Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



Baixar 2.01 Mb.
Página29/51
Encontro29.11.2017
Tamanho2.01 Mb.
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   51

4
Comunicações cuja natureza está
acima do nível intelectual do médium


É só aqui que abordaremos o capítulo especial que o Sr. Hartmann consagra ao valor intelectual das manifestações, e cujo aforismo principal é concebido assim:

“Todas as comunicações têm um valor intelectual correspondente ao nível intelectual e às convicções do médium.”

E mais adiante:

“O valor intelectual das manifestações está geralmente abaixo do nível intelectual do médium e dos assistentes, algumas vezes atinge o mesmo grau, porém nunca está acima.” (pág. 116).

Vimos nas páginas precedentes que as comunicações não correspondem sempre às convicções do médium.

Vamos examinar agora se a primeira parte desse aforismo do Sr. Hartmann é exata.

É preciso reconhecer, antes de tudo que em sua maioria as comunicações espíritas constam efetivamente de trivialidades, de respostas sem importância, de raciocínios cujo valor não está acima das faculdades normais do médium, ou antes ainda de banalidades absolutas. É inútil dizer que seria desarrazoado indagar da causa real dessas manifestações em outra parte que não na atividade psíquica inconsciente do médium.

Esse gênero de comunicações explica e justifica, em parte, essa afirmação, comum aos detratores do Espiritismo, de que suas manifestações não vão nunca além do nível intelectual do médium.

Mas a palavra nunca é demais nesta afirmação. Assim formulada, ela prova mui simplesmente da parte de seu autor um conhecimento insuficiente da literatura especial ou ausência de conhecimentos práticos nesse domínio; pois que a literatura espírita contém bastantes fatos que provam que as comunicações podem estar acima do nível intelectual do médium, e todos os espíritas um pouco experimentados puderam convencer-se disso pessoalmente.

Porém a prova objetiva desse fato é difícil de dar. Como precisar o nível intelectual de um indivíduo? Como precisar o grau de elevação intelectual que o cérebro pode atingir, sob a influência de causas ocasionais e que faz que ele produza um trabalho fora do comum, sem que pudéssemos por isso arrogar-nos o direito de atribuí-los a outros fatores além das faculdades do próprio indivíduo?

Outra dificuldade se encontra ainda na contingência em que nos achamos de apelar quer para o testemunho do médium, quer para o das pessoas que o conhecem, o que equivale a uma opinião pessoal, baseada no conhecimento íntimo da pessoa, mas que não tem valor para os estranhos. Finalmente, para poder julgar ou provar, é preciso ter documentos à vista, é preciso apresentar fatos concretos e palpáveis – o que nem sempre é fácil. A amplitude da instrução e a soma de conhecimentos científicos parece poderem fornecer a medida mais segura para a apreciação séria dos fenômenos em questão.

Se pudéssemos estabelecer que um médium, em suas produções mediúnicas, blasona de um saber positivo que não possui no estado normal, isso provaria suficientemente que a afirmação do Sr. Hartmann é mal fundada!...

Entre os fenômenos desse gênero, temos as produções mediúnicas de Hudson Tuttle e principalmente seu primeiro livro: Arcana of Nature, que ele escreveu na idade de dezoito anos, e cujo primeiro volume foi publicado na Alemanha sob o título História e Leis da Criação, pelo Dr. Acker, em Erlangen, no ano de 1860, e do qual Büchner tirou muitas passagens sem suspeitar que era a obra inconsciente de um jovem abegão, sem educação científica de espécie alguma, que o tinha escrito nas solidões do Condado de Eriè, no Estado de Ohio! (veja-se Psychische Studien, 1874, página 93 – “Entrevista do Dr. Buchner com Hudson Tuttle na América”).

Poder-se-ia objetar que essa manifestação de caráter científico impessoal teve por fonte a clarividência, apoiando-se no exemplo de Andrew Jackson Davis, o qual afirma que seu livro Princípios da Natureza não tem outra origem; antes de tudo, aqui, a afirmação de um médium qualquer não pode considerar-se prova suficiente; mas, eis outro exemplo de produção mediúnica cujo caráter individual impede a possibilidade de explicação pela clarividência: quero falar do romance de Carlos Dickens: Edwin Drood, deixado por terminar pelo ilustre autor e completado pelo médium James, um jovem sem instrução. Diversas testemunhas presenciaram o modo de produção da obra, e juízes competentes apreciaram-lhe o valor literário.

Passo a dar alguns pormenores acerca dessa produção única nos anais da literatura.

Quando se espalhou o boato de que o romance de Dickens ia ser terminado por tão extraordinário e insólito processo, o Springfield Daily Union expediu um de seus colaboradores a Brattleborough (Vermont), onde habitava o médium, para fazer uma investigação, no local, de todos os pormenores dessa estranha empresa literária. Eis alguns trechos do relatório em oito colunas publicado por esse jornal, a 26 de julho de 1873, reproduzido a princípio pelo Banner of Light e depois parcialmente pelo The Spiritualist de 1873, página 322, ao qual os tiramos:

“Ele (o médium) nasceu em Boston; aos catorze anos foi colocado como aprendiz em casa de um mecânico, ofício que até hoje exerce; de maneira que sua instrução escolar terminou na idade de treze anos. Se bem que não fosse nem destituído de inteligência, nem iletrado, não manifestava gosto algum pela literatura e nunca se tinha interessado por ela.

Até então, nunca tinha experimentado publicar, em qualquer jornal, o menor artigo. Tal é o homem de quem Carlos Dickens lançou mão da pena para continuar The Mistery of Edwin Drood e que chegou quase a terminar essa obra.

Fui bastante feliz por ser a primeira pessoa a quem ele próprio participou todos os pormenores, a primeira que examinou o manuscrito e fez extratos.

Eis como se passaram as coisas. Havia dez meses, um jovem, o médium que, para ser breve, designarei pela inicial A (pois que ele não quis ainda divulgar seu nome), tinha sido convidado por seus amigos a sentar-se perto de uma mesa para fazer parte de uma experiência espírita. Até aquele dia, sempre havia zombado dos “milagres espíritas”, considerando-os fraudes, sem suspeitar que ele próprio possuía dons mediúnicos. Apenas começou a sessão, ouviram-se pancadas rápidas e a mesa, depois de movimentos bruscos e desordenados, cai sobre os joelhos do Sr. A. para fazer-lhe ver que é ele o médium. No dia seguinte, à noite, convidaram-no para tomar parte em uma segunda sessão; as manifestações foram ainda mais acentuadas. O Sr. A. caiu subitamente em transe, tomou um lápis e escreveu uma comunicação assinada com o nome do filho de uma das pessoas presentes, de cuja existência o Sr. A. não suspeitava. Mas as particularidades dessas experiências não são de interesse particular neste lugar...

Em fins do mês de outubro de 1872, no decurso de uma sessão, o Sr. A. escreveu uma comunicação dirigida a si mesmo e assinada com o nome de Carlos Dickens, com o pedido de organizar para ele uma sessão especial, a 15 de novembro.

Entre outubro e o meado de novembro, novas comunicações lembraram-lhe aquele pedido por muitas vezes. A sessão de 15 de novembro, que, segundo as indicações recebidas, se realizou às escuras, em presença do Sr. A. somente, deu em resultado uma longa comunicação de Dickens, que externou o desejo de terminar, com o auxílio do médium, seu romance não acabado.

Essa comunicação informava que Dickens tinha procurado por longo tempo o meio de conseguir esse intento, mas que até aquele dia não tinha encontrado médium apto para realizar semelhante incumbência. Ele desejava que o primeiro ditado fosse feito na véspera do Natal, noite que prezava particularmente, e pedia encarecidamente ao médium que consagrasse àquela obra todo o tempo de que pudesse dispor, sem prejudicar as suas ocupações habituais... Em breve tornou-se evidente que era a mão do mestre que escrevia, e o Sr. A. aceitou com a melhor boa vontade essa estranha situação. Esses trabalhos, executados pelo médium, fora de suas ocupações profissionais, que lhe tomavam dez horas por dia, produziram, até julho de 1873, 200 folhas de manuscrito, o que representa um volume in-octavo de 400 páginas.”

Fazendo a crítica dessa nova parte do romance, o correspondente do Springfield Daily Union exprime-se assim:

Achamo-nos aqui em presença de um grupo inteiro de personagens, cada uma dos quais tem seus traços característicos, e os papéis de todas essas personagens devem ser sustentados até o fim, o que constitui um trabalho considerável para quem em sua vida não escreveu três páginas sobre um assunto qualquer; pelo que ficamos surpresos em verificar desde o primeiro capítulo uma semelhança completa com a parte desse romance que estava publicada. A narração é recomeçada no ponto preciso em que a morte do autor a tinha deixado interrompida, e isso com uma concordância tão perfeita que o mais consumado crítico, que não tivesse conhecimento do lugar da interrupção, não poderia dizer em que momento Dickens deixou de escrever o romance por sua própria mão. Cada uma das personagens do livro continua a ser tão viva, tão típica, tão bem caracterizada na segunda parte como na primeira. Não é tudo. Apresentam-se-nos novas personagens (Dickens tinha o hábito de introduzir atores novos até nas últimas cenas de suas obras) que não são absolutamente reproduções dos heróis da primeira parte; não são bonecos, porém caracteres tomados ao vivo, verdadeiras criações. Criadas por quem?...” (pág. 323).

O correspondente prossegue:

“Eis uma multidão de pormenores de incontestável interesse. Examinando o manuscrito, notei que a palavra traveller (viajante) era escrita sempre com dois “l”, como é uso na Inglaterra, ao passo que entre nós, na América, não se usa mais de um “l”, em geral.

A palavra coal (carvão) é escrita invariavelmente coals, com um “s”, como se usa na Inglaterra. É interessante também notar no emprego das minúsculas as mesmas particularidades que se podem observar nos manuscritos de Dickens; por exemplo, quando ele designa o Sr. Grewgious, como an angular man (um homem anguloso). Também é digno de nota o conhecimento topográfico de Londres, de que dá prova o autor misterioso em muitas passagens do livro. Há também muitos torneios de linguagem usados na Inglaterra, porém desconhecidos na América. Mencionarei também a mudança súbita do tempo passado em tempo presente, principalmente em uma narração animada, transição mui freqüente em Dickens, sobretudo em suas últimas obras. Essas particularidades, e outras ainda que poderiam ser citadas, são de importância secundária, porém é com semelhantes bagatelas que se teria feito malograr qualquer tentativa de fraude.”

E eis a conclusão do artigo citado:

“Cheguei a Brattleborough com a convicção de que essa obra póstuma não passaria de uma bolha de sabão, fácil de rebentar. Depois de dois dias de exame atento, parti de novo e, devo confessá-lo, estava indeciso. Neguei em primeiro lugar como coisa impossível – como qualquer um tê-lo-ia feito depois de um exame –, que esse manuscrito tivesse sido escrito pela mão do jovem médium Sr. A.; ele me disse que nunca tinha lido o primeiro volume; particularidade insignificante, a meu ver, pois que estou perfeitamente convencido de que ele não era capaz de escrever uma só página do segundo volume. Isso não é para ofender o médium, pois que não há muitas pessoas no caso de continuar uma obra não acabada de Dickens!

Vejo-me, por conseguinte, colocado nesta alternativa: ou um homem qualquer de gênio se utilizou do Sr. A. como instrumento para apresentar ao público uma obra extraordinária, de maneira igualmente extraordinária; ou, antes, esse livro, como o pretende seu autor invisível, foi escrito, efetivamente, sob o ditado de Dickens. A segunda suposição não é mais maravilhosa do que a primeira. Se existe em Vermont um homem, desconhecido até o presente, capaz de escrever como Dickens, certamente ele não tem motivo algum para ter recorrido a semelhante subterfúgio. Se, por outro lado, é o próprio Dickens “quem fala, se bem que tenha morrido”, para que surpresas não devemos preparar-nos? Atesto, sob palavra de honra, que, tendo tido tempo suficiente de examinar com liberdade todas as coisas, não pude descobrir o mínimo indício de embuste, e se eu tivesse a autorização de publicar o nome do médium-autor, era o suficiente para dissipar todas as suspeitas aos olhos das pessoas que o conhecem, por pouco que seja.” (pág. 326).

Eis ainda algumas informações hauridas da mesma fonte:

“No começo, o médium só escrevia três vezes por semana, e nunca mais de três ou quatro páginas de cada vez; depois, porém, as sessões se tornaram bi-quotidianas e ele escrevia finalmente dez ou doze páginas, às vezes mesmo vinte. Não escrevia com a sua caligrafia normal e, feito o confronto, havia nela alguma semelhança com a de Dickens. No começo de cada sessão, a escrita era bela, elegante, quase feminina, mas, à proporção que o trabalho progredia, a escrita tornava-se cada vez mais grossa, e nas últimas páginas as letras eram cinco vezes maiores, pelo menos, do que no começo. Essas mesmas gradações se reproduziram em cada sessão, permitindo assim classificar por séries as 500 folhas do manuscrito. Algumas das páginas começam por sinais estenográficos, dos quais o médium não tinha o mínimo conhecimento. A escrita é tão rápida, às vezes, que se leva tempo para decifrá-la.

A maneira de proceder nas sessões é muito simples: preparam-se dois lápis bem aparados e grande quantidade de papel cortado em tiras; o Sr. A. retira-se só para seu aposento. A hora habitual era às seis horas da manhã ou às sete e meia da noite, horas em que ainda havia claridade durante aquela estação; entretanto, as sessões da noite prolongavam-se freqüentemente além das oito horas e meia e mesmo mais tarde, e então a escrita continuava, apesar da escuridão, com a mesma nitidez. Durante o inverno todas as sessões se realizaram às escuras.

O “secretário” de Dickens coloca o papel e os lápis ao seu alcance, põe as mãos em cima da mesa, com a palma para baixo, e espera tranqüilamente. Tranqüilidade relativa, entretanto, pois que, não obstante os fenômenos terem perdido sua novidade, e ele já se ter habituado a eles, o médium confessa não poder eximir-se a um sentimento de terror durante essas sessões, no decurso das quais ele evoca, por assim dizer, um fantasma.

Ele espera assim – algumas vezes fumando seu cigarro – durante dois, três, cinco minutos, às vezes dez, mesmo durante uma meia hora; mas, de ordinário, se as “condições são favoráveis”, não mais de dois minutos. As condições dependem principalmente do estado do tempo. Se o dia é claro, sereno, ele trabalha sem interrupção; tal seria uma máquina elétrica que funcionasse melhor com um tempo favorável; um tempo tempestuoso produz perturbação, e quanto mais violenta é a tempestade, tanto mais se acentua a perturbação. Quando o tempo é inteiramente mau, a sessão fica adiada.

Depois de se ter conservado à mesa durante o tempo preciso, segundo as circunstâncias, o Sr. A. perde gradualmente os sentidos, e é nesse estado que escreve durante uma meia hora ou uma hora. Aconteceu-lhe certo dia escrever durante uma hora e meia. O fato único de que o médium se recorda, passado o estado de transe, é a visão de Dickens que volta de cada vez; o escritor – diz ele – está sentado a seu lado, com a cabeça apoiada nas mãos, imerso em profunda meditação, com expressão séria, um pouco melancólica, no rosto; não diz uma palavra, mas lança às vezes sobre o médium um olhar penetrante e sugestivo. “Oh! que olhar!”

Essas recordações ocorrem ao médium da mesma maneira que um sonho que se acaba de ter, como uma coisa real, mas ao mesmo tempo intangível. Para indicar que a sessão está terminada, Dickens pousa de cada vez sua mão fria e pesada sobre a do médium.

Nas primeiras sessões, esse contato provocava na parte do Sr. A. exclamações de terror e, ainda nesse momento, ele não pode falar nisso sem estremecer; esse contato fazia-o sair de seu estado de transe, porém de ordinário lhe era preciso o auxílio de uma terceira pessoa para levantar suas mãos da mesa, à qual elas estavam por assim dizer aderentes por uma força magnética.21 Readquirindo os sentidos, ele vê, esparsas pelo soalho, as tiras escritas durante essa sessão.

Essas tiras não são numeradas, de maneira que o Sr. A. é obrigado a classificá-las segundo o texto. Durante algum tempo, depois dessas sessões, o médium sentia uma dor mui intensa no peito, mas não era de longa duração, e são as únicas conseqüências desagradáveis que ficavam das sessões. O nervosismo extremo de que ele sofria, antes do desenvolvimento de suas faculdades mediúnicas, deixou-o completamente; jamais foi ele tão robusto.”

Podem-se ler outros pormenores na página 375 do Spiritualist de 1873 e página 26 do de 1874, onde o Sr. Harrison, pessoa mui competente nessas matérias, assim se exprime:

“É difícil admitir que o gênio e o senso artístico com que esse escrito está marcado e que têm tanta semelhança com o gênio e com o senso artístico de Carlos Dickens tenham induzido o seu autor, qualquer que ele seja, a só se apresentar ao mundo como hábil falsificador.”

Em um livro intitulado Essays from the Unseen, delivered trough the mouth of W. Z, a sensitive, and recorded by A. T. T. P. (Londres, 1885) (Ensaios sobre o mundo invisível, proferidos pela boca de W. Z., um sensitivo, e recolhidas por A. T. T. P.), encontrar-se-á igualmente uma série de comunicações atribuídas a diversas personagens históricas, filósofos, teólogos, etc., feitas pela boca de um operário que só conhecia as coisas de seu Estado, só tendo apenas a instrução ordinária das pessoas de sua classe, e que as transmitia em estado sonambúlico, sem pausa nem hesitação, tão rapidamente que o autor da obra tinha dificuldade em escrevê-las em estenografia.

Poder-se-ia objetar que esses diversos casos não apresentam provas suficientes, porque não excluem a possibilidade de um trabalho preparatório ou de uma falsificação sagaz; mais eis outros exemplos, nos quais se trata de comunicações que apresentam o mérito de terem sido recebidas sem delonga e de improviso, em resposta a perguntas inesperadas: o Sr. J. P. Barkas, F. G. S.22 de Newcastle – a quem tenho o prazer de conhecer pessoalmente, bem como à médium de quem se vai tratar – publicou no Light, 1885, págs. 85 e seguintes, uma série de artigos sob este título: Respostas improvisadas a assuntos científicos, por uma médium, mulher de educação comum, e lemos:

“Em 1875, fui convidado a fazer parte de uma série de sessões que deviam realizar-se no aposento modesto de uma senhora moça, médium não profissional, que mora em Newcastle-on-Tyne. Todas as perguntas eram inscritas em um caderno no mesmo instante de serem enunciadas, e a médium escrevia as respostas ali, imediatamente. Todos esses cadernos estão em meu poder, e ponho-os à disposição das pessoas que desejarem vê-los.

Eis o problema principal que se apresenta neste caso: uma mulher de instrução comum deu respostas a diversos assuntos científicos cuidadosamente elaborados no decurso de trinta e sete noites, prolongando-se a sessão por três horas de cada vez; essas respostas são tais, que provavelmente não se encontra um homem na Inglaterra que pudesse fazer outro tanto, isto é, dar respostas tão precisas, nas mesmas condições, a todos os assuntos que foram apresentados.

Um relatório circunstanciado dessas sessões, uma autobiografia da médium, assim como exemplos dessas perguntas com as respostas, acham-se na Psychological Review de 1878 (t. I, pág. 215).

Não se deve perder de vista que a médium é uma senhora de instrução medíocre, que estava rodeada de pessoas que a observavam com atenção; que as perguntas eram inscritas e lidas em alta voz, durante a sessão; que as respostas eram escritas pela mão da médium nesse mesmo caderno, mui rapidamente; que eram improvisadas, sem a mínima correção ulterior; também não se deve esquecer de que essas perguntas referiam-se a diversos assuntos científicos e outros geralmente pouco familiares às mulheres; que a médium, como ela própria o confessa, é completamente ignorante nessas matérias; que escrevia automaticamente, sem se preocupar se suas respostas eram exatas. As pessoas que a conhecem intimamente garantem que ela nunca teve predileção pelas ciências e que nunca tinha lido livros científicos.”

As perguntas eram em grande parte escritas pelo Sr. Barkas, sem que nenhum dos assistentes as conhecesse.

A médium escrevia em estado de vigília e às escuras. Dentre as perguntas feitas, escolherei algumas que foram traduzidas, a pedido meu, por músicos de profissão.

Pergunta – De que maneira a percepção do som chega à nossa consciência?

Resposta – É um assunto mui controverso. Sabes sem dúvida que o som, assim como a luz e o calor, é o resultado de um movimento vibratório, e que é devido à vibração das moléculas aéreas. O que chamas amplitude vibratória nada mais é do que a excursão total do movimento de vaivém, ou da oscilação dessas moléculas de ar, donde resulta a formação de uma onda sonora que se propaga sucessivamente; essa onda atinge a concha da orelha, que a conduz à membrana do tímpano, cuja vibração é transmitida às extremidades do nervo auditivo; é assim que a sensação do som chega finalmente ao sensorium.

P. – Por que dois sons idênticos podem fazer silêncio, ao passo que dois sons não idênticos não produzem esse resultado?

R. – Porque duas ondas sonoras idênticas e de sentido posto, encontrando-se, aniquilam reciprocamente seu movimento vibratório. Toma em cada mão um diapasão igual, percute esses diapasões com igual força e apóia seus ramos sobre dois ângulos de uma mesa; verás então as duas ondas, caminhando uma para outra, absorverem-se reciprocamente por seus ápices. Estas experiências merecem muito que as façam.

P. – Que diferença há entre os harmônicos de um tubo aberto de 8 pés e os de um tubo fechado de 4 pés:

R. – Nos tubos abertos, o primeiro nó vibratório acha-se no meio; o primeiro harmônico superior se formará, pois, a igual distância entre esse primeiro nó e a abertura do tubo, os outros achar-se-ão a distâncias correspondentes a 1/4, 1/6, 1/8, 1/10. Nos tubos fechados, a extremidade forma um nó que corresponde ao que se encontra no centro de um tubo aberto; a onda sonora refletida forma um primeiro nó a uma distância da extremidade igual a 1/3; outros nós se seguem em intervalos de 1/5, 1/7, 1/9, etc.” (Light, 1875, pág. 128).

O Sr. Barkas continua:

“Entre as pessoas que assistiram à sessão de 30 de agosto achava-se um professor de Música muito erudito a quem eu tinha rogado que me acompanhasse para apresentar perguntas que dissessem respeito à Música, às quais não pudesse responder, sem ter previamente estudado o assunto, uma pessoa que só tivesse conhecimentos ordinários nesse ramo. O professor apresentou as perguntas na ordem em que elas se seguem; eu as inscrevi no caderno e, depois de ter sido feita a leitura delas em voz alta, a médium começava a dar-lhes a resposta rapidamente. Apresento aqui a reprodução textual das perguntas e respostas. Não sou assaz competente para dizer se essas respostas são ou não exatas, mas certamente estão em relação com as perguntas dificílimas feitas, e não creio que um músico dentre cinco mil pudesse dá-las tão bem, nas mesmas condições. Efetivamente, ainda não encontrei músico que tenha podido responder a essas perguntas tão rapidamente e tão bem; não encontrei dentre eles muitos que as tivessem compreendido bem, segundo o sentido das respostas que lhes foram dadas.”

Dentre as 25 perguntas citadas pelo Sr. Barkas, escolho duas:

P. – Podes dizer-me como é possível calcular a relação que liga entre si os batimentos específicos do ar tomado sob o volume constante e sob pressão constante segundo a velocidade observada no som e a velocidade determinada por meio da fórmula de Newton?

R. – Essa relação só pode ser calculada da seguinte maneira: suponhamos que se percutem simultaneamente duas cordas ou dois diapasões; se a intensidade do som é a mesma, ou quase a mesma para as duas, os batimentos produzir-se-ão da seguinte maneira: admitindo-se que o número das vibrações seja de uma parte de 228, e de outra parte de 220 por segundo, o número dos movimentos que impressionarão o ouvido será de

228 – 220 = 8 por segundo

Isto fará 8 movimentos por segundo; é o número máximo de movimentos que podem impressionar o ouvido.

P. – Podes explicar-me a origem dos movimentos resultantes das consonâncias imperfeitas?

R. – Esta questão entra, propriamente falando, no domínio da acústica. Todo som, movimento ou pulsação é percebido graças ao movimento vibratório que imprime ao ar; muitos sons produzem muitas ondas, e os sons que se originam em determinado lugar do aposento enchem o ar em sua proximidade imediata, o que faz que as ondas se entrecruzem e por suas interferências dêem lugar a batimentos ou pulsações mais ou menos claras, se os sons diferem muito pouco.” (Light, 1885, pág. 189).

P. – Queres dar uma descrição popular do olho humano, se não conheces as teorias de Helmholtz?

R. – Não conheço esse senhor, nem suas teorias, nem suas obras. O olho humano é um corpo convexo, cuja parte anterior, saliente, constitui a córnea. Ele é recoberto por três membranas, ou antes quatro, o que não é admitido por todos: a esclerótica, a coróide e a retina, que não é uma membrana propriamente dita, porém uma expansão do nervo óptico. No exterior, a esclerótica é recoberta por uma membrana que se estende igualmente sobre a córnea; ela é conhecida pelo nome de membrana adnata ou conjuntiva. A coróide forra a esclerótica pela face interna; é impregnada por uma matéria corante escuro-carregado – o pigmento coroidiano – e serve para absorver todos os raios luminosos inúteis. Falemos em primeiro lugar da córnea – a janela do olho: é uma substância laminosa, transparente, semelhante ao talco, no interior da qual se encontra o humor aquoso contido em um pequeno saco; por trás desta acha-se o íris, que funciona como anteparo, desviando todos os raios luminosos exteriores, que de outra maneira penetrariam através da pupila. O cristalino é um corpo lenticular convexo, ou antes biconvexo, mais recurvado do lado do corpo vítreo, humor que enche a grande cavidade do olho e faz que todos os raios luminosos que entram pela pupila se tornem convergentes; esses raios se reúnem em um foco situado sobre a retina, onde formam uma espécie de fotografia dos objetos donde emanam; a retina, impressionada pelos raios que penetram no olho, reage sobre o nervo óptico, que transmite ao cérebro a impressão recebida. O olho propriamente não vê, como sucede também com um aparelho óptico qualquer, ele apenas reflete e fotografa os objetos. Não sei se esta descrição é suficientemente clara. Poderia dar-te uma descrição melhor da estrutura do órgão.” (Light, 1883, pág. 202).

A conferência que o Sr. Barkas fez em 1876, em Newcastle (publicada no Spiritualist do mesmo ano, II, págs. 146, 188), termina por estas considerações:

“As perguntas e as respostas, das quais lhe fiz a leitura, formam apenas a mínima parte do que a médium obteve durante as sessões. Todos convirão em que essas respostas só podem emanar de uma pessoa mui versada nos diversos ramos difíceis da ciência às quais elas se referem. Não é um montão de trivialidades. Pelo contrário, essas respostas vão ao fim das perguntas, e mesmo adiante. Além dessas respostas sucintas dadas a perguntas formuladas acerca de diversos assuntos, a médium obteve tratados completos sobre o calor, a luz, a fisiologia das plantas, a eletricidade, o magnetismo, a anatomia do corpo humano, e pode-se dizer que cada um desses tratados faria honra a um adepto da Ciência. Todos esses tratados são improvisos, executados sem a mínima hesitação e aparentemente sem estudo preparatório.

Durante todo o tempo das sessões a médium parecia estar em seu estado normal. Essa senhora conversava conosco durante todo o tempo e respondia com ar inteiramente natural quando lhe dirigiam a palavra, em matéria de simples conversa. A influência oculta que a dominava só se traía no movimento automático da mão.

Atesto que concebi e apresentei, eu mesmo, a maior parte das perguntas, que a médium não podia, por conseguinte, ter conhecimento delas previamente: além de mim mesmo, nenhum dos assistentes conhecia o seu conteúdo; essas perguntas foram apresentadas freqüentemente sem premeditação, e as respostas foram escritas pela médium, à nossa vista; ter-lhe-ia sido materialmente impossível munir-se de antemão de informações quaisquer acerca das respostas a dar.

Acrescentarei que ela nunca recebeu um penny de remuneração por todas as horas – cem, pelo menos – que consagrou com tanto desinteresse ao estudo de seus notáveis fenômenos mediúnicos.”

A Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, a cuja atenção essas experiências foram recomendadas, negou-lhes todo o valor em conseqüência de um certo número de erros que as respostas continham. Os erros são sempre possíveis e o Sr. Barkas não apresentou essas respostas como espécimes de infalibilidade científica. O interesse principal dessas experiências não se baseia nisso.

Admitamos mesmo que 50% dessas respostas não estejam isentas de inexatidões – e a crítica publicada no jornal da Sociedade não menciona mais de uma dúzia delas – ficaria ainda por explicar a origem das outras respostas, não criticadas, cujo número se eleva a mais de cem.

Segundo essa crítica, tudo se explicaria por uma excelente memória para os termos técnicos, pela leitura de um artigo de muitos anos passados, acerca da acústica, e de qualquer manual popular moderno. Está aí mais um exemplo dessa crítica fácil que se sai de embaraços apelando para a fraude; o escritor nem sequer se preocupa em explicar essa escolha estranha de “um tratado antigo”. Seria talvez para melhor pôr em relevo a individualidade invisível que inspirou essas respostas à médium? Porém, nesse caso, uma palavra inconsiderada tirada de um “manual moderno” teria feito trair a fonte facilmente.

Segundo o Sr. Hartmann, é nas misteriosas operações da “leitura cerebral” que é preciso procurar a explicação desses fatos. Esse argumento é mais sério, certamente, que o do crítico inglês; pelo que me apressei em escrever ao Sr. Barkas para pedir-lhe algumas explicações, com a intenção de examinar se a hipótese do Sr. Hartmann pode ser aplicada no caso que se apresenta. Ele me enviou a carta seguinte:

“Newcastle-on-Tyne, 8 de fevereiro de 1888.

O senhor pergunta-me em primeiro lugar se eu mesmo estava no caso de responder de maneira tão precisa, quanto a médium o fez, às perguntas de Física que eu lhe dirigi; em seguida, deseja saber além de que pontos as respostas recebidas por intervenção da médium não poderiam mais ser consideradas um efeito da leitura cerebral. No que diz respeito à Física, devo dizer que eu poderia responder a um certo número das perguntas apresentadas à médium, porém não tão bem como ela o fez; tratando de certas especialidades, eu não teria recorrido, naquela época, a uma fraseologia tão técnica e precisa; isso diz respeito mais particularmente à descrição do cérebro e da estrutura do sistema nervoso, à circulação do sangue, à estrutura e funcionamento dos órgãos da vista e do ouvido. As respostas recebidas pela médium eram, em geral, notavelmente superiores aos meus conhecimentos científicos de então, e são superiores às que eu poderia dar atualmente – isto é, depois de doze anos –, se eu tivesse de escrevê-las sem me preparar de antemão para isso.

Estudei cerca das três quartas partes dessas perguntas antes de as submeter à médium; e entretanto, devo confessar que eu não teria podido redigir minhas respostas com a mesma exatidão e com a mesma elegância de linguagem como que eram as transmitidas pela médium.

Essas respostas contêm muitos termos técnicos que certamente eu não teria tido a lembrança de empregar, por falta de uso. De outro lado, há naquelas respostas expressões que me eram totalmente desconhecidas, por exemplo a expressão “membrana adnata” (adnata), para designar a conjuntiva; aliás, eu só encontrei um único médico aqui que conhecia esse termo.

Compreendo toda a dificuldade que tenho em informá-lo de maneira mui satisfatória sobre os pormenores que lhe interessam, visto que sou obrigado a tratar de minha sinceridade e a fazer alusões a meu apreço individual para ajuizar do que eu sabia e do que não sabia na época em que se fizeram as sessões. Posso, entretanto, afirmar sob palavra que eu não estava no caso de responder, de modo tão minucioso, a grande parte das perguntas de Física que eu apresentara sem tê-las comunicado, desde o princípio, a outras pessoas, e havia ali centenas de perguntas às quais eu não teria podido responder absolutamente.

É exato que eu não teria sabido responder às perguntas sobre Música. Realizaram-se três sessões consagradas às ciências musicais; foi às duas últimas que assistiu o professor de música. Na primeira, fui eu quem apresentou todas as perguntas: dois dias antes, eu tinha pedido encarecidamente a um dentre meus amigos, perito em matéria musical, que mas formulasse, e não tentei compreendê-las sequer; apresentei-as à médium, que escreveu imediatamente, sem a mínima hesitação, as respostas que o senhor leu, e ainda outras. Nem um só músico se achava naquela sessão. A própria médium só tinha noções muito elementares de música.23

Nas outras duas sessões, a maioria das perguntas que tratavam de crítica musical foram apresentadas pelo professor de música; fui eu quem apresentou as outras – eu as tinha obtido de alguns músicos dentre meus amigos. Parece-me que, dentre as respostas dadas às perguntas do professor, algumas não combinavam com as suas opiniões. Quanto às que se referem às perguntas apresentadas por mim, eu ignorava então se eram ou não exatas.

Eu ficaria bem satisfeito em conhecer, ao menos um só caso bem averiguado, de um sensitivo iletrado que, sem ser mesmerizado, tivesse respondido por escrito, em estilo correto e científico, a perguntas acerca de música e de ciência, por meio da leitura de pensamentos ou pela ação da vontade exercida por um sábio ou por um músico vivo.

Desejaria que o Sr. Hartmann tentasse a experiência e que submetesse essas mesmas perguntas a um de seus sensitivos, mesmerizados ou não. Seria preciso ainda, para que a experiência fosse leal e valiosa, que o sensitivo lesse não só no espírito do magnetizador, porém ainda no das pessoas estranhas com as quais não estivesse em relação magnética.

Pede-me o senhor que indique as perguntas às quais nem eu nem nenhum dos assistentes teríamos podido responder.

Na primeira das sessões consagradas à música, nenhuma das pessoas presentes era capaz de dar uma resposta coerente. Ninguém do mesmo modo teria podido responder a perguntas de Química, de Anatomia, as que diziam respeito ao olho, ao ouvido, à circulação do sangue, ao cérebro, ao sistema nervoso e a muitas outras relacionadas com as ciências físicas. À exceção do Sr. Bell, que tinha algumas noções de Química prática, mas não se exprimia com facilidade, e de mim, que conhecia rudimentos da Física, as pessoas que assistiam às sessões eram absolutamente alheias a essas matérias.

Aceite, etc.,



P. T. Barkas.”

Eis ainda outro fato que parece triunfar de todas as objeções: ele foi comunicado ao Light (1884, pág. 499) pelo General-major A. W. Drayson e publicado sob este título: The Solution of Scientific Problems by Spirits (Solução de Problemas Científicos pelos Espíritos). Eis aqui a sua tradução:

“Tendo recebido do Sr. Georges Stock uma carta em que me perguntava se eu podia citar, ao menos um exemplo, em que um Espírito, ou um que o pretendesse ser, tivesse resolvido, durante uma sessão, um desses problemas científicos que preocuparam os sábios do século passado, tenho a honra de comunicar-lhe o fato seguinte, do qual fui testemunha ocular.

Em 1781, William Herschel descobriu o planeta Urano e seus satélites. Observou que esses satélites, ao contrário de todos os outros satélites do sistema solar, percorrem suas órbitas de oriente para ocidente. J. F. Herschel diz em seus Esboços Astronômicos: “As órbitas desses satélites apresentam particularidades completamente inesperadas e excepcionais, contrárias às leis gerais que regem os corpos do sistema solar. Os planos de suas órbitas são quase perpendiculares à eclíptica, fazendo um ângulo de 70º58, e eles os percorrem com movimento retrógrado, isto é, sua revolução em torno do centro de seu planeta efetua-se de leste a oeste, ao invés de seguir o sentido inverso.”

Quando Laplace emitiu a teoria de que o Sol e todos os planetas se formaram à custa de uma matéria nebulosa, esses satélites eram um enigma para ele.

O Almirante Smyth menciona em seu Ciclo Celeste que o movimento desses satélites, com surpresa de todos os astrônomos, é retrógrado, ao contrário do movimento de todos os outros corpos observados até então.

Na “Gallery of Nature”, diz-se do mesmo modo que os satélites de Urano descrevem sua órbita de leste a oeste, anomalia estranha que faz exceção no sistema solar.

Todas as obras sobre a Astronomia, publicadas antes de 1860, contêm o mesmo raciocínio a respeito dos satélites de Urano.

Por meu lado, não encontrei explicação alguma a essa particularidade; para mim, era um mistério do mesmo modo que para os escritores que citei.

Em 1858, eu tinha como hóspede, em minha casa, uma senhora que era médium, e organizamos sessões quotidianas. Certa noite ela me disse que via a meu lado uma pessoa que pretendia ter sido astrônomo durante sua vida terrestre. Perguntei a essa personagem se estava mais adiantada presentemente do que durante sua vida terrestre. “Muito mais” – respondeu ela.

Tive a lembrança de apresentar a esse pretendido Espírito uma pergunta a fim de experimentar seus conhecimentos:

– Pode dizer-me – perguntei-lhe – por que os satélites de Urano fazem sua revolução de leste para oeste e não de oeste para leste?

Recebi imediatamente a resposta seguinte:

– Os satélites de Urano não percorrem sua órbita de oriente para ocidente; eles giram em torno de seu planeta de ocidente para oriente, no mesmo sentido em que a Lua gira em torno da Terra. O erro provém de que o pólo sul de Urano estava voltado para a Terra no momento da descoberta desse planeta; do mesmo modo que o Sol, visto do hemisfério austral, parece fazer o seu percurso quotidiano da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, os satélites de Urano moviam-se da esquerda para a direita, o que não quer dizer que eles percorram sua órbita de oriente para ocidente.

Em resposta a outra pergunta que apresentei, meu interlocutor acrescentou:

– Enquanto o pólo sul de Urano estava voltado para a Terra, para um observador terrestre parecia que os satélites se deslocavam da esquerda para a direita e concluiu-se daí, por erro, que eles se dirigiam do oriente para o ocidente; esse estado de coisas durou cerca de 42 anos. Quando o pólo norte de Urano está voltado para a Terra, sue satélites percorrem o trajeto da direita para a esquerda, e sempre do ocidente para o oriente.

Em seguida perguntei como tinha sucedido não se ter reconhecido o erro 42 anos depois da descoberta do planeta Urano por W. Herschel. Responderam-me:

– É porque, em regra, os homens não fazem mais do que repetir o que disseram as autoridades que os precederam; deslumbrados pelos resultados obtidos por seus predecessores, não se dão ao trabalho de refletir.

Guiado por essa informação, comecei a resolver o problema geometricamente e apercebi-me de que a explicação respectiva era exata, e a solução muito simples. Por conseguinte, escrevi sobre essa questão um tratado que foi publicado nas memórias do Ensino Real da Artilharia, em 1859.

Em 1862, dei essa mesma explicação do pretendido enigma em uma pequena obra sobre a Astronomia: Common Sights in the Heavens (Olhar pelos Céus); mas a influência da “opinião autorizada” é tão funesta, que só em nossos dias os escritores que se ocupam de Astronomia começam a reconhecer que o mistério dos satélites de Urano deve ser atribuído à posição do eixo desse planeta.

Na primavera do ano de 1859, tive ainda por uma vez oportunidade de, por intervenção da mesma médium, conversar com a personalidade que se apresentava como o mesmo Espírito; perguntei-lhe se podia esclarecer-me acerca de um outro fato astronômico ainda desconhecido. Naquele tempo eu possuía um telescópio com uma objetiva de 4 polegadas e de uma distância focal de 5 pés. Fui informado de que o planeta Marte tinha dois satélites que ninguém tinha visto ainda e que eu poderia descobrir em condições favoráveis. Aproveitei-me da primeira ocasião que se apresentou para fazer observações nesse sentido, mas não descobri coisa alguma. Participei essa comunicação a três ou quatro amigos com os quais eu fazia experiências espiríticas, e ficou decidido que guardaríamos segredo acerca do que se tinha passado, pois que não possuíamos prova alguma em apoio às alegações de meu interlocutor, e corríamos o risco de expor-nos à risada geral.

Durante minha estada nas Índias, falei nessas revelações ao Sr. Sinnett, não posso dizer com exatidão em que época. Dezoito anos mais tarde, em 1877, esses satélites foram descobertos por um astrônomo, em Washington.”




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   51


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal