Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Prefácio da tradução francesa


Conforme um ajuste feito com o Sr. Alexandre Aksakof, conselheiro de Estado atual de S. M., o imperador da Rússia, assumi a responsabilidade de publicar em francês a sua obra tão conhecida no estrangeiro: Animismus und Spiritismus.

O filósofo bávaro Sr. Carl du Prel me recomendava esta obra como indispensável a qualquer investigador consciencioso; eu era do seu parecer.

Confiei a tradução da obra ao Sr. B. Sandow, nosso colaborador, em razão dos seus conhecimentos lingüísticos; acrescentarei que as provas definitivas foram submetidas à aprovação do autor.

Deixo ao tradutor a incumbência de apresentar ao público francês algumas considerações sobre Animismo e Espiritismo e sobre as origens deste volume.



O Editor: P.-G. Leymarie

* * *

A obra que apresentamos ao público não foi escrita com o intuito especial de defender a causa espírita, mas, sim, para preservar essa doutrina dos ataques sérios a que no futuro ficaria indubitavelmente exposta, desde que os fatos sobre os quais se baseia sejam admitidos pela Ciência.

A leitura deste livro produzirá certamente impressão profunda no espírito de todos aqueles que se preocupam com o problema da vida e meditam sobre os destinos humanos. Sem dúvida, os espíritas só encontrarão aqui a confirmação, cientificamente formulada, de suas crenças; os incrédulos, quer o sejam de caso pensado, quer repousem apenas no quietismo de um cepticismo indiferente, ao menos serão levados à dúvida, que resume, apesar de tudo, a suprema prudência no homem, quando este não tem, para sancionar as suas convicções, uma certeza absoluta.

A uma pena muito mais autorizada do que a minha caberia apresentar Animismo e Espiritismo aos leitores franceses. Mas nenhuma necessidade deste gênero se impõe, porque o nome do escritor basta para recomendar sua obra e, demais, o seu Prefácio justifica amplamente, perante todos os pensadores, a publicação do livro: expõe de maneira admirável a profissão de fé do autor e faz conhecer claramente o fim que ele se propôs. Nada mais se poderia acrescentar aí.

Meu papel deve, pois, limitar-se a mencionar rapidamente algumas particularidades referentes às origens deste trabalho.

Conforme se pode ver no frontispício do volume, foi este uma resposta à brochura que o bem conhecido filósofo alemão Eduard von Hartmann – continuador de Schopenhauer – publicou em 1885, sobre o Espiritismo.

A primeira edição original (alemã) de Animismus und Spritismus (Leipzig, 1890) 1 provocou da parte do Sr. Von Hartmann uma réplica intitulada “A hipótese dos Espíritos e seus fantasmas” (Berlim, 1891), na qual ele volta, com insistência, aos argumentos de que já se tinha servido. Desta vez foi o sábio Carl du Prel quem se encarregou de continuar, contra esse adversário tão temível, a polêmica que o Sr. Aksakof infelizmente não podia continuar, devido ao seu estado de saúde.

Nem a resposta do Dr. Carl du Prel nem as duas publicações do Sr. Von Hartmann foram até agora traduzidas para o francês; esta lacuna, porém, não diminuirá sensivelmente o interesse que o leitor atento há de encontrar nesta obra, notando-se que o autor nela reproduz “in extenso” os principais argumentos de seu adversário.

Resta-me dar algumas indicações sobre as fontes de que me servi para imprimir a esta tradução uma fidelidade tão escrupulosa quanto possível.

Traduzi do próprio texto alemão as numerosas citações extraídas do livro do Sr. Von Hartmann. As indicações se referem, pois, naturalmente à edição alemã, porquanto, como já o disse acima, nenhuma tradução francesa existe desse livro. A parte do texto primitivo de Animismo e Espiritismo, escrita em francês pelo autor, permitiu-me fixar na tradução uma terminologia já consagrada pelo próprio autor. No que respeita às alterações feitas na edição russa, que veio à luz em 1893, consultei cuidadosamente essa edição; quanto às citações de origem inglesa, não pude ter à vista todos os textos originais e vi-me assim obrigado, acerca de muitos deles, a limitar-me às traduções alemã e russa, as quais, apresso-me em dizê-lo, nada deixam a desejar.

Tenho necessidade, depois desta documentação, de solicitar a indulgência do leitor?

Conto que os meus esforços serão apreciados com retidão por aqueles que se interessam por estas questões de tão elevada importância.

Concluindo, não posso deixar de exprimir o meu mais vivo reconhecimento ao meu sábio amigo, o Dr. H., pelo precioso concurso que generosamente me prestou. Recorri aos seus conhecimentos para a tradução de diversos trechos de ordem científica e técnica, e posso dizer que sempre recebi dele pareceres tão esclarecidos quanto benevolentes.

Devo, finalmente, agradecer ao Sr. Leymarie haver-me confiado este trabalho tão delicado quanto interessante.



B. Sandow

Prefácio da edição alemã


Hoje, que afinal está pronta a minha resposta ao Sr. Hartmann, depois de quatro anos de trabalho realizado no meio de sofrimentos morais e físicos, não julgo inútil dar, às pessoas que lerem a minha obra, algumas palavras de explicação para guiá-las em sua leitura.

Alexandre Aksakof

O Sr. Hartmann, escrevendo a sua obra sobre o Espiritismo, imaginou, para explicar os seus fenômenos, uma teoria baseada unicamente na aceitação condicional de sua realidade, isto é, só os admitindo provisoriamente, com os caracteres que lhes são atribuídos nos anais do Espiritismo. Por conseguinte, o objetivo geral do meu trabalho não foi provar e defender a todo custo a realidade dos fatos mediúnicos, mas aduzir à sua explicação um método crítico, conforme as regras indicadas pelo Sr. Hartmann.

É, pois, um trabalho comparável à solução de uma equação algébrica cujas incógnitas só tivessem um valor convencionado.

O primeiro capítulo, que trata das materializações, é o único que se distingue, sob este ponto de vista, do resto da obra, porque aqui o Sr. Hartmann, admitindo completamente a realidade subjetiva ou psíquica do fenômeno, considerado por ele como uma alucinação, tinha exigido, para a aceitação de sua realidade objetiva, certas condições de experimentação, às quais eu tratei de satisfazer.

Assim, pois, não tenho que tomar a defesa dos fatos nem perante os espíritas, que não duvidam deles, nem perante os que negam a priori, porque se trata aqui, não de discuti-los, mas de procurar a sua explicação.

É indispensável que esse estado de coisas seja fixado desde já, a fim de que as pessoas não-espíritas, que pensarem em criticar-me, não sigam caminho falso, obstinando-se como de ordinário em afirmar a impossibilidade, a inverossimilhança, a fraude inconsciente ou consciente, etc.

Quanto às críticas que tiverem por fim pôr em relevo os erros de aplicação do método, elas serão bem-vindas para mim.

Dito isso uma vez por todas, precisarei que o fim especial de meu trabalho foi investigar se os princípios metodológicos propostos pelo Sr. Hartmann bastam, como ele afirma, para dominar o conjunto dos fenômenos mediúnicos e para dar deles uma “explicação natural” – segundo a sua expressão –, que seja ao mesmo tempo simples e racional. Melhor ainda: as hipóteses explicativas do Sr. Hartmann, uma vez admitidas, excluem verdadeiramente toda a necessidade de recorrer à hipótese espirítica?

Ora, as hipóteses propostas pelo Sr. Hartmann são bastante arbitrárias, ousadas, vastas; por exemplo:



  • uma força nervosa que produz, fora do corpo humano, efeitos mecânicos e plásticos;

  • alucinações duplas dessa mesma força nervosa, produzindo igualmente efeitos físicos e plásticos;

  • uma consciência sonambúlica latente que é capaz – achando-se o indivíduo no estado normal – de ler, no fundo intelectual de outro homem, o seu presente e o seu passado;

  • e, finalmente, essa mesma consciência dispondo, também, no estado normal do indivíduo, de uma faculdade de clarividência que o põe em relação com o Absoluto e lhe dá, por conseguinte, o conhecimento de tudo o que existe e existiu.

É preciso convir que com fatores tão poderosos, o último dos quais é positivamente “sobrenatural” ou “metafísico” – no que o Sr. Hartmann está de acordo –, toda a discussão se torna impossível. Mas é preciso fazer ao Sr. Hartmann esta justiça: ele mesmo tentou fixar as condições e os limites dentro dos quais cada uma destas hipóteses é aplicável.

A minha tarefa era, pois, indagar se não há fenômenos em que as hipóteses do Sr. Hartmann são impotentes para explicar – nos limites ou condições em que elas são aplicáveis segundo suas próprias regras.

Afirmando a existência de tais fenômenos, sustentei bem a minha tese? Não compete a mim pronunciar-me sobre esse ponto.



* * *

Interesso-me pelo movimento espírita desde 1855, e desde então não deixei de estudá-lo em todas as suas particularidades e através de todas as literaturas. Durante muito tempo aceitei os fatos apoiado no testemunho alheio; foi só em 1870 que assisti à primeira sessão, em um círculo íntimo que eu tinha organizado. Não fiquei surpreendido de verificar que os fatos eram realmente tais quais me tinham sido referidos por outros; adquiri a convicção profunda de que eles nos ofereciam – como tudo o que existe na Natureza – uma base verdadeiramente sólida, um terreno firme para a fundação de uma ciência nova que seria talvez capaz, em futuro remoto, de fornecer ao homem a solução do problema da sua existência. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para tornar os fatos conhecidos e atrair sobre o seu estudo a atenção dos pensadores isentos de preconceitos.

Mas, enquanto me entregava a esse trabalho exterior, um trabalho interior se realizava.

Acredito que todo observador sensato, desde que começa a estudar esses fenômenos, fica impressionado por estes dois fatos incontestáveis: o automatismo evidente das comunicações espiríticas e a falsidade arrogante, e do mesmo modo evidente, do seu conteúdo; os nomes ilustres com que elas são freqüentemente assinadas constituem a melhor prova de que essas comunicações não são o que pretendem; o mesmo sucede relativamente aos fenômenos físicos simples; é do mesmo modo evidente que eles se produzem sem a menor participação consciente do médium, e nada, à primeira vista, justifica a suposição de uma intervenção dos “espíritos”. E só mais tarde, quando certos fenômenos de ordem intelectual nos obrigam a reconhecer uma força inteligente extramediúnica, é que esquecemos as primeiras impressões e encaramos com mais indulgência a teoria espirítica em geral.

Os materiais que eu tinha acumulado, quer pela leitura, quer pela experiência prática, eram consideráveis, mas a solução do problema não vinha. Pelo contrário, passando os anos, os lados fracos do Espiritismo tornavam-se cada vez mais visíveis: a banalidade das comunicações, a pobreza de seu conteúdo intelectual, ainda quando elas não são banais, o caráter mistificador e falso da maioria das manifestações, a inconstância dos fenômenos físicos, quando se trata de submetê-los à experiência positiva, a credulidade, a preocupação, o entusiasmo irrefletido dos espíritas e dos espiritualistas, finalmente a fraude que fez erupção com as sessões às escuras e com as materializações – que eu conheço não só pela leitura, mas que fui coagido a verificar por minha própria experiência nas relações com os médiuns profissionais de maior nomeada –, em suma, uma multidão de dúvidas, objeções, contradições e perplexidades de toda espécie, só concorriam para agravar as dificuldades do problema.

As impressões de momento, os argumentos que nos vêm assaltar, fazem passar o espírito de um a outro extremo e o lançam na dúvida e na aversão mais profunda. Deixando-nos deslizar sobre esse plano-inclinado, acabamos freqüentemente por esquecer o pro, para não ver senão o contra. Muitas vezes, ocupando-me com essa questão, o meu espírito deteve-se sobre as grandes ilusões pelas quais a humanidade passou em sua evolução intelectual; recapitulando todas as teorias errôneas, desde a da imobilidade da Terra e da marcha do sol, até as hipóteses admitidas pelas ciências abstratas e positivas, perguntei a mim mesmo se o Espiritismo não estava destinado a ser uma dessas ilusões. Entregando-me a essas impressões desfavoráveis, facilmente me teria desanimado, mas eu tinha para me sustentar considerações mais elevadas e uma série de fatos incontestáveis que tinham, para advogar a sua causa, um defensor onipotente: a própria Natureza.

Eu desejava, havia já muito tempo, orientar-me nesse conjunto de fatos, de observações e de idéias; pelo que fico muito reconhecido ao Sr. Hartmann por ter tomado a resolução de nos dar a sua crítica sobre o Espiritismo; ele coagiu-me a entregar-me ao trabalho e, ao mesmo tempo, me auxiliou muito, fornecendo-me o plano, o método necessário para dirigir-me nesse caos.

Dediquei-me ao trabalho com tanto melhor vontade, por isso que as armas criadas pelo Sr. Hartmann para o ataque foram muito poderosas, onipotentes mesmo: ele próprio não disse que sob o golpe dessas armas nenhuma teoria espírita resistiria?

O seu distinto tradutor inglês, o Sr. C. C. Massey, admite também que essa obra é o golpe mais forte que foi vibrado conta o Espiritismo. E, como um fato proposital, a obra do Sr. Hartmann apareceu justamente no momento em que a disposição céptica do meu espírito se tornava preponderante.

Se, por conseguinte, depois de atento exame de todos os fenômenos mediúnicos, eu tivesse verificado que as hipóteses do Sr. Hartmann podiam abranger a todos, dando-lhes uma explicação simples e racional, não teria hesitado em abjurar completamente a hipótese espirítica. A verdade subjuga.

Só pude orientar-me nesse dédalo de fatos com o auxílio de um índice sistemático, composto à proporção das minhas leituras; grupando-os sob diferentes categorias, gêneros e subgêneros, segundo o valor de seu conteúdo e as condições de sua produção, chegamos (por via de eliminação ou por gradação) dos fatos simples a fatos mais complexos, necessitando de uma nova hipótese.

As obras espiríticas, e principalmente os jornais, carecem completamente de índice sistemático. Por exemplo: o que o Sr. Blackburn acaba de publicar, para todos os anos do Spiritualist, não pode ser de utilidade alguma para um estudo crítico. Meu trabalho será o primeiro ensaio desse gênero e espero que ele possa servir pelo menos de manual ou de guia para a composição dos índices sistemáticos dos fenômenos mediúnicos, índices indispensáveis para o estabelecimento e verificação de todo o método crítico, aplicado ao exame e à explicação desses fatos.

O grupamento dos fenômenos e sua subordinação, eis o verdadeiro método que deu tão grandes resultados no estudo dos fenômenos do mundo visível, e que dará não menos importantes quando for aplicado ao estudo dos fenômenos do mundo invisível ou psíquico.

O que proporcionou ao Espiritismo um acolhimento tão pouco razoável e tão pouco tolerante foi que, desde a sua invasão na Europa sob sua forma mais elementar, as mesas girantes e falantes, o conjunto de todos os seus fenômenos foi imediatamente atribuído, pela massa, aos “espíritos”.

Esse erro era, entretanto, inevitável e, por conseguinte, desculpável em presença de fatos de natureza a encher de admiração as testemunhas entregues às suas próprias conjecturas. Por sua vez, os adversários do Espiritismo caíam no extremo oposto, nada querendo saber dos “espíritos” e negando tudo. Aqui, como sempre, a verdade se encontra entre os dois.

Para mim a luz só começou a despontar no dia em que o meu índice me forçou a introduzir a categoria do Animismo, isto é, quando o estudo atento dos fatos me obrigou a admitir que todos os fenômenos mediúnicos, quanto ao seu tipo, podem ser produzidos por uma ação inconsciente do homem vivo – conclusão que não repousava sobre uma simples hipótese ou sobre uma afirmação gratuita, mas sobre o testemunho irrecusável dos próprios fatos –, donde esta conseqüência, que a atividade psíquica inconsciente do nosso ser não é limitada à periferia do corpo e não apresenta um caráter exclusivamente psíquico, mas pode também transpor os limites do corpo, produzindo efeitos físicos e mesmo plásticos; por conseguinte, essa atividade pode ser intracorpórea ou extracorpórea.

Essa última oferece um campo de exploração inteiramente novo, cheio de fatos maravilhosos, geralmente considerados como sobrenaturais; é esse domínio, tão imenso, senão mais, do que o do Espiritismo, que designei sob o nome de Animismo, a fim de distingui-lo daquele de uma maneira categórica.

É extremamente importante reconhecer e estudar a existência e a atividade desse elemento inconsciente da nossa natureza, nas suas mais variadas e mais extraordinárias manifestações como as vemos no Animismo. Só tomando esse ponto de partida é possível dar uma razão de ser aos fenômenos e às pretensões do Espiritismo, pois que, se alguma coisa sobrevive ao corpo e persiste, é precisamente o nosso inconsciente, ou melhor, essa consciência interior que não conhecemos presentemente, mas que constitui o elemento primordial de toda individualidade.

Dessa maneira, temos à nossa disposição não uma, porém três hipóteses suscetíveis de fornecer a explicação dos fenômenos mediúnicos, hipóteses que têm, cada uma delas, a sua razão de ser para a interpretação de uma série de fatos determinados; por conseguinte, podemos classificar todos os fenômenos mediúnicos em três grandes categorias que se poderiam designar da maneira seguinte:

1º: Personismo – Fenômenos psíquicos inconscientes, produzindo-se nos limites da esfera corpórea do médium, ou intermediúnicos, cujo caráter distintivo é, principalmente, a personificação, isto é, a apropriação (ou adoção) do nome e muitas vezes do caráter de uma personalidade estranha à do médium. Tais são os fenômenos elementares do mediunismo: a mesa falante, a escrita e a palavra inconsciente. Temos aqui a primeira e mais simples manifestação do desdobramento da consciência, esse fenômeno fundamental do mediunismo. Os fatos dessa categoria nos revelam o grande fenômeno da dualidade do ser psíquico, da não identidade do “eu” individual, interior, inconsciente, com o “eu” pessoal, exterior e consciente; eles nos provam que a totalidade do ser psíquico, seu centro de gravidade, não está no “eu” pessoal; que este último não é mais do que a manifestação fenomênica do “eu” individual (numenal); que, por conseguinte, os elementos dessa fenomenalidade (necessariamente pessoais) podem ter um caráter múltiplo – normal, anormal ou fictício –, segundo as condições do organismo (sono natural, sonambulismo, mediunismo). Esta categoria dá razão às teorias da “cerebração inconsciente” de Carpenter, do “sonambulismo inconsciente ou latente” do Sr. Hartmann, do “automatismo psíquico” dos Srs. Myers, Janet e outros.

Por sua etimologia, a palavra pessoa seria inteiramente apta para justificar o sentido que convém dar à palavra personismo. No latim persona se referia antigamente à máscara que os atores colocavam no rosto para representar a comédia, e mais tarde se designou por esta palavra o próprio ator.

2º: Animismo – Fenômenos psíquicos inconscientes se produzidos fora dos limites da esfera corpórea do médium, ou extramediúnicos (transmissão do pensamento, telepatia, telecinesia, movimentos de objetos sem contato, materialização). Temos aqui a manifestação culminante do desdobramento psíquico; os elementos da personalidade transpõem os limites do corpo e manifestam-se, a distância, por efeitos não somente psíquicos, porém ainda físicos e mesmo plásticos, e indo até à plena exteriorização ou objetivação, provando por esse meio que um elemento psíquico pode ser, não somente um simples fenômeno de consciência, mas ainda um centro de força substancial pensante e organizador, podendo também, por conseguinte, organizar temporariamente um simulacro de órgão, visível ou invisível, e produzindo efeitos físicos.

A palavra alma (anima), com o sentido que tem geralmente no Espiritismo e no Espiritualismo, justifica plenamente o emprego da palavra animismo. Segundo a noção espirítica, a alma não é o “eu” individual (que pertence ao Espírito), porém o envoltório, o corpo fluídico ou espiritual desse “eu”. Por conseguinte, nós teríamos, nos fenômenos anímicos, manifestações da alma, como entidade substancial, o que explicaria o fato de essas manifestações poderem revestir também um caráter físico ou plástico, segundo o grau de desagregação do corpo fluídico ou do “perispírito”, ou ainda do “metaorganismo”, segundo a expressão de Hellenbach. E, como a personalidade é o resultado direto do nosso organismo terrestre, segue-se daí naturalmente que os elementos anímicos (pertencentes ao organismo espiritual) são também os portadores da personalidade.

3º: Espiritismo – Fenômenos de personismo e de animismo na aparência, porém que reconhecem uma causa extramediúnica, supraterrestre, isto é, fora da esfera da nossa existência. Temos aqui a manifestação terrestre do “eu” individual por meio daqueles elementos da personalidade que tiveram a força de manter-se em roda do centro individual, depois de sua separação do corpo, e que se podem manifestar pela mediunidade ou pela associação com os elementos psíquicos homogêneos de um ser vivo. Isso faz que os fenômenos do Espiritismo, quanto ao seu modo de manifestação, sejam semelhantes aos do personismo e do animismo, e não se distingam deles a não ser pelo conteúdo intelectual que trai uma personalidade independente.

Uma vez admitidos os fatos desta última categoria, claro é que a hipótese que daí resulta pode igualmente ser aplicada aos fatos das duas primeiras categorias; ela não é mais do que o desenvolvimento ulterior das hipóteses precedentes. A única dificuldade que se apresenta é que, muitas vezes, as três hipóteses podem servir com o mesmo fundamento para a explicação de um só e mesmo fato. Assim, um simples fenômeno de personismo poderia também ser um caso de animismo ou de Espiritismo. O problema é, pois, decidir a qual dessas hipóteses é preciso atender, pois que se enganaria quem pensasse que uma só é bastante para dominar todos os fatos. A crítica proíbe ir além da que basta para a explicação do caso submetido à análise.2

Assim, pois, o grande erro dos partidários do Espiritismo é ter querido atribuir todos os fenômenos, geralmente conhecidos sob esse nome, aos “espíritos”. Este nome, por si só, basta para nos insinuar em um mau caminho. Ele deve ser substituído por um outro, por um termo genérico, não envolvendo hipótese alguma, doutrina alguma, como por exemplo a palavra mediunismo, denominação que desde muito tempo introduzimos na Rússia.

Toda verdade nova, no domínio das ciências naturais, faz seu caminho lentamente, gradualmente, porém seguramente. Foram precisos cem anos para fazer aceitar os fatos do magnetismo animal, posto que eles sejam muito mais fáceis de obter e de estudar do que os do mediunismo. Depois de muitas vicissitudes, eles romperam finalmente as barreiras altivas do “ignorabimus” dos sábios; a Ciência teve que lhes fazer bom acolhimento e acabou por adotar esse filho bem legítimo, batizando-o com o nome de hipnotismo. É verdade que essa ciência nova mantém-se principalmente em suas formas elementares, sobre o terreno fisiológico. Mas a sugestão verbal conduzirá fatalmente à sugestão mental e já se elevam vozes que o afirmam.

É o primeiro passo no caminho do supra-sensível. Chegar-se-á, mui natural e inevitavelmente, a reconhecer o imenso domínio dos fenômenos telepáticos, e um grupo de sábios intrépidos e infatigáveis já os estudaram, aceitaram e classificaram. Esses fatos têm um alto valor para a explicação e legitimação dos outros fatos, quer anímicos, quer espiríticos. Ainda um pouco, e eis-nos chegados aos fatos de clarividência – eles já batem nas portas do santuário!

O hipnotismo é a cunha que forçará as barreiras materialistas da Ciência, para fazer penetrar nelas o elemento supra-sensível ou metafísico. Ele já criou a psicologia experimental,3 que acabará fatalmente por compreender os fatos do Animismo e do Espiritismo, os quais, por sua vez, terminarão na criação da metafísica experimental como o predisse Schopenhauer.

Hoje, graças às experiências hipnóticas, a noção da personalidade sofre uma completa revolução. Não é mais uma unidade consciente, simples e permanente, como o afirmava a antiga escola, porém uma “coordenação psicológica”, um conjunto coerente, um consenso, uma síntese, uma associação dos fenômenos da consciência, enfim, um agregado de elementos psíquicos; por conseguinte, uma parte desses elementos pode, em certas condições, se dissociar, se destacar do núcleo central, a tal ponto que esses elementos tomem pro tempore o caráter de uma personalidade independente. Eis uma explicação provisória das variações e dos desdobramentos da personalidade, observados no sonambulismo e no hipnotismo.

Nessa explicação já divisamos o gérmen de uma hipótese plausível para os fenômenos do mediunismo, e efetivamente começa-se a aplicá-lo aos fenômenos elementares, que os senhores sábios condescendem em reconhecer presentemente sob o nome de “automatismo psicológico” (ver os Srs. Myers, Charles Richet, P. Janet).

Se a Ciência não tivesse desprezado os fatos do magnetismo animal, desde o começo, os seus estudos sobre a personalidade teriam dado um passo imenso e teriam entrado no domínio do saber comum; o vulgo se teria então comportado de modo diferente a respeito do Espiritismo, e a Ciência não teria tardado em ver, nesses fenômenos superiores, um novo desenvolvimento da desagregação psicológica, e essa hipótese com certos desenvolvimentos teria podido também aplicar-se até a todos os outros gêneros de fenômenos mediúnicos; assim, nos fenômenos superiores de ordem física (movimentos de objetos sem contato, etc.), ela teria visto um fenômeno de desagregação de efeito físico, e nos fatos de materialização um fenômeno de desagregação de efeito plástico.

Um médium, conforme essa terminologia, seria um indivíduo no qual o estado de desagregação psicológica sobrevém facilmente, no qual, para empregar a expressão do Sr. Janet, “o poder de síntese psíquica fica enfraquecido e deixa escapar-se, para fora da percepção pessoal, um número mais ou menos considerável de fenômenos psicológicos”.4

Como o hipnotismo é em nossos dias um instrumento por meio do qual certos fenômenos de automatismo psicológico (de dissociação dos fenômenos da consciência, ou de desagregação mental) podem ser obtidos à vontade e submetidos à experimentação, com o mesmo fundamento não hesitamos em afirmar que o hipnotismo tornar-se-á em breve um instrumento por meio do qual quase todos os fenômenos do Animismo poderão ser submetidos a uma experimentação positiva, obedecendo à vontade do homem; a sugestão será o instrumento por meio do qual a desagregação psíquica transporá os limites do corpo e produzirá efeitos físicos à vontade.5

Será também o primeiro passo para a produção à vontade de um efeito plástico, e o fenômeno conhecido em nossos dias sob o nome de “materialização” receberá o seu batismo científico. Tudo isso importa necessariamente na modificação das doutrinas psicológicas e as conduzirá ao ponto de vista monístico, segundo o qual cada elemento psíquico é portador não só de uma forma de consciência, como ainda de uma força organizadora.6

Dissecando a personalidade, a experimentação psicológica chegará a encontrar a individualidade, que é o núcleo transcendente das forças indissociáveis, em torno do qual vêm grupar-se os elementos múltiplos e dissociáveis que constituem a personalidade. É então que o Espiritismo fará valer os seus direitos. Somente ele pôde provar a existência e a persistência metafísica do indivíduo. E chegará o tempo em que, no ápice da possante pirâmide que a Ciência há de elevar com os inumeráveis materiais reunidos no domínio dos fatos não menos positivos quão transcendentes, ver-se-ão brilhar, acesos pelas mãos da própria Ciência, os fogos sagrados da imortalidade.



* * *

Em último lugar, resta-me fazer apelo à indulgência dos meus leitores. Terminado o meu trabalho, vejo os seus defeitos melhor do que qualquer outra pessoa. Desejando não adiar a minha resposta ao Sr. Hartmann até a conclusão completa do meu trabalho, isto é, até uma época indeterminada, comecei a publicá-lo imediatamente nos Psychische Studien por meio de artigos mensais, o que necessita sempre uma certa pressa e torna impossível a revisão de um capítulo em seu conjunto e, a fortiori, de todo o trabalho. Resultou daí uma certa desproporção das partes e defeitos na exposição, nas definições, etc., contra os quais me choco atualmente. Certos capítulos são muito longos e minuciosos, outros muito breves, sem falar nas repetições da argumentação.

É assim que lamento não ter dado, no capítulo consagrado à fotografia transcendente, o texto completo das experiências de Beattie, que considero muito importantes. Não fiz senão referir-me aos Psychische Studien. Para minha tradução russa, retoquei toda essa parte da obra, e é essa última que serve de base à edição francesa. Por outro lado, lamento, pelo contrário, ter dado muito desenvolvimento, no capítulo das materializações, às experiências de moldagem e de fotografia, em vez de manter-me nos fatos que correspondiam diretamente às exigências do Sr. Hartmann; não vale a pena perder tanto tempo em simples questão de fatos cuja realidade objetiva não ocasiona dúvida alguma para os que tiveram ocasião de observá-los, e que não tardarão em adquirir direito de cidadania com o conjunto dos fenômenos mediúnicos; finalmente, a sua importância teórica é apenas de segunda ordem.

Lamento também não ter podido dar ao capítulo Animismo, que é a parte essencial para a justificação do Espiritismo, um desenvolvimento mais sistemático e mais completo.

A grande dificuldade para mim foi a escolha dos fatos. Insisti sobre este ponto no começo do meu prefácio, e volto a ele, terminando-o. Disse com razão que o fim da minha obra não é tomar a defesa dos fatos, e é verdade, quando me coloco no ponto de vista do Sr. Hartmann; mas confesso que tinha também diante dos olhos um objetivo mais geral e que procurei sempre apresentar os fatos que correspondessem melhor às exigências da crítica, pelas próprias condições de sua produção. Está aí o ponto vulnerável; pois que nenhuma condição, nenhuma medida de precaução que se tome, é bastante para convencer da realidade de um fato, enquanto esse fato é considerado uma impossibilidade pela opinião pública. E depois a possibilidade da fraude – consciente ou inconsciente –, possibilidade que se pode sempre admitir e cuja ausência não se pode provar, vem ainda agravar a dificuldade. Os fenômenos intelectuais oferecem, sob esse ponto de vista, um campo de estudo menos ingrato, pois que apresentam muitas vezes provas intrínsecas de sua autenticidade, que nenhum recurso à fraude está no caso de dar, a menos que se conclua pela hipótese de uma mentira universal. A refutação dessa hipótese está fora de todo o poder humano.

Por conseguinte, a fé moral é aqui, como em qualquer outro estudo humano, a base indispensável do progresso para a Verdade.

Não pude fazer outra coisa mais do que afirmar publicamente o que vi, ouvi ou senti; e quando centenas, milhares de pessoas afirmam a mesma coisa, quanto ao gênero do fenômeno, apesar da variedade infinita das particularidades, a fé no tipo do fenômeno se impõe.

Assim, não virei afirmar com insistência que cada fato que relatei se produziu exatamente, tal qual ele está descrito – pois que não há caso que não possa prestar-se à objeção –, porém insisto no gênero do fato, eis o essencial. Sei que ele existe, e isso me é bastante para admitir as suas variedades. Vede os fatos de telepatia provados e colecionados com tanto cuidado e zelo pelos trabalhadores infatigáveis da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres. Eles convenceram a massa? Absolutamente não, e ainda menos a Ciência. Ser-lhes-á preciso tempo, como o foi para o hipnotismo; e, para os fatos de que tratei neste livro, será preciso mais tempo ainda.

Até então apenas se plantarão ao longo do caminho estacas, que um futuro, talvez não muito remoto, substituirá por colunas de granito.

Ainda uma palavra: no declínio da minha existência, pergunto às vezes a mim mesmo se procedi bem em consagrar tanto tempo, trabalho e recursos ao estudo e propaganda de todos esses fenômenos. Não tomei caminho errado? Não persegui uma ilusão? Não sacrifiquei uma existência inteira sem que nada justificasse ou retribuísse os incômodos que me impus?

Mas sempre julgo ouvir a mesma resposta: para o emprego de uma existência terrestre, não pode haver objetivo mais elevado do que procurar provar a natureza transcendente do ser humano, chamado a um destino muito mais sublime do que a existência fenomênica!

Não posso, pois, lamentar ter consagrado toda a minha vida à aquisição desse objetivo, se bem que por caminhos impopulares e ilusórios, segundo a ciência ortodoxa, mas que eu sei que são mais infalíveis do que essa ciência. E, se consegui, de minha parte, trazer ainda que uma só pedra à edificação do templo do Espírito – que a humanidade, fiel à voz interior, constrói através dos séculos com tanto labor –, será para mim a única e mais alta recompensa a que posso aspirar.

S. Petersburgo, 3-15 de fevereiro de 1890.

Alexandre Aksakof



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