Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Diversos fenômenos de gênero misto-composto


Antes de ocupar-me com os fenômenos para cuja explicação o Sr. Hartmann julga necessário fazer exceção aos seus princípios metodológicos e recorrer a uma explicação metafísica sobrenatural (pág. 81), isto é, ao Absoluto, devo mencionar aqui fenômenos de caráter complexo que completarão e ilustrarão, por assim dizer, as conclusões que acabo de enunciar.

O Sr. Hartmann nos diz:

“A escrita em questão só é relativamente inconsciente, é consciente para a consciência sonambúlica latente; vemos a prova disso no fato de o médium, posto no estado de sonambulismo aparente, recordar-se do que escreveu em estado inconsciente.” (pág. 58).

E mais adiante:

“Se um médium, achando-se em estado sonambúlico, pode comunicar de viva voz o conteúdo exato de uma comunicação escrita, a distância, e acerca da qual não tinha conhecimento algum em estado de vigília, encontramos aí a prova absoluta de que a consciência sonambúlica do médium não é alheia à sua atividade mediúnica, que participa dela, de certa maneira.” (pág. 113).

Por conseguinte, se um médium escreve em estado sonambúlico, e se não pode reproduzir de maneira exata, precisa, o que ele próprio escreveu, quer em estado sonambúlico, quer quando tiver voltado ao estado normal, ficaremos no direito de pretender que está aí “a prova irrecusável” de que a consciência sonambúlica do médium foi alheia à sua atividade mediúnica e de que não teve naquilo parte alguma.

Encontramos essa prova no fato seguinte:

“Um correspondente que se assina F. E. B., tenente do Exército Real, membro da Sociedade Real Asiática, publicou no Jornal Knowledge de 2 de março de 1883 a narração seguinte referente à escrita por meio da prancheta:

Pus-me a fazer, há algum tempo, experiências com a prancheta; eu estava convencido, então, de que essa escrita era produzida pela atividade inconsciente da pessoa que colocava as mãos em cima do aparelho (sendo excluída toda a possibilidade de fraude). Esta explicação, se é exata, deve fornecer curiosos esclarecimentos acerca da atividade do cérebro. Eu conhecia, por felicidade, uma pessoa com a qual a pequena régua escrevia sempre admiravelmente bem, de maneira que me pude entregar a diversas experiências interessantes. Quando eu colocava a sua mão sobre o pequeno aparelho (que eu mesmo tinha feito, e que constava de uma régua na qual eu tinha feito um orifício para nele fixar o lápis) e apresentava uma pergunta, a resposta era dada com admirável presteza, com maior rapidez do que a que se atingiria ao escrevê-la pelo processo natural; a escrita era mui legível, se bem que o seu caráter mudasse freqüentemente, diferindo sempre absolutamente da escrita do médium; considero esta particularidade como muito significativa. Essa senhora ignorava o que escrevia até à ocasião de fazer a sua leitura. Em muitos casos, a comunicação assim transmitida só era conhecida por mim ou por outra pessoa somente, das que estavam presentes, e não podia ser devida, segundo a teoria da ação inconsciente, senão a um efeito da leitura de pensamentos.

Mas é principalmente a experiência seguinte que eu desejaria assinalar à vossa atenção: magnetizei essa senhora por muitas vezes. Como é o caso habitualmente, ela podia responder a diversas perguntas durante seu estado de sono; mas ao despertar não se recordava mais de coisa alguma (farei notar, de passagem, que, se lhe sucedia perder um objeto qualquer no estado de vigília, ela podia indicar de cada vez, estando adormecida, o lugar em que tinha posto esse objeto). Tive, pois, a lembrança de colocar suas mãos sobre a régua enquanto ela estava imersa em sono magnético. Recebi, como sempre, uma resposta à minha pergunta; antes de a ler, perguntei à médium o que ela tinha escrito; estava persuadido de que mo diria imediatamente. Porém, não pôde fazê-lo.

Não é uma prova de que as palavras escritas por ela não eram produto de seu cérebro, nem em sua atividade normal, nem no estado especial que caracteriza o sono mesmérico? Devemos, por conseguinte, ou admitir um terceiro estado, desconhecido até o presente, ou, pelo contrário, apelar para a idéia de um agente exterior, que não estou muito disposto a aceitar.” (Light, 1883, pág. 124).

O erro do Sr. Hartmann provém de ter querido generalizar sua afirmação; pois, pelo fato de em grande número de casos a escrita ser obra da consciência sonambúlica, não resulta necessariamente que em outros casos ela não obedeça a uma sugestão de fonte estranha. A possibilidade desta última origem é aparente no fenômeno seguinte, exposto pelo Sr. Young, a quem já conhecemos pelas citações que fizemos do “falar em línguas estrangeiras”.

O Sr. Young refere o fato seguinte, que se deu por intermédio de sua mulher:

“Em uma sessão organizada em casa do Dr. Haskel, em presença do Dr. Budd e dos Srs. Kimball, Miller, Kilburne e outros, minha mulher falava em estado de transe, em nome de uma italiana que dizia chamar-se Leonor. Como minha mulher se prestasse freqüentemente a essas experiências magnéticas, um dos assistentes emitiu a suposição de que o “Espírito” que se manifestava não era outro senão o Espírito do próprio magnetizador, que ali estava presente, entre os visitantes; ele propôs, conseguintemente, que o médium fosse subtraído àquela influência; o magnetizador devia mergulhá-la em sono mesmérico e tentar implantar-lhe a mesma personalidade.

A médium foi imediatamente chamada ao estado normal e em seguida magnetizada. Obedecendo à vontade do magnetizador, ela começou a cantar com muito sentimento a ária bem conhecida de “Annie Laurie”. Esse resultado encheu de satisfação as pessoas cépticas, que acreditavam ver aí a demonstração de sua teoria. Mas o triunfo foi de curta duração: quando ela estava na metade do último verso, a força estranha arrancou-a subitamente à influência do magnetizador, que, desde aquele momento, não teve mais poder sobre ela. Todos os esforços que empregou para coagi-la a terminar a canção foram vãos. Então ele desejou, pelo menos, livrá-la daquela influência que a dominava; mas, pela primeira vez, perdeu toda a influência sobre o seu sensitivo. Vendo o caminho inesperado que tomava a experiência, um dos assistentes externou este desejo: desde que a médium se acha sob a influência do “Espírito” de uma italiana, sugiram-lhe que cante uma ária nessa língua. Por mais surpreendente que isso possa parecer, esse desejo foi realizado sem demora, e os assistentes ficaram encantados pela excelente execução do trecho. Não havia italianos entre nós, mas algumas pessoas sabiam essa língua muito bem para poderem julgar dela. Essas experiências foram repetidas por muitas vezes e pudemos ouvir minha mulher falar italiano.”

Neste caso vemos que a sugestão do magnetizador visível teve que ceder à sugestão de um magnetizador mais poderoso, se bem que invisível.

Mas eis outro exemplo, ainda mais curioso: foi o magnetizador invisível que teve que ceder o lugar a outro magnetizador, igualmente invisível; talvez também uma comunicação ditada pela consciência sonambúlica da médium fosse subitamente interrompida por uma comunicação proveniente de outra fonte. Em carta publicada pelo Religio-Philosophical Journal, o Sr. Brittan, escritor espiritualista conhecido, refere assim esse fenômeno:

“Em 1852, em certa manhã, eu assistia a uma sessão, em Greenfield, Mass., com o médium D. D. Home, que se tornou tão célebre mais tarde. Um dos assistentes recitava o alfabeto, e as comunicações faziam-se por meio de pancadas. Em dado momento, essas pancadas se tornaram muito fortes, e o sinal convencionado (cinco pancadas) nos advertiu de que o alfabeto era reclamado. Alguém fez a observação de que esse pedido não tinha sentido algum, visto que o alfabeto já estava sendo recitado. O mesmo sinal foi repetido, ao mesmo tempo em que a mesa dava violentos balanços, o que deu ocasião a que um dentre nós fizesse a reflexão de que a harmonia tinha sido substituída por medonha desordem. Acreditando ter adivinhado do que se tratava, fiz notar que não era necessariamente uma desordem e que talvez outra individualidade tivesse interrompido a comunicação, tendo provavelmente que nos comunicar alguma coisa urgente. Minha suposição foi imediatamente confirmada por pancadas dadas em diversas partes do aposento e por grande estremecimento da mesa. Comecei a recitar o alfabeto e recebi esta confirmação: “Volta para casa, teu filho está doente, parte imediatamente, ou então chegarás tarde.” Tomei a mala de mão e parti. Apenas me achei na rua ouvi o silvo do trem que chegava à estação; era o último trem pelo qual eu podia ir para casa naquela noite. Eu estava distante da estação cerca de um oitavo de milha; comecei a correr o melhor que pude e cheguei no momento em que o trem se punha em movimento. Apenas tive o tempo preciso de saltar para a plataforma de trás do último vagão. Ao chegar em casa, verifiquei a exatidão rigorosa da comunicação espírita.” (Light, 1881, pág. 260).

Qual poderia ser, segundo o Sr. Hartmann, a causa dessa interrupção de comunicação? É evidente que ela não residia no médium. Seria talvez um “despacho telegráfico” da consciência sonambúlica de um dos membros da família Brittan? Mas o Sr. Hartmann não admite as comunicações a grande distância, a não ser sob a forma de alucinação – tese que discutiremos mais tarde –, ao passo que no caso considerado ela se efetuou por meio de pancadas e de movimentos da mesa. Além disso, de que maneira a consciência sonambúlica teria tido conhecimento da aproximação do trem?

Eis ainda um caso semelhante. A causa da interrupção não é determinada; entretanto nada permite acreditar que essa causa deva ser procurada no próprio médium. Tiro a narração do fenômeno de que se trata ao reverendo Adin Ballou, em uma citação do professor Robert Hare (Experimental Investigation of the Spirit Manifestations, § 1602).

“Os agentes ocultos me haviam convidado a fazer, em lugar indicado e em determinada ocasião, um sermão sobre um tema qualquer, com a promessa de manifestar sua aprovação por meio de pancadas, o que foi executado com rigorosa exatidão. Certo dia, no decurso de uma sessão, a pergunta seguinte foi soletrada, sem que a lembrança de tal coisa tivesse ocorrido a quem quer que fosse:

– Escolheste o tema de teu sermão do domingo próximo?

– Sim, um só – respondi –; não me indicarás um tema para meu sermão da noite?

– Sim.


– Qual?

A comunicação começou pela letra “O”, e deteve-se. Eu ainda estava a admirar tal interrupção, quando outra individualidade invisível se manifestou, mas substituindo as pancadas por movimentos da mesa. Ela me informou que seu predecessor, o Espírito batedor, tinha sido chamado a outra parte, por pouco tempo, e que não tardaria em voltar. Efetivamente, um quarto de hora depois, meu primeiro interlocutor recomeçou a comunicação interrompida e terminou-a assim: Segundo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, versículos 12 e 13. Nenhum dos assistentes podia recordar-se do texto designado, que se verificou ser muito apropriado a um sermão naquele dia.”

Se essa interrupção fosse obra da consciência sonambúlica, a que razão plausível é preciso atribuir a substituição das pancadas por movimentos da mesa?

Eis outro caso, finalmente, em que nos é forçoso escolher entre a admissão de um terceiro fator e o álibi da consciência sonambúlica:

“A jovem Mary Banning, médium, achando-se em casa do Sr. Moore, em Winchester (Conn.) a 14 de junho de 1852, tinha chamado o Espírito de seu irmão, Josiah Banning; mas, contra seu hábito, ele próprio não se manifestou. O convite foi repetido durante toda a noite, porém em vão. Finalmente, à última hora, na ocasião em que todas as pessoas presentes iam retirar-se para se deitar, a presença de Josiah Banning foi bruscamente anunciada. O Espírito declarou que não atendera aos chamados que lhe dirigiram na primeira parte da noite porque passara todo o dia na companhia de sua irmã Edith. A moça Edith Banning estava em Hartland (Conn.), a 16 milhas dali, como mestra de escola. Pouco tempo depois Mary Banning recebia uma carta de sua irmã Edith, escrita no dia seguinte pela manhã do dia em que se tinha realizado em casa do Sr. Moore a entrevista espírita da qual acabo de falar, e a moça Edith dizia que Josiah tinha passado perto dela todo o dia precedente e que sua visita a tinha impedido de dormir durante toda a noite.” (S. R. Britan e Richmond, Uma discussão sobre os fatos e a filosofia do Espiritualismo antigo e moderno, Nova Iorque, 1853, pág. 289).

Eis duas irmãs médiuns, as moças Mary e Edith Banning, cujas consciências sonambúlicas deveriam estar de perfeito acordo, agir harmonicamente, e às quais o pretendido Espírito de Josiah Banning, seu irmão, deveria ter-se manifestado ao mesmo tempo! Entretanto, da narração que acabamos de citar, resulta que sucederam as coisas de modo diverso.

Ainda posso fazer menção aqui de uma experiência que foi feita em minha presença, em círculo íntimo; esse fato pertence antes à primeira série, mas coloco-o aqui como introdução, ao que se segue, onde figurarão as mesmas personagens.

A 17 de outubro de 1873, terça-feira, eu assistia em Londres a uma sessão dada por uma médium de profissão, a Sra. Olívia; um dos Espíritos que ela invocava, Hambo, que pretendia ter sido um negro da Jamaica, dirigiu-me a palavra e disse-me entre outras coisas que gostava de ocupar-se da formação dos médiuns. Notando a esmeralda do anel que eu tinha no dedo, disse-me que “não apreciava a esmeralda, porque suas emanações são más”; porém acrescentou que essa pedra não me prejudicava, por ser lembrança de um amigo, o que era verdade: esse anel me tinha sido dado por V. J. Dahl. Disse também que ele e os Espíritos em geral preferem o brilhante como símbolo da pureza. “Sua mulher – diz ele – tem um brilhante no anular da mão esquerda” (o que era exato). “Estás vendo-o?”, perguntei-lhe. “Sim, é uma médium notável (o fato também era exato), uma excelente mulher; sua mão esquerda ignora o que dá a direita” (o que era verdade ainda).

Hambo prometeu ir visitar-nos em são Petersburgo a fim de contribuir para o desenvolvimento das faculdades mediúnicas de minha mulher, e combinamos em que sua primeira visita fosse na quinta-feira a contar de 17 de outubro, isto é, a 20 de novembro, às 8 horas da noite, e que ele se comunicaria por pancadas, pois que minha mulher não falava, em estado de transe. Eu tinha escolhido a terça-feira porque era o dia em que tinha o hábito de fazer com ela sessões inteiramente íntimas. Logo depois de meu regresso a São Petersburgo, recomeçamos nossas sessões; a ninguém eu tinha dito coisa alguma acerca da promessa que Hambo me tinha feito e, quando comecei a sessão de 20 de novembro, estava naturalmente preocupado com essa idéia; quando perguntei a mim mesmo se Hambo realizaria ou não a promessa, inclinava-me pela afirmativa. Entretanto, nada sucedeu. Essa falta não era de minha mulher, parecia-me evidente, pois que essa sessão não deixou de dar resultados e porque tivemos uma comunicação proveniente de outra parte. Assim, pois, sua consciência sonambúlica funcionava, e era realmente o momento de ler em nossos pensamentos e de fazer com que Hambo falasse.

As condições eram das mais favoráveis, pois que, como o diz o Sr. Hartmann:

“Um médium tem sempre grande interesse em adivinhar os pensamentos, conscientes e latentes, dos espectadores, pois que seu interesse é fazer comunicações surpreendentes, e nada impressiona mais o “bom senso” dos assistentes do que ver comunicar coisas que eles acreditam ser os únicos a saber, ou que escapam mesmo à sua consciência no estado de vigília. É preciso, pois, supor sempre no médium a vontade de perceber. Se sucede ao médium trabalhar perante pessoas que, de seu lado, têm igualmente interesse em que se dêem fenômenos admiráveis, então o desejo de apoiar o médium e de lhe aplainar tanto quanto possível todas as dificuldades, deve necessariamente desenvolver-se nessas pessoas, o que dará em resultado incitar a vontade inconsciente a transmitir as idéias. Além disso, no decurso das sessões as mãos dos vizinhos se tocam, condição muito favorável à transmissão dos pensamentos.” (pág. 72).

Por que razão, pois, essa transmissão não se deu, pois que as condições requeridas estavam ali reunidas?

Como quer que seja, a experiência não deu resultado; não fiquei surpreso, sabendo quão pouco nos devemos fiar dessas espécies de fiscalização, e não pensei mais em tal coisa. Não tendo que felicitar-me com os resultados de minha tentativa, a ninguém falei nisso. Na terça-feira seguinte, fizemos uma pequena sessão de três pessoas, em companhia do professor Boutlerow. Apaguei a luz, ficando o aposento suficientemente iluminado pelo gás da rua. O alfabeto inglês foi pedido; repeti-o, e escrevi as letras indicadas pelas pancadas do pé da mesa em torno da qual estávamos reunidos. Não podendo acertar com o sentido das palavras traçadas, parei para acender a vela e orientar-me; minha mulher já estava em estado de transe, e no papel li as letras seguintes:

“g a m h e r e a n e w a s l a s t t e m e w t h y o u”

Compreendi que se soletrava alguma coisa que poderíamos compreender mais tarde; por conseguinte, tornei a apagar a luz e comecei a recitar o alfabeto; entretanto, não conseguia descobrir o sentido das sílabas reunidas. Finalmente, quando terminou a comunicação, acendi a vela e examinei o que tinha escrito durante esses últimos instantes, e li o que se segue:

As I promised, but I cannot yet take entirely control over her. – Hambo.” (como o tinha prometido, mas não posso tomá-la ainda completamente à minha conta. – Hambo).

As letras tinham sido indicadas muitas vezes por pancadas dadas na mesa, e na última palavra esta executou movimentos violentos. Minha mulher, que tinha estado em transe durante toda a sessão, voltou a si placidamente no final da comunicação.

Então comecei a decifrar a primeira frase e, substituindo algumas letras, obtive a frase seguinte: I am here and was last time with you (Estou aqui e estava perto de ti na última vez).

Por que então a consciência sonambúlica da médium descobria em meu cérebro a imagem de Hambo e a personificava, quando essa imagem não mais se achava em meu cérebro, a não ser em estado latente?

Já que acabo de falar de Hambo, posso agora citar uma experiência absolutamente única nos anais do Espiritismo e que encontra o seu lugar neste capítulo:

Na sessão seguinte éramos ainda três e aguardávamos a vinda de Hambo; mas, em vez do alfabeto inglês, pediu-se o alfabeto russo. Depois de algumas frases referentes à mediunidade de minha mulher, todas as quais interpretamos, pedem de novo o alfabeto. Eu tinha apagado a luz, e recitava e inscrevia as letras russas, sem poder lê-las, e fiz observar que eu tinha escrito em letras russas y u h,26 que provavelmente era a palavra inglesa which e que era preciso recitar o alfabeto inglês (É preciso explicar aqui que as três letras russas pronunciam-se u, i, tsch, ou, juntamente, como a palavra inglesa which). Comecei, por conseguinte, a soletrar em inglês; imediatamente a comunicação parou. Acendi a vela e vi que tinha escrito de maneira absolutamente correta Youh wife, “sua mulher” (na escrita, a letra r é igual ao h russo).

Assim, não eram, como eu o tinha pensado a princípio, as letras russas y u h, porém a palavra inglesa your, e era essa palavra que tinha sido soletrada enquanto eu recitava o alfabeto russo; por conseguinte, aquele que ditava se tinha servido da forma das letras russas que se repetia nas letras, para compor dessa maneira uma palavra inglesa.

Eu já tinha tido oportunidade de ver por muitas vezes darem-se comunicações em língua estrangeira com letras russas, segundo sua semelhança de som com letras estrangeiras, quando era o alfabeto russo que era soletrado – e foi por essa razão que tomei as letras russas y u h pela palavra inglesa which –, mas foi a primeira e única vez em que vi servirem-se da forma das letras russas, correspondendo à forma das letras de outra língua. Repito-o, não encontrei em parte alguma a narração de um fato semelhante e acredito poder acrescentar que não há outro nos anais do Espiritismo.

Pode-se indagar por que motivo a consciência sonambúlica de minha mulher, que dispunha igualmente do alfabeto russo e do alfabeto inglês, não pediu imediatamente o alfabeto inglês, ou, finalmente, por que não soletrou as palavras inglesas servindo-se de letras russas que tivessem a mesma consonância; a palavra your, por exemplo, reproduz-se facilmente e mui exatamente por outras letras russas. Porém, não! O alfabeto russo foi utilizado exatamente da mesma maneira que o teria feito um estrangeiro que não conhecesse tal alfabeto e escolhesse somente letras que se assemelhassem pela forma às letras de sua língua.

Fenômenos desse gênero, que permitem supor a intervenção ativa de um terceiro fator, são numerosos no Espiritismo, mas deram-lhe geralmente pouca importância. Veja-se o que diz o Dr. Wolfe acerca do célebre médium Mansfield, que escrevia com ambas as mãos ao mesmo tempo em que falava:

“Vi o Sr. Mansfield escrevendo na mesma ocasião duas comunicações, uma com a mão direita, a outra com a esquerda, e isso em língua que desconhecia por completo. Enquanto se entregava a essa dupla ocupação, conversava comigo acerca de assuntos diversos ou prosseguia em uma conversação começada antes de seu trabalho gráfico a duas mãos, dessa maneira, enquanto me falava de modo mui sensato, suas mãos também conversavam.

Recordo-me com muita exatidão de que certo dia o Sr. Mansfield, enquanto escrevia com as mãos, em duas línguas, disse-me:

– Wolfe, conhece na Colômbia um homem chamado Jacobs?

Respondi afirmativamente. Ele continuou:

– Ele está aqui e deseja anunciar-lhe que deixou o invólucro mortal hoje de manhã.”

Tive a confirmação dessa notícia. O fato passou-se a uma distância de algumas centenas de milhas. Que explicação se pode dar dessa tríplice manifestação intelectual?” (Wolfe – Startling Facts in Modern Spiritualism, Cincinnati, 1874, pág. 48).

O reverendo J. B. Fergusson, na página 57 de seu livro Supramundane Facts (Londres, 1865), dá testemunho de um fato semelhante. Um caso análogo, dado recentemente, é referido nos Proceedings (Memórias) da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, do ano de 1887, pág. 222.

O Sr. Crookes conta um caso semelhante:

Vi a Srta. Kate Fox (mais tarde Sra. Jencken) escrever automaticamente uma comunicação dirigida a uma das pessoas presentes, ao mesmo tempo em que fazia uma comunicação a outra pessoa, sobre assunto inteiramente diverso, por meio do alfabeto interpretado por pancadas, conversando, durante esse tempo, com uma terceira pessoa, acerca de coisas que nada tinham de comum com essas comunicações.” (Crookes, Pesquisas, pág. 95).

Finalmente, eu mesmo me recordo de que certo dia, estando a Sra. Jencken em minha casa, em meu gabinete de trabalho, sentada à mesa, recebeu uma comunicação por escrito e ao mesmo tempo se faziam ouvir pancadas perto dela, à direita e à esquerda, não alternadas, porém simultâneas.

Em fenômenos físicos, há numerosos exemplos em que um trecho de música foi tocado em muitos instrumentos (até seis) ao mesmo tempo, o que permite concluir pela pluralidade de centros agindo conscientemente. Vede, por exemplo, o número 372 de Light.

Vou fechar este capítulo mencionando um fato dos mais extraordinários, que se deu no começo do movimento espírita e cuja narração foi publicada no Rochester Daily Magnet de 26 de fevereiro de 1850, com a assinatura das oito pessoas que tinham estado presentes. Encontrei esta narração no livro do Sr. Capron Espiritualismo Moderno (pág. 82-87); porém só publicarei aqui um breve resumo.

Trata-se de uma comunicação idêntica dada, ao mesmo tempo, por pancadas, em dois aposentos da mesma casa, afastados um do outro.

O Sr. Draper tinha em sua família uma clarividente; dirigiu-se por seu intermédio ao Espírito de Benjamim Franklin, que ela pretendia ver, e apresentou-lhe esta pergunta:

– Podem-se receber comunicações por meio de pancadas, em dois lugares separados?

Depois da resposta afirmativa de Franklin e observando as instruções que ele tinha dado, as duas moças Catarina e Margarida Fox foram convidadas pelo Sr. Draper, assim como por alguns de seus amigos, a reunir-se a 15 de fevereiro seguinte. Uma parte da assistência, com um dos médiuns, ficou no salão, e a outra, com o segundo médium, dirigiu-se a um aposento situado no extremo oposto da casa. Ouviram-se pancadas ao mesmo tempo nos dois grupos.

Mas como se dessem interrupções a cada instante pela entrada de recém-chegados, os assistentes que se conservavam no salão receberam pouco depois esta comunicação: “As coisas não estão organizadas como pedi, eis porque não podem fazer a experiência atualmente. Não devem estar mais de quatro pessoas em cada aposento.”

Quando o primeiro grupo se juntou ao segundo, verificou-se que as comunicações recebidas dos dois lados eram absolutamente idênticas.

Uma segunda sessão foi fixada para 20 de fevereiro, e dessa vez as instruções de Benjamim Franklin foram seguidas à letra. O primeiro grupo recebeu esta comunicação: “Agora estou pronto, meus amigos. Grandes transformações produzir-se-ão no XIX século. As coisas que lhes parecem obscuras e misteriosas tornar-se-ão compreensíveis. O mundo ficará esclarecido. Assino meu nome: Benjamim Franklin. Não entrem no outro aposento.”

O segundo grupo tinha recebido a mesma comunicação; somente a última frase estava modificada assim: “Vão à sala de visitas e confrontem as notas que tomaram.” (pág. 86).

Que explicação natural se pode dar deste fato? É uma transmissão inconsciente de pensamentos entre dois médiuns distanciados um do outro? Devendo os dois médiuns funcionar ao mesmo tempo, as transmissões de impressões deveriam entrecruzar-se e juntar-se confusamente. Supondo-se que uma comunicação seja dada a princípio por um médium e reproduzida imediatamente pelo outro, as dificuldades não seriam menores. É preciso suspeitar que os médiuns tinham preparado as duas comunicações idênticas, antes da sessão? Mas não se deve esquecer que os médiuns eram duas crianças e, além disso, que nunca médium algum produziu pancadas à vontade!

Todas essas tentativas de explicações se desfazem perante o fato preciso de que na primeira reunião os médiuns não sabiam nem sequer que eram convidados para uma experiência especial e que ignoravam em que ela devia consistir – assim como o afirmou formalmente o Sr. Draper. (pág. 84).




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