surpresa que experimenta geralmente um homem inculto quando se acha subitamente transportado para um meio estranho. À claridade do magnésio distingui perfeitamente os traços desse rosto.

Entretanto, o fantasma não podia suportar a luz e voltava-se pouco a pouco; por isso não se vê na fotografia número 2 mais do que uma parte do rosto, com as feições completamente apagadas. As sombras que sulcam as vestes são projetadas pelas dobras, por efeito da iluminação em sentido oblíquo. Em todas essas fotografias os pés parecem faltar e supõe-se que o corpo é mantido por um sustentáculo. A exposição durou dez segundos mais ou menos. Quando o fantasma desapareceu, recebemos a promessa de que ele nos apareceria de novo.

Depois de termos preparado a segunda chapa, esperamos pela volta da aparição. Desta vez ela conseguiu olhar-nos de frente: seu rosto assemelhava-se perfeitamente ao que descrevi mais acima. Ela fazia esforços evidentes para conservar-se firme defronte do aparelho, mas, como da outra vez, acabou por ser coagida a desviar-se da luz, de maneira que a fotografia número 3 não é melhor do que a precedente. A duração da exposição foi de doze segundos. Pedimos ao fantasma que voltasse uma vez ainda e que ficasse bem defronte do aparelho. Ele prometeu, mas com a condição de que todos os assistentes fechassem os olhos, à exceção do fotógrafo e de seu auxiliar. Essas condições foram aceitas.

Procedeu-se ao preparativo da chapa; durante esse tempo fomos avisados de que uma das médiuns seria obrigada a deslocar-se e a sentar-se em uma cadeira, com o fim de sustentar as forças do fantasma durante a exposição. Efetivamente, uma das médiuns, que estava envolta em um manto preto, saiu de trás do biombo e colocou-se maquinalmente em uma cadeira. Terminados esses preparativos, a pequena figura mostrou-se de novo e colocou-se ao lado da médium. De acordo com a sua promessa, todos os assistentes fecharam os olhos e a fotografia número 4 foi tirada. Vê-se ali o contorno indeciso de um rosto que se assemelha de maneira incontestável ao que eu tinha notado desde as suas primeiras aparições. Essa última exposição durou cerca de catorze segundos. O fantasma e a médium desapareceram ambos atrás do biombo. Eram 10 horas e 25 minutos. A perda de força mediúnica tinha sido tão grande que os médiuns só puderam voltar a seu estado normal uma hora depois.

A autenticidade desses fenômenos foi confirmada de maneira indubitável por um fato que se deu mais tarde. As duas médiuns se achavam em Londres, em casa do Sr. Hudson, que tinha obtido fotografias espíritas freqüentemente. Elas se tinham apresentado ali no intuito de mandar tirar seus próprios retratos e também, mas eventualmente, das aparições que por acaso as acompanhassem. Em um dos retratos nota-se pequena figura feminina, cujo rosto tem pronunciada semelhança com o que acabo de descrever.” (Medium and Daybreak, nº 289, 15 de outubro de 1875, págs. 657-658).

Em uma memória que dirigiu ao Congresso dos Espiritualistas de Londres, em 1877, o Sr. Barkas, depois de ter verificado que as médiuns empregadas nessa experiência eram as senhoritas Wood e Fairlamb, concluiu nos seguintes termos:

“Poderão objetar-me, e não sem visos de fundamento, que no caso precedente nenhuma medida de precaução foi tomada, isto é, que não se mudaram os vestidos das médiuns, que não foram amarradas, nem revistadas depois da sessão. Todas essas observações são muito justas e, entretanto, a despeito da ausência daquelas medidas de fiscalização, o fato do aparecimento de uma figura humana indubitavelmente viva e absolutamente dessemelhante das médiuns constitui por si só uma prova suficiente de que esse fantasma não era a pessoa de uma das médiuns, enquanto que, de outro lado, seu rosto móvel, dotado de todos os indícios da vida real, atesta de maneira evidente que não era uma máscara.” (The Spiritualist, nº 234, 13 de fevereiro de 1877, pág. 77).

Farei notar aqui que, segundo o Sr. Hartmann, quando uma aparição é absolutamente dessemelhante do médium, em tamanho, aspecto, cor, nacionalidade, não é mais possível admitir-se a transfiguração do médium, e convém procurar outra explicação desses fenômenos. Tal é o caso para a experiência de que aqui se trata; segundo o Sr. Hartmann, a aparição da pequena negra deve, pois, ser considerada como uma alucinação. Mas, de outro lado, a fotografia que dela foi tirada satisfaz a todas as condições impostas pelo Sr. Hartmann para a prova do contrário; ela deve, por conseguinte, ser aceita por ele como uma prova suficiente de caráter não alucinatório da aparição, além de que eu poderia citar ainda muitas experiências desse gênero.

Na segunda experiência, de que tenho que falar, tratar-se-á ainda da aparição clássica de Katie King, fotografada a 7 de maio de 1873, à luz do magnésio, pelo Sr. Harrison, editor do The Spiritualist, que, na qualidade de fotógrafo amador, tinha feito por suas próprias mãos todas as manipulações. A descrição circunstanciada dessa experiência, a primeira desse gênero nos anais do Espiritismo, foi feita pelo Sr. Harrison no The Spiritualist, páginas 200 e 201; ela é acompanhada de uma gravura em madeira, reproduzindo a fotografia obtida. Só tirarei dessa minuciosa descrição os pormenores que são úteis ao meu argumento.

A sessão foi feita em condições da mais severa vigilância. Antes de começar, a Sra. e a Srta. Corner, que assistiam à experiência na qualidade de testemunhas, conduziram a médium (Srta. Florence Cook) a seu quarto de dormir, onde lhe despiram os vestidos, revistaram-na e lhe puseram uma capa impermeável pardo-escuro diretamente sobre as roupas de dentro, e conduziram-na em seguida para o aposento das sessões, onde o Sr. Luxmoore lhe atou solidamente os pulsos por meio de uma fita de linho. Todos os assistentes examinaram os nós, sobre os quais se colocaram selos; feito isso, instalaram-na no gabinete, que também tinha sido inspecionado previamente. Em carta particular, o Sr. Luxmoore diz que tinha examinado cuidadosamente o gabinete de uma extremidade a outra, enquanto as Sras. Corner, mãe e filha, estavam ocupadas em revistar a Srta. Cook. Ele verifica que naquele gabinete nada poderia ter sido disfarçado sem que tivesse sido descoberto. A fita era presa em um gancho de latão pregado no soalho; comunicava com o exterior por baixo da cortina, de maneira que, ao menor movimento da médium, qualquer fraude seria descoberta imediatamente. Podia-se depositar toda a confiança na solidez dos nós dados pelo Sr. Luxmoore: naquele mister ele se reconhecia na qualidade de marinheiro que passava a maior parte do tempo a bordo de seu iate. Logo que a médium penetrou o gabinete, caiu em transe e alguns minutos mais tarde Katie entrou no aposento, completamente vestida de branco, conforme mencionei mais acima. No fim da sessão todos os assistentes examinaram os nós e os selos e os acharam intactos; só então os desfizeram. As ligaduras eram tão justas que deixaram marcas nos punhos da médium.

Quatro fotografias de Katie King foram tiradas em tais condições. Segundo o Sr. Hartmann, que está na obrigação de nos dar explicações naturais, é a própria médium quem foi fotografada. Mas o Sr. Hartmann esquece que há naquela experiência três fenômenos distintos que exigem por sua vez uma explicação baseada em causas naturais. Quanto ao primeiro fenômeno, se, de acordo com a tese do Sr. Hartmann, a médium atravessou os laços que a prendiam, penetrando depois nesses laços, que ficaram intactos, achamo-nos em presença de um fato de penetração da matéria, fato transcendente, do qual o Sr. Hartmann não nos dá explicação alguma natural. Segundo fenômeno: a médium, vestindo uma capa impermeável de cor pardo-escura, aparece durante alguns minutos vestida de branco, coberta por um véu branco, com um cinto branco; por conseguinte, houve, sempre segundo o Sr. Hartmann, transporte e desaparecimento desses vestidos; esse fato, que o Sr. Hartmann admite igualmente, não deixa de ser transcendente, e acerca do qual ele não nos dá explicação alguma natural. Terceiro fenômeno: aparição da figura; a esse fato o Sr. Hartmann encontra uma explicação natural, afirmando que essa figura não é outra mais do que a da própria médium.

Por conseguinte, o Sr. Hartmann nos explica um fenômeno natural apoiando-se em dois fenômenos sobrenaturais. Semelhante processo de discussão não poderia ser aprovado por uma crítica qualquer.

Conseqüentemente, me é permitido dizer que enquanto o Sr. Hartmann não nos fornecer uma explicação simples e natural dos dois primeiros fenômenos, sua explicação natural do terceiro não será admissível, ainda mesmo no ponto de vista de sua argumentação.

Durante a experiência fotográfica de que se acaba de tratar, deu-se ainda um fato curioso: “Lá para o fim da primeira sessão, Katie nos disse que suas forças diminuíam, que ela ia dissolver-se completamente. De fato, sob a influência da luz que se tinha deixado penetrar no gabinete, a parte inferior da aparição desapareceu, e ela diminuiu a tal ponto que tocava no chão com a região occipital; o resto do corpo já não existia. As últimas palavras que ela nos dirigiu eram para nos pedir que cantássemos durante alguns minutos, sem deixar os nossos lugares. Katie fez seu reaparecimento; ela tinha o mesmo aspecto que dantes, e nós conseguimos tirar ainda uma fotografia.”

Em outro lugar, o Sr. Luxmoore escreve:

“Pouco depois da produção da primeira fotografia, Katie abriu a cortina e pediu-nos que a olhássemos; ela parecia não ter mais corpo; apresentava um aspecto dos mais estranhos: sua cabeça estava quase ao nível do chão e parecia sustentada apenas pelo pescoço; por baixo da cabeça via-se sua vestimenta branca.”

Se a figura de Katie não tivesse sido fotografada por muitas vezes durante aquela sessão, antes e depois de sua desmaterialização ad visum, certamente o Sr. Hartmann se teria prevalecido dessa circunstância para apresentar um argumento em favor de sua teoria favorita, segundo a qual a aparição de Katie não seria mais do que uma alucinação. Mas, desde o momento em que Katie foi fotografada, não havia alucinação; sua desmaterialização apenas seria uma alucinação provisória; assim, temos para o mesmo fenômeno duas explicações absolutamente contraditórias: em dado momento é a forma da médium que entra em cena; um momento depois, somos o joguete de uma alucinação. Mas, então, por quem é produzida essa alucinação? Pela médium? Assim, a médium, encerrada em um gabinete que tem apenas 37 polegadas de comprimento e 21 de largura, muda de trajo em um instante, veste de novo seus vestidos ordinários, entra em seus laços, despe suas vestimentas brancas (e suas vestimentas são reais, pois que foram fotografadas), depois exibe sobre essas vestimentas a alucinação de sua cabeça. Em vão se procuraria o sentido e os motivos de uma encenação tão bizarra.

Acabamos de estudar duas espécies de experiências de caráter diferente e que se completam reciprocamente: a fotografia de uma forma invisível é confirmada pela fotografia da mesma forma tornando-se visível e vice-versa. Isso quer dizer que a fotografia transcendente serviu para justificar a autenticidade da forma reproduzida pela fotografia ordinária. Mas esses fenômenos, se bem que bastante convincentes por si mesmos, ainda não preenchem as condições impostas elo Sr. Hartmann.



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