Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



Baixar 2.01 Mb.
Página27/51
Encontro29.11.2017
Tamanho2.01 Mb.
1   ...   23   24   25   26   27   28   29   30   ...   51

2
Manifestações que são contrárias às convicções do médium


As manifestações desse gênero são numerosas nos anais do Espiritismo. Toda a Doutrina Espírita se formou de acordo com as comunicações contrárias às opiniões religiosas habituais dos médiuns e das massas; haveria nesse ponto matéria para um estudo especial. Vejamos, por exemplo, o que diz, em seu prefácio, o Dr. Dexter, que se tornou, como sabemos, médium a seu pesar:

“Não desejava submeter-me à idéia de que os Espíritos se imiscuíssem com esses acontecimentos... Esse pensamento, de que as almas de nossos amigos falecidos pudessem comunicar conosco na Terra, era incompatível com as noções que me tinham sido incutidas pela educação, contrária a todas as minhas opiniões anteriores e às minhas crenças religiosas... É preciso notar que todas as comunicações, quer por escrito, quer por fenômenos físicos, que são obtidas por meu intermédio, quer esteja só, quer assista a uma sessão de Espiritismo, são absolutamente isentas de qualquer participação de meu próprio espírito... Afirmo-o uma vez mais, a fim de que se compreenda bem que os preceitos, pensamentos e propósitos enunciados nesse volume, e que foram traçados por minha mão, estavam em desacordo completo com as minhas idéias naquela época.” (pág. 95).

O Sr. A. (Oxon), personagem muito conhecida na literatura espírita, apresenta-nos do mesmo modo um exemplo curioso dessas manifestações; ele publicou muitos artigos no Spiritualist de 1874 e dos anos seguintes; depois, esses fragmentos foram reunidos em um volume, que apareceu em 1883, sob o título de Spirit Teachings (Ensinos Espiritualistas). Essa obra tem o mérito especial de nos desvendar todas as peripécias da luta intelectual sustentada pelo médium com a força que o coagia a transmitir, por sua mão, as comunicações que ela lhe impunha; contém as réplicas, objeções e perguntas que lhe suscitavam essas comunicações. Esse médium-autor é um homem de elevada cultura intelectual; suas idéias religiosas eram bem precisas no momento em que suas faculdades mediúnicas se manifestaram, e sua surpresa e consternação foram grandes quando descobriu que as coisas escritas por sua própria mão eram diametralmente opostas às suas convicções mais firmes. Eis como o Sr. A. (Oxon) formulou sua profissão de fé, conforme às idéias que tinha antes dos acontecimentos de 1873:

“Sob o ponto de vista que eu aceitava naquela época, devia qualificar as comunicações que recebia de ateístas ou de diabólicas; em qualquer dos casos, eu as considerava como pertencentes ao “livre pensamento”, pois minhas crenças se aproximavam muito da doutrina ortodoxa. Para acompanhar bem a polêmica que eu ia começar, o leitor deve lembrar-se de que eu tinha sido educado nos princípios da Igreja Protestante, que estudara muito as obras de Teologia das Igrejas Romana e Grega e que aceitara os princípios do rito inglês, chamado anglicano, como os mais conformes, no meu modo de ver pessoal... Na espécie, eu era, para empregar a expressão usada, um consumado high churchman (adepto da Igreja do Estado).” (pág. 53).

Seria impossível reproduzir os pormenores da controvérsia, mas citarei muitas passagens dos raciocínios que o médium-autor opôs aos argumentos de seus interlocutores invisíveis. Eles bastarão para caracterizar essas conversações. Eis por exemplo uma réplica do médium a um argumento comunicado por meio da escrita automática:

“Objetei que essa asserção, que, aliás, não se harmonizava de maneira alguma com as minhas convicções, era incompatível com os ensinos das Igrejas ortodoxas, e ia de encontro a muitos dogmas fundamentais da fé cristã... Os pretendidos “contra-sensos” que parece teres a intenção de querer “dissipar” são precisamente os que os cristãos de todas as idades estão de acordo com considerar a base de suas doutrinas... A fé na divindade do Cristo e em sua expiação pode apenas ser considerada de origem humana.” (pág. 59).

Este raciocínio provocou uma comunicação de longo alcance, que, entretanto, não parece ter sido mais convincente do que as outras, pois o médium lhe respondeu, como se segue:

“Eu não estava satisfeito. Empreguei o tempo em examinar cuidadosamente o que me tinha sido dito, pois que minhas idéias se opunham a essa maneira de ver... Respondi que semelhante profissão de fé seria reprovada por qualquer adepto da Igreja cristã, que estava em contradição com a letra da Bíblia e que até mesmo estava sujeita ao qualificativo de anticristã.” (pág. 72).

Responderam por uma nova comunicação, à qual o médium deu a réplica seguinte:

“Não posso fazer compreender melhor o embaraço no qual me acho, do que declarando que teus raciocínios subjugam, é certo, meu espírito, mas que a fé cristã, depois de ter subsistido por mais de mil e oitocentos anos, não pode ser derribada por meio de raciocínios, por mais concludentes que eles possam parecer-me, desde que não são enunciados por uma individualidade que eu possa analisar. Podes dizer-me nitidamente que lugar assinalas a Jesus-Cristo? Por que meio podes justificar o poder que te arrogas, quer de derribar, quer de desenvolver os ensinos que são assinalados com o seu nome, de substituir um evangelho novo ao antigo? Podes dar-me uma prova demonstrativa da realidade da missão de que pretendes estar incumbido, uma prova ao alcance dos homens de bom senso? Não posso aceitar uma teoria que me parece tão revolucionária como uma coisa de origem divina, nem lhe reconhecer autoridade sob a simples palavra, nem de quem quer que seja, ainda mesmo um homem ou um anjo. É preferível não exigirem isso de mim.” (pág. 80).

Tendo recebido outras comunicações tendentes a dissipar suas dúvidas, o médium fez as reflexões seguintes:

“Relendo toda essa série de comunicações, eu estava mais do que nunca compenetrado de sua beleza, tanto pela forma, quanto pelo fundo. Quando considero que esses escritos foram executados com prodigiosa rapidez, e sem que conscientemente eu tivesse tomado parte alguma neles; que estão isentos de qualquer defeito, de qualquer imperfeição, de qualquer incorreção gramatical, e que não se descobre neles intercalação alguma, nem acréscimo do princípio ao fim; não podia deixar de admirar essa impecabilidade da forma. Quanto ao conteúdo dessas comunicações, eu ainda tinha hesitações. Uma parte dos argumentos merecia minha simpatia, mas eu estava obcecado pela idéia de que, efetivamente, eles abalavam as bases da fé cristã... Os dogmas fundamentais pareciam-me mais particularmente atacados. Eu considerava o ponto discutido como a própria essência da religião cristã.

Tinha a convicção de que espiritualizando, ou por outra forma, procurando explicar esses pontos, eu vibrava um golpe fatal em minha crença numa revelação divina qualquer. Depois de longas e pacientes reflexões, vi que era impossível chegar logicamente a outra conclusão, e recuei diante dessas asserções, que eu devia aceitar sob a fé de um ser de quem sabia tão pouco.” (pág. 101).

É inútil aprofundar mais e examinar mais longamente as peripécias dessa controvérsia intelectual, de tão palpitante interesse, cujo resultado foi uma revolução nas idéias religiosas do médium, e sabemos, entretanto, que suas crenças eram das mais tenazes, pois que datavam de sua primeira educação. As citações que acabo de fazer são suficientes para o alvo que eu visava. Aqueles que desejarem informações mais minuciosas poderão ler o texto inglês.19

Posso também assinalar uma série de experiências feitas com a convicção de que as manifestações espíritas não passavam de fenômenos de ordem física e que deram resultados absolutamente contrários a essa convicção. Tal foi, por exemplo, a experiência feita pelo Sr. E., descrita pelo professor Wagner no Psychische Studien de 1879. O Sr. E., a quem conheço pessoalmente, é químico e engenheiro de minas, empregado em um estabelecimento especial do Estado; recebi de sua própria boca a afirmação de que nem ele, nem membros de sua família se tinham ocupado em qualquer ocasião com o Espiritismo; que suas convicções se tinham oposto completamente às doutrinas espíritas e que a experiência que ele tentou era feita precisamente para demonstrar que esses fenômenos nada têm de místicos, ainda que não desse como demonstrada a existência deles. Eis alguns extratos do artigo do Psychische Studien, onde se encontrará exposto o resultado inesperado da primeira sessão:

“Esse pequeno círculo de pesquisadores cogitou das sessões espíritas na esperança de que conseguiriam demonstrar que os fenômenos mediúnicos não eram mais do que o desenvolvimento de fenômenos físicos conhecidos. Com tal intuito, dispôs-se a mesa em torno da qual as experiências deviam realizar-se, sobre isoladores de vidro, enrolou-se em torno dos pés dela um arame cujas pontas foram presas a um galvanômetro. Sem que nenhuma outra manifestação física se tivesse produzido, a mesa reclamou, desde a primeira sessão, o alfabeto, e por meio de pancadas, dadas por um pé móvel, a conversação seguinte foi soletrada:

– Sofro porque não tens fé!

– A quem se dirige esta frase – perguntaram os assistentes.

– A Catarina L.

– Quem és, pois? – perguntou a pessoa designada.

– Sou tua amiga, Olga N.

A Sra. L. ficou profundamente impressionada e perturbada por esta comunicação; é preciso notar que Olga N., uma de suas amigas mais íntimas, tão atéia quanto ela, tinha falecido havia um ano.”

Outro exemplo, que prova à evidência que a comunicação pode ser contrária à vontade e às convicções do médium, nos é dada pelo seguinte fato, referido pelo professor Robert Hare:

“Certo dia tirei da algibeira um pequeno alfarrábio que o médium nunca tinha visto, e abri-o na página que trazia como título: “Prefácio do editor”. Levei-o assim aberto para perto da mesa, de maneira tal que a médium só pudesse ver a capa do volume. Soletrada a primeira sílaba, a flecha parecia não poder continuar; a médium, uma senhora, voltou-se por um instante para acalmar seu filho e, durante esse tempo, a flecha acabou de soletrar a palavra inglesa editor. A médium declarou-me que em sua idéia a palavra devia ser “edição”, que até ela tinha querido fazer um esforço muscular para ir em auxílio do Espírito-guia, mas que, no momento em que sua atenção foi desviada para seu filho, o correspondente invisível tinha terminado a palavra.” (Hare – Pesquisas experimentais sobre as manifestações espíritas, págs. 61 e 62).




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   23   24   25   26   27   28   29   30   ...   51


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal