Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Capítulo IV

A hipótese dos Espíritos

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Animismo – Ação extracorpórea do homem vivo,
como que formando a transição ao Espiritismo


Os fatos expostos no capítulo precedente parecem autorizar-nos a admitir para a explicação de certos fenômenos mediúnicos a intervenção de um agente extramediúnico. Podem imaginar-se três hipóteses para definir a natureza desse agente; deixamos de lado a terceira, que só tem valor no ponto de vista da possibilidade lógica, mas que não poderia ter cabimento aqui. Por conseguinte, só tomaremos em consideração as duas primeiras.

Examinando a primeira dessas hipóteses, não levaremos em conta fatos que podem testemunhar em favor da segunda; ensaiaremos prescindir deles, a fim de ver que conclusões seremos levados inevitavelmente a tirar de todos os fatos que precedem, observando, bem entendido, os princípios metodológicos indicados pelo Sr. Hartmann (isto é, não nos afastando das condições a que ele chama “naturais”).

Não apresentaremos definição alguma da própria natureza dos fenômenos, definição alguma pressupondo uma teoria, uma doutrina ou uma explicação qualquer; limitar-nos-emos a tirar dela conclusões gerais, que se imporiam a qualquer pesquisador de boa vontade que quisesse aceitar os fatos em questão como base de sua argumentação, como o fez o Sr. Hartmann.

O primeiro capítulo, que trata das materializações, nos forneceu todos os argumentos necessários para concluir-se que os fenômenos desse gênero não são alucinações, mas sim fatos reais, objetivos. Devemos, por conseguinte, admitir que o organismo do homem possui a faculdade, em certas condições, de criar à sua custa, e inconscientemente, formas plásticas, com maior ou menor semelhança com o corpo desse homem ou, de uma maneira geral, com uma forma humana qualquer e com diversos atributos de corporeidade (e o Sr. Hartmann também está pronto a admiti-lo, por pouco, que o fato da materialização seja demonstrado de uma maneira indiscutível) (pág. 105).

O segundo capítulo, no qual examinamos os efeitos físicos, obriga-nos a admitir – de acordo com o Sr. Hartmann – que o organismo humano tem a faculdade de produzir, em determinadas condições, efeitos físicos (principalmente o deslocamento de corpos inertes), fora dos limites de seu corpo (isto é, sem contato e independentemente do uso natural de seus membros), efeitos que não estão submetidos à sua vontade e a seu pensamento conscientes, mas que obedecem a uma vontade e a uma razão de que ele não tem consciência. O Sr. Hartmann atribui essa faculdade a uma força física, nervosa – questão que deixaremos por decidir.

O terceiro capítulo, que trata dos fenômenos intelectuais, conduz-nos a admitir, sempre de acordo com o Sr. Hartmann, que no organismo humano há uma consciência interior, que é dotada de uma vontade e de uma razão individuais, agindo independentemente da consciência exterior que conhecemos; que a ação dessa consciência interior não é adstrita aos limites de nosso corpo, que ela possui a faculdade de entrar em comunhão intelectual, passiva e ativa, com os seres humanos, quero dizer: que ela pode não somente receber (ou arrogar-se) as impressões que emanam da atividade inteligente de uma consciência estranha (quer interior, quer exterior), como ainda transmitir a essa última as suas próprias impressões, sem o auxílio dos sentidos corpóreos (transmissão de pensamentos); ainda mais, somos coagidos a admitir que essa consciência interior é dotada da faculdade de perceber as coisas presentes e passadas, no mundo físico como no mundo intelectual, e que esse dom de percepção não é limitado pelo tempo nem pelo espaço, e não depende de qualquer das fontes conhecidas de informações (clarividência). Eu já tinha formulado essas mesmas conclusões em minha crítica ao livro do Sr. d’Assier, publicada em 1884, no jornal Rebus, por conseguinte antes da publicação da obra do Sr. Hartmann sobre o Espiritismo. Em resumo, o estudo dos fenômenos mediúnicos nos força a aceitar as duas verdades seguintes, fazendo abstração de qualquer hipótese espírita:

1ª) Existe no homem uma consciência interior, na aparência independente da consciência exterior, e que é dotada de uma vontade e de uma inteligência que lhe são próprias, assim como de uma faculdade de percepção extraordinária; essa consciência interior não é conhecida da consciência exterior nem influenciada por ela; não é uma simples manifestação desta última, pois que essas duas consciências não agem sempre simultaneamente (segundo o Sr. Hartmann, é uma função das partes médias do cérebro; segundo a opinião de outras pessoas, é uma individualidade, um ser transcendente; deixaremos de lado essas definições; basta-nos dizer que a atividade psíquica do homem apresenta-se como dupla: atividade consciente e atividade inconsciente – exterior e interior – e que as faculdades desta última excedem muito às da primeira).

2ª) O organismo humano pode agir a distância, produzindo um efeito não somente intelectual ou físico, como ainda plástico, dependente, segundo todas as aparências, de uma função especial da consciência interior. Essa atividade extracorpórea é independente, conforme parece, da consciência exterior, pois essa última não tem conhecimento de tal atividade, não a dirige.

Quanto à hipótese de uma ação extracorpórea intelectual da consciência exterior, ela pode igualmente achar sua justificação nos fenômenos mediúnicos – incidentemente, diremos, pois que, desde muito tempo, ela se apóia em fatos que não os do Espiritismo: nas experiências de sonambulismo e nos fenômenos mais recentemente estudados da telepatia.

Já é um progresso muito apreciável e o devemos ao Espiritismo. O Sr. Hartmann acredita poder e dever admitir esses dois fatos, na convicção de que não deixa o terreno científico e de que permanece fiel a seus próprios princípios metodológicos. Conseguintemente, a própria Ciência, segundo tais princípios, deverá um dia reconhecer e proclamar essas grandes verdades! E a Ciência prossegue já nesse caminho, pois desde agora tende a reabilitar grande número de fatos proclamados, há cem anos, pelos magnetizadores; ocupa-se, já em atraso, do sonambulismo, da dupla consciência, da ação extracorpórea ou supra-sensorial do pensamento, etc. Ainda há bem poucos anos, tudo isso era apenas, aos olhos da Ciência, uma vergonhosa heresia. Agora chega a vez da clarividência, e ela bate já às portas do santuário...

Para maior brevidade, proponho designar pela palavra animismo todos os fenômenos intelectuais e físicos que deixam supor uma atividade extracorpórea ou a distância do organismo humano, e mais especialmente todos os fenômenos mediúnicos que podem ser explicados por uma ação que o homem vivo exerce além dos limites do corpo.37

Quanto ao que diz respeito à palavra espiritismo, ela será aplicada somente aos fenômenos que, após exame, não podem ser explicados por nenhuma das teorias precedentes e oferecem bases sérias para a admissão da hipótese de uma comunicação com os mortos. Se as asserções contidas nessa hipótese acham sua justificação, então o termo animismo será aplicado a uma categoria especial de fenômenos, produzidos pelo princípio anímico (considerado como ser independente, razoável e organizador) enquanto está ligado ao corpo; e neste caso a palavra espiritismo compreenderá todos os fenômenos que podem ser considerados como manifestação desse mesmo princípio, porém desprendido do corpo. Por mediunismo entenderemos todos os fenômenos compreendidos no animismo e no espiritismo, independentemente de uma ou de outra dessas hipóteses.

Nossa tese estabelece-se, pois, da maneira seguinte:

Há fundamento para recorrer à hipótese espírita com o fim de explicar os fenômenos mediúnicos?

Não poderão encontrar-se todos os elementos necessários para esta explicação na atividade inconsciente – intra e extracorpórea – do homem vivo?

Antes de responder a essa questão, cumpre-nos examinar com cuidado particular os efeitos da ação extracorpórea do homem vivo, pois que eles representam papel muito importante na questão que nos interessa. Este assunto é tão novo para as pessoas que não se ocuparam com questões espíritas, e foi tão desprezado pelos próprios espíritas, que eu julgo útil dar dele um resumo sucinto, classificando os fatos que a ele se referem em muitos grupos, e aí compreendendo mesmo fatos colhidos fora do domínio próprio do Espiritismo. É indispensável podermos orientar-nos sem dificuldade nessa ordem de fenômenos se quisermos adquirir uma idéia clara do assunto e chegar às conclusões que se impõem logicamente como resposta à pergunta que acabamos de estabelecer.

A divisão seguinte dos fenômenos do animismo, em quatro categorias, parece-me suficiente para o objetivo que me proponho. Estes quatro grupos são:

a) ação extracorpórea do homem vivo, comportando efeitos psíquicos (fenômenos da telepatia – impressões transmitidas a distância);

b) ação extracorpórea do homem vivo, comportando efeitos físicos (fenômenos telecinéticos – transmissão de movimento a distância);

c) ação extracorpórea do homem vivo, sob forma de aparecimento de sua imagem (fenômenos telefânicos – aparecimento de duplos);

d) ação extracorpórea do homem vivo, manifestando-se sob forma de aparecimento de sua imagem com certos atributos de corporeidade (fenômenos teleplásticos – formação de corpos materializados).

Sendo o assunto que abordamos muito vasto, limitar-me-ei a citar alguns exemplos referentes a cada um desses quatro grupos, e a dar algumas indicações quanto às fontes, sem deter-me nas particularidades, com receio de dar dimensões exageradas a esta obra.




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