Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Comunicações provenientes de pessoas completamente desconhecidas, quer dos médiuns, quer dos assistentes


O protótipo das comunicações desta categoria, e o primeiro caso, se não me engano, acerca do qual se possuem testemunhos sérios, deu-se em uma sessão relatada no Spiritual Telegraph, dirigido pelo Dr. Brittan. Tiro essa narração ao livro do Sr. Capron: Modern Spiritualism, 1855 (págs. 284-287):

Waterford, Nova Iorque, 27 de março de 1853.

Ao Sr. Brittan.

Senhor: Em uma sessão realizada aqui, em fins de fevereiro, deram-se manifestações referentes, de maneira tão direta, às discussões provocadas atualmente por certos fatos extraordinários, que a minha notícia não deixará por certo de interessar os seus leitores.

Muitos médiuns, em diferentes graus de mediunidade, achavam-se presentes à sessão, e viu-se produzir-se uma multidão de manifestações, pertencentes principalmente à categoria das “possessões”.30 No decurso da reunião noturna, um Sr. John Prosser, residente em Waterford, que era sujeito a cair nesse estado sob a forma mais característica, ficou sob a direção de um Espírito que declarou não ser conhecido de nenhum dos assistentes, mas sentia-se fortemente atraído para o nosso círculo. Assegurou-nos que tinha deixado seu despojo mortal na idade de mais de cem anos, que havia sido soldado no tempo da revolução e que tinha visto Washington, pelo qual sentia profundo respeito. Deu-nos o conselho – como fruto de sua experiência pessoal – de viver de acordo com a nossa própria inteligência e de seguir os preceitos do grande livro da natureza... Cito suas últimas palavras textualmente: “Tudo quanto lhe digo é exato. Se quiser dar-se ao incômodo, verificará que tudo é exatamente como lhe digo. Eu morava em Point Pleasant, New Jersey, e só depende de o senhor assegurar-se se o tio John Chamberlain lhe disse a verdade.”

Em seguida ele se deteve e verificamos os indícios precursores de uma mudança de direção; um dos assistentes fez esta observação: “É uma pena que ele não tenha dado mais amplas informações a seu próprio respeito, porque nas condições que se oferecem teríamos então uma excelente prova de identidade.”

O médium caiu imediatamente sob a influência de seu avô, que passava por ser o seu guia. Depois de ter dirigido sobre todos sua vista benevolente, declarou que bem sabia que o desejo geral era ouvir ainda o velho que acabava de falar e que, por conseguinte, voltaria por alguns instantes. Depois de pequena pausa, o Sr. Prosser (o médium) incorporava de novo a personalidade que se tinha manifestado antes, e que disse por seu intermédio:

“Meus amigos, não esperava conversar ainda uma vez com os senhores, mas não desejo mais do que lhes fornecer uma prova. Faleci na sexta-feira 15 de janeiro de 1847, pai de onze filhos. Se quiserem dar-se ao incômodo, poderão assegurar-se da exatidão do que digo. Minha linguagem não é igual à sua, mas se tiverem prazer em ouvir um velho falar, voltarei. Adeus, preciso ir-me embora.”

No dia seguinte à noite, fez-se uma sessão em outra casa, mas muitas pessoas do círculo precedente assistiam também a esta última. O Sr. Prosser era o único médium presente. O tio John Chamberlain manifestou-se de novo e repetiu as datas contidas em sua comunicação precedente; verificou-se também que na véspera se tinha escrito, por engano, Pleasant Point, em vez de Point Pleasant. Depois de termos feito indagações para nos assegurarmos de que uma estação deste nome existia realmente no Estado de New Jersey, e que o dia 15 de janeiro de 1847 coincide efetivamente com uma sexta-feira, escrevemos ao diretor do Correio pedindo-lhe informações. Em resposta nos informou de que o “velho tio” nos tinha fornecido pormenores exatos. Nós lhe mandamos extratos das cartas que recebemos e que confirmam a exatidão sobre a vida terrestre de John Chamberlain.

Nós abaixo assinados assistimos à primeira das sessões supra mencionadas e damos testemunho da exatidão da narração que precede. Declaramos também que até àquela ocasião nunca tínhamos ouvido falar de John Chamberlain nem de fatos de qualquer natureza referentes à sua vida ou à sua morte. Também não sabíamos que existe em New Jersey um lugar chamado Point Pleasant.



John Prosser, Sarah S. Prosser, Juliet E. Perkins,
A. A. Thurber, Letty A. Boyce, Albert Kendrick,
J. H. Rainey, Mrs. J. H. Rainey, N. D. Ross,
E. Waters, N. F. White, Mrs. N. D. Ross
.”

1. Carta dirigida ao Diretor do Correio de Point Pleasant:

“Troy, 28 de fevereiro de 1853.

Senhor:


Seria muito amável informando-me se um velho chamado Chamberlain faleceu, há alguns anos, na cidade em que o senhor habita. Em caso afirmativo, ficar-lhe-ia muito grato se me desse pormenores precisos quanto à data de seu falecimento, idade, etc. Indique-me também o nome de um de seus parentes com o qual eu possa corresponder-me.

Seu afeiçoado,



E. Waters.

2. Resposta do Sr. Tomás Cook:

“Point Pleasant, 7 de março de 1853.

Ao Sr. E. Waters.

Amigo,31 recebi a tua carta de 28 do passado, com o pedido de comunicar informações acerca de Chamberlain. Posso fornecer-lhas muito precisas, pois que o conheci durante 15 anos e morei em sua vizinhança. Ele morreu a 15 de janeiro de 1847, na idade de 104 anos. Teve sete filhos, que atingiram a idade de casar; três dentre eles morreram deixando filhos. Teve quatro filhas que ainda estão vivas; três delas são minhas vizinhas; a filha mais velha, viúva, tem 72 anos; três são casadas; uma delas mora a 20 milhas. Sendo iletradas, desejam corresponder contigo por meu intermédio. É com prazer que lhe comunico tudo quanto sei.

Teu afeiçoado,



Tomás Cook.

P. S. – Ele era soldado durante a Revolução; fez parte das campanhas e recebia uma pequena pensão.”

3. Correspondência do Sr. Watters ao Sr. Brittan:

“Meu caro Brittan:

Ao receber esta carta, escrevi de novo a Cook, informando-me do número dos filhos de Chamberlain. Ele me respondeu que esse último tinha tido onze filhos ao todo, dois dos quais morreram pequenos, chegando os outros nove à idade avançada.

Seu afeiçoado,

E. Watters.”

O Banner of Light, jornal hebdomadário publicado em Boston desde 1857, granjeou uma especialidade nesse gênero de comunicações. Em cada número dessa revista encontra-se uma página com o título: Message Department (Comunicações); sob esta categoria o jornal publica as mais variadas comunicações, recebidas publicamente nas sessões organizadas pela Redação, por intervenção da médium Sra. Conant, em estado de transe. Com poucas exceções, essas comunicações provêm de personagens absolutamente desconhecidas dos membros do círculo e da médium; mas, como eles têm os nomes, sobrenomes e antigos endereços dessas pessoas falecidas, assim como outros pormenores concernentes à sua vida privada, a verificação dessas informações é geralmente fácil, e não se deixa de fazê-la.

Encontramos também no Banner um capítulo intitulado “Verificação das comunicações espiríticas”, com cartas escritas por parentes ou amigos das pessoas em nome das quais as comunicações são feitas, e que têm por objetivo confirmar os pormenores comunicados nessas mensagens. Recentemente, o Light levantou uma polêmica a respeito da autenticidade desses testemunhos: o espiritualista inglês muito conhecido, o Sr. C. C. Massey, reconhecendo em absoluto a importância dessas cartas para provar que essas comunicações provêm de uma Inteligência independente das pessoas presentes, compreendendo nesse número a médium, é de opinião que elas não preenchem as condições requeridas, pois que não consta, segundo o jornal, que se tenham feito tentativas sérias, sistemáticas, para verificar esses testemunhos. (Light, 1886, págs. 63, 172, 184).

Eis a resposta que o diretor do Banner publica no número de 27 de fevereiro de 1886:

“Durante o primeiro ano da publicação do Banner, todas as comunicações recebidas por intermédio da Sra. Conant eram cuidadosamente verificadas antes de serem impressas; por conseguinte, fazia-se exatamente o que diz o Sr. Massey. Escrevíamos às pessoas mencionadas nas comunicações, que moram em Estados afastados e que a nossa médium não conhecia de maneira alguma, como o sabemos convenientemente. Nove vezes em dez recebíamos respostas das mais satisfatórias. Julgamo-nos então animados a prosseguir em nossa obra. Nos anos seguintes, só raramente pudemos, à falta de tempo, empreender investigações pessoais e fomos coagidos a supri-las por um apelo público com o intuito de obtermos testemunhos e provas; recebemos milhares delas, vindas de todos os lados do país, e às vezes do estrangeiro.”

O editor refere, ali, como o professor Gunning, o geólogo, incrédulo até então acerca desse gênero de comunicações, apresentou-se à redação, pedindo provas, e como, recebendo-as, resolveu verificá-las pessoalmente. Tendo encontrado em um dos números do jornal a comunicação que um escocês dirigia à sua mulher, em Glasgow, ele declarou que se dirigiria à Inglaterra, e que iria de propósito a Glasgow para assegurar-se da exatidão dos fatos alegados, ameaçando, dado o caso, desmascarar a fraude. Depois de alguns meses, apresentou-se de novo à redação e fez a narração de sua entrevista com a viúva em questão, que tinha confirmado inteiramente tudo quanto a comunicação continha.

Na biografia da Sra. Conant, por Allen Putnam (Boston, 1873), encontra-se, acerca do início da publicação dessas mensagens no Banner, informações interessantes que confirmam o que se acaba de ler, do diretor desse jornal (págs. 115 e seguintes). Surgiram dificuldades do lado donde menos as esperavam: dos parentes, das pessoas citadas no capítulo das comunicações; elas julgavam que aquela publicação constituía um ultraje à memória de seu parente próximo já falecido. Um pai indignado chegou a proceder judicialmente contra o Banner perante um tribunal de Justiça por difamação (págs. 108-109). No fim do volume, há alguns exemplos muito notáveis de verificação, principalmente o da comunicação de Harriet Sheldon, que foi confirmado por seu próprio marido, dez anos depois da publicação (págs. 238 e 239).

A fabricação de falsas cartas demonstrativas teria sido descoberta em breve, pois que os inimigos da causa espírita não dormem. A autenticidade das cartas é fácil de demonstrar: seus autores dão nome e endereço, por conseguinte nada mais fácil do que assegurar-se de sua existência, quer pessoalmente, seguindo a direção indicada, quer lhes escrevendo.

Numerosos casos desse gênero estão esparsos em toda a literatura espírita; já citei o primeiro no parágrafo precedente, mui resumidamente, e sem fornecer muitos pormenores; terminarei citando in extenso um caso cuja prova teve de ser feita na América e que se deu na Inglaterra, pela mediunidade do Sr. M. A., pessoa cuja respeitabilidade é reconhecida no mundo espírita. Lemos no Spiritualist de 11 de dezembro de 1874, pág. 284, a carta seguinte, dirigida pelo Sr. M. A. ao diretor desse jornal:

Pede-se uma informação na América

Senhor:

Ficar-lhe-ei muito agradecido se publicar a carta inclusa, na esperança de que alguns de seus leitores americanos possam auxiliar-me a firmar a exatidão dos fatos.



No mês de agosto passado (1874), achava-me com o Dr. Speer, em Shanklin, na ilha de White. Em uma das nossas sessões recebemos uma comunicação em nome de um Abraão Florentino, que declarava ter tomado parte na guerra de 1812, na América, dizendo que acabava de falecer em Brooklin, Estados Unidos da América, a 5 de agosto, na idade de 83 anos, 1 mês e 17 dias. Esta comunicação foi transmitida de maneira muito notável. Éramos três em torno de uma mesa tão pesada que duas pessoas tinham dificuldade em movê-la. Não se ouviram pancadas, mas, em vez disso, a mesa começou a inclinar-se. A impaciência do interlocutor invisível era tão grande que a mesa se inclinava antes mesmo que a vez da letra seguinte tivesse chegado; ela tremia como em agitação extrema e caía com violência na letra precisa. E assim sucedeu até o final da comunicação...

Do grande número de fatos desse gênero que se deram em nossas sessões, não conheço um só que se não tenha confirmado; tenho por conseguinte toda a razão de acreditar que o fato de que se trata o será igualmente. Ficarei, pois, muito grato aos jornais americanos se reproduzirem esta carta e se por esse meio me fornecerem ensejo de verificar a exatidão dos fatos de que recebi a comunicação. Se posso avançar uma suposição, direi que acredito que Abraão Florentino foi um bom soldado, um verdadeiro batalhador, e que se torna a encontrar exatamente seu arrebatamento natural na alegria que manifesta por ficar afinal desembaraçado de seu despojo mortal, depois de dolorosa moléstia.”

O Sr. M. A. dirigiu-se com o mesmo pedido ao Sr. Epes Sargent, célebre espiritualista americano, que mandou publicar o fato no Banner of Light de 12 de dezembro de 1874. Já no número de 13 de fevereiro de 1875, pode-se ler esta inserção:

“Washington, 13 de dezembro de 1874.

Senhor diretor:

No último número do Banner, o senhor pergunta se alguém conhecera Abraão Florentino, soldado em 1812. Desempenhando há catorze anos as funções de agente incumbido de receber as petições apresentadas pelos soldados de 1812, no Estado de Nova Iorque, tenho em meu poder a lista de todos aqueles que requereram indenizações pelos serviços que prestaram nessa guerra. Na dita lista encontro o nome de Abraão Florentino, de Brooklin; quanto às informações circunstanciadas de seu serviço, o senhor poderá obtê-las na Chancelaria do General Ajudante de Campo do Estado de Nova Iorque, referindo-se à petição nº 11.518, relativa à guerra de 1812.



Wilson Millar
Recebedor das petições.”

No mesmo número do Banner encontra-se a informação obtida do general ajudante de campo:

“Chancelaria do General Ajudante de Campo do Estado de Nova Iorque, em Albany, 25 de janeiro de 1875.

Senhor,


Em resposta à sua carta de 22 de janeiro, posso comunicar-lhe os pormenores seguintes, copiados dos registros de nossa chancelaria: Abraão Florentino, soldado de linha, da Companhia do Capitão Nicole, 1º Regimento da Milícia de Nova Iorque, a 2 de setembro de 1812, prestou um serviço de três meses e obteve isenção com o direito de receber 40 acres, conforme o recibo nº 63.365.

Aceite, etc.



Franklin Townsend
General Ajudante de Campo.”

No número seguinte do Banner (20 de fevereiro), lemos:

“Brooklin, 15 de fevereiro de 1875.

Senhor diretor:

Depois de ter lido no último número de seu jornal o artigo relativo à verificação da mensagem enviada por Abraão Florentino, procurei no livro de endereços de Brooklin e encontrei ali o dito nome com o endereço: rua Kosciuszko, nº 119. Dirigi-me para ali e fui recebido por uma mulher idosa, a quem perguntei se Abraão Florentino morava naquela casa. Ela respondeu-me:

– Morou aqui, porém já morreu.

– Não serás sua viúva?

– Perfeitamente.

– Podes dizer-me a época de sua morte?

– No mês de agosto passado.

– Em que data?

– A cinco.

– Que idade tinha?

– Oitenta e três anos.

– Feitos?

– Sim; completou oitenta e três anos a 8 de junho.

– Ele tomou parte na guerra?

– Sim; na guerra de 1812.

– Tinha gênio violento, independente, ou de qualquer outra natureza?

– Era muito violento e teimoso.

– Esteve doente por muito tempo?

– Ficou de cama durante mais de um ano e sofreu muito.

Cito textualmente as perguntas e as respostas, por mim escritas durante a entrevista. Depois dessa última resposta, a viúva Florentino – mulher de cerca de 65 anos – perguntou-me por que motivo eu a interrogava; então lhe fiz a leitura do artigo do Banner, onde se tratava de seu marido, o que a tornou perplexa e interessou-a vivamente; tive que lhe dar diversas explicações que a surpreenderam até o mais alto grau. Ela confirmou a mensagem do princípio ao fim e pediu-me que lhe mandasse um exemplar desse número do Banner.

Eugênio Crowell, Doutor Med.”

Reproduzindo esses documentos em seu livro Spirit Identity (Londres, 1879), o Sr. A. acrescenta:

“É necessário dizer que nenhum dentre nós conhecia o nome de Florentino e as particularidades que lhe diziam respeito? Ninguém, além disso, teria tido a lembrança de comunicar-nos, da América, fatos que não nos diziam respeito de maneira alguma.”

Eis um fato que se passou na Rússia, em 1887, em casa do Sr. Nartzeff, no governo de Tambow. Quando tive conhecimento dele, escrevi ao Sr. Nartzeff, a quem eu não conhecia pessoalmente, para pedir-lhe que me comunicasse todos os pormenores. Ele correspondeu ao meu desejo com a mais amável presteza. Os membros do círculo organizado pelo Sr. Nartzeff tinham tido a boa lembrança de lavrar atas em cada sessão, de maneira que não era difícil reconstituir esses acontecimentos, com o auxílio de algumas cartas trocadas. Sucedeu entretanto aparecer o resumo desse fato em primeiro lugar nas Memórias da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, de Londres (parte XVI, pág. 355), pois que a minha resposta ao Sr. Hartmann, em língua alemã, já estava impressa, e o Sr. Myers estava precisamente preocupado naquela ocasião em recolher os fatos desse gênero. Foi por conseguinte para ele que eu dirigi esta notícia. Atualmente ela apareceu em língua russa, composta dos documentos autênticos seguintes:



I – Manifestação de Anastácia Perelyguine no dia seguinte ao de sua morte

Cópia da ata da sessão de 18 de novembro de 1887, realizada na casa do Sr. Nartzeff, em Tambow, rua dos Inválidos.

Estavam presentes: a Sra. A. S. Sleptzoff,32 N. P. Touloucheff,33 a Sra. A. P. Ivanoff,34 A. N. Nartzeff.35

A sessão começou às 10 horas da noite, em torno de uma mesa redonda, preta, colocada no centro do aposento, à claridade de uma lamparina posta em cima da chaminé. As portas estavam fechadas. A cadeia era formada da maneira seguinte: cada um tinha a mão esquerda colocada sobre a mão direita de seu vizinho; os pés dos vizinhos também se tocavam, de maneira que as mãos e os pés estavam submetidos a uma fiscalização recíproca, durante todo o tempo da sessão. No começo fizeram ouvir-se pancadas violentas, dadas no soalho; mais tarde elas retumbaram na parede e no forro. Depois, subitamente, ouvimos pancadas que partiam do centro da mesa, de cima, como se alguém batesse com o punho; essas pancadas eram tão fortes e sucediam-se tão rapidamente, que a mesa tremia durante todo o tempo. Então o Sr. Nartzeff encetou o seguinte diálogo:

– Podes dar respostas inteligentes? Se podes, bate três vezes; se não, uma vez.

– Sim (três pancadas).

– Desejas dar as respostas por meio do alfabeto?

– Sim.


– Soletra o teu nome.

(Recita-se o alfabeto; as letras são indicadas por pancadas.)

– Anastácia Perelyguine.

– Dize-nos, se é de teu agrado, por que vieste e que desejas.

– Sou uma desgraçada. Orai por mim. Ontem de dia, faleci no hospital. Envenenei-me com fósforos há três dias.

– Dize-nos outra coisa referente à tua pessoa. Que idade tinhas? Dá tantas pancadas quantos anos tinhas.

(Ouvem-se 17 pancadas.)

– Quem eras?

– Camareira. Envenenei-me com fósforos.

– Por que te envenenaste?

– Não o direi. Não direi mais nada.

Nesse momento uma pesada mesa colocada de encontro à parede, fora da cadeia que formávamos, dirigiu-se rapidamente por três vezes, na direção das pessoas que formavam a cadeia, e de cada vez foi repelida por força invisível. Sete pancadas retumbaram na parede (sinal convencionado para dizer que a sessão estava terminada), e levantamos a sessão: eram 11 horas e 20 minutos.



A. S. Sleptzoff, N. P. Touloucheff,
A. N. Nartzeff, A. P. Ivanoff.

Por estar conforme com a ata original, assino.



Alexis Nartzeff.

II – Declaração

“Nós abaixo assinados, tendo assistido à sessão de 18 de novembro de 1887, na casa do Sr. A. N. Nartzeff, testemunhamos pela presente que nada sabíamos quer acerca da existência, quer acerca do falecimento de Anastácia Perelyguine, e afirmamos que ouvimos esse nome pela primeira vez na sessão supramencionada.

Em 6 de abril de 1890. Tambow.

N. P. Touloucheff, A. Sleptzoff,
Alexis Nartzeff, A. Ivanoff.


III – Carta do Dr. N. Touloucheff ao Sr. Aksakof

“Senhor:


Na sessão realizada a 18 de novembro de 1887, em casa do Sr. Nartzeff, recebeu-se uma comunicação feita em nome de Anastácia Perelyguine, que pedia que orassem por ela, declarando que se tinha envenenado com fósforos e que tinha falecido a 17 de novembro. A princípio não dei crédito algum ao caso, pois que, na qualidade de médico da cidade de Tambow, sou avisado imediatamente pela polícia, todas as vezes que se dá um suicídio. Mas, como dizia ela ter morrido no hospital, e como o hospital de Tambow, pertencente inteiramente à administração da Beneficência, está isento também da municipalidade e da administração do Governo e acha-se, assim, colocado fora de minha atribuição, a tal ponto que em casos semelhantes requisita por autorização própria a Polícia e o Juiz de Instrução, escrevi ao colega Dr. Sundblatt, médico-chefe do hospital. Nada lhe expliquei do que se tinha passado e pedi-lhe que me informasse se tinha ocorrido nesses últimos dias um caso de suicídio no hospital e, eventualmente, por quem e em que circunstâncias. A cópia da resposta que me deu por escrito (o original está em poder do Sr. Nartzeff), certificada pelo próprio Sr. Sundblatt, já lhe foi transmitida.

Aceite, etc.

Em 15 de abril de 1890, Tambow, rua do Seminário, casa do Sr. Touloucheff.

N. Touloucheff.

IV – Cópia da carta do Dr. Sundblatt ao Dr. Touloucheff

“Caro colega, Nicolau Petrovich:

A 16 do corrente, eu estava de serviço e, efetivamente, nesse dia trouxeram dois doentes que estavam envenenados com fósforo: A primeira, Vera Kossovitch, de 38 anos de idade (mulher de funcionário, creio), moradora à rua Teplaïa, casa Bogoslovski, foi recebida às 8 horas da noite, com guia da 3ª Circunscrição de Polícia; a segunda, servente no Asilo de Alienados, Anastácia Perelyguine, 17 anos, entrou às 10 horas da noite. Esta última tinha ingerido, além de uma infusão de fósforos (cerca de dez caixas), a metade de um copo de petróleo. Ela estava muito mal desde o começo e faleceu a 17, à 1 hora da tarde. Foi hoje que se procedeu à autópsia regulamentar. A Sra. Kossovitch declarou-nos que tinha tomado o veneno em um acesso de tristeza. Quanto a Perelyguine, nada declarou acerca do motivo que a tinha levado ao suicídio. Eis tudo o que posso comunicar-lhe acerca desse caso.

Cordial aperto de mão.



F. Sundblatt.

Esta cópia está conforme com o original, palavra por palavra, em fé do que assinamos.



Alexis Nartzeff, Dr. F. J. Sundblatt.

V – Carta do Sr. A. N. Nartzeff ao Sr. Aksakof
em data de 4 de maio de 1890

Desejando assegurar-me se a Sra. Ivanoff, despenseira da Sra. Sleptzoff, se dirigiu casualmente ao hospital e soube ali do falecimento da jovem Perelyguine, ou, antes, se ela não ouviu falar a tal respeito em outra parte, pedi ao Sr. Nartzeff que fizesse uma investigação nesse sentido e me dissesse ao mesmo tempo a que distância de sua casa se acha o hospital e se Perelyguine tinha instrução; parecia-me curioso verificar se a jovem servente teria estado em condições de ditar essa comunicação por meio do alfabeto.

Recebi do Sr. Nartzeff a carta seguinte:

“Em resposta à sua carta, apresso-me em lhe participar que a despenseira de minha tia não é uma simples ecônoma, no rigoroso sentido do termo, porém antes uma amiga da casa, que mora em nossa companhia há mais de 15 anos e em quem depositamos a mais completa confiança. É impossível que ela tenha tido conhecimento do suicídio da jovem Perelyguine, pois que não tem amigos nem parentes em Tambow e nunca sai de casa.

O hospital onde a jovem Perelyguine morreu fica no extremo da cidade, a 5 quilômetros de nossa casa. O Dr. Sundblatt verifica, segundo a ata da investigação, que a jovem em questão sabia ler e escrever.”

Para completar as informações que precedem, falta dizer que Anastácia Perelyguine era incumbida, em seu serviço, da seção dos alienados do próprio hospital para onde foi transferida na véspera de sua morte.

Que explicação razoável se pode dar desses fatos, baseando-se nas teorias do Sr. Hartmann? É inútil, creio, recomeçar a mesma série de argumentos para demonstrar que não se pode tratar de uma transmissão de pensamentos, pois que a condição essencial – o laço psíquico – não pode existir entre pessoas que se não conhecem. Entretanto, ainda fica a clarividência. Mas o único ponto de reparo para uma “mediação sensorial”, que deveria servir para perceber a sensação, isto é, a presença, na sessão, de uma pessoa que conhecesse o morto, também não existe. Por conseguinte, não fica, em último recurso, mais do que a clarividência pura.

Mas, não se deve esquecer também de que todo acesso de clarividência deve ter sua razão de ser e que, nos casos enumerados, a condição essencial, “o intenso interesse da vontade”, falta da mesma maneira; por conseguinte, nada de relação telefônica possível no Absoluto, entre o médium e os vivos (isto é, os amigos do morto, pois que este último não se conta), nem laço algum entre o médium e o “saber absoluto do Espírito Absoluto”. Com efeito, é possível admitir por um instante que o médium – no caso da Sra. Conant, por exemplo – vá em dia e hora fixados da semana ocupar seu lugar na redação do Banner para, alguns instantes depois, entrar em relação com o Absoluto e servir de porta-palavra, em estado inconsciente, acerca de dez mortos, um após outro?

Não seria uma verdadeira comédia representada pelo Absoluto? Pois que o “Saber Absoluto” deveria certamente saber, conforme esta teoria, que esses mortos não mais existem, o papel que ele faria o médium representar nada mais seria do que uma ridícula mentira, incompatível com a idéia do Absoluto!

O próprio Sr. Hartmann incumbiu-se, aliás, de nos demonstrar quão pouco sustentável é semelhante hipótese:

“A verdadeira clarividência não se encontra nos médiuns de profissão, provavelmente pelo motivo de serem as pessoas presentes em geral estranhas umas às outras, sem nenhum laço profundo de simpatia, e porque falta, conseguintemente, o interesse da vontade – necessário para estabelecer uma comunicação retroativa. Para a transmissão de representações, a respeito das quais os médiuns experimentam interesse, basta haver indução produzida pelas vibrações cerebrais, de maneira que não há absolutamente necessidade de uma comunicação telefônica retroativa no Absoluto; quanto ao passado e aos destinos futuros das pessoas, que participam da sessão, e quanto a seus parentes e amigos, é ainda mais difícil admitir que os desenvolva um interesse bastante intenso para que a vontade inconsciente seja levada a hauri-los no saber absoluto de sua origem absoluta. O que os espíritas chamam “clarividência”, em seus médiuns, não o é de maneira alguma; a verdadeira clarividência, essa flor mais fina, se bem que doentia, da vida psíquica do homem, os espíritas não a encontram entre seus médiuns, porque estes últimos se servem de suas faculdades como pessoas de ofício.” (pág. 82-83).

Assim, pois, é claro que nem a transmissão dos pensamentos a distância, nem a clarividência, encaradas no ponto de vista do Sr. Hartmann, podem explicar os fenômenos dessa categoria. Entretanto esses fatos existem; por conseguinte devem ser explicados. E, em verdade, eles se explicam precisamente por essas duas hipóteses, quando examinadas, não no ponto de vista metafísico ou sobrenatural, mas sob o ponto de vista natural, humano.

Que é, com efeito, uma transmissão de pensamento a distância? É uma troca de impressões, conscientes ou inconscientes, entre dois centros de atividade psíquica. Nas experiências ordinárias de transmissão de pensamento, por via magnética hipnótica ou outra, sabemos de que centro de ação psíquica emana a sugestão. Nas experiências mediúnicas, quando recebemos a comunicação de um fato que conhecemos pessoalmente, ou que é conhecido por um dos assistentes, temos o direito de atribuí-lo a uma troca inconsciente de impressões entre as atividades psíquicas das pessoas presentes. Mas, quando se trata da comunicação de um fato desconhecido das pessoas presentes, devemos atribuí-lo evidentemente a um ser ausente, que conhece o dito fato; nesse caso, uma relação simpática é necessária; se ele se dá, não entre sobreviventes, porém entre um sobrevivente e um morto, e se esse morto está interessado em comunicar o fato em questão ao sobrevivente – principalmente se se trata de um fato que só ele pode conhecer –, não é natural, lógico, atribuir essa comunicação à individualidade que se anuncia como tal? Nesse caso o processo de transmissão de pensamento faz-se diretamente, de modo natural, sem que se tenha necessidade de recorrer ao sobrenatural, a uma “relação telefônica com o Absoluto”.

A clarividência confirma ainda mais a nossa explicação. Que é a clarividência, segundo o Sr. Hartmann? É “a percepção dos fenômenos reais objetivos, como tais, sem o auxílio dos órgãos dos sentidos” (pág. 74). Assim, um clarividente vê a grande distância um incêndio, uma morte, etc. São “fenômenos objetivos” que se aceitam como tais; mas, quando esse mesmo clarividente vê “um Espírito”, o fato não passa de um “fenômeno subjetivo”; por conseguinte, não é mais clarividência! Mas então por que dizer que “a clarividência propriamente dita” faz parte do “conteúdo da consciência sonambúlica”? (pág. 60). Teria sido preferível não falar nela!... E ainda: “A alma individual possui o dom do saber absoluto...” – “não há mais necessidade de auxílio vindo de fora, nem de intermediário algum, e menos que tudo do auxílio dos mortos.” (pág. 78). Eis um médium em transe, pela boca do qual o morto estabelece sua identidade, ignorada de todos os assistentes, porém conhecida por todos aqueles que o próprio morto designa e que atestam a exatidão de todas as informações que ele forneceu acerca de si próprio e acerca de sua vida pública e privada. É ainda clarividência: seu nome, seus sobrenomes, todas as informações foram hauridas no “saber absoluto do Espírito Absoluto...” (pág. 79). Só o fato de sua existência supraterrestre é falso! Aqui o saber absoluto não mais é digno de fé, não mais é absoluto. Tanto vale dizer que essa faculdade de clarividência absoluta só funciona quando nos apraz admiti-la!

Não seria mais racional admitir para esses casos excepcionais um centro de ação psíquica fora do médium? Sendo admitido o fato misterioso da individuação, a percepção, por intermédio de um sensitivo, de uma impressão vinda de um indivíduo vivo, mas que está distante, não é menos maravilhosa do que a percepção de uma impressão vinda de um indivíduo pretendido morto e provando o contrário pelo próprio fato dessa impressão sugerida.

Um sensitivo pode mesmo ver e sentir a presença de uma individualidade desse gênero, sem ser clarividente, pelo poder do Absoluto: uma vez admitido o centro de ação extraterrestre, o sensitivo experimentará todas as suas influências, como experimenta as que dimanam dos centros de ação terrestres, como o notamos nas experiências do magnetismo e do hipnotismo; isso não será mais do que uma extensão dos modos e dos graus de reação psíquica entre dados centros de consciência, sem apelo para a metafísica ou para o Absoluto. Que semelhantes centros de atividade não são imaginários, estabelece-se não só pelas provas fotográficas, mas ainda pela própria natureza das manifestações, que não podem chamar-se psíquicas e que não têm relação com a clarividência. Vede o caso de Abraão Florentino: o médium, durante a manifestação, estava em transe; não é nem por sua boca, nem por sua mão que o ser inteligente se manifesta, porém por deslocamentos de mesas extraordinariamente pesadas – gênero de manifestação inteiramente desusado pelo médium; é pela mesa, por movimentos e pancadas, que esse pretendido acesso de clarividência se teria revelado! Haveria aí uma relação de causas e de efeitos inteiramente inexplicável, sob o ponto de vista da lógica. Ele ainda é menos explicável por uma teoria que só admite a clarividência sob a forma alucinatória!

Vamos passar agora ao exame de uma série de fenômenos que servem de traço de união entre as manifestações psíquicas e as manifestações físicas de uma mesma causa em atividade – manifestações em que a necessidade de admitir que essas causas são centros independentes de uma ação extramediúnica (a que o Sr. Hartmann chama causas transcendentes), torna-se claramente manifesta.



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