Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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C – Ação extracorpórea do homem vivo, traduzindo-se pela aparição de sua própria imagem (fenômenos telepáticos – aparições a distância)


Sob esta categoria vêm juntar-se numerosos fatos observados em todos os tempos e conhecidos sob o nome de aparições de duplos. A Ciência nunca os considerou de outra maneira a não ser como alucinações puramente subjetivas; mas graças aos trabalhos da sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, que erigiu para si um monumento eterno com a publicação de sua obra capital: The Phantasms of the Living (edição francesa abreviada, sob o título Alucinações Telepáticas, Paris, 1891, em 8º, Alcan), essa explicação superficial não é mais admissível.

Centenas de fatos novos recolhidos de primeira mão pela Sociedade e verificados por ela com todo o cuidado possível provam de maneira incontestável que existe uma relação íntima entre a aparição do duplo e a pessoa viva que ele representa; desde então, se é uma alucinação, é, segundo a expressão dos autores da obra, uma alucinação verídica, isto é, o efeito de uma ação psíquica, emanante de uma pessoa que está longe da que vê a aparição. É, pois, perfeitamente inútil deter-me aqui para dar exemplos desse gênero de fenômenos, tanto mais quanto, na categoria seguinte, se encontrarão fatos que correspondem melhor ainda ao dito fim. Entretanto, devo acrescentar aqui algumas reflexões: agora que conhecemos os fenômenos da materialização, devemos admitir que a aparição do duplo pode não ser um fenômeno puramente subjetivo, mas que pode apresentar certa objetividade, possuir certo grau de materialidade, o que faria dele um gênero especial de duplos, uma espécie de transição entre os fatos classificados sob esta categoria e os classificados sob a categoria seguinte. Conhecemos alguns fatos que tendem a provar que esta suposição não é sem fundamento.

O fato mais precioso e mais instrutivo desse gênero é, certamente, o do desdobramento habitual de Emília Sagée, que foi observado durante meses por um colégio inteiro, e que se produzia ainda quando a própria Emília era visível para todos.

Somos devedores deste fato a Robert Dale Owen, que o recebera de primeira mão da Baronesa Júlia de Güldenstubbe, e deu dele, em seu Footfalls on the Boundary of Another World (Passos na Fronteira de Outro Mundo), uma breve narração que Perty mencionou em sua brochura Realidade das Forças Mágicas (pág. 367); todavia, mais tarde, informações mais circunstanciadas, fornecidas pela própria Baronesa Güldenstubbe foram publicadas em Light de 1883, página 366, e como o caso é extremamente notável e pouco conhecido, cito-o na íntegra.



Aparição do duplo da jovem Emília Sagée

“Em 1845 existia na Livônia (e ainda existe), cerca de 36 milhas inglesas de Riga e a 1 légua e meia da pequena cidade de Volmar, uma instituição para moças nobres, designada sob o nome de “Colégio de Neuwelcke”. O diretor naquela época era o Sr. Buch.

O número das colegiais, quase todas de famílias livonesas nobres, levava-se a quarenta e duas; entre elas se achava a segunda filha do Barão de Güldenstubbe, da idade de 13 anos.

No número das professoras havia uma francesa, a jovem Emília Sagée, nascida em Dijon. Tinha o tipo do Norte; era loura, de belíssima aparência, de olhos azuis claros, cabelos castanhos; era esbelta e de estatura pouco acima da mediana; tinha gênio amável, dócil e alegre, porém um pouco tímida e de temperamento nervoso, um pouco excitável. Sua saúde era ordinariamente boa e durante o tempo (um ano e meio) em que esteve em Neuwelck não teve mais do que uma ou duas indisposições passageiras. Era inteligente e de esmerada educação, e os diretores mostraram-se completamente satisfeitos com o seu ensino e com as suas aptidões durante todo o tempo de sua permanência. Ela estava com a idade de 32 anos.

Poucas semanas depois de sua entrada na casa, singulares boatos começaram a correr a seu respeito entre as alunas. Quando uma dizia tê-la visto em tal parte do estabelecimento, freqüentemente outra assegurava tê-la encontrado em outra parte, na mesma ocasião, dizendo: “Isso não; não é possível, pois acabo de passar por ela na escada”, ou antes, garantia tê-la visto em algum corredor afastado. Acreditou-se a princípio em algum equívoco; mas como o fato não cessava de reproduzir-se, as meninas começaram a julgá-lo muito estranho e finalmente falaram sobre ele às outras professoras. Os professores, postos ao corrente, declararam, por ignorância ou intencionalmente, que tudo isso não tinha senso algum e que não havia motivo para dar-lhe qualquer importância.

Mas as coisas não tardaram a complicar-se e tomaram um caráter que excluía toda a possibilidade de fantasia ou de erro. Certo dia em que Emília Sagée dava uma lição a treze dessas meninas, entre as quais a jovem Güldenstubbe e que, para melhor fazer compreender a sua demonstração, escrevia a passagem a explicar no quadro-negro, as alunas viram de repente, com grande terror, duas jovens Sagée, uma ao lado da outra! Elas se assemelhavam exatamente e faziam os mesmos gestos. Somente a pessoa verdadeira tinha um pedaço de giz na mão e escrevia efetivamente, ao passo que seu duplo não o tinha e contentava-se em imitar os movimentos que ela fazia para escrever.

Daí, grande sensação no estabelecimento, tanto mais porque as meninas, sem exceção, tinham visto a segunda forma e estavam de perfeito acordo na descrição que faziam do fenômeno.

Pouco depois, uma das alunas, a menina Antonieta de Wrangel obteve permissão de ir, com algumas colegas, a uma festa local da vizinhança. Estava ocupada em terminar sua toalete, e a jovem Sagée, com a bonomia e obsequiosidade habituais, tinha ido ajudá-la e abotoava seu vestido por trás. Ao voltar-se casualmente, a menina viu no espelho duas Emílias Sagée que se ocupavam consigo. Ficou tão aterrada com essa brusca aparição, que perdeu os sentidos.

Passaram-se meses e fenômenos semelhantes continuaram a produzir-se. Via-se de tempos em tempos, ao jantar, o duplo da professora de pé, por trás de sua cadeira, imitando seus movimentos, enquanto ela jantava, porém sem faca, garfo ou comida nas mãos. Alunas e criadas de servir à mesa testemunharam o fato da mesma maneira.

Entretanto, nem sempre sucedia que o duplo imitasse os movimentos da pessoa verdadeira. Às vezes, quando esta se levantava da cadeira, via-se seu duplo ficar sentado ali. Em certa ocasião, estando de cama por causa de um defluxo, a menina de quem se tratou, a menina de Wrangel, que lhe fazia uma leitura para distraí-la, viu-a empalidecer de repente e contorcer-se como se fosse perder os sentidos; em seguida, a menina, atemorizada, perguntou-lhe se se sentia pior. Ela respondeu que não, mas com voz muito fraca e desfalecida. A menina de Wrangel, voltando-se casualmente alguns instantes depois, divisou mui distintamente o duplo da doente passeando a passos largos no aposento. Desta vez a menina tinha tido bastante domínio sobre si mesma para conservar-se calma e não fazer a mínima observação à doente, mas pouco depois desceu a escada, muito pálida, e contou o fato de que tinha sido testemunha.

O caso mais notável, porém, dessa atividade, na aparência independente, das duas formas é certamente o seguinte:

Certo dia todas as alunas, em número de quarenta e duas, estavam reunidas em um mesmo aposento e ocupadas em trabalhos de bordado. Era um salão do andar térreo do edifício principal, com quatro grandes janelas, ou antes, quatro portas envidraçadas que se abriam diretamente para o patamar da escada e conduziam ao jardim muito extenso pertencente ao estabelecimento. No centro da sala havia uma grande mesa diante da qual se reuniam habitualmente as diversas classes para se entregarem a trabalhos de agulha ou outros análogos.

Naquele dia as jovens colegiais estavam todas sentadas diante da mesa e podiam ver perfeitamente o que se passava no jardim; ao mesmo tempo em que trabalhavam, viam a jovem Sagée, ocupada em colher flores, nas proximidades da casa; era uma das suas distrações prediletas. No extremo da mesa, em posição elevada, conservava-se uma outra professora, incumbida da vigilância e sentada numa poltrona de marroquim verde. Em dado momento, essa senhora desapareceu e a poltrona ficou desocupada. Mas foi apenas por pouco tempo, pois que as meninas viram ali de repente a forma da jovem Sagée. Imediatamente elas dirigiram a vista para o jardim e viram-na sempre ocupada em colher flores; apenas seus movimentos eram mais lentos e pesados, semelhantes aos de uma pessoa sonolenta ou exausta de fadiga. De novo dirigiram os olhos para a poltrona em que o duplo estava sentado, silencioso e imóvel, mas com tal aparência de realidade que, se não tivessem visto a jovem Sagée e não soubessem que ela tinha aparecido na poltrona sem ter entrado na sala, acreditariam que era ela em pessoa. Convictas, no entanto, de que não se tratava de uma pessoa real, e pouco habituadas com essas manifestações extraordinárias, duas das mais ousadas alunas se aproximaram da poltrona e, tocando na aparição, acreditaram sentir uma certa resistência, comparável à que teria oferecido um leve tecido de musselina ou de crepe. Uma delas chegou mesmo a passar defronte da poltrona e a atravessar na realidade uma parte da forma. Apesar disso, esta durou ainda por certo tempo; depois desfez-se gradualmente. Imediatamente notou-se que a jovem Sagée tinha recomeçado a colheita de suas flores com a vivacidade habitual. As quarenta e duas colegiais verificaram o fenômeno da mesma maneira.

Algumas dentre elas perguntaram em seguida à jovem Sagée se, naquela ocasião, ela tinha experimentado alguma coisa de particular; esta respondeu que apenas se recordava de ter pensado, diante da poltrona desocupada: “Eu preferiria que a professora não se tivesse ido embora; certamente, essas meninas vão perder o tempo e cometer alguma travessura.”

Esses curiosos fenômenos duraram, com diversas variantes, cerca de dezoito meses, isto é, por todo o tempo em que a jovem Sagée conservou seu emprego em Neuwelcke (durante uma parte dos anos 1845-1846); entretanto, houve intervalos de calma de uma a muitas semanas. Essas manifestações se davam principalmente em ocasiões em que ela estava muito preocupada ou muito aplicada aos seus serviços. Notou-se que à medida que o duplo se tornava mais nítido e adquiria maior consistência, a própria pessoa ficava mais rígida e enfraquecida, e reciprocamente, que, à medida que o duplo se desfazia, o ser corpóreo readquiria suas forças. Ela própria era inconsciente do que se passava e só ficava sabendo do ocorrido quando lho diziam; ordinariamente os olhares das pessoas presentes avisavam-na; nunca teve ocasião de ver a aparição de seu duplo e, do mesmo modo, parecia não aperceber-se da rigidez e inércia que se apoderavam dela, quando seu duplo era visto por outras pessoas.

Durante os dezoito meses em que a Baronesa Júlia de Güldenstubbe teve a oportunidade de ser testemunha desses fenômenos e de ouvir falar a tal respeito, nunca se apresentou o caso da aparição do duplo a grande distância; por exemplo: a muitas léguas da pessoa corpórea; algumas vezes, entretanto, o duplo aparecia durante seus passeios na vizinhança, quando a distância não era muito grande. As mais das vezes, era no interior do estabelecimento. Todo o pessoal da casa o tinha visto. O duplo parecia ser visível para todas as pessoas, sem distinção de idade nem de sexo.

Pode-se facilmente imaginar que um fenômeno tão extraordinário não pudesse apresentar-se com essa insistência durante mais de um ano em uma instituição desse gênero, sem lhe dar prejuízo. Desde que ficou bem estabelecido que a aparição do duplo da jovem Sagée, verificada a princípio na classe que ela dirigia, depois em toda a escola, não era um simples fato de imaginação, a coisa chegou aos ouvidos dos pais. Algumas das mais tímidas dentre as colegiais testemunhavam uma viva excitação e desfaziam-se em recriminações todas as vezes que o acaso as tornava testemunhas de uma coisa tão estranha e tão inexplicável. Naturalmente, os pais começaram a experimentar escrúpulo em deixar suas filhas por mais tempo sob semelhante influência, e muitas alunas, que tinham saído em férias, não mais voltaram. No fim de dezoito meses, havia apenas doze alunas das quarenta e duas que eram. Por maior que fosse a repugnância que tivessem com isso, foi preciso que os diretores sacrificassem Emília Sagée.

Ao ser despedida, a jovem, desesperada, exclamou, em presença da jovem Júlia de Güldenstubbe: “Oh, já pela décima nona vez; é duro, muito duro de suportar!”

Quando lhe perguntaram o que queria dizer com isso, ela respondeu que por toda parte por onde tinha passado – e desde o começo de sua carreira de professora, na idade de dezesseis anos, tinha estado em dezoito casas antes de ir a Neuwelcke –, os mesmos fenômenos se tinham produzido, motivando sua destituição. Como os diretores desses estabelecimentos estavam satisfeitos com ela em todos os outros pontos de vista, davam-lhe, de cada vez, excelentes certificados. Em razão dessas circunstâncias, ela se via na necessidade de procurar de cada vez uma nova colocação em lugar tão distanciado do precedente quanto possível.

Depois de ter deixado Neuwelcke, retirou-se durante algum tempo para perto dali, para a companhia de uma cunhada que tinha muitos filhos ainda pequenos. A jovem de Güldenstubbe foi visitá-la ali e soube que esses meninos, de idade de três a quatro anos, conheciam as particularidades de seu desdobramento; eles tinham o hábito de dizer que viam duas tias Emília.

Mais tarde, se dirigiu ao interior da Rússia, e a jovem de Güldenstubbe não mais ouviu falar a seu respeito.

Eu soube de todos esses pormenores por intermédio da própria jovem de Güldenstubbe, que espontaneamente me dá autorização de publicá-los com a indicação de nomes, de lugar e de data; ela se conservou no pensionato de Neuwelcke durante todo o tempo em que a jovem Sagée lecionou ali; por conseguinte, ninguém teria podido dar um relatório tão exato dos fatos, com todos os seus pormenores.”

No caso que precede, devemos excluir toda a possibilidade de ilusão ou de alucinação; parece-nos difícil admitir que as numerosas alunas, professores, professoras e diretores de dezenove estabelecimentos tenham experimentado por sua vez, a respeito da mesma pessoa, a mesma influência alucinatória. Por conseguinte, não há dúvida de que se trata neste caso de uma aparição, no rigoroso sentido da palavra, de um desdobramento real do ser corpóreo, tanto mais quanto o duplo se entregava, em muitos casos, a uma ocupação diversa da que tinha a própria pessoa.

Notemos, além disso, que no dizer das alunas que tiveram a ousadia de tocar no duplo de Emília Sagée, este apresentava uma certa consistência. Há todo o fundamento para supor-se que a fotografia teria demonstrado a realidade objetiva desse desdobramento.

Eu já mencionei, em meu primeiro capítulo, muitos casos de fotografias transcendentes de duplos. O último dos três casos que citei, e que foi comunicado pelo Sr. Glendinning, encontra sua explicação de maneira inesperada no da jovem Sagée. Eis como se exprime o Sr. Glendinning:

“Em uma de nossas experiências, obtivemos o retrato de nosso médium na atitude em que ele então se achava, à meia distância entre o fundo e o aparelho, dez a quinze minutos antes da exposição da chapa.”

Tinha-se consultado a prancheta acerca desse mistério e recebera-se esta resposta:

“O médium deixou sua influência no lugar que tinha ocupado, e, se uma pessoa dotada de clarividência se tivesse achado no aposento, tê-lo-ia visto nesse lugar.”

Ora, que lemos no caso de Emília Sagée? “Às vezes, quando ela deixava a cadeira, via-se seu duplo ficar sentado.” A analogia é frisante.

Essas duas linhas dão ainda a chave de outro caso de fotografia de duplo, referido por Pierrart, na Revista Espiritualista, 1864, pág. 84: O Sr. Cúrcio Paulucci, fotógrafo em Chiavari, perto de Gênova, tirava o retrato de um grupo de três pessoas; depois da revelação, o retrato de uma quarta pessoa apareceu atrás do grupo; era o do duplo de um ajudante que se tinha conservado por alguns instantes, antes da exposição da chapa, por trás do grupo, para colocar na posição desejada as pessoas que o compunham. O Sr. Guido, engenheiro, amigo do Sr. Paulucci, o próprio que comunicou o fato ao Sr. Pierrart, descreveu todas as manipulações químicas por meio das quais se assegurou de que a imagem se achava realmente sobre o colódio e não, por qualquer inadvertência, sobre a placa de vidro.

Como apêndice à primeira rubrica, posso citar o caso seguinte, no qual a comunicação feita por um vivo é ainda acompanhada pela aparição de seu duplo. Eis o caso, tal qual foi comunicado ao jornal Human Nature, 1867, página 510, pelo Sr. Baldwin, de Birmingham; trata-se da aparição de seu próprio duplo:

“Há cerca de quinze dias, estando a Srta. Taylor à mesa, em sua casa, a tomar o chá em companhia de sua tia e de seu primo, ela lhes contou que via mui distintamente o Sr. Baldwin, que se conservava no canto da mesa em que estavam sentados. Naquele momento a aparição não se manifestou por comunicação alguma inteligente, a não ser por um sorriso. Porém, alguns dias depois, achando-se as mesmas pessoas reunidas em uma sessão espírita, A Srta. Taylor repetiu que via o Sr. Baldwin; em seguida, a Srta. Kross, sua prima, pediu uma prova de sua identidade. Imediatamente ele se aproximou da mesa, pegou no braço da Srta. Taylor, que era médium escrevente, e escreveu seu nome por inteiro. A Srta. Kross exigiu ainda outra prova e disse que, se era realmente ele, escrevesse o pedido que ele lha tinha dirigido recentemente, repetisse as últimas palavras que ele proferira na noite precedente. Imediatamente tudo foi escrito na íntegra.”

Para os pormenores complementares, veja-se o artigo do Sr. Baldwin no Human Nature, 1868, página 151.

Os fatos de experimentação nesse sentido não são numerosos, porém existem. Assim o Sr. Colman atesta que a filha do juiz Edmonds, a Srta. Laura, “podia, às vezes, à vontade, desviar para fora (exteriorizar) seu espírito e fazê-lo aparecer, sob sua própria forma, e fazer por tal meio comunicações às pessoas que lhe eram simpáticas”.

A Srta. Mapes, filha do professor Mapes, garantiu por sua vez ao Sr. Colman que “sua amiga a Srta. Edmonds lhe tinha aparecido, fazendo-lhe comunicações, se bem que estivessem separadas uma da outra por uma distância de 20 milhas inglesas”. O Sr. Colman cita ainda um caso desse gênero (veja-se Spiritualism in America, pág. 4, e Spiritualist, 1873, pág. 470).

Encontra-se a relação de experiências mais recentes nos Phantasms of the Living, tomo I, págs. 103-109, e tomo II, págs. 671-676. Vede também o capítulo “Majavi Rupa” na obra de Carl Du Prel A Doutrina Monística da Alma, 1888, aliás, em geral, todos os capítulos desse livro são consagrados à apreciação filosófica do fenômeno de desdobramento.

Nas biografias dos médiuns encontra-se grande número de casos de aparições de seus duplos (por exemplo, na biografia da Sra. Conant, pág. 112), e chegamos naturalmente à categoria seguinte.

D – Ação extracorpórea do homem vivo manifestando-se sob a forma da aparição de sua imagem com certos atributos de corporeidade (fenômenos teleplásticos – formação de corpos materializados)


É aqui que a ação extracorpórea do homem adquire seu mais alto grau de objetividade, pois que se produz por efeitos intelectuais, físicos e plásticos. E é somente no Espiritismo que encontramos a prova absoluta desse fato. Uma vez admitido o fenômeno da materialização, ele deve ser naturalmente e logicamente reconhecido como produto do organismo humano; se, além disso, se estabelece como regra geral que a forma materializada tem grande semelhança com o médium, deve-se concluir, com a mesma naturalidade, que se está em presença de um fenômeno de desdobramento corpóreo. O fato dessa semelhança foi por muitas vezes verificado nas sessões em que se observaram materializações – completas ou parciais.

Cronologicamente falando, creio que a primeira observação desse gênero remonta aproximadamente ao ano de 1855, e produziu-se por acaso, em uma das sessões às escuras feitas pelos irmãos Davenport, com o intuito de obter efeitos físicos. Mesmo no meio da sessão, “um agente de polícia abriu sua lanterna de furta-fogo e iluminou o aposento. Então se passou uma cena extraordinária: Davenport pai levantou-se em sobressalto e declarou, acometido de intensa excitação, que tinha visto seu filho Ira perto da mesa, em posição de tocar em um dos tamboris, exatamente na ocasião em que o aposento acabava de ser iluminado, e que o tinha visto voltar à sua cadeira”. O Sr. Davenport estava exasperado; mas qual não foi sua surpresa quando, “uma vez restabelecida a calma, cerca de vinte assistentes afirmaram por sua honra terem visto distintamente, além da forma humana perto da mesa – o duplo ou fantasma de Ira Davenport – ao mesmo tempo, ou o próprio rapaz em carne e osso, sentado na cadeira, entre duas outras pessoas. O fantasma se tinha dirigido para o rapaz, mas provavelmente não chegara até onde este estava, visto como desaparecera a cerca de seis pés do lugar em que o rapaz estava sentado”. (Veja-se The Davenport Brothers, a biography par Randolph, Boston, 1869, págs. 198-199; citado no Spiritualist, 1873, págs. 154-470).

Nesse mesmo livro, somos informados de como se houve o professor Mapes para certificar-se de que os fenômenos físicos eram produzidos pelos duplos dos irmãos Davenport:

“Quando – diz ele – a guitarra chegou perto de mim, apalpei cuidadosamente a pessoa que eu suspeitava ser o moço Ira Davenport. Procurei assegurar-me de sua presença, passando a mão por sua forma inteira, mas não pude retê-lo porque ele deslizava entre minhas mãos, desaparecia, por assim dizer, com a maior facilidade possível.”

Foi principalmente pela roupa do moço Davenport que o Sr. Mapes se certificou de tê-lo reconhecido na escuridão; feita a luz, porém, que foi imediatamente pedida, pôde-se verificar que o moço Ira estava sempre amarrado em sua cadeira, como o tinha deixado o professor. Em uma sessão que se realizou em casa do Sr. Mapes, este último, bem como sua filha, puderam ainda uma vez verificar o desdobramento dos braços e das mangas da roupa do médium. (Ibidem, 185-186).

O reverendo J. B. Fergusson, que acompanhou os irmãos Davenport em sua viagem à Inglaterra e os tinha tomado sob sua proteção, não deixando de observá-los com todo o cuidado, exprime-se nestes termos:

“Vi, com os meus próprios olhos, os braços, o tronco e, por duas vezes, o corpo inteiro de Ira Davenport, à distância de 2 a 5 pés do lugar em que se achava em pessoa, como todos puderam presenciá-lo, amarrado com segurança à sua cadeira.” E mais adiante: “Em certas condições, ainda pouco determinadas, as mãos, os braços e a roupa dos irmãos Davenport desdobram-se, quer para a vista quer para o tato.” (Supramundane Facts in the Life of Rev. J. B. Fergusson (Fatos supraterrestres na vida do reverendo J. B. Fergusson), 1865, pág. 109).

As mesmas observações foram feitas por freqüentes vezes na Inglaterra com outros médiuns, e essa questão provocou por muitas vezes controvérsias entre os jornais espíritas. Consultar, entre outros, os artigos do Sr. Harrison no Spiritualist (1876, I, pág. 205; 1879, I, pág. 133); o artigo do Sr. A. Oxon em Light de 1884, pág. 351; o do Sr. Keulemans em Light, de 1884, pág. 351, e de 1885, pág. 509. Na presente obra trata-se deste assunto. Visto que a experiência de que fiz menção naquele ponto, a do Sr. Crookes com a Sra. Fay, foi feita nas condições mais rigorosas de fiscalização que a Ciência pode exigir, e como um caso de desdobramento se produziu ali, devemos considerar essa experiência como uma das provas mais sérias da realidade desse fenômeno. O Sr. Cox, que tomou parte nessa sessão, refere-a assim:

“Em sua excelente descrição da sessão de que se trata, o Sr. Crookes diz que “uma forma humana inteira foi vista por mim bem como por outras pessoas. É a verdade. Quando me entregavam meu livro, a cortina afastava-se suficientemente para permitir-me ver a pessoa que mo dava. Era a forma da Sra. Fay, em sua inteireza: a cabeleira, o rosto, o vestido de seda azul, os braços nus até o cotovelo, e usando pulseiras ornadas de pérolas finas. Nesse momento a corrente galvânica não registrou a mínima interrupção, o que se teria dado inevitavelmente se a Sra. Fay tivesse desprendido as mãos dos fios condutores. O fantasma apareceu ao lado da cortina que ficava oposto àquele em que se achava a Sra. Fay, à distância mínima de 8 pés de sua cadeira, de maneira que lhe teria sido impossível, de qualquer maneira, alcançar o livro na prateleira, sem ser coagida a desprender-se dos fios condutores. E, entretanto, repito-o, a corrente não sofreu a mínima interrupção”.

Há outra testemunha que viu o vestido azul e as pulseiras. Nenhum de nós participou aos outros o que tinha visto, enquanto a sessão não terminou; por conseguinte, nossas impressões são absolutamente pessoais e independentes de qualquer influência.” (Spiritualist, 1875, I, pág. 151).

As experiências de fotografia também aí estão para estabelecer o fato do desdobramento. Sabe-se que Katie King assemelhava-se de maneira notável à sua médium Florence Cook; os retratos que o Sr. Crookes obteve de Katie atestam o fato até à evidência.

As impressões feitas em papel enegrecido vêm corroborar da mesma maneira o fenômeno em questão, mas a demonstração mais importante de desdobramento nos é fornecida pelas experiências de moldagem por meio de formas de parafina.

Citei mais acima a experiência feita com o Sr. Eglinton, no decurso da qual se obteve, por meio desse processo, a forma de seu pé, enquanto o verdadeiro pé ficava visível aos olhos dos membros da comissão incumbida de vigiar a experiência.

O Sr. Harrison faz conhecer um resultado análogo, mencionando outra experiência, na qual se obteve a moldagem das mãos dos médiuns. (Spiritualist, 1876, I, pág. 298).

O doutor espanhol Otero Assevedo relata uma experiência muito curiosa, que ele teve oportunidade de fazer. Em 1889, dirigiu-se a Nápoles, no intuito de verificar a autenticidade das manifestações que se davam nas sessões da médium Eusápia Paladino. O Sr. Assevedo desejava obter uma impressão em terra argilosa, em condições absolutamente inatacáveis. Para isso encheu um prato de terra argilosa fresca. No fim da sessão regulamentar, após as manifestações habituais, Eusápia Paladino propôs, muito por seu gosto, tentar a experiência imaginada pelo sábio espanhol. Pediu ao Sr. Assevedo que colocasse o prato que continha a terra argilosa em uma cadeira, diante dela, à distância de cerca de 2 metros, assegurando-se, previamente, de que a superfície da massa estava completamente lisa. Em seguida, cobriu-a com um lenço. Isso se dava à plena luz.

Todas as pessoas tinham os olhos fixos em Eusápia. Ela dirigiu a mão para o lugar onde se achava o prato, fez alguns movimentos convulsivos e exclamou: “Está pronto!”

Quando se retirou o lenço, verificou-se que na terra argilosa havia a impressão, perfeitamente executada, de três dedos (veja-se a Revista Espírita, 1889, pág. 587). Nas cartas que me escreveu, o Sr. Assevedo garantiu-me que, para ele, não havia a menor dúvida quanto à realidade desses fatos, se bem que tivesse assistido a essas sessões com as idéias preconcebidas de um “materialista intransigente”, segundo sua expressão.

Esse fato extraordinário do desdobramento do organismo humano – fato que deduzimos logicamente do fenômeno da materialização – nos dá o direito de acreditar nas narrações que nos chegam, de outro lado, acerca de aparições de duplos que produzem efeitos físicos, sem que sejamos por isso coagidos a recorrer à hipótese das alucinações visuais, auditivas e táteis. Se é verdade que o fenômeno essencial existe, essa última espécie de duplos reduzir-se-ia a uma variedade caracterizada por um grau diferente de corporeidade, e dependente do espaço que separa o fantasma de seu protótipo vivo. Essa inconstância no grau de materialidade das aparições foi observada por muitas vezes e, dentre outras, pelo Sr. Crookes, que refere a tal respeito o fato seguinte:

“Ao declinar do dia, durante uma sessão do Sr. Home em minha casa, vi moverem-se as cortinas de uma janela, que estava cerca de 8 pés de distância do Sr. Home. Uma forma sombria, opaca, semelhante a uma forma humana, foi divisada por todos os assistentes, de pé, próxima à vidraça, sacudindo a cortina com a mão. Enquanto a olhávamos, desapareceu, e as cortinas deixaram de mover-se.

O caso seguinte é ainda mais extraordinário. Como no precedente, era o Sr. Home quem servia de médium. Um fantasma, saindo de um canto do aposento, lançou mão de um acordeão, e em seguida deslizou através do aposento, tocando esse instrumento. Aquela forma foi visível durante muitos minutos por todas as pessoas presentes, e ao mesmo tempo se via também o Sr. Home. O fantasma aproximou-se de uma senhora que estava sentada a certa distância dos demais assistentes; essa senhora deu um pequeno grito, após o qual a sombra desapareceu.” (Crookes, Pesquisas, edição francesa, pág. 165).

Um fato análogo se deu na Rússia; foi comunicado ao Rebus pelo Dr. Kousnetzoff, que assim o relata:

“Na penumbra, vimos flutuar uma forma de criança, que parecia ter cinco anos: era bela de perfil, tinha os cabelos anelados e segurava uma caixa de fósforos, fluorescente, que pendurou em uma haste de filodendro que se achava no aposento; nesse momento, as folhas do arbusto fizeram ouvir um frêmito característico.”

Não havia crianças naquela sessão; os experimentadores eram em número de três: o Sr. Kousnetzoff e o Sr. e Sra. M. (1892, pág. 97).

Consultando meu índex, encontro um exemplo de materialização transparente, observada pelo Sr. Morse, a quem conheço perfeitamente. Ele publicou a notícia no jornal Facts, de Boston (1886, pág. 205).

É permitido supor, com todo o fundamento, que o grau de densidade de um duplo diminui em razão do seu afastamento do organismo que ele representa. Como símile a um fato de que falei na categoria B – sensitivo mesmerizado agindo a distância e sem ser visto pelos experimentadores –, citarei aqui o seguinte caso e no qual o efeito visual se acha combinado com a ação física. O Sr. Desmond Fitzgerald, engenheiro, escreveu a esse propósito no Spiritualist, sob o título: “Efeito físico produzido pelo espírito de um sensitivo”:

“O magnetizador mais poderoso que tenho conhecido até hoje é um certo H. E. Lewis, um negro, com o concurso do qual lorde Lytton (Bulwer) fez grande parte de suas experiências semi-espiríticas. Fiz relações com ele, há vinte anos, por intermédio do Sr. Thompson, que era da mesma maneira um magnetizador e muito poderoso. Naquela época eu me ocupava assiduamente com o estudo dos fenômenos do mesmerismo, e as experiências que fiz então foram o ponto de partida de minhas convicções espiríticas atuais. Decidido a formar uma idéia clara acerca da autenticidade de certos fenômenos, aluguei um aposento na casa de Lewis, em Baker Street, e organizei, com o seu concurso, muitas conferências sobre o mesmerismo, nas circunvizinhanças, escolhendo localidades que lhe eram desconhecidas.

Em fevereiro de 1856 fomos a Blackheath: produziu-se ali um incidente muito curioso. Tínhamo-nos hospedado em um hotel, e à meia-noite, no salão comum, Lewis magnetizou muitas pessoas e fez algumas experiências notáveis de eletro-biologia, que interessaram vivamente os assistentes.

Ficou convencionado que se poria uma sala à disposição de Lewis e no dia seguinte realizou-se a conferência. Depois das experiências habituais de magnetismo, que tiveram êxito maravilhoso, Lewis procedeu à demonstração de alguns dos fenômenos de clarividência e de sonambulismo, na pessoa de uma moça, a quem ele nunca tinha visto dantes e que, com outras pessoas, tinha deixado as filas do público para subir ao estrado. Depois de tê-la mergulhado em profundo sono, convidou-a a ir à sua casa (dela) e descrever o que visse ali. Ela começou então a contar que via a cozinha, que duas pessoas estavam lá, ocupadas nos afazeres domésticos.

– Poderás tocar uma dessas pessoas, a que está mais perto de ti? – perguntou Lewis.

Ele só obteve como resposta um murmúrio ininteligível. Em seguida colocou uma das mãos sobre a cabeça do sensitivo e a outra sobre o plexo solar, e disse-lhe:

– Quero que lhe toques no ombro; deves fazê-lo e fá-lo-ás.

A moça começou a rir e disse:

– Eu lhe toquei; como estão amedrontadas!

Dirigindo-se ao público, Lewis perguntou se alguém conhecia a moça. Tendo recebido uma resposta afirmativa, propôs que um grupo se dirigisse ao domicílio da moça, a fim de certificar-se da exatidão de sua narração. Muitas pessoas se dirigiram para ali, e quando voltaram confirmaram em todos os pontos o que a jovem adormecida tinha referido: todas as pessoas da casa estavam efetivamente descontroladas e em profunda excitação porque uma das pessoas que se achava na cozinha declarava ter visto um fantasma e que esse lhe tocara no ombro.

A moça que tinha sido submetida à experiência como “sensitiva” era empregada na qualidade de criada em casa do Sr. Taylor, sapateiro em Blackheath. Em meu canhenho encontro, entre outros, o nome de um Sr. Bishop, dentista, residente em Blackheath, que se ofereceu para certificar a exatidão do incidente.” (Spiritualist, 1875, I, pág. 97).

O professor Daumer cita em seu livro Das Geisterreich (O Reino dos Espíritos) (Dresda, 1867), no capítulo intitulado “Aparições de vivos sob a forma de fantasmas”, essa passagem do Magicon de Justino Kerner, onde se trata do auto-sonâmbulo Suzette B., cujo duplo tinha aparecido ao Dr. Ruffi e apagara a luz de sua vela (T. I, pág. 167).

Eis um exemplo de data mais recente, referido por uma testemunha das mais fidedignas, o finado H. Wedgwood, membro da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres:

O fantasma de um homem vivo batendo na porta

“Em fins de setembro, eu era hóspede da Sra. T., uma de minhas amigas, que possuía faculdades mediúnicas. Seu marido dirige-se todos os dias a Birmingham, por causa de negócios; a distância é de cerca de 20 milhas.

Quinze dias antes de minha chegada, em um sábado, e precisamente alguns instantes antes da hora em que seu marido devia entrar em casa, a Sra. T. estava na janela de seu quarto de dormir, que dava para a rua, e divisou o marido que abria a porta gradeada do jardim e depois caminhava pela vereda; ele tinha nas mãos muitos embrulhos, o que excitou a curiosidade da Sra. T.

Ela se apressou em ir abrir-lhe a porta; no caminho encontrou seu cunhado e lhe deu parte de que acabava de ver seu marido, que tinha entrado pela porta reservada, conduzindo muitos embrulhos. Enquanto ela falava com seu cunhado, ouviu bater na porta principal a série de pancadas adotada por seu marido. As pancadas eram tão distintas que ela não teve dúvida de que seu cunhado as tivesse ouvido também, o que entretanto não se tinha verificado: mas a criada, na cozinha, que ficava vizinha ao vestíbulo, as tinha ouvido perfeitamente e estava persuadida de que era o dono da casa; ela correu para abrir a porta; mas a Sra. T., que se tinha adiantado, abriu-a. Não vendo ninguém, a Sra. T. mandou a criada de quarto à entrada particular e foi pessoalmente à sala de jantar, na outra extremidade da casa, persuadida de que seu marido tinha entrado pela porta do jardim; ali também não encontrou pessoa alguma. Enquanto ela ficava tão perplexa, a criada de quarto foi avisá-la de que o Sr. T. tinha chegado e acabava de entrar nesse mesmo instante pela porta principal. Ela foi ao encontro do marido e perguntou-lhe por que ele tinha voltado depois de ter entrado uma primeira vez pela porta do jardim. Este lhe respondeu que nada disso tinha feito; que vinha diretamente da estação.

– Vamos lá, ouvi-te perfeitamente bater e vi chegares, com dois embrulhos embaixo do braço! – disse ela, com acento de uma pessoa que está convencida de ter sido o alvo de uma brincadeira.

O Sr. T. não compreendia nada de tudo isso. Ele tinha, efetivamente, dois embrulhos debaixo do braço, como sua mulher tinha julgado vê-lo.

O cunhado afirma, de seu lado, que, estando perto da janela, tinha ouvido perfeitamente as palavras da criada de quarto, dizendo que o amo acabava de bater, e isso precisamente no momento em que a Sra. T. acreditava vê-lo na vereda do jardim. Eu tive a confirmação disso depois, por intermédio da própria criada de quarto. Sua afirmação é, aliás, amplamente corroborada pelo fato de ter ido até à porta para abri-la. É certo que as pancadas tinham tal realidade objetiva que foram ouvidas simultaneamente por duas pessoas que estavam em pontos distantes da casa e que não se comunicavam entre si.

Soube desse fato pelas próprias testemunhas do incidente e transcrevi-o segundo suas próprias palavras durante o acontecimento, quinze dias depois de sucedido.” (Light, 1883, pág. 458).

O Sr. Wedgwood fez acompanhar a narração que precede por outra que teria seu lugar, antes, sob a categoria B, mas reproduzo-o aqui a título de apêndice. As personagens são as mesmas.

“Antes do incidente que acabo de referir, o Sr. T. parece que já tinha avisado de sua volta as pessoas da família, provocando efeitos que cada qual podia verificar, mas sem que seu duplo tivesse sido notado por quem quer que fosse.

Para chegar em casa antes da hora do jantar, o Sr. T. podia tomar, quer o trem de 5 horas e meia, quer o de 6 horas e meia. A 12 de junho ele preveniu sua mulher, ao partir, que provavelmente só voltaria pelo último trem. Perto das 6 horas e meia a Sra. T. teve a idéia de ir à estação ao encontro de seu marido; na ocasião em que se preparava para pôr o chapéu, ouviu subitamente o som de muitos acordes tocados no piano, na sala do andar inferior; esses acordes foram seguidos de uma passagem rápida, em oitavas, e em seguida ouviu tocar uma melodia, com um dedo, como o fazia ordinariamente o Sr. T. Persuadida de que seu marido havia chegado pelo primeiro trem, tirou o chapéu e desceu a toda pressa; mas encontrou a sala vazia e o piano fechado. Ninguém estava em casa, pois que a criada se achava na lavanderia, na outra extremidade da casa.” (Ibidem).

Outro caso, mais concludente ainda, é-nos comunicado pelo Sr. Georges Wyld, doutor em Medicina:

“Eu tinha excelentes relações de amizade, havia 15 anos, com a Srta. J. e sua mãe. Essas duas senhoras receberam uma instrução das mais aprimoradas e são absolutamente dignas de fé. A narração que me fizeram foi confirmada por uma das criadas. Quanto à outra, não pude encontrá-la.

Foi alguns anos antes de nosso conhecimento; a Srta. J. era muito assídua em visitar os pobres. Ora, certo dia em que voltava para casa, depois de um passeio de caridade, sentiu-se fatigada e indisposta por causa do frio e teve o desejo de ir em sua volta aquecer-se perto do fogão, na cozinha. No instante preciso que correspondia àquele em que essa idéia lhe tinha passado pelo espírito, duas criadas que estavam ocupadas na cozinha sentiram dar volta no ferrolho da porta, esta abrir-se e dar passagem à Srta. J., que se aproximou do fogo e aqueceu as mãos. A atenção das criadas fixava-se nas luvas de pele de cabrito envernizadas de cor verde que J. tinha nas mãos. Subitamente, diante de seus olhos, ela desapareceu. Atemorizadas, elas subiram rapidamente até onde estava a mãe da Srta. J. e comunicaram a sua aventura, sem esquecer a particularidade das luvas verdes.

A mãe foi assaltada por alguma apreensão de mau presságio, mas tentou tranqüilizar as criadas, dizendo-lhes que J. só usava luvas pretas, que nunca as tivera de cor verde e que, por conseguinte, sua visão não podia ser considerada como o fantasma de sua filha.

Cerca de meia hora depois, a Srta. J. em pessoa entrava; foi diretamente à cozinha e aqueceu-se diante do fogo. Ela estava de luvas verdes, por não haver encontrado as pretas.” (Light, 1882, pág. 26).

Em notícia explicativa, o Sr. Wyld acrescenta:

“Não faltam notícias, arranjadas levianamente, de fenômenos psíquicos; quanto a mim, tive sempre o cuidado de ser o mais preciso possível. Por exemplo, no caso de que trato, compreendo muito bem o que havia de importante em ficar adstrito aos fatos; entreguei-me às investigações mais minuciosas, descendo aos mínimos pormenores; assim, pedi que me repetissem por muitas vezes o fato de só uma das duas criadas que estavam na cozinha ter visto o movimento do ferrolho da porta, ao passo que ambas tinham visto a porta abrir-se.” (Light, 1882, pág. 50).

No Spiritualist de 1857, tomo II, página 283, o Dr. Wyld expõe, de maneira circunstanciada, sua teoria, que poderia ser resumida no próprio título de seu artigo: “O homem como espírito, e os fenômenos espiríticos conforme são produzidos pela ação do homem vivo”.

A Sra. Hardinge Britten relata um fato curioso em sua memória sobre as aparições de duplos, publicada no Banner of Light de 1875 (6 de novembro e 11 de dezembro); esse fato é reproduzido pelo Sr. A. (Oxon) em seu artigo “Da ação extracorpórea do espírito do homem” (Human Nature, 1876, pág. 118). Ei-lo:

“Era na época em que se realizavam as sessões do célebre círculo de Nova Iorque, nas quais tomava parte freqüentemente o reverendo Tomás Benning, recentemente falecido. Ele tinha recebido o convite de fazer em certo sábado uma conferência em Troy, Nova Iorque; porém, na véspera do dia marcado, teve uma dor de cabeça violenta que não lhe teria permitido aceder ao convite que tinha aceitado. Escreveu à pressa uma carta de desculpas ao presidente da Sociedade de Troy. Entretanto, à noite ele melhorou e pôde ir ao círculo de sua cidade. Durante a sessão, sua preocupação obcecante era saber se a carta chegaria a tempo para permitir à Sociedade de Troy encontrar outro conferencista. Ponderando bem, parecia-lhe impossível que a sua carta chegasse a tempo, e tal idéia afligia-o tanto mais porque ele não descobria meio algum de remediar a situação. Atormentado por esses pensamentos, não prestou quase atenção alguma ao que se passava na sessão. Convém declarar que nesse círculo de Troy a aparição de duplos não era coisa rara. O Sr. Benning teve a lembrança de tentar a experiência, isto é, prevenir por esse meio a seus amigos em Troy do incômodo que sentia. Essa tentativa não se traiu nele por sinal algum determinado, a não ser por uma vaga absorção da qual não conseguiu desfazer-se durante grande parte da noite. Essa sensação desapareceu subitamente e ele pôde então tomar parte nas ocupações do círculo tão conscienciosamente quanto tinha por hábito fazê-lo e com a lucidez de espírito que lhe era peculiar.

Transportemo-nos, porém, a Troy e vejamos o que lá se passava durante esse mesmo tempo. Naquela cidade, do mesmo modo que em Nova Iorque, havia um círculo do qual o reverendo Sr. T. Benning era membro. Esse círculo continha ao todo dezoito integrantes. Como o Sr. Benning fosse freqüentemente àquela cidade para fazer o sermão do domingo, tinha-se decidido escolher o sábado para a sessão. Naquele sábado, dezessete dos membros reuniram-se para a sessão, mas o Sr. Benning, com o qual contavam com toda a certeza, não chegava.

Mais de trinta minutos tinham decorrido desde a hora fixada para a sessão, quando se ouviu bater na porta da casa o sinal convencionado para anunciar a chegada de um dos membros. O aposento alugado para as sessões era situado no segundo andar e os membros deviam bater de modo particular, para evitar que uma pessoa estranha pudesse introduzir-se. Logo que o sinal convencionado se fez ouvir, o Sr. A., a quem cabia a vez de receber os que chegavam, desceu a escada, abriu a porta e divisou o Sr. Benning, que estava no limiar, à plena luz do luar. Ele fez admoestações ao retardatário e instou para que subisse, para juntar-se aos consócios que o esperavam com impaciência. Com grande surpresa sua, o Sr. Benning não manifestou desejo algum de entrar: conservava-se defronte da porta, irresoluto e murmurando algumas palavras para participar que não poderia fazer o sermão do dia seguinte. Impaciente com essa falta de pressa, o Sr. A. tomou o Sr. Benning pelo ombro, puxou-o para dentro, queixando-se de penetrar o frio no interior da casa; depois, tendo-o convidado a subir, fechou a porta e guardou a chave na algibeira, como costumava fazer, quando o círculo estava completo.

Os consócios, reunidos em cima, começavam a achar o tempo muito longo e incumbiram dois dentre eles para ir saber o que se passava. Estes encontraram o Sr. Benning na escada e lhe fizeram exprobrações acerca de sua demora. Este murmurou, com a mesma voz surda, algumas palavras de desculpa que não se referiam precisamente à sua demora; falava da impossibilidade em que ficaria de fazer o seu sermão, no dia seguinte. “Está bem, está bem! – responde-lhe o Sr. B. –, apressa-te, porém, um pouco, nós te temos esperado bastante. Em seguida tentou levar o Sr. Benning pelo braço; porém, com grande surpresa, este último o repeliu com força e, desviando os outros dois consócios, desceu a escada com precipitação e atirou-se na rua, fechando a porta violentamente atrás de si.

Os membros do círculo ficaram consternados perante tal conduta de seu respeitável consócio, e no decurso da reunião falou-se muito desse incidente bizarro. Ele foi inserido na ata da sessão com todos os pormenores, se bem que pessoa alguma tivesse podido encontrar a explicação do enigma. Foi só depois de terminada a sessão, quando todos desceram e se acharam defronte da porta fechada à chave, que vaga suspeita atravessou o espírito desses senhores e eles começaram a desconfiar que o incidente de que tinham sido testemunhas apresentava um caráter misterioso, oculto.

No dia seguinte, muitos membros do círculo foram ao sermão, na esperança de obter uma explicação do próprio Sr. Benning. A ausência do pregador não podia dissipar suas apreensões. Eles souberam que em conseqüência de uma demora do correio, a carta do Sr. Benning tinha chegado somente na véspera, às 10 horas, e, trazendo a nota de “urgente”, o recebedor do Correio, por delicadeza, a tinha feito chegar a seu destino no dia seguinte, domingo, de manhã. Essa carta também ainda não estava entregue doze horas depois que o estranho visitante da véspera comunicara o seu conteúdo aos membros do círculo de Troy.

O autor destas linhas está informado dessa narração pelo Sr. Benning e por duas pessoas que viram, reconheceram e tocaram o fantasma na escada. Elas lhe afirmaram que, apesar do caráter que o visitante pudesse ter, por mais imaterial que ele fosse, seu braço deu prova de um vigor muito considerável para poder desviar um dentre eles e impelir o outro com tanta força que esteve prestes a rolar pela escada.”

O Dr. Brittan menciona em seu livro Man and his Relations (O homem e suas Afinidades) (Nova Iorque, 1864), o caso seguinte, extraído de uma carta do Sr. E. V. Wilson. A Sra. Hardinge Britten reproduz essa carta in extenso. Eis a sua tradução:

“Na sexta-feira, 19 de maio de 1854, eu estava sentada diante de minha secretária; adormeci nessa posição, com a cabeça apoiada na mão. Meu sono durou de trinta a quarenta minutos. Sonhei que estava na cidade de Hamilton, a 40 milhas inglesas a oeste de Toronto, e que visitava diversas pessoas para receber dinheiro. Depois de terminado meu passeio de cobranças, desejei ir visitar uma senhora de meu conhecimento, que se interessava muito pela causa espírita. Sonhei que tinha chegado à sua casa e que tocava a campainha da porta. Uma criada veio abri-la e informou-me que a Sra. D. tinha saído e que não estaria de volta antes de 1 hora. Pedi um copo d’água, o que ela me trouxe, e fui embora, incumbindo-a de transmitir meus cumprimentos à sua ama. Pareceu-me que eu voltava a Toronto. Nesse ponto, despertei e não mais pensei em meu sonho.

Alguns dias depois, uma senhora que morava em Toronto, em minha casa, a Sra. J., recebia uma carta da Sra. D., originada de Hamilton; essa carta continha a passagem seguinte:

“Dize ao Sr. Wilson que ele tem um procedimento esquisito; que eu lhe peço que, em sua próxima visita, me deixe o seu endereço para evitar que eu vá a todos os hotéis de Hamilton, e apesar disso em pura perda. Na sexta-feira passada ele veio a minha casa; pediu que lhe dessem um copo d’água, disse como se chamava e transmitiu-me seus cumprimentos. Sabendo o interesse que tomo pelas manifestações espiríticas, parece-me que ele teria podido dispor as coisas de maneira a passar a noite conosco. Foi uma decepção para todos os nossos amigos. Não me esquecerei de dizer-lhe minha maneira de pensar, em nossa próxima entrevista.”

À leitura dessa passagem, comecei a rir-me, convicto de que a Sra. D. e seus amigos foram induzidos a erro ou, antes, que estavam desequilibrados, pois que eu não ia a Hamilton havia um mês e na hora designada eu dormia sentado diante de minha secretária, em meu estabelecimento.

A Sra. J. limitou-se a observar que evidentemente havia erro de uma ou de outra parte, porque a Sra. D. era uma pessoa sisuda, merecedora de toda a fé. Um raio de luz atravessou subitamente meu espírito: recordei-me do sonho que tinha tido e disse, em ar de brincadeira, que o visitante de quem se tratava não era provavelmente mais do que o meu fantasma. Incumbi a Sra. J. de escrever à Sra. D. para dizer-lhe que dentro em pouco tempo eu estaria em Hamilton, em companhia de muitos amigos, e que todos iríamos visitá-la; que eu pedia à Sra. D. que não prevenisse seus criados de nossa ida, com o único fim de verificar se qualquer deles reconhecia, a pedido seu, entre os que chegavam, o Sr. Wilson que se tinha apresentado a 19 de maio.

A 29 de maio fui a Hamilton com alguns companheiros, e todos fizemos uma invasão em casa da Sra. D. Esta senhora veio abrir-nos a porta e nos introduziu na sala. Pedi-lhe então que chamasse suas criadas e perguntasse-lhes se reconheciam um dentre nós. Duas das criadas me reconheceram como o senhor que tinha ido a casa no dia 19 e dissera chamar-se Wilson. As duas criadas me eram completamente desconhecidas, eu nunca tinha visto nem uma, nem outra. Elas estão prontas, assim como a Sra. D., a confirmar todos os pormenores da narração que lhe mando.

Aceite, etc.

E. V. Wildon
(
Human Nature, 1876, págs. 112-113).”

O caso seguinte ainda é mais extraordinário; trata-se de um duplo produzindo efeitos físicos. Tiro-o do Spiritual Magazine (1862, pág. 535), que o reproduziu segundo o Herald of Progress, de Boston:

“Venho comunicar-vos um incidente que me foi referido por uma senhora dentre minhas amigas, habitante desta cidade e cuja probidade e respeitabilidade estão acima de toda suspeita. No inverno passado, essa senhora contratou para o seu serviço uma moça alemã, cujos pais habitam a Alemanha, com os seus demais filhos. Para corresponder-se com seus parentes, essa moça tinha recorrido à bondade da ama, que escrevia suas cartas. No inverno passado, Bárbara (é o nome da moça) adoeceu de febres intermitentes e teve que ir para a cama. Tendo delirado um pouco, sua ama ia freqüentemente vê-la à noite. Uma criada moça dormia também no quarto. Isso durou duas semanas, nas quais a doente dizia freqüentemente à sua ama: “Oh, senhora, todas as noites estou na Alemanha, perto dos meus!” Seu delírio atingiu o máximo durante duas noites. Em uma das ocasiões ela deixou precipitadamente o leito e levou consigo lençóis e cobertor para o aposento vizinho; em outra ocasião tentou puxar para fora do leito a jovem criada.

Entretanto, restabeleceu-se e já não se pensava mais em sua moléstia, quando chegou uma carta da Alemanha, de seus pais, que mandavam dizer que sua mãe estava muito incomodada, porque durante quinze noites consecutivas sua filha tinha batido na porta da casa paterna, deixaram-na entrar, todos os membros da família tinham-na visto e reconhecido, sem excetuar sua mãe, que não deixava de exclamar: “Oh, minha pobre Bárbara deve ter morrido!” Em uma das ocasiões, tinham-na visto retirar o cobertor de uma cama e conduzi-lo a outro aposento; na noite seguinte ela se agarrou com sua irmã e tentou fazê-la sair da cama.

Essa carta lançou a moça em grande consternação. Ela pretendia que na Alemanha tê-la-iam tratado de feiticeira e ainda hoje evita fazer a menor alusão a esse incidente.

Posso acrescentar que eu apenas transmito os fatos, tais quais os soube por essa senhora, que continua a morar em Dayton, com a criada de quem se trata.

Aceitai, etc.

Laura Cuppy
Dayton, Ohio, 12 de setembro de 1862.”

O livro de Robert Dale Owen: Footfalls (pág. 242) contém uma narração absolutamente notável: a tripulação de um navio é salva de uma perda iminente graças à ação extracorpórea (aparição de sua forma e comunicação escrita) de uma pessoa que estava a bordo, dormindo. Reproduzo o seu resumo, segundo o Dr. Perty (Mystische Erscheinungen, – Aparições Místicas –, tomo II, pág. 142):

“Um tal Roberto Bruce, escocês, era, em 1828, na idade de cerca de trinta anos, imediato de um navio mercante que fazia o trajeto entre Liverpool e São João do Novo Brunswich. Certo dia – estava-se em águas da Terra Nova –, Roberto Bruce, sentado em seu camarote, vizinho do camarote do comandante, achava-se absorto em cálculos de longitude; tendo dúvidas acerca da exatidão dos resultados que tinha obtido, interpelou o comandante, a quem supunha no seu camarote: “A que resultado chegaste?”. Não obtendo resposta, voltou a cabeça e julgou ver o comandante em seu camarote, ocupado em escrever.

Ele se levantou e aproximou-se do homem que escrevia na mesa do comandante. O tal homem levantou a cabeça e Roberto Bruce viu que era uma personagem absolutamente desconhecida, que o olhava fixamente. Bruce subiu à pressa à coberta e participou ao comandante o que tinha presenciado. Eles desceram juntos: não encontraram pessoa alguma; porém, na ardósia, que estava em cima da mesa do comandante, puderam ler estas palavras, escritas por mão estranha: “Navega para noroeste.” Confrontou-se essa escrita com a de todos os outros passageiros; chegaram a fazer pesquisas, porém sem resultado algum. O comandante, dizendo consigo mesmo que apenas arriscava algumas horas de atraso, ordenou que se aproasse para noroeste.

Depois de algumas horas de navegação, eles divisaram os destroços de um navio encalhado no gelo, tendo a bordo a tripulação e alguns passageiros em perigo. Era um navio saído de Quebec com destino a Liverpool, encalhado no gelo havia algumas semanas. A situação dos passageiros era desesperada. Depois que eles foram recolhidos a bordo do navio salvador, Bruce, com grande surpresa, reconheceu em um deles o homem a quem tinha visto no camarote do comandante. Este último pediu ao desconhecido que escrevesse do outro lado da ardósia estas mesmas palavras: “Navega para noroeste”. A escrita era idêntica! Soube-se que naquele mesmo dia, perto do meio-dia, esse viajante tinha dormido profundamente e que, despertando, meia hora depois, dissera: “Hoje seremos salvos.” Ele tinha visto em sonho que estava em outro navio, que vinha em seu socorro; chegou mesmo a fazer a descrição desse navio e, quando ele se aproximava, os passageiros não tiveram dificuldade em reconhecê-lo. Quanto ao homem que tinha tido esse sonho profético, parecia-lhe conhecer tudo o que via na embarcação nova; mas, a maneira pela qual isso sucedia ele ignorava completamente.”

O Sr. Dale Owen acrescenta que esta narração lhe foi feita pelo Sr. J. S. Clarke, comandante da escuna “Júlia Hallock”, que o tinha ouvido por sua vez do próprio Roberto Bruce.

O Sr. Hartmann propõe seis explicações diversas para este caso e deixa completamente de lado a que é mais plausível! (O Espiritismo, pág. 101).

Certamente, é lamentável que um fato tão importante não possa ser apoiado por um documento qualquer, redigido imediatamente depois e assinado por todas as testemunhas; mas, tal qual nos é apresentado, ele é, entretanto, precioso por causa da clareza das minudências, que são, de mais, tão extraordinárias, que se teria dificuldade em supor que a narração foi inventada por completo. Além disso, esta narração está de perfeito acordo com as que precedem.



* * *

Os exemplos que grupei sob essas categorias – sem poder dar-lhes o desenvolvimento que eles comportam, pois que para isso ter-me-ia sido preciso mais de um volume – parecem-me bastante para o fim que me propus, isto é, para demonstrar, a toda a evidência, as duas conclusões importantes às quais chegamos necessariamente em nossa tentativa de estudar os fenômenos mediúnicos em um ponto de vista “natural”.

Como bem se vê, todos os fatos que enumerei formam uma cadeia ininterrupta; só se distinguem uns dos outros pelo caráter da manifestação e pelo grau de atividade de uma só e mesma faculdade do organismo humano. Nós sabemos agora que a ação da inteligência humana pode exercer-se fora dos limites corpóreos; que um homem pode reagir sobre a atividade psíquica de outro homem e produzir neste impressões que correspondam às que ele próprio experimenta, transmitir-lhe seus pensamentos, suas sensações, evocar nele a visão de sua imagem; que ele pode até operar a distância efeitos físicos sobre a matéria inerte; e essa atividade extracorpórea pode ir até o desdobramento do organismo, ostentando um simulacro de si mesmo, o qual se torna ativo durante certo tempo, independentemente de seu protótipo, e apresenta atributos incontestáveis de corporeidade.

Em outros termos, vemos desenrolar-se diante de nós um fato prodigioso, que não se ousou olhar de frente até hoje, mas que é chamado a tornar-se uma das mais brilhantes aquisições das ciências antropológicas, e do qual seremos devedores ao Espiritismo, a saber: a ação física e psíquica do homem não fica limitada à periferia de seu corpo.

Dito isso, há oportunidade para voltar à questão que serviu de ponto de partida às nossas investigações no domínio dos fenômenos do animismo: haverá necessidade, para a explicação dos fenômenos mediúnicos, de procurar um refúgio na hipótese espirítica?

Partindo da tese de que certos fenômenos devem ser atribuídos a uma causa extramediúnica (isto é, fora do médium), vimos que essa causa poderia ser fornecida pela atividade extracorpórea – psíquica e física – de um homem vivo. Haveria meio, por conseguinte, de dar dos mistérios do Espiritismo uma explicação “natural”, excluindo a intervenção dos “Espíritos”. Se há “Espírito” seria o “Espírito” de um homem vivo, e nada mais.

Mas esse argumento viria chocar-se com as considerações seguintes:

Se é verdade que o homem possui duas espécies de consciências – uma exterior, sua consciência normal, outra interior, que é desconhecida pelo homem normal, mas que, por esse fato, não deixa de ser dotada de uma vontade e de uma inteligência, que lhe são próprias; – se é verdade que esta última consciência pode agir, manifestar-se, ainda quando a consciência normal está em plena atividade, de maneira que as duas consciências exerçam suas funções simultaneamente e sem que uma dependa da outra; se é verdade que a atividade extracorpórea do homem é determinada principalmente pela consciência interior (não ficando, em suma, sujeita à consciência normal), e que ela pode manifestar-se – à semelhança de sua causa determinante, a consciência interior – ao mesmo tempo que a atividade normal do corpo e independentemente deste último; se é verdade, enfim, que essa consciência interior tem o dom de perceber as coisas do exterior, sem o auxílio dos órgãos dos sentidos – não devemos concluir daí que a natureza do homem é dupla, que há nele dois seres distintos, e ambos conscientes: o indivíduo exterior, que obedece às condições impostas por nosso organismo, e o ser interior, que não depende dele e que pode querer, agir e perceber por seus próprios meios? Não devemos deduzir daí que o nosso corpo não é uma condição indispensável para que esse ser interior possa dar testemunho de vida; em outras palavras, que esse é por sua essência independente do outro? Admitindo-se mesmo que haja um laço entre os dois, esse laço não será fortuito, antes uma aparência, ou uma simples concomitância temporária?

Se assim é, o ser interior deve conservar sua existência independente, esmo na ausência do corpo.

Seria um belo argumento em favor da “sobrevivência” da alma, e esse argumento nos é fornecido pelos fatos do sonambulismo e do animismo.

Apoiando-nos em tais fatos, poderíamos admitir que a existência independente do ser interior pode ser “pré-natal”, ou “pós-natal” (anterior ou posterior ao nascimento).

Se é o ser interior quem forma e desenvolve o corpo humano, ele é evidentemente o seu precursor e pode sobreviver-lhe.

Pelo contrário, se ele não passa de um resultado do organismo humano, podemos considerá-lo como uma fase da evolução geral e admitir que pode sobreviver ao corpo, como centro de forças individualizadas.

Mas tudo isso não passa de especulação, pois que formulamos claramente a nossa tese, no começo deste capítulo, dizendo que a atividade da consciência interior do homem, assim como suas ações extracorpóreas, nos parecem independentes da consciência interior. Essa independência pode não ser mais do que aparente.

Efetivamente, a influência da consciência exterior faz-se sentir mui freqüentemente na atividade da consciência interior; demais, existe uma relação íntima, incontestavelmente, entre a consciência exterior e o corpo; por conseguinte somos coagidos, salvo prova em contrário, a considerar o corpo humano como a fonte – mais afastada e mais misteriosa ainda – da atividade da consciência interior e devemos, por conseguinte, concluir pela existência de um laço indissolúvel entre essa consciência interior e o corpo do homem. Finalmente, o corpo fica sendo a condição sine qua non.

Como a teoria espírita assenta, em definitivo, sobre essa questão de independência, segue-se daí que, enquanto essa independência não for provada de maneira positiva, os fenômenos mediúnicos deverão ser atribuídos à ação inconsciente – psíquica, física e plástica – do médium ou de outras pessoas vivas, quer estejam presentes, quer ausentes, segundo o caso.

É sobre esta base natural que o estudo científico dos fatos mediúnicos deve começar e deverá conservar-se até prova em contrário.



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