Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



Baixar 2.01 Mb.
Página34/51
Encontro29.11.2017
Tamanho2.01 Mb.
1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   51

B – Fatos conhecidos independentemente dos órgãos que servem habitualmente à percepção


Sob essa categoria, devo mencionar em primeiro lugar um caso dos mais notáveis que se deu em uma de minhas sessões íntimas, no mesmo grupo de três pessoas (minha cunhada, meu genro, um moço de vinte anos, e eu), no qual se tinha feito a experiência de visão sem intervenção da vista, dos quais acabo de falar. Foi nesse mesmo grupo que recebi as comunicações publicadas no Psychische Studien, sob o título: Minhas experiências pessoais. Problemas filológicos apresentados por via mediúnica (1883, pág. 547; 1884, págs. 1, 49, 153, 564; e 1885, pág. 49). O Sr. Hartmann citou por duas vezes essas experiências, e é uma razão a mais para que eu fale delas; porém só me ocuparei da última, que apresenta particularidades excepcionais. Sendo essa experiência a única no gênero feita por mim, e como lhe dou grande importância, vou reproduzir aqui sua narração completa, tal qual foi feita em meu jornal.

Deu-se o fato a 10/22 de fevereiro de 1882. Era a quinquagésima sessão. A mesa pôs-se em movimento imediatamente. O alfabeto russo foi pedido. Observarei que nessa sessão recorremos a um processo que podia simplificar nossas relações com o nosso interlocutor invisível e por isso mesmo ampliar a esfera de tais relações; em vez de nomear todas as letras, na ordem alfabética, até à letra precisa, propus que se fizesse uso de uma folha de papelão, sobre a metade da qual fossem coladas as letras do alfabeto russo, e sobre a outra as letras francesas; a pequena régua ou prancheta serviria de indicador. De acordo com tais disposições, colocamos o papelão em cima de uma mesa pequena, e os dois médiuns, sentados um defronte do outro, colocaram a mão direita sobre a prancheta, que devia pôr-se em movimento e indicar as letras. Antes de começar a experiência com o papelão, tínhamos o hábito de colocar-nos à mesa para nos assegurarmos da presença da força oculta, e só recorremos ao papelão a um pedido nitidamente formulado.

Ora, foi o alfabeto russo o reclamado nesse dia. Depois de algumas frases ditadas por nosso correspondente, reconhecemos nele o recém-vindo que se tinha manifestado na sessão precedente sem ter acedido em dizer o nome. Teria sido impossível não reconhecê-lo por seus ditos espirituosos e pelo estilo que lhe era peculiar. Depois de ter soletrado algumas frases em língua russa, a prancheta começou a indicar letras do alfabeto francês. Nessa ocasião, como habitualmente, eu não tomava parte alguma na sessão, no ponto de vista da mediunidade: estava sentado perto de outra mesa e apenas me ocupava em tomar nota das letras que as outras pessoas me ditavam; entretanto, era eu quem dirigia a conversação. As letras seguintes me foram nomeadas:

e m e k h a b a c c h a

– Mas isso não tem senso comum.

– Acreditas?

– Em francês não existe palavra alguma semelhante.

– Quem te disse que é francês?

– Dize, então, que língua é?

– Não sabes, tanto melhor. Devias, entretanto, sabê-lo; em russo, isso quer dizer “Vale de lágrimas”. É o teu domínio.

– E ainda uma nova mistificação.

– Quem conhecer o hebraico poderá verificar minhas palavras.

– Por conseguinte, é hebraico?

– Sim.

– Soletra-me a mesma palavra em letras russas.



(Devo dizer que os médiuns, nomeando-me uma série de letras que não tinham para eles nenhum sentido, naturalmente não teriam podido repeti-las; quanto às notas que eu tomava, eles não as viam; e, da mesma maneira, a mesma palavra me foi ditada em letras russas.)

– Dize-nos a primeira dessas palavras?

e m e k.

– De que proveniência é esta frase?

– É a sentença de um doutor judeu português.

– Seu nome?

– Creio que se chamava Sardovy.

– Nunca ouvi falar nele.

– Lamento-o.

Em seguida começou uma longa discussão filosófica que é inútil reproduzir aqui. A sessão foi interrompida pelo chá da noite, e aproveitei-me dessa interrupção para consultar um dicionário hebraico acerca da significação das palavras que eu tinha inscrito. Trinta anos antes, tinha-me ocupado um pouco com essa língua e sabia a tal respeito o suficiente para fazer as pesquisas em questão. No radical (bacha) – ele chorou –, encontrei a locução (emek habbaca) – vale de lágrimas. Li nesse dicionário que esta expressão só se encontra uma vez no Antigo Testamento: no 83º salmo, versículo 7. Eu conhecia essa passagem tanto menos quanto meus estudos sobre a língua hebraica só tinham compreendido a Gênesis e os dez primeiros salmos. A citação era, pois, exata, salvo a ortografia latina, segundo a qual se deve escrever habbaca e não habaccha.

No que diz respeito ao nome “Sardovy”, não o encontrei em meus dicionários de biografia.

Comuniquei o resultado de minhas pesquisas à minha pequena sociedade, e depois do chá recomeçamos a sessão. Os médiuns sentaram-se à mesa de experiência antes de minha chegada e, logo que puseram as mãos sobre a prancheta, receberam esta comunicação em língua russa:

– Procura no dicionário o nome de B. Cardósio.

(O nome foi ditado em letras latinas.)

Nesse momento entrei e soube do que se tinha passado. Sentei-me e disse:

– Acabo de consultar o dicionário; a citação é exata.

– Bem sei que ela é exata e que a procuraste; lembrei-me que o nome não é “Sardovy”, porém “Cardovy”..., não; ainda não é isso... “Cardosiob”.

– Que significa o b?

– Seu sobrenome: B. Cardósio. Um sábio doutor. Muito célebre em seu tempo.

– Porém que relação tem ele com as palavras hebraicas?

– É um adágio célebre.

Depois disso a conversação tomou de novo uma feição filosófica. Para dar uma idéia da dialética de nosso interlocutor, citarei algumas de suas respostas às minhas perguntas.

– Podes dizer-nos sob que forma existes?

– A compreensão da essência da forma é precisamente vossa parte fraca.

– Não falo da essência, quero falar da forma.

– Que vem a ser a forma segundo o vosso modo de entender? Para mim a questão de saber se alguma coisa existe ou se acha sob qualquer forma nem sequer pode propor-se, pois que a forma é uma representação indispensável quando se trata de uma existência.

– Não pergunto se revestes uma forma; estou perguntando “que forma” revestes?

– Queres, por conseguinte, falar da essência da forma; acabo de dizer que a forma não passa de uma idéia e estavas de acordo comigo.

Uma discussão animada travou-se então entre mim e o professor Boutleroff, que estava presente a essa sessão. Eu acusava o nosso interlocutor de procurar furtar-se a uma resposta direta. A prancheta pôs-se em movimento, compondo esta frase:

– Compreendi bem: afirmo antes de tudo que a forma é uma idéia. Digo ainda que a forma, como idéia, nos é necessária sempre que se trata de uma coisa que existe; finalmente, tudo o que existe corresponde a idéias que estão em relação com a sua existência, e por conseguinte à idéia da forma, ou melhor, para exprimir-me como filósofo, à idéia do fenômeno.

Esse pensador esquisito exprimia-se sempre em tom irônico, um pouco desdenhoso mesmo. Zombava dos esforços que empregávamos procurando encontrar provas da identidade de um Espírito; afirmava que tal prova não existia. Em nossas discussões, ele levava sempre vantagem sobre nós e ficávamos maravilhados pelo vigor de sua dialética cheia de senso filosófico e ao mesmo tempo impregnada de sarcasmo.

Ele conversou conosco cerca de doze vezes, externando em cada sessão a esperança de nos tornarmos mais inteligentes; mas deixou de manifestar-se com o pretexto de que não sabíamos conversar com ele – no que tinha razão.

No final da sessão de que se trata, apressei-me em fazer novas pesquisas em diversos dicionários, e eis o que encontrei na Nova Biografia Universal de Didot:

“Cardoso (Fernando), médico português, nascido em princípios do XVII século, falecido na segunda metade. Celorico é a verdadeira pátria dessa personagem singular, que tinha granjeado muita nomeada em sua profissão e distinguiu-se nela. Ele foi à Espanha e obteve em Madrid o título de Físico Maior (médico-chefe). O que houve verdadeiramente notável na vida desse sábio é que ele abandonou a religião cristã, na qual tinha sido educado, para entrar no seio do Judaísmo, do qual se tornou um fervoroso apóstolo, etc.”

Por conseguinte, o nosso informante tinha dado prova de boa memória, desta vez. O nome e os traços característicos eram exatos. Apenas o sobrenome não começa por um B, pormenor, aliás, sem importância. Quanto ao que diz respeito à divisa, não pude verificar se provinha realmente de Cardoso; para isso eu teria sido coagido a procurar em suas obras que não devem encontrar-se em nenhuma das nossas bibliotecas. Como quer que seja, o caso é mui notável, mesmo independentemente desse pormenor.

Para fenômenos desse gênero, o Sr. Hartmann propõe a explicação seguinte:

“Na consciência sonambúlica latente de um dos assistentes – se o intento deste último é dirigido a determinado assunto –, ele pode despertar a recordação de frases em língua estrangeira, lidas ou ouvidas em época anterior. O médium pode adivinhar a representação dessas recordações e comunicá-la pela escrita involuntária ou por intermédio de pancadas, sem que a consciência em estado de vigília da pessoa em questão reconheça suas próprias recordações nas frases assim transmitidas.” (págs. 70-71).

Publicando essa narração no Psychische Studien (em 1885) e depois na edição alemã dessa obra em fins de 1888, eu podia afirmar peremptoriamente que as explicações do Sr. Hartmann não lhe podiam ser aplicadas, pois que é certo que nenhum de nós tinha lido nem ouvido recitar aquela epígrafe hebraica.

Inesperadamente, em dezembro de 1888, meu secretário e tradutor em Lípsia, o Sr. Wittig, me escreveu que o enigma Cardoso explicava-se, pois que tinha lido no Salon de 1885 (nº 6) um artigo acerca da Poesia das divisas e provérbios, onde a epígrafe Emek habbacha era mencionada e atribuída a Cardoso, “médico português muito conhecido”, com uma referência à obra de Wichmann, A poesia dos provérbios e divisas (Dusseldorf, 1882). Obtive esse livro o mais rápido que pude e no fim do volume, na parte inferior da página 312, li as linhas seguintes:

“Porém voltemos à terra e terminemos pela única epígrafe hebraica do sábio médico israelita português, B. Cardosio:

“Emek habbacha.” “O vale de lágrimas.”

É claro que a epígrafe que nos tinha sido ditada foi tirada desse livro; todas as particularidades se encontram ali; o erro cometido no nome é comprobatório mais do que tudo; encontra-se ali Cardosio em lugar do verdadeiro nome: F. Cardoso.

É fácil admitir que a epígrafe tenha sido lida por um de nós nesse livro e reproduzida na sessão por uma operação da consciência sonambúlica. É difícil demonstrar que não leste tal coisa, ainda quando a fonte fica desconhecida; isso se torna ainda mais difícil quando te colocam sob os olhos um livro no qual pudeste tirar a citação. E, entretanto, sustentar o contrário não é também tão fácil como poderia parecer a princípio: nossa sessão realizou-se a 10/22 de fevereiro de 1882; o livro tem a data de 1882; suponhamos que, aparecido no fim de 1881, tenha sido importado em S. Petersburgo imediatamente com os livros novos do dia de Ano Bom. Por conseguinte, foi no espaço de dois meses, quando muito, que um de nós teria tido ensejo de ver o livro e de folheá-lo. Mas esse livro tem aspecto muito particular: linda encadernação, dourado nos bordos das folhas, cada página encaixilhada, o texto enfeitado com citações curtas no meio da página em diversos caracteres, etc.; desde que o abrimos, é difícil esquecê-lo completamente, sobretudo em menos de dois meses, e esquecê-lo a ponto tal que nenhum de nós se tenha lembrado de ter visto um livro com epígrafes e não tenha pensado em ir procurar ali o que nos tinha intrigado tanto. Eu próprio, que sou bibliômano, nunca tinha suspeitado da existência de semelhantes coleções de divisas. Logo que recebi o volume, fui mostrá-lo àqueles que tinham tomado parte em nossas sessões; eles me afirmaram nunca tê-lo visto; e o Sr. Boutleroff, que estava presente à sessão, não teria deixado certamente de mencionar essa fonte se tivesse visto naqueles dois meses um livro daquele gênero. Foi só alguns anos mais tarde, quando vi anunciar o livro de Buchmann: Palavras aladas. Repertório de citações alemãs, 1882, que pensei imediatamente em procurar ali as citações latinas, gregas e italianas que obtínhamos em nossas sessões. Porém, nada encontrei acolá. O acaso tinha permitido do mesmo modo que eu não conhecesse coisa alguma até então do livro de Wichmann.

Mas o livro aí está. É preciso, pois, admitir que ele foi visto, aberto maquinalmente nas páginas 312 e 313, depois esquecido completamente; mas, um olhar maquinal não bastaria para reter as palavras emek habbacha, que não são das que se impõem à memória; elas nada nos dizem; é preciso lê-las e relê-las, para conservá-las de memória; depois, ler a sua significação e procurar, na página seguinte, sua proveniência histórica com pormenores precisos. Um olhar descuidoso não bastaria; seria preciso uma leitura atenta, por conseguinte novo argumento contra a hipótese da transmissão inconsciente.

Mas eis o que é mais curioso ainda: de posse do livro, desejei naturalmente verificar se ele não continha outras epígrafes ou provérbios comunicados em nossas sessões. Não tendo o livro tabela nem índice, folheei-o página por página. Meu trabalho foi em breve recompensado; na página 62, descobri ainda duas sentenças que – lembrei-me delas imediatamente – tinham sido empregadas por nosso interlocutor misterioso. Eis as passagens do livro:

“Mais tarde, o nome desse papa (Gregório XIII) serviu de base à divisa:

ó
(Eu velo)

(Não passa de um jogo de palavras baseado na diferença entre as palavras  e ó .)

A Academia della Crusca, criada em Florença em 1584, com o fim de depurar a língua italiana, tinha tomado por divisa:

Il piu bel fior ne coglie
(Assim fica o mais puro)”

E eis o que encontro em meu canhenho de notas:

Na sessão de 3 de março de 1882, a primeira da qual o mesmo interlocutor se manifestou, aproveitei-me da ocasião que se apresentava para lhe perguntar qual era o motivo para fazer a citação em hebraico. Ele respondeu:

– Há para isso uma razão direta. Foi intencionalmente que fiz a pergunta relativamente ao incêndio (uma mistificação de sua parte, pela qual tivemos de passar no decurso de nossas sessões); pensei que era uma questão fútil; mas vendo que procuráveis nela a solução de um problema, eu disse comigo mesmo: Deplorável vida a vossa! A que pobres meios de convicção estais reduzidos! Eu desejava bater-vos em vosso próprio terreno.

Às perguntas que lhe fizemos sobre o sentido desses raciocínios, respondeu-nos:

– Podemos ver o que está oculto para vós. Il piu bel flor ne coglie.

– Que significa essa frase italiana?

– “O maus puro sobrevive”.

– É o complemento da frase italiana?

– Deveis contentar-vos com a vossa prisão corpórea; nós somos a flor fina.

– Muito bem. Passemos agora à filosofia.

Então nos foi ditado em letras russas: “gregoreï”.

– Isto em que língua? – perguntei.

– Em grego.

– Que significa esta palavra?

– É um conselho para todos vós, pois não sabeis nem o dia nem a hora; mas é preciso preparar-se.

– É esta a significação da palavra “gregoreï”?

– Sim, custodite.

Encetamos então as questões filosóficas. Nem minha cunhada, nem meu genro conheciam o italiano; a frase foi indicada pelo alfabeto francês, sem o menor erro; ela significava “colhe-se a flor fina”. A palavra grega era desconhecida de meu genro, que tinha estudado o grego no colégio; no dicionário das “concordâncias” gregas só encontrei, repetida por muitas vezes, a palavra “gregoreite” traduzida nas versões latinas por “vigilate”.

Na sessão seguinte, a 10 de março, manifestando-se o mesmo interlocutor, aproveitei-me da oportunidade para lhe perguntar:

– Podes dizer-me a forma gramatical da palavra grega da última sessão?

– Segunda pessoa do imperativo, no singular.

– E da palavra latina?

– No plural.

– Por que essa diferença?

– Não é a mesma coisa.

– Admiro-me disso, porque no Novo Testamento todos os imperativos desse verbo estão no plural!

– Li isso em brasões.

– Conheces o grego?

– Mal.


– Entretanto fazes a análise gramatical.

– Muito pouco.

– E o latim, conheces bem?

– Sim.


– E o italiano?

– Não.


– De quem é tirada a citação?

– Do Tasso, creio.

– Conheces o hebraico?

– Não.


– Entretanto o citas?

– Há coisas de que nos recordamos; não conheço, porém, o hebraico.

Mais tarde meu genro confirmou-me que “gregoreï” era realmente a segunda pessoa do singular do imperativo e que o verbo significava velar, e que por conseguinte a palavra ditada significava “vela”.

Agora é mais certo ainda que foi o livro de Wichmann que forneceu as três epígrafes; esta conclusão é inevitável. Mas por outro lado se torna mais difícil ainda admitir que um de nós três 27 tivesse tido entre as mãos o livro de Wichmann e tivesse lido nele maquinalmente essas três epígrafes para reproduzi-las em nossa seção, alguns dias ou algumas semanas mais tarde, sem lembrar-se de ter visto esse livro. Não se trata de uma palavra, de uma linha em língua conhecida que se tivesse gravado subitamente e inconscientemente em nosso cérebro. Três epígrafes, escolhidas em três páginas diferentes, em três línguas estrangeiras, desconhecidas dos dois médiuns, com a tradução de seu sentido respectivo, não se retêm maquinalmente e momentaneamente a ponto de não deixar a menor recordação na consciência normal durante o curto espaço de algumas semanas no máximo. Não é permitido pretender que a memória inconsciente pudesse realizar um esforço tão extraordinário, ao mesmo tempo em que a memória consciente nem sequer tivesse conservado uma recordação vaga da existência do livro do qual a memória inconsciente tinha tão bem “tomado conhecimento”. Empregando as palavras “tomado conhecimento”, desejei insistir sobre esta verificação: não se pode razoavelmente admitir que o livro só tenha sido aberto nas três páginas e que os olhos só tenham visto essas três epígrafes!

Ainda há outras dificuldades, porém. Resulta das considerações seguintes que, em minhas experiências, não há mais de uma impressão inconsciente. O primeiro nome obtido foi: “Sardovy”; depois a sessão foi interrompida para tomar-se o chá e procurar o nome em um dicionário; logo que a sessão foi recomeçada, o nome de “V. Cardosio”, o nome exato segundo Wichmann, foi dado; e, alguns minutos depois, o mesmo erro e a mesma retificação. Perguntamos a nós mesmos a que ponto de reparo tinha recorrido a memória inconsciente para escolher as variantes do nome? E mais tarde a palavra “gregoreï” não é traduzida por “eu velo” como em Wichmann – o que é gramaticalmente incorreto –, porém por custodite, o que tem sentido muito diferente e que é de uma forma gramatical mais correta. Quando insisti sobre a origem de “gregoreï”, nosso interlocutor não nos disse que era uma divisa do Papa Gregório XIII, porém respondeu por uma paráfrase: “Li isso em brasões”, o que quer dizer a mesma coisa. Por conseguinte, não se pode ver em tudo isso uma reprodução inconsciente de impressões inconscientes.

Outra consideração: por que motivo, ao invés de dar a resposta evasiva: “Li isso em brasões”, não dizer ao menos: “Li isso em uma coleção de divisas”? Por que motivo, à minha pergunta acerca da origem da citação italiana, responder por: “Tasso”, em vez de indicar a verdadeira fonte? E por que motivo, finalmente, quando insisti sobre a epígrafe hebraica, pretender que era uma questão de memória e não nomear a verdadeira fonte? Há todo o fundamento de supor que o fator (a memória inconsciente do médium ou outra coisa qualquer) que nos ditava essas epígrafes sabia muito bem a que fonte ele as tirava, mas que, para mistificar-nos ou para induzir-nos em erro, não queria que a conhecêssemos.

Mas por que meio o cérebro do médium se tinha posto em relação com o conteúdo do livro? Eis o mistério. Recuso-me a admitir que isso se tenha dado por meio natural, pela leitura direta. Acredito em um processo oculto. Parece-me que o caso se aproxima muito da leitura de livros fechados, que citei mais atrás. O fato teria podido ser explicado por um acesso de sonambulismo, se o livro se achasse na casa e se o acesso de sonambulismo tivesse sido verificado; mas isso não se tinha dado. É um caso de leitura ou de transmissão do pensamento? Essa questão ficará, acredito-o, sem resposta.

Em minha opinião, o problema não está resolvido, e este caso, por mais edificante que seja, parece-me infinitamente misterioso. As provas absolutas são sempre difíceis de encontrar e, desde o momento em que o livro existe, ficar-se-ia tentado a dar a preferência às soluções que se apresentam como mais simples; mas, quanto a nós, que tomamos parte nessa sessão, temos a convicção profunda de que a fonte da comunicação recebida achava-se em outra parte que não era o conteúdo de nossa inteligência naquela época.

Outro fato análogo produziu-se no decurso da mesma série de sessões. Desta vez o nosso correspondente invisível declarou-se consumado conhecedor das línguas latina e grega. Depois de ter recebido diversas comunicações em latim, pedi-lhe que me dissesse alguma coisa em grego. Ele reclamou o alfabeto grego, e meu genro, que tinha estudado esta língua no colégio, começou a recitá-lo. Por esse meio obtivemos a frase:

Não conheço o grego, minha cunhada também não; quanto a meu genro, não consegue encontrar o verdadeiro sentido dessas palavras. As duas primeiras palavras significam “os corpos dos homens” e as duas outras “são justos”. Isso não significa coisa alguma: os corpos dos homens são justos. Por mais que eu me dirigisse a conhecedores da língua grega, ninguém me pôde dar a explicação dessa frase. Só depois que fiz pesquisas nos grandes dicionários gregos consegui encontrar a chave desse enigma: essa frase verifica-se ser uma locução familiar a Hipócrates, e significar: os corpos dos homens são simétricos. Pergunto a mim mesmo como pôde suceder que os nossos cérebros tivessem entrado no conhecimento dessa expressão.


C – Comunicação de fatos desconhecidos das pessoas que tomam parte na sessão, e que não podem ser explicados pela transmissão de pensamentos, em razão das condições especiais nas quais essas comunicações são dadas


Os fatos que entram nesta categoria são, às mais das vezes, parece-me, avisos de morte. Eis um caso que possuo de primeira mão. Em 1887, a 7 de janeiro, recebi a visita do Coronel Kaigorodoff, que mora em Vilna. Ele me disse que a professora de seus filhos, a jovem Emma Stramm, natural de Neufchâtel, na Suíça, tinha manifestado faculdades para a escrita automática. Em uma sessão organizada a 3/15 de janeiro, depois das 9 horas da noite, em casa do coronel, em Vilna, recebeu-se em sua própria presença uma comunicação em língua francesa que cito textualmente. O médium, em estado normal, perguntou:

– Lídia está aí? (uma personagem que se tinha manifestado nas sessões precedentes).

– Não; Luís 28 está aqui e deseja dar uma notícia à sua irmã.

– Que é?


– Uma pessoa de seu conhecimento partiu hoje às 3 horas.

– Como se deve entender isso?

– Que ela morreu.

– Quem foi?

– Augusto Duvanel.

– De que moléstia?

– De uma congestão. Ora pela libertação de sua alma.

Duas semanas depois, estando o Sr. Kaigorodoff, de novo, em São Petersburgo, mostrou-me a carta do pai da médium, David Stramm, datada de Neufchâtel a 18 de janeiro (nov. est.) 1887 e recebida em Vilna a 11/23 de janeiro; ela era, por conseguinte, escrita três dias depois da morte de Duvanel; nessa carta ele participou o falecimento de Duvanel nos termos seguintes, palavra por palavra:

“Minha caríssima filha:

Agora quero dar-te uma grande novidade: Augusto Duvanel morreu a 15 de janeiro às 3 horas da tarde. Foi, por assim dizer, uma morte súbita, porque ele só esteve doente durante algumas horas; teve uma congestão na ocasião em que estava no banco. Falou muito pouco e tudo quanto disse era a teu respeito... Ele se recomenda às tuas orações; foram suas últimas palavras.”

O tempo de Vilna é adiantado uma hora ao de Neufchâtel: eram, pois, 4 horas p.m. em Vilna quando Duvanel morreu na Suíça, e cinco horas depois essa notícia foi transmitida a Vilna por meio da escrita automática.

Porém, quem vinha a ser Duvanel? Por que sua morte era “uma grande novidade” para a jovem Stramm? Acerca das perguntas que lhe dirigi, o Coronel Kaigorodoff enviou-me as explicações seguintes: quando a jovem Emma Stramm morava em Neufchâtel, em casa de seus pais, Duvanel a pedira em casamento; porém, a moça lhe tinha respondido com uma recusa categórica. Seus pais, pelo contrário, impeliam-na a esse casamento, o que a levou a tomar a decisão de deixar seu país e a empregar-se como professora. A última entrevista que ela teve com Duvanel precedeu de alguns dias sua partida, em 1881. Ela não tinha entretido correspondência alguma com Duvanel e só vira a família deste último por duas ou três vezes. Um ano depois de sua partida, Duvanel retirou-se também de Neufchâtel e fixou sua residência no cantão de Zurique, onde ficou até à morte.

Tentemos explicar esse fato pela teoria do Sr. Hartmann. Não podia ser uma transmissão de pensamentos do próprio Duvanel, porque o transmissor, segundo a expressão do Sr. Hartmann, não existia no momento da sessão. Poder-se-ia admitir que fosse uma transmissão involuntária, inconsciente, da parte dos amigos do falecido? Ora, esses amigos só podiam ser os pais da jovem Stramm, porque a “relação anímica” necessária não teria podido ser estabelecida, nesse caso, senão entre eles e sua filha. Porém o Sr. Hartmann não diz: “O que é de lamentar é que, segundo mo demonstrou a experiência, as palavras e os pensamentos não podem ser transmitidos a grande distância; só podem ser transmitidas alucinações muito intensas e muito precisas.” (pág. 115).

A transmissão de pensamentos não pode, pois, servir para explicar o fato considerado.

Fica ainda um recurso: a clarividência. Lemos, a esse propósito, as linhas seguintes na página 78 do livro do Sr. Hartmann:

“Desde o momento em que todos os indivíduos, assim os de ordem superior como os de ordem inferior, tiram sua origem do Absoluto, ficam ligados uns aos outros por meio de reações recíprocas nesse mesmo Absoluto, e é bastante a relação ou a comunicação telefônica entre dois indivíduos ser estabelecida no Absoluto, para que a troca intelectual entre eles se possa efetuar, mesmo sem o funcionamento dos sentidos.” (págs. 78 e 79).

Essa explicação não tem valor aqui, pela simples razão de que não existia laço algum de simpatia entre Duvanel e Emma; se nos decidíssemos a admitir que a “relação” se teria podido estabelecer pelo interesse intenso da vontade de Duvanel somente, essa relação teria que ser criada, pelo menos alguns instantes antes de sua morte e se teria traduzido nesse caso no mesmo instante por um efeito qualquer de segunda vista na médium, o que não tem fundamento.

Eis ainda uma definição da clarividência, segundo a qual essa faculdade abrange nada menos do que a eternidade inteira:

“A onisciência do espírito absoluto abrange, com o estado presente do mundo, o passado e o futuro implicitamente; por conseguinte, o indivíduo pode, pelo efeito de intenso esforço da vontade, tirar inconscientemente no saber inconsciente do espírito absoluto para haurir dele fatos isolados referentes a acontecimentos futuros, tão bem quanto lhe pode tirar pormenores referentes ao tempo presente, e cujo teatro se acha em lugar afastado.” (Sp., pág. 79).

Esta explicação não é mais admissível do que a precedente, para o caso que nos ocupa, porque “o intenso esforço da vontade”, que é seu móvel principal, não existiu, por parte do indivíduo sobrevivente. No começo da sessão, o interesse do médium não estava mais excitado do que de ordinário; não havia razão alguma para que ele fosse “intenso”; sabemos, além disso, que a jovem Stramm não só não nutria sentimento algum de simpatia a respeito de Duvanel, mas que lhe votava, pelo contrário, uma espécie de antipatia; seu espírito não devia, pois, de maneira alguma ser atraído para aquele objetivo. Finalmente, segundo o Sr. Hartmann, “a dificuldade consiste” no fato de “a clarividência pura manifestar-se sempre sob a forma de uma alucinação” (pág. 78), da qual não há vestígio no caso presente: o médium acha-se no estado normal, e o simbolismo falta completamente. Eis como, por conseguinte, as coisas deveram passar-se, segundo a teoria do Sr. Hartmann: quando a médium recebe comunicações de seu irmão Luís e este fala acerca dessa ou daquela coisa, é a consciência sonambúlica da médium que está em jogo; mas desde que Luís a informa acerca da morte súbita de Duvanel, a médium entra imediatamente em relação direta com o Absoluto, com a divindade, com o passado, o presente e o futuro do Universo! Tendo de escolher entre essas duas hipóteses – uma relação metafísica verdadeiramente sobrenatural com o Absoluto, e uma relação com Luís –, esta última hipótese me parece mais natural, mais simples e mais racional.

Comuniquei este caso à Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, com muitos pormenores suplementares; ele foi impresso nas memórias dessa sociedade (vol. XVI, pág. 343). Dou aqui o resumo desses incidentes, muito curiosos, de natureza complicadíssima, e que obtive pouco a pouco.

Comparando a comunicação de Luís, relativa à morte de Duvanel, com a carta do pai de Emma Stramm, fiquei impressionado com esta expressão congestão que se encontra também na carta e na comunicação, assim como o diagnóstico vago da moléstia. Por conseguinte, pedi ao Sr. Kaigorodoff, em nossa entrevista seguinte, que se deu no mês de janeiro de 1887, em são Petersburgo, que me fornecesse as explicações que se apresentassem.

Nesse ínterim fui informado de que a jovem Stramm, no intuito de verificar o fato, tinha escrito à sua irmã, que estava na Suíça, no dia seguinte ao da sessão de 3 (15) de janeiro; ela lhe pedia notícias de Duvanel. Ignorando que o Sr. Stramm já tinha escrito para anunciar a morte de Duvanel, e não querendo, por diversos motivos, dizer a verdade a Emma, sua irmã respondeu-lhe que ele estava muito sadio, mas tinha partido para a América.

Quando, depois de uma ausência de seis semanas, Kaigorodoff voltou a Vilna e teve conhecimento dessa carta, ficou maravilhado ao verificar que as duas missivas estavam em flagrante contradição e aproveitou-se da primeira oportunidade para pedir a sua explicação a Luís. Nessa sessão, a médium caiu em transe e transmitiu da parte de Luís a comunicação seguinte, que o Sr. Kaigorodoff inscreveu palavra por palavra:

– Ele morreu, porém sua irmã não quis que ela tivesse essa notícia, porque ele não morreu de uma “congestão”, como eu tinha escrito. Não lhe podia dizer a verdade, com receio de prejudicar a saúde dela.

– Então quando e onde morreu ele?

– Morreu no cantão de Zurique; suicidou-se. Ela não deve sabê-lo, porque essa notícia lhe prejudicará a saúde. Não digas nada; ela já pressente a verdade.

– Como é possível que a mesma expressão congestão seja empregada em tua comunicação e na carta do Sr. Stramm?

– Fui eu quem lha sugeriu.

Alguns dias depois da comunicação recebida a 3/15 de janeiro, a jovem Stramm viu Duvanel em sonho, coberto de sangue, e efetivamente, em vista das informações contraditórias que lhe tinham sido dadas por sua irmã e por seu pai, ela começava a pressentir a verdade; só a conheceu apesar disso no outono de 1887, no decurso da viagem que ela fez à suíça, para visitar sua família.

Segundo outras informações muito precisas que obtive depois, o próprio Sr. Stramm só soube da morte de Duvanel a 5/17 de janeiro, isto é, dois dias depois da sessão, e isso mesmo por ter encontrado casualmente o irmão do morto que ia para Hirté, povoação do cantão de Zurique, no qual Duvanel tinha passado os dois últimos anos de sua vida, como solitário, e onde devia realizar-se a inumação. Segue-se daí que a notícia de seu falecimento não podia, de maneira alguma, ser o resultado de uma transmissão telegráfica proveniente dos pais de Emma Stramm ou de Duvanel.

Fica um último recurso: é explicar esse fato por uma relação que tivesse existido entre a médium e o falecido Duvanel. Essa relação limitava-se ao fato de a médium conhecer a pessoa em questão. Se uma teoria qualquer pode contentar-se com semelhante relação, nada tenho a dizer, e passo a outros fatos, para os quais não existe mesmo essa relação.

Encontramos um caso desse gênero nos pormenores de um fato já citado por mim. O leitor lembra-se provavelmente de que a filha do juiz Edmonds, a jovem Laura, que se tornou médium, tinha falado por muitas vezes com um grego, o Sr. Evangelides, na língua materna deste último, que ela nunca tinha estudado. No artigo citado por essa ocasião, o juiz Edmonds não explica por que motivo Evangelides tinha ficado tão perturbado por sua conversa com a Srta. Laura. Encontrei essa explicação em uma carta reservada do Sr. Edmonds, publicada pelo Dr. Gully, em Londres, no Spiritual Magazine de 1871, página 239, e reproduzo in extenso esse documento precioso, perdido nos arquivos dos jornais espíritas, substituindo somente o traço (–) pelo verdadeiro nome da pessoa de quem evidentemente se trata nessa carta: a jovem Laura.

“Senhor:


Depois da conversa que tivemos na semana passada, estou ansioso para lhe expor, com maior número de pormenores, um ato que considero de muita importância para que se lhe consagre mais algum tempo.

Eu tinha dito que Laura falava diversas línguas, cujo número atinge a catorze; permita-me que lhe refira hoje o fato seguinte:

Certa noite, recebi a visita de um senhor de nacionalidade grega que logo depois começou a conversar com Laura nesta língua; no decurso dessa conversação, ele parecia estar muito impressionado e chegou mesmo a chorar. Estavam presentes seis ou sete pessoas, e uma delas perguntou qual o motivo daquela comoção. O interpelado esquivou-se de uma resposta direta, dizendo que se tratava de negócios de família.

No dia seguinte, ele renovou a conversação com Laura e, não havendo em casa pessoa alguma estranha, deu-nos a explicação desejada: a personalidade invisível com a qual conversava por intermédio de Laura era um seu amigo íntimo, falecido na Grécia, irmão do patriota grego Marco Bozarris; esse amigo lhe dava informações acerca da morte de um de seus filhos (Evangelides), que tinha ficado na Grécia e passava admiravelmente bem na ocasião em que seu pai partiu para a América.

Este último veio visitar-me por muitas vezes ainda, e dez dias depois de sua primeira visita nos informou que tinha recebido naquele mesmo dia uma carta de sua família, informando-o do falecimento de seu filho; aquela carta devia estar em caminho na ocasião em que se realizava sua primeira conversação com Laura.

Desejaria que me dissessem de que maneira devo encarar este fato. Negá-lo é impossível; ele é por demais evidente. Eu poderia com igual fundamento negar que o Sol nos ilumina.

Considerá-lo uma ilusão, eu também não poderia fazê-lo, pois que ele em nada se distingue de qualquer outra realidade, verificada em qualquer momento de nossa existência.

Isso se passou na presença de oito a dez pessoas, todas instruídas, inteligentes, bem equilibradas e tão aptas quanto quaisquer outras para fazer a distinção entre uma ilusão e um fato real.

Seria ocioso pretender que o fato era o reflexo de nossos pensamentos; nunca tínhamos visto esse homem, que nos tinha sido apresentado por um amigo naquela mesma noite; além disso, admitindo mesmo que os nossos pensamentos tivessem podido dar-lhe conhecimento da morte de seu filho, como podiam eles proceder de maneira que Laura compreendesse e falasse o grego, língua que ela dantes nunca tinha ouvido falar?

Pergunto-lhe ainda uma vez: como devo considerar este fato e muitos outros análogos?

Seu dedicado,

J. W. Edmonds.”

Este fato é verdadeiramente esmagador. Seria o caso, ou nunca mais ele se apresentaria, de apelar para o auxílio da clarividência. Infelizmente essa explicação não poderia ficar de pé: a médium via o Sr. Evangelides pela primeira vez; ela nada sabia absolutamente acerca da família de Evangelides, que residia na Grécia, e menos ainda de seu amigo falecido, o irmão de Bozzaris. Onde, pois, se encontraria o intenso interesse, o motivo poderoso, capaz de tornar a médium clarividente? E depois, por mais perfeita que tenha podido ser a clarividência da jovem Laura naquela ocasião, não lhe pôde dar certamente a faculdade de falar o grego. Também não seria lógico atribuir o dom de falar o grego, que a médium apresentava, e seu conhecimento da morte do menino, a duas causas distintas. Evidentemente as duas manifestações foram produzidas por uma única e mesma causa.

Eis dois outros exemplos de comunicação de mortes, tirados igualmente ao Sr. Edmonds, que reproduz o testemunho do Sr. Young, já citado:

“Em uma das sessões que fazíamos à noite, minha mulher dava comunicações por conta de uma personalidade que se dizia ser Maria Dabiel, de Glasgow, Escócia, e que nos anunciava, por esse meio, sua entrada no mundo dos Espíritos. Eu tinha conhecido essa senhora, ainda moça, por ocasião de minha estada em Glasgow; quando deixei aquela cidade, há cerca de cinco anos, ela residia em uma casa de saúde e eu não tinha ouvido falar nela desde esse tempo. Para verificar a comunicação transmitida por minha mulher, escrevi em Nova Iorque, a um de meus amigos cujo filho residia em Glasgow, pedindo-lhe que tomasse informações acerca da moça em questão. Três meses depois, recebi uma carta de meu amigo, na qual ele confirmava tudo o que minha mulher nos tinha dito. Nenhum de nós soubera da morte de Maria Dabiel. É preciso acrescentar que o conjunto da comunicação apresentava uma grande afinidade com o caráter da defunta.

Em outro dia, minha mulher achava-se sob a direção de uma individualidade que falava o mais puro dialeto escocês e tomava o nome de Sra. N., de Paisley, Escócia; essa pessoa nos anunciava a sua morte, que tinha ocorrido na mesma cidade, alguns dias antes. Soubemos que era a avó de um dos membros de nosso círculo, que tinha ido à América havia cerca de um ano. Três ou quatro dias depois, a mesma individualidade se manifestava por intermédio de uma rapariga, a jovem Scongall, de Rokfort, Illinois, que não conhece absolutamente o escocês; ela anunciava ainda uma vez sua morte, empregando o mesmo dialeto que lhe era familiar, e comunicava diversos pormenores acerca da casa em que habitava, a respeito do jardim, das árvores, etc. A jovem Scongall não tinha estado presente à primeira manifestação dessa senhora e nem tinha conhecimento de suas primeiras palavras. O moço diretamente interessado naquela comunicação fez diversas perguntas no intuito de verificar a identidade da individualidade que se manifestava; ele se informou, dentre outras, das pessoas que tinha conhecido na Escócia e recebeu respostas satisfatórias acerca de todos os pontos. O mesmo Espírito se manifestou em muitas sessões consecutivas e deu provas inegáveis de sua identidade.

A convicção do senhor em questão foi tal que ele escreveu imediatamente a seus amigos da Escócia para lhes dar parte da morte de sua avó, com a cautela de indicar a fonte de sua informação. As cartas que recebeu confirmaram completamente a triste notícia.” (Edmonds – Cartas acerca do Espiritualismo, Nova Iorque, 1860, págs. 118-120).

Aqui, achamo-nos em presença sempre de um mesmo fato dando-se nas mesmas condições, isto é, a morte de uma pessoa completamente desconhecida do médium, anunciada em língua que o médium desconhece igualmente, porém familiar à pessoa morta.

Os casos de morte anunciados por via mediúnica, quer sob a forma de comunicações verbais em estado de transe, quer por escrita direta, são muito numerosos. Vou mencionar em seguida um outro, de gênero diferente do precedente, e em que o médium a pessoa que anuncia sua morte e repete suas palavras. Em uma conferência feita pelo Spiritual Alliance, de Londres, acerca d’A Ciência e os fenômenos chamados espiríticos, o Major-general Drayson referiu o fato seguinte, e serve-se dele para refutar a teria segundo a qual “nada pode manifestar-se pelo médium que não tenha sido conhecido pelas pessoas presentes”:

“Faz muitos anos que recebi certa manhã um telegrama informando-me da morte de um dos meus amigos íntimos, um clérigo, que morava no norte da Inglaterra. No mesmo dia fui visitar uma senhora de meu conhecimento que pretendia estar em relação com os Espíritos e falar com eles. Quando entrei em casa dela, meus pensamentos estavam absorvidos pela morte de meu amigo.

No decurso da conversação que tive com essa senhora, perguntei-lhe se via perto de mim alguém que acabava de deixar este mundo. Respondeu-me que via uma pessoa que apenas acabava de entrar no outro mundo. Eu via, em pensamento, a imagem do meu amigo falecido, o sacerdote. A senhora disse-me que via um homem fardado que lhe dizia que acabava de morrer de morte violenta. Disse-me em seguida seus nomes e sobrenomes, assim como a alcunha que seus camaradas lhe tinham dado. Em resposta às minhas perguntas relativamente aos incidentes de sua morte, informou-me que lhe tinham decepado a cabeça, que seu corpo tinha sido lançado em um fosso, que isso tinha ocorrido no Oriente, mas não nas Índias. Havia já três anos que eu não via esse oficial; segundo as últimas notícias que recebi a seu respeito, ele devia achar-se nas Índias.

A investigação que fiz depois, em Woolwich, fez-me saber que esse oficial deveria achar-se nas Índias, mas que provavelmente se tinha dirigido à China.

Algumas semanas depois, recebeu-se a notícia de que tinha sido feito prisioneiro pelos chineses. Um resgate considerável tinha sido oferecido pela sua liberdade, porém ele havia desaparecido sem deixar vestígio.

Depois de muitos anos, durante minha estada nas Índias, encontrei-me com o irmão desse oficial e perguntei-lhe se nada sabia acerca da morte de seu irmão na China. Disse-me que seu pai tinha ido à China, onde soube de fonte certa que o comandante das tropas mongólicas, furioso por ter perdido um de seus amigos, tinha mandado decapitar o prisioneiro sobre o dique de pequeno canal, no fundo do qual atiraram o cadáver.

Eis um caso tirado de muitas dezenas de exemplos análogos; eu teria muita curiosidade em saber como ele se pode harmonizar com a teoria em questão ou com uma lei conhecida qualquer.

Fatos iguais existem, e toda teoria que os não levasse em consideração ou fosse incapaz de dar a sua explicação não pode ter valor algum. É sempre o erro antigo: construir teorias sobre dados incompletos.” (Light, 1884, pág. 448).

Da mesma maneira, aqui não se apresenta pretexto algum para admitir-se um acesso súbito de clarividência.

Também há exemplos em que a comunicação anunciadora do falecimento de uma pessoa revela ao mesmo tempo diversos pormenores concernentes aos negócios privados do falecido e que se tinham conservado desconhecidos das demais pessoas. O Light (1885, pág. 315) refere um fato interessante desse gênero, sob o título: “Um caso misterioso”.29 Eis esse artigo na íntegra:

“O Dr. Davey, estabelecido perto de Bristol, tinha um filho, também médico, que morava no estrangeiro. Este último, desejoso de ir à Inglaterra, embarcou em um navio inglês, que se dirigia a Londres; em substituição ao pagamento da passagem, ofereceu seus serviços como médico. No decurso do trajeto, o jovem médico faleceu. Chegando a Londres, o capitão comunicou o ocorrido ao pai e restituiu-lhe a soma de 22 libras esterlinas que dizia ter encontrado com o morto. Entregou-lhe igualmente um extrato do diário de bordo, onde todas aquelas particularidades estavam escritas. O Dr. Davey considerou tão louvável o procedimento do capitão que lhe fez presente de uma bolsa de ouro.

Meses depois, o doutor e sua mulher assistiam a uma sessão espírita em Londres. Deram-se diversas manifestações desordenadas, tais como movimento de móveis, pancadas, etc. O médium, uma senhora, explicou esses fenômenos declarando que os Espíritos tinham uma comunicação a fazer a uma das pessoas presentes. Desejou-se saber a quem. Logo que esse desejo foi externado, grande mesa, na qual ninguém tocava, e que estava no extremo oposto do aposento, começou a ser arrastada e parou muito perto do Dr. Davey. Como sempre, pediu-se ao Espírito que se manifestava que se desse a conhecer. O nome soletrado era o do filho do Dr. Davey; ele declarou, com horror das pessoas presentes, que tinha morrido envenenado.

O doutor, desejoso de assegurar-se da identidade dessa personalidade, pediu-lhe que desse uma prova disso. Então seu interlocutor oculto lhe disse qual o presente que ele tinha feito ao capitão, coisa que nenhum dos assistentes podia saber. Depois, o doutor perguntou se o veneno tinha sido aplicado propositadamente ou por equívoco. A resposta foi: “Uma e outra coisa são possíveis.” Foi ainda comunicado que a soma de dinheiro deixada pelo falecido era de 70 e não 22 libras esterlinas. Ficaram-se conhecendo ainda diversos outros pormenores.

Em conseqüência dessas comunicações, o Dr. Davey obteve, por intermédio do armador do navio, cópia do diário de bordo, a qual não combinava com a que lhe tinha sido entregue pelo capitão. Descobriram-se ainda outros pormenores misteriosos que não temos a permissão de divulgar. Fomos informados de que o Dr. Davey tem a intenção de proceder contra o capitão perante os Tribunais.”

Em outubro de 1884, por ocasião de reproduzir essa narração, escrevemos ao Dr. Davey e eis sua resposta:

“Redland-road, 4, Bristol, 31 de outubro de 1884.

Senhor,


Foi em 1863, se não me engano, que meu filho morreu vítima de veneno, a bordo, ao regressar da África. Os incidentes de sua morte me foram referidos pelo capitão do navio, e eu os considerava exatos. No decurso do ano, tive o ensejo de ocupar-me um pouco de Espiritismo; soube em certo dia, numa sessão feita em Londres, na qual meu filho se manifestou, que os pormenores acerca de sua morte, comunicados pelo capitão, não eram exatos; que sua morte era devida à imprudência do despenseiro, que administrara essência de amêndoas amargas ao óleo de rícino, em vez de hortelã, conforme meu filho tinha prescrito.

Eu de nada sabia absolutamente acerca do dinheiro ao qual ele fazia alusão. Entre a bagagem que me foi restituída depois da morte de meu filho, encontravam-se muitas moedas de cobre apenas, mas tenho toda a razão em supor que no momento de sua morte ele possuía cerca de 70 libras esterlinas. O Espiritismo é um fato de grande importância. Desde 1865, tenho recebido de meu filho muitas comunicações, com caráter todo pessoal. Os fatos que ele revelou em 1863 foram confirmados, com descontentamento evidente do capitão; esse me evitava visivelmente e apressou-se em empreender uma nova viagem, receando, parece-me, que eu o citasse para comparecer em juízo.

Seu afeiçoado,

J. G. Davey.”

O Sr Hartmann poderia encontrar um excelente exemplo análogo no relatório da Comissão da Sociedade Dialética. Esse fato ocorreu em um círculo íntimo composto de membros de uma subcomissão, na ausência de qualquer médium profissional. O cunhado da dona da casa, onde se realizavam as sessões, falecido havia catorze anos, fez esta comunicação:

“– Estimo muito a minha querida M. (sobrenome da senhora), se bem que a seu respeito me tenha pouco...

Nesse ponto a Sra. M., lembrando-se de que seu cunhado tinha sido um correspondente preguiçoso, exclamou, julgando completar o seu pensamento:

– Lembrado!

– Não – foi a resposta.

Continuou-se, por conseguinte, a recitar o alfabeto, e as palavras seguintes foram soletradas:

– ... preocupado quando eu estava...

– Vivo! – interrompeu um dos assistentes.

– Não.


– Em meu corpo terrestre!

– Não.


Uma série de pancadas parecia indicar descontentamento a propósito dessas freqüentes interrupções. A pedido dos assistentes, seu interlocutor invisível continuou a frase:

– ... nesta terra; ela devia receber...

– Uma carta – interrompeu novamente a Sra. M., pensando sempre na raridade de suas missivas.

– Não – foi ainda a resposta.

De novo lançou-se mão do alfabeto e, relendo o que já tinha sido ditado, obteve-se a frase seguinte:

“Estimo muito a minha querida M., se bem que a seu respeito me tenha pouco preocupado quando eu estava nesta Terra; ela devia receber toda a minha fortuna, que consiste em uma soma de dinheiro que está em poder de meu testamenteiro, o Sr. X.”

À pergunta “Qual é o objetivo desta comunicação?”, recebemos esta resposta:

– É provar a existência da vida espiritual e testemunhar minha amizade para com M.

Esses fatos, absolutamente desconhecidos das pessoas presentes, eram rigorosamente exatos. (Vede o relatório da Sociedade de Dialética, 1873, pág. 33).

De minha experiência pessoal, conheço o fato seguinte: meu amigo e colega de liceu, o Barão Constantino Korff, conselheiro íntimo de S. M., me comunicou, há cerca de vinte anos, que por ocasião da morte de seu tio, o Barão Korff, falecido em Varsóvia, todas as pesquisas feitas para encontrar-se o seu testamento foram infrutíferas; então, por indicação recebida por via mediúnica pelo Príncipe Emílio Wittgenstein, conseguiu-se descobrir esse documento em uma gaveta secreta de um móvel (falarei mais detidamente deste caso no capítulo IV).

Em outros casos as comunicações de acontecimentos desconhecidos referem-se a acidentes, a desgraças que tinham atingido ou ameaçavam parentes próximos; estas comunicações são geralmente transmitidas sob a forma de um grito de socorro ou de uma advertência, que se pode receber mesmo fora de toda a sessão, até sem o intermediário de um médium confirmado.

É assim que citei, no item 7, a narração que o Sr. Brittan fez de uma sessão com Home, na qual a comunicação que prosseguia tinha sido interrompida para ceder o lugar à mensagem seguinte: “Reclamam a tua presença em casa; teu filho está muito mal; parte imediatamente, do contrário chegarás tarde.” Pode-se indagar qual era o motivo razoável ou o intenso interesse para com o filho do Sr. Brittan, que teria podido interromper o funcionamento da consciência sonambúlica do médium e lhe substituir um acesso de clarividência, dizendo respeito à saúde desse menino.

Um caso análogo me foi comunicado pelo falecido General Melnikoff (antigo Ministro dos Caminhos e Comunicações). Pela mão de um médium particular, a Sra. J., recebeu-se o nome e o endereço de um homem infeliz que se achava em profunda miséria, e do qual nem o médium nem o general tinham tido o menor conhecimento.

O juiz Edmonds conta um fato análogo, que lhe foi referido pela Sra. French, médium muito conhecida em seu tempo:

“Achando-se em estado de transe, sob a direção do Espírito de uma italiana, ela foi conduzida a um bairro afastado da cidade, onde encontrou reunidos em um cubículo pobre catorze italianos indigentes, completamente exaustos, e com os quais começou a falar desembaraçadamente a sua língua.” (Vede Edmonds – Spiritual Tracts).

Lemos no Light de 1886, na página 147:

“De outra vez, recebeu-se uma comunicação proveniente de uma mulher que tinha sido muito pobre em sua vida terrestre e a quem nenhum dos assistentes tinha conhecido; desejava que se desse notícias dela à sua filha, cujo nome e endereço indicava exatamente. Todos os pormenores eram precisos, à exceção da residência da filha, que tinha mudado de domicílio depois da morte de sua mãe.”

Dão-se igualmente fatos desse gênero sem a assistência de um médium confirmado. O Capitão C. P. Drisko refere, por exemplo, de que maneira o navio “Harry Booth”, que ele comandava, foi salvo do naufrágio durante a travessia entre Nova Iorque e Dry Tortugas, em 1865. Eis as passagens essenciais de seu relatório:

“Notando que tudo estava em ordem na coberta, deixei em meu lugar o Sr. Peterson, meu imediato, oficial digno de toda a confiança, e desci ao camarote para descansar um pouco.

Às onze horas menos dez minutos, ouvi distintamente uma voz que me dizia: “Sobe à coberta e manda lançar a âncora.”

– Quem és tu? – perguntei, correndo para a coberta.

Eu estava surpreso por ter recebido uma ordem. Em cima, encontrei tudo em regra. Perguntei a Peterson se tinha visto alguém descer a meu camarote. Quer ele, quer o homem do leme nada tinham visto nem ouvido.

Persuadido de que eu tinha sido o joguete de uma alucinação, desci de novo. À meia-noite menos dez minutos, vi entrar em meu camarote um homem vestido com um longo sobretudo pardo, tendo na cabeça um chapéu de abas grandes; fixando-me os olhos, ordenou-me que subisse e mandasse lançar a âncora. Em seguida, afastou-se devagar e eu ouvi distintamente seus passos pesados quando ele passou diante de mim. Subi ainda uma vez à coberta e nada notei de extraordinário. Tudo ia bem. Absolutamente seguro de minha derrota, não tinha motivo algum para dar cumprimento à advertência, viesse de quem quer que fosse. Voltei, pois, ao camarote, porém não era para dormir; não me despi e conservei-me pronto a subir se houvesse necessidade.

À uma hora menos dez minutos, o mesmo homem entrou e intimou-me, com um tom ainda mais autoritário, que “eu subisse à coberta e mandasse lançar âncora”. Reconheci então no intruso meu antigo amigo o Capitão John Barton, com o qual eu tinha feito viagens quando era grumete e que me tinha testemunhado grande benevolência. De um salto cheguei à coberta e dei a ordem de arriar o pano e fundear. Estávamos com um fundo de 50 toesas. É assim que o navio evitou encalhar nos recifes de Bahama.” (Vede os pormenores no Light de 1882, pág. 303).

Eis, efetivamente, o que o Sr. Hartmann chama um caso de clarividência, pois que a clarividência pura se manifesta sempre sob a forma alucinatória; mas como na maior parte dos casos precedentes, nada há de alucinatório, e como a condição sine qua non, “o intenso interesse da vontade” faltava neste caso – quer por uma comunicação telefônica com outros indivíduos no Absoluto, quer para a descoberta de acontecimentos futuros no saber inconsciente do Ser absoluto –, não temos razões para reconhecer aí casos de clarividência. E está aí o que nos dá o direito de não apelar também para a clarividência no caso que nos ocupa.

Encontra-se aí, é verdade, a forma alucinatória, mas “o intenso interesse da vontade” por parte do indivíduo que deve ser clarividente está ausente; esse “interesse” só pode ser admitido por parte do amigo falecido, e a explicação espirítica leva vantagem à explicação metafísica.

O exame íntimo desse fenômeno não entra nos limites do assunto de que trato; a questão de saber se se trata de um fenômeno subjetivo ou objetivo deve resolver-se, segundo todas as probabilidades, no sentido da primeira suposição. O que afirmo é que a causa determinante, a causa efficiens, isto é, a sugestão, produziu-se fora do médium; o modo de manifestação pode variar (pela escrita, comunicações verbais ou visões), segundo as condições do momento e do organismo sobre o qual ela opera.

Se nos casos precedentes – fatos comunicados por intermédio de um médium que não conhecia as pessoas das quais emanavam – não julgamos necessário procurar uma explicação no “sobrenatural”, no recurso ao Absoluto, é justo que prefiramos também uma explicação mais simples, para outros fatos, menos completos, igualmente desconhecidos do médium, embora seja conhecida por ele a pessoa à qual os ditos fatos se referem.

Tomo para exemplo um caso do qual posso dar testemunho pessoalmente. Faz alguns anos, duas senhoras de meu conhecimento, as jovens Maria Pal...ow e Bárbara Pr...ow, duas amigas, residentes em Moscou, faziam freqüentemente experiências espíritas com a prancheta. Nos primeiros tempos a jovem Maria P. recebia numerosas comunicações boas em nome de seu irmão Nicolau; mas, subitamente, elas cessaram e o seu caráter mudou completamente: dirigiam-lhe de cada vez ditos muito desagradáveis, exprobravam-lhe com grosseria os seus defeitos, prenunciavam-lhe inúmeras desgraças, o que a vexava e irritava muito.

Cedendo aos conselhos da jovem Bárbara P., a jovem Maria P. prometeu nunca mais tomar parte nas sessões. Pouco depois, ela partiu parar são Petersburgo. As duas jovens, que não escreviam uma à outra, ignoravam, cada uma, o que se passava com a outra. A jovem P., que escrevia algumas vezes mediunicamente, recebeu certo dia, em uma sessão, sem que tivesse pensado em sua amiga, sem ter feito pergunta alguma a seu respeito, e depois de uma série de comunicações acerca de assuntos religiosos, a comunicação seguinte:

“Escreve a Maria [dizendo-lhe] que deixe de fazer experiências com a prancheta; seu irmão Nicolau lhe pede isso, ela está sob uma influência má e é perigoso para ela continuar.”

A jovem P. respondeu que Maria desde muito tempo tinha deixado essa ocupação e que lhe tinha prometido nunca mais assistir as sessões.

“Nesses últimos tempos persuadiram-na de novo que tomasse parte nas experiências, e ela o faz” – respondeu o interlocutor.

Em resposta à carta que lhe foi imediatamente enviada de Moscou, Maria confessou que efetivamente não cumprira a promessa e que, a pedido de uma amiga, havia já duas semanas que tomava parte de novo nas sessões, as quais recomeçavam a levá-la a um verdadeiro estado de superexcitação. Possuo o testemunho, por escrito, das jovens P. e Bárbara P.

Este fato é exatamente da mesma categoria a que pertence a notícia da morte de Duvanel. Já tive ocasião de dizer por que motivo a explicação por transmissão de pensamento e clarividência não se harmoniza com ele. No caso que acabo de expor, a simpatia entre as duas amigas é a base única sobre a qual se teria podido estabelecer a clarividência; porém, nós presenciamos fenômenos idênticos onde não havia simpatia, pelo simples fato de o médium não conhecer absolutamente a pessoa de quem se tratava; não temos, por conseguinte, razão suficiente para recorrer, nesse fato muito simples, à clarividência. A jovem Bárbara P. nunca foi sonâmbula, nunca lhe sucedeu cair em transe; escrevia sempre em estado de vigília; na sessão em questão, suas idéias estavam dirigidas para assuntos abstratos, ela não pensava de maneira alguma no que sua amiga estaria fazendo, e subitamente ei-la em relação com o Absoluto!

É também a razão pela qual não compreendemos a necessidade de atribuir à clarividência toda a série de fatos análogos, quando se produzem por via mediúnica. Tais são, por exemplo, os fatos referidos pelo juiz Edmonds:

“Durante a viagem que fiz no ano passado à América Central, meus amigos receberam durante todo o tempo notícias muito exatas a meu respeito. Quando, pela primeira vez, tomaram informações minhas, eu estava a bordo havia quatro dias, isto é, a 800 milhas mais ou menos, no 73º de longitude e perto das costas da Flórida. Desde a nossa partida não nos tínhamos comunicado com qualquer navio, de maneira que meus amigos de Nova Iorque não tinham meio algum direto de ter notícias minhas nem de saber o que eu fazia. Nesse dia, o círculo reuniu-se às 9 horas e meia da noite e fez-se a pergunta seguinte:

– Nossos correspondentes invisíveis podem dar-nos notícias da saúde do juiz Edmonds?

A resposta foi:

“Vosso amigo está com saúde; sua travessia foi boa até o presente. Ele está de bom humor. Pensa neste momento em vosso círculo e fala a vosso respeito. Vejo-o rir-se e conversar com os passageiros, etc.”

Eu ignorei tudo isso até à ocasião de meu regresso, quatro meses depois. Quando me fizeram a narração desses incidentes, consultei minhas notas de viagem e verifiquei que os pormenores de lugar e tempo eram absolutamente exatos.

Depois de quatro dias de navegação – eu estava sempre em alto mar –, a comunicação seguinte foi recebida, sempre por intervenção do mesmo médium:

“Vosso amigo, o juiz, passa menos bem, tem nostalgia. Ele escreveu muito, o que lhe despertou sua antiga tristeza.”

Três dias depois os membros do círculo receberam ainda uma comunicação, dizendo que minha viagem tocava a seu termo, que eu estava em terra e descansava. Ora, a nossa viagem tinha terminado na véspera e eu havia caminhado naquela região até à distância de 90 milhas.

Vinte dias depois, soube-se do seguinte:

“Ele anda coxeando por não estar habituado com as viagens; sofre de dor de cabeça.”

Relendo minhas notas diárias, verifiquei ter caminhado 4 milhas na véspera e 8 naquele dia de que se tratava, e que na ocasião em que esta comunicação tinha chegado a Nova Iorque eu estava de cama, a mais de 2.000 milhas, com uma enxaqueca violenta.” (Ver Edmonds – Spiritualism, vol. I, pág. 30).

Entre os fenômenos desse gênero que notei, quero citar dois ainda:

Sr. John Cowie, de Dumbarton, na Escócia, alarmado pela demora do navio “Brechin Castle”, a bordo do qual se achava seu irmão que regressava da Austrália, organizou uma sessão de família e recebeu a comunicação seguinte: “O ‘Brechin Castle’ chegou a Trinidad. Tudo vai bem. Tereis notícias suas de sexta-feira a oito dias.” E o telegrama do “Glasgow Herald”, na sexta-feira seguinte, dia da chegada do correio, confirmou essas notícias. (Light, 1881, pág. 407).

Pelo mesmo motivo, o Sr. J. H. M., inquieto pela sorte de seu filho Herbert, que tinha deixado a Inglaterra para dirigir-se a Adelaide, na Austrália, no intuito de obter fortuna, recebeu a 16 de agosto de 1885, por intermédio de sua mulher, em nome da irmã desta, a comunicação seguinte: “Fui a Adelaide para ver Herbert. Ele passa perfeitamente bem e conseguiu obter um emprego.” E a esta pergunta: “Em casa de quem?”, a interlocutora respondeu: “Na Companhia das Usinas de Adelaide.” A 30 de agosto, uma carta do filho confirmou essas informações. (Light, 1887, pág. 248).

O objetivo principal deste capítulo era demonstrar que se podem obter comunicações de fatos ignorados por todos aqueles que assistem à sessão, e mesmo fatos a respeito de pessoas a quem o médium não conhece, e que essas manifestações não são explicáveis pela transmissão de pensamento ou pela clarividência. Mas talvez ainda se encontre um meio de contentar-nos com esta explicação, pretendendo que o fato desconhecido diz respeito a uma pessoa a quem o médium não conhece, é certo, mas a quem um dos assistentes conhece. É, por conseguinte, essa pessoa quem deve operar a “transmissão sensorial”, provocando em primeiro lugar “percepções sensitivas, que em seguida são transformadas, pela consciência sonambúlica, em representações visuais, auditivas ou intelectuais” (pág. 74). Eis o traço de união – entre o médium e as pessoas e fatos desconhecidos – que deve ligar os fenômenos dessa categoria à clarividência!

Não obstante faltarem aí as outras condições características da clarividência – a forma alucinatória, o interesse intenso da vontade, etc. – e apesar de essa transmissão sensorial só figurar aqui como uma palavra que nada explica, não deixa de ser um expediente in extremis para o recurso ao Absoluto, que, parece, é mais próximo, mais “natural” do que qualquer ser humano.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   51


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal