Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Manifestações que são contrárias à vontade do médium


Notamos as gradações seguintes:

A) Todos os espíritas sabem que as manifestações não dependem da vontade do médium, quer se trate de manifestações intelectuais ou de manifestações físicas; o médium não pode provocá-las à vontade. Não falo das manifestações que se produzem em sessões ocasionais, num círculo de neófitos ou de composição heterogênea; quero falar das manifestações que se produzem durante uma série de sessões realizadas pelo mesmo círculo e coroadas de melhor êxito. Sendo todas as condições absolutamente as mesmas, sucede freqüentemente que em determinada sessão, quando nada mais se deseja do que assistir aos fenômenos obtidos na sessão precedente, não se obtenha resultado algum, nem sequer o mínimo movimento da mesa ou do lápis que o médium segura. É notório que freqüentemente um desejo intenso só sirva para prejudicar as manifestações.

B) As manifestações, se alguma se produz, não podem continuar à vontade dos assistentes. Assim, quando o Espírito que se manifesta por uma comunicação escrita anuncia que acabou, o lápis pára – ou cai da mão do médium se este está em transe – e debalde repetireis as perguntas: a mão não se move mais. Do mesmo modo, em uma sessão de efeitos físicos, desde que a finalização é anunciada (pelas palavras está terminado, por exemplo, como era de uso na família Fox – Missing Link, pág. 53), a mesa fica imóvel, e é em vão esperar, tentar fazê-la mover-se: nem um som, nem um movimento se produz mais.

C) As manifestações não podem também ser interrompidas ou detidas à vontade dos assistentes, e ainda menos por violência. Se, por certas razões – o estado de sofrimento do médium, por exemplo –, desejardes pôr termo à sessão, tentai retirar o lápis da mão do médium em transe, não o conseguireis: sua mão se contrairá, não entregará o lápis ou reclamá-lo-á com tanta insistência que sereis obrigados a repô-lo em sua mão; ou então movimentos da mesa e pancadas reclamarão com insistência o alfabeto, ao passo que julgáveis a conversação terminada.

D) Do mesmo modo, o caráter das comunicações não depende da vontade do médium. O Sr. Hartmann tem razão em dizer que na maior parte das sessões preocupam-se sobretudo “com os interesses do coração”. O que mais se deseja é entrar em comunicação com os mortos que nos são caros, e é precisamente o que sucede com maior raridade – se não pretendemos deter-nos em manifestações das mais superficiais.

A questão da identidade dos Espíritos é, como se sabe, o ponto difícil do Espiritismo. E, entretanto, se fosse preciso nos referirmos à teoria do Sr. Hartmann, nada seria mais fácil de estabelecer com fatores tão poderosos quanto a hiperestesia da memória e a transmissão do pensamento.

É assim que eu conheci um círculo, fundado por um viúvo, com o intuito único de obter comunicações de sua falecida mulher, e esse círculo só se compunha desse homem, da irmã e do filho de sua mulher, ao todo, três pessoas que conheciam intimamente a personalidade desejada. Entretanto, esse círculo – recebendo em todo caso comunicações mais ou menos notáveis, muitas das quais emanavam de pessoas conhecidas ou parentes dos três experimentadores – nunca recebeu comunicação alguma em nome da mulher do viúvo, o que, entretanto, devia ser tão fácil.

E) Ocorre também o contrário, isto é, comunicações feitas em nome de certas personalidades, uma ou muitas vezes, não podem ser continuadas à vontade; por exemplo, desejaríeis receber uma comunicação de A., como em uma sessão precedente, mas é B. quem se manifesta e A. não mais reaparece.

É assim que, em um círculo que eu tinha fundado, no decurso de uma série de comunicações banais sobreveio um interlocutor que deu prova de tanto espírito, senso crítico e filosofia, que suas respostas nos davam verdadeiro prazer; mas ele apareceu raras vezes e, como tivéssemos manifestado o desejo de ouvi-lo mais freqüentemente, respondeu-nos que não sabíamos conversar com ele, que perdia o seu tempo em nossa companhia, e não voltou mais.



F) A escolha dos nomes, o que freqüentemente caracteriza uma comunicação, não depende igualmente do médium. As comunicações mais banais são assinaladas com os nomes mais ilustres, o que prova que essas comunicações não podem ser atribuídas àqueles aos quais se empresta a sua paternidade. Porém, freqüentemente, quando a comunicação se refere a assunto mais elevado, o interlocutor recusa-se a dizer o seu nome e a provar a sua identidade; aquele de quem falei no parágrafo precedente jamais quis esclarecer-nos acerca de sua personalidade. Do mesmo modo as comunicações notáveis recebidas pelo Sr. A. Oxon 18 e publicadas sob o título de Spirit Teachings, ficaram anônimas, apesar de todas as instâncias do médium para penetrar nesse mistério. É preciso notar também que às vezes se revelam nomes, ainda que o médium não queira de modo algum que eles sejam pronunciados.

Fui testemunha do incidente seguinte: num círculo em que minha mulher atuava como médium, as pancadas reclamaram o alfabeto, e um nome começava a ser soletrado; desde que as primeiras letras foram pronunciadas, minha mulher adivinhou o nome inteiro, que era a revelação de um segredo de família; ela se opôs, com todas as forças, à revelação das últimas letras desse nome; entretanto, com grande desespero seu, foi soletrado o nome inteiro, composto de dez letras.



G) Até o modo de comunicação não depende da vontade do médium. Alguns exemplos: Tendes a prancheta, e é a mesa que responde; ou antes, tendes a mesa e é a prancheta que é reclamada. Recitais o alfabeto russo e reclama-se o alfabeto francês, e quando há confusão, sucede que pelo alfabeto russo recebem-se palavras francesas ou inglesas; ou antes ainda, em vez de letras recebereis cifras das quais nada compreendeis, se a mesma Inteligência que vos guia não vos der a chave das cifras correspondentes às letras; algumas vezes são anagramas, palavras escritas de trás para diante, ou com transposições e complicações que vos aborrecem, mas a comunicação vai até ao fim; a ortografia é abreviada e simplificada da maneira mais curiosa e isso com tal rapidez que, ainda que transcrevendo literalmente a mensagem, achais dificuldade em conservar essa ortografia estranha e continuais em vossa maneira ordinária de escrever.

Citarei o caso de uma jovem que tinha a faculdade de escrever mediunicamente, e que recebia comunicações de sua mãe; ela assistia freqüentemente às sessões de um círculo em que as comunicações eram dadas pela tiptologia e esforçava-se em obter respostas de sua mãe por esse meio; nunca, porém, sua mãe quis corresponder-se por aquela maneira e, de cada vez que ela se manifestava, dizia à sua filha: “Escreve”.



H) Sucede freqüentemente que o Espírito comunicante entre em oposição direta com a vontade do médium. Uma pessoa que conheço, o Sr. J. J. Moussine Pouchkine, depois de se ter assegurado, em uma sessão privada, da realidade dessas manifestações, desejou experimentar se tinha faculdades mediúnicas. Imediatamente se ouvem pancadas e ele recebe uma comunicação de sua mãe que, depois de lhe ter falado em tom de censura acerca de suas relações com a família e de suas convicções religiosas, termina dizendo-lhe: “Não deves ocupar-te de Espiritismo, isso te é prejudicial.” E, depois, de cada vez que ele procurou obter manifestações, elas se reproduziam, mas ele só podia obter estas palavras: “Não te ocupes de Espiritismo!”

I) Uma vez verificadas as faculdades mediúnicas, a força em atividade toma a incumbência de fazer a educação moral e física do médium. Ela luta contra suas más inclinações.

Citarei o caso de uma jovem que escrevia, em estado sonambúlico, perante amigos, e que denunciava, por sua própria mão e com grande vexame, atos que ela nunca teria resolvido confessar em estado de vigília. Essa mesma força pode fazer com que o médium observe o regímen necessário para a conservação e desenvolvimento de suas faculdades e, quando o médium é refratário, a força em atividade manifesta sua oposição diretamente e emprega mesmo a violência para obter a obediência do médium.

Citemos o testemunho do Dr. Nichols:

“Os médiuns recebem de seus guias instruções quanto ao regime que devem seguir e o conselho de se absterem de bebidas alcoólicas e de narcóticos; esse gênero de vida é indispensável para obter manifestações de ordem elevada.

O melhor médium que conheço não come carne há quarenta anos; durante esse período, só raramente tomava vinho e nunca café nem chá. Na América conheço um excelente médium de fenômenos físicos; o Espírito-guia desse médium tinha tomado à sua conta curá-lo de sua paixão pelo fumo. A esse respeito houve uma luta séria entre ambos. Em certo dia, o médium disse a seu Guia: “Se me tirares o cigarro, deixarei de fumar.” O cigarro que ele tinha na boca lhe foi tirado imediatamente e desapareceu. Mas não se deixa facilmente um hábito inveterado; o médium continuou a fumar e acabou por perder suas qualidades mediúnicas.

Um dos médiuns mais poderosos para fenômenos de diversos gêneros foi obrigado a passar por uma escola severa, sob a direção de seus protetores espirituais, que resolveram conseguir que ele deixasse seus maus hábitos, purificar sua vida e prepará-lo para sua nova vocação. Ele era jovem e de tal incontinência em matéria de mesa, que sua saúde ressentia-se disso. Recebeu a proibição de fazer uso de carne, de chá, de café e de fumo; em conseqüência de uma moléstia do fígado, dos rins e da pele, foi-lhe prescrito reduzir ao mínimo a absorção de leite, manteiga e sal. Sempre que o médium se dispunha a transgredir esse regime, recebia uma advertência por meio de pancadas na mesa em que comia. Se lhe sucedia persistir em suas veleidades pantagruélicas, a mesa punha-se em oposição direta contra ele, e sucedia até ouvir a voz de seu Guia que o exortava a seguir as prescrições higiênicas.

A saúde do médium restabeleceu-se completamente e ele produziu fenômenos notáveis.

O fumo exercia sobre ele uma fascinação mui particular, como sucede com muitas pessoas. Aconteceu-lhe de uma vez, no mar, acender e fumar um cigarro. Saltando em terra, foi castigado severamente: durante um transe foi lançado sobre o soalho e a ponta de um cigarro grosso foi introduzida à força em sua boca. Ele adquiriu por isso uma aversão profunda pelo fumo.” (Light, 1881, pág. 79).



J) Quando o médium abusa de suas faculdades e se entrega a excessos que podem ter conseqüências funestas, os Espíritos que se servem dele recorrem algumas vezes a outros expedientes para reconduzi-lo à razão, como se verá pelo exemplo seguinte que nos cita o Sr. Brackett (Light, 1886, pág. 368):

“Uma senhora que tinha passado algum tempo em uma casa de saúde em Somerville, Massachusetts, conta o fato seguinte, do qual ela foi testemunha: Era uma viúva rica, que tinha recebido excelente educação e fazia parte da melhor sociedade de Boston e dos arredores. Logo no começo do movimento espírita, tornou-se médium escrevente. Entusiasmada com o novo modo de comunicar com os mortos, abriu as portas com toda a franqueza a todos aqueles que desejassem fazer uso de suas faculdades mediúnicas, sem exigir paga de entrada nem remuneração alguma. Sucedia-lhe passar dias inteiros, de manhã à noite, a dar consolações, conselhos e instruções a todos os que vinham procurá-la. O estado de superexcitação no qual ela se achava começava a arruinar-lhe a saúde, e seus amigos invisíveis lhe aconselharam que moderasse o zelo e não sobrecarregasse suas faculdades. Ela não prestava atenção a esses conselhos, considerando que a obra a que se tinha votado era muito gloriosa para que a desprezasse.

Ela tinha um irmão, médico, que morava na vizinhança. De acordo com a maior parte de seus colegas, ele encarava o Espiritismo com olhar céptico; acompanhando de perto as ocupações de sua irmã, chegou à conclusão de que ela se entregava a perigosa ilusão e deu-lhe a entender que ela acabaria por entrar para um asilo de alienados, se continuasse no mesmo gênero de vida. Ora, os amigos invisíveis dessa senhora convidaram-na a descer ao subsolo. “Para quê, então?”, perguntou. Eles lhe responderam que ela receberia uma resposta quando se tivesse dirigido ao lugar indicado. Ela se apressou contra a vontade e divisou uma grande tina. As vozes misteriosas lhe ordenaram que colocasse a tina de fundo para baixo. “Mas para quê?”, perguntou ela ainda. “Verás”, responderam-lhe. “Agora entra.” Ela recusou a princípio obedecer a essa estranha proposta, mas deixou-se persuadir pelas instâncias e promessas de seus interlocutores ocultos. Apenas se tinha instalado nesse bizarro alojamento, entrou seu irmão. Ele a tinha procurado inutilmente em seu quarto, tendo vindo, como costumava, informar-se de sua saúde, e, notando que estava aberta a porta que dava para a cava, desceu e encontrou a irmã em posição incontestavelmente ridícula.

Ele olhou-a fixamente, manifestou sua admiração e afastou-se. Nesse mesmo momento ela experimentou uma espécie de ausência da influência misteriosa que a impressionava e teve o pressentimento de uma crise em sua vida; desse modo, não manifestou surpresa alguma quando, alguns minutos mais tarde, seu irmão voltou e insistiu com ela para dar um passeio de carro em sua companhia. Ela tinha adivinhado perfeitamente a sua intenção, mas dirigiu-se, apesar disso e a instâncias dele, convencida de que toda oposição seria inútil. Pouco depois, desceram à porta da Casa de Saúde Mc. Lean, em Somerville, onde seu irmão a colocou na qualidade de doente afetada de alienação mental.

Quando ela se achou a sós no aposento que lhe destinaram, exprobrou seus amigos espirituais o tê-la exposto a semelhante infortúnio. A resposta que eles deram foi: “Nós fizemos isso com intenção deliberada e para teu bem. Não quiseste seguir nossos conselhos e advertências; por isso te atraímos àquele lugar para arrancar-te à ruína certa, quer moral, quer física, para a qual caminhavas obstinadamente.”

Ela compreendeu o acerto desse raciocínio e, resignada, conformou-se com a sua situação. Felizmente o Asilo Mc. Lean achava-se então sob a direção de nosso velho amigo, o Dr. Lutero Bell, que se ocupava de pesquisas espíritas; ele acreditava nelas até certo ponto e conhecia muito bem as diversas manifestações da mediunidade. Compreendendo em pouco tempo a situação de sua cliente, percebeu que ela não estava de maneira alguma acometida de moléstia mental; que era simplesmente médium, e realizou com ela algumas sessões interessantes. Depois de muitas semanas de repouso e tranqüilidade necessárias à sua saúde, ela teve alta. Entrando de novo em casa, mostrou daí em diante muito mais reserva em suas idéias.”



K) Sucede também que o Espírito que produz essas manifestações se ligue a uma pessoa, apesar de sua resistência, e obrigue-a a ceder à sua influência. Encontraremos na experiência feita pelo Sr. Dexter um exemplo dos mais notáveis desse fenômeno. É pelo Sr. Dexter que foram recebidas as comunicações publicadas pelo juiz Edmonds em seu livro Spiritualism, e o testemunho do Sr. Dexter tem tanto mais valor por isso que emana de um doutor em Medicina, isto é, de uma pessoa particularmente competente para a observação e análise desses fenômenos. Eis como, em seu prefácio ao primeiro volume da obra citada, refere sua luta contra as forças que fizeram dele um médium:

“Cerca de dois anos decorreram desde que as manifestações espíritas atraíram minha atenção. Eu era incrédulo a tal ponto que denunciei o movimento espirítico em seu conjunto como a maior patifaria do mundo. Se, apesar disso, aceitei a proposta que me fez um amigo, de assistir às sessões de um círculo espirítico, é que eu obedecia a dois motivos diversos: em primeiro lugar, era minha curiosidade pessoal que eu pretendia satisfazer; em segundo lugar, eu tinha concebido a idéia de que os fenômenos em questão, se não eram o produto de uma fraude ou de uma ilusão, podiam depender muito bem de uma causa natural e que, por conseguinte, eu poderia talvez chegar a descobrir a fonte dessa ilusão ou o princípio em virtude do qual esses fenômenos se produziam.” (pág. 82).

“Depois de ter satisfeito minha curiosidade por observações quotidianas dessas manifestações, e quando fiquei absolutamente convicto de que nas ditas manifestações, quer físicas, quer morais, não havia ali nem escamoteação nem mistificação, fui coagido a convir que nenhuma das leis naturais ou psíquicas conhecidas até aquele dia podia fornecer a explicação desses fenômenos. E entretanto, apesar das provas freqüentes e irrecusáveis que se me ofereciam – isso poderá parecer estranho –, eu persistia em minha incredulidade, mesmo depois de ter estudado minuciosamente esse problema durante meses, sem conseguir resolvê-lo; depois de ter estado por muitas vezes a ponto de declarar-me espiritualista convicto, fiquei céptico apesar disso. Eu não podia admitir a idéia de que um Espírito, isto é, um ser intangível, insubstancial, etéreo, como sempre se me tinha afigurado, pudesse entrar em relação com o homem; parecia-me sobretudo incrível que um Espírito, que, segundo a idéia que essa palavra evoca comumente, não deve ser mais do que uma espécie de nada atenuado, fisicamente intangível, tivesse a faculdade de deslocar mesas, dar pancadas na parede, levantar homens, em resumo, manifestar-se materialmente nesta mesma Terra que ele havia deixado para sempre. Classificando os fatos, um após outro, fazendo justiça a todas as provas acumuladas, eu devia, sinceramente, submeter-me a essa convicção, que, para ser aceita em qualquer outra questão duvidosa a metade das provas que me eram fornecidas, nessa ocasião teria sido suficiente de sobra. Mas eu sabia que isso não podia ser e, por conseguinte, não lhe dava crédito.” (pág. 88).

“Nem minha vontade, nem meus desejos me impeliam ao desenvolvimento de minhas faculdades mediúnicas; pelo contrário, opunham-se a isso e, quando pela primeira vez, senti em mim um poder semelhante ao que eu tinha visto se revelar em outros médiuns, tentei resistir-lhe com todas as minhas forças físicas e morais.” (pág. 89).

“Era muito tarde da noite; eu estava em meu gabinete de trabalho, sentado na poltrona, com a mão direita descansando no braço do móvel. Minhas idéias estavam longe do Espiritismo; pensava em uma leitura que acabava de fazer. De repente senti no braço uma impressão estranha, como se duas mãos o tivessem segurado perto do ombro; tentei levantar o braço, mas em vão: a cada um de meus esforços, os dedos contraíam-se em torno do braço da cadeira e o apertavam com força. Depois a mão começou a tremer e eu notei que ela era agitada violentamente.

Nesse momento, ouvi soarem duas pancadas muito distintas na parte superior da parede e tive a impressão de que essa força invisível, cuja ação eu tinha observado freqüentemente sobre outras pessoas, queria submeter-me. “Estas pancadas são produzidas por Espíritos?”, perguntei em voz alta. Ouvi soarem ainda três pancadas. Perguntei de novo: “Os Espíritos têm a intenção de exercer sua influência sobre mim?” As três pancadas foram repetidas. Em seguida levantei-me, arrumei meus livros e deitei-me.

Enquanto eu estava ocupado em arrumar a mesa, a sensação desagradável do braço tinha desaparecido, mas, desde que me deitei, ouvi de novo soarem pancadas, desta vez na madeira da cama, e a mão recomeçou a tremer, mas resisti com todo o poder de minha vontade e consegui libertar-me da força misteriosa que me obcecava. Eu desejava verificar a que lei natural era preciso atribuir esse fenômeno estranho. Pessoalmente, eu nada tinha feito, por certo, para provocá-lo.

As idéias que me absorviam nada tinham de comum com o Espiritismo; menos ainda poderia eu acreditar que estivesse sendo por minha vez o alvo de semelhantes manifestações. Por que motivo as pancadas se fizeram ouvir precisamente naquela ocasião, e por que se transportaram depois para meu quarto de dormir? Devo confessar que aquela ação, inteiramente particular e exercida sobre o meu organismo, me inquietava um pouco. Até então eu acreditava que os fenômenos chamados espiríticos eram o efeito de uma força qualquer que emanava do corpo material ou do espírito dos assistentes, e que exercia uma ação física sobre o médium; mas não podia deixar de reconhecer que, para as impressões que eu acabava de experimentar em minha própria pessoa, meu espírito não tinha exercido ação alguma e, como não havia nenhuma outra pessoa no quarto, naturalmente eu não podia atribuir as manifestações à influência moral de uma terceira pessoa.

Convencido como eu estava, e de maneira absoluta, de ter combatido essas influências e de ter-me armado com toda a minha vontade contra as sensações que experimentava no braço, não podia atribuí-las a qualquer outra causa a não ser a intervenção de uma força inteligente provindo de uma fonte invisível cujo objetivo era submeter-me à sua interferência e que tinha conseguido isso perfeitamente.” (págs. 89-90).

“Em vista dessa intenção dos Espíritos, manifestada claramente, de adaptar meu organismo às condições requeridas para entrar em relação com o nosso mundo, impunha-se a questão seguinte: é indispensável que o indivíduo fique completamente passivo para que a influência de uma vontade sobre outra pessoa possa estabelecer-se, e se uma afinidade elétrica ou psíquica entre um certo número de indivíduos pertencentes ao mesmo círculo dos experimentadores é necessária igualmente para que esse agente de um gênero particular possa entrar em atividade, como então pôde suceder que meu braço, apesar de minha incredulidade e de minha resistência em aceitar a possibilidade de semelhantes manifestações, tenha podido cair sob o poder desse agente? Certamente eu não era passivo, e desde o momento em que meu espírito era hostil a essa força, elétrica ou psíquica, eu deveria, como parece, ser refratário à sua influência, moralmente e fisicamente. Proponho a solução desse problema àqueles que procuram atribuir as pretendidas manifestações dos Espíritos à ação de forças materiais.” (pág. 91).

“Em conseqüência dessas tentativas, deixei de freqüentar as sessões espíritas, supondo assim pôr-me ao abrigo de todas as perseguições. Sucedeu o contrário: meu braço foi sacudido enquanto eu dormia, e despertei em sobressalto. Durante o período em que me abstive de tomar parte nas experiências dos círculos espíritas, fui suspenso por duas vezes de meu leito e mantido no espaço. A primeira vez foi no dia em que mudei de quarto de dormir: eu ainda não dormia e tinha plena consciência do que se passava em torno de mim; estava deitado, esperando pelo sono, quando, de repente, fui acometido de um calafrio em todo o corpo. Procurei levantar um braço, mas não consegui movê-lo; os olhos fecharam-se-me e eu não pude reabri-los; minha inteligência estava, entretanto, em plena atividade e eu tinha conhecimento de tudo o que se passava, com mais clareza do que nunca. Minha sensibilidade física também tinha aumentado em agudeza. Conservando-me deitado assim, impotente para fazer o menor movimento, meu corpo foi levantado e conduzido suavemente para a borda do leito com o lençol que me cobria; deixaram-me ali durante alguns instantes e depois completamente removido e suspenso no espaço durante muitos segundos. Nesse mesmo momento ouvi o toque de rebate, e eu senti-me imediatamente transportado a meu leito e colocado de novo na mesma posição que ocupava dantes, com um pequeno sobressalto, como um corpo solto das mãos que o segurava. Readquiri então o uso dos membros, levantei-me do leito e examinei os lençóis e o cobertor: eles tinham sido repuxados para o mesmo bordo do leito donde eu tinha sido retirado e arrastavam-se no chão.” (págs. 91 e 92).

“Essa prova evidente da existência de um poder oculto produziu em mim uma impressão profunda. As tentativas anteriores me tinham tornado indiferente desde que deixei de experimentar o seu efeito; é que outrora só meu braço servia de objetivo a esses esforços; presentemente meu corpo inteiro estava sujeito a essas influências, apesar de toda a minha resistência... Pela primeira vez me veio a idéia de que, prestando-me a essa influência, que parecia claramente manifestar o desejo de fazer de mim um médium, eu poderia ter probabilidades de descobrir a verdade sobre “as relações entre Espíritos e homens”. Alguma coisa me impeliu em certo dia a formular esta pergunta: “Há alguém no quarto?” e ouvi dar distintamente três pancadas afirmativas.

Eu estava muito comovido para continuar nesse diálogo e deitei-me de novo, pensando nessas provas irrecusáveis que acabavam de me ser dadas sobre a ingerência dos “Espíritos” na vida dos homens.” (pág. 92).

“Um fato análogo produziu-se uma outra vez, enquanto me achava em passeio no campo: fui levantado do leito em que estava deitado e suspenso no espaço, exatamente da mesma maneira. Dessa vez, como da primeira, eu era vítima das mais estranhas sensações e, como então, o acontecimento se deu inteiramente de improviso; dir-se-ia que o agente oculto tinha assumido a incumbência de suspender-me no momento em que eu pensasse menos nisso. Essa faculdade que tinham os Espíritos de exercer sobre mim a sua influência, sem que eu tivesse feito previamente preparativos quaisquer, demonstrou-me a íntima relação que existe entre os seres deste mundo e os de um outro, e foi para mim uma prova de que essas relações podem ser estabelecidas em qualquer circunstância e em todas as condições. Com o intuito de obter provas ainda mais certas de seu poder sobre mim, esses seres me fizeram ver que tinham o dom de, servindo-se de meu organismo, manifestar a inteligência de que eles eram dotados como seres racionais e sensíveis. É assim que depois de ter aprendido a conhecer seu poder físico, procurei ocasiões favoráveis para ampliar a esfera de minhas experiências. Quando eu tomava parte em sessões com esse objetivo especial, a mesma força oculta apoderava-se de minha mão para obrigar-me a escrever. No começo, as frases eram curtas e só exprimiam idéias sem nexo; mas, à medida que minhas faculdades se desenvolveram nesse sentido, obtive páginas inteiras de escrita, tratando de teses e de assuntos mui variados. Mas em tudo o que foi escrito por minha mão, nessa época, nada deixava ainda supor qualquer intenção de produzir dessa maneira uma obra completa.” (págs. 92 e 93).





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