Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Introdução


A publicação da obra do Sr. Hartmann, sobre o Espiritismo, causou-me a mais viva satisfação. O meu mais sincero desejo foi sempre que um eminente filósofo não pertencente ao campo espírita se ocupasse dessa questão de uma maneira absolutamente séria, depois de ter adquirido um conhecimento aprofundado de todos os fatos atinentes ao assunto; desejava que ele os submetesse a um exame rigoroso, sem levar em conta as idéias modernas, os princípios morais e religiosos que nos governam; esse exame devia pertencer à lógica pura, baseada na ciência psicológica.

Caso ele chegasse à conclusão de que a hipótese proposta pelo Espiritismo era ilógica, eu desejaria que ele me indicasse as razões, o porquê disso e qual seria, a seu ver, a hipótese que corresponderia melhor às exigências da ciência contemporânea.

Sob esse ponto de vista, a obra do Sr. Hartmann constitui uma obra de mestre e apresenta a mais elevada importância para o Espiritismo.

Em nosso jornal hebdomadário, o Rebus, que se publica em São Petersburgo, anunciei o aparecimento dessa obra em um artigo intitulado: Um acontecimento no mundo do Espiritismo, artigo no qual eu disse, entre outras coisas:

“O livro do Sr. von Hartmann é para os espíritas um guia que os porá em condições de estudar uma questão dessa natureza e de formar uma idéia do cuidado com o qual devem conduzir as suas experiências, e da circunspecção de que devem usar tirando suas conclusões para afrontar com confiança a crítica da ciência contemporânea”.

Imediatamente propus ao Rebus publicar a tradução daquela obra, como o tinha feito o jornal Light, de Londres; atualmente o livro do Sr. Hartmann apareceu ao mesmo tempo no Rebus e em volume separado.

Podemos, pois, esperar que com o concurso de um pensador, tal qual o Sr. Hartmann (temos todo o fundamento em acreditar que, no futuro, ele não nos recusará o auxílio das suas luzes), essa questão, cuja incomensurável importância para o estudo do homem começa a aparecer, será finalmente posta na ordem do dia, há de impor e provocar a apreciação a que tem direito.

Todos os meus esforços na Alemanha (país que consideramos ocupar o primeiro lugar no estudo das questões filosóficas) tiveram por fim atrair para o Espiritismo a atenção imparcial dos seus sábios, na esperança de obter o seu apoio e as indicações necessárias para continuar o estudo racional dessa questão.

A Alemanha oferecia, para a investigação e discussão de tal assunto, o terreno livre que eu não podia encontrar na Rússia de vinte anos passados; procedi da maneira seguinte: publiquei em tradução alemã os materiais mais importantes colhidos na literatura inglesa, sobre esse assunto; em seguida, a contar do ano de 1874, editei, em Lípsia, um jornal mensal Psychische Studien, que tinha como missão popularizar esses escritos. Os meus esforços foram acolhidos por violenta oposição; os sábios alemães em sua maioria não queriam absolutamente tratar dessa questão julgada indigna; negavam os fatos, condenavam a teoria, e isso apesar da atitude animadora de muitos escritores célebres, tais como: Emmanuel Fichte, Franz Hoffman, Maximiliano Perty e outros que me prestaram o seu apoio, quer pela palavra, quer pela ação, publicando artigos no meu jornal. A entrada do Sr. Zöllner em cena deu uma nova direção à controvérsia. Os materiais que eu tinha preparado para a comissão espírita, nomeada em 1875 pela Universidade de São Petersburgo, materiais que importavam na demonstração ad oculos de fatos tangíveis, na pessoa do Dr. Slade, e que não foram utilizados pela dita comissão, que tinha pressa em dissolver-se, não tardaram, entretanto, em produzir seus frutos na Alemanha.

Quando o professor Zöllner, devido ao êxito das suas experiências com Slade, quis adquirir um conhecimento mais amplo nessa matéria, encontrou, com satisfação, tudo o que lhe era necessário nas minhas diversas publicações. Por mais de uma vez ele me testemunhou a sua gratidão, e a verificação que ele fez da realidade dos fenômenos mediúnicos produziu na Alemanha uma sensação imensa.

Logo depois apareceram as obras do Barão Hellenbach, que foi, na Alemanha, o primeiro pesquisador independente nessa ordem de fenômenos. Ele foi em breve seguido nesse caminho por um outro pensador distinto, o Dr. Carl du Prel. Ademais, depois de Zöllner, a questão espírita tinha engendrado na Alemanha uma literatura completa.

Ao mesmo tempo, as demonstrações públicas do magnetizador-hipnotizador Hansen produziram uma revolução no domínio do magnetismo animal. Esses fenômenos, negados e difamados sistematicamente durante um século, foram finalmente coligidos pela Ciência; as maravilhas do hipnotismo, reconhecidos hoje em toda a sua realidade, preparam o caminho que deve conduzir à aceitação das maravilhas mediúnicas.

Talvez seja mesmo devido a esse concurso de circunstâncias que devemos o aparecimento do livro de Hartmann, porque é precisamente sobre a teoria da sugestão mental em geral e da sugestão das alucinações em particular que esse filósofo baseou uma parte essencial da sua hipótese.

Aqui também, o meu humilde trabalho preparatório prestou notáveis serviços, porque foi na maior parte em minhas publicações alemãs e no meu jornal Psychische Studien que Hartmann tirou os fatos que lhe serviram para formular o seu juízo sobre a questão espírita. Ele me deu mesmo a honra de recomendar o meu jornal como particularmente útil para o estudo desse assunto.

Finalmente, desde o momento em que Hartmann insiste sobre a necessidade de submeter os fenômenos mediúnicos a um exame científico e pede que o Governo nomeie para esse fim comissões científicas, posso com toda a confiança considerar a minha atividade na Alemanha como tendo atingido em cheio o seu alvo; tenho todas as razões de acreditar que, desde o momento em que uma voz tão autorizada se fez ouvir para proclamar a necessidade de semelhante investigação, a questão espírita fará sozinha o seu caminho na Alemanha. Por conseguinte é preciso que eu me retire para consagrar o resto das minhas forças à continuação da minha obra na Rússia.

Entretanto, antes de retirar-me, seria talvez útil que expusesse aos leitores do meu jornal as razões que não me permitem aceitar sem reservas as hipóteses e as conclusões do Sr. Hartmann, as quais devem ser de uma autoridade muito grande, não somente para a Alemanha, mas ainda para o mundo filosófico inteiro. O motivo que me leva a isso não provém, de maneira alguma, do fato de o Sr. Hartmann se ter pronunciado decididamente contra a hipótese espírita; por ora, considero o lado teórico como colocado em segundo plano, como de importância secundária e até prematura, no ponto de vista estritamente científico; finalmente, o próprio Sr. Hartmann o reconhece quando diz:

“Os materiais de que dispomos não são suficientes para considerar essa questão como amadurecida para a discussão.” (Der Spiritismus, pág. 14).

O meu programa foi sempre prosseguir antes de tudo na pesquisa dos fatos, para estabelecer a sua realidade, seguir o seu desenvolvimento e estudá-los, na qualidade de fatos, em toda a sua prodigiosa variedade. Na minha opinião, passar-se-á por muitas hipóteses antes de chegar a uma teoria suscetível de ser universalmente adotada como a única verdadeira, enquanto que os fatos, uma vez bem estabelecidos, ficarão adquiridos para sempre. Enunciei essa opinião há cerca de vinte anos, publicando uma tradução russa da obra do Dr. Hare (Pesquisas experimentais sobre as manifestações dos Espíritos), nesses termos:

“A teoria e os fatos são duas coisas distintas; os erros da primeira nunca poderão destruir a força destes últimos, etc.” (Ed. alemã, pág. LVIII).

No meu prefácio à edição russa de William Crookes, escrevia ainda:

“Quando o estudo dessa questão fizer parte do domínio da Ciência, passará por muitas fases que corresponderão aos resultados obtidos: 1º- verificação dos fatos espiritualistas; 2º- verificação da existência de uma força desconhecida; 3º- verificação da existência de uma força inteligente desconhecida; 4º- pesquisa da fonte dessa força, a saber: acha-se ela dentro ou fora do homem? é subjetiva ou objetiva? A solução desse problema constituirá a prova definitiva, o experimentum crucis dessa questão; a Ciência será então chamada a pronunciar o mais solene veredicto que jamais foi pedido à sua competência. Se esse juízo for afirmativo para a segunda alternativa, isto é, se ele decidir que a força em questão dimana de uma fonte fora do homem, então começará o quinto ato, uma imensa revolução na Ciência e na Religião.” (Ed. alemã, pág. XI-XIII).

Onde nos achamos atualmente? Podemos afirmar que estamos no quarto ato? Não o creio. Acredito de preferência que estamos ainda no prólogo do primeiro ato, pois a questão, quanto aos próprios fatos, não é ainda admitida pela Ciência, que não os quer reconhecer! Estamos mui distantes ainda da verdadeira teoria, principalmente na Alemanha, onde a parte fenomênica dessa questão está tão pouco desenvolvida que ali há falta quase total de médiuns com força suficiente para as exigências do estudo experimental.

Todos os fatos sobre os quais Hartmann baseia a sua argumentação foram adquiridos fora da Alemanha; o Sr. Hartmann não teve sequer ensejo de observá-los pessoalmente. É verdade que ele teve a coragem mui meritória de aceitar os testemunhos de outrem, porém ninguém poderá negar que em tal questão as experiências pessoais sejam de uma importância capital. Mais ainda, o limite onde podem atingir esses fatos está longe de ser traçado; a sua expansão, o seu desenvolvimento são lentos, porém constantes; o que Hartmann exige deles, no ponto de vista da crítica, deve ainda ser adquirido.

Como prova de que não opto pelo triunfo exclusivo de uma ou de outra das hipóteses espíritas, apelo para o fato seguinte: Deixei ao meu estimado colaborador, o Sr. Wittig, plena liberdade de publicar sobre os fenômenos em questão as suas idéias pessoais que tendem a procurar a sua explicação na teoria chamada psíquica, antes que na teoria espírita.

Mas, professando uma tolerância inteiramente perfeita a respeito das diversas teorias propostas, não posso manter a mesma atitude passiva perante a ignorância dos fatos, o seu esquecimento, a sua supressão, desde que eles não parecem estar de acordo com a hipótese emitida. Aquele que deseja ser absolutamente imparcial no estudo de problema tão complicado, necessariamente, nunca deve perder de vista a totalidade, o conjunto dos fatos já adquiridos; mas, infelizmente, um dos erros ordinários que cometem os promotores de uma hipótese é que, pretendendo a todo o transe dar razão ao seu sistema, esquecem ou passam em silêncio os fatos que precisamente se trata de explicar.

É nessa ordem de idéias que eu me vi forçado a sustentar uma polêmica com o Sr. Wittig, o qual levou o desenvolvimento da sua hipótese até a falar da fotografia de uma alucinação, o que é uma fragrante contradictio in adjecto.

É provavelmente esta polêmica que visa o Sr. Hartmann quando diz que o Sr. Wittig não pôde elevar a voz para a defesa da sua teoria “senão em uma luta contra o próprio editor do jornal” (Spiritismo, pág. 2). Se houve luta, não foi empenhada em defesa da própria hipótese, porém pela causa da lógica e da imparcialidade que se deve aos fatos.

A crítica do Sr. Hartmann é inteiramente baseada sobre a aceitação provisória (condicional) da realidade dos fatos espíritas, à exceção dos fenômenos de materialização, que ele nega pura e simplesmente. Essa licença, por si só, não poderia ser deixada sem réplica. Mas, independentemente da materialização, há numerosos fatos que escaparam ao conhecimento do Sr. Hartmann, ou sobre os quais ele guardou silêncio, ou antes, cujas particularidades ele não apreciou devidamente. Ora, julgo do meu dever apresentar todos esses fatos, fazendo sobressair deles o seu justo valor. Aproveitar-me-ei dessa oportunidade para oferecer as conclusões às quais cheguei depois de longos estudos sobre esse assunto, conclusões que não publiquei antes do aparecimento desta obra.




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