Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Insuficiência da teoria alucinatória do
Dr. Hartmann no ponto de vista teórico


A primeira parte deste capítulo tomou um desenvolvimento que eu não tinha previsto. Mas não hesitei em recolher e em utilizar todos os materiais que se me ofereciam, à medida que prosseguia em meu trabalho, pois considero o fenômeno da materialização como o resultado mais notável, mais elevado que atingiu o Espiritismo. Por isso, a demonstração da realidade objetiva desse fenômeno – em oposição com as hipóteses negativas do Sr. Hartmann – era de importância capital para a minha refutação.

Atingi o alvo que me tinha proposto? Ignoro-o. Geralmente os filósofos ficam namorados de suas teorias e as defendem apaixonadamente. Mas como a obra inteira do Sr. Hartmann é fundada na suposição da realidade dos fenômenos, ouso esperar que ele aquiescerá em formular também um juízo “tendo um valor condicional” acerca dos fatos de que fiz menção neste capítulo e que ele não conhecia dantes; prefiro acreditar que ele não evitará as conclusões que se fica coagido a tirar de ditos fatos, entrincheirando-se especialmente na presente ocasião por trás do argumento, aliás, muito fácil, da fraude!

Certamente, os fatos são a base de qualquer investigação no domínio da Natureza e, para responder ao Sr. Hartmann, o melhor método que eu tinha a seguir era apoiar-me em fatos, apresentando-os, tanto quanto me era possível, nas condições impostas por meu contraditor ou que pareciam necessárias para refutar a hipótese da alucinação.

Depois de todas as provas que acumulei na primeira parte do capítulo, para estabelecer pela lógica dos fatos o caráter não alucinatório do fenômeno da materialização, poderia dispensar-me de estabelecer aqui uma discussão teórica.

Mas a hipótese do Sr. Hartmann apresenta, mesmo sob o ponto de vista teórico, inconseqüências tão flagrantes, que não posso deixá-las completamente em silêncio. Serei breve, porque as discussões de princípio nada resolvem, e um simples fato tem cem vezes mais valor do que argumentos longos e complicados; é por isso que não dou grande importância às discussões teóricas, e me deterei aqui, mesmo porque as teorias do Sr. Hartmann são fundadas na entrada em cena de agentes aos quais ele empresta, à vontade de sua pena, virtudes mágicas, porém contrárias às exigências da sã lógica, a despeito de sua encenação artística.

Detenhamo-nos, antes de tudo, nos princípios gerais da teoria do Sr. Hartmann tais quais ele os estabelece. Sua primeira tese é que o médium tem a faculdade de pôr-se a si mesmo em estado de sonambulismo e de sugerir a si mesmo em tal estado a alucinação desejada. Não me preocuparei com a primeira parte, mas perguntarei ao Sr. Hartmann em que pode ele fundar essa asserção de que o médium em estado de transe pode alucinar-se por si mesmo?

Se interrogarmos os médiuns e sobretudo aqueles com os quais as materializações não se traduzem somente por formas estereotipadas, eles nos responderão que adormecem sem pensar nas formas que podem aparecer, que não dão direção alguma à sua consciência sonambúlica e que ao despertarem não se recordam de coisa alguma.

Objetar-se-ão que esses testemunhos não podem ser aceitos, pois que, além de ser permitido suspeitar de sua boa fé, é admissível também que a auto-sugestão se faça inconscientemente, como resultado da consciência sonambúlica.

Verifiquemos a teoria do Sr. Hartmann pelo exame do estado do médium em sono. Os sensitivos hipnóticos ou sonambúlicos, quando têm alucinações, manifestam sempre por sinais exteriores o que se passa neles, mas o médium em transe, pelo contrário, parece inanimado; não se lhe escapa uma palavra, ele não faz um gesto que possa deixar supor que vê qualquer coisa, e ainda menos a figura materializada, que entretanto é vista por todos os assistentes. Se lhe falam, não responde. Ora, que vem a ser uma alucinação durante o sono, senão um sonho cuja realidade aparente é levada até o grau supremo de intensidade, lançando o dormente em um estado de superexcitação tal, que ele desperta em sobressalto e, ao seu despertar, julga-se ainda vítima desse sonho aterrador? Muito freqüentemente pessoas adormecidas falam e gesticulam, o que prova que elas “vêem” sonhando. Com o médium em transe, nada de semelhante se verifica; ele dorme profundamente, pacificamente. Então em que se funda essa proposição fundamental do Sr. Hartmann, de que o médium adormecido tem alucinações que seriam mesmo de uma intensidade extraordinária? (pág. 31). Essa suposição é absolutamente gratuita.

A segunda tese geral do Sr. Hartmann é que o médium, adormecido e alucinado, transmite aos assistentes a alucinação que ele próprio experimenta, e que ele experimenta “um desejo imperioso de fazer que as pessoas presentes partilhem da percepção dessa realidade imaginária, isto é, impõe-lhes as mesmas alucinações que se apresentam a ele próprio”.

Eis o que é fácil de dizer em termos gerais; examinemos, porém, mais de perto o que se passaria na realidade nesse caso. O médium, colocado atrás da cortina, dorme e vê uma figura que julga real. Então lhe ocorre a idéia (pois que ele não esquece o seu papel de médium) de que os assistentes devem ver também essa figura, porque é o objetivo da sessão. Segundo o seu desejo, a figura sai do gabinete sombrio para apresentar-se aos observadores; é assim que as coisas se dão habitualmente. Desde que a figura saiu do gabinete, o médium não a vê mais, pois não tem mais alucinação, e, por conseguinte, os espectadores nada vêem também, porque o médium não lhes pode sugerir uma alucinação que não tem mais!

Se o Sr. Hartmann me responder que a alucinação é um fenômeno subjetivo que se impõe ao cérebro dos assistentes, que ele não pode ser limitado por um gabinete ou por uma cortina, que o médium pode continuar a experimentar a alucinação – do outro lado da cortina –, sustentarei o contrário, porque toda encenação deverá corresponder à realidade; o médium deverá ver-se no gabinete sombrio atrás da cortina; deverá ficar convencido de que está em presença de uma figura real que ele não mais verá logo que ela saiu do gabinete; se ele continuasse a vê-la através da cortina, o fato seria contrário às leis da realidade: ele compreenderia então que é o joguete de uma alucinação e, uma vez feito esse raciocínio, a alucinação não mais existiria.

Demais, não devemos esquecer que se “a consciência no estado de vigília sugeriu ao médium que durante a sessão uma figura deve aparecer aos espectadores, essa mesma “consciência no estado de vigília” lhe sugere que durante essa aparição ele estaria em transe, atrás da cortina, e que nada veria – tal é a tradição dos círculos espíritas. Escravo dessa sugestão, sua alucinação (se há alucinação) não poderia ir além da cortina. Assim, essa segunda hipótese do Sr. Hartmann é destruída pela própria lei das alucinações sugeridas.

Vejamos sua terceira tese. De que maneira o médium impõe suas alucinações aos assistentes? O Sr. Hartmann no-lo explica assim:

“Um médium universal deve ser mais do que um auto-sonâmbulo: deve ser ao mesmo tempo um poderoso magnetizador.” (pág. 34).

“É certo – diz ainda o Sr. Hartmann – que os médiuns, no estado de sonambulismo latente ou aparente, dispõem de uma quantidade de força nervosa, tirada de seu próprio organismo, ou do organismo dos assistentes, muito superior à que um magnetizador pode desenvolver no estado de vigília; é, pois, não menos certo que os médiuns devem possuir, em grau mais elevado que aquele, a faculdade de utilizar essa força nervosa para produzir nos assistentes um estado de sonambulismo latente ou aparente.” (pág. 55).

Essa explicação não concorda com os dados da experiência. O médium é um ser passivo, sensitivo, sujeito a todas as espécies de influências; quando ele entra em transe ou, segundo o Sr. Hartmann, em sono sonambúlico, passa ao estado de completa passividade. Qualquer sono, finalmente, é um estado passivo, cujo caráter distintivo é a ausência de vontade. Isso é tanto mais verdadeiro a respeito do sono sonambúlico provocado, quanto a vontade do sonâmbulo é completamente aniquilada, pois que pertence ao magnetizador. No médium auto-sonâmbulo, é a vontade consciente que faz as vezes de magnetizador e que dá à sua consciência sonambúlica a “direção” para a sua alucinação quase automática. Mas, uma vez dado o impulso, desde que a transformação é realizada, o médium é mais do que um autômato, um escravo da alucinação, que o invadiu e subjugou. E o Sr. Hartmann pretende que esse autômato, sem deixar de ser alucinado, torna-se subitamente ativo, torna-se por sua vez magnetizador e dispõe de uma força considerável, subjugando os espíritos dos assistentes sem pronunciar uma palavra, sem fazer um gesto, sem mesmo mostrar-se; ele mergulha-os em “um estado de sonambulismo latente”, para impor-lhes suas próprias alucinações.

O magnetizador-sonâmbulo age com discernimento. Só quando ele julgou que “todos quantos tomam parte na sessão caíram sob seu domínio” é que põe em jogo suas alucinações. Ele delibera acerca do gênero de alucinação que ele próprio terá e que sugerirá aos outros. Aparecerá ele próprio no papel de John King, ou será um morto que se apresentará à assistência (págs. 94, 95), e também que sentidos serão afetados pela alucinação? (pág. 100).

Aqui o Sr. Hartmann se esqueceu de dizer-nos de que maneira o médium auto-sonâmbulo modifica suas alucinações. Donde vem a nova “direção”? Suponhamos que ele tem a alucinação de ser ou de ver John King e que impõe essa alucinação aos assistentes; depois bruscamente essa alucinação cede o lugar ao “desejo imperioso de transmitir ao indivíduo que se acha ao seu alcance sua alucinação da presença do espírito de um morto”; como se opera essa mudança? Na prática magnética ou hipnótica, para obter-se a mudança das alucinações sugeridas, desperta-se o sensitivo, depois ele é outra vez adormecido, sugerindo-se-lhe a nova alucinação. O Sr. Hartmann imaginou que o auto-sonâmbulo faz tudo sozinho. Depois de ter sugerido a si mesmo e de ter sugerido aos outros que, por exemplo, ele era John King, julga que é chegada a ocasião de mudar o objeto de sua alucinação; volta a um estado de sonambulismo sem alucinação, examina o estado de sonambulismo latente dos assistentes; depois, tendo percebido por meio da leitura dos pensamentos, na memória hiperestésica de um dos assistentes a imagem de um morto, ele sugere a si próprio a alucinação e transmite-a ao mesmo tempo à consciência sonambúlica latente desse assistente e à de todos os outros... para recomeçar em breve com outra alucinação.

Assim o médium-sonâmbulo é um ser ao mesmo tempo ativo e passivo, alucinado e alucinando os outros, alucinado e consciente de sua alucinação, alucinado e ficando senhor de suas alucinações, que ele oferece em espetáculo aos assistentes como em um teatro de bonecos. Tudo isso não passa de uma série de contradições psíquicas insustentáveis. E é em vão que o Sr. Hartmann apelará para esse agente mágico, a consciência sonambúlica do médium, o deus ex-machina de sua hipótese. Mas esse deus – por mais deus que seja – não pode, apesar disso, fazer tantas coisas ao mesmo tempo!

Quarta tese: O médium auto-sonâmbulo não se satisfaz em alucinar-se e em alucinar os assistentes juntamente consigo, ele também faz que as personagens dessas alucinações realizem atos físicos; elas escrevem, deslocam objetos, fazem moldagens, produzem impressões, etc. Esses movimentos são produzidos pela força nervosa do médium, que ele dirige segundo a vontade de sua consciência sonambúlica (págs. 54, 102 e 103).

Assim, pois, à dupla atividade psíquica que a consciência sonambúlica do médium já tinha desenvolvido, junta-se uma terceira: uma atividade inteiramente física, pois que ela é a natureza da força nervosa, segundo o Sr. Hartmann. Essa teoria de nosso contraditor é tão fácil de emitir quão difícil de defender, pois ela corresponde ainda menos que as outras à doutrina da unidade do ato físico. Efetivamente, a operação da transmissão da auto-alucinação a muitas pessoas seria por si só, da parte do médium, um esforço que absorveria toda a sua energia psíquica; mas, de maneira alguma, segundo o Sr. Hartmann, ela se realiza ao mesmo tempo que um esforço da vontade, que “emite a força nervosa mediúnica ou magnética que se acha no sistema nervoso e a dirige de certa maneira sobre objetos animados ou inanimados.” (pág. 54). Aqui retenho uma expressão que dá o que pensar. O que quer dizer “de certa maneira”? O Sr. Hartmann não no-la explica.

E entretanto vejamos o que se passaria na realidade: Aparece uma forma, eu lhe ofereço papel e lápis; ela os recebe, escreve no papel e coloca-o em cima da mesa. Para produzir esses movimentos, o operador invisível (o médium, ou sua consciência sonambúlica) deve ser clarividente. Não é uma simples “leitura” ou “transmissão” de pensamentos que pode dar ao operador uma idéia da forma e das faculdades atuais do fantasma. Oh! não, isso não bastaria para fazer coincidirem os movimentos da figura alucinatória com os fatos tais quais se passam realmente no espaço objetivo; é preciso para isso uma clarividência direta de tudo o que se acha nesse espaço. Eis o que significa a expressão “de certa maneira”.

E, desse modo, a atividade desenvolvida pelo médium auto-sonâmbulo seria quadruplicada. Essa multiplicidade de ações simultâneas impostas pelo Sr. Hartmann à unidade psíquica apresenta uma confusão de afirmações fantasistas diante da qual todo espírito crítico recua e renuncia a discutir.

Quinta tese: Os assistentes devem, durante a sessão, achar-se em um estado de sono sonambúlico latente; é o médium quem os mergulha nesse estado, porque isso é indispensável para que ele lhes possa sugerir suas alucinações (págs. 55 e 56). É sempre, segundo o Sr. Hartmann, a condição sine qua non da percepção do fenômeno da “pretendida materialização”. Qual é, pois, esse estado de sonambulismo latente? Por que sintomas exteriores ele se distingue do estado normal? Por nenhum, diz-nos o Sr. Hartmann (págs. 30 e 57). Assim, por que motivo lhe chamam “estado sonambúlico”? O Sr. Hartmann não no-lo explica. Pode-se, ao menos, saber como ele se produz? É muito simples: o médium retira-se para trás da cortina, passa ao estado se sono sonambúlico aparente, magnetiza pela força de sua vontade todos os assistentes, depois desenvolve neles o estado de sonambulismo latente (págs. 55, 56 e 91). Mas, e a prova? Ei-la, dizem-nos, e ela é clara: os assistentes vêem uma “figura materializada” que não pode ser senão uma alucinação; por conseguinte, eles estão alucinados, se bem que não duram; por conseguinte, estão em estado de sonambulismo latente! Não está aí uma prova?...

Não, isso não é uma prova. Comparemos esses processos com os que são empregados na prática magnética ou hipnótica para provocar uma alucinação.

Antes de tudo, sensitivo deve ser adormecido; ora, está admitido que a metade, no mínimo, dos indivíduos é refratária à influência magnética e que, para a outra metade, o grau de submissão a essa influência varia para cada indivíduo. Sendo o sensitivo adormecido, uma certa relação se estabelece entre ele e o operador: esse último pode sugerir-lhe uma alucinação por meio da palavra, ou por outro meio exterior; para fazer cessar a alucinação, ele deve despertar o sensitivo e, ao despertar, esse último não se lembra de coisa alguma. Como sabemos, nada de semelhante se produz nas sessões de materialização. É verdade que o Sr. Hartmann nos fala também de uma “relação estreita que deve previamente estabelecer-se entre o médium e os assistentes para que as transfigurações e materializações possam ser bem sucedidas” (pág. 91) e, segundo ele, essa relação se estabelece pela freqüência das sessões do médium no mesmo grupo de pessoas.

Admitindo-se que uma relação possa estabelecer-se nessas condições, é certo também que em numerosos casos semelhante relação não existiu. Reúnem-se cerca de dez pessoas que nunca foram hipnotizadas, muitas das quais nunca assistiram às sessões do médium, outras nunca assistiram a sessão alguma, outras, finalmente, ali foram com a firme convicção de que nada se produziria – isso não impede o médium de subjugar, sem o menor processo magnético, todos os membros dessa reunião heterogênea, sem os adormecer, e de impor a todos uma única e mesma alucinação, da qual eles se lembrarão com toda a exatidão! Assim, eu mesmo vi pela primeira vez em minha vida a materialização de uma figura (Katie King) na primeira sessão que me deu a Srta. Cook. Segundo o Sr. Hartmann, eu fui joguete de uma alucinação (e não de uma transfiguração do médium), pois que levantei a cortina imediatamente depois do desaparecimento da figura e verifiquei o status quo do médium (Psychische Studien, 1887, pág. 448). Acrescentarei que não sou sensitivo e que nunca experimentei influência alguma magnética ou hipnótica. É preciso notar também que, contrariamente às afirmações do Sr. Hartmann, os círculos espíritas privados, constantes, homogêneos, são a exceção e que os mais numerosos são círculos públicos, variáveis, heterogêneos.

Devo mencionar ainda uma particularidade que demonstrará a diferença que existe entre os processos mediúnicos e uma magnetização qualquer. Todas as pessoas sabem que para magnetizar ou hipnotizar com êxito, é preciso que o indivíduo consinta nisso, isto é, que não se oponha à experiência, finalmente que se coloque nas condições favoráveis para ser magnetizado, isto é, que se imponha por alguns minutos silêncio e recolhimento. Em uma sessão mediúnica, vê-se o contrário. Diz-se geralmente – e o Sr. Hartmann repete-o – que os fenômenos mediúnicos se produzem em conseqüência de uma excitação psíquica provocada por uma “espera longa e contínua”. Os que o supõem e afirmam-no não têm conhecimento algum prático da questão. Pelo contrário, todos aqueles que adquiriram alguma experiência nessas matérias sabem muito bem que é em condições opostas que se obtém a manifestação dos fenômenos, que é precisamente a concentração dos pensamentos que deve ser evitada quando se assiste a uma sessão, sobretudo quando as manifestações ainda não começaram. Seja em uma sessão com luz ou sem ela, para efeitos físicos ou para materializações, a mesma condição é sempre imposta pelo médium ou pelas forças invisíveis: nada de recolhimento – música, cântico ou uma conversação fácil. O que prejudica àqueles que assistem pela primeira vez a uma sessão é justamente a excitação, o desejo e a espera de alguma coisa extraordinária.

As pessoas que têm o hábito de tomar parte nessas sessões sabem que é no decurso de uma conversação familiar, sem relação alguma com o Espiritismo, que se dão os fenômenos mais notáveis. E, segundo o Sr. Hartmann, é em um círculo onde se faz música, onde se canta, onde se conversa da maneira mais indiferente, que virão impor-se a todos as alucinações que aprouver ao médium adormecido criar!

A que se reduz, pois, a teoria do Sr. Hartmann sobre os fenômenos de materialização? Apesar de todas as complicações que ele acumulou penosamente sobre os princípios gerais que acabo de enumerar, ela se resume na fórmula seguinte: o médium dorme e sonha e os assistentes partilham de seus sonhos, mas sem dormir.

E aí está o que o Sr. Hartmann chama “ponto de vista da ciência psicológica”.

Vejamos agora como se comporta a teoria do Sr. Hartmann a respeito das origens históricas do Espiritismo.

Em seu capítulo consagrado às materializações, ele estabeleceu a sua teoria examinando esses fenômenos nas condições em que eles se apresentam geralmente em nossos dias, e essas condições são: 1º- a aparição de uma figura inteira; 2º- uma luz fraca ou uma semi-escuridão; 3º- o médium invisível, colocado atrás da cortina; 4º- o médium em um estado de sono mais ou menos anormal. Colocados nessas condições, os fenômenos prestam-se até certo ponto à hipótese do Sr. Hartmann, a saber: que o médium é um auto-sonâmbulo, etc.

Mas, se remontarmos às origens do Espiritismo, isto é, aos anos 1848-1850, verificamos que nessa época as experiências se faziam à luz, que o médium tomava parte na assistência, que não caía em transe, nem em um estado de sono qualquer, que ele próprio era espectador e que apesar disso todos os fenômenos mediúnicos que se produzem atualmente produziam-se já então com todo o seu vigor. Não havia ainda materializações de figuras inteiras, porém toques, aparições de mãos, com ou sem deslocamento de objetos. Acrescentemos que os primeiros médiuns foram crianças, meninas de dez a doze anos. Como se harmonizará esse estado de coisas com as palavras seguintes do Sr. Hartmann?

“É justamente essa faculdade de colocar-se a si próprio em sonambulismo a todo o instante, que exige ser longamente exercitada, antes que se possa pô-la em ação com segurança, à vontade de terceiras pessoas.” (págs. 31 e 36).

Mais adiante: “Em uma sessão mediúnica, cada um deve ter em vista que está sob a influência de um mui poderoso magnetizador, que, sem se aperceber, tem todo o interesse em mergulhá-lo em um sonambulismo latente, a fim de lhe impor suas próprias alucinações.” (pág. 56).

Em outra parte, ainda: “Em regra, os médiuns caem em estado de sonambulismo aparente nas ocasiões seguintes: a princípio, durante o falar involuntário, depois, quando se trata de produzir fenômenos físicos que exigem considerável esforço da força nervosa e, em terceiro lugar, pela sugestão de alucinações às pessoas presentes, o que parece importar em uma intensidade particular das alucinações do próprio médium.” (pág. 31).

E finalmente: “Parece que a sugestão de alucinações aos assistentes só se pode efetuar a uma luz branda.” (pág. 10).

Onde encontramos “o exercício prolongado”, “o magnetizador poderoso”, “o sonambulismo aparente” e “a luz branda” nas meninas médiuns de 1849, sobre as quais os fenômenos mediúnicos se abateram, pode-se dizer, como uma surpresa, como uma avalanche? Apesar de todos os esforços que elas fizeram para desfazer-se deles, esses fenômenos acompanharam-nas sem tréguas, expondo-as a numerosos dissabores. Nada pôde detê-los. “Anunciai essas verdades ao mundo!” Tal era a ordem que as forças invisíveis intimaram pela primeira mensagem obtida pelo alfabeto, e as jovens médiuns, apesar de toda a sua resistência, foram constrangidas a submeter-se e a entregar esses fenômenos à investigação pública. Sou levado a crer que, se os fenômenos de materialização tivessem continuado a produzir-se nas mesmas condições em que se davam nessa fase primordial, o Sr. Hartmann não teria encontrado elementos suficientes para edificar a sua teoria da alucinação. E entretanto o fenômeno era o mesmo!

O estudo dos fenômenos de materialização nos revela essa lei geral, que, por si mesma, refuta completamente a teoria da alucinação.

Às primeiras manifestações da materialização com um médium, as formas materializadas oferecem uma semelhança frisante com certas partes do corpo ou com toda a pessoa do médium.

Mais tarde – se o médium continua no desenvolvimento desse gênero de experiências –, essa semelhança pode, sem desaparecer, ceder o lugar, freqüentemente, a materializações de figuras extremamente variadas; outros médiuns não podem sair do limite das primeiras experiências, e todas as suas materializações apresentam com a sua pessoa uma semelhança tal que se é conduzido mui naturalmente a supor que é o médium transfigurado – até o dia em que podemos convencer-nos por provas suficientes que estamos em presença de um desdobramento do médium.

É assim que nos fenômenos clássicos de materialização de Katie King e de John King, que se produziram na Inglaterra e que foram submetidos às mais variadas experiências, verificou-se de cada vez uma semelhança mais ou menos pronunciada, e algumas vezes completa, entre as formas materializadas e o médium. John King aparecia à luz do dia e seu retrato foi desenhado enquanto o médium, colocado atrás da cortina, era seguro pelas mãos (Médium, 1873, pág. 346); ou, antes, ele aparecia às escuras, iluminado por sua própria luz, enquanto o médium era seguro pelas mãos no grupo ou fora do grupo dos assistentes. Katie King aparecia enquanto uma parte do corpo da médium era visível; outras vezes desaparecia momentaneamente, quando era acompanhada por uma pessoa que queria ver a médium no gabinete. Esses casos, segundo o Sr. Hartmann, são provas evidentes da alucinação e não da transfiguração.

Mas, se assim fosse, porque essa semelhança com os médiuns? Essa semelhança fazia seu desespero! Certamente, se eles tivessem podido provocar alucinações à sua vontade, seguramente teriam evitado representar nessas alucinações sua própria imagem, o que fazia somente gerar a suspeita e fornecia pretextos a toda espécie de medidas de fiscalização com o objetivo de desmascarar a impostura.

Acontece o mesmo com as materializações que se produzem aos olhos dos assistentes. Como alucinação, esse gênero de fenômeno agrada ao Sr. Hartmann; mas, no ponto de vista do fenômeno objetivo, o processo lhe desagrada, e para provar que o médium não é “o produtor inconsciente do fantasma”, o Sr. Hartmann exige outra demonstração; ele diz:

“Nos casos em que havia separação absoluta, em que o fantasma era observado desde a sua formação até o seu desaparecimento, verificou-se que ele emanava todo do médium e fundia-se de novo com ele, e isso, não como uma imagem inteiramente formada, enchendo-se gradualmente de matéria e esvaziando-se em seguida, mas como uma massa nebulosa informe que só toma forma gradualmente e se desagrega em seguida da mesma maneira.” (pág. 110).

Se verdadeiramente esse fantasma não fosse mais do que uma alucinação, a fantasia do médium teria ultrapassado todas as exigências do Sr. Hartmann: “imagens inteiramente formadas”, correspondendo à mais arrojada imaginação, teriam aparecido e desaparecido subitamente.

Mas apresentarei aqui ainda outra observação: se as materializações não passam de alucinações produzidas pelo médium e se ele tem a faculdade de ver todas as imagens armazenadas nas profundezas da consciência sonambúlica latente dos assistentes e de ler todas as idéias e todas as impressões – que se acham no estado latente em sua memória –, ser-lhe-ia muito fácil contentar a todos aqueles que assistem à sessão, fazendo aparecer sempre a seus olhos as imagens de pessoas falecidas que lhes fossem caras. Que triunfo, que glória, que fonte de riqueza para um médium que atingisse esse alvo! Mas, com grande pesar dos médiuns, as coisas não se passam assim: para o maior número dentre eles, são figuras estranhas que se apresentam, figuras que ninguém reconhece, e os casos em que a semelhança com um morto era bem verificada, não só quanto à forma, mas também quanto à personalidade moral, são extremamente raros; os primeiros são a regra, os outros a exceção.

Esses resultados negativos, que estão longe de satisfazer a todas as esperanças e a todos os desejos, são para mim a prova de que nos achamos realmente em presença de fenômenos naturais, submetidos a certas leis e a certas condições para poder manifestar-se, e cujo verdadeiro sentido nos é desconhecido ainda.

Se seguirmos de mais perto a história da materialização de certas figuras que apareceram regularmente durante um tempo mais ou menos longo, encontraremos alguns casos que têm especial importância para a teoria desses fenômenos e provam, à sua maneira, que não são simples alucinações.

É à série das aparições de Katie King que tiro o primeiro exemplo de um fenômeno dessa espécie, e deter-me-ei aí porque ele é atestado pelos testemunhos mais sérios. Desde as suas primeiras aparições, Katie King tinha anunciado que não poderia materializar-se senão durante três anos e que, na expiração desse termo, sua missão estaria terminada: que ela não poderia mais manifestar-se fisicamente, de forma visível e tangível, que, passando a um estado mais elevado, não poderia comunicar com o seu médium senão de maneira menos material (The Spiritualist, 1874, I, pág. 258, e II, pág. 291).

O prazo anunciado expirava em maio de 1874; a última sessão foi fixada por Katie King para 21 de maio; ela se realizou em casa do Sr. W. Crookes. Eis de que modo, segundo as palavras desse último, se operou a desaparição de Katie:

“Ao aproximar-se o momento em que Katie devia deixar-nos, pedi-lhe que se fizesse ver por mim, no último momento. Convidou umas após outras todas as pessoas presentes a aproximar-se dela e disse a cada uma algumas palavras; depois deu certas indicações gerais sobre a proteção e cuidados de que devíamos no futuro rodear a Srta. cook. Terminadas essas recomendações, Katie convidou-me a acompanhá-la ao gabinete e autorizou-me a ficar até o fim. Puxou a cortina e falou-me durante algum tempo ainda; depois, atravessou o aposento até o lugar em que a Srta. Cook estava deitada sem conhecimento no soalho. Inclinando-se para ela, Katie disse-lhe:

– Desperta, Florie, desperta. Agora devo deixar-te.

A Srta. Cook despertou e rogou a Katie, chorando, que ficasse ainda por um pouco.

– Não posso, minha cara, minha missão está cumprida. Deus te abençoe – respondeu Katie, e continuou ainda a falar com a Srta. Cook.

Essa conversação se prolongou por muitos minutos; as lágrimas sufocaram a Srta. Cook. Então, conformando-me com as recomendações de Katie, aproximei-me da Srta. Cook para ampará-la, pois ela tinha caído no chão com um acesso de soluços histéricos. Quando olhei em volta de mim, Katie tinha desaparecido.”

O Sr. Harrison, editor do The Spiritualist, que fez parte dessa sessão, acrescenta os pormenores seguintes:

“Katie disse-nos que nunca mais poderia falar nem mostrar o rosto, que os três anos durante os quais produzira essas manifestações físicas tinham sido para ela um tempo penoso, uma triste expiação de seus pecados, e que naquela ocasião ia passar a um estado de existência espiritual mais elevado. Declarou que não poderia daí em diante comunicar com a médium senão a intervalos longos, e isso pela escrita, mas que a médium poderia divisá-la a qualquer hora, desde que se deixasse magnetizar.”

Não posso insistir bastante sobre a significação moral desse fato. Como explicar, de maneira racional, no ponto de vista das teorias da transfiguração, da alucinação e mesmo pela impostura, essa cessação voluntária da aparição e da materialização de Katie King? Se a produção desses fenômenos só dependesse da médium, por que motivos teria ela posto termo às manifestações? A Srta. Cook, a médium, estava nessa época no apogeu de sua nomeada; o amor-próprio dos médiuns – sobretudo quando eles entraram nesse caminho especial – desenvolve-se mui naturalmente até um grau muito elevado, pois que sua extraordinária faculdade lhes abre as portas da mais alta sociedade, tornando-os objeto da atenção geral, o que não pode deixar de lisonjear-lhes a ambição. A Srta. Cook era então o único médium com o qual se produzia a materialização de figuras inteiras. Por que motivo então teria ela voluntariamente descido do pedestal sobre o qual a elevavam, para cair de novo no esquecimento? Ela não podia conhecer a sorte reservada a suas faculdades mediúnicas, prever se atingiria os mesmos resultados, e por que motivo, além disso, teria ela trocado o certo pelo incerto?

O Sr. Crookes, por seu lado, dava grande importância a essas experiências e só desejava completar suas observações.

Pergunto de novo qual podia ser o motivo bastante poderoso para decidir a médium a tomar essa resolução? Se as manifestações só dependessem da sua vontade, era bastante continuá-las para colher novos louros.

Poder-se-ia atribuir essa resolução a um enfraquecimento das faculdades mediúnicas da Srta. Cook e não ver nas despedidas de Katie King – ainda que elas tenham sido previstas três anos antes – mais do que um meio de evitar um insucesso penoso para o seu amor-próprio. Porém, nós sabemos que, pelo contrário, os fenômenos foram progredindo e que eram mais perfeitos, mais decisivos ainda nos últimos tempos; sabemos também que depois da desaparição de Katie King as faculdades mediúnicas da Srta. Cook não enfraqueceram e que, pouco tempo depois, uma nova figura apareceu “com igual perfeição” –, como no-lo informa a carta do Sr. Crookes publicada no The Spiritualist de 1875, tomo I, pág. 312.

Finalmente, esse fato da cessação de uma materialização de figura aparecida durante certo lapso de tempo não é único nos anais do Espiritismo. Poderia citar ainda muitos (vede, por exemplo, o Médium, 1876, pág. 534).

Em minha opinião, tudo isso demonstra peremptoriamente que, nesses diversos casos, ao menos, tratávamos com uma vontade diferente da do médium e que o fenômeno tinha, por si mesmo, uma realidade objetiva.

Para acabar de vez com o lado teórico dessa questão, devo renovar uma objeção que já emiti na primeira parte deste capítulo, quando se tratava das impressões produzidas por partes do corpo materializadas. Essa objeção deveria figurar aqui – na parte teórica de minha argumentação, mas eu me deixei levar pela “inconseqüência lógica” que sobressaía da teoria do Sr. Hartmann, quando tratei especialmente desse gênero de fenômenos (pág. 115 e seguintes).

Lembrarei em algumas palavras o assunto de que se trata, porque essa inconseqüência que dimana da tese do Sr. Hartmann não se limita evidentemente à explicação pela alucinação do aparecimento de uma parte do corpo humano, mas refere-se igualmente à aparição de uma forma humana inteira materializada.

O Sr. Hartmann foi coagido a nos fazer uma concessão relativamente à aparição das mãos: elas podem não ser uma simples alucinação da vista, mas ter um substratum objetivo real na força nervosa, cuja concentração pode ser tal que a mão possa ser sentida ao tato, e será então uma percepção real, e não uma alucinação, o que é provado pela impressão que essa mão produz sobre papel enegrecido. Mas a vista dessa mão será, para a mesma pessoa que a tocou, uma alucinação. Eis onde reside “a inconseqüência lógica” que se estende ao conjunto da teoria da alucinação emitida pelo Sr. Hartmann para explicar as materializações.

Quando uma figura inteira aparece, produz diversos efeitos físicos, deixa-se tocar a apalpar, o Sr. Hartmann admite de boa vontade que isso pode ser um efeito real, não alucinatório, um efeito produzido pela força nervosa mediúnica que representa o analogon da superfície da mão que produz uma pressão, sem que haja, por trás dessa superfície, um corpo material.” (pág. 99).

Por que motivo, pois, ele não admite que esse mesmo “analogon de uma superfície que exerce uma pressão” possa produzir um efeito visual?

Assim, para uma série de efeitos produzidos pelo mesmo fenômeno, o Sr. Hartmann admite que eles são provocados por “uma coisa material (em si), existindo no espaço objetivo real e que afeta os órgãos sensoriais dos assistentes”, e para uma outra série de efeitos – sentidos e acusados pelo mesmo indivíduo – ele declara que essa causa “não é uma coisa material, mas uma alucinação subjetiva do médium” (pág. 96).

É impossível não ver a contradição evidente dessas duas explicações. A inconseqüência é tanto mais saliente, porquanto o próprio Sr. Hartmann afirma que a força nervosa pode tomar formas visíveis que não são alucinações. Assim ela poderia “transformar-se em efeito de luz” (pág. 47) e então “revestir formas determinadas, mas principalmente formas de cristais, ou antes, formas de objetos inorgânicos, tais como cruzes, estrelas, um campo claro semeado de pontos luminosos” (pág. 50).

Nesse caso, a força nervosa torna-se visível e não é uma alucinação. Por que, pois, essa mesma força, por se tornar visível sob a forma orgânica de uma materialização (que algumas vezes também é luminosa), se torna uma alucinação? Como o Sr. Hartmann poderá responder a essa pergunta?

A teoria da alucinação é destruída pela análise lógica de suas próprias hipóteses.



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