Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Comunicação de fatos desconhecidos
do médium e dos assistentes


Vamos estudar agora uma série de fatos para cuja explicação o próprio Sr. Hartmann reconhece que “é preciso recorrer a uma explicação metafísica, transcendente” (pág. 81). Trata-se de “comunicações transmitidas a grande distância, e da clarividência propriamente dita”. Mas não se compreende a relação que o Sr. Hartmann pretende encontrar entre essas manifestações e o Espiritismo.

Falando da transmissão a grande distância, ele diz que o Espiritismo “não apresenta ainda nenhum documento desse gênero” (pág. 73) e, tratando da clarividência, procura explicar – para uma parte dos fatos – por “uma mediação sensorial qualquer”, que “age sobre a percepção dos sentidos” (pág. 74); tais são “os fatos de emanação individual dos homens ou dos animais, por exemplo: a sensação da presença de um gato que ninguém vê; a designação entre muitos copos cheios d’água daquele no qual o magnetizador mergulhou o dedo; a indicação exata da hora na qual se fez parar um relógio ao acaso, estando ele fechado; leitura de divisas ou pensamentos em folhas de papel encerradas em avelãs; leituras de palavras escolhidas ao acaso e que se ocultam com o dedo; escrita direta reproduzindo o texto de uma página qualquer de um livro fechado; designação pelos sonâmbulos da moléstia de uma pessoa que não conhecem e da qual se lhes faz tocar uma mecha de cabelos; visões de multidões de elefantes e de erupção de vulcões, provocadas pelo contato de um fragmento de dente de elefante ou de um bloco de lava, etc.”.



Para um outro grupo de fatos, o Sr. Hartmann pretende que “a relação é estabelecida não por uma percepção sensorial, mas por um ato da vontade (afeição profunda, amizade, patriotismo, nostalgia, etc.); por exemplo: as visões de acontecimentos que se dão em lugar muito distante (guerras, incêndios, tremores de terra); as visões de acontecimentos futuros: previsão de mortes com pormenores insignificantes; as visões de cortejos fúnebres; previsão de um incêndio, de uma fulminação, etc.” (pág. 76-77).

Todos esses fenômenos – à exceção da leitura sem o auxilio dos olhos – e principalmente os da última categoria, que o Sr. Hartmann apresenta como fatos de “simples clarividência” (pág. 79), têm pouca relação com os fenômenos espíritas; pertencem ao domínio da segunda vista e da clarividência magnética.

O Sr. Hartmann não indicou quais são, em sua opinião, as comunicações espíritas que devem ser explicadas pela clarividência, e não se deteve em nenhum dos exemplos citados para entrar em explicações e para aplicar-lhes sua teoria.

Devemos, pois, supor que esses fatos são todos aqueles que não se podem explicar pela hiperestesia da memória. Por conseguinte, é preciso examinar esses fenômenos para ver como a hipótese do Sr. Hartmann lhes pode ser aplicada. Comecemos pelos únicos fatos aos quais o Sr. Hartmann faz alusão e que explica pela clarividência, recorrendo a “uma mediação sensorial qualquer”.


A – A visão às escuras e em lugares fechados


O fenômeno da leitura sem o auxílio dos olhos foi positivamente provado pelas numerosas experiências feitas no domínio do sonambulismo; é certo que é o resultado de uma espécie de clarividência. Mas a teoria da clarividência tal qual é exposta pelo Sr. Hartmann é a única possível e pode aplicar-se indiferentemente a todos os fatos? – eis a questão. Temos sempre necessidade de recorrer à “onisciência do Espírito Absoluto” (pág. 79), o que não passa de um recurso in extremis para a divindade?

Para nos podermos orientar nessa questão, é-nos preciso voltar a certos fenômenos físicos do mediunismo ou, antes, insistir sobre certas particularidades desses fenômenos, por exemplo: eles podem produzir-se em escuridão completa com absoluta precisão. É assim que, para as manifestações físicas, é de uso fazer completa escuridão durante as sessões; é mesmo uma condição essencial para obter-se a produção desses fenômenos. Nessas sessões, como se sabe, instrumentos de música giram acima da cabeça dos assistentes, sem nunca se chocar com eles; grandes caixas de música deslocam-se, vão pousar em uma cabeça, mui suavemente, com perfeita precisão; quando os assistentes são tocados por mãos, o contato se faz sem a menor hesitação, segundo sua própria fantasia ou segundo as indicações dadas pelo assistente indicado. Fica-se convencido imediatamente de que a força produtora das manifestações vê às escuras tão distintamente quanto nós mesmos à luz.

Por muitas vezes verifiquei esse fato em segredo. Assim, no decurso de uma sessão feita às escuras em casa do Sr. Everitt, em Londres, um dos Espíritos-guias, John Watt, tinha o hábito de entreter longas conversações viva voce por meio de um tubo de papelão colocado sobre a mesa, e sua voz saía desse lugar. Achando-nos sentados em torno da mesa, completamente às escuras, e sem fazer a cadeia, levantei o braço direito, desejando que minha mão fosse tocada pelo tubo, tudo isso sem dizer coisa alguma a meus vizinhos. No momento preciso em que estendi o braço, os dedos receberam na extremidade muitas pancadas dadas com o tubo. De outra vez, em uma sessão às escuras com a Srta. Kate Cook, formávamos a cadeia; não podendo mover a mão, apenas levantei o indicador com o desejo de que ele fosse tocado; o resto da mão estava imóvel; imediatamente dois dedos me tomaram a unha e apertaram-na.

Em minhas experiências com Bredif, quando ele estava em transe atrás de uma cortina de tecido, sucedeu-me freqüentemente aproximar a mão da cortina e imediatamente sentia que no espaço sombrio dois dedos vinham através do tecido chocar-me a mão ou apertá-la. O próprio aposento estava meio escuro e teria sido impossível para um olho ordinário ver através da cortina o movimento e o lugar de minha mão. Admitindo-se mesmo que meu desejo tenha sido conhecido pela “leitura do pensamento”, isso não bastaria para explicar como se podia conhecer exatamente o local onde eu colocaria o dedo e a mão. Pode-se fazer interessante experiência do mesmo gênero traçando um esboço em papel que se colocará em cima da mesa, com uma tesoura, durante uma sessão às escuras; ouvir-se-á a tesoura cortar o papel e recortar exatamente a figura desenhada.

No Light de 1886 (pág. 604) encontrar-se-á uma narração interessante de experiências desse gênero, instituídas em Moscou, pelo Sr. Yarkorski, com o médium Eglinton. São bem conhecidas as experiências de escrita direta e de leitura, realizadas no escuro; até mesmo se podem notar casos de leitura de um texto desconhecido de todos os assistentes. Vejam-se também as experiências elétricas às escuras, feitas por Varley (Relatório da Sociedade de Dialética, parte II).

O Sr. Hartmann falou extensamente acerca de todos esses fenômenos; ele explica a sua parte física pela força nervosa do médium e a parte intelectual por sua consciência sonambúlica. O que ele não explica, porém, é a ação e a visão às escuras.

Ser-se-ia tentado a imaginar que essa faculdade tão característica da visão às escuras é uma das virtudes extraordinárias da consciência sonambúlica; mas é preciso, parece, concluir pela negativa, pois que, se assim fosse, o Sr. Hartmann não teria procurado explicar pela clarividência esse fato: “que um médium pode ler uma palavra que o magnetizador encobre com o dedo” (pág. 75) – experiência feita pelo Sr. Crookes com uma senhora que escrevia por meio da prancheta (Pesquisas acerca dos fenômenos do Espiritualismo, pág. 168) – ou ainda, “casos de cópia de uma página de um livro fechado” (pág. 75). A explicação desses fenômenos não deveria ser mais difícil de encontrar do que a de todos os outros, pois que a força nervosa penetra a matéria sem dificuldade alguma (ver as experiências de Zöllner quanto às impressões e a escrita obtida entre duas ardósias) e porque o médium, em estado de transe, atrás da cortina, vê perfeitamente os assistentes e os objetos que ele faz moverem-se, segundo suas alucinações; por conseguinte, ver através de um dedo ou das páginas de um livro fechado não é mais difícil, e equivale à leitura às escuras sem o auxílio dos olhos.

Como quer que seja, é evidente que a produção desses fenômenos às escuras implica um gênero de clarividência, e toda a questão consiste em saber como explicá-lo.

Temos que escolher dentre duas teorias. Em primeiro lugar a do Sr. Hartmann, que opina por um “saber absoluto” que seria uma das faculdades da “alma individual” e que não é, em última análise, mais do que uma função do “indivíduo absoluto” (pág. 79). Dessa maneira, quando na escuridão completa a força nervosa recorta a figura desenhada em papel e escolhe-se, dentre muitos lápis de cores colocados entre duas ardósias, o indicado para escrever, a clarividência necessária a essa operação é uma função do indivíduo absoluto! Mas, segundo a teoria que reconhece em nós a existência de uma individualidade transcendente, a ação física a distância é produzida pelo desdobramento ou pela projeção de um membro do organismo do indivíduo transcendente, e a visão às escuras nada mais é do que uma de suas funções, pois que suas faculdades de percepção são transcendentes sem que por isso sejam funções do absoluto. Esta teoria refere o fenômeno a uma causa natural, simples e racional, e tem o mérito de não fundar-se no “sobrenatural”, ao qual o Sr. Hartmann se julga coagido a ter recorrido.

Que a faculdade de clarividência não é uma função do absoluto, porém uma função orgânica transcendente – mais ou menos defeituosa, ou mais ou menos perfeita, segundo a qualidade do organismo transcendente –, pode-se verificar por uma série de experiências feitas em certa ordem, isto é, eliminando pouco a pouco as possibilidades de explicação por outras hipóteses.

Nessa ordem de idéias, fiz algumas experiências muito interessantes. Vai para dez anos, assisti a uma série de sessões mediúnicas, organizadas em um círculo rigorosamente íntimo, que constava de minha cunhada, senhora idosa, de meu genro e de mim mesmo. Nosso intuito era obter, não fenômenos físicos, que eu tinha tido freqüentemente ocasião de ver, porém manifestações intelectuais, para estudá-las a fundo. Naquela circunstância, toda suspeita de fraude foi evitada incontestavelmente; empregamos, por conseguinte, um modo de experimentação inteiramente primitivo e que deu resultado em grande número de casos: um alfabeto impresso é colado em um pedaço de papelão; pequena régua, pontuda de um lado, é colocada em cima do papelão e serve de indicadora; os experimentadores colocam as mãos por cima e ela se põe em movimento, indicando as letras.

Meus dois parentes em questão nunca tinham feito experiência acerca de sua mediunidade. Era sua estréia. Instalei-os na mesa, indagando se essa sessão podia dar resultados quaisquer. Verificou-se que eles tinham faculdades mediúnicas notáveis. No começo, houve inclinações da mesa, e foi por esse meio que nos foram indicadas as letras do alfabeto que um de nós recitava. Esse processo nos pareceu muito moroso e tivemos que recorrer a outro meio. Quanto a mim, não possuo a menor mediunidade e meu concurso resumia-se a inscrever, em uma outra mesa, as letras que me ditavam.

Essas sessões deram resultados muito interessantes. Eram organizadas no intuito de estabelecer até que ponto as “comunicações” podiam ser atribuídas à nossa ação pessoal inconsciente e se elas são de natureza a coagir-nos a admitir a existência de um agente exterior, inteligente. Sucedia-nos receber comunicações incoerentes; às vezes nossos esforços eram completamente estéreis; porém, em outras vezes obtínhamos manifestações notáveis. Publiquei algumas dessas comunicações em meu jornal Psychische Studien sob o título: “Enigmas filológicos, por via mediúnica”.

Neste lugar, citarei um fato a que se poderia chamar enigma psicofisiológico. De tempos em tempos chegavam-nos comunicações inteiramente distintas das que recebíamos habitualmente, quer pelo conteúdo, quer pelo estilo e ortografia. Nosso correspondente misterioso começou em pouco tempo a simplificar singularmente a ortografia russa, não prestando atenção às consoantes dobradas, etc. Apesar de todas as nossas instâncias, recusava-se a se dar a conhecer; não dizia o nome e acolhia ironicamente os esforços que eu empregava para procurar definir a individualidade dessa Inteligência que se nos manifestava; entretanto, ele se prestava às experiências que eu propunha.

Eis o diálogo que se estabeleceu entre nós em uma sessão, a 10 de março de 1882:

– Tu nos estás vendo?

– Sim.

– Vês também as letras do alfabeto?



– Sim.

– Com os teus olhos ou com os nossos?

– Com uns e outros.

– E se os médiuns fechassem os olhos, poderias ver as letras?

– Sim, isso pouco importa; é um pouco mais difícil.

– Tens um órgão especial para a vista?...

Nesse momento os médiuns fecham os olhos; a régua faz movimentos que acompanho atentamente, sem tocar na mesa, e indica com correção a resposta seguinte:

– Temo-lo.

– É um órgão corpóreo?...

Os médiuns fecham os olhos de novo; a régua indica uma série de letras com as quais não consegui formar uma palavra qualquer; o alfabeto estava às avessas para mim; coloquei-me do outro lado da mesa e pedi que a palavra fosse repetida; a régua fez exatamente os mesmos movimentos, mas eu não consegui ainda compor uma palavra. Então pedi aos médiuns que abrissem os olhos e a meu interlocutor que soletrasse ainda uma vez a mesma palavra. A régua indicou a palavra:

– Certamente.

A confusão tinha sido causada pelo fato de a régua ter-se detido precedentemente em uma letra vizinha. Sucede freqüentemente, nessas espécies de sessões, a régua não chegar até à letra precisa; fato análogo pode dar-se igualmente quando as letras são indicadas por meio de pancadas pelo pé da mesa.

Numerosas experiências desse gênero foram feitas pelo professor Robert Hare, que trata delas em seu livro; ele tinha construído seus instrumentos de tal maneira que o médium não podia ver o alfabeto. Eu mesmo, em minhas primeiras sessões de Espiritismo, procedi da mesma maneira; no meio de uma comunicação feita com um alfabeto de papelão colocado em cima da mesa, levantei o alfabeto e mantive-o muito elevado, à altura dos olhos, continuando a indicar as letras, de tal maneira que só eu podia vê-las; entretanto, a comunicação continuou. Recentemente encontrei a narração de uma experiência semelhante no volume XI das Memórias da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, pág. 221. Para maior precaução – quando os olhos do médium foram vendados –, tinha-se feito uso de outro alfabeto, que o médium não tinha visto antes e cujas letras estavam dispostas sem ordem alguma. O resultado foi o mesmo.

Em todos esses casos há, entretanto, olhos que vêem – os olhos dos assistentes. Poder-se-ia, pois, supor que o médium opera por transmissão telepática inconsciente as letras que os assistentes vêem; mas essa suposição não é razoável, pois que os assistentes não vêem senão o conjunto do alfabeto, e sua atenção só se fixa em uma letra quando ela já está indicada pelo médium; supondo por um instante que a comunicação emane de maneira inconsciente do cérebro de um dos assistentes, letra por letra, não teria havido por parte do médium mais do que uma leitura de pensamento; ele teria repetido essas letras, mas isso não o teria auxiliado a encontrar e a indicar essas letras sobre o alfabeto impresso; em todo caso, um certo grau de clarividência é, entretanto, necessário; em minha experiência, por exemplo, eu só olhava para o alfabeto quando a régua parava em uma letra.

Continuo a narrar as experiências que fiz, organizando-as de maneira a excluir toda participação possível dos olhos de quem quer que seja. Aproveitei-me da primeira oportunidade que se apresentou para terminar minhas investigações. Em uma sessão que se realizou a 28 de abril, disse a meu interlocutor:

– Diversas questões e dúvidas suscitam-se a respeito de tua faculdade de ver. Disseste que podias ver, que não tens necessidade do órgão visual de quem quer que seja; ora, o primeiro ensaio foi muito satisfatório, porém, na segunda experiência, mesmo quando um dos médiuns conservava os olhos abertos, não conseguiste ler o alfabeto. Desejaria muito verificar tua faculdade de visão independente e proponho-te esta experiência: tomarei ao acaso algumas moedas, sem olhá-las, e as colocarei atrás da cadeira de um dos médiuns. Podes indicar-me o número?

– Venda-lhes os olhos. Tentarei.

– Que experimentarás, precisamente?

– Indicar as letras.

Os olhos dos médiuns são vendados; acompanho as indicações da prancheta e inscrevo as letras. Obtemos algumas frases em língua russa, sempre de ortografia singular, depois do que, digo:

– Deu muito bom resultado, mas é preciso organizar a experiência de maneira tal que ninguém possa ver o objeto da experiência. Volto, pois, à minha proposta com as moedas colocadas atrás de uma cadeira. Poderás vê-las?

– É mais difícil.

Tentamos a experiência, e por três vezes sucessivas ela deu mau resultado.

– É admirável – observei –, vês as letras na mesa, e não podes ver as moedas colocadas atrás da cadeira!

– O espaço que separa os médiuns é o que me é mais favorável; venda-lhes os olhos e coloca tuas moedas sob a mesa.

Vendei os olhos dos médiuns com uma larga faixa que descia até à ponta do nariz; fechando os olhos por minha vez, tirei da carteira muitas moedas e, sem contá-las, coloquei-as no bordo extremo do papelão, onde as letras estavam marcadas; depois cobri os olhos de modo que só visse o alfabeto. A prancheta pôs-se em movimento e, como eu não pudesse dar com a palavra indicada, coloquei um folheto em cima das moedas, e então todos abrimos os olhos.

– Fala agora – disse eu.

– Seis.


Levantei o folheto. “Seis!”, exclamamos todos à uma só voz. Porém, em seguida notamos que havia ali na realidade sete moedas, pois que duas moedas de 10 kopeckes estavam superpostas; eu tinha colocado as moedas com precipitação em cima da mesa, para não contá-las involuntariamente, e foi assim que se deu o erro por causa da própria disposição das moedas.

Repeti a experiência. Dessa vez todas as indicações da prancheta foram exatas.

– Coloca-as de melhor modo.

(Passo a mão por cima das moedas a fim de separá-las.)

– Novamente, seis.

Olhamos, era exato. Desejo recomeçar imediatamente, mas a prancheta dita esta frase:

– Coloca-as sobre uma folha de papel branco.

Vendo os olhos dos médiuns, coloco as moedas em cima de uma folha de papel, sem olhar para elas, e pergunto:

– Coloquei-as bem desta vez?

– Perfeitamente. Há sete.

Nossa curiosidade tinha aumentado. Olhamos; o número era ainda exato.

– Coloca o relógio – disse o nosso interlocutor.

Tirei de cima de minha mesa um pequeno relógio-despertador e coloquei-o na mesa onde estavam os médiuns, porém, voltando-o de maneira tal que ninguém pudesse ver os ponteiros.

– Eu preferia um relógio de algibeira. Coloca-o horizontalmente.

Concluí que era preciso colocar o relógio com os ponteiros para cima; por conseguinte, vendei de novo os olhos dos médiuns e coloquei o relógio horizontalmente, sem olhar para ele, bem entendido. Depois de um quarto de minuto, a prancheta indica:

– Seis horas, menos cinco minutos.

Olhamos; era exato e ao mesmo tempo não era exato, pois que o ponteiro do despertador marcava seis e o dos minutos e o dos segundos estavam superpostos em onze; à primeira vista, parecia que eram seis horas menos cinco minutos.

– Experimentemos agora o relógio de algibeira, como manifestaste o desejo.

– Coloca-o em cima do papel.

Depois de ter procedido com precedentemente, soletrou-se:

– Onze horas e quatro minutos.

Olhamos: eram onze horas e cinco minutos.

– Por conseguinte, quando olhaste para o relógio, eram onze horas e quatro minutos, e um minuto foi empregado para o ditado?

– Sim, agora coloca moedas, farei a contagem; será a última coisa, porque estou fatigado.

Vendei os olhos dos médiuns e coloquei em cima da folha de papel muitas moedas sem olhar para elas; a prancheta indicou:

– Um rublo de prata.

Olhamos. A soma estava certa; havia ali quatro moedas de quinze kopekes, uma de vinte e duas de dez.

O mesmo interlocutor voltou a 5 de maio, e eu lhe disse:

– Tenho de fazer-te duas perguntas relativas às nossas experiências com as moedas: 1º- Disseste-nos que vias por ti mesmo, que tens teu órgão visual; entretanto é preciso concluir de nossas experiências que estás submetido a certas condições dependentes de nós; 2º- Quais são essas condições?

– Em relação à primeira pergunta, eu disse que eu mesmo via; disse também: É coisa diversa ver para mim e ver para transmitir-te o que vejo; nossas percepções, inclusive as da vista, são independentes dos sentidos, e por isso mesmo elas são qualitativamente e quantitativamente diferentes; para comunicá-las a alguém, uma certa assimilação ou comunhão é necessária. Em relação à segunda pergunta, a esfera de minha atividade, em minhas relações contigo, é certamente limitada; se desejo entrar em comunhão externa contigo, o melhor meio é aproveitar-me do médium; em torno dele há por assim dizer sua atmosfera, a parte mais espiritualizada de cada um; é, pois, a própria extensão dessa atmosfera que é a condição de minha atividade, e é ela que determina o seu limite; essa atmosfera deve ser contínua: é uma periferia.

– Assim, tua vista depende das condições mediúnicas?

– De maneira alguma. Que sabes a esse respeito? Quando te vejo à minha maneira e para mim, de nada preciso, de auxílio algum, é evidente; mas desde que desejo não só ver completamente, como vês, à tua maneira, mas ainda dizer-te o que vejo, é outra coisa.

As respostas de nosso interlocutor têm, como se vê, profundo senso filosófico. Se verdadeiramente ele pertence ao mundo dos númenos, donde vê as coisas do nosso mundo, não como se apresentam a nós, mas como são em si mesmas, ele deve, conseqüentemente, vê-las à sua maneira, deve entrar no mundo dos fenômenos e submeter-se às condições de nossa organização; pois que tal é a organização, tal a idéia que formamos do mundo.

– Ainda uma pergunta: Por que pediste que a moeda fosse colocada em cima de uma folha de papel branco?

– Isso é subjetivo; não lhes sucede, também, às vezes, pensar que assim viam melhor? Conosco isso se produz mais freqüentemente.

Relendo esta explicação percebo agora que ela se refere ao momento em que as moedas estavam atrás de uma das pessoas presentes; foi provavelmente pelo mesmo motivo que nos pediram também que colocássemos o relógio horizontalmente, com o mostrador para cima; de outra maneira o corpo do objeto teria encoberto os ponteiros. E entretanto as pálpebras dos médiuns, assim como o lenço que lhes vendava os olhos, encobriam da mesma maneira as moedas, o alfabeto e o relógio; eles formavam uma “periferia”; por que motivo, pois, esses anteparos não apresentavam obstáculo algum? Não tive, na ocasião, a lembrança de pedir o esclarecimento daquele ponto.

Compreendo perfeitamente que uma simples venda sobre os olhos, por mais escrupulosamente que seja colocada, não pode servir de prova absoluta de exclusão de toda a percepção da vista ordinária; as vendas mais complicadas não poderiam fornecer essa prova, porque deixam sempre margem para diversas manobras fraudulentas. Todo o valor das experiências que acabo de referir assenta na convicção moral de sua perfeita autenticidade. Fizemo-las não para tirar delas uma vanglória, mas por estarmos interessados na solução do problema que nós mesmos nos tínhamos imposto; e, se vendávamos os olhos dos médiuns, era unicamente para impedir qualquer abertura involuntária das pálpebras, por menor que fosse; finalmente, para ver com as vendas sobre os olhos, teria sido preciso uma ação voluntária, um estratagema intencional.

Que demonstram esses fatos? Quem é que lia, contava, via a hora?

Essas operações eram o resultado de uma atividade inconsciente emanando de nós mesmos ou eram devidas a uma atividade consciente, e nesse caso qual era? Todo o interesse está aí.

Se aceitarmos a tese de que “o inconsciente não tem necessidade de nenhum dos órgãos que servem para transmitir as coisas à consciência” (foi assim que o nosso interlocutor se exprimiu em uma ocasião), tese que devemos considerar como absolutamente exata no ponto de vista da lógica – o próprio Sr. Hartmann define o inconsciente como “onisciente e infalível” – então ele se torna incompreensível porque esse inconsciente não vê os objetos quando são colocados de maneira a subtraí-los aos olhos abertos das pessoas que assistem à sessão; porque ele está confinado nos limites de certo espaço, de uma periferia; é ainda mais difícil de explicar, nesse caso, porque a visão fica incerta mesmo quando as condições do espaço são observadas, o que se conclui dos erros cometidos ao indicar as letras, erros por assim dizer aceitáveis, pois que o indicador parava então ao lado da letra precisa; ainda mais incompreensíveis são as inexatidões que essa visão cometeu nas experiências com o relógio e com as moedas; ela toma duas moedas superpostas por uma só, o ponteiro do despertador pelo das horas e os dois ponteiros do mostrador, superpostos, pelo ponteiro dos minutos. Isso quer dizer que ela apresenta todos os defeitos de função de um órgão visual ordinário. Tudo isso permite, acredito, concluir que se trata não de uma faculdade inconsciente de nosso cérebro – que deveria manifestar-se independentemente de qualquer órgão –, mas de uma faculdade consciente, dependente de um órgão visual. Mas nossa atividade consciente assim como o funcionamento de nossos órgãos visuais, supressos no presente caso, enquanto que o fato da visão é inegável, há fundamento para admitir que temos aqui a manifestação de uma atividade consciente estranha proveniente de outro organismo, isto é, de nosso ser transcendente.

Vamos adiante, e encontraremos outros casos em que a periferia não será mais um obstáculo à penetração da vista. É assim que o próprio professor Hare imaginou apresentar atrás do médium algumas cartas tomadas ao acaso em um baralho e cuja ordem ninguém podia conhecer. Em certos casos, as cartas foram adivinhadas; em outros, com mudança da influência oculta, essa experiência não dava resultado. (Hare – Experimental Investigation, § 112, pág. 33).

O Sr. Capron, autor do Modern Spiritualism, narra assim uma de suas experiências de Espiritismo:

“Achando-me, em outra ocasião, em companhia do Sr. Isaac Post, de Rochester, tentei fazer a seguinte experiência: tomei um punhado de conchas em um cesto e pedi que me indicassem o número delas por meio de pancadas. O número obtido era exato. Mas, como eu já sabia o número exato de conchas que tinha na mão, desejei repetir essa experiência evitando toda a possibilidade de uma co-participação qualquer por parte de minha consciência. Tomava grandes punhados de conchas, sem contá-las; as respostas eram sempre exatas. Pedi então ao Sr. Post, que estava a meu lado, que tomasse muitas conchas, sem contá-las, e que as pusesse em minha mão, que eu fechei imediatamente, de maneira que ninguém tinha podido conhecer o conteúdo. A quantidade de conchas era ainda indicada com a mesma exatidão. Entregamo-nos por muitas vezes a essas experiências e invariavelmente com o mesmo resultado.” (pág. 75).

Segundo a teoria do Sr. Hartmann, haveria aí a princípio transmissão de pensamento, depois, um instante depois, um salto ao absoluto.

Eis a experiência do Sr. Crookes:

“Uma senhora escrevia automaticamente por intermédio da prancheta. Tentei descobrir o meio de provar que o que ela escrevia não era devido à ação inconsciente do cérebro. A prancheta, como costuma sempre, afirmava que, se bem que posta em movimento pela mão e braço dessa senhora, a Inteligência que a dirigia era a de um ser invisível, que se servia do cérebro da senhora como de um instrumento de música, e fazia assim mover seus músculos.

Digo então a essa Inteligência:

– Vês o que está neste quarto?

– Sim – escreve a prancheta.

– Vês este jornal e podes lê-lo? – acrescentei, colocando o dedo em cima de um número do Times que estava sobre a mesa, atrás de mim.

– Sim – respondeu a prancheta.

– Bem – digo –, se podes vê-lo, escreve a palavra que está agora coberta por meu dedo e acreditarei em ti.

A prancheta começou a mover-se lentamente, e com muita dificuldade escreveu a palavra however. Voltei-me e vi que a palavra however estava coberta pela ponta de meu dedo.

Propositadamente eu tinha evitado olhar para o jornal, e era impossível à senhora, ainda que tivesse tentado, ver uma só das palavras impressas, pois que estava sentada em uma mesa, o jornal estava em cima de outra mesa e meu corpo lho ocultava à vista.” (William Crookes, Força Psíquica, Paris, Livraria das Ciências Psicológicas).

São conhecidas as experiências de Eglinton sobre a escrita direta reproduzindo uma linha qualquer, indicada, de um livro fechado.

As primeiras experiências desse gênero foram feitas em 1873 pela mediunidade do Sr. A. (Oxon), que tivemos freqüentemente ocasião de citar nesta obra. Essas experiências têm a vantagem de terem sido organizadas em um círculo íntimo, de família, para instrução especial dos pesquisadores. Lemos a esse respeito no Spiritualist de 1873, na página 293 (ver também: Spirit Identity, pelo Sr. A. Oxon, pág. 79):

“Na sessão de 22 de maio de 1873, o próprio médium escrevia as perguntas; as respostas eram dadas por meio de um processo que o Dr. Carpenter teria designado como “funcionamento inconsciente do cérebro que dirige os movimentos da mão”. O diálogo seguinte começou:

– Podes ler?

– Não, meu amigo, não posso, mas Zacarias Gray e R. o podem. Não tenho a faculdade de materializar-me e de dominar os elementos.

– Um desses Espíritos acha-se aí?

– Vou conduzir um para aqui. R. está presente.

– Disseram-me que podias ler. É verdade? Podes ler um livro?

(Nesse momento a escrita muda.)

– Sim, porém com dificuldade.

– Queres escrever-me o último verso do primeiro livro da Eneida?

– Espera... Omnibus errantem terris et fluctibus œstas.

Estava exato. Mas era possível que eu conhecesse esses versos.

– Podes escolher na estante o penúltimo volume, na segunda prateleira, e ler-me o último parágrafo da página 94? Não vi esse livro e nem sequer conheço o seu título.

Demonstrarei por uma narração histórica que o papado é uma inovação que surgiu e desenvolveu-se gradualmente desde a época do Cristianismo puro...

Feita a verificação, vi que era uma obra mui curiosa, tendo por título: Antipopepriestian by Rogers (o Antipapal e o Anticlerical, do escritor Rogers).

A citação era exata, à exceção de uma palavra: “recit” (narrativa), que tinha sido substituída por “account” (relatório).

– Como é possível que eu tenha acertado em uma passagem tão a propósito?

– A esse respeito nada sei, é uma coincidência. Foi por descuido que substituí uma palavra; apercebi-me disso imediatamente, mas não quis retificar.

– Como procedes para ler? Escrevias muito mais lentamente, parando com freqüência.

– Eu escrevia à proporção que me lembrava do que tinha lido. Essa leitura exige um esforço extraordinário e só pode servir para demonstração. Teu amigo tinha razão ontem, ao dizer que podemos ler, mas somente em condições favoráveis. Vamos ainda ler e escrever, e te diremos em seguida em que livros se acham as respectivas passagens.

A mão do médium escreve: “Pope é o escritor mais em evidência, pertencente a essa escola de poesia da inteligência, ou antes da “inteligência unida à fantasia”. A citação é exata. Olha o undécimo livro na mesma prateleira; ele se abrirá na página precisa. Lê e admira o nosso poder e a bondade de Deus que nos permite demonstrar nosso poder sobre a matéria. Glória a Ele. Amém.”

Procurei o livro indicado; era intitulado: A Poesia, o Romantismo e a Retórica. Ele se abriu na página 45, que continha, com efeito, a passagem citada, textualmente. Até então eu nunca tinha visto esse livro e não tinha a menor idéia do que ele podia conter.”

Nos últimos casos que acabamos de examinar, a visão sem o auxílio dos olhos produz-se em condições muito absolutas; mas a faculdade dessa visão, não obstante ser produzida pelo próprio médium, na mesma sessão, não é sempre a mesma: suas variações correspondem às mudanças das forças inteligentes que se manifestam, umas das quais declaram possuir essa faculdade e o provam, e as outras confessam não possuí-la, o que tende a fazer acreditar que essa faculdade não deve ser atribuída sempre ao indivíduo transcendente cujas condições de manifestação não se modificaram no momento dado.

Essa faculdade de visão através da matéria e dos corpos opacos parece, segundo os casos que conhecemos, pertencer mais particularmente aos médiuns chamados universais, isto é, àqueles cuja mediunidade não fica restrita às manifestações intelectuais, mas compreende também as manifestações físicas; a penetração da matéria pertence a esse gênero de mediunidade, e a relação entre esse fenômeno e a visão é evidente. Minhas experiências não chegaram até tal ponto, porque eram feitas com o concurso de pessoas cujas faculdades mediúnicas eram inteiramente elementares.

Atribuí essa faculdade de visão ao indivíduo transcendente, porque é por ele que é preciso começar; mas, como o veremos mais tarde, essa entidade psíquica pode manifestar-se quer em estado de encarnação passageira, quer fora desse estado; é apenas questão de particularidades e de circunstâncias.




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