Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Materializações


Os fatos que vamos expor aqui constituem o complemento natural dos fenômenos expostos acima; esta categoria se impõe, por conseguinte, se bem que não quadre, na aparência, com os fenômenos de ordem intelectual. Dos casos citados mais acima, conclui-se evidentemente que a transmissão das comunicações e o transporte de objetos a distância devem ser atribuídos a uma mesma causa; que a força inteligente e a força que produz efeitos físicos não fazem mais do que uma, e que constituem um ser indivisível, independente, existindo fora do médium. Vamos demonstrar que essa dedução é inteiramente justificada pelo testemunho direto dos sentidos. O portador dessa força, que é ao mesmo tempo o agente que transporta o objeto material, aparece diante de nós sob a forma de um ser humano.

Sabe-se que toda materialização de uma forma humana importa em transporte de um objeto material – da roupa com que ele está vestido.

Se o transporte dessa roupa é um fato incontestável, convém chegar, logicamente, à conclusão de que o ato do transporte foi efetuado pela forma humana misteriosa que ele envolve e é igualmente lógico admitir-se que análoga relação existe entre tal transporte e essa individualidade, nos casos em que o agente fica invisível. A afirmação positiva desse agente, de que o fenômeno deve, em um e outro caso, lhe ser atribuído, adquire a autoridade de uma demonstração ad oculos. À medida que subimos a escala dos fenômenos classificados sob essas doze categorias, as declarações do agente invisível, que afirma sua individualidade independente, adquirem mais força e nos coagem cada vez mais a pronunciar-nos em favor de uma hipótese que parece tão simples quão racional.

Quanto ao fato em si, da aparição inexplicável de roupas nas sessões de materialização, ele foi escrupulosamente verificado e certificado pelos mais seguros testemunhos. Em muitos casos o médium foi completamente despido, tiravam-se-lhe até os sapatos e faziam-no vestir roupa fornecida pelos experimentadores, roupa branca e outras. Para pormenores precisos, envio o leitor às publicações seguintes: o resumo do Sr. Barkas no Médium (1875, pág. 266) e no Spiritualist (1868, tomo I, pág. 192); o do Sr. Adshead no Médium de 1877 (pág. 186), e mui particularmente a narração das experiências do Sr. Massey com um médium privado, no Spiritualist de 1878, tomo II, página 294.

Mas voltemos ao Sr. Hartmann, que não encontra, nos fenômenos de materialização, motivo algum para admitir a existência de um agente extramediúnico. Examinemos seus argumentos. Foi-lhe bastante, para cortar a dificuldade, fazer correrem os fenômenos de materialização, e tudo quanto a ela se refere, por conta de alucinações. Mas, semelhante teoria não deixa de ser atacável; a questão das materializações não pode ser separada da questão da vestimenta. No caso em que a forma aparece e desaparece com as vestimentas, a hipótese da alucinação parece triunfar. Mas, por infelicidade, deram-se casos em que fragmentos da roupa ficaram em mãos dos assistentes; o Sr. Hartmann não pôde desconhecer isso. É um “transporte”, diz ele. Mas que vem a ser um transporte? É o que ele não explica. Uma metade do fenômeno fica, por conseguinte, sempre sem explicação. Por esse silêncio, o Sr. Hartmann reconhece que uma parte do fenômeno, pelo menos, não se presta às suas explicações, que ele qualifica de “naturais”. Quod erat demonstrandum. Assim, sendo a sua teoria alucinatória impotente para explicar o conjunto do fenômeno, fica provado que é insuficiente, e é inútil voltar a ela.

Mas o Sr. Hartmann reservou-se uma réplica para a eventualidade em que sua teoria da alucinação fosse reconhecida insustentável. Ele diz:

“Admitindo-se mesmo que os espíritas tenham razão quando pretendem que o médium pode desprender uma parte de sua matéria orgânica para formar com ela um fantasma, de materialidade tênue a princípio, mas aumentando gradualmente de densidade, não seria menos verdade que não só a matéria total dessa aparição real, objetiva, teria sido tomada ao organismo do médium, mas ainda que a forma dessa aparição teria sido concebida na fantasia sonambúlica do médium e que os efeitos dinâmicos que ela produz teriam sua origem na força nervosa do médium; o fantasma não seria mais, e mais não faria do que o que lhe tivesse ditado a fantasia sonambúlica do médium, que realizaria tudo isso por meio das forças e da matéria tomadas ao organismo do médium.” (Espiritismo, pág. 105).

Não há lugar, como se acaba de ver, para o sobrenatural, nem mesmo motivo algum para aceitá-lo. Quanto à questão da vestimenta, oferece sempre a mesma dificuldade e encontra o mesmo silêncio; por conseguinte, o nosso argumento fica de pé.

Mas, desde o momento em que o Sr. Hartmann não se opõe à hipótese segundo a qual a forma materializada é um corpo real, objetivo, importa examinar se esse fenômeno pode ser qualificado de natural, desde que o encaremos da mesma maneira que o faz o Sr. Hartmann.

Quais são em primeiro lugar os atributos desse fenômeno, tomando-o tal qual é conhecido pelos observadores, mas do qual os leitores do Sr. Hartmann só devem ter noções muito vagas? Uma forma materializada apresenta, para a vista, um corpo humano completo, com todas as particularidades de sua estrutura anatômica; assemelha-se, às vezes, mais ou menos, ao médium; outras vezes lhe é completamente dessemelhante, mesmo quanto ao sexo e idade; é um corpo animado, dotado de uma inteligência e de uma vontade, senhor de seus movimentos, um corpo que vê e fala como um homem vivo, que é de certa densidade, de certo peso. Esse corpo se forma, quando as condições são favoráveis, no espaço de alguns minutos; está sempre vestido com uma roupa que é, como o declara o próprio fantasma, de proveniência terrestre, quer “transportado” de maneira inexplicável, quer materializado durante a sessão (e o fantasma prova-o, materializando-se com a vestimenta perante os assistentes); esse fantasma, assim vestido, tem a faculdade de desaparecer instantaneamente, à vista mesmo das pessoas presentes, como se passasse através do soalho ou desaparecesse no espaço, e de fazer seu reaparecimento no decurso da sessão. Uma parte desse corpo materializado pode mesmo adquirir uma existência permanente: sucedeu, por exemplo, que madeixas de cabelos cortadas desses fantasmas tivessem sido conservadas, como o provam as experiências do Sr. Crookes, que cortou uma trança da cabeça de Katie King, depois de ter passado a mão até à epiderme para assegurar-se de que os cabelos estavam realmente implantados ali.

São maravilhas muito difíceis de aceitar! É nem mais nem menos do que a criação temporária de um corpo humano, de modo contrário a todas as leis fisiológicas. É uma manifestação morfológica da vida individual consciente, tão misteriosa quão manifesta! E o Sr. Hartmann é de opinião que tal fenômeno nada apresenta que não seja muito natural: seria simplesmente a obra da “fantasia sonambúlica” do médium! Mas, poder-se-ia perguntar, e nos casos em que a materialização se produz, mesmo sem que o médium esteja em estado de transe, há pois nesse caso duas consciências, duas vontades, dois corpos que agem simultaneamente? É sempre a “fantasia sonambúlica” que continua a produzir esses efeitos maravilhosos? E quando duas ou três formas materializadas aparecem ao mesmo tempo, convém atribuí-las sempre a essa fantasia sonambúlica, atribuindo-lhe a faculdade de multiplicar os corpos e as consciências? Há ainda, porém, outra particularidade que não é inútil pôr em evidência: é que o Sr. Hartmann não reconhece em nós a existência de uma entidade psíquica independente, de um agente transcendente, como princípio individual organizador; ele não vê necessidade alguma de admitir um “metaorganismo”, um corpo astral ou psíquico, como substratum do corpo físico. Nada de tudo isso; a consciência sonambúlica que opera, segundo o Sr. Hartmann, todos os prodígios do mediunismo nada mais é do que função das partes médias do cérebro, dos centros subcorticais. Os fenômenos de materialização não passam, por conseguinte, de um efeito da atividade inconsciente do cérebro do médium, e principalmente da parte onde se assenta a consciência sonambúlica!

É aceitar ou deixar. Nesse ponto de vista a referência que o Sr. Hartmann faz ao artigo do Dr. Janisch, publicado no Psychische Studien (1880), adquire um interesse todo particular. Ele continua assim o argumento citado mais acima, no qual parte da suposição de que o médium desprende, efetivamente, uma parte de sua matéria orgânica:

Mesmo nesse caso, não haveria motivo algum para procurar uma causa qualquer fora do médium, como foi peremptoriamente e longamente demonstrado pelo Sr. Janisch em seu artigo Pensamentos sobre a Materialização dos Espíritos, publicado no Psychische Studien de 1880.”

Poder-se-ia acreditar que o Sr. Hartmann e o Sr. Janisch estão perfeitamente de acordo. Com grande surpresa nossa, notamos que o Sr. Janisch admite a existência individual, independente, da alma, sua preexistência, que ele considera nosso corpo como sua primeira encarnação ou “materialização”. Diz ele:

“A alma pode, entretanto, em razão de uma necessidade que lhe é própria, ou mesmo fora dessa necessidade, por uma aberração de seus apetites naturais, ser levada a continuar a materializar-se mesmo durante sua existência terrestre... E aí está precisamente o que constitui o fenômeno mediúnico da materialização... E também o motivo pelo qual a forma materializada se assemelha ao médium.36 O grau seguinte, na ordem do desenvolvimento, seria aquele em que a alma criasse para si um segundo corpo que só apresentasse os vestígios gerais do seu protótipo, o homem, mas lhe fosse completamente dessemelhante pelas particularidades.” (Psychische Studien, 1880, pág. 209).

“As diversas formas materializadas podem bem ser puras imagens da fantasia, isto é, de origem subjetiva; mas a impulsão produtora pode provir de fonte objetiva, pois que a possibilidade de comunicar com o mundo dos Espíritos é um fato demonstrado. Por conseguinte, pode suceder que, por intermédio de uma das pessoas presentes, o médium entre em relação com um morto que teve relações com aquela pessoa e, por uma sugestão por parte desse morto, poderá representar a si mesmo a forma que esse morto revestia na Terra, e materializar-se sob essa forma. Tais são os casos em que um dos assistentes reconhece uma pessoa que tinha conhecido.” (Ibidem, pág. 211).

Podemos aceitar, depois dessas citações, que o Sr. Janisch tivesse “peremptoriamente e longamente demonstrado que não há motivo algum para se procurar uma causa qualquer fora do médium”?

A que conclusão chegamos, por conseguinte, no fim deste capítulo?

Parece-me que após haver eu reconhecido todas as regras metodológicas indicadas pelo Sr. Hartmann em seu livro O Espiritismo e recapituladas nos sete parágrafos de seu Epílogo, depois de haver, por assim dizer, passado grande parte dos fenômenos mediúnicos através dos sete crivos que representam os graus da escala metodológica, ficam sempre ainda grãos volumosos que não passaram. Esses grãos foram por mim reunidos no presente capítulo; eles constituem, parece-me, uma série de fatos tais, que é permitido, apoiando-se neles, falar nos limites além dos quais todas essas explicações se detêm, impotentes, e coagem-nos a recorrer a outras hipóteses.

Se o Espiritismo só oferecesse fenômenos físicos e materializações sem conteúdo intelectual, logicamente teríamos que atribuí-los a “um desenvolvimento especial das faculdades do organismo humano”; e até o fenômeno mais difícil de classificar – a penetração da matéria – seríamos coagidos a referi-lo, em virtude desse mesmo raciocínio, ao poder mágico que nossa vontade, em estado de superexcitação excepcional, exerce sobre a matéria.

Mas dando-se o caso de os fenômenos físicos do mediunismo serem inseparáveis de seus fenômenos intelectuais, e de nos obrigarem estes últimos, pela força dessa mesma lógica, a reconhecermos, para certos casos, a existência de um terceiro agente, fora do médium, é natural, lógico, procurar igualmente nesse terceiro agente a causa de certos fenômenos físicos de ordem excepcional. Existindo esse terceiro fato, é evidente que se acha fora das condições de tempo e de espaço que nos são conhecidas, que pertence a uma esfera de existência supraterrestre; podemos por conseguinte supor, sem pecar contra a lógica, que esse terceiro fator possui sobre a matéria um poder de que o homem não dispõe.

Eis pois a resposta que pode ser dada à pergunta feita no começo deste capítulo: No ápice da imensa pirâmide que os fatos mediúnicos de qualquer categoria apresentam, aparece um fator misterioso, que devemos procurar fora do médium. Qual é? Segundo seus atributos, devemos concluir que esse agente é um ser individual, humano.

Esta conclusão nos coloca diante de três alternativas: esse ser humano pode representar:

1º – um ser humano que vive na Terra; ou

2º – um ser humano que viveu na Terra; ou, antes,

3º – um ser humano extraterrestre, de uma espécie que desconhecemos.

Essas três suposições, às quais a nossa escolha fica adstrita, preenchem todas as soluções possíveis que imaginássemos; elas farão o objeto do capítulo seguinte e último.

A conclusão a que chegamos tem pelo menos essa vantagem: nos evita de recorrer à metafísica, ao “sobrenatural”, ao “Absoluto”; permanecendo nesta conclusão, julgamos ter-nos conservado mais fiéis às leis metodológicas impostas pelo Sr. Hartmann, do que o fez o próprio Sr. Hartmann, que se julgou coagido a infringi-las.




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