Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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4) O médium e o fantasma são ambos
visíveis e fotografados ao mesmo tempo.

Passamos agora à quarta categoria de fenômenos, aqueles que se acham nas condições absolutas impostas pelo Sr. Hartmann, isto é, que a médium e a forma materializada sejam fotografadas ao mesmo tempo, em uma mesma chapa.

Em primeiro lugar, devo mencionar aqui uma das fotografias do Sr. Crookes, aquela a cujo respeito ele diz: “Possuo uma fotografia na qual a médium e a forma materializada são reproduzidas ao mesmo tempo, porém Katie está colocada adiante da cabeça da Srta. Cook.” É verdade que essa fotografia não é satisfatória; tive oportunidade de vê-la no verão passado, em Londres: a médium está deitada no chão; não se lhe vê a cabeça, que está coberta por um xale; não se lhe vêem também os pés, porque a fotografia não reproduziu a forma senão até à metade da saia; finalmente, no meio, vê-se o contorno, muito indeciso, de uma forma branca, que parece estar de cócoras.

Mas o Sr. Hartmann, que não viu essa fotografia, tem outros motivos que não tenho para considerá-la incompleta e pouco satisfatória. E eis como ele fala a respeito dela:

“A fotografia tirada por Crookes, na qual se vê ao mesmo tempo a médium e o fantasma (Psychische Studien, II, 21) deixa suspeitar com fundamento que, em lugar do pretendido fantasma, foi a médium quem foi reproduzida, enquanto que no lugar da médium não se teriam visto mais do que seus vestidos repousando em um travesseiro, e meio disfarçados.” (Espiritismo, págs. 97 e 98).

O Sr. Hartmann não nos explica o que pôde motivar sua “profunda suspeita”; essa explicação seria entretanto necessária para compreender-se de que modo o testemunho de seus olhos pôde enganar as sete ou oito pessoas que assistiam à sessão. Assim, durante todo o tempo em que Katie se conservava fora do gabinete para ser fotografada, por muitas vezes, essas pessoas “viam os pés e as mãos da médium e também os movimentos que ela fazia sob a influência do mau estar que lhe ocasionava a luz muito intensa”; depois, repentinamente, a única vez em que Katie se abaixou perto da médium para permitir que as fotografassem conjuntamente, essas mesmas pessoas deixaram de vê-la e só divisaram em seu lugar um volume de vestidos sustentados por um travesseiro colocado por baixo.

Será preciso pelo menos explicar esse fato, se se deseja que “suspeitas” desse gênero sejam tomadas a sério.

Por meu lado, tomo a incumbência de provar a todas as pessoas que têm fé na palavra do Sr. Crookes que essa suspeita do Sr. Hartmann é sem fundamento, e que o Sr. Crookes, posto de sobreaviso contra semelhantes interpretações, se tinha convencido seguramente de que não era uma boneca que ficava no gabinete.

Possuímos sobre esse ponto o próprio testemunho do Sr. Crookes, conforme carta que ele escreveu ao Sr. Ditson, da América, e que vamos reproduzir. A primeira parte dessa carta fornece-nos um complemento importante à carta que ele tinha escrito ao Sr. Cholmondelly Pennell, que citamos mais acima, e na segunda parte encontraremos os pormenores necessários sobre a fotografia de que se trata. Eis o conteúdo dessa carta:

“Senhor:

A citação feita pelo Sr. Pennell, em sua carta ao The Spiritualist, é tirada efetivamente de uma carta que eu lhe dirigi. Em resposta a seu quesito, tenho a honra de confirmar que vi simultaneamente a Srta. Cook e Katie, à claridade da lâmpada de fósforo, que era suficiente para me permitir distinguir com perfeição tudo o que descrevi. O olho humano tende naturalmente a abraçar um ângulo tão grande quanto possível; por isso as duas figuras se achavam ao mesmo tempo em meu campo visual; mas, sendo a luz fraca, e a distância entre as duas figuras de muitos pés, eu era coagido a dirigir a minha lâmpada e também os olhos, ora sobre o rosto da Srta. Cook, ora sobre o de Katie, conforme desejava ter um ou outro no ponto mais favorável do campo visual. Desde então, Katie e a Srta. Cook foram vistas simultaneamente por mim mesmo e por oito outras testemunhas, em minha casa, à plena luz elétrica. Nessa ocasião, o rosto da Srta. Cook não era visível, porque a cabeça estava envolta em um xale espesso; mas verifiquei de maneira indubitável que ela se achava ali realmente. A tentativa que se fez de dirigir a luz sobre o seu rosto, quando ela estava em transe, produziu conseqüências sérias.

Não é talvez sem interesse, para o senhor, saber que antes que Katie se tivesse despedido de nós consegui obter dela várias fotografias muito boas, tiradas à luz elétrica.

Londres, 28 de maio de 1874.



William Crookes.”
(
The Spiritualist, nº 99, 1874).

Foi por aquela época, durante os anos de 1872-76, que se ocuparam mais de fotografias mediúnicas na Inglaterra, e, se não me engano, foi o Sr. Russel, de Kingston-on-Thames – de quem falei a propósito das fotografias transcendentes – quem primeiro conseguiu fotografar ao mesmo tempo a forma materializada e o médium. Possuo mesmo uma pequena fotografia representando o médium William e a figura de John King, que encontrei em Londres, em 1886, na coleção de fotografias do Sr. H. Wedgwood, membro da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, e que teve a complacência de ma oferecer; essa fotografia data da 1872. O Sr. Russel já não vive; mas o Sr. William, o médium, certificou-me de que é realmente uma das fotografias tiradas pelo Sr. Russel; entretanto, nos jornais da época não encontrei informações sobre essa fotografia; convém dizer que as experiências desse gênero eram feitas, naquele tempo, pelos pesquisadores, para sua satisfação pessoal, e que não lhes davam a publicidade necessária.

Estando em Londres, dirigi-me ao Sr. W. J. Champernowne, amigo do Sr. Russel, que habitava do mesmo modo em Kingston, para obter dele algumas informações circunstanciadas; ele me respondeu:

“Eu me achava perto do Sr. Russel na época em que ele fez suas experiências fotográficas, e me lembro de que ele obteve a reprodução perfeita de figuras materializadas ao mesmo tempo em que o retrato da pessoa que se expunha, ou, para dizer melhor, do médium; as duas imagens se revelaram claramente. Mas não sei o que é feito dessas fotografias. Recordo-me de que me ocupava da aquisição das placas de vidro, que o mercador cortava do tamanho que se queria, etc.”

Não posso, pois, fazer menção dessa experiência senão a título de antecedente histórico; acrescentarei entretanto esta observação importante, que nessa fotografia a forma de John King é um desdobramento perfeito do médium; que o retrato de John King, feito por um artista à luz do dia, enquanto o médium estava no gabinete, seguro pelas mãos, e que foi publicado no Médium de 1873, página 345, também representa os traços de William, mais embelezados; que na fotografia de John King materializado, obtida em casa do Coronel Greek em 1874 (Médium, 1874, pág. 786) à luz do magnésio, e que tenho sob os olhos, há ausência total de semelhança; que o rosto é muito diferente, é realmente gordo. O Sr. Greek, que mora atualmente em Moscou, e ao qual pedi algumas informações, explica essa deformidade por um efeito da luz do magnésio, o que é muito possível.

Foi nessa época que se fizeram em Liverpool sessões de materialização verdadeiramente extraordinárias; essas sessões se realizavam em um círculo de amigos, e o médium, o Sr. B., não consentiu que o seu nome fosse publicado; é por isso que não encontramos na imprensa espírita inglesa senão algumas notas acerca dessas sessões; o fato é bastante mais lamentável, por isso que nessas reuniões foram tiradas inúmeras fotografias de Espíritos materializados que foram perfeitamente reconhecidos; na maior parte delas, o médium era também fotografado. Achando-me em Londres, vi em casa do Sr. Burns (editor do Médium) muitas dessas fotografias em positivos, sobre vidro; ele só possui negativo de uma fotografia tirada durante a única sessão a que ele próprio assistiu em companhia de sua mulher; é à sua delicadeza que eu sou devedor de ter obtido um positivo, em papel, daquela fotografia. Como se pode ver ali não só a forma materializada, como ainda o médium, pedi ao Sr. Burns que me redigisse um relatório circunstanciado daquela sessão, o que ele teve a bondade de fazer. Reproduzo aqui esse relatório inédito:

“Há cerca de dez anos, um médium mui poderoso para os fenômenos físicos dava em seu domicílio, em Liverpool, sessões particulares, no decurso das quais se produziam notáveis e muito curiosas manifestações de materialização. Apesar do caráter privado dessas sessões, elas se divulgaram, e o médium foi assaltado por pedidos de admissão; pessoas ricas lhe faziam mesmo ofertas pecuniárias. Mas, intransigente, o médium recusava todas as propostas e só abria a sua porta aos íntimos, de caráter independente, evitava a publicidade, e isso impedia que seus amigos comunicassem à imprensa os relatórios das manifestações que se produziam em suas sessões. Esses pormenores têm importância relativamente à narração que se segue. Nessas sessões, o médium não tinha motivo algum para praticar fraude, porque não auferia lucro pecuniário e não procurava nomeada. O presente artigo não pode de maneira alguma ser-lhe útil nesse sentido, porquanto desde há muito tempo ele não se interessa por essa questão.

Essas manifestações, se não tiverem outro mérito, têm pelo menos o de seu valor intrínseco.

Eu conhecia um pouco o médium; creio, além disso, que meus trabalhos deram em resultado pô-lo nesse caminho. O finado Sr. Henry Pride, o poeta, um de meus melhores amigos, era membro desse círculo de pesquisadores. Um outro dentre meus amigos, o Sr. W. S. Balfour, de Liverpool (Saint John’s Market), assistia igualmente a essas sessões. Durante uma curta estada do Sr. Balfour em Londres, foi decidido que a Sra. Burns e eu tomássemos parte nas experiências. Convencionou-se, do mesmo modo, que se obtivesse do Espírito-guia desse círculo uma ocasião favorável a um de meus guias espirituais de se manifestar. Algum tempo depois, informaram-nos de que o Espírito em questão tinha conseguido a faculdade de manifestar-se, e fixou-se o dia da sessão. O médium era um homem robusto, enérgico e tinha conhecimentos científicos reais; tinha inventado uma pólvora explosiva que permitia tirar fotografias instantâneas. Por esse meio, tinham-se fotografado freqüentemente as formas materializadas, o médium e os assistentes, e havia todo o fundamento para acreditar-se que esse processo também daria resultados satisfatórios à nossa sessão.

O médium morava em um arrabalde, a uma distância considerável do escritório onde era empregado como administrador de importante casa. Em seu domicílio nada deixava supor quaisquer preparativos que tivessem por fim mistificar os experimentadores. Os membros desse pequeno círculo chegavam ordinariamente um pouco antes da hora fixada para a sessão e reuniam-se em torno de uma mesa para tomar chá e conversar familiarmente. A dona da casa era uma senhora muito simpática; as crianças eram de tenra idade e contavam, em família, que os Espíritos encantavam a casa, e até iam adormecer as crianças na ausência da mãe. As sessões faziam-se em um pequeno aposento que dava para o pátio, e que não media mais de 12 pés quadrados. O gabinete destinado ao médium era preparado em uma saliência da parede; a janela tinha sido condenada. Esse gabinete era formado por meio de muitos pedaços de tecido de lã, suspensos de um varão metálico recurvado em forma de ferradura de cavalo e preso à parede. Atrás dessa cortina havia espaço bastante para duas pessoas. Era ali que se produziam as materializações. Na parede oposta, muito perto da porta, estava uma lâmpada de parafina com um refletor. A iluminação não era muito intensa, mas suficiente para permitir ler em qualquer lugar do aposento, ver distintamente tudo o que aí se achava e, por conseguinte, distinguir as formas que aparecessem.

No começo da sessão, o médium entrou no gabinete e, quando a cortina foi corrida, caiu em um transe que se prolongou até o fim da experiência. Os assistentes formaram um semicírculo, cujo centro se achava na parede, por baixo da lâmpada, tocando as duas extremidades na parede oposta. Em um lado do aposento havia uma mesa com livros, jornais, etc. Todas as pessoas tinham o rosto voltado para o gabinete e as costas para a lâmpada. Apareceram seis a sete formas materializadas, que saíram do gabinete, uma após a outra. Nesse número estava um mancebo de gestos muito vivos e ágeis; ele tomou uma folha de papel de cima da mesa, enrolou-a e pôs-se a nos bater na cabeça com ela, dando de cada vez um salto para trás, com grande ligeireza. Depois apareceram alguns parentes dos donos da casa, os quais se mostravam habitualmente nessas sessões, entre outros uma senhora idosa, mãe de um dos cônjuges. Ela usava um toucado com plissés. Tinham-na fotografado já por diversas vezes, e freqüentemente o retrato era muito semelhante. Entre os fantasmas, houve ainda uma irmã, senhora de bela aparência.

Uma fotografia que possuo representa um irmão que se conserva de um lado do gabinete, entre as cortinas; no outro extremo, vê-se o Sr. Archibald Lamont, falecido recentemente. Por conseguinte, grande parte dos Espíritos materializados eram amigos íntimos dos assistentes. O Espírito-guia da sessão era um velho que tinha longa barba branca; ele se acha em uma das chapas, com o Dr. Hitchman, um dos assistentes. No decurso da sessão na qual figurei, grande parte do tempo e das forças foi empregada para evocação de meus amigos espirituais. Um dentre eles trajava longa vestimenta, à antiga, presa na cintura; ele se dava por um filósofo e escritor da antigüidade.

Outro Espírito era “Robert Bruce”, que esperávamos com o maior interesse. Eu estava em comunicação com ele havia muitos anos, e éramos atraídos por uma pronunciada simpatia, que continua ainda. Ele era dotado de um poder considerável e conseguia ficar conosco por muito tempo. Quando saiu do gabinete, convidaram-me a ir para o seu lado. Ele me apertou a mão entusiasticamente e com tanta força que eu ouvi estalar uma das articulações de seus dedos, como sucede quando apertamos a mão com força. Esse fato anatômico era corroborado pelo sentimento que eu experimentava de segurar aquela mão perfeitamente natural. Minha mulher também o tinha cumprimentado da mesma maneira, e não foi uma aparição fugitiva; foi suficientemente prolongada para permitir uma investigação minuciosa.

Certos pormenores daquela entrevista ficarão sempre em minha memória. Bruce aproximou-se da lâmpada e retirou-a da parede; conduziu-a para o gabinete, aumentou a chama e dirigiu a luz sobre o médium; ao mesmo tempo levantou a cortina à altura bastante para que pudéssemos vê-los ambos. Depois diminuiu a chama e repôs a lâmpada em seu lugar. Ele tinha certa dificuldade em fazer entrar o prego no orifício, pois que aquela parte da lâmpada estava na sombra projetada pelo refletor. Uma senhora que estava colocada justamente por baixo da lâmpada, de maneira que Bruce era obrigado a inclinar-se por cima dela, quis auxiliá-lo a colocá-la no lugar, mas ele não aceitou o auxílio e continuou em seus esforços com persistência; finalmente acertou.

Depois de ter prosseguido por algum tempo nessas experiências, no decurso das quais todos os assistentes puderam ver por muitas vezes o médium e as formas materializadas ao mesmo tempo, procedeu-se aos preparativos para fotografar juntamente o médium, as aparições e os assistentes. Trocaram os lugares: em vez de formar um semicírculo, toda a assistência se colocou em ala, defronte da porta e voltando as costas para o gabinete. A câmara escura tinha sido instalada, antes da sessão, em um ângulo do aposento, com o foco dirigido para o gabinete; ao lado havia uma mesa pequena, em cima da qual estava uma quantidade de pó de magnésio que, inflamando-se, devia produzir uma luz bastante intensa para permitir tirar-se uma fotografia instantânea. Os acessórios fotográficos estavam na cozinha; como as chapas secas ainda não eram usadas, foi preciso lançar mão de chapas frescas, que foram preparadas pelo Sr. Balfour, na cozinha; sem ser fotógrafo de profissão, tinha bastante conhecimento dessa matéria para fazer as manipulações necessárias.

Acompanhei o Sr. Balfour à cozinha e observei todos os seus movimentos; o próprio médium tinha pedido que me certificasse de que tudo se passava corretamente. Em seguida entramos de novo no aposento das sessões, e o caixilho que continha a chapa foi introduzido no aparelho. Todos os assistentes estavam no lugar onde os tínhamos deixado, compreendendo nesse número o médium e o fantasma. Para conservar a chapa depois da exposição, apagou-se a lâmpada. A forma materializada conservava-se nesse momento por trás de nós, com uma das mãos sobre a minha cabeça e a outra sobre a de minha mulher; esta teve um calafrio quando o Espírito se inclinou para ela e lhe disse, em verdadeiro dialeto escocês, que não tivesse medo. Em seguida o fantasma tomou posição para ser fotografado, e logo depois se deu o sinal de acender a mecha posta em contato com a pólvora; o jato de luz foi rápido como um relâmpago.

O Sr. Balfour apressou-se em tirar o caixilho. Experimentei certa inquietação a respeito de minha mulher, que parecia prestes a perder os sentidos. Durante esse tempo o aposento estava imerso nas trevas e cheio dos gases nauseabundos da pólvora queimada. O fantasma não tinha deixado seu lugar; aproximou-se de meu ouvido e, no mesmo dialeto escocês, com voz um pouco rude e senil:

– Vá buscar o retrato – disse ele, fazendo-me assim compreender que ia ficar perto de minha mulher.

Acompanhei o Sr. Balfour à cozinha. Ele procedeu à revelação da chapa, mas a excitação que experimentava fazia tremer-lhe a mão; entornou o líquido por sobre a chapa em vez de deixá-lo gotejar, o que foi causa de que o tom geral da prova carecesse de nitidez e de que a figura de minha mulher ficasse quase velada. O líquido endurecido foi retirado em parte, mas não podiam retirá-lo completamente sem apagar a imagem da Sra. Burns. De outro lado, a luz parece ter sido muito intensa, pois que a chapa apresenta indícios de um excesso de exposição. Felizmente a reprodução do fantasma foi bem sucedida. A faixa carregada que lhe atravessa o peito obliquamente representa um plaid escocês. A imagem do médium aparece fracamente no recanto que ele ocupava. Os assistentes, que estavam colocados ao lado do gabinete, não são visíveis. A prova que possuo é somente da parte central recortada.

Quando o aposento foi iluminado, o médium despertou, aturdido ainda pelo efeito de um transe prolongado. Ele acolheu a narração de nossa experiência com sua indiferença habitual. Em outras fotografias obtidas por nós, o médium sobressai muito melhor; propriamente falando, a fotografia de que se trata aqui é, de uma série inteira, a menos perfeita, mas, em razão do caráter extraordinário dos resultados que obtivemos, essa fotografia é inestimável como prova da realidade dos fenômenos, pois que esses resultados não podem, de maneira alguma, ser considerados como produzidos por uma fraude, nem ser explicados por uma alucinação. Não é mais do que uma experiência tomada em uma série inteira de experiências semelhantes, que se confirmam umas pelas outras, da maneira mais positiva.

Spiritual Institution, 15, Southampton-Row, Londres, 19 de julho de 1886.

J. Burns.”

Falta-me dizer ainda que nessa fotografia, muito grande, pois que mede 5 polegadas sobre 6, vê-se muito bem, apesar de certas faltas técnicas, um grupo de sete pessoas, entre as quais se distingue a forma materializada, vestida de branco, de pé, perto do gabinete; a metade da cortina diante da qual ela se conserva está repuxada; vê-se no gabinete o médium sentado, só com metade do rosto visível, seus cabelos e barba negra confundindo-se com a sombra que havia nesse gabinete.

Mas, para essa fotografia, a presença do médium na chapa era supérflua, pois que não há semelhança alguma entre ele e a forma materializada; o médium é um homem moreno, de trinta anos; a forma materializada é a de um velho inteiramente calvo, com uma longa barba grisalha, e seu rosto, largo e redondo, é completamente diferente do do médium; ele olha de frente; os olhos estão abertos, vendo-se-lhes as pupilas. No ponto de vista da nitidez, essa fotografia é mais interessante do que a que eu tinha tirado com Eglinton; é de notar que essas aparições suportam, sem fechar os olhos, a luz deslumbrante do magnésio.

Não se encontram na imprensa inglesa senão dois relatórios sobre os fenômenos de materialização produzidos em presença desse médium; eles são devidos à mesma pena, a da Sra. Luísa Thompson Nosworthy, e referem-se a uma mesma sessão. Eu reproduzirei aqui um desses dois relatórios, porque nessa sessão foi tirada não só a fotografia da forma materializada, como também a do médium. O primeiro relatório aparece no The Spiritualist de 28 de julho de 1876, página 530; citarei dele as passagens seguintes:



Sessões curiosas em Liverpool – por E. Luísa S. Nosworthy

“Seria talvez interessante para os leitores do The Spiritualist saber que ao mesmo tempo em que os pesquisadores faziam experiências com médiuns profissionais e obtinham provas irrecusáveis da realidade das materializações temporárias de formas humanas, que adquirem consistência material comparável à do nosso corpo, esses mesmos fenômenos surpreendentes eram observados em um círculo íntimo, estritamente privado, em Liverpool. Tendo tido por muitas vezes ocasião de fazer parte dessas sessões, envio-lhe um relatório dos fatos de que fui testemunha.

Era no mês de setembro do ano passado. Meu pai, o Sr. Georges Thompson, tinha ido visitar-me e manifestou ardente desejo de assistir a uma sessão de materialização. Por conseguinte, obtive a permissão de introduzi-lo no círculo em questão. O Dr. William Hitchman assistia à mesma sessão. O aposento onde as experiências se realizaram é muito pequeno, medindo cerca de 10 pés quadrados. Desta vez, como de ordinário, fomos convidados a dispormo-nos em semicírculo e a entoar cânticos, depois que o médium se retirou para trás da cortina. A lâmpada de parafina fornecia bastante luz para permitir vermo-nos uns aos outros.

Pouco depois do desaparecimento do médium, a cortina abriu-se e na abertura se divisou uma espécie de nevoeiro com a vaga semelhança de uma forma humana. Esse vapor se tornou cada vez mais denso; destacou-se dele a forma de uma cabeça e mão. A mão começou imediatamente a agitar a massa nebulosa que se achava abaixo e fez uma forma humana, a de um homem de grande estatura, vestido de branco. Esse fantasma, posto que saído de um nevoeiro e formado a nossos olhos, por assim dizer, em pouco tempo nos deu provas de que não era mais composto de um vapor impalpável: dirigiu-se para o meio do aposento e apertou fortemente a mão de cada um de nós. Aumentou-se a luz, e pudemos ver um velho majestoso, de olhar severo, com a barba e cabeleira brancas e flutuantes. Ele se conservou por bastante tempo fora do gabinete improvisado com um pano, como se disse mais acima, voltou em seguida ao lugar onde se tinha formado e, desviando a cortina com a mão, fez sinal a todos os assistentes, um após outro, para que se aproximassem dele e se conservassem a seu lado, perto do médium. O velho olhava a cada um muito de perto. Meu pai pôde notar sua pele fresca, quase rosada, assim como a expressão digna de sua fisionomia.

Não se poderia esquecer essa aparição imponente que se conservava de pé, perto da cortina, desviando-a com a mão e mostrando com a outra o médium imerso em profundo transe. Meu pai disse-me posteriormente que tinha experimentado profunda comoção à vista desse espetáculo, sobretudo no momento em que, em presença do fantasma, tocando-o quase, ouviu saírem dos lábios desse ser pertencente a um outro mundo as palavras seguintes, pronunciadas com voz fraca: “Que Deus te abençoe.”

Duas ou três outras figuras mostraram-se em seguida, nas mesmas condições, mais ou menos; elas faziam a volta em torno dos assistentes, apertavam-lhes a mão, permitindo tocar e examinar suas vestimentas. Uma dessas aparições apresentou a cada um de nós uma pimenta, coisa que não havia na casa.

No fim dessa memorável sessão, a primeira forma apareceu de novo e, então, tirou-se-lhe a fotografia, conjuntamente com a do Dr. Hitchman.

O Sr. Carlos Blackburn descreveu outra sessão feita pelas mesmas pessoas e à qual eu assisti também. Ele examinou, de acordo com o arquiteto, o aposento em que se faziam as sessões, e verificou que esse aposento não estava situado por cima de uma cava; que tocava imediatamente no chão. Sucedia freqüentemente nessas experiências vermos aparecerem três fantasmas diferentes. Pergunto se um céptico qualquer conseguirá encontrar uma teoria, fora da do Espiritismo, para explicar esses fenômenos, em todos os seus pormenores!”

Outro relatório da mesma sessão, pelo mesmo autor, é publicado no Psychological Review (1878, t. I, pág. 348), sob o título: Memórias de George Thompson, por sua filha Luísa Thompson. Nessa narração lê-se, entre outros pormenores, que na primeira fotografia tirada à luz do magnésio se vê não só o fantasma como também o médium.

Nesses dois relatórios há uma contradição no que diz respeito às fotografias: no relatório de 1876 diz-se que o fantasma foi fotografado conjuntamente com o Dr. Hitchman; a carta escrita em 1878 diz que o médium é quem foi fotografado na mesma chapa que a figura materializada.

Desejando ter um esclarecimento sobre essa contradição, escrevi ao Dr. Hitchman, que me respondeu pela carta seguinte:

“Liverpool, 26 de abril de 1887.

Senhor:

Tenho a honra de acusar o recebimento de sua estimada carta de 18 do corrente. Relativamente aos diversos quesitos que ela encerra, farei observar que por muitas vezes houve mais de uma sessão na mesma noite, e no decurso dessas experiências fotográficas o médium (Sr. B.) era ora reproduzido, ora não. Por conseguinte, há ali necessariamente uma “contradição”.



Aceite, etc.

William Hitchman, M. D.

Para completar as relações referentes às experiências fotográficas feitas com esse notável médium, não tinha nada melhor a fazer do que dirigir-me ainda a esse mesmo Sr. Hitchman, sábio distinto, doutor em Medicina, presidente da Sociedade de Antropologia de Liverpool e autor da Fisiologia das Inflamações, da Natureza e Profilaxia da Tísica, etc.; era a pessoa mais competente do círculo íntimo em que se produziam os fenômenos em questão. Eis a carta que me escreveu em resposta:

“Liverpool, Pembroke Place 62, 24 de julho de 1886.

Senhor:


Respondendo à sua amável carta datada de ontem, venho dizer-lhe que, absorvido por diversos trabalhos muito urgentes, lamento não poder presentemente comunicar-lhe todas as particularidades que me pede, no ponto de vista científico e filosófico.

Quanto às fotografias das figuras materializadas, foram elas obtidas à luz elétrica.

Muitos aparelhos completos estavam preparados especialmente para nossas experiências; eles tinham muitas câmaras escuras, que permitiam respectivamente empregar a chapa inteira, a meia chapa ou o quarto; havia também câmaras binoculares e estereoscópicas; colocavam-nas por trás dos espectadores, o que permitia não só assestá-las para o fantasma, segundo a linha visual dos assistentes, como ainda fotografar ao mesmo tempo o médium, quando as personagens aparecidas consentiam, a pedido nosso, em desviar a cortina. Em regra, nunca tínhamos insucesso em nossas operações.

Empregavam-se banhos de revelação e fixação, e as chapas eram preparadas de antemão, a fim de evitar qualquer demora. Sucedia-me freqüentemente entrar no gabinete no encalço de uma forma materializada, e então eu via ao mesmo tempo esta e o médium (o Sr. B.). Em vista disso, creio ter adquirido a certeza, mais científica que é possível obter, de que cada uma dessas formas aparecidas era uma individualidade distinta do invólucro material do médium, pois que as examinei com o auxílio de diversos instrumentos; verifiquei nelas a existência da respiração e da circulação; medi sua estatura, a circunferência do corpo, tomei seu peso, etc. Essas aparições tinham o ar nobre e gracioso, moral e fisicamente; pareciam organizar-se gradualmente, à custa de uma certa massa nebulosa, ao passo que desapareciam instantaneamente e de maneira absoluta. Sou de opinião que deve haver ali uma existência espiritual qualquer, em qualquer parte, e que os seres inteligentes que se apresentavam em nossas sessões tomavam uma “aparência corpórea”, possuindo uma realidade objetiva, mas de natureza diferente da “forma material” que caracteriza nossa vida terrestre, sendo incontestavelmente dotados de uma consciência, de uma inteligência semelhante à nossa, e apresentando o dom da palavra, a faculdade de locomoção, etc. Tendo tido por muitas vezes o ensejo (perante testemunhas competentes) de conservar-me entre o médium e o “Espírito materializado”, de apertar a mão deste último e conversar com ele durante cerca de uma hora, não me julgo mais disposto a aceitar hipóteses fantasistas, tais como as ilusões da vista e do ouvido, a cerebração inconsciente, a força psíquica e nervosa e o mais que se segue; a verdade, no que diz respeito às questões da matéria e do espírito, só poderá ser adquirida à custa de pesquisas.

Tenha a bondade de desculpar-me por não oferecer ao senhor senão essas observações mui superficiais e escritas à pressa, atendendo às circunstâncias em que me acho.

Queira aceitar, etc.



William Hitchman.”

Não tendo mais a fotografia à sua disposição, o Dr. Hitchman teve a bondade de enviar-me a reprodução fotográfica de um desenho que representa uma das sessões do Sr. B. Vêem-se ali todas as pessoas que faziam parte do círculo; no centro, nota-se a forma materializada de um velho vestido de branco, com a cabeça descoberta, de pé, próximo à cortina do gabinete, que ele levanta com a mão direita, mostrando-nos o médium que está sentado, imerso em profundo transe. Entre a cavidade do peito da forma materializada e a do médium vê-se uma espécie de feixe luminoso ligando os dois corpos e projetando um clarão sobre o rosto do médium.

Esse fenômeno foi observado freqüentemente durante as materializações; comparam-no ao cordão umbilical. O Sr. Hitchman faz acompanhar a sua oferta com as linhas seguintes:

“26 de julho de 1886.

Caro senhor:

Depois que lhe dirigi a minha última carta, pude, após minuciosas pesquisas, encontrar o desenho que acompanha a presente. Talvez sirva para o senhor formar uma idéia mais completa de toda a série das sessões do Sr. B. Garanto a fidelidade do desenho. A forma materializada que aí se vê dava-se como sendo o Dr. W., de Manchester. É de uma inteligência muito desenvolvida... O fantasma desenhou meu retrato... Em minha opinião, só pesquisas experimentais sérias e pacientes, no domínio dos fatos objetivos ou dos fenômenos físicos do Espiritualismo, poderiam convencer os filósofos alemães, ou a outros, de sua realidade e de seu valor, como manifestações da vontade divina, ou antes como um efeito da evolução natural, produzindo-se em condições convenientes.

Os esforços da razão, da lógica, da argumentação, etc., sem investigação prática, não passam de uma perda inútil de tempo e de energia.

Seu devotado



W. Hitchman.”

“P.S. – No Physiological Review do mês de abril de 1879, um lugar de honra foi reservado a um artigo meu, intitulado Ourselves and Science (Nós mesmos e a Ciência), no qual exponho os resultados de minhas observações tão cientificamente como nunca o foram os trabalhos químicos de laboratório ou outros quaisquer.



W. H.

Querendo obter a prova absoluta que o Sr. Hartmann exigia, e decidido a submeter-me a todas as condições por ele impostas, em uma experiência que eu mesmo deveria dirigir, organizei duas séries de sessões fotográficas com o médium Eglinton. Em 1886, convidei-o para vir a São Petersburgo. A despeito de todas as nossas fadigas, não pudemos dessa vez obter resultado satisfatório. Essas experiências são descritas no Psychische Studien (agosto de 1886). Para a segunda série de experiências que se fizeram pouco tempo depois, dirigi-me a Londres. Desta vez o resultado excedeu às minhas esperanças. O relatório foi publicado no Psychische Studien (de março de 1887) e no Rebus (número 58, 1886); reproduzo-o in extenso, juntando-lhe a fototipia que representa Eglinton em transe, sustentado pela figura materializada. Examinando essa imagem, distingue-se imediatamente uma figura humana, viva, de pé, ao lado do médium.

Depois de tudo quanto eu disse para provar a realidade objetiva dos fenômenos de materialização, poder-se-ia facilmente conceder aos resultados que eu mesmo obtive o caráter de autenticidade ao qual eles têm direito, e entretanto sou o primeiro a reconhecer até que ponto é difícil admitir a realidade dessa espécie de fenômenos!

Acrescentarei, para instrução dos leitores que não tiveram conhecimento de meus artigos publicados no Rebus, que as experiências de que se vai tratar foram organizadas em Londres, em casa de um rico particular, em um prédio que ele tinha recentemente feito construir; que o nosso círculo se compunha do dono da casa, de sua mulher, de Eglinton, do Sr. N., de um amigo da casa e de mim. Essas pessoas desejam que seus nomes não sejam dados à publicidade. Eis o artigo:

“Nós nos reunimos às 7 horas da noite, a 22 de julho, e depois de ter jantado com os nossos hospedeiros, começamos os preparativos. Para uma sessão na qual se tratava de obter a fotografia do médium ao mesmo tempo que a da figura materializada, era-nos preciso um aposento onde se pudesse improvisar um gabinete escuro atrás de uma cortina. O salão foi o único local conveniente, com a entrada separada do resto do aposento por uma larga cortina de pelúcia que se podia levantar por meio de uma forte corda de seda. Foi essa parte do salão que se decidiu transformar em gabinete escuro: ela media 10 pés de largura por 14 de comprimento. Havia uma porta e uma janela; essa porta, a única em todo o aposento, abria-se para um corredor; ela fechava muito bem. A janela dava para uma passagem que separava o prédio da casa vizinha. Para obter a escuridão, os postigos das janelas foram fechados, e no interior cobriu-se a madeira desses postigos com um encerado e com cobertores de lã, seguros por pregos pequenos; havia nesse compartimento algumas cadeiras, uma étagère e um piano. Esse salão, bem como os outros aposentos onde fazíamos as nossas sessões, achavam-se no terceiro andar.

Nosso hospedeiro começou por dispor seu aparelho; Eglinton sentou-se defronte da abertura da cortina. O foco estava a uma distância tal que a forma inteira podia ser reproduzida na chapa. Cerca de quatro passos da cortina, defronte da abertura, que não ficava inteiramente no centro, colocou-se pequena mesa redonda, à esquerda da qual ficava o aparelho. A fim de proteger o aposento escuro da ação direta da luz do magnésio, tinha-se colocado em cima da mesa um amplo anteparo de papelão, na curvatura do qual se colocou um refletor côncavo de metal, de 7 polegadas de diâmetro.

Nós nos tínhamos consultado por mais de uma vez para saber como iluminaríamos o salão; a luz devia ser fraca, porém suficiente para se ver o que se passava; devia, além disso, estar ao nosso alcance para nos permitir acender o magnésio no momento preciso. Decidimo-nos por uma pequena lâmpada de álcool, com uma mecha espessa de algodão; ela dava uma luz suficiente para as nossas necessidades. Essa lâmpada foi colocada sobre a pequena mesa, ao abrigo do refletor, e ao lado colocamos muitos cordões de magnésio, formados com fios tecidos desse metal e compostos cada um de três rolos; esses cordões tinham cerca de cinco polegadas de comprimento. Estavam amarrados com fio de arame a bastonetes de vidro. Foi o Sr. N., amigo do nosso hospedeiro, quem foi incumbido de acender na lâmpada o cordão de magnésio, a um sinal dado, e de conservar o cordão aceso diante do centro do refletor, tendo o cuidado de que os objetos a fotografar estivessem no campo da luz projetada. Nas experiências anteriores, que mencionei mais acima, nós nos tínhamos assegurado de que, com o emprego do refletor, esses rolos triplos de magnésio produziam uma luz bastante forte para obter um bom resultado.

Quando tudo ficou pronto, retirei-me com o dono da casa para o gabinete escuro. À claridade de uma lanterna vermelha, tirei duas chapas e marquei-as; meu companheiro colocou-as no caixilho. Voltamos ao salão, fechando a porta de entrada após a nossa passagem. O hospedeiro entregou-me a chave, que eu guardei na algibeira. Tomamos lugar em semicírculo diante da cortina, a uma distância de 5 a 6 passos, como mostra o esboço junto.


Acendemos a lâmpada de álcool e apagamos o gás. Eram 10 horas da noite. Eglinton sentou-se a princípio em uma poltrona defronte da cortina, depois se retirou para trás dela, onde havia uma outra poltrona para ele. Conservou-se ali por mais de meia hora sem que nada se produzisse. Finalmente caiu em estado de transe e começou a falar sob a direção de um de seus guias; ele exprimiu o pesar pelo insucesso da experiência. Acrescentou que seria preciso não menos de dez sessões para obter o resultado desejado e que eles estavam em dúvida se tinham o direito de impor ao médium semelhante esgotamento; que fariam, entretanto, um último esforço. Se alguém aparecesse, seria o próprio Ernesto, guia principal do médium. Essa particularidade referia-se a uma suposição que eu tinha externado anteriormente no decurso de nossa conversação, dizendo que nessa espécie de experiência era provável que aparecesse outra figura. Alguns instantes depois, Eglinton voltou a si e a sessão terminou.

A segunda sessão dessa série, a última de todas, foi fixada para 26 de julho. O resultado negativo da sessão precedente confirmou minhas apreensões: eu estava cada vez mais convencido de que nada se produziria nessa última tentativa.

Nós nos reunimos à mesma hora; como da outra vez, retiramo-nos, nosso hospedeiro e eu, para o gabinete escuro; quando os preparativos terminaram, retirei de minha carteira duas chapas que tinha trazido, marquei-as em russo: “A. Aksakof, 14 de julho de 1886” (estilo antigo), e o hospedeiro meteu-as no caixilho; antes de entrar no salão fechamos a porta à chave. Sentamo-nos na mesma ordem; acendemos a lâmpada de álcool e apagamos o gás. Eglinton sentou-se em uma poltrona, defronte da cortina, caiu em pouco tempo em transe e começou a falar. Foi-nos comunicado pelo seu órgão que os nossos preparativos estavam aprovados, e tivemos a promessa de que nenhum esforço seria poupado para obter-se êxito, sem que, entretanto, nos fosse permitido contar com ele infalivelmente; o momento de acender o magnésio seria indicado ao Sr. N. por via de sugestão; ele pronunciaria a palavra: “agora”. Intimaram-nos, além disso, em caso de insucesso no começo, a irmos ao gabinete escuro, para tirar fotografia às escuras; eles se esforçariam então por evocar uma forma feminina.

Às 10 horas menos cinco minutos, Eglinton retirou-se para trás da cortina: eu podia ver a hora à claridade da pequena lâmpada. Em breve Eglinton saiu e começou a recolher forças; aproximava-se de cada um de nós, fazendo passes de nossas cabeças para o seu corpo; depois disso, retirou-se de novo para trás da cortina, saiu outra vez e sentou-se na poltrona defronte da abertura da cortina, com o rosto voltado para o nosso lado. Ele fazia movimentos agitados, levantava e abaixava os braços. Alguma coisa branca apareceu acima de sua cabeça... Ouviram-se pancadas... Estávamos em dúvida; as pancadas repetiram-se.

– É preciso acender?

– Sim – foi a resposta, sempre por pancadas.

O magnésio foi aceso e o hospedeiro descobriu a objetiva; divisei nesse momento a forma de Eglinton banhada em deslumbrante luz; ele parecia dormir tranqüilamente, com as mãos cruzadas sobre o peito; em sua espádua esquerda via-se uma terceira mão com um pedaço de tecido branco, e sobre sua cabeça, muito perto da testa, apareceu uma quarta mão. Essas mãos eram vivas; mãos naturais; não tinham essa brancura tocante como em s. Petersburgo; não desapareceram no fim da exposição, porém atraíram Eglinton para trás da cortina. O hospedeiro virou imediatamente o caixilho e descobriu a segunda chapa. Eu pensava que a sessão terminaria naquele ponto, mas o hospedeiro tinha apenas retomado o seu lugar quando uma grande forma masculina, vestida de branco e de turbante branco emergiu de trás da cortina e deu três ou quatro passadas no aposento.

– É Abdullah – observei.

– Não – observou-me o hospedeiro –, essa forma tem as duas mãos.

(A forma de Abdullah, que tinha aparecido nas sessões de Eglinton, em São Petersburgo, só tinha metade do braço esquerdo.)

Como para confirmar essa última observação, o fantasma fez um movimento com os dois braços e os cruzou sobre o peito, depois nos fez uma saudação e desapareceu por trás da cortina.

Alguns segundos depois, Eglinton mostrou-se acompanhado por uma figura vestida de branco, a mesma que acabávamos de ver. Ambos se colocaram diante da cortina e uma voz pronunciou: “Light!” (luz!). Pela segunda vez o magnésio se inflamou, e eu olhei, com estupefação, para essa grande forma humana que rodeava e sustinha com o braço esquerdo Eglinton, o qual, imerso em profundo transe, tinha dificuldade em manter-se de pé. Eu estava sentado a cinco passos de distância e podia contemplar perfeitamente o estranho visitante. Era um homem perfeitamente vivo; distingui nitidamente a pele animada de seu rosto, sua barba negra, absolutamente natural, suas sobrancelhas espessas, seus olhos penetrantes e severos que fixaram a chama durante cerca de quinze segundos, enquanto ela brilhou.

O fantasma trajava uma vestimenta branca que descia até ao chão e uma espécie de turbante; com o braço esquerdo ele rodeava Eglinton; com a mão direita segurava as suas vestimentas. Quando o Sr. N. pronunciou: “Agora!”, para advertir que era preciso fechar o obturador, o fantasma desapareceu atrás da cortina, mas sem ter tido o tempo de levar consigo o médium; este caiu no chão como um corpo inerte, diante da cortina. Nenhum de nós se moveu, pois sabíamos que o médium estava sob a influência de uma força que escapava à nossa fiscalização. A cortina abriu-se imediatamente; a mesma figura apareceu ainda uma vez, aproximou-se de Eglinton e, inclinada por cima dele, começou a fazer-lhe passes. Silenciosos, olhávamos com admiração aquele espetáculo estranho. Eglinton começou a levantar-se lentamente; quando ficou de pé, o fantasma o rodeou com o braço e arrastou-o para o gabinete. Então ouvimos a voz fraca de Joei (um dos guias do médium) que nos convidava a conduzir Eglinton para o ar livre e lhe umedecer a fronte com água. Eram 10 horas e 30 minutos. A sessão tinha, pois, durado, ao todo, 35 minutos.

A dona da casa apressou-se em ir buscar água e, encontrando a porta fechada, dirigiu-se a mim para receber a chave. Recusei, desculpando-me: as circunstâncias exigiam que eu mesmo abrisse a porta; antes de fazê-lo, penetrei no gabinete com uma luz e assegurei-me de que ela estava bem fechada. Eglinton estava abatido em sua poltrona, em profundo transe; não se podia pensar em fazê-lo manter-se de pé; conduzimo-lo, pois, à sala de jantar e o instalamos em uma poltrona, perto de uma janela aberta. Apenas o tínhamos instalado nessa posição, ele caiu no chão, em convulsões; tinha sangue nos lábios. Começamos a friccioná-lo vigorosamente e lhe fizemos respirar sais. Só no fim de um quarto de hora ele pôde ser instalado de novo; respirou profundamente e abriu os olhos.

Confiei-o em tal estado ao cuidado de nossos hospedeiros e voltei com o Sr. N. ao gabinete escuro, para revelar as chapas. Desde que vi desenhar-se, em uma delas, os contornos das duas formas, tive pressa em ir dar parte dessa notícia agradável a Eglinton, que, não se achando em estado de ir em pessoa, manifestava grande impaciência em conhecer o resultado da sessão. Sabendo do êxito, suas primeiras palavras foram: “Está bem, é suficiente para o Sr. Hartmann?” Eu lhe respondi: “Ficam terminadas, presentemente, as alucinações.”

Mas esse triunfo custou muito a Eglinton. Decorreu mais de uma hora para que ele adquirisse bastante força para dirigir-se penosamente à estação do caminho de ferro subterrâneo. O Sr. N. incumbiu-se de reconduzi-lo a casa e de instalá-lo no leito. Chegando a casa, Eglinton teve novo acesso de convulsões acompanhadas de hemorragia pulmonar. Ele tinha insistido para que os incidentes da noite se conservassem ocultos a seus parentes; mas no dia seguinte seu aspecto inspirou inquietações à sua família, e vieram a minha casa para indagar o que se tinha feito com Eglinton, na véspera, para colocá-lo naquele estado de esgotamento que nunca se lhe tinha observado.

As fotografias assim obtidas eram muito boas, ainda que preparadas à pressa; a melhor é aquela em que se vêem as mãos pousadas sobre Eglinton.

Em uma sessão semelhante, em S. Petersburgo, o médium não tinha conservado toda a imobilidade requerida para uma boa exposição, o que deu em resultado não serem as mãos reproduzidas tão nitidamente como nessa última experiência. A segunda fotografia é, infelizmente, menos nítida. Isso resultou, evidentemente, de as duas formas, estando de pé, fazerem movimentos, imperceptíveis à vista. Entretanto, para o fim que nos propúnhamos, essas fotografias são inteiramente suficientes: Eglinton é facilmente reconhecível, se bem que sua cabeça esteja um pouco dirigida para trás, apoiada contra a mão pela qual ele é sustentado; a seu lado conserva-se a mesma grande forma de homem que todos tínhamos visto. A barba e as sobrancelhas destacam-se distintamente; os olhos são velados. Um dos traços particulares desse rosto é seu nariz curto, completamente diferente do de Eglinton. Nas duas fotografias distinguem-se as marcas que eu fiz nas chapas. Todos os negativos estão em meu poder.

Posso, pois, considerar meus esforços em Londres coroados de êxito. Esse êxito, devo-o inteiramente ao círculo que se prestou às minhas experiências.

Eu sabia que a condição essencial para obter bons resultados mediúnicos é um meio apropriado; sabia que tudo depende do meio, mas até então não tinha tido ensejo de verificá-lo de maneira tão evidente.

A facilidade, a prontidão e a nitidez com que os fenômenos se produziam estavam acima de toda a comparação com o que tínhamos visto em S. Petersburgo. Independentemente da composição escolhida do círculo no qual eu tinha sido admitido, éramos favorecidos pela condição importante de que nesse círculo já se tinham obtido fotografias transcendentes, e que, por conseguinte, a presença do elemento mediúnico necessário já tinha preparado o terreno precisamente para as experiências que eu havia proposto. Não insisto na importância e vantagem que me oferecia uma casa particular para as experiências desse gênero: em Londres, não é fácil a um estrangeiro encontrar para isso um local conveniente. Se eu as tivesse organizado no aposento de Eglinton, elas teriam perdido grande parte de seu valor. Os bons serviços que me foram oferecidos tão graciosamente, por nosso hospedeiro, tinham para mim um grande valor; pelo que tenho a satisfação de lhe testemunhar aqui minha sincera gratidão, tanto por minha parte quanto em nome de todos aqueles que tomam interesse pela causa espírita.

É necessário acrescentar aqui que ninguém em Londres, à exceção dos íntimos de nosso hospedeiro, sabe coisa alguma acerca das fotografias que se produziram nesse círculo. Essas sessões são inteiramente privadas, e nenhuma narração a tal respeito foi publicada na imprensa espiritualista inglesa. Depois de minha admissão nesse círculo, estava convencionado que eu não publicaria os nomes de seus membros. Mas, quando nossas sessões terminaram, nosso hospedeiro decidiu dizer-me, à vista dos resultados notáveis que tínhamos obtido, que não se julgava mais no direito de prolongar seu anonimato no caso em que eu julgasse útil nomeá-lo. Eu lhe respondi que a indicação da casa em que se tinham realizado as experiências era certamente desejável para tornar a narração completa, e lhe agradeci a dedicação; pois, é preciso dizê-lo, no estado atual da questão, essa expressão não é exagerada. Mas, refletindo, e levando em consideração os exemplos fornecidos por Crookes e Wallace, que por sua vez não tinham conseguido conquistar a confiança pública a tal respeito, externei ao Sr. X. minha íntima convicção de que a divulgação de seu nome e endereço não seria de utilidade alguma para a causa, do mesmo modo que nos casos precedentes, e que ninguém daria crédito aos resultados de nossas experiências, a não ser as pessoas que já acreditam nesses fenômenos ou as que conhecem o Sr. X.; aleguei ainda que ele teria que suportar todas as variedades de zombaria e aborrecimentos. Propus, entretanto, anunciar que eu tinha autorização de comunicar o seu nome em particular às pessoas especialmente interessadas no assunto e que eu julgasse dignas de confiança. Assentamos nessa decisão.

A propósito da incredulidade, é costume suspeitar de fraude os médiuns profissionais, como materialmente interessados nisso. Nas experiências relatadas é evidente que Eglinton não teria podido realizar por si só todas as manipulações de que uma fraude necessita; ficar-se-ia coagido a admitir que ele tinha compadres entre os assistentes. Ora, o Sr. X., o hospedeiro, goza de situação independente, muito rico mesmo, e está em posição social equivalente à minha. Antes de admitir que ele tivesse podido tornar-se culpado de uma fraude, coisa que teria necessitado muitos preparativos, não seria sem importância que se procurasse descobrir o motivo de semelhantes manobras. Desde o momento em que o interesse material deve ser posto fora de discussão, pergunto: que motivo teria podido levá-lo a enganar seus convidados? E por que motivo seria ele e não eu o mistificador? Seria verdadeiramente mais lógico supor que uma fraude tivesse sido cometida por mim; aqui, o motivo se apresentaria por si mesmo; tendo-me manifestado publicamente a favor do Espiritismo, eu era coagido a defendê-lo a todo custo.

Mas a incredulidade não me surpreende nem me desanima. Ela é inteiramente natural e desculpável. As convicções não se impõem; são a resultante de opiniões anteriores que concorreram para a sua formação no decurso dos séculos. Quanto à crença nos fenômenos da Natureza, ela não se adquire com a razão e com a lógica, mas pela força do hábito. Só o hábito pode fazer que o maravilhoso deixe de parecer um milagre.

Quanto ao mais, no que diz respeito com maior particularidade às experiências descritas aqui, empreendi-as no intuito especial de responder a um escritor que respeita o testemunho dos homens, reconhece o seu valor, e que convida até os propagadores dos fenômenos mediúnicos a realizar semelhantes experiências.

Para lembrança, citarei aqui as palavras dele, ainda uma vez:

“Uma questão do mais elevado interesse teórico é saber se um médium possui a faculdade não só de produzir em outra pessoa a alucinação de uma imagem qualquer, mas ainda de dar a essa imagem uma consistência material, de uma materialidade muito fraca, é verdade, mas tendo ao mesmo tempo uma existência real no espaço objetivo do aposento onde se dão as sessões, admitindo-se que para realizar essa criação o médium projete uma parte da matéria que compõe seu próprio organismo para fazê-la tomar essa forma determinada...”

“Pois que a reclusão material do médium não oferece garantia alguma para a autenticidade do fenômeno, é indispensável ver o médium e o fantasma fotografados simultaneamente na mesma prova, antes de conceder a objetividade às aparições percebidas somente pela vista dos assistentes...”

“A meu ver, a condição essencial de tal demonstração fotográfica consiste em não se deixar aproximar nem um fotógrafo de profissão nem o médium, do aparelho, do caixilho ou da chapa, a fim de evitar toda suspeita de preparativos prévios ou de manipulações ulteriores...”

“A solução definitiva dessa questão capital não poderá vir senão de um experimentador cuja integridade esteja acima de toda suspeita e que traga à sessão seus próprios aparelhos e acessórios e execute pessoalmente todas as manipulações.” (Hartmann – Espiritismo).

Tomo a liberdade de opinar que essas condições foram observadas em sua plenitude e que o Sr. Hartmann, depois de ter pesado todas as particularidades da experiência requerida, no ponto de vista moral e físico, confessará que ela é suficiente para estabelecer a realidade dos fenômenos da materialização.


5) O médium e o fantasma são invisíveis;
a fotografia produz-se às escuras.

Chego à última categoria das provas de objetividade da materialização por via fotográfica, e isso em condições muito curiosas: em escuridão absoluta.

Não se trata mais de saber onde se acha o médium. Seria escusado que ele se transfigurasse, pois isso não lhe daria o meio de reagir sobre a chapa sensível às escuras. E entretanto é fato que uma forma materializada pode ser fotografada na escuridão absoluta, e é mesmo essa circunstância que demonstra sua origem transcendente.

As primeiras notícias relativas a esse gênero de fotografias nos vieram da América, em 1875 (vede The Spiritualist, 1875, II, pág. 297; 1876, I, págs. 308, 313); porém, a série mais notável de experiências de fotografia na escuridão foi organizada em Paris, em 1877, pelo Conde de Bullet, com o médium Firman (The Spiritualist, 1877, II, págs. 165, 178, 202). O Sr. de Bullet publicou a esse respeito e em seguida um relatório circunstanciado na revista precitada, em 1878 (tomo II, pág. 175).

Nos artigos do Sr. Reimers encontramos a narração de experiência semelhante, sempre com o mesmo médium, e é ainda “Bertie” quem completa a série de provas que ela lhe forneceu de sua individualidade objetiva, reproduzindo sua imagem por processo fotográfico que destrói todas as conjecturas que tendessem a atribuir o resultado obtido a manipulações fraudulentas, a menos que se acuse o próprio Sr. Reimers de as ter praticado. Eis o ato que ele relata:

“No decurso deste inverno, tive o ensejo de fazer uma experiência fotográfica, única em seu gênero, e que não se presta a explicação alguma pelos processos conhecidos. Fiz aquisição de uma chapa seca, introduzi-a no caixilho, às 9 horas da noite, e pousei as mãos em cima da câmara escura até o momento em que o médium se instalou atrás da cortina; então apaguei a luz. O sinal convencionado, para abrir a objetiva e para fechá-la de novo alguns instantes depois, foi dado pela voz do agente invisível. Acompanhado pelo médium, que tinha despertado, fui ao gabinete escuro; em todo o tempo da revelação, não deixei de olhar para a chapa, e vi desenhar-se nela, pouco a pouco, a imagem de Bertie, com sua cruz no pescoço, tal qual ela aparecia ordinariamente em suas materializações.

E dizer que é a reprodução fotográfica, em completa escuridão, de uma forma que evidentemente projetou sobre a chapa sensível raios que para nós são invisíveis, isto é, de encontro a todas as leis naturais conhecidas! Somente essa imagem é visível sobre a chapa, que não apresenta o menor indício das coisas circunvizinhas; é preciso concluir, daí, que esses raios emanavam da própria figura, que não era uma luz refletida.” (Psychische Studien, 1879, pág. 399).

Pedi ao Sr. Reimers alguns pormenores suplementares e recebi dele a resposta seguinte:

“Wellington Parade, Powlett Street. E. Melbourne (Austrália), 8 de junho de 1886.

Senhor:

Creio não ter descrito a experiência fotográfica às escuras de maneira suficientemente circunstanciada; é útil, pois, que eu esclareça mais os pontos importantes.



Dirigi-me a Londres com Alfred Firman, e fiz aquisição de chapas secas, no ângulo das quais fiz uma marca. Chegados que fomos a Richmond, preparamos o gabinete e dispusemos o aparelho de maneira que o foco se achasse no lugar em que a forma devia aparecer, segundo as indicações que nos tinham sido dadas. Chegada a noite (eram cerca de 9 horas; estávamos no mês de setembro), Firman entrou no gabinete, enquanto fiquei perto do aparelho, conservando durante todo o tempo a mão pousada em cima dele; eu tinha colocado, no lugar apropriado, a chapa que tinha ficado em minha algibeira desde que tínhamos deixado a loja. John King nos disse, pela voz do médium, que nos conservássemos prontos para descobrir a objetiva à sua ordem. Durante algum tempo houve silêncio tão completo que a mais leve passada do médium teria sido ouvida. De repente ouvimos a voz de John King dando esta ordem: “Agora, abra”; e, alguns minutos depois: “Feche”. Acendi a vela, tirei a chapa e, quando Firman preparou o banho, entreguei-lha; olhando por cima de seu ombro, acompanhei os progressos da revelação. No negativo há uma figura com uma cruz no pescoço; é a imagem de Bertie, como me aparecia ela habitualmente, apenas porém mais escura e sobre um fundo pardo.

Depois desse resultado admirável, comecei a passar em revista, como o faço no fim de cada sessão, todas as combinações imagináveis de fraude às quais se poderia recorrer para obter esse resultado, e cheguei a esta conclusão: que não somente era impossível imitar a marca que eu tinha feito na chapa, mas que, com mais forte razão, é inadmissível que outra chapa, já impressionada, lhe tenha sido substituída. Seria coisa materialmente impossível para o médium retirar a chapa do caixilho e introduzir ali outra, sem fazer o menor ruído, e isso em completa escuridão, principalmente pelo fato de estar a minha mão sobre o aparelho. Não tendo além disso perdido de vista a chapa, desde o momento em que a tinha retirado do caixilho, deixo que outros façam conjecturas...

Seu dedicado,

C. Reimers.”

As experiências de fotografia às escuras, feitas por mim mesmo, me convenceram de que esse fato é possível. Tratou-se de tal assunto nos primeiros números do Psychische Studien daquele ano. A fototipia de uma dessas fotografias acha-se no jornal inglês Light (número de 23 de abril de 1887).


B4 – Pesagem das formas materializadas


Aqui termina a demonstração da natureza não alucinatória das materializações, por intermédio de efeitos físicos duradouros produzidos por essas aparições; entretanto, devo mencionar ainda um modo de confronto ao qual se recorreu para ter a segurança de que a materialização é um fenômeno que possui os atributos de uma corporeidade real, e não constitui uma alucinação: quero dizer que pesou-se a forma materializada e o médium enquanto o fenômeno se produzia. O próprio Sr. Hartmann admite que essas experiências parecem “muito aptas para elucidar a questão”.

Mas então a força nervosa não possui a faculdade miraculosa de produzir todos os efeitos da gravidade? Ela pode, efetivamente, tornar o médium mais leve do que o ar e fazer um fantasma pesar tanto quanto o médium, e o Sr. Hartmann termina naturalmente por concluir que “por essa via nada se pode, pois, verificar de maneira positiva”. Aqui estaria para mim uma razão de não insistir sobre essa categoria de provas em minha “resposta” ao Sr. Hartmann, se não se lesse, imediatamente depois da frase junta, a observação seguinte:

“No caso único em que, conforme me consta, um fantasma foi pesado, seu peso era igual ao do médium “Psychische Studien, VIII, pág. 52), donde se conclui que era o próprio médium que se tinha colocado em cima da balança.”

Comparei essa frase com a passagem acima mencionada no Psychische Studien, e eis o que encontrei em meu diário: é um extrato da carta do Sr. Armstrong ao Sr. Reimers:

“Assisti a três sessões organizadas com a Srta. Wood, nas quais se empregou a balança do Sr. Blackburn. Pesou-se a médium e conduziram-na depois ao gabinete (que era disposto de maneira a colocar a médium na impossibilidade de sair dele no decurso da sessão).

Apareceram três figuras, uma após outra, e subiram à balança. Na segunda sessão, o peso variou entre 34 e 176 libras;17 essa última cifra representa o peso normal da médium.

Na terceira sessão, um só fantasma apareceu; seu peso oscilou entre 83 e 84 libras. Essas experiências de pesagem são muito concludentes, a menos que as forças ocultas tenham zombado de nós.

Seria, entretanto, interessante saber: que pode realmente restar do médium, no gabinete, quando o fantasma tem o mesmo peso que ele? Comparados a outras experiências do mesmo gênero, esses resultados se tornam mais interessantes ainda.

Em uma sessão de confronto com a Srta. Fairlamb, esta foi, por assim dizer, cosida em uma rede cujos sustentáculos eram providos de um registrador que marcava todas as oscilações do peso da médium, e isso aos olhos dos assistentes. Depois de pequena espera, pôde-se verificar uma diminuição gradual do peso; finalmente apareceu uma figura e deu a volta em torno dos assistentes. Durante esse tempo, o registrador indicava uma perda de 60 libras no peso da médium, metade de seu peso normal. Enquanto o fantasma se desmaterializava, o peso da médium aumentava, e no fim da sessão, como resultado final, ela tinha perdido de três a quatro libras. Não é uma prova de que, para as materializações, uma certa quantidade de matéria é tirada do organismo do médium?” (Psychische Studien, 1881, págs. 52-53).

Essa carta nos indica que na “terceira sessão”, com a Srta. Wood, o peso da forma materializada era igual, durante todo o tempo da sessão, a cerca da metade do peso normal da médium; na experiência com a Srta. Fairlamb, a médium tinha perdido ainda cerca da metade de seu peso normal, ou 60 libras. Que relação a observação do Sr. Hartmann pode ter com o fato que ele cita? Convém procurar a fonte desse erro no domínio do “inconsciente”?

E a diminuição do peso da médium, indo até 3 e 4 libras, depois da sessão, é ainda um efeito da força nervosa? O Sr. Hartmann nos fica devedor de uma explicação dessa particularidade.

As pessoas que desejarem ter mais amplas informações sobre o histórico desse método de experimentação, aplicado aos fenômenos da materialização, podem consultar as publicações seguintes: People from the Other World, por Olcott, Hartford, 1875, págs. 241-243, 487; The Spiritualist, 1875, I, págs. 207, 290; 1878, I, págs. 211, 235, 268, 287; II, págs. 115, 163; Light, 1886, págs. 19, 195, 211, 273.

Aqui termina a primeira parte de meu capítulo sobre os fenômenos da materialização; ele teve por objetivo demonstrar a insuficiência da hipótese alucinatória do Sr. Hartmann, no ponto de vista dos fatos. Encontramos todas as provas necessárias para nos convencermos de que a materialidade, posto que temporária, que caracteriza esses fenômenos é uma coisa real, objetiva, idêntica à materialidade dos corpos que existem na Natureza, e não o efeito de uma alucinação.

Por conseguinte, eu me arrogo o direito de dizer que a teoria das alucinações não só perdeu a “vereda estreita” na qual caminhava penosamente, mas ainda que “lhe foge o próprio terreno”.

Tenho a convicção de que a alucinação não tem influência nos fenômenos de materialização; quanto à imaginação, à ilusão, é outra coisa; mas, dando como admitido que estas tiveram sua parte de influência, é justo dizer que era nos primeiros tempos dessas experiências somente, e todas as pessoas estavam de acordo para julgar o fato muito natural e desculpável.

Atualmente a experiência adquirida já produziu seus frutos, e os espiritualistas encaram hoje esses fenômenos notáveis de maneira muito mais calma e razoável.

A segunda parte deste capítulo será consagrada ao lado teórico da mesma questão.



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