Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Capítulo III

Da natureza do agente inteligente que
se manifesta nos fenômenos do Espiritismo

Exame do princípio fundamental do Espiritismo;
ele apresenta fenômenos cuja causa deve
ser procurada fora do médium?


Entro agora em um terreno no qual as divergências de opinião entre mim e o Sr. Hartmann – e acredito representar a esse respeito a maioria dos espiritualistas sensatos – são muito menos freqüentes do que quando se tratava do assunto de que me ocupei no capítulo precedente: é porque as teorias emitidas pelo Sr. Hartmann para explicar a natureza do agente inteligente que se manifesta nos fenômenos espíritas são inteiramente admissíveis em grande número de casos. As observações que eu apresentar terão por fim unicamente aprofundar se essa teoria pode realmente explicar todos os fatos espiríticos, sem exceção, assim como o Sr. Hartmann o afirma.

A teoria do Sr. Hartmann baseia-se nesta tese geral:

“A consciência sonambúlica é a fonte única que se oferece às nossas investigações sobre a natureza das manifestações espiríticas intelectuais.” (pág. 59).

Os elementos que compõem a consciência sonambúlica são, segundo ele:

“1º- a atividade simultânea da consciência em estado de vigília;

2º- a memória hiperestésica das partes do cérebro que são a sede da consciência em estado de vigília;

3º- a transmissão mental das idéias dos assistentes ao médium;

4º- enfim, a clarividência propriamente dita.

Se acrescentardes ainda a esses quatro elementos o concurso da percepção sensorial, verificareis que todas as manifestações intelectuais do Espiritismo tiram dali a sua origem.” (S., págs. 116, 117).

Em outro lugar, diz o Sr. Hartmann:

“Quem concebe todo o alcance dessas diversas fontes intelectuais da consciência sonambúlica não mais será tentado a procurar em outra parte a explicação da natureza das manifestações mediúnicas.” (pág. 60).

Quanto a mim, deixo-me resolutamente arrastar por essa “tentação” e pretendo verificar se não há efetivamente lugar para outra explicação.

Apenas desejo dar mais extensão à minha tese. O ponto essencial do Espiritismo, aquele pelo qual é preciso começar, se se quiser levantar a questão teórica, pode ser resumido assim:

Pode-se explicar todo o conjunto dos fenômenos mediúnicos por atos conscientes ou inconscientes, emanando da natureza do próprio médium, isto é, por causas que residem no médium – causas intramediúnicas –, ou, antes, há manifestações que deixem supor a ação de uma força exterior ou extramediúnica?

Se a resposta for afirmativa, o problema a adotar será estudar a natureza provável do agente extramediúnico.

A primeira dessas questões não diz respeito evidentemente apenas às manifestações intelectuais, mas ainda às materializações e aos fenômenos físicos em geral.

Devemos, bem entendido, procurar antes de tudo explicar os fatos mediúnicos por todos os meios “naturais” que pudermos imaginar, sem sair dos limites do razoável, pois, enquanto é possível atribuir-lhes uma causa “natural”, seria irracional desejar encontrar a sua solução no domínio do “sobrenatural”.

É escusado acrescentar que essas causas “naturais” são as que o Sr. Hartmann nos oferece, e eu convenho em que grande parte dos fenômenos mediúnicos pode ser explicada por elas, conforme expus em minha crítica à obra do Sr. d’Assier, que apareceu um ano antes da publicação do livro do Sr. Hartmann sobre o Espiritismo. Devo, entretanto, fazer observar que não estou de acordo com o Sr. Hartmann sobre o emprego da palavra “sobrenatural”, pela qual ele designa uma causa “espirítica” no sentido etimológico dessa palavra.

O Espiritismo recusa de maneira absoluta o epíteto de “sobrenatural” que desejam impor-lhe; se os fenômenos em questão são realmente produzidos por “espíritos”, por que pretender, pois, que um efeito atribuído à ação de um homem vivo fosse devido a uma causa mais “natural” do que aquele que é produzido por um homem morto ou por um ser inteligente invisível?

De outro lado, compreendo que não se poderia admitir um fato de tão enorme importância qual a existência dos “espíritos” e considerá-lo como demonstrado pela experimentação e pela observação direta antes de ter tentado todos os esforços para lhe achar uma explicação “natural”.

Além disso, os próprios representantes do Espiritismo, mais em evidência – médiuns e os próprios clarividentes –, foram os primeiros a afirmar que uma metade dos fenômenos mediúnicos devia ser atribuída a causas residentes no próprio médium. Rendo-lhes a homenagem de citar suas palavras.

Assim, Davis, desde o começo do movimento espírita na América, escrevia já em seu livro The Present Age and Inner Life (O Século Presente e a Vida Interior), em 1863:

“Nas páginas seguintes, encontrar-se-á uma tabela explicativa formando um resumo sistemático das “causas dos fenômenos mediúnicos” e que demonstrará que numerosos dentre eles, considerados de origem supranormal, são simplesmente o resultado de leis naturais que regem a existência humana, e têm por causa, principalmente, a combinação de elementos físico-psíquico-dinâmicos invisíveis – a transmissão e a ação recíproca das forças conscientes e inconscientes de nosso espírito, causas que devem forçosamente entrar em linha de conta, como reconheci-o formalmente mais acima, e devem necessariamente, aos olhos de um analista sincero, representar um papel, ainda mesmo inferior, no vasto campo das manifestações da vida espiritual.” (págs. 160 e 161).

Conforme a classificação dessa tabela, vê-se que, segundo o autor, 40% somente dos fenômenos são “realmente de origem espiritual”, devendo os outros correr por conta “da clarividência, da cérebro-simpatia, da neuropsicologia, da eletricidade vital, da neurologia e do erro voluntário (volontary deception).” (pág. 197).

Mais adiante ele diz:

A razão principal das contradições provém da percepção simultânea de impressões emanantes das duas esferas da existência, isto é, das inteligências pertencentes à humanidade terrestre e das que fazem parte do mundo supra-sensível. Os médiuns, os clarividentes, os sensitivos, etc., devem possuir grande soma de experiência e de conhecimentos psicológicos para ficarem em estado de distinguir, até certo ponto, entre as impressões que recebem das inteligências deste mundo e as que são produzidas pelos espíritos de esfera mais elevada. Vou tornar mais compreensível meu pensamento por um exemplo: um médium pode tirar idéias do espírito de uma pessoa que se acha em lugar distante do globo, enganando-se absolutamente sobre a sua proveniência. Pois que para tudo quanto diz respeito às sensações originais internas e às provas subjetivas, essas impressões são, para a percepção do médium, idênticas às que são produzidas por um espírito livre do invólucro terrestre.

Assim sucede porque as leis da simpatia das almas são as mesmas aqui na Terra como no mundo dos Espíritos. É por essa razão que certos médiuns e clarividentes, assim como espíritos absortos na prece, recebem freqüentemente, a seus pensamentos e a suas preces, respostas de fonte terrestre, emanadas de espíritos encarnados, se bem que eles tenham a convicção de que essa resposta emana de uma inteligência supranatural, de um ser invisível.” (pág. 202).

“Em razão das considerações e “possibilidades” que precedem, podemos ficar certos de que as contradições atribuídas por muitos crentes a instâncias “de Espíritos malfazejos”, que vivem fora de nossa esfera, são imputáveis, em todos esses casos, a influências terrestres e à intervenção de agentes que vivem na Terra. O espírito humano é tão maravilhosamente dotado e dispõe de meios tão variados de atividade e de manifestação, que um homem pode inconscientemente deixar reagir sobre si mesmo e em si próprio suas forças orgânicas e suas faculdades cérebro-dinâmicas.

Em certas disposições de espírito, as forças conscientes concentradas no cérebro entram em ação involuntariamente e continuam a funcionar sem a menor impulsão por parte da vontade e sem serem sustentadas por ela. A hipocondria e a histeria são exemplos desse estado intelectual, do mesmo modo que a dança de São Guido, a catalepsia e a alienação mental.

Conclui-se de minha tabela que 16% das manifestações modernas devem ser referidas a essa causa. Fundando-se em uma tal base é que muitas pessoas se persuadem de que são médiuns de efeitos físicos e de manifestações gesticulatórias e mímicas de diversos Espíritos célebres que deixaram a Terra há longo tempo.” (pág. 205).

O Sr. Hudson Tuttle, célebre médium americano e escritor filosófico por intuição, já tinha falado da comunicação espiritual entre seres vivos, em seus Arcana of Nature (Mistérios da Natureza), obra publicada em 1862. Mais tarde, em seus Arcana of Spiritualism (1871), ele se exprime nesses termos sobre o mesmo assunto:

“Quando um Espírito tem um médium submisso ao seu poder, obedece às mesmas leis que um magnetizador mortal. É por esse motivo que os fenômenos resultantes dessa intervenção são de natureza mista. E porque com médiuns incompletamente desenvolvidos é difícil diferençar o magnetismo que emana dos assistentes do que pertence ao Espírito que guia o médium, a maior prudência é necessária para evitar que nos iludamos. Quando o médium se acha em estado de extrema suscetibilidade que caracteriza as primeiras fases de seu desenvolvimento, reflete simplesmente os pensamentos dos assistentes. O que, nesse caso, é tomado por uma comunicação espírita não passará de um eco de suas próprias inteligências.

O mesmo estado que torna um médium apto para receber a influência de um Espírito submete-o, no mesmo grau, à de um ser humano e, em razão da semelhança de todas as influências magnéticas, é difícil distinguir um agente oculto de um magnetizador. Os grupos espíritas são assim freqüentemente o joguete de uma ilusão, iludidos por suas próprias forças positivas. Eles afastam os mensageiros espiríticos, substituindo-lhes o eco com seus próprios pensamentos, e então verificam contradições e confusões que atribuem complacentemente à intervenção de “Espíritos malfazejos”.

A causa da Verdade nada pode ganhar com a verificação errônea de um fato, ou com a exageração de sua importância com detrimento de outro fato. Os próprios que abordam sem idéia preconcebida o problema do Espiritismo sem ter estudado o magnetismo animal são levados a explicar todos os fenômenos que se apresentam, no decurso de suas pesquisas, por uma ação espirítica, ainda que, segundo toda a probabilidade, a metade, pelo menos, dos fatos que eles observam seja devida a causas puramente terrestres.” (págs. 194-195).

“Para sermos bem compreendidos, faremos observar que o nosso objetivo é traçar uma linha de demarcação definida entre os fenômenos de origem realmente espirítica e os que devem ser imputados a ações de ordem terrestre. Podemos rejeitar com toda a confiança a metade ou mesmo as três quartas partes de todas as manifestações que passam por fenômenos espíritas. Porém o resto não deixará de ser muito precioso. Não é com acúmulos de fatos inúteis que se defende eficazmente uma causa: mais facilmente ela ficaria desacreditada; mui freqüentemente a refutação de alguns desses fatos serve de pretexto para derribarem o conjunto deles.” (pág. 196).

“É uma regra prudente não atribuir aos Espíritos nada que possa ser explicado por causas terrestres. Os fatos que ficarem, depois dessa seleção, têm tanto valor real para o céptico como para o pesquisador.

O homem em seu invólucro terrestre é um espírito da mesma maneira que quando liberto dele e, como tal, está submetido às mesmas leis. O estado magnético pode ser conduzido pelo próprio indivíduo ou por um magnetizador, homem ou Espírito, quer se trate do estado de sonambulismo, de transe ou de clarividência.

Quando nos capacitamos bem desse estado de coisas, facilmente formamos uma idéia da tendência extrema, do observador, para confundir essas influências.

Se, após a formação de um grupo, um dos membros que o compõem é afetado de espasmos nervosos, não se segue daí necessariamente que ele esteja sob a influência de um Espírito; poder-se-á afirmá-lo de maneira positiva somente quando o Espírito tiver provado que só ele está ativo. Não se pode adquirir um conhecimento preciso das leis do Espiritismo se não se submeter os fenômenos a uma crítica rigorosa. Os amadores do maravilhoso ficam com a liberdade de atribuir a uma fonte única todas as manifestações, sem exceção, desde a contração involuntária de um músculo, a remoção de um mal pela aplicação das mãos, as frases incoerentes de um sensitivo em estado de transe sob a influência das pessoas presentes, até as manifestações autênticas de seres pertencentes a um outro mundo; mas isso não pode satisfazer às exigências da Ciência que desejar pesquisar e coordenar todos os fatos e todos os fenômenos.” (pág. 197).

O Sr. Tuttle tratou ainda do mesmo assunto em um artigo sobre “o funcionamento do cérebro”, publicado no Religio Philosophical Journal de 1º de dezembro de 1883.

Vamos, pois, cogitar da questão principal e examinar se esse resto existe realmente e se os espíritas têm o direito de pretender que existem fenômenos que têm causas extramediúnicas.

Segundo o Sr. Hartmann, a consciência sonambúlica tem por sede as partes médias do cérebro e acha-se, por conseguinte, sob a dependência da crosta do cérebro, onde reside a consciência em estado de vigília.

“O funcionamento dessas partes médias só tem valor em regra geral como ato preparatório, ou antes executivo” (pág. 26), e é a consciência em estado de vigília e sua vontade consciente “que determinam de maneira geral o gênero das manifestações desejadas e esperadas” (pág. 33).

Como a consciência sonambúlica – esse grande fator de todos os fenômenos mediúnicos – dá provas de atividade intelectual, e ainda de atividade voluntária (“inteligência e desejo”, pág. 26), é preciso concluir daí que essas duas atividades não formam mais do que uma única e que concordam não só entre si, mas ainda com as mesmas atividades da consciência em estado de vigília – o que quer dizer que a inteligência e a vontade da consciência sonambúlica acham-se de perfeito acordo com a inteligência e a vontade da consciência em estado de vigília.

É, evidentemente, no mesmo sentido que se deve compreender estas palavras do Sr. Hartmann:

“É isso mesmo que explica por que a consciência sonambúlica escreve palavras e frases, por que ela responde a perguntas e realiza desejos que são ditados ou impostos à consciência no estado de vigília, quer antes, quer depois do começo do estado de sonambulismo latente.” (pág. 59).

“O nível intelectual das comunicações está geralmente abaixo do nível intelectual do médium e dos assistentes; mui raramente ele se eleva à mesma altura, e nunca a excede.” (pág. 116).

Em tudo o que precede, vimos, com efeito, que as manifestações obedecem à vontade da consciência sonambúlica que está de acordo com a vontade e com as representações da consciência do médium em estado de vigília. Mas, antes de nos ocuparmos com “a natureza intelectual das manifestações” – à qual o Sr. Hartmann consagrou um capítulo especial –, e antes de examinar se essas “manifestações” estão, por sua natureza, acima ou abaixo do nível intelectual do médium, devemos compenetrar-nos do papel da vontade nessas manifestações, pois que aqui nos achamos perante esta questão: É verdade que a consciência sonambúlica “se conforma sempre com os desejos que são sugeridos ou impostos à consciência no estado de vigília”? Não sucede algumas vezes que as manifestações não obedeçam aos desejos e às idéias que nascem na consciência no estado de vigília, e até mesmo que elas lhe sejam diametralmente opostas? Supondo que semelhante desacordo possa produzir-se, a que ficará reduzida então a teoria da consciência sonambúlica?

Ora, fatos desse gênero existem realmente, e eu vou passar em revista desde já os que são contrários à vontade, para examinar em seguida os que são contrários às convicções e ao caráter do médium.



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