Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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A – Identidade da personalidade de um morto verificada por comunicações em sua língua materna, desconhecida do médium


Eu já disse no item 6 do capítulo III, especialmente consagrado aos fenômenos desse gênero, que os considero como prova absoluta de uma ação extramediúnica, e dei os motivos disso. É perfeitamente claro que tal ação extramediúnica não pode ser senão uma ação pertencente a um ser humano, vivo ou morto. No capítulo sobre o Animismo, citei o exemplo de uma mãe moribunda, na Alemanha, falando alemão com sua filha, na América, por um médium americano que não conhecia o alemão. Se essa mesma mãe se tivesse manifestado à sua filha pelo mesmo meio e de maneira igualmente convincente depois de sua morte falando-lhe, como em vida, com pormenores e particularidades que somente sua filha podia conhecer, haveria as mesmas razões suficientes para reconhecer a sua personalidade.

Há no tópico mencionado muitos casos que apresentam essas mesmas “razões suficientes”, e dentre eles o primeiro lugar compete ao fato referido pelo juiz Edmonds e observado por ele próprio em sua filha Laura, que falou grego com um grego, o Sr. Evangelides. O interlocutor invisível, falando pela Srta. Edmonds, diz ao Sr. Evangelides tantas coisas que este “reconheceu nele um amigo íntimo, falecido alguns anos antes, na Grécia, e que não era outro senão o irmão do patriota grego Marco Bozzaris”. Essas conversações se repetiram por muitas vezes durante horas inteiras, e o Sr. Evangelides interrogou escrupulosamente seu interlocutor a respeito de diversas questões de família e de negócios políticos. Porém, o que dá a este caso um valor duplo é que “esse mesmo interlocutor anunciou ao Sr. Evangelides, em sua primeira entrevista, a morte de um de seus filhos, que ele tinha deixado vivo e de boa saúde em sua partida da Grécia para a América” (vejam-se os pormenores no capítulo III, item 8). Não encontro nenhum meio razoável de explicar esse fenômeno a não ser pela hipótese espirítica; a clarividência não explicará o uso da língua grega e a língua grega não explicará a clarividência; quanto à hipótese anímica, torna-se neste caso um absurdo.

Falamos em um caso semelhante no mesmo tópico citado acima: a Sra. X., de Paisley, na Escócia, anunciou a sua morte em dialeto escocês, pela boca da Srta. Scongall, que não conhecia esse dialeto. Seu neto, ao qual ela se dirigiu, fez-lhe também um grande número de perguntas para convencer-se de sua personalidade, e as respostas, dadas sempre no mesmo dialeto, foram perfeitamente satisfatórias (vejam-se os pormenores no item citado).

Baseando-nos nesses fatos, estamos no direito de concluir que os outros casos de comunicações em línguas desconhecidas pelo médium e que são mencionados no item 6 do capítulo III são não só casos de ação extramediúnica, mas ainda casos espiríticos, pois que não há razão alguma plausível para atribuí-los a causas anímicas; a condição essencial para justificar essa causa – a relação entre essa causa e seu efeito, a relação entre os vivos conhecidos e desconhecidos, visíveis e invisíveis – falta totalmente. Pode-se objetar que também não há razão para concluir a favor de uma relação entre um vivo e um morto desconhecido. Isso é verdade, mas, quando nos referimos aos fatos precedentes, é muito natural supor que um morto dispõe de meios muito mais simples para estabelecer essa relação, do que um vivo – sendo o fim dessa manifestação, aliás, provar o fato de sua existência póstuma.

Alguns fatos dessa categoria têm um valor ainda mais significativo quando o uso de uma língua desconhecida se faz na ausência de qualquer pessoa que compreenda essa língua e quando, para a interpretação da conversa, se teve que convidar pessoas que podem compreender a dita língua. Um caso desse gênero inteiramente explícito foi mencionado por mim no mesmo item 6, e ultimamente o caso me fez descobrir uma experiência da mesma natureza, porém mais notável ainda e que é referida no jornal Facts (Boston), fascículo de fevereiro de 1885. A Sra. Elisa L. Turner, de Montpellier (Vermont), aí refere com valiosos pormenores de que modo seu marido, o Sr. Curtis Turner, foi agente de curioso fenômeno. Ele adoeceu em 1860; depois de dois anos de moléstia, conservou-se de cama, e os médicos julgaram-no incurável. O Sr. e a Sra. Turner eram um pouco médiuns, e em último recurso organizaram uma sessão espirítica. O Sr. Turner caiu em transe e o agente, que fiscalizava a sessão, em breve se exprimiu em mau inglês, como se segue: “Desejo conversar com um francês.”

Transcrevo a narrativa da Sra. Turner:

“O Dr. Prevo, francês, foi chamado; aquele conversou com ele tão corretamente quanto se tivesse o hábito de exprimir-se em francês e como se tivesse sabido examinar doentes. Isso surpreendeu o Dr. Prevo, que resolveu pôr à prova os Espíritos. Quando voltou, trouxe estampas anatômicas, mas o Espírito, que se pretendia médico, foi capaz de lhe responder, pois que lhe designava e nomeava todos os diversos músculos em latim e em francês, tão perfeitamente quanto o próprio Dr. Prevo, que é um sábio médico.”

O resultado foi que em dez dias o doente ficou restabelecido, segundo a promessa que o doutor invisível tinha feito. A Sra. Turner termina assim sua narração:

“Meu marido não conhecia mais a língua francesa do que... sabia tocar violão, e entretanto, em breve, sob a fiscalização do Dr. Aníbal (assim o interlocutor se chamava a si mesmo), pôde falar francês e tocar violão.”

E o editor do jornal acrescenta:

“No congresso de Waterbury, Vermont, reunido em outubro de 1884, em um dos “meetings” de experimentação, o Dr. Prevo relatou esse fenômeno com maior número de pormenores do que é fornecido aqui.”

É também sob esta categoria que se devem classificar casos em que o médium se exprime não em uma língua estrangeira, mas por um alfabeto convencional que lhe é desconhecido, como, por exemplo, o alfabeto dos surdos-mudos. Vai-se ver um caso em que a comunicação foi feita por esse alfabeto, pois que o falecido, em vida, era surdo e mudo. Tiro este exemplo do jornal mensal editado por Hardinge Britten, em Boston, em 1872, sob o título A Estrada de Oeste, onde, na página 261, ela cita a narração do Sr. H. B. Storer, reproduzida na Época Espiritual, como se segue:

“No sábado, 2 de agosto de 1872, eu fazia uma conferência em Siracusa (Nova Iorque), e entre a sessão da manhã e a da tarde assisti a uma reunião em casa do Sr. Bears. Entre os assistentes, que eram cerca de vinte, achavam-se duas senhoras e dois senhores vindos de uma cidade vizinha para assistir às minhas conferências. No decurso da reunião, um médium, a Sra. Corwin, caiu em transe e designou com a mão um dos assistentes; ele se levantou e, atravessando a sala, foi sentar-se ao lado da médium. Então o Espírito pareceu fazer tentativas reiteradas para falar, impotente, conforme parecia, para submeter à sua vontade os órgãos da médium, o que produziu um efeito penoso na maior parte dos assistentes.

Notou-se, entretanto, que a mão esquerda da médium se levantava por momentos e que seus dedos faziam diversos movimentos. Alguns instantes depois, o senhor em questão declarou que o Espírito lhe tinha dado uma prova de sua identidade, e isso “de maneira indubitável”. Supondo que era um sinal qualquer convencionado, esperava-se sempre ouvir pronunciar palavras pelo Espírito, propondo tal ou qual meio para facilitar a manifestação. Subitamente a médium caiu sob a influência de outro Espírito, que declarou, de maneira perfeitamente calma, que, se ficassem tranqüilos, a mulher do senhor que estava perto da médium tentaria ainda uma vez manifestar-se; que ela tinha sido surda-muda na Terra e comunicar-se-ia por meio do alfabeto dos surdos-mudos. Guardaram silêncio, e em breve a individualidade anunciada voltou e falou durante vinte minutos com seu marido; os dedos da médium formavam a resposta e as frases por meio dos sinais empregados pelos surdos-mudos.

A cena era enternecedora: o marido estava defronte da médium em transe e fazia à sua mulher diversas perguntas, por sinais, e sua mulher respondia a seus pensamentos da mesma maneira, por intermédio de um organismo estranho, de uma pessoa que nunca tinha praticado esse modo de conversação. O Espírito dava igualmente respostas a perguntas mentais, escrevendo-as pela mão da médium. Essas respostas eram sempre exatas e satisfatórias.

Digamos ainda que a médium e o senhor de quem se trata não se conheciam absolutamente e que a médium até àquela ocasião nunca tinha visto empregar os sinais do alfabeto dos surdos-mudos.”




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