Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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3) O médium e o fantasma são vistos ao mesmo tempo;
apenas o último é fotografado.

Vamos estudar agora uma série de fatos que se apresentarão em condições já mui satisfatórias para o comum dos mortais, mas não ainda para o Sr. Hartmann. Esta categoria abrange a fotografia de uma forma materializada, sendo esta e o médium visíveis ao mesmo tempo. É preciso falar em primeiro lugar da nova experiência feita sempre à luz do magnésio pelo Sr. Harrison, cinco dias depois da primeira, isto é, a 12 de maio de 1873.

O Sr. Harrison obteve ainda quatro fotografias de Katie nas mesmas condições de fiscalização; além disso, desta vez a médium se tinha conservado visível durante a exposição da forma materializada de Katie.

Eis o texto desse relatório (The Spiritualist, 1873, pág. 217):

“Nós, abaixo assinados, desejamos testemunhar, uma vez mais, que na sessão da Srta. Cook a 12 de maio, Katie saiu do gabinete; ela tinha a estatura habitual e fez-se ver sob as mesmas condições de fiscalização, no que diz respeito à ligação da médium, que na sessão de 7 de maio corrente, e ainda mais: a Srta. Corner (que estava sentada à esquerda do gabinete, em um lugar que lhe permitia ver tudo quanto se passava ali) declarou que tinha visto a Srta. Cook e Katie ao mesmo tempo.

A posição ocupada pelos demais assistentes que formavam o circuito não lhes permitia ver o interior do gabinete. A não ser esse fato, teria sido inútil, talvez, publicar um testemunho que não passaria da repetição de nossas experiências anteriores.

Amélia e Carolina Corner, 3, Saint-Thomas Square, Hackney.
J. C. Luxmoore – 16, Gloucester Square, Hyde Park.
William H. Harrison, Chaucer Road, Herne Hill.
G. R. Tapp, 18, Queen Margaret’s Grove,
Mildmay Park, London, N.”

Na verdade, semelhante testemunho teria podido ser dado desde a primeira experiência pelo Sr. Luxmoore, pois que ele estava sentado perto do gabinete no qual se achava a médium e porque no momento em que Katie, abrindo a cortina, se apresentou para ser fotografada, ele teria podido olhar para o gabinete e ver a médium (do mesmo modo que a Srta. Corner no caso precedente). Foi só a sinceridade escrupulosa do Sr. Luxmoore que pôde determiná-lo a não fazer imediatamente essa declaração, como se pode inferir de um trecho do discurso que pronunciou em Gower Street, em outubro de 1873, quando se tratava da fotografia espírita (ibidem, pág. 361).

As provas fotográficas mais positivas, referentes aos fenômenos classificados nesta categoria, são, indubitavelmente, as que devemos às experiências do Sr. Crookes.

Depois de as ter estudado atentamente, fica-se estupefato com a desenvoltura afetada pelo Sr. Hartmann a respeito dessas experiências, que estabelecem o fenômeno da materialização de maneira a não deixar subsistir a mínima dúvida acerca de sua realidade.

Eis em que estranhos termos o Sr. Hartmann fala dessas experiências:

“Infelizmente, nessas experiências com a Srta. Cook, o Sr. Crookes não deu prova da circunspecção que se poderia exigir de um homem de ciência: ele julgava que a médium estava bastante fiscalizada por uma corrente galvânica; não fez distinção alguma entre uma materialização e a transfiguração da médium; não levou em conta a influência que exerce a transmissão de uma alucinação sobre a formação de uma transfiguração ilusória.”

Como não terei mais ensejo de falar das experiências do Sr. Crookes, sobre as quais o Sr. Hartmann tenta lançar o descrédito, direi a seu respeito algumas palavras neste lugar.

Da frase agressiva do Sr. Hartmann é preciso reter estas duas acusações dirigidas contra o Sr. Crookes:

1º – ele se persuadiu de que a presença da médium Cook no gabinete estava suficientemente estabelecida por uma corrente galvânica;

2º – ele não soube fazer distinção entre a forma materializada e a transfiguração da médium.

A primeira dessas acusações, que deveria ser bem fundamentada, só se baseia nessa breve observação:

“A fiscalização da médium por meio de eletrodos, como o fizeram Crookes e Varley nas sessões físicas da Sra. Fay, pode certamente servir de prova convincente, mas não se poderia dar a mesma importância à fixação nos braços, por esparadrapo, de moedas e de papel mata-borrão umedecido, visto que esses objetos podem ser deslocados e não constituem obstáculo algum aos livres movimentos da médium.” (Espiritismo, pág. 18).

As três últimas linhas dessa nota referem-se a uma experiência feita pelos Srs. Crookes e Varley com a Srta. Cook, no decurso da qual ela foi introduzida no circuito galvânico.

E é com essas três linhas que o Sr. Hartmann pretende negar o valor de experiências feitas com o máximo cuidado e com a mais rigorosa lealdade por dois físicos tão autorizados quanto o são os Srs. Crookes e Varley.

Examinemos imparcialmente essas experiências, para julgar se os fatos dão razão ao Sr. Hartmann ou justificam as suas temerárias acusações.

Parece-nos que basta ler as três linhas que escaparam da pena do Sr. Hartmann para verificar que ele não compreendeu nem o valor nem o alcance da experiência de que se trata.

Para formarmos idéia exata da maneira pela qual se realizou aquela experiência, tão engenhosa quão importante, enviarei o leitor às explicações circunstanciadas que dei no Psychische Studien, 1874, págs. 341 a 349. Para aqueles que não têm esse volume à disposição, dou aqui um resumo dessa descrição:

“Para estabelecer se a Srta. Cook se achava no interior do gabinete enquanto Katie se apresentava aos assistentes da sessão, fora do gabinete, o Sr. Varley 16 teve a lembrança de fazer atravessar o corpo da médium por uma fraca corrente elétrica, durante todo o tempo em que a forma materializada era visível, e de confrontar os resultados assim obtidos por meio de um galvanômetro instalado no mesmo aposento, fora do gabinete...

A experiência de que falamos foi feita no aposento do Sr. Luxmoore. O aposento de trás foi separado do da frente por meio de uma cortina, para impedir a entrada da luz; ele devia servir de gabinete escuro. Antes de começar a sessão, tomou-se a precaução de inspecionar com cuidado esse gabinete escuro e de fechar as portas à chave. O aposento da frente era iluminado por uma lâmpada de parafina com um anteparo que coava a luz. Colocou-se o galvanômetro em cima do fogão, à distância de 11 pés da cortina.

Os assistentes eram os Srs. Luxmoore, Crookes, a Sra. Crookes e a Sra. Cook com sua filha; os Srs. Tapp, Harrison e eu (Varley).

A Srta. Cook ocupava uma poltrona no aposento de trás. Fixou-se com esparadrapo, em cada um de seus braços, um pouco acima dos punhos, uma moeda de ouro, à qual estava soldada uma ponta de fio de platina. As moedas de ouro estavam separadas da pele por três camadas de papel mata-borrão branco, de grande espessura, umedecido em uma solução de cloridrato de amônio. Os fios de platina corriam ao longo dos braços, até às espáduas, e eram presos com cordões, de maneira que deixavam aos braços a liberdade de movimentos. As pontas de fora dos fios de platina eram reunidas a fios de cobre, cobertos de algodão, e iam ter ao aposento iluminado onde se achavam os experimentadores. Os fios condutores estavam ligados a dois elementos Daniell e a um aparelho de confronto. Quando tudo ficou pronto, fecharam-se as cortinas, deixando assim a médium (Srta. Cook) às escuras. A corrente elétrica atravessou o corpo da médium durante todo o tempo da sessão...

Essa corrente, originando-se nos dois elementos, atravessava o galvanômetro, os elementos de resistência e o corpo da Srta. Cook e voltava em seguida à bateria.”



Antes da introdução da Srta. Cook na corrente, quando estavam reunidas as duas moedas que formavam os pólos da bateria, o galvanômetro marcava um desvio de 300º.

Depois da introdução da Srta. Cook, as moedas foram colocadas nos braços da médium, um pouco acima do punho, e o galvanômetro não marcou mais de 220º.

Assim, pois, o corpo da médium, introduzido na corrente, oferecia uma resistência à corrente elétrica equivalente a 80 divisões da escala.



O objetivo principal daquela experiência era precisamente conhecer a resistência que o corpo da médium podia oferecer à corrente elétrica.

O menor deslocamento dos pólos da bateria, que estavam fixados nos braços da Srta. Cook pelo adesivo, teria inevitavelmente produzido uma mudança na força de resistência oferecida pelo corpo da médium.

Ora, foi em tais condições que a figura de Katie apareceu por muitas vezes na abertura da cortina; mostrou as mãos e os braços, depois pediu papel, um lápis e escreveu perante os assistentes.

Segundo o Sr. Hartmann, teria sido a própria médium quem agiu, “podendo as moedas e o papel mata-borrão ser deslocados, em dois sentidos – para cima e para trás –, permitindo desse modo à médium mover-se livremente”. Se as moedas e o papel mata-borrão tivessem sido repuxados até os ombros, de maneira a deixar em liberdade os dois braços da médium, o trajeto percorrido pela corrente elétrica no corpo da médium teria sido reduzido de metade no mínimo; por conseguinte, a resistência oferecida pelo corpo da médium teria também diminuído de metade, ou 40º, e a agulha do galvanômetro teria subido de 220º a 260º. E entretanto foi o contrário que sucedeu; desde o começo da sessão, não só deixou de haver qualquer aumento de desvio, como, pelo contrário, ele diminuiu constantemente e gradualmente até ao fim da sessão, sob a influência do dessecamento do papel molhado; essa circunstância aumentou a resistência à corrente elétrica e diminuiu o desvio de 220º a 146º.

É fora de dúvida que, se uma das moedas tivesse sido desviada uma polegada apenas, o desvio teria aumentado, e a fraude da médium desmascarada; mas, conforme o disse, o galvanômetro não deixou de baixar.

Fica, pois, estabelecido peremptoriamente que as moedas de ouro aplicadas aos braços da médium não foram deslocadas de um milímetro, que os braços que apareceram e que escreveram não eram os braços da médium, que, por conseguinte, o uso da cadeia galvânica, para se ficar certo da presença da médium atrás da cortina, deve ser considerado uma garantia suficiente; enfim, que as explicações que o Sr. Hartmann apresenta para provar a sua insuficiência revelam exame pouco aprofundado da experiência em questão.

Além desse erro capital cometido pelo Sr. Hartmann, e que é proveniente de sua ignorância acerca do princípio físico sobre o qual se baseava a experiência, é curioso verificar que o Sr. Hartmann não compreendeu absolutamente a sua extrema delicadeza, apesar de todas as explicações dadas no relatório publicado no Psychische Studien; é claro que, usando desse processo, não se tinha unicamente por objetivo conseguir que o aparelho aplicado às mãos da médium ficasse intacto (era a menor preocupação dos operadores), mas desejava-se, porém, mais que tudo, confrontar, registrar os menores movimentos de suas mãos, ficando o aparelho intacto. As variações das condições às quais estava submetida a corrente elétrica, passando pelo corpo da médium, eram indicadas pelo galvanômetrno-refletor, instrumento tão sensível que a corrente elétrica mais fraca, transmitida a 3.000 milhas por um cabo submarino, seria registrada.

Por conseguinte, o menor movimento da médium teria também provocado oscilações do aparelho; e a prova disso tirou-se antes da experiência, como se verifica pela passagem seguinte, extraída de um artigo do Sr. Varley, onde todos os movimentos do galvanômetro são consignados minuciosamente, minuto por minuto:

“Antes de a médium cair em transe, pediu-se-lhe que fizesse movimentos com os braços; a mudança da superfície metálica, posta em contato real com o papel e o corpo, produziu um desvio que se elevou de 15 a 20 divisões, e às vezes ainda mais; por conseguinte, se, no decurso da sessão, a médium tivesse feito o menor movimento com as mãos, seguramente o galvanômetro o teria indicado. Na espécie, a Srta. Cook representava um cabo telegráfico no momento do confronto.” (Psychische Studien, 1874, pág. 344).

E o Sr Hartmann ousa pretender que as moedas e o papel umedecido podiam ter-se deslocado para cima ou para trás sem impedir a médium de aproximar-se do espectador!

Mas para fazer aquela operação e mostrar os braços nus, teria sido preciso que a médium arregaçasse até aos ombros as mangas do vestido, com as moedas, o adesivo, os pedaços de papel, os fios de platina e os laços que mantinham esses fios de platina nos braços. Ela teria sido obrigada a fazer aquela operação a princípio para um braço, depois para o outro. Tudo isso não só sem interromper durante um só instante a corrente elétrica (se a corrente tivesse sido interrompida, ainda que fosse por um décimo de segundo, o galvanômetro teria feito uma oscilação de 290 divisões no mínimo), como ainda sem mesmo provocar outros desvios, além dos resultantes do simples movimento das mãos.

Mas não é tudo. A aceitar-se a explicação do Sr. Hartmann, a médium, antes do fim da sessão, teria posto em seu lugar as mangas do vestido, conservando os aparelhos nos braços. Vimos entretanto que às 7 horas e 45 minutos Katie repetia ainda a experiência da escrita, conservando o braço inteiramente fora da cortina; às 7 horas e 48 minutos, Katie apertou a mão do Sr. Varley e a sessão terminou. Durante esses três minutos o galvanômetro só registrou oscilações insignificantes, compreendidas entre 140º e 150º. Por conseguinte, era impossível à médium fazer os movimentos necessários para restabelecer o status quo ante.

Além disso, o Sr. Hartmann esquece-se de que Katie nunca aparecia sem uma roupagem branca que ia da cabeça aos pés. Naquela sessão, Katie levantou a cortina e mostrou-se por muitas vezes em seu trajo habitual. Segundo o Sr. Hartmann, isso prova simplesmente que a médium mudara de roupa.

E tudo aquilo se teria feito apesar dos fios de cobre que estavam ligados aos de platina e iam ter ao aposento iluminado.

As objeções que acabo de enumerar estabelecem que o Sr. Hartmann só estudou mui superficialmente a bela experiência que se oferecia a seu exame. Mas tudo isso é tão claro, tão patente, tão preciso, que toda a discussão se torna supérflua, desde que o princípio físico sobre o qual se baseava a experiência (a apreciação da soma de resistência oferecida pelo corpo da médium à corrente elétrica) fique bem compreendido, e se se levar em conta o fato de nunca ter diminuído a cifra que representava aquela força de resistência.

Mas ainda há outro fenômeno que se refere àquela categoria de experiências do Sr. Crookes, e a exposição de tal fato agravará a responsabilidade na qual incorreu o Sr. Hartmann emitindo com tanta leviandade seu juízo sobre o método aplicado pelo Sr. Crookes.

A experiência de que acabamos de falar foi repetida pelo Sr. Crookes sozinho, e dessa vez a médium foi introduzida na corrente e Katie King saiu inteiramente de trás da cortina. Eis a passagem do Psychische Studien que se refere àquele incidente, que o Sr. Hartmann teria podido ler na mesma página onde começa a narração da experiência do Sr. Varley:

“Na segunda sessão, foi o Sr. Crookes quem dirigiu a experiência, na ausência do Sr. Varley. Ele obteve resultados semelhantes, tendo tomado em todo o caso a precaução de não deixar aos fios de cobre senão a extensão precisa para permitir à médium mostrar-se na abertura da cortina, no caso em que ela se deslocasse. Entretanto Katie caminhou cerca de 6 a 8 pés fora da cortina; ela não era retida por fio algum, e a observação do galvanômetro não fez verificar nada de anormal em momento algum. Além disso Katie, a instâncias do Sr. Crookes, mergulhou as mãos em um recipiente que continha iodeto de potássio, sem que resultasse por isso a mínima oscilação da agulha do galvanômetro. Se os fios condutores estivessem em comunicação com a sua pessoa, a corrente se teria dirigido pelo caminho mais curto que lhe oferecia assim o líquido, o que teria ocasionado um desvio maior da agulha.” (Psychische Studien, 1874, pág. 342).

O Sr. Harrison, editor do The Spiritualist, que assistiu àquela experiência, e que publicou em seu jornal o relatório que acabamos de citar, mandou inserir no Médium a notícia seguinte, com a aprovação dos Srs. Crookes e Varley:

“Sr. diretor:

Por causa de minha presença em muita sessões recentes, no decurso das quais os Srs. Crookes e Varley dirigiram uma corrente elétrica fraca através do corpo da Srta. Cook, durante todo o tempo em que ela se achava no gabinete, quando Katie estava fora daquele, algumas pessoas que tomavam parte na sessão instaram para que eu lhes comunicasse os resultados obtidos naquelas experiências, na esperança de que essa cláusula dê em resultado proteger de acusações injustas uma médium leal e sincera.

Quando Katie saiu do gabinete, nenhum fio metálico aderia à sua pessoa; durante todo o tempo em que se conservou no aposento, fora do gabinete, a corrente elétrica não sofreu interrupção alguma, como teria sucedido inevitavelmente se os fios se tivessem soltado dos braços da Srta. Cook, sem que suas pontas fossem repostas em contato.

Admitindo mesmo que tal fato se tivesse dado, a diminuição da resistência se teria posto em evidência imediatamente pela agulha do galvanômetro. Nas experiências de que se trata, foi evidentemente demonstrado que a Srta. Cook estava no gabinete enquanto Katie se mostrava fora daquele.

As sessões efetuaram-se: umas no aposento do Sr. Luxmoore, outras no do Sr. Crookes. Antes de lhe dirigir a presente, fiz a sua leitura perante os Srs. Crookes e Varley, que deram a sua aprovação.

11, Ave Maria Lane, 17 de março de 1874.

William H. Harrison.”

Aliás, o artigo do Psychische Studien devia bastar ao Sr. Hartmann se ele tivesse querido lê-lo com a necessária atenção. Como conseguirá ele provar “a insuficiência da fiscalização pela corrente galvânica”? Para onde, pois, as moedas e o papel umedecido puderam “deslizar”? Sem se ter dado o trabalho de estudar a fundo e de procurar compreender as belas experiências dos Srs. Crookes e Varley, ele se apressa em tratar esses dois sábios físicos como se fossem crianças que considerassem a Ciência uma brincadeira. Para destruir o valor das experiências destes, ele dá as primeiras explicações que lhe passam pela mente. O que é permitido ao cronista que diverte o público, à custa da verdade, não fica bem no filósofo que pretende respeitá-la.

A propósito dessas experiências com a corrente galvânica, devo mencionar ainda outro meio de verificar a materialidade e, por conseguinte, a realidade objetiva de uma aparição.

Esse método, que tinha sido sugerido ao Sr. Crookes pelo Sr. Varley, foi posto em execução pelo primeiro dos dois sábios. Infelizmente, só possuímos, acerca desse assunto, as poucas explicações seguintes do Sr. Harrison:

“Os pólos opostos de uma bateria foram postos em comunicação com dois vasos cheios de mercúrio. O galvanômetro e a médium foram em seguida introduzidos no circuito. Quando Katie King mergulhou os dedos nesses vasos, a resistência elétrica não diminuiu e a corrente não aumentou em força; mas quando a Srta. Cook saiu do gabinete e introduziu os dedos no mercúrio, a agulha do galvanômetro indicou um desvio considerável. Katie King oferecia à corrente uma resistência cinco vezes maior do que a Srta. Cook.” (The Spiritualist, 1877, pág. 176).

Dessa experiência podemos concluir que a condutibilidade elétrica do corpo humano é cinco vezes maior do que a de um corpo materializado.

Passemos à segunda exprobração que o Sr. Hartmann dirige ao Sr. Crookes. Este não teria sabido fazer a distinção “entre a formação de uma figura e a transfiguração da médium”, e não teria “levado em conta a influência que exerce a alucinação sugerida na produção de uma transfiguração ilusória” (pág. 18). Examinemos, pois, o argumento do Sr. Crookes e o método que ele emprega. Antes de admitir a formação material de Katie King, ele tinha tomado por princípio a necessidade de obter uma prova absoluta; essa prova devia fundar-se no fato seguinte: a médium e a forma materializada deveriam ser vistas ao mesmo tempo. O Sr. Crookes diz textualmente:

“Ninguém veio afirmar de maneira categórica, baseando-se no testemunho dos sentidos, que no momento em que a aparição, denominando-se Katie, era visível no aposento, que o corpo da Srta. Cook se achava ou não no gabinete. Parece-me que toda a questão se reduz na solução dessa alternativa. Demonstre-se o bom fundamento de uma ou de outra dessas suposições, então todas as questões secundárias cairão por si mesmas; mas essa prova deve ser absoluta e não baseada em raciocínios, ou na pretendida integridade dos selos, dos nós e das costuras.” (Psychische Studien, 1874, pág. 290).

Desde que o Sr. Crookes se tinha imposto um princípio tão rigoroso, andar-se-ia mal avisado acusando-o de “falta de circunspecção” e pretender que ele tivesse desprezado as cautelas de fiscalização necessárias para certificar-se de que não se achava em presença de simples transfiguração da médium. A prova absoluta que ele desejava tinha precisamente por objetivo eliminar tal eventualidade.

Dois meses mais tarde, o Sr. Crookes nos escrevia:

“Sinto-me feliz em lhe poder informar que afinal consegui estabelecer a prova absoluta de que falei em minha precedente carta.”

Eis a descrição que ele faz de sua experiência:

“Katie declarou que supunha estar daquela vez no caso de mostrar-se ao mesmo tempo que a Srta. Cook. Ela convidou-me a apagar o gás e voltar com a minha lâmpada de fósforo ao aposento que servia então de gabinete. Procedi de acordo com o seu desejo, depois de ter pedido a um de meus amigos, perito estenógrafo, que escrevesse cada uma das palavras que eu pronunciasse, quando estivesse no gabinete; eu sabia quão pouco devia confiar na importância das primeiras impressões e não desejava confiar na memória, além do que era lícito. As notas tomadas estão presentes. Andei com cautela no aposento, que então se achava às escuras, e procurei às apalpadelas pela Srta. Cook, que encontrei deitada no chão. À luz fosfórea, divisei aquela moça, vestida de veludo preto, como na primeira parte da sessão. Ela me parecia privada dos sentidos; não fez movimento algum quando lhe tomei a mão e aproximei-lhe a luz do rosto, e continuou a respirar tranqüilamente.

Levantei a lâmpada e, lançando um olhar em redor de mim, vi Katie em pé, justamente por trás da Srta. Cook. Ela trazia ampla túnica branca, como nos tinha aparecido havia pouco. Segurando sempre a mão da Srta. Cook, ajoelhado no soalho, dirigi alternadamente a lâmpada para cima e para baixo, a fim de iluminar a forma inteira de Katie e de me certificar assim de que tinha realmente diante de mim essa mesma Katie que eu tinha sustentado em meus braços alguns momentos antes, e que eu não era vítima da ilusão de um cérebro sobreexcitado. Sem dizer coisa alguma, ela me fazia acenos com a cabeça e sorria para mim com semblante amável.

Por três vezes examinei cuidadosamente a Srta. Cook, deitada a meu lado, para ficar convicto de que a mão que eu segurava pertencia a uma mulher viva, e por três vezes dirigi o clarão da lâmpada sobre Katie, examinando-a com atenção ininterrupta, até que não me ficasse dúvida alguma acerca da sua realidade objetiva. Finalmente a Srta. Cook se moveu e imediatamente Katie me acenou para que eu me retirasse. Dirigi-me à outra extremidade do aposento e não vi mais Katie; porém só me retirei dali quando a Srta. Cook despertou e entraram, trazendo a luz, duas pessoas que tinham tomado parte na sessão.” (Psychische Studien, 1874, págs. 388 e 389).

Como é precioso para essa questão tudo quanto sai da pena do Sr. Crookes, dou aqui um testemunho suplementar dessa prova absoluta, contida em uma carta do Sr. Crookes ao Sr. Cholmondeley Pennell, escrita em resposta às dúvidas emitidas por este último. O Sr. Pennell cita essa resposta em carta que publicou no The Spiritualist (1874, pág. 179). É desse jornal que a transcrevemos:

“No decurso dessa experiência, eu estava mui profundamente compenetrado de sua importância para que desprezasse qualquer medida de averiguação que me parecesse de natureza a poder torná-la mais completa. Tendo conservado durante todo o tempo em minha mão a da Srta. Cook, ajoelhado perto dela, aproximando a lâmpada de seu rosto e vigiando sua respiração, tenho base suficiente para estar persuadido de que não fui mistificado por meio de um manequim ou de uma trouxa de vestidos; quanto à identidade de Katie, estou igualmente convencido. Sua estatura, seus modos, seu rosto, sua conformação, seu trajo, assim como seu sorriso gracioso eram indubitavelmente os mesmos que eu tinha visto por tantas vezes; o exterior de Katie me era tão familiar quanto o da Srta. Cook, pois que eu o tinha olhado freqüentemente durante muitos minutos, à distância de algumas polegadas apenas e perfeitamente iluminado.”

Em seu terceiro artigo publicado no Psychische Studien (1875, pág. 19), o Sr. Crookes dá os pormenores seguintes:

“Há muito pouco tempo é que permite Katie que eu faça o que desejo: tocá-la, entrar no gabinete e sair dele, como me apraz; acompanhei-a freqüentemente de perto quando ela entrava no gabinete. Então eu a via ao mesmo tempo que a médium; porém, as mais das vezes só encontrava a médium, que estava imersa em transe e deitada no soalho, ao passo que Katie tinha desaparecido subitamente.”

É, pois, de evidência perfeita, segundo as observações do Sr. Crookes, que não se poderia tratar de uma transfiguração da médium. E o Sr. Hartmann nos vem afirmar, apesar de tudo e com imperturbável seriedade, que o Sr. Crookes não soube fazer a distinção entre a produção de uma forma independente e a transfiguração da médium, quero dizer: ele tomou Katie King por uma forma independente, ao passo que tudo aquilo não passava de uma transfiguração da Srta. Cook. Afirmação bizarra, pois que as duas formas eram visíveis ao mesmo tempo!

Vê-se que, logicamente, o Sr. Hartmann, de acordo com a sua própria teoria, só poderia ter recorrido à alucinação para explicar as experiências do Sr. crookes. Ora, é bom notar que o Sr. Hartmann, por um raciocínio inexplicável, evita obstinadamente acusar o Sr. Crookes de ter sido ludíbrio de uma alucinação; ele persiste em afirmar, pelo contrário, que os fenômenos em questão – que o Sr. Crookes teria tomado por uma materialização – não eram outra coisa mais do que uma transfiguração da médium. Mas, de uma maneira instintiva, adivinham-se facilmente as razões dessa lógica. O Sr. Hartmann sabia perfeitamente que teria de contar com as fotografias obtidas pelo Sr. Crookes. O que era ontem uma alucinação poderia tornar-se amanhã uma fotografia, com a qual ele seria obrigado a contar.

Eis-nos reconduzidos ao nosso assunto: a realidade das materializações está provada pelas fotografias tiradas enquanto a médium e o fantasma são visíveis ao mesmo tempo. Fiel a seu princípio de encontrar uma prova absoluta, o Sr. Crookes fez muitas experiências desse gênero. Damos aqui a seu respeito os pormenores essenciais:

“Na última semana antes de seu desaparecimento definitivo, Katie aparecia quase todas as noites nas sessões que eu tinha organizado em minha casa, a fim de achar-me em condições de fotografá-la com o auxílio de uma luz artificial. Para tal fim prepararam-se cinco aparelhos fotográficos completos, para que a operação não sofresse demora; era eu mesmo, aliás, quem fazia todas as manipulações com o auxílio de um ajudante.

Minha biblioteca servia de gabinete escuro. Uma porta de duas bandeiras conduz desse aposento a um laboratório. Uma das bandeiras foi retirada e substituída por uma cortina, a fim de permitir a Katie passar mais facilmente. Os amigos que assistiram àquela sessão instalaram-se nesse laboratório, defronte da cortina; as câmaras escuras eram dispostas por trás deles, todas preparadas para receber a imagem de Katie, à sua saída do gabinete, bem como tudo quanto se achasse no aposento, no instante em que se abrisse a cortina. Todas as noites três ou quatro negativos foram obtidos em cada uma das câmaras escuras, o que perfazia na média cerca de quinze fotografias diferentes, muitas das quais se inutilizaram no ato de serem reveladas, algumas outras enquanto se graduava a intensidade da luz. Possuo ao todo 44 negativos, muitos dos quais mal sucedidos, outros sofríveis e alguns muito bem acabados.

Ao entrar no gabinete, a Srta. Cook deitava-se no soalho, com a cabeça sobre um travesseiro, e caía logo em transe. Durante as sessões fotográficas, Katie envolvia a cabeça de sua médium em um xale, para impedir que a luz atingisse seu rosto. Muitas vezes levantei a cortina de um lado, quando Katie se conservava ao lado da Srta. Cook, então sucedia freqüentemente que todos os assistentes, em número de sete a oito, pudessem contemplar ao mesmo tempo Katie e a Srta. Cook, graças a uma intensa iluminação elétrica. Nessas ocasiões não víamos, é verdade, o rosto da médium, por causa do xale que o cobria, mas podíamos ver suas mãos e pés, observar seus movimentos, que denotavam incômodo sob a influência da luz, e podíamos ouvir os gemidos que ela dava às vezes. Possuo uma fotografia que as apresenta juntas uma da outra, mas Katie está sentada diante da Srta. Cook, de maneira que encobre sua cabeça.” (Psychische Studien, 1875, págs. 19-21).

A prova absoluta que o Sr. Crookes procurava, obteve-a igualmente pela fotografia, e ela vem assim corroborar a que o testemunho dos sentidos lhe tinha dado anteriormente.

Do que precede, como concluir que em suas experiências com a Srta. Cook o Sr. Crookes não tenha sabido fazer a distinção entre uma formação material independente e uma transfiguração da médium?

Pois bem! Que diz o Sr. Hartmann sobre as fotografias obtidas pelo Sr. Crookes? É muito simples: ele afirma, com perfeita convicção, que a imagem reproduzida é a da médium, sem se dar ao trabalho de verificar qual podia ser a pessoa que se via por trás da cortina, enquanto se procedia do lado de fora à fotografia da forma materializada.

Ser-lhe-ia, entretanto, muito fácil dizer que aquilo não passava de uma modalidade da alucinação: a figura fotografada era a médium transfigurada; a que se via deitada no chão atrás da cortina, e que se tomava pela médium, não passava de uma alucinação sugerida pela médium aos assistentes. O método crítico aplicado nessa circunstância se apresentaria pois assim: quando não se trata de fotografias e o médium e o fantasma são vistos ao mesmo tempo, o fantasma é uma alucinação; mas quando há experiência fotográfica e se vê simultaneamente o médium e o fantasma reproduzidos na chapa, então é o médium que se torna uma alucinação.

O Sr. Hartmann teria procedido bem se nos dissesse se sanciona tal método de argumentação; mas ele nada nos diz a respeito.

Há também outro ponto de natureza a criar algumas dificuldades ao Sr. Hartmann. O Sr. Crookes define exatamente as dessemelhanças verificadas por ele entre a Srta. Cook e Katie:

“A estatura de Katie King é variável: em minha casa eu a vi excedendo em seis polegadas a da Srta. Cook. A noite passada, ela era maior que a Srta. Cook apenas quatro polegadas e meia; estava descalça. Seu pescoço estava a descoberto, e eu pude verificar que ela tinha a pele sedosa e igual, enquanto que a Srta. Cook tem no pescoço a marca de larga cicatriz, muito visível e que se sente ao tato. As orelhas de Katie não são furadas; a Srta. Cook, pelo contrário, usa habitualmente brincos; Katie é muito loura, a Srta. Cook muito morena; os dedos de Katie são muito mais afilados do que os da Srta. Cook e seu rosto mais largo.” (Psychische Studien, setembro de 1874, pág. 389).

Vejamos a explicação categórica que nos apresenta o Sr. Hartmann relativamente a esses pormenores:

“Enquanto se trata de dessemelhanças pouco importantes entre o fantasma e o médium (por exemplo como nas experiências do Sr. Crookes), a entrada do médium em cena não tem evidentemente por fim senão facilitar a transmissão da alucinação.” (págs. 95 e 96).

Deixaremos de lado a questão da oportunidade do emprego da expressão “pouco importante”, contentando-nos em notar este fato principal: segundo o Sr. Hartmann, essas dessemelhanças ou “desvios” seriam, pois, alucinações que o médium teria produzido sobre si mesmo. Admitamos o fato. Mas o Sr. Hartmann esquece que entre esses “desvios” há um que foi verificado pelo Sr. Crookes, materialmente e de maneira permanente, a saber: a diferença na cor dos cabelos. Eis o que ele diz a respeito:

“Tenho à vista um cacho proveniente da opulenta cabeleira de Katie; com a sua permissão, cortei-a, depois de ficar convicto, apalpando-o até às raízes, de que ele tinha nascido realmente em sua cabeça; esse cacho é de um castanho muito claro, ao passo que os cabelos da Srta. cook são de um escuro que os faz parecer negros.” (Psychische Studien, 1875, pág. 22).

Essa prova material vale bem a evidência de uma chapa fotográfica! Ou antes, por acaso, quando o Sr. Crookes cortava aquela mecha, “não teria ele reparado que precisamente aquela mecha apresentava uma coloração notavelmente diferente da cor do resto da cabeleira”? (Spiritualismus, pág. 89). Talvez a alucinação se tenha limitado àquela mecha especial, como também a “cicatriz”, as “orelhas” e os “dedos”? O Sr. Hartmann esquece-se também de tomar em consideração entre essas “semelhanças” a estatura das duas pessoas, que foi medida. Uma diferença de quatro e meia a seis polegadas na altura não é uma quantidade para desprezar.

O Sr. Hartmann seria tentado a afirmar que a medição foi feita em estado alucinatório? Então ele iria de encontro a algumas dificuldades: o Sr. Crookes verificou essa diferença de estatura pela fotografia, lançando mão de um processo muito engenhoso e convincente. Eis o que lemos:

“Uma das mais interessantes fotografias é aquela em que sou reproduzido ao lado de Katie. Ela estava de pé, com os pés descalços, em local determinado; depois da sessão, vesti na Srta. Cook uma roupagem semelhante à que era usada por Katie; coloquei-a exatamente na mesma posição em que ela estava e retomei o local que ocupava dantes; para fotografá-la fez-se uso dos mesmos aparelhos, com a mesma iluminação. Essas duas fotografias superpostas são conformes quanto à minha estatura pessoal, porém Katie é maior do que a Srta. Cook cerca de meia cabeça e parece uma senhora alta ao seu lado. Em muitas fotografias as dimensões de seu rosto a distinguem de sua médium de maneira notável; as mesmas imagens denotam ainda outras dessemelhanças.” (Psychische Studien, 1875, págs. 21 e 22).

A metade de uma cabeça basta de sobra para provar que não houve na espécie uma “transmissão de alucinação”, como o pretende o Sr. Hartmann (Espiritismo, pág. 96). Qual é, pois, sua opinião a respeito dessa fotografia? Ele não fica embaraçado por tão pouca coisa: é sempre o próprio médium quem é reproduzido na fotografia. Ele diz textualmente:

“Admitindo para os médiuns a faculdade de penetrar a matéria, é claro que somos coagidos a recorrer a outros processos além do isolamento do médium, para estabelecermos a sua não identidade com o fantasma... Todas as experiências em que essa não identidade só é baseada no isolamento devem ser recusadas por não fornecerem nenhum prova convincente; tudo o que é produzido pela aparição, em tais condições, deve ser considerado como ato realizado pela médium; se, por exemplo, ela corta uma mecha de cabelos e os distribui pelos assistentes; se passa no meio deles, conversa com eles, se deixa fotografar, etc., é sempre a médium.” (Psychische Studien, II, págs. 19, 20 e 22; Espiritismo, págs. 88 e 89).

As citações do Psychische Studien feitas pelo Sr. Hartmann se referem, como se vê, precisamente às experiências do Sr. Crookes, das quais se acaba de falar. Mas trata-se aqui de um “isolamento dos médiuns”? A prova da não identidade do médium e do fantasma não se baseia, nessas experiências, precisamente sobre um princípio completamente diferente?

Assim, pois, eis toda a atenção que o Sr. Hartmann aquiesce em prestar às experiências de materialização do Sr. Crookes, que gozam, com justa razão, entre os espíritas, da mais alta autoridade. Tínhamo-nos preocupado particularmente com a opinião que um filósofo, um pensador como o Sr. Hartmann, emitiria acerca de tais investigações; tínhamos a convicção de que essas experiências decisivas (o circuito galvânico e a fotografia) seriam especialmente e conscienciosamente examinadas por ele; e, pelo menos, quando vimos o Sr. Hartmann iniciar a discussão acusando o Sr. Crookes de ter carecido de “senso crítico”, esperávamos ainda que ele nos expusesse com todas as circunstâncias necessárias as razões pelas quais declara que as experiências do Sr. Crookes não correspondem às exigências impostas a um “pesquisador sério”.

Ao revés, não descobrimos, esparsas em seu livro, mais de umas vinte linhas, em que se vêem afirmações gerais arbitrárias, em contradição com os fatos, de maneira tal que o leitor, que não se desse ao trabalho de confrontar as afirmações temerárias do Sr. Hartmann com as afirmativas leais do Sr. Crookes, formaria uma idéia completamente falsa dos meios empregados por este último para o estudo de fenômenos, inverossímeis até o mais alto ponto, e que devem ser tratados com muita circunspecção e prudência, por um homem de ciência que se respeita e que sabe que empenha a sua reputação proclamando publicamente a existência de tais fenômenos.

Quando um filósofo, como o Sr. Hartmann, acusa um físico de primeira ordem, qual o Sr. Crookes, de “não ter mostrado em suas experiências o grau de circunspecção que se pode esperar de um homem de ciência” (pág. 18), tem o dever, antes de tudo, de demonstrar que ele próprio deu prova dessa circunspecção, cujas condições essenciais são: compreender a fundo o que se critica e explicá-lo com clareza.

Vejo-me na necessidade de verificar, com grande pesar, que o Sr. Hartmann não procedeu lealmente para com o Sr. Crookes e que a acusação de “carecer de senso crítico” deve-lhe ser devolvida.

Onde procurar a causa de tão estranhas condutas? O Sr. Hartmann acusa os espíritas de “se deixarem guiar em suas pesquisas unicamente por suas simpatias” (pág. 20). Que os espíritas se contentem com esta acusação; eles não são os únicos que se deixam fascinar por interesses de tal natureza.

Mas não terminamos ainda com as asserções errôneas do Sr. Hartmann a respeito das fotografias do Sr. Crookes, se bem que o Sr. Hartmann tenha a prudência de não nomeá-lo. É assim que na passagem seguinte (pág. 97) ele fala de novo dessas fotografias:

“É certo que todas as experiências fotográficas feitas até hoje sobre aparições percebidas pelos assistentes testemunham contra a objetividade desses fenômenos, pois que todas elas deram resultados negativos, à exceção dos casos em que a médium foi fotografada, e então as reproduções não têm nitidez suficiente para estabelecer se se conseguiu fotografar, ao mesmo tempo que a médium, a imagem ilusória que a envolve; por outra, se a fotografia obtida representa o próprio fantasma, e não a médium que ele reveste.” (pág. 97).

Em toda essa passagem, muito confusa, apenas compreensível, de que pretende falar o Sr. Hartmann? Qual é a generalidade das experiências fotográficas feitas até hoje que teriam “dado resultado negativo”? E quais são as fotografias que “fazem exceção”? Por que não indica a fonte das informações sobre as quais baseia tal afirmação? Mas, já que o Sr. Hartmann (segundo os documentos de que dispunha e cuja fonte cita em seu livro) não pôde ter conhecimento de “outras experiências fotográficas feitas sobre aparições percebidas pela assistência”, além das publicadas no Psychische Studien, onde não são referidas senão as experiências fotográficas do Sr. Crookes, é evidente que a passagem acima citada não se refere senão a essas fotografias; é tanto mais certo que, imediatamente depois desse parágrafo, ele fala da fotografia do Sr. Crookes, sobre a qual a médium e a forma materializada aparecem ao mesmo tempo. De tudo isso resulta que, na passagem citada, as palavras “todas as experiências fotográficas feitas sobre fantasmas vistos pelos assistentes... em todos os casos referidos até o presente, conduziram a insucesso” não têm sentido algum preciso, não se aplicam a coisa alguma – não houve tentativas sem resultado.

É do mesmo modo difícil compreender a segunda metade da mesma passagem, na qual o Sr. Hartmann afirma que nos casos em que o “resultado não foi negativo”, e em que “a própria médium foi fotografada”, as imagens são por demais indistintas para que se possa verificar se, além da médium, a fotografia também reproduziu as “vestimentas ilusórias nas quais estava vestida”.

Que é preciso entender por “vestimentas ilusórias nas quais a médium estava vestida”?

Conforme o que se lê nas páginas 90 e 103, é preciso compreender que são as vestimentas brancas em forma de véus e “as peças de vestidos alucinatórios” por meio dos quais a médium produz a ilusão desejada. Em que se funda o Sr. Hartmann para dizer que sobre essas fotografias não se vêem as “vestimentas ilusórias que vestiam a médium”? Que fotografias ele viu? De quais ele fala? Ele no-lo deveria dizer com muita exatidão. As fotografias de formas materializadas não são numerosas; não se contam mais de algumas, poucas, e, por minha parte, não conheço aquelas às quais se possam aplicar as asserções do Sr. Hartmann.

Posso certificar, pelo contrário, que em todas essas fotografias – que eu possuo, compreendendo nesse número os exemplares que recebi do Sr. Crookes – “a ilusão que veste a médium”, de que fala o Sr. Hartmann, é perfeitamente fotografada e que por conseguinte a fotografia representa efetivamente o que o Sr. Hartmann chama “o fantasma”.

Farei aqui uma breve digressão, contando minha entrevista com Katie King, entrevista cuja narração nunca foi publicada pela imprensa estrangeira.

Era em 1873. O Sr. Crookes já tinha publicado seus artigos sobre a força psíquica, mas não acreditava ainda nas materializações, acrescentando que só acreditaria nelas quando tivesse visto, ao mesmo tempo, a médium e a forma materializada. Achando-me em Londres, naquela época, eu desejava naturalmente ver com os meus próprios olhos esse fenômeno, único então. Tendo travado relações com a família da Srta. Cook, fui gentilmente convidado para assistir à sessão que devia realizar-se a 22 de outubro. Reunimo-nos em pequeno aposento que servia para sala de jantar. A médium, Srta. Florence Cook, tomou lugar em uma cadeira no ângulo formado pelo fogão e a parede, por trás de uma cortina suspensa em argolas. O Sr. Luxmoore, que dirigia a sessão, exigiu que eu examinasse perfeitamente o aposento e também as ligaduras da médium, pois julgava que esta última precaução era sempre indispensável. Em primeiro lugar, ele amarrou cada uma das mãos da médium, separadamente, com um cordão de linho, lacrou os nós; depois, reunindo as mãos por trás das costas, ligou-as conjuntamente com as pontas do mesmo cordão, e de novo lacrou os nós; depois, ligou-as ainda com uma longa fita que enrolou do lado de fora da cortina, em um gancho de cobre e que foi amarrada à mesa perto da qual ele estava sentado, de tal maneira que a médium não pudesse mover-se sem transmitir um movimento à fita. O aposento era iluminado por pequena lâmpada colocada por trás de um livro. Ainda não tinha decorrido um quarto de hora, quando a cortina foi levantada suficientemente de um lado, para descobrir uma forma humana, de pé perto da cortina, vestida completamente de branco, com o rosto descoberto, mas tendo os cabelos envoltos em um véu branco; as mãos e os braços estavam nus. Era Katie.

Na mão direita segurava um objeto que entregou ao Sr. Luxmoore, dizendo-lhe:

– É para o Sr. Aksakof; faço-lhe presente de tudo...

Ela me oferecia um pequeno púcaro de doce! E a entrega desse presente provocou um riso geral. Como se acaba de ver, o nosso primeiro encontro nada teve de místico.

Tive a curiosidade de perguntar donde vinha esse púcaro de doce.

Katie me deu esta resposta, não menos prosaica do que o seu presente:

– Da cozinha.

Durante toda essa sessão ela conversou com os membros do círculo; sua voz era fraca; não se percebia mais do que ligeiro cochicho. Ela repetia de instante a instante:

– Façam-me perguntas, perguntas sensatas.

Então eu lhe perguntei:

– Não podes mostrar-me a tua médium?

Ela me respondeu:

– Sim, vem depressa e olha.

Imediatamente abri a cortina, da qual eu não distava mais de cinco passos; a forma branca tinha desaparecido e, diante de mim, em um ângulo sombrio, divisei a médium sempre sentada na cadeira; ela trajava um vestido de seda preta e por conseguinte eu não podia vê-la mui distintamente, na sombra. Desde que voltei ao meu lugar, Katie reapareceu perto da cortina e me perguntou:

– Viste bem?

– Não muito bem – respondi –; está bastante escuro atrás da cortina.

– Então leva a lâmpada e olha o mais depressa que puderes – respondeu Katie.

Em menos de um segundo, de lâmpada em punho, cheguei ao lado de trás da cortina. Todo vestígio de Katie tinha desaparecido. Achei-me em presença da médium, sentada na cadeira, imersa em sono profundo, com as mãos amarradas por trás das costas. A luz da lâmpada, refletindo-se em seu rosto, produziu o efeito costumado: a médium gemeu, fazendo esforços para despertar; um diálogo interessante estabeleceu-se, por trás da cortina, entre a médium, que se esforçava em despertar completamente, e Katie, que desejava adormecê-la ainda; mas Katie teve que ceder: despediu-se dos assistentes e o silêncio se fez. Estava terminada a sessão.

O Sr. Luxmoore convidou-me a examinar atentamente os nós, os laços e os selos; tudo estava intacto; quando eu tive que cortar os laços, experimentei grande dificuldade em introduzir a tesoura por baixo das fitas, tão fortemente apertados estavam os punhos.

Examinei de novo o gabinete, logo que a Srta. Cook o deixou. Ele não media mais do que cerca de um metro de largura e menos de meio metro de fundos; as duas paredes eram de tijolo. Para mim era evidente que não tínhamos sido vítimas de uma mistificação por parte da Srta. Cook. Mas então donde tinha vindo e por onde tinha desaparecido essa forma branca, viva, falante – uma verdadeira personalidade humana?

Estou bem lembrado da impressão que experimentei naquele dia. Certamente eu estava preparado com antecedência para ver aquelas coisas e, entretanto, experimentava dificuldades em dar crédito a meus olhos. O testemunho dos sentidos e a própria lógica coagiam-me a acreditar, ao passo que a razão se opunha a isso, tão certo é que a força do hábito subjuga todos os nossos raciocínios: quando estamos habituados com uma coisa julgamos compreendê-la.

Um observador superficial suporá mui naturalmente que o papel de Katie foi representado por uma pessoa qualquer que se tivesse introduzido por uma abertura habilmente dissimulada.

Mas não esqueçamos que as sessões não se tinham realizado sempre no aposento ocupado pela família Cook. Assim, tive o ensejo, a 28 de outubro, de tornar a ver Katie em uma sessão que foi organizada em casa do Sr. Luxmoore – homem de fortuna –, antigo Juiz de Paz. Os convidados eram em número de quinze.

Esperando a chegada da Srta. Florence Cook, examinamos o aposento que devia servir de gabinete escuro e que dava passagem para o salão. Havia ali uma segunda porta, que o Sr. Dumphey (redator do Morning Post) fechou à chave; ele guardou a chave no bolso. Em pouco tempo chegou a Srta. Florence, acompanhada por seus pais; fizeram-na sentar-se em uma cadeira, perto da porta que comunicava com o salão, e o Sr. Luxmoore amarrou-a, mas não da mesma maneira que na sessão precedente: a cintura e os braços estavam ligados separadamente; o cordão que prendia a cintura era ainda dessa vez passado por baixo de um gancho de cobre fixado no soalho, perto da cadeira ocupada pela Srta. Cook, que, em seguida, foi conduzida até o salão; os nós do cordão foram selados, como da primeira vez, pelo Sr. Luxmoore. Todos os convidados assistiram àquela operação, depois da qual passamos ao salão. As cortinas foram cerradas; tomamos lugar defronte, em semicírculo. O aposento estava iluminado suficientemente. Em breve, a cortina abriu-se cerca de um pé e a forma de Katie apareceu na porta, vestida como de ordinário, e sustentou suas conversações habituais. O cordel que jazia no soalho não se movia. Katie insistiu ainda para que lhe propusessem perguntas sensatas.

Externei o desejo que tinha de que ela se aproximasse mais de nós; que passeasse pelo aposento; que desse um passo apenas, como o tinha feito nas sessões precedentes; ela respondeu que não poderia fazê-lo naquela noite. Desapareceu por um instante e reapareceu segurando entre as mãos um grande jarro japonês que estava no quarto em que se achava a Srta. Cook, porém à grande distância da cadeira na qual ela estava amarrada. O jarro foi retirado das mãos de Katie, que girou três vezes em torno de um mesmo ponto. Por esses movimentos ela queria evidentemente demonstrar-nos que seu corpo e mãos estavam livres de obstáculos e, por conseguinte, que não era a médium que se nos mostrava.

A sessão durou cerca de uma hora. Katie apareceu e desapareceu por muitas vezes. Finalmente a Srta. Cook começou a despertar; teve ainda uma conversa com Katie, e a sessão terminou como precedentemente. Um dos assistentes examinou os selos e os nós, cortou os cordéis e retirou-os.

Em meu canhenho de notas, encontro a seguinte notícia, referindo-se à época das experiências de que estamos tratando:

“Confesso que as sessões da Srta. Cook me impressionaram profundamente: por um lado eu hesitava em dar crédito a meus olhos, e entretanto a evidência dos fatos, as condições em que eles se tinham realizado, coagiam-me a aceitá-los. Mas não pude deixar de considerar todo aquele luxo de ligaduras pouco apropriado para inspirar confiança completa; seu resultado é infligir ao médium um incômodo penoso e enervador.

A demonstração não seria, por conseguinte, mais convincente se a Srta. Cook estendesse um braço sem deixar o lugar onde estava, e pousasse a mão, por exemplo, em uma cadeira, fora da cortina, de maneira que o espectador pudesse ver simultaneamente o fantasma e aquela mão, ou ainda melhor – desde que nenhuma das partes do corpo da médium pode, diz-se, suportar a luz – se a própria Katie desviasse a cortina com a mão, visível a todos, fazendo-nos assim ver a médium, ainda que por um instante, como eu lhe tinha pedido que fizesse. Pretende-se que ela prometeu deixar-se fotografar algum dia no mesmo clichê juntamente com a médium.”

Ela cumpriu essa promessa. Ninguém teria imaginado naquela época que essas experiências fotográficas tivessem de ser feitas pelo Sr. Crookes, que não acreditava ainda nos fenômenos da materialização.

No decurso de uma conversação que tive com Crookes, depois das sessões referidas, ele pediu minha opinião acerca dessas manifestações. Respondi-lhe que me julgava coagido a considerá-las autênticas. Ele me replicou: “Nenhuma ligadura me fará acreditar nesse fenômeno; conforme posso julgar, a ligadura não oferece obstáculos à força em atividade; só me darei por convencido quando vir ao mesmo tempo a médium e a figura materializada.”

Foi algum tempo depois de minha partida de Londres que ocorreu o incidente que pretendeu ter conseguido “desmascarar” a Srta. Cook e que deu em resultado colocá-la nas mãos do Sr. Crookes. Sabe-se como as coisas se passaram. Um espírita muito céptico resolveu tirar o assunto a limpo: no momento em que a forma de Katie saiu de trás da cortina, ele se atirou para a frente e segurou-a... Houve uma confusão completa. Mas o incrédulo se obstinava em sua opinião: “A figura materializada não era outra senão a própria médium.” Foi então que os pais da Srta. Cook dirigiram ao Sr. Crookes a súplica de tomar a filha sob sua fiscalização absoluta, pois que todas as pessoas queriam ter o espírito tranqüilo a tal respeito. Por ocasião de minha entrevista seguinte com o Sr. Crookes, em 1875, ele me mostrou a série de fotografias que tinha obtido.

Por conseguinte, me é permitido testemunhar, em desacordo com a afirmação do Sr. Hartmann (pág. 97), que nas fotografias de Katie King “a aparição ilusória que tinha transfigurado a médium” foi do mesmo modo “reproduzida na fotografia”, que “as fotografias obtidas” têm “perfeita semelhança com o fantasma”, que eu próprio, assim como outras pessoas, vimos por muitas vezes.



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