Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Espiritismo – Manifestação de um homem morto,
como fase ulterior do animismo.


“A proporção das manifestações verdadeiramente espiríticas é muito medíocre, mesmo presentemente.”

A. J. Davis
Fountain, págs. 187, 219.
Trata-se, aqui, de encontrar a prova de que a desagregação do corpo não atinge a independência nem a individualidade do que chamamos consciência interior ou o ser interior do homem. Creio poder afirmar que esta prova pode ser fornecida por certos fenômenos de ordem mediúnica, que serão então, na verdadeira acepção da palavra, fatos espiríticos.

Por conseguinte, de que fatos se trata?

Colocando-nos em um ponto de vista geral, não se trata evidentemente dos fenômenos físicos, compreendendo nesse número as materializações, ou, pelo menos, não é por estas últimas que devemos começar. Eis o que eu disse a esse respeito, há dez anos:

“Entre a verificação de um fato e sua explicação, pode-se passar um intervalo de muitos séculos. O assunto de que nos ocupamos é imenso e complexo ao infinito; seu estudo apresenta dificuldades como não se encontram iguais em nenhuma outra ordem de estudos. Assim, por exemplo, esse fenômeno notável entre todos no domínio dos fatos mediúnicos objetivos, qual seja: a formação temporária de uma forma humana, é um fato demonstrado; mas concluir daí que temos diante de nós a aparição do Espírito de um homem morto – conclusão à primeira vista das mais simples e das mais evidentes, e que apresentaria, por conseguinte, uma prova da imortalidade da alma – seria fazer uma dedução que não é justificada nem no ponto de vista da crítica, nem no ponto de vista de um estudo aprofundado dos próprios fatos. Muito pelo contrário: quanto maior número de materializações vemos, tanto mais precária se torna essa hipótese; pelo menos em minha opinião.

Ora, se não podemos chegar a solução alguma desse problema, mesmo depois de ter tido ensejo de observar esse fenômeno em seu desenvolvimento extremo, que devia, parece, poder explicar tudo, com mais forte razão não temos o direito de atribuir as manifestações mediúnicas de ordem secundária à intervenção das almas dos mortos. É por este motivo que nunca me pronunciei em meu jornal acerca da teoria das manifestações físicas. Eu nunca formulei doutrina, expunha apenas fatos, levando em conta, de maneira imparcial, toda a tentativa de explicação, toda hipótese e toda crítica que tinham por alvo a pesquisa da verdade. Mas, não esqueçamos, esses fenômenos físicos só constituem uma parte, não são mais do que as partes inferiores de uma ordem de fenômenos mediúnicos inteiramente diferentes, que se poderiam designar – por oposição – como fenômenos menos intelectuais. São estes últimos que constituem a verdadeira potência, a própria essência desse grande movimento social e religioso que se chama Espiritualismo moderno.” (Psychische Studien, 1878, págs. 7 e 8).

Eis por que eu adoto completamente a opinião do Sr. Hartmann, quando ele diz:

“Quanto à cooperação ou à não cooperação dos Espíritos, a questão só pode ser resolvida, pelo menos aproximadamente, sobre a base do conteúdo intelectual das manifestações e, pelo contrário, todos os fenômenos físicos e as materializações, produzidos diretamente pelo organismo do médium, são pouco aptas para servir à solução dessa questão.” (Apêndice, Psychische Studien, 1885, pág. 506).

Ora, esta maneira de ver, publicada em Apêndice pelo Sr. Hartmann, está absolutamente em contradição com a conclusão de sua obra sobre o Espiritismo, onde ele diz:

“Desde que admitimos essas três fontes de conhecimento (hiperestesia sonambúlica da memória, da leitura dos pensamentos e clarividência) ao lado da percepção sensorial, não se pode, em geral, imaginar nenhum conteúdo intelectual que não possa por sua natureza haurir-se daí.” (Espiritismo, págs. 116, 117).

É preciso, por conseguinte, considerar estas palavras do Apêndice como uma retificação, como uma última opinião, que me satisfaz tanto mais quanto corresponde diretamente à questão que me propunha apresentar ao Sr. Hartmann e que teria formulado da maneira seguinte: suponhamos que o Espírito do homem sobrevive ao corpo: quais são as provas que nos permitirão estabelecer esse fato, observando todos os princípios do método indicado pelo Sr. Hartmann? Ou deve-se admitir, apesar de tudo, que qualquer tentativa de descobrir semelhante prova deve malograr-se perante o “caráter natural” das “três fontes de conhecimento” que este método nos indica? Finalmente, convém reconhecer que essa prova é impossível?

Presentemente, porém, estamos de acordo neste ponto: Se essa prova é possível, como princípio, só pode ser fornecida pelo conteúdo intelectual dos fenômenos mediúnicos. E demonstrarei, mais tarde, por que até o fenômeno da materialização, sem um conteúdo intelectual suficiente, não pode bastar à prova pedida.

Eu já disse, repeti e repito ainda, que o estudo da parte intelectual dos fenômenos mediúnicos nos coage a reconhecer, antes de tudo, que grande número desses fenômenos, dos mais freqüentes, devem ser atribuídos à atividade inconsciente do próprio médium.

Acabo de demonstrar mais acima que outra parte desses fatos pode ser, é verdade, referida a uma causa extramediúnica, mas, apesar de tudo, “natural”, terrestre, proveniente da ação extracorpórea de outros indivíduos vivos (fenômenos anímicos).

No capítulo III reuni elevado número de exemplos que nos obrigam também a admitir uma causa extramediúnica. Mas qual é esta causa?

Poder-se-ia ser tentado a atribuir um certo número de fatos a causas anímicas e, antes de tudo, certamente, os fenômenos físicos de que se trata; mas a dificuldade é que na maior parte desses fenômenos há também um lado intelectual que se presta dificilmente à hipótese anímica. Assim, por exemplo, ampliando até um grau ilimitado o poder físico extracorpóreo do homem vivo, poder-se-ia dizer que “as perseguições pelos fenômenos físicos”, de que falei no item 1 do capítulo III, foram causados por ações extracorpóreas, conscientes ou inconscientes, de certos homens vivos.

A explicação não é impossível logicamente, porém não tem razão de ser suficiente.

Assim, não se poderia admitir razoavelmente que as manifestações sob forma de perseguições, às quais estiveram sujeitos os membros da família Fox – perseguições com o objetivo de provocar o estudo público dos fenômenos mediúnicos –, tenham sido o resultado de uma mistificação anímica, isto é, de uma mistificação inconsciente por parte de um homem vivo. Além disso, não convém esquecer que os fenômenos se produziam de maneira constante e a qualquer hora do dia, muitas vezes a pedido de tal ou qual pessoa; como explicar essa concordância da ação a distância, exercida por um homem vivo, com todas as exigências do momento e da vizinhança do meio em que essa manifestação anímica devia produzir-se? Por que, em muitos outros casos, esse pedido de preces, seguido pela cessação das manifestações, etc.? Isso não quer dizer que não se possa admitir hipoteticamente, para certos casos de encantamento ou de molestações, que eles tinham sido produzidos por causas anímicas; vimos que os fenômenos anímicos têm sempre sua razão de ser em uma certa relação entre as partes interessadas; essa mesma relação deveria existir também para os casos de encantamento, se eles dependessem da mesma causa, e sua fonte verdadeira não tardaria a ser descoberta.

No item 11 do mesmo capítulo, citei muitos casos de ordem física, principalmente de transportes a grande distância. Admitindo-se que a ação física extracorpórea do homem é ilimitada, não só quanto ao espaço, mas também quanto à matéria – e está realmente aí o desenvolvimento que o Sr. Hartmann será coagido a dar à sua teoria –, poder-se-ia classificar esses casos físicos sob a rubrica do animismo, pois que eles não apresentam dificuldade alguma no ponto de vista do conteúdo intelectual. Mencionei esses casos no capítulo III, a propósito da teoria atual do Sr. Hartmann e principalmente por causa da sua conexão com os fatos de transmissão de mensagens a grande distância, citados no item 10.

Se se pretendesse explicar estes últimos pela hipótese anímica, as dificuldades tornar-se-iam maiores. Tomemos, por exemplo, o caso de Hare, transmitindo uma comunicação de Cape May (perto de Nova Iorque) a Filadélfia pelo espiritoscópio. A experiência durou duas horas e meia; se durante esse tempo o professor Hare se tivesse achado em transe, como o sensitivo do item 11, por ocasião do transporte de uma fotografia a grande distância, ter-se-ia podido supor que a experiência toda tinha sido uma transmissão anímica, operada pelo próprio professor Hare. Mas as faculdades mediúnicas do professor Hare eram insignificantes; nenhum fenômeno anímico se produzia por seu intermédio, não caía em transe, etc.

À 1 hora da tarde ele se achava em comunicação com sua irmã, por intermédio do espiritoscópio; dá-lhe uma incumbência para o Dr. Gourlay em Filadélfia, com a recomendação de dar-lhe a resposta às 3 horas e meia. Feita a incumbência, ele só volta ao espiritoscópio à hora indicada, para receber a resposta. Que, pois, agia em Filadélfia durante esse tempo? Era preciso não só transmitir a comunicação ao Dr. Gourlay, mas ainda receber sua resposta, para transmiti-la ao professor Hare. Dessa maneira, o Espírito do professor Hare tinha que manifestar-se duas vezes em Filadélfia, pelo espiritoscópio, enquanto ele se achava em Cape May, em estado normal. Não conhecemos casos análogos que justificassem semelhante explicação. Assim, pois, não era o Espírito do próprio professor Hare que, sob o nome de sua irmã, tinha atuado, e menos ainda uma das faculdades das partes médias de seu cérebro, como o pretende o Sr. Hartmann.

Por conseguinte, detenhamo-nos por um pouco nessa afirmação negativa e vejamos de mais perto de que maneira essa operação teria podido realizar-se segundo a hipótese do Sr. Hartmann. Eis o professor Hare sentado ao espiritoscópio; sua consciência sonambúlica representa o papel de sua irmã falecida e ele entra em comunicação com ela por meio do espiritoscópio. Ocorre-lhe a lembrança de tentar uma experiência, de mandar por sua irmã um recado a Filadélfia, dirigido à Sra. Gourlay, com uma recomendação referente a seus negócios bancários. De que maneira ele se houve para mandar aquele recado? Deu-o de viva voz, como se falasse à sua irmã. Ela lhe respondeu “sim”, pelo espiritoscópio, e foi tudo. É muito conforme à prática em Espiritismo.

E o que se passou em Filadélfia? A Sra. Gourlay também se achava ao espiritoscópio, e sua consciência sonambúlica lhe dava uma comunicação em nome de sua mãe. Essa comunicação é subitamente interrompida, e o espiritoscópio começa a transmitir, letra por letra, o recado do Sr. Hare. Quem dirigia, letra por letra, o ponteiro do espiritoscópio, depois que o professor transmitiu o recado? Quem o pusera em movimento? Eis a grande e insuperável dificuldade para a teoria do Sr. Hartmann! Se o professor Hare tivesse enunciado sua comunicação letra por letra, por meio do espiritoscópio, a explicação seria mais fácil: poder-se-ia admitir uma operação telepática, não uma transmissão de idéias, mas uma transmissão letra por letra de uma consciência sonambúlica a uma outra. Porém, assim não sucedeu. Recebem-se as comunicações dos pretendidos “Espíritos” pelo espiritoscópio, mas, de uma parte, a conversação se faz de viva voz. A mesma operação, porém em sentido inverso, se deu em Filadélfia, quando a Sra. Gourlay respondia de viva voz ao mensageiro invisível do professor Hare, o qual, por sua vez, recebeu essa comunicação pelo espiritoscópio. Que, pois, movia o ponteiro, enquanto a Sra. Gourlay se ocupava já então em outra coisa? Além disso, por que gênero de clarividência se produzia a visão das letras do espiritoscópio de uma e de outra parte?

Será ainda por uma relação com o Absoluto? (Só repetirei para lembrança que, segundo o Sr. Hartmann, a transmissão de pensamento a grande distância só se pode dar sob a forma alucinatória). (Veja-se o item 10 do capítulo III).

Quanto ao recurso, para a explicação “natural” desse fato, à intervenção inconsciente de qualquer outro ser vivo, é evidentemente muito absurdo para que nos detenhamos nesse ponto.

Mas é verdade, por outro lado, que nada prova que o operador invisível era incontestavelmente a irmã do professor Hare. Tudo o que podemos admitir, razoavelmente, é que nesse caso houve um fator inteligente e independente, um portador consciente do recado, que desempenhou a incumbência, e que esse fator não pode ser nem o próprio médium, nem outro ser vivo.

As mesmas dificuldades e as mesmas conclusões para o caso de Luísa Mac Farland (capítulo III, item 10), caso em que a comunicação foi transmitida a 1.000 milhas, por pancadas. Além disso, quem operou a metamorfose da personalidade e a da construção gramatical da comunicação? As comunicações anímicas não oferecem esta particularidade; não se transmitem em nome do expedidor, porém por ele próprio.

Para certos fatos dentre outros mencionados no capítulo III, podemos prevalecer-nos da hipótese anímica levada a seus limites extremos e sustentar que alguém, em qualquer parte e de maneira sempre inconsciente, produziu essa manifestação. Tomemos, por exemplo, o caso de Cardoso; é permitido sempre pretender que um cérebro humano, achando-se em relação inconsciente com os cérebros dos meus médiuns, tenha sido a fonte ativa ou passiva do saber que não pertencia a seus cérebros. Ou antes, quando o médium escreve discursos inteiros ou nos fala em língua que não conhece, poder-se-ia ainda supor que a causa dessa manifestação é terrestre e não supraterrestre; que presenciamos o resultado do jogo inconsciente de qualquer consciência sonambúlica que se acha fora do círculo onde se faz a experiência. Isso é muito difícil, muito surpreendente; o fio que deve estabelecer a relação nos escapa, mas não é logicamente impossível. Somente a prova nos falta: não podemos descobrir o vivente que foi a causa da manifestação.

E é precisamente a mesma dificuldade que se apresenta para provar que essa causa não pertence a um vivo. Como guiar-nos então na pesquisa dessa prova? A resposta é simples: quando a manifestação é impessoal não temos motivo para lhe atribuir uma causa supraterrestre. Mas, se a comunicação é pessoal, é diferente e podemos ir além.

É aqui que os fatos intelectuais do animismo nos vêm em auxílio e nos fornecem base para nossas conclusões ulteriores. Eis por que o estudo do animismo deve preceder o do Espiritismo. Sendo os fenômenos anímicos bem estabelecidos, o exame da hipótese espirítica não oferecerá mais dificuldades insuperáveis quando se nos depararem fatos que o animismo já não pode explicar; ele nos permite preparar o caminho e afastar todas as objeções que geralmente se opõem ao Espiritismo. É ele que nos conduz passo a passo à convicção de que o que é possível a um homem vivo é igualmente a um homem morto.

Vimos mais acima que a Sra. W. (a professora) tinha o hábito de receber por sua mão comunicações do seu falecido marido, mas subitamente, a 20 de julho de 1858, “o lápis não mais escreveu o nome esperado, porém traçou com escrita desconhecida, na qual ela reconheceu imediatamente a mão de Sofia Swoboda, algumas expressões queixosas que exprimiam seu despeito relativamente a um dever não cumprido”. Quando, no dia seguinte, a Sra. W. se dirigiu à casa de Sofia Swoboda e lhe mostrou a comunicação, Sofia reconheceu imediatamente sua escrita e expressões.

Mais adiante cito também um caso de escrita mediúnica produzida durante uma sessão em Mœdling, pela ação extracorpórea de Sofia Swoboda, quando seu corpo dormia em Viena; e a identidade da personalidade de Sofia foi verificada pela semelhança da escrita e por todas as particularidades da comunicação.

Vimos também casos em que as comunicações foram feitas de viva voz pela boca de médiuns em estado de transe, e essas comunicações foram sem hesitação atribuídas a homens vivos, pois que traziam em si o cunho de sua personalidade. É assim, por exemplo, que a Srta. Brant, assistindo a uma sessão em Cleveland (América), recebeu uma comunicação de sua mãe, que se achava na Alemanha, pela boca de uma senhora médium, inteiramente desconhecida dessas pessoas e não conhecendo o alemão, e esse fato coincidiu com o que a mãe da Srta. Mary Brant tinha experimentado de seu lado, durante um acesso de letargia, etc.

Apoiando-nos nesses fatos, temos o direito de fazer a seguinte pergunta: Se recebemos por via mediúnica uma comunicação que traz em si todos os indícios que caracterizam uma pessoa viva conhecida por nós, e se julgamos lógico e natural referir essa comunicação a essa pessoa viva e concluir que é essa pessoa que é a causa eficiente de tal manifestação, não seria igualmente natural, lógico, no caso de uma comunicação apresentando todos os traços característicos de uma pessoa que tínhamos conhecido entre os vivos, mas que já não existe, referir essa comunicação igualmente àquela pessoa e concluir que ela é, dessa ou daquela maneira, a causa eficiente de tal comunicação?

É evidente que a analogia é perfeita e que a lógica exige essa conclusão. Eis, em minha opinião, a única prova intelectual, o “conteúdo intelectual”, único que pode decidir a questão. Um fato igual teria imensa significação, porque nesse fato encontraríamos a prova positiva da plena independência, quer de nosso ser interior, quer de nosso corpo, e, por conseguinte, a prova da existência independente desse ser – da alma, em uma palavra –, sobrevivendo ao corpo. Um fato semelhante seria um fato espirítico no sentido verdadeiro dessa palavra. Levemos mais longe a pesquisa da analogia que os fatos anímicos apresentam.

Quando vemos o duplo de uma pessoa viva, é natural, lógico, procurar a causa dessa “alucinação” ou visão na própria pessoa que esse duplo representa. Importa pouco que seja um efeito telepático ou outro qualquer: quando se fala da aparição de A vivo a B vivo, ninguém pensa em atribuí-la ao vivente B ou a outros viventes, C ou D, e por pesquisas ulteriores descobre-se que, efetivamente, no momento da aparição do duplo ou fantasma de A a B, tinha-se produzido alguma coisa no espírito de A que pôde servir de justificativa para ver no próprio A a causa primitiva e eficiente de sua aparição a B. É certamente surpreendente que no estudo especial desse assunto (Phantasms of the Living – Fantasmas dos Vivos),41 onde centenas de casos são expostos, apenas encontremos um deles em que a aparição de A a B pode ser considerada como simples alucinação subjetiva, sem traço algum de telepatia.

O caráter não puramente alucinatório, na maioria dos fatos, da aparição dos vivos, uma vez estabelecido, perguntamos a nós mesmos, com toda a naturalidade, o que convém concluir quando se vê, em vez de um vivo, a aparição de um morto? A resposta é simples: a possibilidade de atribuir a aparição a um efeito telepático, proveniente de A falecido, é justificada. Não é mais do que uma questão de fato, e chegará o tempo em que teremos a esse respeito um trabalho tão comprobatório quanto o que foi publicado sobre os Fantasmas dos Vivos.

Daí às materializações só há um passo. Se o duplo de um homem vivo pode aparecer não somente como uma “alucinação verídica”, mas ainda pode revestir uma forma plástica, e se então atribuímos essa aparição a certas atividades misteriosas das forças orgânicas e psíquicas do indivíduo vivo que está diante de nós, não poderemos concluir com a mesma lógica que, quando uma forma materializada apresenta indubitavelmente todos os traços característicos de uma pessoa morta, a causa eficiente dessa aparição, temporariamente revestida de atributos corpóreos, deve também pertencer a essa pessoa?

Como se acaba de ver, a cadeia das analogias é completa. Porém, o que era comparativamente simples e desde logo evidente para os fatos do animismo torna-se mui complicado e duvidoso para os fatos do Espiritismo; porquanto, para os primeiros é fácil ligarmos a causa ao efeito; as duas pontas do fio desse telégrafo psíquico são acessíveis ao nosso exame; o agente e o percipiente podem ser rapidamente descobertos, e verificamos que certo estado em A corresponde a um certo efeito em B. E aceitamos essa teoria de causalidades sem recorrer a todas as espécies de hipóteses para refutá-la. Tal não é o estado das coisas para verificar um fenômeno espirítico. Os meios de verificação nos faltam. Temos um efeito e a causa não é mais do que uma probabilidade lógica. A prova positiva nos escapa. É, entretanto, o estudo desse problema que surge diante de nós, em sua incomensurável profundeza, a misteriosa questão da personalidade.

Graças aos trabalhos filosóficos do Barão L. von Hellenbach e do Dr. Carl Du Prel, a noção da personalidade adquiriu um desenvolvimento inteiramente novo e as dificuldades que o problema espirítico nos apresenta são já muito aplainadas.

Sabemos presentemente que a nossa consciência interior (individual) e a nossa consciência exterior (sensorial) são duas coisas distintas; que a nossa personalidade, que é o resultado da consciência exterior, não pode ser identificada com o eu, que pertence à consciência interior; ou, em outros termos, o que chamamos a nossa consciência não é o igual do nosso eu. É preciso, pois, distinguir entre a personalidade e a individualidade. A pessoa é o resultado do organismo, e o organismo é o resultado temporário do princípio individual transcendente. A experimentação, no domínio do sonambulismo e do hipnotismo, confirma essa grande verdade: desde que a personalidade, ou a consciência exterior, fica entorpecida, surge outra coisa, uma coisa que pensa e que quer, e que não se identifica com a personalidade adormecida e manifesta-se por seus próprios traços característicos; para nós é uma individualidade que não conhecemos; porém ela conhece a pessoa que dorme e recorda-se de suas ações e pensamentos.

Se desejamos aceitar a hipótese espirítica, é claro que é só esse núcleo interior, esse princípio individual que pode sobreviver ao corpo, e tudo quanto pertenceu à sua personalidade terrestre não será para ele mais do que um trabalho de memória.

Eis a chave para a compreensão dos fenômenos espiríticos.

Se o indivíduo transcendente esteve unido ao corpo durante sua manifestação fenomenal, não é ilógico admitir que depois da desagregação do corpo essa manifestação se possa renovar de uma ou de outra maneira no mundo fenomênico por intermédio de qualquer outro organismo humano, mais ou menos acessível às impressões de ordem transcendente.

Admitindo isso, é claro que uma manifestação desse gênero, se tiver por objetivo o reconhecimento de sua fenomenalidade ou personalidade terrestre, não é realizável senão por um esforço da memória que reconstitui os traços da personalidade terrestre. Esse esforço deve naturalmente tornar-se cada vez mais difícil, pois que a lembrança da personalidade terrestre deve desaparecer cada vez mais com o tempo. Em outros termos, a individualidade fica, a personalidade desaparece.

Eis por que a questão da “identidade dos Espíritos” é o ponto difícil do Espiritismo; eis por que, também, os casos comprobatórios desse gênero são raríssimos; eis por que, enfim, eles são mais ou menos defeituosos, ou só contém alguns traços salientes, característicos, que a memória evoca com o fim único da identificação da personalidade; eis o que explica por que os casos desse gênero se referem a uma época mais ou menos aproximada da morte. É também nisso que se deve encontrar a razão pela qual as comunicações mediúnicas não nos podem dar noção alguma razoável acerca do mundo espiritual e de seus habitantes; esse mundo transcendente é uma noção tão incomensurável para o mundo fenomênico quanto a idéia da quarta dimensão: não podemos – é preciso nos compenetrarmos dessa verdade – formar idéia alguma a seu respeito.

Falta-nos verificar agora, por via experimental, se há realmente desses casos de personalidades que se anunciam como pertencentes à outra vida. Analisemos antes de tudo o que devemos considerar como um criterium da personalidade. O conteúdo intelectual cristaliza na memória, que é o reservatório fiel dos acontecimentos e do conjunto das relações de uma vida humana inteira, os quais não podem em caso algum ser semelhantes aos de uma outra existência; ela também é a depositária fiel das aquisições intelectuais e das crenças e convicções que são o resultado de uma vida inteira, diferente das outras. Quanto ao lado moral, é a vontade, o caráter, que é a sua expressão e que também tem seus traços distintivos, a tal ponto distintivos, que chegam a imprimir um cunho individual aos modos externos das manifestações do caráter, que aderem, por assim dizer, em certas expressões exteriores do organismo; essas expressões são a linguagem, a escrita, a ortografia e, em geral, todo o habitus corpóreo.

Por conseguinte, se recebemos por via mediúnica uma comunicação que traz em si os traços indubitáveis de personalidade que acabo de assinalar, não temos o direito – depois de haver eliminado todas as causas de erro possíveis, depois de haver submetido o caso a uma crítica que justifique as três fontes de percepção que o Sr. Hartmann nos assinalou e os sete princípios explicativos que ele especificou em seu apêndice –, não temos o direito, digo, de concluir pela possibilidade de atribuir essa comunicação à causa que se afirma por si mesma?

Vejamos se podemos produzir fatos que correspondam a essas exigências múltiplas. Casos que dêem testemunho da identidade da personalidade que se manifesta de maneira mais ou menos satisfatória estão disseminados em toda a literatura espírita. Cada um desses casos deve defender-se por si mesmo, subsistir ou cair segundo o grau de evidência que contenha. A maioria desses fatos não são convincentes senão para a pessoa interessada, que, geralmente, é a única no caso de julgar da identidade da pessoa que comunica consigo; e está aí, no ponto de vista da crítica, o lado vulnerável dessas comunicações, pois que a pessoa presente pode sempre ser suposta de fonte inconsciente da manifestação. Por conseguinte, para que essa manifestação tenha valor objetivo satisfatório, é preciso que ela se produza na ausência da pessoa interessada, que se caracterize por traços interiores ou exteriores, traços que a presença dessa pessoa não pode afetar; a prova será absoluta quando as duas condições estiverem reunidas. A língua nacional e a escrita são os atributos inseparáveis, essenciais e indubitáveis de cada personalidade, oferecendo ao mesmo tempo a fórmula demonstrativa da equação pessoal, como se exprime o Sr. d’Assier. A linguagem e a escrita, eis as formas exteriores, as provas materiais, por assim dizer, pelas quais a personalidade se afirma em todas as relações sociais; nos fenômenos espiríticos, da mesma maneira, elas são independentes das influências de qualquer pessoa presente.

Começarei pelos fatos dessa categoria antes de ocupar-me dos que apresentam traços interiores ou intrínsecos, dando testemunho da identidade da personalidade. O capítulo III já nos forneceu um certo número de fenômenos que respondem a tudo quanto podemos exigir como prova desse gênero, e isso abreviará na mesma proporção este último capítulo.

Para facilitar o estudo sistemático do conjunto dos fatos que se produzem nas condições que acabo de mencionar e que devem, por conseguinte, servir para justificar a hipótese espirítica, vou classificá-los sob muitas categorias gerais, e para cada uma delas escolherei alguns exemplos típicos.




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