Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Manifestações contrárias ao
caráter e aos sentimentos do médium


Seria difícil falar com alguma precisão acerca desse gênero de fenômenos se não houvesse um símbolo externo e permanente do caráter do homem: a escrita.

A escrita contém de maneira original e segura o cunho de seu autor. É, por assim dizer, a fotografia do caráter do homem. A grafologia, se bem esteja apenas em começo, estabeleceu que a escrita é a expressão fiel dos movimentos inconscientes que caracterizam o indivíduo (Revista Filos., novembro de 1885). No domínio do hipnotismo, experiências recentes permitiram verificar que a sugestão de uma personalidade provoca na escrita do indivíduo mudanças correspondentes ao caráter da personalidade sugerida. Achando-me em Paris, em 1886, tive ensejo, graças à bondade do professor Charles Richet, de assistir a experiências desse gênero; a escrita e a ortografia do indivíduo – conservo seus espécimes 20 – modificavam-se segundo os papéis sugeridos; e, entretanto, é fácil verificar que nada mais era do que uma modificação da escrita normal do indivíduo correspondendo – assim como seus gestos e suas palavras – ao tipo sugerido.

No domínio do Espiritismo, está verificado que os médiuns empregam freqüentemente uma escrita que se distingue da sua escrita normal. Do mesmo modo que, para grande parte das manifestações mediúnicas, admito com o Sr. Hartmann que elas são o produto de nossa atividade inconsciente, assim também, nesse caso, admito de boa vontade que a mudança de escrita mediúnica pode não ser, em muitos casos, mais do que uma alteração inconsciente da escrita normal do médium, segundo as personalidades imaginárias que são evocadas por suas faculdades inconscientes. Como, porém, em todos os fenômenos espiríticos se observa uma gradação, relativamente à complexidade dos fatos e à dificuldade de aplicação das hipóteses, devemos do mesmo modo tomar em consideração as razões pelas quais um médium, escrevendo automaticamente em nome de uma personalidade A, escreve com a sua escrita ordinária, e em nome de B e de C, com uma escrita que lhe é estranha?

No ponto de vista sonambúlico ou hipnótico, as condições favoráveis ou desfavoráveis à mudança de escrita deveriam ser as mesmas em todos os casos e deveriam dar os mesmos resultados.

A dificuldade é ainda maior quando B, C e D conservam sempre sua escrita com uma identidade matemática, pois que, se B, C e D não passam de papéis, criados de momento, de que maneira sua escrita poderia reproduzir-se constantemente com idênticas gradações de caráter, traduzindo-se por idênticas gradações de escrita? Os estados psíquicos, subjetivos e inconscientes não são quantidades invariáveis (considerados como entidades individuais), e seu reaparecimento não poderia ser idêntico; não há sonhos que se repitam exatamente, e os fatos muito raros desse gênero são sempre classificados entre os casos excepcionais que é preciso atribuir a uma intervenção especial oculta.

Também temos casos em que a escrita automática difere completamente da escrita do médium; ora, criar uma escrita original, de improviso, e reproduzi-la identicamente constitui uma ação que se presta dificilmente à explicação por essa mesma teoria.

Finalmente, é preciso mencionar ainda os casos em que se reconhece na escrita automática a de uma pessoa que o médium nunca viu. Nesse caso não se pode apelar nem para a sugestão por parte de um hipnotizador, nem para uma atividade inconsciente!... Voltarei, com maior número de pormenores, a este assunto, no capítulo seguinte.

Mas a própria natureza das manifestações também pode ser contrária ao caráter do médium. Assim, que explicação se deverá dar dos casos em que imprecações, blasfêmias e obscenidades são proferidas pela boca de uma criança ou escritas por sua mão?

Citarei dois fatos característicos: O Sr. Podmore escreve ao Light de 1882 (pág. 238):

“Um pastor batista que morava em Egham, perto de Oxford, recebia pela mão de seus filhos comunicações de sua mulher, por escrito. Essas comunicações continham muitas coisas consoladoras para ele e apresentavam muitas provas de identidade. Durante algum tempo, o pastor teve a convicção de estar em comunicação com sua mulher. Subitamente, sem motivo algum plausível, o caráter das comunicações mudou, os textos bíblicos e as palavras de simpatia e de afeto foram substituídos por imprecações e blasfêmias, e o infeliz marido teve de concluir que durante todo o tempo tinha sido vítima da malevolência de um inimigo invisível.”

O leitor encontrará informações minuciosas, acerca desse caso notável, no Human Nature, de 1875, pág. 176.

Outro fato da mesma natureza me foi contado pela própria pessoa que serviu de agente:

“Pouco tempo depois da morte de sua mulher, uma de suas parentas próximas, de doze anos, começou a aplicar-se à psicografia; as comunicações apresentavam muitos pontos de semelhança com as do exemplo precedente, eram provenientes da pretendida esposa falecida e continham muitas alusões a acontecimentos que sua mulher e ele eram os únicos a conhecer e alusões a conversações que se tinham dado sem testemunhas. Porém, desejando o meu amigo obter provas mais decisivas ainda, apresentou as mais minuciosas perguntas: então, com grande surpresa, apercebeu-se de que a memória e o saber do seu interlocutor não iam além das seis semanas que precederam o falecimento de sua mulher e que ignorava tudo quanto se tinha passado antes daquela época. Quando se queixou a esse interlocutor de ter sido induzido em erro, este lhe respondeu por invectivas e maldições tais que ele ficou aterrado. Não esqueçamos que tudo isso era escrito pela mão de uma menina que não podia ter ouvido pronunciar essas palavras e ainda menos compreender a sua significação.”

Outro correspondente do mesmo jornal refere:

“Notei uma coisa estranha na escrita por intermédio da prancheta: é que o caráter das comunicações está freqüentemente em contradição completa com as convicções do médium. É assim que eu vi escrever as mais terríveis blasfêmias pela mão de pessoas que teriam preferido morrer a empregar semelhante linguagem.” (Light, 1883, pág. 124).



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