Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Capítulo II

Fenômenos físicos


Já tendo tratado da questão das materializações e tendo-a resolvido no sentido de um fenômeno real objetivo, minha resposta ao Sr. Hartmann, no que diz respeito aos fenômenos físicos, compreende-se facilmente. É claro que, se minha tese é admitida para o fenômeno da materialização, a maior parte dos fenômenos físicos complexos explicam-se pela simples suposição de que eles são produzidos por órgãos materiais invisíveis.

Mas isso não quer dizer que todos os fenômenos físicos devam explicar-se dessa maneira e que nenhuma força física desconhecida represente aí um papel; creio, pelo contrário, que é razoável admitir que os fenômenos físicos simples não são freqüentemente mais do que o produto de uma força física desconhecida, emanada de nosso organismo.

Chamo fenômenos simples aos fenômenos físicos obtidos com ou sem imposição das mãos, quando eles se produzem em linha reta, horizontal ou vertical, e quando têm o simples caráter de repulsão ou de atração; tal é, por exemplo, o fenômeno da elevação de uma mesa com mãos simplesmente colocadas em cima, que eu observei muitas vezes e que sempre me impressionou pelo movimento perfeitamente vertical de todo o móvel, os quatro pés deixando o solo ao mesmo tempo e a mesa caindo de uma só vez, como se fosse sobre um pé somente.

Eu mesmo vi a mesa, depois de se ter levantado a um ângulo de 45º, retomar a posição horizontal enquanto estava suspensa no espaço e cair de novo verticalmente sobre os quatro pés.

Quanto aos fenômenos físicos complexos, descrevendo o objeto uma linha curva, por exemplo, parece serem produzidos por um órgão físico invisível, dirigido por uma vontade e por uma razão que lhe são próprias; mas, por assim dizer, essa idéia nem sequer teve o tempo de ficar no estado de hipótese, pois desde que os fenômenos físicos extraordinários se produziram – no começo do movimento espírita –, as mãos que os efetuavam foram freqüentemente vistas e sentidas.

Demonstrei, no primeiro capítulo deste livro, que a objetividade real dessas mãos foi verificada por todos os meios imagináveis. O meio mais simples de verificar a ação direta dessas mãos é untar os objetos que se quer fazer deslocar com o bálsamo luminoso de Balmain. É assim que, quando eu segurava pelas mãos a médium Kate Fox, no decurso de uma sessão às escuras, vi distintamente sobre uma campainha que eu tinha colocado em cima da mesa, perto de mim – e que era perfeitamente visível, graças à substância luminosa com a qual eu a tinha untado – destacar-se a sombra de muitos dedos que tomaram essa campainha e fizeram-na tilintar no espaço. As mãos da médium e as minhas pousavam em cima de uma tábua igualmente luminosa, de maneira que as mãos da médium, mantidas entre as minhas, podiam ser vigiadas constantemente.

Que as mãos que deslocam objetos, à luz, sejam algumas vezes invisíveis, só depende evidentemente do grau de materialização; que a materialização invisível existe, temos a prova pela fotografia transcendente. Em uma das fotografias de Mumler, verifica-se mesmo um efeito físico produzido por uma forma invisível: o levantamento visível da vestimenta tinha sido produzido por mão invisível ao olho, porém reproduzido pela fotografia.

Segundo o Sr. Hartmann, todos os fenômenos físicos do mediunismo – simples ou complexos – são produzidos pela força nervosa do médium, que por sua vez não passa de “uma força física emanada do sistema nervoso do médium”; o Sr. Hartmann insiste muito nessa definição e declara que não compreende “por que motivo Cox a designa sob o nome de força psíquica e não sob o de força nervosa, definição que pode ocasionar confusão” (pág. 37).

Mas cada vez que o Sr. Hartmann tenta explicar por essa força um fenômeno físico complexo, que vemos? É sempre a vontade do médium que “dirige” essa força (pág. 42), que “a domina” (pág. 49); é a “fantasia do médium que coordena as linhas de tensão” (pág. 51).

No fim de seu artigo sobre os fenômenos físicos, o Sr. Hartmann julga necessário explicar-nos que “não é somente a vontade do magnetizador, como tal, que produz essas manifestações em outros indivíduos, por sua ação puramente psíquica, e não é de maneira alguma a vontade do médium só, que, por sua ação puramente psíquica, produz, em corpos inanimados, os fenômenos físicos de que se acaba de tratar; em um e outro caso, o efeito imediato da vontade limita-se a libertar a força nervosa, magnética ou mediúnica, do sistema nervoso e projetá-la de determinada maneira sobre objetos animados ou inanimados”. Uma vez que essa “projeção de determinada maneira” deve a cada instante mudar de direção para produzir uma linha curva ou um sistema de “linhas de tensão” (na escrita direta, por exemplo), é evidente que a vontade do médium é inseparável dessa força. Podemos, pois, por nossa vez, admirar-nos pelo fato de o Sr. Hartmann querer ver aí unicamente uma força física? Acredito, além disso, que os partidários da força psíquica nunca tiveram a intenção de pretender que essa força atuasse fisicamente, sem substratum algum de força física.

Afirmando e reafirmando que a força nervosa mediúnica é uma força física, tendo analogia com a eletricidade e com o magnetismo, o Sr. Hartmann julga “mui simplesmente incrível e de péssimo presságio para os interesses do Espiritismo sob o ponto de vista científico, que ninguém tenha ainda feito tentativa para resolver essa questão”.

Está ainda aqui uma alegação sem fundamento. O professor Hare e o físico Varley fizeram muitas pesquisas nesse sentido, mas nunca puderam descobrir vestígio algum de uma afinidade qualquer entre a força mediúnica e a eletricidade ou o magnetismo terrestre (vede Hare, Pesquisas Experimentais, págs. 98-109; Varley, Relatório da Junta da Sociedade Dialética; The Spiritualist, 1876, II, 205).

É preciso citar também uma brochura que apareceu em 1853 em Gota sob este título: As mesas girantes; sessenta e quatro novas experiências físicas, com indicação dos resultados obtidos, na qual o autor, o Sr. Chr. Elisa Hering, professor agregado de Matemática e de Física no Seminário de Gota, chega a esta conclusão:

“Segue-se daí que a força recentemente descoberta é o oposto do magnetismo, por conseguinte um antimagnetismo; parece até que ela é a verdadeira força neutralizante.” (pág. 57).

Tratando, no capítulo 1º, das impressões produzidas – segundo o Sr. Hartmann – pela força nervosa, demonstrei suficientemente a contradição que existe entre esses efeitos e as noções que temos do que se pode chamar uma força física. Vejamos agora que valor tem essa teoria da força nervosa empregada para a explicação dos fenômenos mediúnicos complexos, tais como o movimento de objetos no espaço, o toque de instrumentos de música, a escrita direta, etc.

A Física nos ensina que toda força de atração ou de repulsão se exerce em linha reta e que um corpo, posto em movimento por uma dessas forças, não pode descrever uma curva senão pela intervenção de outras forças que, a cada instante, se acrescentassem à primeira. Assim, um objeto colocado a distância do médium, saturado de força nervosa, não pode ser atraído ou repelido pelo médium senão em linha reta; ele poderia ainda – admitindo que essa força “modifique as relações dinâmicas que existem entre a Terra e os objetos” – se elevar verticalmente e ser atraído em linha reta pelo médium. Mas nunca, a menos que se neguem todas as leis conhecidas da Física, esse objeto poderá ser dirigido à direita e à esquerda, descrever as curvas mais fantasistas, os movimentos mais complicados, e isso com um intuito racional. Seria preciso para isso que esse objeto experimentasse a ação de forças que emanassem de outros centros que não o médium.

De que maneira se produzem, pois, os fenômenos de que falamos? É muito simples. Segundo Sr. Hartmann, o médium é um centro de força nervosa a irradiar-se em todas as direções; ele carrega com essa força todos os pontos de um aposento e tudo o que ele contém, de tal maneira que qualquer objeto se torna por sua vez um centro de força que age segundo a vontade do médium.

Apliquemos esse processo do Sr. Hartmann a uma das sessões que conhecemos. Tomemos, por exemplo, uma das sessões de Home, às quais assisti com freqüência.

Muitas pessoas tomam lugar em torno de uma mesa, com o médium; colocam-se duas velas em cima da mesa; todas as mãos pousam sobre essa mesa, mas sem juntar-se, em oposição ao que afirma o Sr. Hartmann à página 47; nem vestígio de sonambulismo aparente, ao contrário do que diz o Sr. Hartmann à página 31, no médium, que toma parte na conversação geral.

Ao cabo de dez ou quinze minutos, é preciso supor que a sociedade está suficientemente carregada de força nervosa e imersa em estado de sonambulismo latente. Os fenômenos começam. Sinto-me tocar nos joelhos, introduzo a mão por baixo da mesa e sinto dedos deslizarem em torno do meu anel, como para mo tirarem: são correntes de força nervosa com sugestão da alucinação de um contato produzido por dedos. Meu vizinho abaixa-se para olhar por baixo da mesa; o médium, notando esse movimento, sugere-lhe imediatamente uma alucinação da vista e meu vizinho exclama que viu mão humana.

Anuncio que o meu anel é tirado; entretanto, ele não cai: flutua no ar. O médium, sempre atento, apressa-se em carregar de força atrativa os joelhos da pessoa que se acha defronte de mim, e o anel, atraído por esse centro de atração, vai tocá-la; essa pessoa coloca a mão por baixo da mesa, e o anel lhe é restituído.

Meu vizinho toma uma campainha, conserva-a por um instante em baixo da mesa; declara que sente o contato de dedos que lhe tiram o objeto; a campainha flutua por um instante e tilinta por muitas vezes. Para obter esse resultado, o médium carregou simplesmente de força nervosa os pés de meu vizinho e os do membro do círculo que estava defronte dele; a campainha, carregada igualmente de força nervosa, acha-se, pois, entre dois centros de atração, e o médium nada mais tem a fazer senão regular seus movimentos para fazê-la tilintar.

Meu vizinho da frente toma um lenço; conserva-o por baixo da mesa; sente os mesmos contatos e diz que lhe arrebatam o lenço – isso não passa de uma bagatela, um pequeno centro de atração criado exatamente no soalho, por baixo do lenço –; mas eis que o lenço é arrebatado e imediatamente restituído, por baixo da mesa, ao meu vizinho, que verifica que deram nele dois ou três nós. Isso não é muito difícil de explicar de maneira alguma: estando o lenço muito carregado de força nervosa, o médium carrega igualmente o soalho, a mesa e os pés dos assistentes; ele forma centros de atração de intensidade diferente, se bem que, sendo o lenço atraído de todos os lados, o médium não tenha mais a fazer do que regular seus movimentos, e os nós são dados.

Enfim, o médium toma um harmônio em uma das mãos, deixando a outra em cima da mesa; conserva o instrumento suspenso por baixo da mesa, entre ele e o seu vizinho, deixando livre o teclado; ouve-se uma melodia perfeitamente executada. O processo é o que há de simples: um centro de atração no soalho toca no harmônio e detém o fole. Mas isso não faria dar mais do que um som, e para executar uma melodia é preciso comprimir as teclas por uma ação transversal. Para obter esse efeito, o médium distribui cerca de uma dúzia de centros de atração ou de repulsão pelos pés de sua cadeira, ou pelo seu próprio pé, e faz agirem esses centros de força unicamente sobre as teclas – “regula” essas forças – e eis a melodia.

É preciso concluir daí que, se todos esses objetos tivessem sido entregues a si mesmos, depois de terem sido carregados de força nervosa, sem que seus movimentos fossem “regulados” pelo médium, eles se teriam posto em movimento por si mesmos e nos teriam oferecido o espetáculo de uma sarabanda mui divertida. É preciso acreditar, também, que um médium poderia carregar de força nervosa uma bola com que as crianças brincam e, lançando-a ao ar, fazê-la girar de maneira mais fantasista; ou antes ainda fazer mover uma figurinha de papelão, fazer seus pés e suas pernas moverem-se sem puxar por fio algum. Estariam aí fenômenos extremamente simples, mas que os médiuns espíritas ainda não conseguiram produzir.

Nessa aplicação da teoria, acredito ter-me conservado rigorosamente fiel à definição da força nervosa tal qual o Sr. Hartmann no-la apresenta para explicar os fenômenos que se produzem nas sessões espíritas. Posso prescindir de comentários e reservo-me somente, com o fim de completar a análise dessa hipótese e de apreciá-la em seu exato valor, o direito de precisar a definição dessa força maravilhosa, dando-lhe todo o seu desenvolvimento, pois que o Sr. Hartmann se absteve cautelosamente de fazê-lo.

Que é, por conseguinte, na opinião do Sr. Hartmann, essa força nervosa mediúnica?

É uma força física que produz todos os efeitos físicos que pode produzir um corpo humano, incluídos aí os efeitos plásticos.

Visto que freqüentemente esses efeitos físicos coincidem com os fenômenos de materialização, é necessário acrescentar à definição que precede a desse último fenômeno.

Que é, pois, uma materialização, segundo o Sr. Hartmann?

A materialização é a alucinação de uma forma humana concordando exatamente com os efeitos físicos produzidos pela força nervosa mediúnica e tendo, por conseguinte, todas as aparências e atribuições de uma forma humana real.

Por ter recorrido a semelhante tautologia, apresentando-a como uma teoria científica, é preciso realmente que se experimente horror à simples idéia da existência de uma forma humana transcendente; pois, em verdade, é difícil estabelecer uma diferença qualquer entre semelhante “alucinação” e o que os espíritas chamam uma forma humana materializada. Isso não passa de um jogo de palavras; suprimamos a expressão “alucinação” e o sentido ficará sendo o mesmo. Efetivamente, pela palavra materialização, os espíritas entendem alguma coisa mais bem determinada do que o Sr. Hartmann com a sua alucinação dupla de força nervosa? Mas teoricamente a diferença é enorme, pois que a hipótese que emiti no começo deste capítulo é, relativamente falando, de grande simplicidade e nada representa que não seja muito racional, desde que ela decorre mui naturalmente dos dados que nos oferecem as experiências e a observação direta dos fatos, enquanto que as duas hipóteses do Sr. Hartmann são fantásticas, complicadas em extremo e violentam a razão e a Ciência.

Aqui me vejo coagido a dirigir contra o Sr. Hartmann uma acusação formal, de muito maior gravidade do que as críticas que emiti contra suas teorias. É permitido a todos defenderem suas teorias o melhor que puderem. Mas a exprobração que lhe faço diz respeito ao próprio método que seguiu em sua argumentação; ora, os princípios de qualquer método de investigação, em qualquer domínio da Natureza, são imutáveis. No que diz respeito ao Espiritismo, o Sr. Hartmann formulou admiravelmente “os princípios metodológicos gerais” sobre os quais queria basear sua investigação científica, e que são os seguintes:

“Há princípios metodológicos gerais que não se pode desrespeitar impunemente. Em primeiro lugar, não convém sem necessidade multiplicar os princípios, isto é, procurar um segundo enquanto podemos contentar-nos com o primeiro. Em segundo lugar, convém que fiquemos tanto tempo quanto for possível nas causas cuja existência é justificada pela experiência ou baseada em deduções certas, e não procurar causas cuja existência é duvidosa e sem provas, e cujo valor só consiste em servir de hipótese para explicar os fenômenos em questão. Em terceiro lugar, convém restringirmo-nos, tanto quanto possível, às causas naturais e não nos decidirmos a ultrapassar esses limites senão no último extremo. O Espiritismo peca contra esses três princípios. Reconhecendo sem contestação uma categoria de causas naturais, fornecidas pela experiência e que se nos apresentam na pessoa dos médiuns, o Espiritismo admite outras causas, que não derivam dos dados da experiência, que são de ordem supranatural, e cuja existência necessita ser provada precisamente pelos fenômenos pertencentes a esse domínio problemático.” (S., págs. 117, 118).

“Se os espíritas desejam que se classifique essa segunda categoria de causas na mesma ordem em que as primeiras, devem empregar todos os seus esforços em traçar a linha de demarcação exata além da qual as causas naturais deixam de bastar à explicação dos fatos, tendo o cuidado de submeter a uma crítica das mais severas essas provas da insuficiência de tais causas, além desses limites. Enquanto essa linha de demarcação não for estabelecida distintamente, e a demonstração em questão não for dada, nada de positivo poderá ser afirmado, quanto à realidade da intervenção dessa segunda ordem de causas.

O Espiritismo ainda não fez a menor tentativa para resolver esse problema.” (S., 118).

Nada há a objetar a esses princípios; eles são efetivamente “inatacáveis em absoluto”, assim como o próprio Sr. Hartmann o declara em sua carta ao Sr. Massey (vede Light, 1885, pág. 432). Mas aí ainda há um quarto princípio metodológico, que o Sr. Hartmann deixou de assinalar em sua enumeração, é este:

“Toda hipótese ou teoria, concebida no intuito de explicar fenômenos de determinada ordem, deve abranger o conjunto dos fatos que se lhe referem.”

Prefiro acreditar que o Sr. Hartmann julgará esse princípio metodológico tão inabalável quanto os outros.

Examinemos se o Sr. Hartmann observou esse princípio no decurso de suas investigações no domínio do Espiritismo. O próprio Sr. Hartmann está persuadido, ao que parece, de ter-se conformado com ele, pois que afirma da maneira mais formal:

“De outro lado, nós vimos que, submetendo a um juízo crítico imparcial a ordem de fenômenos que estudamos, nada encontramos, à exceção da clarividência propriamente dita, que forneça o menor motivo para ir além das explicações naturais; a aparência do contrário repousa em um erro compreensível sob o ponto de vista psicológico, porém insustentável em matéria de ciência.” (S., pág. 106).

Esse raciocínio é justo: Em primeiro lugar, o Sr. Hartmann admite por sua vez “uma exceção”; voltaremos a esse ponto mais adiante. Mas é realmente a única exceção? Pode-se afirmar que “o contrário” não passa de uma “aparência”, engendrada por um “erro”? Por minha parte, sustento da maneira mais categórica que o “motivo para ir além das explicações naturais” existe. No número dos fenômenos espíritas, há um que se designa comumente sob o nome de “penetração da matéria”. O Sr. Hartmann menciona-o em seu tratado e cita alguns fenômenos dessa ordem, tais como: passagem de um anel de ferro através do braço do médium; penetração de moedas, de fragmentos de ardósia, etc., em caixas hermeticamente fechadas; anel enfiado em um pé de mesa; formação de nós em cordas e correias cujas pontas estavam lacradas; transporte, para o aposento onde se realizavam sessões, de objetos vindos de outros aposentos ou de outras casas, e de flores frescas que crescem em pleno campo, etc.

“Por conseguinte – diz o Sr. Hartmann –, os espíritas aceitam, de maneira geral, que um médium em sonambulismo possui a faculdade de libertar-se de todos os laços, e de entrar neles de novo, e isso por meio da penetração da matéria.” (pág. 45).

Desde que o Sr. Hartmann menciona esses fatos, é inútil enumerar as outras experiências que foram feitas para estabelecer a sua realidade.

Que pensa, pois, o Sr. Hartmann desses fenômenos? Eis aqui:

“As comunicações relativas à penetração da matéria transportam-nos a um domínio de fatos particularmente inverossímeis.” (pág. 44).

Acreditais que ele os renega, como “inverossímeis”? Absolutamente, não. Ele os aceita “condicionalmente”, como a todos os outros fenômenos; serve-se até em larga escala desses fatos para apoiar suas teorias da transfiguração do médium e da alucinação, tratando das materializações, como de uma coisa muito natural. Ele explicou, por acaso, ou pelo menos tentou explicar, o fenômeno da penetração da matéria por meio de uma teoria natural, como o fez para com os outros fenômenos? Nada. Ele não fez ensaio algum desse gênero. E entretanto menciona esses fenômenos e aproveita-se deles, como se nos tivesse dado a sua explicação.

É nesse ponto que acuso o Sr. Hartmann de ter pecado contra o método. De duas coisas uma: ou ele nega os fenômenos da penetração da matéria, ou não os nega. Negá-los seria desconhecer o quarto princípio e, nesse caso, ele deveria deixá-los de lado em suas explicações. Se, pelo contrário, ele os aceita, deve considerá-los como fenômenos naturais e dar deles uma explicação em harmonia com a sua teoria, conforme o segundo e terceiro princípios metodológicos. É o que ele não fez. Nesse ponto nada há, aliás, que não seja muito compreensível, pois os fenômenos da penetração da matéria são daqueles que não podemos explicar pelas leis naturais conhecidas; sob o ponto de vista de nossa ciência, são fatos de ordem transcendente, ou, se apraz ao Sr. Hartmann, supranatural. Por conseguinte, não se comete “erro” algum aceitando que o “motivo para transpor os limites das causas naturais” existe. Segue-se daí que, aceitando como princípio um fato tal como a penetração da matéria, quando se trata de explicar os fenômenos da materialização (aceitando, por exemplo, que um médium possa passar através dos laços que o prendem, ou através de uma gaiola, para apresentar-se em espírito, ou que as vestimentas das aparições possam ser “transportadas”, atravessando as paredes), o Sr. Hartmann atenta contra os “princípios metodológicos” que ele próprio estabeleceu.

O Sr. Hartmann nos responderá, bem entendido, que só admite “condicionalmente” a penetração da matéria, para colocar-se no ponto de vista dos espíritas, e a fim de ensinar-lhes como é preciso raciocinar. Mas tal resposta ficaria ao lado da questão. Esse raciocínio, há muito tempo que os espíritas mesmos o fizeram. Trata-se aqui do próprio argumento do Sr. Hartmann, que diz:

“O certo é que, se se concede ao médium a faculdade de penetrar a matéria, fica-se na obrigação de recorrer a quaisquer outros meios que não o seqüestro material do médium para demonstrar sua não identidade com o fantasma.” (págs. 78-80).

Responderei a isso: O certo é que, se se concede aos médiuns a faculdade de penetrarem a matéria, o Sr. Hartmann não tem mais o direito de dizer que no Espiritismo “não existe o menor motivo para ir além das explicações naturais”. Ele não tem o direito de exprobrar aos espíritas por “recorrerem sem necessidade a uma segunda ordem de causas, a causas supranaturais, que a experiência não justifica, e cuja existência requer provada precisamente pelos fatos pertencentes ao domínio em questão” (pág. 269).

Por conseguinte, o Sr. Hartmann não tem o direito de acusar os espíritas de “não terem feito a menor tentativa de traçar a linha de demarcação além da qual as explicações naturais não bastam” (pág. 118).

Essa lacuna nas teorias do Sr. Hartmann sobre os fenômenos da penetração da matéria, isto é, o silêncio que ele guarda quanto à sua explicação, é uma prova fornecida por ele próprio de que essa linha de demarcação existe; pois que, apesar de todo o poder de sua dialética, a despeito de todas as virtudes mágicas de sua “força nervosa”, ele não se decidiu a transpô-la. É o Rubicon diante do qual ele depôs as armas, e eu tenho o dever de consigná-lo.

Assim estabelecido, é preciso reconhecer que um método de investigação que não abrange todos os fatos que pretende explicar, ou que os admite sem explicá-los, condena-se a si mesmo.




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