Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Resumo teórico das teorias antiespiríticas


Em relação às teorias, a obra do Sr. Hartmann nada apresenta de novo. A força nêurica, a transmissão do pensamento, o sonambulismo, tudo isso já tinha sido posto em foco, uma explicação natural, desde o começo, para dar dos fenômenos espíritas.

Mais tarde, quando se teve que contar com os fenômenos de materialização, recorreu-se ao argumento das alucinações.

O mérito capital do trabalho do Sr. Hartmann consiste no desenvolvimento sistemático desses princípios e na classificação metódica de todos os fatos que se referem a essa questão. Acredito, entretanto, que um olhar rápido sobre os trabalhos daqueles que precederam o Sr. Hartmann não seria sem interesse, nem para os leitores, nem para o próprio Sr. Hartmann.

Certamente seria bem difícil e inútil entrar em particularidades minuciosas. Sobre esses trabalhos só darei um breve resumo das principais obras que tratam da questão que nos interessa.

Procedendo por ordem cronológica, é preciso citar em primeiro lugar: The Daimonion, or the Spiritual Medium, its Nature, illustrated by the History of its Uniform Mysterious Manifestations when unduly excited. By Traverse Oldfield (Boston, 1852, 157 páginas, em 8º pequeno) (“O demônio, ou o médium espiritual, e a sua natureza, ilustrado com a história de suas manifestações uniformemente misteriosas quando ele é indevidamente excitado”). O verdadeiro autor é G. W. Samson. O Spiritual Medium, de que se trata, é o princípio nervoso.

A melhor e mais sistemática obra elaborada nessa ordem de idéias é certamente esta: Philosophy of Mysterious Agents, Human and Mundane, or the Dynamic Laws and Relations of Man, embracing the Natural Philosophy of Phenomena styled: Spiritual Manifestations (“Filosofia dos agentes misteriosos, humanos e terrestres, ou as leis e as relações dinâmicas do homem, compreendendo a explicação natural dos fenômenos designados como Manifestações dos Espíritos”), por E. C. Rogers (Boston, 1853, 336 páginas, em 8º pequeno).



Ao aparecimento desta obra, houve uma discussão interessante nos jornais americanos The Tribune e The Spiritual Telegraph, entre o Dr. Richmond e o Dr. Brittan a respeito das manifestações espirituais. O primeiro sustentava que era possível explicar esses fenômenos sem admitir, para isso, a intervenção dos Espíritos. O segundo mantinha a opinião contrária. As quarenta e oito cartas publicadas pelas duas partes foram editadas em um volume, sob este título: A Discussion of the Facts and Philosophy of Ancient and Modern Spiritualism. By S. B. Brittan and B. V. Richmond (Nova Iorque, 1853, 377 páginas, em 8º grande).

Modern Mysteries Explained and Exposed (“Mistérios modernos explicados e interpretados”), pelo Rev. A. Mahan, 1º presidente da Universidade de Cleveland (Boston, 1855, 466 páginas, em 8º). Esta obra tem por fim desenvolver e defender as duas teses seguintes: 1º- “A causa imediata dessas manifestações é idêntica não somente à força ódica,7 mas ainda à força que engendra os fenômenos do mesmerismo e da clarividência” (pág. 106); 2º- “Possuímos provas positivas e concludentes de que essas manifestações provêm exclusivamente de causas naturais e não da intervenção de Espíritos destacados do corpo” (pág. 152).

Mary Jane, or Spiritualism Chemically Explained; also Essays by and Ideas (perhaps erroneous) of a Child at School (“Mary Jane, ou o Espiritualismo explicado quimicamente; assim como ensaios e idéias – talvez errôneas – de uma colegial”) (Londres, 1863, 379 páginas, em 8º grande, com figuras). É um dos livros mais curiosos sobre essa matéria. O autor, o Sr. Samuel Guppy, materialista consumado, se tinha proposto publicar um resumo de ensaios sobre diversos assuntos, tais como: luz, instinto e inteligência, elementos do homem, geração espontânea, princípios da inteligência humana, a vida, a Astronomia, a criação, o infinito, etc. Ora, o seu livro já estava impresso até à página 300, quando em sua própria casa se produziram subitamente fenômenos mediúnicos dos mais extraordinários: deslocamento espontâneo de objetos, escrita automática, respostas a perguntas mentais, toque de instrumentos de música, escrita direta, execução direta (sem o contato de uma pessoa) de desenhos e pinturas, etc. O médium era a sua própria mulher.

On force its Mental and Moral Correlates, and on that which is supposed to underlie all Phenomena; with Speculations on Spiritualism and other Abnormal Conditions of Mind (“Da força e suas correlações mentais e morais, e do que é suposto ser a base de todos os fenômenos; acrescentando aí especulações sobre o Espiritualismo e outras condições anormais do Espírito”). Por Charles Bray, autor do The Philosophy of Necessity, The Education of Feelings, etc. (Londres, 1867, 164 páginas em 8º).

Exalted States of the Nervous System in explanation of the Mysteries of Modern Spiritualism, Dreams, Trance, Somnambulism, vital Photography, etc. (“Estados de superatividade do sistema nervoso no ponto de vista da explicação dos mistérios do Espiritualismo moderno, dos sonhos, do sonambulismo, da fotografia vital”, etc.) Por Robert H. Collier, M. D. (Londres, 1873, 140 páginas em 8º). Este livro não apresenta um trabalho sistemático; contém antes indicações, alusões a diversos assuntos interessando a essa questão.

Spiritualism and allied Causes and Conditions of Nervous Derangements, by William A. Hammond, M. D. Professor of Diseases of the Mind and Nervous System in the Medical Department of the University of the City of New York (“O Espiritualismo e as causas e condições congêneres das perturbações nervosas”, pelo Dr. William A. Hammond, professor de moléstias mentais e de moléstias nervosas do Departamento de Medicina, na Universidade da cidade de Nova Iorque), (Londres, 1876). Um grande volume de 366 páginas em 8º, no qual o autor não quer falar senão dos fatos que podem explicar-se de uma maneira natural.

Passemos às obras escritas em língua francesa. Não são numerosas. A primeira pertencente a essa categoria é a do Conde Agenor de Gasparin, publicada em Paris, em 1854, sob o título Das mesas girantes, do sobrenatural em geral e dos Espíritos (2 volumes em 8º, 500 páginas), na qual o autor dá amplas informações sobre longa série de experiências físicas, tentadas por ele e por alguns amigos particulares, nas quais essa força se achava consideravelmente desenvolvida. Esses ensaios muito numerosos foram realizados em condições de exame dos mais rigorosos. O fato do movimento de corpos pesados sem contato mecânico foi reconhecido, provado e demonstrado. Sérias experiências foram feitas para medir a força, quer do acréscimo, quer de diminuição de peso, que se comunicava assim às substâncias postas à prova, e o Conde Gasparin adotou um meio engenhoso, que lhe permitiu obter uma avaliação numérica aproximativa do poder da força psíquica que existia em cada indivíduo. O autor chegava a essa conclusão final: que podiam explicar-se todos aqueles fenômenos pela ação de causas naturais, e que não havia necessidade de supor milagres nem a intervenção de influências espirituais ou diabólicas.

Ele considerava como um fato plenamente comprovado pelas suas experiências que a vontade, em certas condições do organismo, pode agir a distância sobre a matéria inerte, e a maior parte do seu livro é consagrada a estabelecer as leis e as condições nas quais esta ação se manifesta.

Em 1855, o Sr. Thury, professor na Academia de Genebra, publicou uma obra sob o título: As Mesas Falantes (Genebra, Livraria Alemã de J. Kessemann, 1855), na qual passa em revista as experiências do Conde de Gasparin; ele entra em longas considerações sobre as pesquisas que fez ao mesmo tempo. Também neste caso os ensaios foram feitos com o auxílio de amigos íntimos e conduzidos com todo o cuidado que um homem de ciência é capaz de empregar nessa matéria. O espaço não me permite citar os importantes e numerosos resultados obtidos pelo Sr. Thury, mas pelos títulos seguintes de alguns dos capítulos, ver-se-á que a pesquisa não foi feita superficialmente: “Fatos que estabelecem a realidade dos novos fenômenos; – Ação mecânica tornada impossível; – Movimentos efetuados sem contato; – Suas causas; – Condições requeridas para a produção e ação da força; – Condições da ação a respeito dos operadores; – A vontade; – É necessário que haja vários operadores? – Necessidades preliminares; – Condição mental dos operadores; – Condições meteorológicas; – Condições relativas aos instrumentos empregados; – Condições relativas ao modo de ação dos operadores sobre os instrumentos; – Ação das substâncias interpostas; – Produção e transmissão da força; – Exame das causas que a produzem; – Fraude; – Ação muscular inconsciente produzida por um estado nervoso particular; – Eletricidade; – nervo-magnetismo; – Teoria do Sr. Conde de Gasparin, de um fluido especial; – Questão geral a respeito da ação do Espírito sobre a matéria; – Primeira proposição: Nas condições ordinárias dos corpos, a vontade só age diretamente na esfera do organismo; – Segunda proposição: No próprio organismo há uma série de atos mediatos; – Terceira proposição: A substância sobre a qual o Espírito age diretamente, o psicodo, não é suscetível senão de modificações muito simples sob a influência da inteligência; – Explicações baseadas sobre a intervenção dos Espíritos”.

O Sr. Thury refuta todas essas explicações e acredita que esses efeitos são devidos a uma substância particular, a um fluido ou a um agente, o qual – de uma maneira análoga à do éter dos sábios – transmite a luz, penetra toda a matéria nervosa, orgânica ou inorgânica, e que ele chama psicodo. Entra na plena discussão das propriedades desse estado ou forma de matéria e propõe o nome de força ectênica (extensão) ao poder que se exerce quando o Espírito age, a distância, por meio da influência do psicodo.8

Estudos experimentais sobre certos fenômenos nervosos, e solução racional do problema espírita, por Chevillard, professor na Escola Nacional de Belas Artes (Paris, 1872, 90 páginas, em 8º). O fundo de sua teoria, que se refere somente às pancadas (raps) e ao movimento dos objetos, resume-se nestas linhas:

“As vibrações da mesa, desde que as suas partes se puseram em equilíbrio de temperatura, não são mais do que as vibrações fluídicas emitidas pela função mórbida que constitui o estado nervoso do médium. No estado normal, cada um emite fluido nervoso, porém não de maneira a fazer vibrar sensivelmente a superfície de um corpo sólido que se toca. O médium é sem dúvida tão auxiliado pela emissão natural dos assistentes crédulos, sempre numerosos, pois que toda emissão fluídica, mesmo muito fraca, para a mesa, deve repartir-se nela imediatamente, por causa da temperatura já conveniente. A mesa fica verdadeiramente magnetizada pela emissão do médium, e a palavra magnetizada não tem outro sentido além de fazer entender que ela é coberta ou impregnada de fluido nervoso vibrante, isto é, vital do médium. A mesa fica então como um harmônio que espera a martelada do pensamento daquele que a impregnou. O médium quer uma pancada em um momento em que ela se dá olhando atentamente o lápis correr sobre o alfabeto, e esse pensamento, fixando-se subitamente, engendra um choque cerebral nervoso que repercute instantaneamente, por intermédio dos nervos, na superfície tubular vibrante. O choque ressoa integrando as vibrações da mesa à maneira de um forte brilho ou faísca obscura, cujo ruído é a conseqüência dessa condensação instantânea feita no ar ambiente.” (páginas 25 e 26).

“Não há em todo o ato tiptológico 9 ou nevrostático mais do que condensações ou integrações de vibrações em faíscas obscuras.” (pág. 38).

Quanto aos movimentos dos objetos, o autor emite a teoria seguinte:

“Os movimentos, chamados espíritas, de um objeto inanimado são um efeito real, porém nevro-dinâmico, dos pretendidos médiuns, que transformam o objeto em órgão exterior momentâneo, sem terem disso consciência.” (página 54).

Mais adiante, o Sr. Chevillard desenvolve mais esta mesma proposição:

“A idéia da ação voluntária mecânica transmite-se pelo fluido nervoso do cérebro ao objeto inanimado suficientemente aquecido; depois do que, este executa rapidamente a ação na qualidade de órgão automático ligado pelo fluido ao ser voluntário, quer a ligação seja por contato ou a pequena distância; porém o ser não tem a percepção do seu ato, visto como não o executa por um esforço muscular.” (pág. 62).

Em suma:


“Os fenômenos chamados espíritas não são mais do que manifestações inconscientes da ação magneto-dinâmica do fluido nervoso.” (pág. 86).

Ultimamente apareceu uma obra muito interessante, tendo por título: Ensaio sobre a Humanidade póstuma e o Espiritismo, por um positivista – Adolpho d’Assier (Paris, 1883, 305 páginas em 12).

A obra citada apresenta esse interesse: o autor foi coagido, por sua própria experiência, a reconhecer a realidade objetiva de certos fenômenos, habitualmente designados como “sobrenaturais” e dos quais o Sr. Hartmann não faz menção no seu livro sobre O Espiritismo; entretanto, esses fenômenos têm uma relação imediata com o Espiritismo; eles impõem-se além disso, se se quer estabelecer uma hipótese geral.

Em seu prefácio, o autor expõe a evolução que se operou no seu espírito e dá uma idéia geral do seu trabalho. Daremos dela alguns extratos:

“O título deste ensaio parecerá talvez a certas pessoas em desacordo com as opiniões filosóficas que professei em toda a minha vida e com a grande escola para a qual o estudo das ciências me tinha encaminhado. Fiquem essas pessoas tranqüilas: a contradição é apenas aparente. As idéias que exponho afastam-se tanto das fantasias do misticismo quanto das alucinações dos espíritas. Não saindo do domínio dos fatos, não invocando causa sobrenatural para interpretá-los, acreditei poder dar ao meu livro a chancela do Positivismo. Eis, finalmente, como fui conduzido a pesquisas tão diferentes dos meus trabalhos ordinários.”

O autor fala em seguida da sorte que tiveram os aerólitos, durante tanto tempo negados pela Ciência, e da resposta que Lavoisier deu certo dia em nome da Academia das Ciências: “Não há pedras no céu; por conseguinte elas não poderiam cair sobre a Terra”; também faz menção da narração dos sapos que caem com as fortes chuvas, narração que os sábios acolheram dizendo que “não havia sapos nas nuvens, por conseguinte eles não podiam cair sobre a Terra.”

Depois disso o Sr. d’Assier continua:

“Era permitido supor que tais lições não ficassem perdidas e que as pessoas que se presumissem sérias se mostrassem de futuro mais circunspectas nas suas negações sistemáticas. Não sucedeu assim. As noções falsas que colhemos em nossos preconceitos ou em uma educação científica incompleta imprimem ao nosso cérebro uma sorte de equação pessoal da qual não nos podemos libertar. Durante trinta anos, ri-me da resposta de Lavoisier sem me aperceber que invocava o mesmo argumento na explicação de certos fenômenos não menos extraordinários do que as chuvas de pedras ou de sapos. Quero falar dos ruídos estranhos que se ouvem às vezes em certas casas e que não se podem referir a nenhuma causa física, pelo menos no sentido vulgar que damos a essa palavra. Uma circunstância digna de nota vem duplicar a singularidade do fenômeno. É que esses ruídos não apareciam de ordinário senão depois da morte de uma pessoa da habitação. Sendo criança, vi em agitação todos os habitantes de um cantão. O abade Peyton, cura da paróquia de Sentenac (Ariège), acabava de morrer. Nos dias seguintes, produziram-se no presbitério ruídos insólitos e tão persistentes que o serventuário que lhe tinha sucedido esteve prestes a abandonar o seu posto.

As pessoas da localidade, tão ignorantes quão supersticiosas, não achavam obstáculo para explicar esse prodígio. Declararam que a alma do morto estava em penitência porque ele não tinha tido o tempo de dizer antes da morte todas as missas cuja paga tinha recebido. Quanto a mim, não estava de maneira alguma convencido. Educado no dogma cristão, eu dizia a mim mesmo que o abade Peyton tinha definitivamente deixado o planeta por uma das três residências póstumas: o céu, o inferno, o purgatório, e eu supunha que as portas das duas penitenciárias eram aferrolhadas com bastante solidez para que ele tivesse a fantasia de retroceder. Mais tarde, tendo entrado em outra corrente de idéias, tanto pelo estudo comparado das religiões, quanto pelo das ciências, tornei-me ainda mais incrédulo, e tinha compaixão daqueles que pretendiam ter assistido a iguais espetáculos.

Os Espíritos, eu não cessava de repetir, só existem na imaginação dos médiuns e dos espíritas; não se poderiam, pois, encontrar em outra parte. Em 1868, achando-me no Berry, encolerizei-me contra uma pobre mulher que persistia em afirmar que, em um albergue que ela habitara em uma certa época, cada noite mão invisível lhe puxava os lençóis do leito, desde que apagava a luz. Tratei- a de imbecil, de parva, de idiota.

Logo depois sobreveio o ano terrível. De minha parte, de lá saí com a perda da vista e, coisa ainda mais grave, com os primeiros sintomas de uma paralisia geral. Tendo sido testemunha das curas maravilhosas que as águas de Aulus produzem, no tratamento de certas moléstias, principalmente quando se trata de despertar a energia vital, dirigi-me para ali pela primavera de 1871, e pude deter o progresso do mal. A pureza do ar das montanhas, tanto quanto a ação vivificante das águas, me decidiram a fixar ali a minha residência. Pude então estudar de perto esses ruídos noturnos que só conhecia por ouvir dizer.

Desde a morte do antigo proprietário das fontes o estabelecimento termal era quase todas as noites teatro de cenas desse gênero. Os guardas não ousavam mais deitar-se ali a sós. Às vezes as banheiras ressoavam no meio da noite como se as tivessem percutido com um martelo. Abriam-se as câmaras donde partia o ruído, ele cessava imediatamente, mas recomeçava em uma sala vizinha. Quando as banheiras ficavam em repouso, assistia-se a outras manifestações não menos singulares. Eram pancadas sobre os compartimentos, os passos de uma pessoa que passeava no quarto do guarda, objetos atirados de encontro ao soalho, etc. O meu primeiro movimento, quando me contaram essa história, foi, como sempre, a incredulidade. Entretanto, achando-me em contato diário com as pessoas que tinham sido testemunhas dessas cenas noturnas, a conversação recaía freqüentemente sobre o mesmo assunto. Certas particularidades acabaram por despertar a minha atenção. Interroguei o diretor e os guardas do estabelecimento, as diversas pessoas que tinham passado a noite nas termas, todas aquelas que, em uma palavra, por um motivo qualquer me podiam fornecer informações acerca desses misteriosos sucessos. As suas respostas foram todas idênticas e as particularidades que me forneceram eram tão circunstanciadas que eu me vi encerrado nesse dilema: acreditá-los ou supor que eles estavam loucos. Ora, eu não podia tachar de loucura cerca de vinte camponeses sérios que viviam pacificamente a meu lado, pelo único motivo de representarem o que tinham visto ou ouvido, sendo, demais, unânimes os seus depoimentos.

Esse resultado inesperado me restituiu à memória circunstâncias do mesmo gênero que me tinham relatado em outras épocas. Conhecendo as localidades onde esses fenômenos se tinham dado, assim como as pessoas que tinham sido testemunhas deles, procedi a novas pesquisas e, desta vez ainda, fui obrigado a curvar-me à evidência. Compreendi então que tinha sido tão ridículo quanto aqueles dos quais eu tinha zombado por tanto tempo, negando fatos que eu declarava impossíveis, porque não se tinham produzido sob os meus olhos e porque eu não podia explicá-los. Essa dinâmica póstuma que, em certos pontos, parece a antítese da dinâmica ordinária, me deu o que refletir e eu comecei a entrever que em certos casos, aliás muito raros, a ação da personalidade humana pode continuar ainda por algum tempo depois da cessação dos fenômenos da vida. As provas que eu possuía me pareciam suficientes para convencer os espíritos não prevenidos. Entretanto, não me contentei com isso, e pedi notícias delas aos escritores mais conceituados de diversos países. Fiz então uma escolha dentre as que apresentavam todos os caracteres de uma autenticidade indiscutível, baseando-me de preferência nos fatos que tinham sido observados por grande número de testemunhas.

Cumpria interpretar esses fatos, quero dizer, desembaraçá-los do maravilhoso que encobre a sua verdadeira fisionomia, a fim de referi-los, como todos os outros fenômenos da Natureza, às leis do tempo e do espaço. Tal é o principal objetivo deste livro. Perante tarefa tão árdua, eu não poderia ter a pretensão de dar a última palavra do enigma. Contentei-me em estabelecer o problema claramente e em indicar alguns dos coeficientes que devem entrar para pô-lo em equação. Os meus continuadores encontrarão a solução definitiva no caminho que eu lhes tracei... A idéia filosófica do livro pode, pois, se resumir assim: fazer entrar no quadro das leis do tempo e do espaço os fenômenos de ordem póstuma negados até o presente pela Ciência, por não poder explicá-los, e emancipar os homens da nossa época das enervadoras alucinações do Espiritismo.” (Páginas 5, 6, 7, 8, 9 e 11).

No primeiro capítulo o autor colhe de primeira fonte uma série de fatos que confirmam a existência póstuma da personalidade humana: ruídos insólitos, ressonância de passos, roçar de vestidos, deslocamento de objetos, toques, aparecimento de mãos e de fantasmas, etc. No começo do segundo capítulo, o autor diz:

“Demonstrada a existência da personalidade póstuma, por milhares de fatos observados em todos os séculos e entre todos os povos, cumpre procurar conhecer a sua natureza e a sua origem. Ela procede evidentemente da personalidade viva, da qual se apresenta como a continuação, com a sua forma, com os seus hábitos, com os seus preconceitos, etc.; examinemos pois se se encontra no homem um princípio que, destacando-se do corpo quando as forças vitais abandonam este último, continua ainda durante algum tempo a ação da individualidade humana. Numerosos fatos demonstram que esse princípio existe e que se manifesta algumas vezes durante a vida, oferecendo ao mesmo tempo os caracteres da personalidade viva e os da personalidade póstuma. Vou referir alguns dentre eles, colhidos nas melhores fontes, e que parecem concludentes.” (pág. 47).

Depois de ter citado notáveis fatos de aparição de pessoas vivas ou de desdobramento, o autor termina assim esse capítulo:

“Inumeráveis fatos observados desde a antigüidade até os nossos dias demonstram em nosso ser a existência de uma segunda personalidade, o homem interno. A análise dessas diversas manifestações nos permitiu penetrar em sua natureza. No exterior, é a imagem exata da pessoa da qual é o complemento. no interior reproduz a cópia de todos os órgãos que constituem a estrutura do corpo humano. Vemo-lo, com efeito, mover-se, falar, tomar alimentos, preencher, em outras palavras, todas as grandes funções da vida animal. A tenuidade extrema das suas moléculas constitutivas, que representam o último termo da matéria orgânica, lhe permite passar através das paredes e das divisões dos compartimentos. Daí o nome de fantasma pelo qual é geralmente designado. Entretanto, como ele é ligado ao corpo donde emana por uma rede muscular invisível, pode, à vontade, atrair a si, por uma espécie de aspiração, a maior parte das forças vivas que animam este último. Vê-se então, por uma inversão singular, a vida se retirar do corpo, que não apresenta mais do que uma rigidez cadavérica a dirigir-se toda para o fantasma, que adquire consistência, a ponto de lutar algumas vezes com as pessoas diante das quais ele se manifesta.

Só excepcionalmente ele se mostra durante a vida dos indivíduos. Mas desde que a morte rompeu os laços que o ligam ao nosso organismo, ele se separa de maneira definitiva do corpo humano e constitui o fantasma póstumo.” (págs. 81 e 82).

“Mas a sua existência é de curta duração. O seu tecido se desagrega facilmente sob a ação das forças físicas, químicas e atmosféricas que o assaltam sem tréguas, e entra molécula por molécula no meio planetário.” (pág. 298).

Eis o sumário do Capítulo IV: “Caráter do ser póstumo; – Sua constituição física; – Seu modo de locomoção; – Sua aversão pela luz; – Seu modo de trajar; – Suas manifestações; – Seu reservatório de força viva; – Sua balística; – Todo homem possui a sua imagem fluídica; – A vidente de Prevorst”.

Capítulo V: “Fluido universal; – Fluido nervoso; – Analogia e dessemelhança desses dois fluidos; – Animais elétricos; – Pessoas elétricas; – Plantas elétricas; – Ação do fluido nervoso sobre a personalidade interna”.

“O fantasma humano não se revela sempre de uma maneira tão clara como nos exemplos que citei. Há também, às vezes, manifestações obscuras, de natureza muito variada, que o tornam uma espécie de Proteu intangível. Reproduzindo o mesmerismo manifestações análogas às do sonambulismo, no médium, no extático, etc., é muitas vezes difícil dizer se a causa primária desses fenômenos deve ser referida à personalidade interna ou ao fluido nervoso, ou antes ainda à ação combinada desses dois agentes. Em grande número de casos, sua ligação parece tão íntima que somos levados a perguntar se não é do segundo que o primeiro tira sua origem e as suas energias.” (pág. 117).

Capítulo VI: “O éter mesmérico e a personalidade que ele engendra; – O sonambulismo; – O soníloquo; – O vidente”.

Eis as conclusões do autor:

“1º- O sonambulismo, espontâneo em alguns indivíduos, existe no estado latente em outros. Nesses últimos, não o entrevemos senão imperfeitamente, mas ele pode atingir toda a sua amplitude sob a influência de uma forte tensão de espírito, de uma comoção moral ou de outras causas fisiológicas. Essas manifestações freqüentes, porém incompletas, na infância acentuam-se melhor durante a juventude, depois diminuem com a idade e parece extinguirem-se no velho.

2º- As coisas extraordinárias que o sonâmbulo realiza, principalmente no domínio intelectual, acusam nele a existência de uma força ativa e inteligente, isto é, de uma personalidade interna. Essa personalidade parece completamente diferente da personalidade ordinária e ter por sede os gânglios nervosos da região epigástrica, assim como se viu na sonâmbula citada por Burdach, e como o encontraremos de maneira mais acentuada e mais precisa em outras manifestações do mesmerismo. Fica assim explicado porque o sonâmbulo não reconhece a voz das pessoas que lhe são familiares e não conserva recordação alguma do que se passou durante o seu sono. Explica-se da mesma maneira esse fato, que nunca se observou nele ato algum imoral, como se o seu guia misterioso estivesse livre dos laços da animalidade.

3º- A personalidade que aparece no sonambulismo revela uma inteligência igual, às vezes mesmo superior à da personalidade ordinária. Mas, como esta última, ela também tem a sua equação pessoal, as suas obscuridades, os seus desfalecimentos. Para contentar-me com um exemplo, lembrarei esse sonâmbulo, ditado por Burdach, que, depois de ter calçado as botas, escanchava-se sobre uma janela e dava esporadas contra a parede para fazer caminhar um corcel imaginário.

4º- O sonambulismo é devido a um desprendimento anormal do fluido nervoso; várias causas podem produzir esse resultado: terror, grande tensão de espírito, exuberância da juventude, etc., em outras palavras, tudo o que tende a romper o equilíbrio das funções fisiológicas que tem por sede o sistema nervoso. Quando o fluido é pouco abundante, os efeitos do sonambulismo só se dão de maneira obscura e parecem confundir-se com os do sonho. Mas desde que ele se desprenda em quantidade conveniente, vê-se aparecer imediatamente a personalidade interna, e o sonâmbulo oferece então os caracteres de um homem acordado, porque tem em si um guia que possui todas s energias da inteligência e do movimento.” (págs. 149-151).

Eis-nos finalmente no capítulo VII, que trata especialmente do assunto que nos interessa; o seu sumário é: “O éter mesmérico e a personalidade que ele engendra (continuação); – A mesa girante; – A mesa falante; – O médium”.

Eis como o autor liga os fenômenos do Espiritismo à sua teoria do ser fluídico:

“O agente misterioso que punha em desordem as mesas falantes era evidentemente o mesmo que animava o lápis móvel do médium, quero dizer, a personalidade mesmérica dos assistentes ou do próprio médium. Se diferia em seus modos de ação, isso dependia unicamente da natureza dos intermediários pelos quais ele se manifestava. Não é com efeito difícil de ver que a mesa não é mais do que um instrumento passivo, uma espécie de silabário acústico posto em ação pelo fluido daquele que interroga. Em outros termos, é a personalidade mesmérica deste último que faz o ofício de apontador no diálogo da mesa.” (pág. 183).

“Comparou-se muitas vezes o médium a um sonâmbulo acordado. Essa definição nos parece perfeitamente justa. São os pólos extremos da cadeia mesmérica, dois modos de ação diferentes de uma mesma causa que passam de um a outro por graus insensíveis. Dir-se-ia uma transformação de força análoga à que se observa nos fluidos imponderáveis, calor, luz, eletricidade, magnetismo, que não são, como se sabe, senão manifestações diversas de um mesmo agente, o éter. Viram-se mulheres caírem em um sono magnético fazendo a cadeia em torno de uma mesa; fenômenos elétricos de atração e de repulsão manifestarem-se em pessoas que se entregavam à prática do Espiritismo; médiuns tornarem-se sonâmbulos e vice-versa; às vezes esses dois caracteres se apresentam ao mesmo tempo, de sorte que é difícil dizer se se trata de um indivíduo acordado ou adormecido. Nada, aliás, à exceção da maneira de proceder, diferencia o soníloquo do médium; um fala, o outro escreve, mas ambos confessam que estão sob a influência de um inspirador misterioso que dita as suas respostas. Interrogado acerca da sua origem e da sua personalidade, esse apontador invisível se dá ora por um espírito sem nacionalidade, ora pela alma de um morto.

Neste último caso, ele se diz voluntariamente o amigo ou o próximo parente do médium, e vem auxiliá-lo com seus conselhos. Aqui, realiza-se um dos mais surpreendentes efeitos do mesmerismo. A personagem misteriosa, convidada a traçar algumas linhas por intermédio do lápis móvel ou da mão do médium, reproduz a escrita, as locuções, e até as faltas de ortografia que eram familiares ao amigo ou parente de quem se diz representante póstumo. Tal argumento parece à primeira vista irrefutável, e é sobre fatos desse gênero que se apoiaram para fundar a teoria do Espiritismo.” (págs. 185-187).

“A evocação dos fantasmas pelo médium é, pois, uma miragem, mesmo quando revestem uma forma óptica, como sucede para certos médiuns privilegiados. Estes não deixam de ser o joguete de uma alucinação, análoga à dos sonâmbulos que vêem aparecer-lhes todos os fantasmas que apraz ao magnetizador lhes mostrar.” (pág. 191).

“Como se acaba de ver, no médium ou no sonâmbulo, é o mesmo princípio que age, o fluido vital (fluido nervoso, éter mesmérico). Ele obtém o seu summum de energia no primeiro, pois é dele mesmo, quero dizer, do centro de produção, que este tira a força viva que engendra os efeitos mesméricos, enquanto que o segundo, tirando-o de uma fonte estranha, recebe-a limitada e minorada em sua ação. Por isso o Espiritismo reproduz todos os prodígios do sono magnético, aumentando-os ainda. Como o sonâmbulo, e melhor que o sonâmbulo, o médium, mesmo iletrado, torna-se poliglota, compõe poesias, escreve discursos segundo as regras da arte oratória; adivinha os pensamentos daqueles que estão perto dele, possui a faculdade da vista a distância, lê no passado e chega às vezes à presciência do futuro.” (pág. 193).

Quando aos autores alemães que trataram dessa questão, é inútil que eu deles faça aqui menção.



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