Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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L) Um dos exemplos mais admiráveis da brusca invasão dos fenômenos espíritas e da maneira pela qual se impõe a força em atividade, apesar de todas as oposições e da resistência dos médiuns, apresenta-se no começo do movimento espírita; trata-se da mediunidade das filhas da família Fox, em 1848. É inútil recordar todos os episódios dessa série de manifestações, pois que se pode encontrar a sua narração circunstanciada nas obras especiais: Modern Spiritualism, its Facts and Fanaticisms, pelo Sr. Capron, Boston, 1855; The Missing Link in Modern Spiritualism, por Lea Underhill, uma das irmãs Fox, Nova Iorque, 1885; só darei, para memória, a exposição cronológica dos principais incidentes dessa curiosa série de fenômenos.

Foi em 1848, em Hydesville, que se ouviram pancadas pela primeira vez; elas se repetem todos os dias, não deixando a família descansar, e intimidando as crianças; como não pudessem conservar em segredo essas manifestações, os vizinhos vão presenciá-las, e as perseguições começam. Pouco depois os Fox são denunciados como impostores ou como fazendo comércio com o diabo. A Igreja Episcopal Metodista, da qual os Fox eram adeptos notáveis, os excomunga. Descobre-se a natureza inteligente das pancadas, que revelam que um assassínio fora cometido na casa e que a vítima fora sepultada na cava, o que se verificou mais tarde. Em abril de 1848, a família Fox transporta-se para Rochester, para a casa da Sra. Fish, filha mais velha do Sr. e da Sra. Fox, que era professora de música. Mas os fenômenos se reproduzem e mesmo se desenvolvem consideravelmente. Às pancadas juntam-se o deslocamento e a projeção de toda espécie de objetos, sem contato, aparições e contatos de mãos, etc. Curiosos invadem a casa da manhã à noite e são testemunhas desses fenômenos. “A desordem torna-se tão grande que a Sra. Fish não pôde continuar a dar lições de música e tornou-se impossível ocuparem-se com o serviço doméstico.” (Capron, pág. 63). “Um ministro metodista propôs-se a exorcizar os Espíritos.” (pág. 60), mas isso não serviu de coisa alguma. Finalmente o acaso fez descobrir a possibilidade de comunicar com os Espíritos, pelo alfabeto. Depois de ter declarado, com grande surpresa da família, “que eles eram amigos e parentes” (Capron, pág. 64), os Espíritos exigiram que o estudo dos fenômenos se tornasse público. “Deveis proclamar estas verdades ao mundo.” Tal foi a primeira comunicação (Missing Link, pág. 48). Ao que a família Fox se recusou obstinadamente.

Para que o leitor possa capacitar-se da situação em que a família se achava naquela época, vou reproduzir aqui uma parte da narração da Sra. Lea Underhill:

“Desejaria pôr em evidência que os sentimentos de toda a nossa família, de todos nós, eram hostis a essas coisas bizarras e incongruentes; nós as considerávamos uma desgraça, uma espécie de calamidade que caía sobre nós, sem se saber donde nem por quê! De acordo com as opiniões que nos chegavam de fora, nossas próprias inclinações e as idéias que nos tinham sido inculcadas na infância nos levavam a atribuir aqueles acontecimentos ao “Espírito maligno”; eles nos tornavam perplexos e nos atormentavam; demais, lançavam sobre nós certo descrédito na localidade. Nós tínhamos resistido àquela obsessão e lutado contra ela, fazendo preces fervorosas para a nossa libertação, e entretanto estávamos como que fascinados por essas maravilhosas manifestações, que nos faziam suportar, contra a nossa vontade, forças e agentes invisíveis, aos quais éramos impotentes para resistir; que não podíamos nem dormir, nem compreender. Se nossa vontade, nossos mais sinceros desejos e nossas preces tivessem podido ter a preponderância, todas essas coisas teriam terminado naquela mesma ocasião, e ninguém, além da nossa vizinhança mais próxima, jamais teria ouvido falar dos “Espíritos batedores” de Rochester, nem da desventurada família Fox. Mas não estava em nosso poder deter ou dominar os acontecimentos.” (pág. 55).

“Em novembro de 1848, os “Espíritos” informaram a família de que não podiam mais lutar contra a resistência que se lhes opunham e que, em conseqüência da insubmissão dos médiuns às perguntas dos Espíritos, estes seriam obrigados a deixá-los. Os médiuns responderam que não tinham objeção alguma a fazer a isso, “que nada lhes poderia ser mais agradável, e que eles só queriam a partida dos Espíritos.” (Capron, pág. 88).

“Efetivamente, as manifestações detiveram-se; durante doze dias não se ouviu mais dar uma só pancada. Mas nesse ínterim produziu-se uma brusca mudança nas idéias dos membros da família; eles tiveram profundo pesar por terem sacrificado às considerações mundanas um dever que lhes tinha sido imposto em nome da Verdade, e quando, a pedido de um amigo, as pancadas soaram de novo, foram saudadas com alegria. “Parecia que recebíamos amigos antigos, escreve Lea Underhill; amigos que não tínhamos sabido apreciar dantes, tanto quanto era preciso.” (pág. 60).

“Entretanto, do mesmo modo que outrora, as pancadas não deixavam de repetir imperiosamente: “Tendes um dever a cumprir; queremos que torneis públicas as coisas de que sois testemunhas.” (Capron, pág. 90).

“Os interlocutores invisíveis traçaram o plano de operações que devíamos adotar, com os mais minuciosos pormenores; era preciso alugar a grande sala pública “Corinthian Hall”; os médiuns deviam subir ao estrado em companhia de alguns amigos; as pessoas designadas para ler a conferência eram G. Willets e C. W. Capron (autor do livro acima citado); este último devia fazer o histórico das manifestações; uma junta composta de cinco pessoas, designadas pela assistência, devia fazer uma investigação nessa matéria e redigir um relatório que seria lido na sessão seguinte. Os Espíritos prometiam patentear-se de maneira a serem ouvidos em todas as partes da sala. Essa proposta teve uma recusa categórica. “Não tínhamos de maneira alguma o desejo, diz o Sr. Capron, de nos expormos ao riso público e não procurávamos angariar uma celebridade desse gênero... Mas garantiram-nos que era o melhor meio de impor silêncio às calúnias e de fazer jus à verdade, e que prepararíamos assim o terreno para o desenvolvimento das comunicações espirituais, que se efetuaria em futuro próximo.” (págs. 90 e 91).

Mas o temor da opinião pública preponderava sempre, e ninguém se decidia a tomar a iniciativa dessas sessões; então os “Espíritos” propuseram estabelecer audiências em casas particulares, em grandes salas, para que pudessem convencer de sua faculdade de dar pancadas, perante um público muito diverso. Decorreu um ano inteiro antes que as instâncias e as exortações de uns triunfassem das escusas dos outros. Finalmente, fez-se o ensaio, e o Sr. Capron começou as experiências em casas particulares; “elas deram bom resultado, e as manifestações foram sempre interessantes e distintas.” (pág. 91). Foi só então, após numerosos ensaios, que decidiram tentar a grande prova, e um meeting público foi anunciado para a noite de 14 de novembro de 1849, no “Corinthian Hall”, em Rochester. O êxito foi completo. Três meetings consecutivos deram os mesmos resultados, e o movimento espirítico nasceu!...

M) Nos dois parágrafos precedentes vimos que as manifestações, posto que contrárias à vontade do médium, visavam entretanto um alvo que tendia para o bem ou cujas causas são compreensíveis e justificáveis pelo resultado. Mas nem sempre é esse o caso; é assim que nas simples manifestações de escrita automática ou por efeitos físicos sucede mui freqüentemente que as comunicações se componham somente de zombarias, de graças de mau gosto, das quais os médiuns são as primeiras vítimas; os Espíritos parecem aprazer-se em mistificá-los. Comunicações que tinham curso regular e satisfatório – provenientes sempre das mesmas personalidades, quer conhecidas em vida pelo médium, quer conhecidas apenas em conseqüência de uma série de comunicações – podem ser subitamente interrompidas pela interferência de um Espírito que só diz banalidades, faz declarações de amor, ou profere invectivas ou obscenidades, o que aborrece e encoleriza o médium; e não há outro meio de livrar-se de tal Espírito senão interrompendo as sessões.

Sucede o mesmo com as manifestações físicas; freqüentemente o médium é vítima dos mais lastimáveis gracejos; tiram-lhe os objetos de que ele tem necessidade, tiram os lençóis de seu leito, atiram-lhe água, atemorizam-no com diferentes ruídos (Light, 1883, pág. 31); nas sessões às escuras, essas manifestações apresentam algumas vezes um caráter tão violento, tão agressivo, tão hostil, que se torna perigoso continuá-las, e deve-se imediatamente encerrá-las. Às vezes as manifestações fazem irrupção no seio de uma família, sem que nunca tenham sido provocadas. Eis-nos em presença do grupo de fenômenos conhecidos sob o nome de “perseguições”; essas manifestações violentas, desagradáveis, estabelecem-se em uma casa, fazem fugir dela os habitantes, ou, antes, ligam-se a uma família e assumem o caráter de verdadeira perseguição, da qual é vítima não só a família do médium, como ele próprio.

Citarei apenas dois exemplos de “perseguições”. O primeiro deu-se em Stratford, nos Estados Unidos, na família do reverendo Eliakim Phelps, D. D., em 1850 e 1851, e é minuciosamente descrito no livro do Sr. Capron, Modern Spiritualism.

As manifestações anunciaram-se, como sempre, por pancadas, deslocamentos e projeções de objetos na casa; posto que as portas fossem fechadas à chave, desapareciam objetos. Via-se uma cadeira elevar-se no ar e em seguida tornar a cair no soalho por muitas vezes consecutivas, com uma força tal que se sentia a casa estremecer e o choque repercutir nas construções vizinhas. Um grande candelabro de braço foi arrancado da chaminé e levado de encontro ao forro da casa, por muitas vezes, com tal violência que chegou a quebrá-lo. Foi a primeira vez que um objeto se quebrou (pág. 141). “Sucedeu algumas vezes degenerarem as pancadas em gritos terríveis.” (ibidem).

“Viam-se aparecer no meio do aposento figuras formadas de diversas peças de roupa, provenientes de todas as partes da casa e dispostas de maneira que se assemelhavam a formas humanas.” (pág. 143).

Naquela época ainda não se sabia o que era um médium, mas notou-se entretanto que os fenômenos se ligavam particularmente ao filho do Dr. Phelps, Harry, um menino de onze anos. Seu chapéu e sua roupa foram rasgados por muitas vezes em pequenos retalhos (pág. 142). “Certo dia ele foi atirado dentro de um poço; de outra vez foi amarrado e pendurado a um ramo de árvore.” (pág. 146). “Quando o mandaram à escola, em Pensilvânia, foi por muitas vezes beliscado ou picado com alfinetes e incomodado de todas as maneiras.”; sua roupa e livros foram rasgados; as pancadas acompanhavam-no até na escola. A família de quem ele era pensionista alarmou-se e não quis mais recebê-lo; de maneira que se tornou preciso retirá-o de lá. (pág. 170).

Entrou-se em breve no período das “perseguições” materiais; o vasilhame e principalmente objetos de vidro e de porcelana foram quebrados; diariamente, durante muitas semanas, vidros foram quebrados; ao todo, 71 objetos diversos tinham sido inutilizados. O Dr. Phelps afirma que viu uma escova, que estava no pano da chaminé, precipitar-se para a janela e atravessar o vidro, quebrando-o com estalido; afirma também ter visto um copo sair da mesa de trabalho, em cima da qual estava, atirar-se para a janela e quebrar o último vidro que tinha ficado intacto; entretanto, declara que Harry e ele estavam a sós nesse aposento, e apressa-se em acrescentar que Harry, durante todo o tempo em que se davam esses deslocamentos estranhos, tinha ficado a seu lado, no vão de uma porta, a uma distância muito grande da chaminé e da mesa de trabalho, para que pudesse ter posto em movimento os dois objetos de que se trata, sem ser notado. (pág. 148).

“Em meados do mês de maio, o Dr. Phelps e Harry dirigiram-se a Huntingdon, a 7 milhas de sua residência. Eles tinham percorrido cerca de uma milha, quando uma pedra do tamanho de um ovo caiu no carro; foi uma espécie de sinal, pois que em pouco tempo cerca de doze pedras foram atiradas ainda; depois desse apedrejamento, cujos autores eram invisíveis, o Dr. Phelps, de regresso, contou dezesseis pedras que tinham caído no carro.”

O doutor tinha guardado em uma gaveta de sua mesa de trabalho dois canhenhos; no maior dos dois ele inscrevia diariamente a narração circunstanciada de todas as manifestações que se produziam; certo dia notou que todas as páginas em que escrevera essas notas tinham sido arrancadas e desapareceram. Depois de muito procurar, encontraram-se algumas dessas folhas no porão; quanto às folhas nas quais o Dr. Phelps havia feito a cópia de diversas escritas, tinham desaparecido sem deixar vestígio. Na gaveta de uma mesa de toucador, o doutor conservava certo número de escritos feitos por agentes misteriosos; certo dia, todos esses documentos se inflamaram, e o incêndio só se denunciou pelo fumo que se escapava da gaveta, quando os papéis já estavam consumidos a tal ponto que não era possível utilizá-los mais (pág. 163). Na noite de 18 de julho, ainda outros papéis, dentre os quais vinte cartas, guardadas na secretária do Dr. Phelps, foram queimados completamente antes que se tivesse descoberto o incêndio. Ao mesmo tempo verificava-se que o fogo tinha começado nos papéis conservados em dois armários, em baixo da escada, e foi ainda o fumo que denunciou o fogo (pág. 165). Quando o Sr. Phelps, a instâncias do Sr. Capron, acedeu finalmente em comunicar-se com as forças em atividade, teve-se a explicação desses estranhos acidentes, e os misteriosos correspondentes, conseguido o seu intento, cessaram com as manifestações.

Outro caso que quero mencionar, e que se refere do mesmo modo à combustão espontânea de objetos, deu-se a leste da Rússia, numa herdade do distrito de Ouralsk, antiga fronteira da Ásia. O proprietário da herdade, Sr. Schtchapov, comunicou ao Rebus, em 1886, a narração minuciosa das perseguições misteriosas às quais sua família esteve exposta durante seis meses, desde o mês de novembro de 1870. Esse caso, que é tirado da vida russa, apresenta tanto interesse, é tão notável e edificante, sob o ponto de vista da comparação com outros fatos análogos, de fonte estrangeira, e, demais, a narração do Sr. Schtchapov é acompanhada de pormenores tão precisos, que não me posso abster de dar muitas de suas passagens in extenso:

“Hoje, completam-se 15 anos da época memorável em que nossa pacífica vida de família foi subitamente perturbada por um acontecimento tão insólito, estupefaciente, que desafiava qualquer explicação natural; acabaram então por atribuí-lo a fraude, e fomos nós a quem acusaram de tê-la praticado, a nós que nenhuma parte tínhamos tomado em tudo aquilo; foi em virtude de tal imputação que o acontecimento foi levado ao conhecimento público, no Mensageiro do Oural (1871).

Se bem que eu tivesse adquirido, depois da época dessas manifestações, alguns conhecimentos teóricos acerca dos fenômenos chamados mediúnicos, pela leitura de tudo quanto existia publicado sobre esse assunto em língua russa, e que tivesse chegado a capacitar-me, até certo ponto, do gênero de manifestações que se tinham produzido em meu domicílio, devo declarar que, na realidade, as coisas que sucederam não deixam de produzir impressão muito diversa da que se experimenta em uma leitura ou em uma narração, pois que não há meio de fazer-nos duvidar daquilo que presenciamos.

Efetivamente, que partido se deve abraçar quando se procurou inutilmente deixar a depressão moral que pesa sobre o espírito em presença de acontecimentos extraordinários e anormais, quando se empregam esforços contínuos para encontrar uma solução que se aproxime por pouco que seja da ordem natural das coisas – e quando, entretanto, os fatos observados levam, por assim dizer, à perplexidade, porque violentam ao pretendido bom senso?

Acrescente-se a isso que nessa época nem sequer suspeitávamos da existência de uma força mediúnica, que essas bizarras e caprichosas manifestações eram assinaladas, do meio para o fim, por uma tendência evidentemente hostil, como se fossem dirigidas contra nossa tranqüilidade. Suporto os dissabores do descrédito, da maledicência e das calúnias que nos granjearam esses acontecimentos, de nossa vizinhança, em um raio de 150 quilômetros.

É verdade que eu mesmo era a causa dessa vociferação, pois que narrava e descrevia esses incidentes a qualquer adventício que vinha à procura de explicações. Vinham a minha casa, faziam investigações, ouviam e olhavam as coisas, que se passavam à vista de todos; mas quanto à explicação, sempre nada. Dentre os visitantes, havia pessoas esclarecidas, algumas mesmo de grande erudição; e todos procuravam dar uma explicação natural “qualquer” (sic). Deixamo-nos embalar por essas “sabedorias”, segundo as quais as manifestações que se produziam eram devidas ora à ação da eletricidade atmosférica, do magnetismo, ora a um estado mórbido – uma espécie de mania zombeteira – de minha mulher que se aprazia em nos mistificar, rindo in petto de nossa ingenuidade.

Aceitávamos de boa fé uma e outra dessas explicações, mas, no fim de alguns dias, todas essas teorias se desfaziam sob a evidência dos fatos. É preciso ter feito a experiência por si mesmo, é preciso ter visto e ouvido, ter passado noites sem dormir e experimentado moralmente e fisicamente tormentos até o esgotamento das forças, para chegar finalmente à convicção inabalável de que há coisas das quais os sábios nem sequer suspeitam.

Era a 16 de novembro de 1870, ao cair da noite; eu entrava em casa depois de uma viagem de alguns dias que havia feito a uma pequena cidade, distante 30 verstas de nossa herdade, perto do moinho; habitávamos ali havia ano e meio; minha família constava de duas senhoras idosas – minha mãe e minha sogra, ambas de 60 anos –, de minha mulher, que tinha então 20 anos, e de minha filha, uma criança de peito. Logo depois das primeiras palavras de saudação, minha mulher informou-me que nas duas últimas noites quase não se tinha dormido em casa, em conseqüência de um ruído estranho, pancadas no celeiro da casa, nas paredes, nas janelas, etc. Ela tinha chegado à conclusão de que a casa estava simplesmente assombrada pelo diabo.”

O Sr. Schtchapov refere em seguida que ele próprio, durante cinco noites consecutivas, ouviu pancadas estranhas que se produziam quase sem interrupção, quer na janela, quer nas paredes; que essas pancadas se renovaram a 20 de dezembro e prolongaram-se por muitos dias, que os objetos começaram a deslocar-se, e, coisa curiosa, que “os corpos moles caíam com um ruído igual ao que produz um corpo duro, ao passo que objetos sólidos não ocasionavam choque algum”. Na véspera do ano de 1871, as pancadas retumbaram de novo; dessa vez os fenômenos foram observados por uma reunião numerosa. “Às pessoas que estavam do lado de fora as pancadas pareciam darem-se no interior, as que estavam no aposento supunham que o ruído era produzido nas paredes, do lado de fora.” O Sr. Schtchapov continua:

“A 8 de janeiro, depois de numerosas manifestações, tais como pancadas, deslocamentos de objetos, etc., minha mulher divisou um globo luminoso que saía de baixo de seu leito, a princípio de pequena dimensão, e depois, conforme ela dizia, aumentando de volume até o tamanho de uma sopeira, com muita semelhança com um balão de borracha vermelha; ela ficou tão assustada que perdeu os sentidos. Desde então, encarávamos esses fenômenos com olho hostil, com terror mesmo, tanto mais porque, no dia seguinte, esses sinistros ruídos se fizeram ouvir mesmo na janela do quarto de minha mulher, em pleno dia, cerca das três horas, na ocasião em que ela se preparava para repousar. Desse dia em diante, esses ruídos a acompanhavam por toda parte aonde ela ia. É assim que certo dia, quando tomava o chá das cinco horas, ouviu soarem pancadas no braço da espreguiçadeira em que estava sentada, e, quando tomei o seu lugar, as pancadas foram dadas perto do lugar em que ela se colocou, no encerado da espreguiçadeira, e às vezes mesmo nas dobras de sua saia de lã; elas a acompanhavam até o armário do aparador, o guarda-comida, etc. Francamente, começávamos a ter medo; essa inflexível realidade dos fenômenos, produzindo-se à claridade do dia, tão exclusivamente ligados aos passos de minha mulher, nos afligia a ambos; ela chegava a chorar.

Apreensiva pelas conseqüências funestas para a sua saúde e sobretudo para o seu estado mental (ela sentia uma fraqueza geral e necessidade de dormir todas as vezes que as manifestações iam produzir-se, e se, nesse momento, achava-se no leito, um sono profundo apoderava-se dela), decidi mudar de residência por um mês e transportei-me com a família para a cidade vizinha, onde possuíamos uma casa. No mesmo dia de nossa chegada, encontramos um de nossos amigos, o Dr. Ch., médico, que estava ali em serviço. Depois de ter ouvido minha narração, deu sua opinião, que afastava, bem entendido, toda a idéia de uma explicação misteriosa ou sobrenatural dos fenômenos que eu lhe expunha: ele fazia tudo correr por conta da eletricidade e do magnetismo, que agiam, dizia, sob a influência de uma composição particular do terreno sobre o qual era edificada a nossa casa, ou de faculdades especiais inerentes ao organismo de minha mulher. Essas explicações, se bem que insuficientemente claras e pouco em relação com os fatos, nos pareceram concludentes, a nós pessoas pouco versadas nas questões científicas; em todo caso, elas exerceram sobre nós um resultado tranqüilizador; tudo isso nos parecia muito vago; mas, parecia-nos compreender que se tratava de leis da Natureza; era um verdadeiro achado; desejávamos a todo custo desembaraçar-nos da obsessão diabólica (não conhecendo outro termo, é assim que tínhamos a princípio qualificado a força oculta).

Mas qual não foi a nossa surpresa, direi mesmo nosso terror, quando no dia primeiro de janeiro, ao recolher-nos, tarde da noite, e quando minha mulher se deitou, as pancadas recomeçaram, e os objetos foram de novo lançados através dos aposentos, e até objetos perigosos: por exemplo, uma faca de mesa, que estava em cima do fogão, foi arremessada com força de encontro à porta. Pusemos em lugar seguro todos os objetos cortantes ou pesados, mas era trabalho perdido: sucedia durante a noite dispersarem-se por todo o aposento todas as facas e garfos, cuidadosamente fechados por nós no armário; alguns chegaram até a penetrar na parede, perto de nosso leito. Confesso que eu começava a temer seriamente essas manifestações, que se tornavam ameaçadoras, e que acolhia com um sentimento de gratidão as pessoas que nos iam visitar nessa época e que passavam a noite em nossa casa, levadas pela curiosidade.

Disse que a teoria elétrica do doutor estava pouco em relação com os estranhos fenômenos que tínhamos observado até então; mas, para as manifestações que se produziram a contar de 24 de janeiro, ela devia ser considerada como absolutamente insustentável. Nessa noite recebemos a visita de um de nossos amigos, o Sr. L. Alekseieff. Minha mulher e ele achavam-se em um aposento que dava para aquele em que eu passeava a passos largos, com minha filhinha nos braços, cantando diversas árias para distraí-la. Fiquei um pouco surpreso com o pedido que minha mulher e Alekseieff me fizeram de continuar uma canção que eu acabava de interromper. Fiz o que eles pediam. Depois, pediram-me que cantasse uma outra ária; comecei a cantar A Figurante e fui ter com eles. Fui informado de que minha canção foi acompanhada de pancadas na parede, marcando o compasso muito perto do lugar em que eles estavam sentados. Recomeço a canção e, efetivamente, ouço as pancadas como se fossem produzidas pelas unhas da mão, marcando precisamente cada compasso da canção; essas pancadas foram do mesmo modo ouvidas do lado de fora, como tivemos a cautela de verificar. Meu amigo cantou, para experimentar, algumas árias muito lentas, interrompendo-as de tempos em tempos, e entretanto o ritmo das pancadas continuava a seguir o compasso, se bem que as interrupções intencionais produzissem certa confusão. Experimentou-se cantar em voz cada vez mais baixa, terminando em cochicho, em simples movimento de lábios, chegou-se até a cantar mentalmente, e então o acompanhamento foi completamente de acordo. A força que produzia esse fenômeno era evidentemente dotada de senso musical e possuía o dom da adivinhação!

Os rasgos de inteligência, de que a força oculta deu prova, impressionaram-nos vivamente, e resolvemos continuar essas experiências naquela mesma noite. Com o fim de obter sons mais precisos e mais claros, convidamos minha mulher a sair do leito que ocupava e ir para um outro, que estava perto de uma porta envidraçada. Nossa esperança realizou-se: logo que ela se acomodou nesse lugar, as pancadas sucederam-se rapidamente nos vidros. Nessa ocasião as pancadas não se limitavam a bater o compasso de diversas árias: marchas, polcas, mazurcas (o hino nacional foi entoado com certo entusiasmo), elas nos demonstravam que a força que as produzia podia bater um número qualquer pensado.

Cumpre-me afirmar, uma vez ainda, que tomávamos as cautelas mais minuciosas para garantir-nos contra qualquer mistificação e que não perdíamos de vista a pessoa que representava o principal papel: minha mulher, que durante todo o tempo dormia profundamente.

Decidi-me a comunicar tudo o que se passava ao Dr. Ch., o mesmo que tinha aventado a teoria elétrica para explicar os fenômenos em questão. Além disso eu tinha uma razão para dirigir-me a ele: a seção de Orenbourg da Sociedade Imperial de Geografia acabava de pedir ao Major Pogorelov, comandante dos cossacos de Iletzk, que desse informações acerca dos fenômenos meteorológicos nesse raio, e principalmente sobre o globo luminoso do qual falei mais acima. Enviei, pois, um exemplar de minha descrição à Sociedade de Geografia e outro ao Sr. Ch., pedindo-lhe, bem entendido, que me desse um esclarecimento.

Em pouco tempo tivemos a satisfação de receber a visita de três pessoas que nos eram muito conhecidas por suas excelentes qualidades e elevada competência: o Sr. A. Akoutine, engenheiro-químico, amigo do governador de Orenbourg; o Sr. N. Savitch, homem de letras; e o médico em questão, o Sr. Ch.

Esses senhores declararam-nos, a princípio, terem vindo por iniciativa própria, na qualidade de amigos, curiosos de estudar os fenômenos. Depois eu soube que foram enviados oficialmente para esse fim, pelo governador, o General Verevkine.”

O Sr. Schtchapov pôs-se inteiramente à disposição dos visitantes; sua mulher também se impôs certos incômodos com o fim de facilitar a seus hóspedes a incumbência que tinham ido desempenhar; assim, ela os autorizou a visitar seu quarto em qualquer ocasião; toda a roupa supérflua foi retirada; o pessoal da casa afastou-se tanto quanto era possível.

“Começou-se por submeter a casa a um exame minucioso. Só ocupávamos no prédio três aposentos, incluindo nesse número o vestíbulo; o resto da casa só era habitado durante o estio e servia de desafogo no inverno.

Como não tínhamos sido incomodados havia já alguns dias, eu não podia afirmar que as manifestações se produziriam. Mas, desde o primeiro dia, tivemos ensejo de ouvir pancadas, de ver a projeção de diversos objetos, etc. No dia seguinte foram instalados os aparelhos de física levados por nossos visitantes; foi preciso levantar parte do soalho no quarto de minha mulher, para assentar longa haste metálica, uma ponta da qual foi enterrada no chão, e a outra, munida de uma ponta, terminava exatamente defronte da porta envidraçada na qual as pancadas eram dadas habitualmente; sobre a vidraça dispôs-se um condensador com lâminas de estanho; esses senhores tinham ainda uma garrafa de Leida, instrumentos científicos cujo emprego eu desconhecia; mas nenhum desses aparelhos serviu para o que quer que fosse, e nada, em todas as suas experiências, permitiu supor que existisse o menor traço de afinidade entre os fenômenos que eles estudavam e a eletricidade ou o magnetismo. As reações químicas que o Sr. Akoutine realizou não indicaram de maneira alguma qualquer tensão particular da eletricidade atmosférica no interior da casa, nem estado algum de saturação de ozona no ar ambiente. Finalmente, seus esforços nesse sentido não chegaram a resultado algum e, entretanto, as manifestações prosseguiam em seu curso, regularmente, todas as noites; nós escrevíamos sistematicamente a sua narração, em ordem cronológica, em um registro especial, e revezávamos a vigília no quarto de minha mulher, onde as pancadas ordinariamente começavam.

Procuramos em primeiro lugar submeter os fenômenos a uma classificação qualquer, dispô-los por categorias, e de cada vez, como se tivesse havido um propósito (e talvez houvesse um), os fatos deram-nos um desmentido. Por exemplo, no começo de nossas observações, seguíamos com a vista os objetos que se elevavam da mesa diante da qual estávamos sentados, tomando o chá, e fizemos a observação de que esses objetos – colheres, tampas de bules etc. – dirigiam-se em todos os sentidos, afastando-se do lugar em que minha mulher se achava; concluímos daí que ela devia ser dotada de uma força repulsiva, uma espécie de corrente negativa; eis que subitamente tivemos que verificar o inverso; ela aproximou-se do armário e, apenas o abriu, uma multidão de objetos se escapou de dentro e caíram-lhe em cima, dirigindo-se em seguida para ponto distante. Mas, acercando-nos completamente de minha mulher, nunca nos foi possível verificar em que momento o objeto deixava seu lugar – nós o percebíamos somente no decurso de seu trajeto ou quando caía. Persistindo em nosso intuito, convidamos minha mulher a tocar nos objetos que estavam no armário, um após outro. Enquanto olhávamos, nenhum deles se movia. De repente uma peça qualquer, um castiçal ou uma quartinha, colocado em um canto do armário e para o qual ninguém olhava, atira-se para minha mulher, passa por cima de nossas cabeças e cai no chão a considerável distância. Nessas condições, foi efetivamente preciso atribuir à minha mulher uma força atrativa. A cada instante se nos deparavam fatos de tal maneira contraditórios que desorientavam todas as nossas suposições.

Não posso dizer com exatidão quantos dias passamos dessa maneira, quando se produziu uma coisa mais enigmática ainda do que tudo o que havíamos presenciado até então. Uma noite em que Akoutine estava de vigia perto de minha mulher, chamou-nos baixinho com voz inquieta e nos contou que, ouvindo por muitas vezes repetir-se um roçar estranho no travesseiro e no lençol de minha mulher, tinha tido a lembrança de arranhar com a unha o travesseiro e os lençóis, e que, com surpresa sua, esse ruído foi repetido no mesmo lugar. Ele pediu que nos certificássemos, pois que não pretendia confiar em si próprio. Efetivamente ouvimos, todas as vezes que ele arranhava com a unha no lençol, esse ruído repetir-se imediatamente no mesmo ponto. Se ele passava o dedo duas vezes sobre a fronha do travesseiro, o som repetia-se duas vezes. Sucedia o mesmo exatamente quando ele fazia variações; por exemplo, quando dava duas pancadas fortes e a terceira fraca. Qualquer que fosse o número de pancadas, algumas vezes apenas perceptíveis, dadas quer no travesseiro, quer no lençol, quer na madeira do leito ou numa cadeira, mesmo em lugar distante, eram repetidas o mesmo número de vezes, com a mesma força e no mesmo lugar, ao passo que minha mulher dormia durante todo o tempo, imóvel. Akoutine teve a idéia de perguntar: “Qual de nós bateu?” e nomeava em seguida as pessoas presentes. De cada vez os sons foram repetidos precisamente no momento de pronunciar o nome daquele que os tinha produzido. Durante todo o tempo vigiávamos de perto minha mulher, que dormia sem fazer o mínimo movimento; sua cabeça estava mesmo voltada para a parede, de maneira que ela não teria conseguido ver-nos, ainda mesmo no caso em que tivesse conservado os olhos entreabertos, o que, aliás, não nos teria passado despercebido, pois o quarto estava suficientemente iluminado.

Akoutine estava perplexo. Começou a passear pelo quarto a passos largos e em silêncio. Quando se tranqüilizou, começou a fazer diversas perguntas relativas à política, à literatura, etc. Entre outras, pediu pormenores acerca da guerra franco-alemã, e as respostas que recebia, em relação com os acontecimentos e com as pessoas, por intermédio de pancadas, eram tão precisas e exatas que só um homem muito versado na política e acompanhando atentamente os jornais teria podido fornecê-las; o que certamente não era o caso que se dava com minha mulher, pois que ela nunca lia jornais; aliás, nós não os recebíamos naquela época. Outra particularidade: todas as vezes que insistíamos em receber uma resposta à pergunta propositadamente falsa, não se produzia o mínimo ruído. Akoutine fez ainda perguntas em línguas estrangeiras – em francês e em alemão – e a resposta se dava invariavelmente apropriada e exata, segundo o testemunho do interrogador, pois que os demais desconheciam essas línguas... Interpelei diretamente Akoutine, pedindo uma explicação qualquer dessas coisas; se todo esse arranhar era realmente produzido por minha mulher (nós ainda não estávamos certos do contrário), como era possível que ela, que nunca lia jornais, conhecesse os episódios da guerra, as personagens salientes e em geral diversos acontecimentos dos quais nunca tinha ouvido falar? Ou, ainda melhor, como explicar que ela pudesse responder com exatidão às perguntas em francês e em alemão, ao passo que, na escola, só tivesse aprendido, da língua francesa, apenas o alfabeto (quanto ao alemão, era língua que não lhe tinha sido ensinada absolutamente)? Akoutine parecia mais impressionado que todos nós; pediu-nos que o deixássemos só e ficou o resto da noite a passear no quarto, em profunda meditação.

No dia seguinte, tomando o chá, propositadamente dirigiu a conversação para o terreno da política, e interrogou minha mulher acerca de pormenores universalmente conhecidos relativos à guerra, e pôde verificar que ela estava em completa ignorância acerca das respostas obtidas na véspera por intermédio de arranhadelas, e que apenas sabia que tinha havido uma guerra entre os franceses e os alemães. Efetivamente, desde o seu casamento, minha mulher só cuidava dos filhos e do serviço doméstico.

Akoutine foi, pois, coagido a convir em que os fenômenos não podiam ser produzidos pela eletricidade ou pelo magnetismo, mas que podiam ser o resultado de uma força análoga qualquer; supôs que, durante o sono, minha mulher se achava em um estado particular de clarividência; que ao receber as impressões vindas do exterior, a elas respondia, por assim dizer, interiormente, psiquicamente. Isso era bem extraordinário, para Akoutine como para todos nós, pois naquela época não se falava em fenômenos psíquicos.

Akoutine declarou: visto que esses fenômenos não podiam ser classificados em nenhuma das categorias definidas pela ciência, visto que os fatos eram evidentes e que a realidade deles era indiscutível, abstinha-se, naquela ocasião, de aplicar-lhes uma teoria científica qualquer e limitava-se a designá-los sob o nome de “Helenismo”, de acordo com o nome de minha mulher: Helena. Ele tinha a intenção de mandar a esse respeito um artigo para um jornal alemão. A fim de tornar os fatos mais concludentes ainda, pediu-nos que transferíssemos as experiências para a povoação de Iletzk e, por conseguinte, nos instalamos ali em nossa casa. Ali as mesmas manifestações se produziram, porém mais fracamente; as pancadas só se faziam ouvir no soalho, nas proximidades de minha mulher, como se se utilizassem dela. Nas paredes de tijolos nada se ouvia...

Mas, por ocasião de nosso regresso à herdade, logo nos primeiros dias de março, as manifestações recomeçaram com maior desenvolvimento, e dessa vez se produziram independentemente da presença de minha mulher. Certo dia, à tardinha, vi uma pesada espreguiçadeira dar saltos para o ar e cair de novo sobre os quatro pés, enquanto minha mulher estava deitada em cima dela, com grande terror seu, naturalmente. Dou a esse caso uma importância especial, porque até então, se bem eu não tivesse mais dúvida, sentia-me um pouco sob a influência das pessoas estranhas que observavam os fatos ao mesmo tempo que eu; mas eis que em pleno dia, quando eu podia ver distintamente a espreguiçadeira e capacitar-me de que ninguém se achava debaixo dela e que minha mãe estava deitada nela, tranqüilamente, e só eu e o criado de recados nos achávamos no aposento, estando este último no corredor perto da porta, eis que essa espreguiçadeira, de 90 a 100 quilogramas, começa a dançar, elevando-se completamente no espaço, com minha mãe! Isso não era certamente uma alucinação.

Nessa mesma tarde – ou no dia seguinte –, quando nos tínhamos reunido na sala nobre, uma faísca azulada apareceu embaixo do lavatório, no aposento vizinho, dirigindo-se para o quarto de minha mulher (que não estava lá naquela ocasião), e simultaneamente nos apercebemos de que alguma coisa se tinha inflamado neste último aposento. No mesmo instante me dirigi precipitadamente para ali e vi que ardia um vestido de algodão que estava em confecção. Minha sogra, que se achava no aposento, me tinha precedido e estava ocupada em apagar o fogo: ela havia atirado uma bilha d’água. Detive-me na entrada, não deixando que ninguém passasse, e comecei a examinar se o fogo tinha sido produzido por uma outra causa que não a faísca que tínhamos visto, por uma vela, por exemplo, ou um fósforo; mas não pude descobrir coisa alguma. Um cheiro ativo de enxofre enchia o quarto, exalando-se do vestido queimado, cujas partes carbonizadas ainda estavam quentes e desprendiam vapor, como se se acabasse de borrifar um pedaço de ferro aquecido ao rubro.

Certo dia, fui obrigado a ausentar-me por causa de um negócio urgente. Foi com grande pesar que deixei minha família em momento tão precário e, para maior tranqüilidade, pedi a um moço de nossa vizinhança, o Sr. P., que ficasse em casa durante minha ausência.

Depois do meu regresso, encontrei minha família prestes a fechar as malas: os trastes estavam arrumados em carroças e prontos para a partida. Declararam-me que era impossível habitar por mais tempo naquela casa: os objetos inflamavam-se uns após outros e, de mais, o vestido de minha mulher tinha começado a arder na véspera; o Sr. P., que se tinha precipitado para apagar o fogo, ficara com as mãos queimadas. Notei, efetivamente, que ambas as suas mãos, envoltas em panos, estavam cobertas de empolas. O Sr. P. fez-me a narração seguinte: Na noite de minha partida, as manifestações eram acompanhadas de globos luminosos que apareciam defronte da janela que se abria no corredor externo; apareceram muitos, de tamanho que variava entre uma batata grande e uma noz; eram de cor vermelha intensa e violeta clara, antes opacos do que transparentes. Esses meteoros se sucederam durante muito tempo. Acontecia que um desses globos de fogo, aproximando-se da janela, girava durante algum tempo do lado de fora dos vidros e desaparecia sem o menor ruído, e que imediatamente era substituído por outro globo, que chegava do lado oposto do corredor, e assim por diante. Apareciam mesmo muitos deles ao mesmo tempo.

Esses globos, tais como fogos fátuos, pareciam ter tendência a penetrar na casa. Minha mulher não dormia ainda. Aconteceu na noite seguinte, quando minha família estava acomodada nos degraus da entrada exterior (a estação tornava-se quente), que o Sr. P., entrando em casa, visse um dos leitos ardendo. Ele gritou por socorro, apressou-se em atirar ao chão cobertor e lençóis e, depois de ter apagado o incêndio que começara a fazer progressos, e verificado cuidadosamente se tinha ficado uma faísca qualquer, saiu para dar parte do que tinha acontecido. Estávamos comentando como o fogo tinha podido atear-se, não havendo no quarto nem vela, nem fósforo, nem chama qualquer... quando começamos a sentir subitamente um cheiro de incêndio que saía do quarto. Dessa vez era o colchão que ardia por baixo e o incêndio já tinha destruído a crina a tal ponto que era impossível atribuí-lo a uma falta de cuidados, no momento da primeira aspersão.

Fatos ainda mais graves se verificaram, em conseqüência dos quais a permanência naquela casa se tornava impossível daí em diante; era preciso a todo custo mudar de residência imediatamente, apesar dos obstáculos que teríamos de afrontar em virtude do degelo e das enchentes que tinham sobrevindo.

Cito as palavras do Sr. P.: “Eu estava sentado tranqüilamente, tocando guitarra. Um vizinho, o moleiro que tinha ido visitar-nos, acabava de deixar-nos. Alguns instantes depois, Helena Efimovna (minha mulher) saiu também. Apenas ela tinha fechado a porta após a sua passagem, meus ouvidos foram impressionados por uma espécie de gemido queixoso e surdo, que parecia vir de longe. Julguei reconhecer aquela voz e, depois de um momento de torpor, sob a impressão de vago sentimento de terror, precipitei-me para o vestíbulo de entrada e divisei uma coluna de fogo no meio da qual se achava Helena Efimovna; seus vestidos ardiam pela parte inferior e ela estava rodeada de chamas.

Compreendi, à primeira vista, que o fogo não podia ser muito intenso. Como o vestido era muito fino e leve, precipitei-me para apagá-lo com as mãos, porém senti um calor atroz, como se tocasse em cera em fusão... Subitamente um estalido se fez ouvir em baixo do soalho, que se abalava e vacilava durante todo o tempo. Nesse momento, o moleiro correu em meu auxílio, e ambos conseguimos transportar minha mulher, que tinha perdido os sentidos.”

Eis agora a narração de minha mulher: Quando ela transpusera a entrada da porta que se abria para o vestíbulo, o soalho cedeu sob seus passos; um ruído ensurdecedor retumbou no aposento e ela viu aparecer uma faísca azulada, semelhante à que tínhamos visto sair de sob o lavatório. Ela teve apenas tempo de dar um grito e viu-se imediatamente envolta em chamas. Perdeu os sentidos. Coisa curiosa, ela não apresentava nenhuma queimadura, mas seu vestido estava queimado, até acima dos joelhos.

Que nos restava a fazer? Examinando as mãos queimadas do Sr. P. e o vestido de minha mulher consumido em parte, sem poder descobrir ali vestígio algum de um líquido inflamável, decidi que efetivamente nada mais tínhamos a fazer do que fugir daquela casa, o que resolvemos naquele mesmo dia. Provemo-nos de móveis em casa de um habitante da aldeia vizinha, um cossaco, onde permanecemos, sem incidente de qualquer natureza, até o fim da estação das chuvas.

Depois do regresso a nossa casa, os fenômenos não se reproduziram mais. Entretanto, resolvi mandar demolir o prédio.”

Citarei ainda uma observação mui interessante acerca das materializações, feita pelo Sr. Schtchapov no final de seu artigo. Esse caso não se refere precisamente ao assunto de que me ocupo neste lugar, mas tem grande valor em razão da sua raridade:

“Eu me tinha esquecido de mencionar que por duas vezes tive ocasião de verificar o que se chama presentemente fenômenos de materialização (nós chamávamos àquilo “diabruras”).

Certo dia minha mulher divisou pela janela, do lado de fora, mão rósea, delicada, como a de uma criança, de unhas lustrosas, que tocava tambor nos vidros. Na mesma janela, em outro dia, ela se surpreendeu com o aparecimento de duas pequenas formas vivas que tinham muita semelhança com sanguessugas; essa aparição desagradável produziu-lhe uma impressão tal que ela perdeu os sentidos. De outra vez fui testemunha de fenômeno semelhante: eu estava só em casa, minha mulher dormia e eu acabava de passar muitas horas à espreita, para descobrir o autor das pancadas que ouvia dar no soalho do quarto de minha mulher (tinha a suspeita de que ela mesma podia produzi-las, fingindo estar completamente adormecida). Por muitas vezes deslizei de mansinho até à sua porta, mas, todas as vezes que eu olhava furtivamente para dentro do quarto, o ruído cessava, para recomeçar desde que eu me afastava, ou mesmo desde que desviava os olhos. Era como de propósito para incomodar.

Mas, de uma vez – foi a vigésima, se não me engano – fiz uma entrada brusca no quarto, no momento em que as pancadas recomeçavam... e estaquei, gelado de terror: uma pequena mão rósea, quase infantil, elevou-se subitamente do soalho, desapareceu entre o cobertor de minha mulher adormecida e escondeu-se nas dobras, perto de sua espádua, e eu pude ver, distintamente, o cobertor ondular de maneira inexplicável, desde sua extremidade até o lugar, perto da espádua, onde a mão se tinha contraído. Não havia, parece, motivo para um terror exagerado, e entretanto, repito-o, fiquei petrificado de terror, pois essa mão não era a de minha mulher (se bem que a sua também fosse pequena). O que eu tinha visto, vi-o mui distintamente. Aliás, a posição na qual minha mulher estava deitada (sobre o lado esquerdo, voltada para a parede), sem fazer movimento algum, não lhe teria permitido levar a mão até o chão e muito menos levantá-la tão rapidamente, em linha reta para a espádua. Que era pois? Uma alucinação? Não. Mil vezes não! Não sou sujeito a essa espécie de coisas. Talvez fosse uma mistificação da parte de minha mulher, obedecendo a uma inclinação mórbida de enganar? Mas a forma, a cor, a exigüidade da mão aparecida, não me permitiam deter-me nessa suposição. E depois a minha defunta era uma mulher de princípios, de caráter sério, esposa e mãe exemplar, religiosa, e não sofreu de espécie alguma de acessos até à morte (ela faleceu em abril de 1879, de complicações de parto).

Entretanto, a maior parte dos fenômenos que se produziram – deslocamento de objetos, pancadas – ocultavam-se por assim dizer atrás dela, razão pela qual muitas pessoas estavam persuadidas de que essas manifestações eram obra sua, não querendo levar em conta numerosos casos em que sua intervenção teria sido materialmente impossível; por exemplo, quando os diversos objetos e utensílios eram arremessados do interior de armários fechados, de cofres, etc., nos quais ela não tocava naquela ocasião. Certo dia em que acabávamos de sentar-nos em torno da mesa com os três membros da comissão, dos quais já falei, e com outros convidados, e quando minha mulher, voltando do guarda-comida, conduzindo muitos púcaros com peixe de salmoura, se preparava para abrir a porta exterior do vestíbulo, precisamente defronte da mesa, nesse momento exato recebemos uma multidão de objetos miúdos, tais como: balas de chumbo, pregos velhos enferrujados e outras coisas usadas que tinham sido atiradas numa velha caixa em um quarto que servia de dispensa (como tive ocasião de lembrar-me mais tarde), e que iam naquele momento cair com uma rapidez fulminante em cima da mesa diante da qual estávamos sentados. O criado, que acompanhara minha mulher, afirmou formalmente que ninguém havia tocado naquela caixa. Além disso, ter-lhe-ia sido impossível atirar todos esses objetos através do aposento que nos separava, tanto mais quanto ela estava com as mãos ocupadas.

É curioso notar que, apesar da força com a qual esses objetos pesados caíram em cima dos pratos, não se quebrou um só. Apesar de tudo, as circunstâncias eram de natureza a fazer desconfiar que minha mulher nos tinha pregado aquela peça, se bem que nenhum de nós a tivesse visto fazer o mínimo gesto ou esforço necessário para produzir esse resultado. Repito-o, aquela força misteriosa parecia insistir em comprometer a médium.”

No Rebus podem ler-se numerosos exemplos análogos, que se deram na Rússia, e onde as manifestações mediúnicas tiveram o caráter de verdadeiras perseguições. Citarei ainda um caso, que não deixou de atrair a atenção geral, porque é único no gênero, pois que os fenômenos foram verificados por um inquérito administrativo e judiciário. O fato passava-se em 1853, em Lipzy, perto de Kharkov. Os autos desse caso tinham sido conservados nos arquivos (atualmente suprimidos) do batalhão da guarnição de Kharkov; tinham por título: “Processo no Tribunal do Distrito de Kharkov: manifestações que ocorreram no aposento do chefe do corpo de ranchos a cavalo, em Lipetzk, o Capitão Jandatchenyo; incêndio que se declarou em conseqüência dessas manifestações, a 25 de julho de 1853, na povoação de Lipzy”. O Rebus publicou em 1884 (pág. 4) um resumo desse processo, segundo os documentos autênticos que estão em meu poder.

Mencionarei ainda um exemplo de “perseguições” semelhantes; ocorreu em 1862, em Tachilk, pequena povoação do Governo de Kiev, na família da Sra. Plot. Uma descrição circunstanciada desse caso foi comunicada ao Rebus (1888, pág. 120), pelo Dr. Kousnetzov.

Coisa curiosa, no mesmo ano, perseguições da mesma natureza, sofridas pela família do respeitável Sr. Joller, na Suíça, coagiram-no a abandonar a casa de seus pais. No caso da Sra. Plot, a prece mudou completamente o caráter das manifestações; mas, em casa do Sr. Joller, não se recorreu à prece (apesar das instâncias dos Espíritos), e os resultados foram completamente diversos. Os leitores encontrarão a esse respeito pormenores interessantes na pequena brochura do Sr. Joller: Darstellung selbsterlebter mysticher Erscheinungen, Zurique, 1863. Veja-se também, acerca do mesmo assunto, os artigos publicados no The spiritual Magazine, 1862, pág. 499, e 1863, pág. 48; Human Nature, 1875, pág. 175, e um artigo sobre O Espírito Batedor (Polter-Geist), em Light, 1883, pág. 125.



* * *

Não compreendo de que maneira os fenômenos que acabo de enumerar poderiam harmonizar-se com as teorias do Sr. Hartmann, pois que, segundo a sua opinião, todas as manifestações espíritas não passam de manifestações da consciência sonambúlica, produzindo-se, quer por intermédio dos músculos do médium, quer por intermédio de sua força nervosa. A consciência sonambúlica não é, como o vimos, mais do que uma função das partes médias do cérebro, e acha-se sob a dependência “dessa parte da crosta cerebral, que é a sede da vontade consciente”..., “o funcionamento dessas partes médias só tem importância como ato preparatório ou executivo”; mais adiante o Sr. Hartmann diz também: “ainda que essas partes médias do cérebro sejam a sede da memória, da inteligência e dos desejos, os resultados de seu funcionamento podem muito bem ser considerados como se emanassem de uma individualidade inteligente”, pois que, “em certas naturezas anormais, as partes médias do cérebro podem atingir um grau bastante elevado de independência, em relação à sede da vontade consciente” (pág. 26).

Como se acaba de ver, essa teoria não permite que se atribua às partes médias do cérebro mais do que uma “independência relativa” que reveste as aparências de uma personalidade inteligente e sensível, distinta do médium. É o que admitimos também para grande parte das manifestações. Mas não se pode compreender nem admitir: que as partes subalternas do cérebro se revoltem contra as partes superiores e que não obedeçam às “solicitações” da consciência desperta, enunciadas de maneira categórica; que a consciência sonambúlica declare-se em oposição direta à consciência normal; e, finalmente, que a vontade inconsciente prepondere sobre a vontade consciente, e não só com o desejo do bem, mas ainda com o desejo do mal, a ponto de perseguir e maltratar o indivíduo autoconsciente.

No livro do Sr. Hartmann, a passagem seguinte é a única que poderia referir-se à categoria dos fenômenos de que acabo de falar:

“Sucede freqüentemente ouvirem-se em uma casa, a horas mortas, em dias determinados, ou em certas semanas, o tilintar de campainhas... ou um prédio ser positivamente atacado por pedradas, fragmentos de carvão ou por outros objetos existentes nas imediações... As autoridades, bem como os particulares, inclinam-se mais a atribuir essas desordens a assombrações de fantasmas do que à ação inconsciente do médium.” (pág. 42).

Esta passagem nada explica; não se compreende como o médium procede para carregar de força nervosa as pedras que estão na rua e lhes faz descrever parábolas, e muito menos ainda por que ele ataca com essas pedras sua própria casa; e depois, uma “desordem” não é uma manifestação positivamente contrária à vontade do médium nem uma perseguição dirigida contra sua própria pessoa.

Uma outra dificuldade: segundo o Sr. Hartmann, é certo que o grau de “independência relativa” das funções sonambúlicas produz-se à custa da consciência em estado de vigília, isto é, o grau máximo de independência da personalidade sonambúlica produz-se no mais baixo grau da consciência em estado de vigília, ou seja, quando essa consciência está entorpecida; o próprio Sr. Hartmann não declara que “os fenômenos físicos, que exigem uma tensão extraordinária da força nervosa, se produzem quando os médiuns caem em estado de sonambulismo aparente.” (pág. 31). Não se contestará que as manifestações em casa dos Fox, Phelps, Schtchapov, etc., deveriam ter exigido o desenvolvimento do mais alto grau de “tensão da força nervosa” e, entretanto, elas nem sempre são produzidas, enquanto os médiuns estavam em seu estado normal. Deveríamos, pois, admitir, conforme o Sr. Hartmann, uma atividade simultânea, plena e completa de duas consciências, lutando uma com a outra, e até supor que a consciência sonambúlica prepondera sobre a consciência em estado de vigília para lhe fazer experimentar todas as espécies de sofrimentos!...



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