Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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B – Verificação da personalidade de um morto por comunicações dadas no estilo característico do morto, ou por expressões particulares, que lhe eram familiares, recebidas na ausência de pessoas que conheciam o morto


Esta categoria é o corolário da precedente, cujos casos, se bem que mui preciosos, são raros e, além disso, apresentam caráter fugitivo, apenas tangível, e não deixam provas objetivas e duradouras, a menos que as palavras em língua desconhecida do médium tenham sido estenografadas imediatamente.

A maior parte das comunicações recebem-se naturalmente em língua conhecida do médium, o que não impede que apresentem algumas vezes particularidades tão características que o cunho da personalidade não pode ser desprezado. No item 4 do capítulo III citei um caso extraordinário dessa natureza no fato da conclusão do romance de Charles Dickens, deixado por acabar, e completado depois de sua morte pela mão de um jovem médium iletrado; o romance completo está impresso e quem quiser pode julgar se a segunda parte não é digna da primeira. Não só todo o enredo do romance é seguido e a ação é levada ao êxito com mão de mestre, de maneira tal que a crítica mais severa não poderia dizer onde termina o manuscrito original e onde começa a parte mediúnica, e, ainda mais, muitas particularidades de estilo e de ortografia dão testemunho da identidade do autor.

Eis ainda um caso de natureza inteiramente privada que possuo de primeira fonte. Ele me foi referido por minha amiga, a jovem B. Pribitkow, da qual já tive ocasião de falar por muitas vezes. Ela se achava certa noite em casa da Princesa Sofia Schahofskoy (sogra de meu amigo e colega de liceu, o Príncipe Alexandre Schahofskoy); era em São Petersburgo, em 1874. A jovem B. Pribitkow é um pouco médium, e a princesa organizava com ela, de tempos em tempos, pequenas sessões por meio da prancheta. Uma pessoa a quem ela conhecia, o Sr. Foustow (a quem conheço também), foi visitá-la naquela noite. O Sr. Foustow era gerente dos negócios do Príncipe Georges Sch., do Cáucaso, a quem não conheciam nem a princesa, nem a jovem de Pribitkow. Sabendo que essas senhoras se ocupavam com Espiritismo, ocorreu-lhe a lembrança de perguntar-lhes se elas podiam fazê-lo entrar em comunicação com o pai falecido do Príncipe Georges, ao qual ele tinha que pedir uma informação importante. Fez-se a experiência e, quando o pai do príncipe Georges se fez nomear, o Sr. Foustow perguntou-lhe que destino tivera uma grande soma de dinheiro que tinha desaparecido depois de sua morte. Sua resposta foi a seguinte: “O Que está perdido, está perdido; não me incomodo com isso: não é conveniente que Georges possua tão grande “tesouro”. A palavra russa empregada por tesouro (ou dinheiro) era kazna, o que significa, propriamente falando, “o tesouro da Coroa”; esta expressão surpreendeu muito aos assistentes, que nunca tinham ouvido dizer que ela fosse empregada em outro sentido.

Quando o Sr. Foustow comunicou essa resposta ao Príncipe Georges, este respondeu que o emprego da palavra kazna não o surpreendia, pois que seu pai era um homem do tempo antigo, um velho original, e que não designava o dinheiro de outra maneira a não ser por esta palavra.42

É inútil acrescentar aqui que tanto a médium quanto qualquer dos assistentes, e mesmo o Sr. Foustow, nunca tinham visto o morto, que tinha passado a vida e morrido na Geórgia. Fez-se ainda uma pergunta a respeito dos negócios privados do príncipe e recebeu-se uma resposta muito apropriada, e à qual os acontecimentos ulteriores corresponderam; mas como tais pormenores não se referem a esta categoria, julgo que é inútil reproduzi-los aqui.

Há pouco tempo pedi à jovem Pribitkow que fizesse certificar ainda uma vez esse fato pelo testemunho do Sr. Foustow, e ele próprio mo confirmou por escrito.

Algumas vezes uma palavra é bastante para estabelecer a identidade de uma pessoa, para uma outra que é a única que pode compreender o valor dessa palavra. Eis um fenômeno tão simples quão eloqüente, que ocorreu na ausência daquele a quem a experiência interessava. O respeitável literato S. C. Hall refere-nos o que se segue:

“Recebi pelo médium D. D. Home uma comunicação, da parte da filha de Robert Chambers, dizendo respeito a um negócio de família, de ordem muito íntima; quando ela me pediu que desse conhecimento dela a meu respeitável amigo o Sr. Chambers, recusei-me a fazê-lo, a menos que obtivesse alguma prova que pudesse convencê-lo de que era realmente o Espírito de sua filha quem me tinha falado. O Espírito respondeu-me: “Dize-lhe: papá, meu amor!” Perguntei ao Sr. R. Chambers que significava aquela expressão. Ele me respondeu que eram as últimas palavras de sua filha no momento de morrer, enquanto ele lhe levantava a cabeça acima do travesseiro. Considerei-me desde então autorizado a lhe dar parte da comunicação que me tinha sido transmitida para lhe ser dada.” (Light, 1883, pág. 437).

Por um acaso feliz, este fato se acha confirmado, de maneira inteiramente independente, pelo testemunho de outra pessoa que assistia àquela sessão; a testemunha é o Sr. H. F. Humphreys, que publicou sobre esse assunto um artigo intitulado Experiências de Espiritualismo no mesmo volume de Light (pág. 563).

Não posso deixar de mencionar aqui, ao menos a título de referência, uma comunicação recebida pelo juiz Edmonds da parte de um moço, vendedor de jornais, pela boca de sua filha em transe, e que constitui o assunto do Spiritual Tracts, número 3, intitulado: “O jovem vendedor de jornais”. A comunicação foi estenografada pelo juiz durante seu recebimento e é preciso lê-la para apreciar-se a habilidade característica dessa narração, de um garoto percorrendo as ruas de Nova Iorque.


C – Identidade da personalidade de um morto desconhecido do médium, verificada por comunicações dadas em escrita idêntica à que era conhecida durante a sua vida


Sou coagido a dizer que esta prova de personalidade excede a todas as da categoria “A”; a prova escrita é tão característica quanto a que é fornecida pela linguagem; mas, para o fim que nos propomos, a língua empregada nesta comunicação deve ser ignorada do médium. Além disso, se ela não foi dada por escrito, a prova documental nos falta; e, geralmente, essas comunicações em uma língua desconhecida do médium são transmitidas de viva voz, em linguagem corrente, o que constitui precisamente o seu valor. Aqui temos uma prova de personalidade igualmente comprobatória, mas com a vantagem de poder ela ser dada na língua materna do médium e de apresentar, além disso, um documento material, permanente, sempre ao alcance da crítica; e ainda mais, ela tem a vantagem de poder ser dada na presença da pessoa interessada.

Efetivamente, eu nego com resolução que a escrita de um morto desconhecido do médium possa ser reproduzida de maneira absolutamente idêntica por uma operação da consciência sonambúlica do médium, graças unicamente à presença de uma pessoa que tinha conhecido esse morto. Afirmo-o por duas razões: primeiramente, podemos reconhecer a escrita de uma pessoa a quem conhecemos, mas não poderíamos reproduzi-la de memória, mesmo por um esforço da nossa vontade; em segundo lugar, se a comunicação reproduzisse uma frase em que tivéssemos pensado, representando-nos a escrita que nos é familiar – o que teria podido ser tentado a título de experiência –, ter-se-ia podido ainda pretender que a frase foi reproduzida mecanicamente, ao mesmo tempo que a escrita, por transmissão de pensamento; porém, como se sabe, as comunicações recebidas têm seu próprio conteúdo e sua fraseologia própria. Não falo certamente de algumas palavras destacadas ou de assinaturas apresentando um fac-símile da escrita de seu autor – o que pode sempre prestar-se a contestação –, porém me refiro às comunicações mais ou menos longas ou freqüentes, provenientes da mesma pessoa morta, em sua escrita original. E esta prova deve, segundo penso, ser considerada como absolutamente concludente, pois que a escrita foi sempre considerada como um documento irrefutável da personalidade e como sua expressão fiel e constante.

A escrita é verdadeiramente uma espécie de fotografia da personalidade (veja-se o que eu disse mais acima sobre a grafologia e variações da escrita nas personificações hipnóticas, cap. III, item 3).

Quanto à possibilidade de escrever em escrita estrangeira, convém aplicar-lhe o mesmo argumento que para a faculdade de falar uma língua que não se conhece. As comunicações recebidas na escrita do morto são mencionadas aqui e ali na fenomenologia mediúnica, mas são raras. As referências que se fazem a esse respeito carecem de pormenores, e devemos contentar-nos com a opinião daqueles a quem elas eram dirigidas; sendo sempre de ordem reservada, é natural que não sejam dadas à publicidade; além disso, para servir de prova documental de identidade da escrita, elas deveriam ser publicadas com fac-símile da escrita da pessoa antes e depois da morte; porém, raramente se preocupam em dar tal prova, que aliás é bastante dispendiosa. Algumas vezes, entretanto, essas provas ou esses pormenores foram fornecidos e é dessas experiências completas que falarei.

As mais importantes dentre essas comunicações são certamente as que foram recebidas pelo Sr. Livermore, da parte de sua finada mulher, Estela, no decurso das numerosas sessões que fez com Kate Fox, durante muitos anos, de 1861 a 1866. Mais adiante o leitor encontrará (no item 8) todas as informações publicadas acerca dessas notáveis sessões, das quais só menciono aqui as que se referem às comunicações. Elas foram, ao todo, em número de cem, mais ou menos, traçadas em papel que o próprio Sr. Livermore marcava e trazia, e foram todas escritas não pelo médium (cujas mãos o Sr. Livermore segurava durante toda a sessão), porém diretamente pela mão de Estela e algumas vezes mesmo sob os olhos do Sr. Livermore, à luz espirítica criada ad hoc, luz que lhe permitia reconhecer perfeitamente a mão e até toda a forma daquela que escrevia. A escrita dessas comunicações é uma perfeita reprodução da escrita da Sra. Livermore quando viva.

Em uma carta do Sr. Livermore ao Sr. B. Coleman, de Londres, com quem ele fizera conhecimento na América, lemos:

“Finalmente acabamos de obter cartas datadas. A primeira desse gênero, datada de sexta-feira, 3 de maio de 1861, era escrita mui cuidadosamente e mui corretamente, e a identidade da escrita de minha mulher pôde ser estabelecida de maneira categórica por meio de comparações minuciosas; o estilo e a escrita do “Espírito” são para mim provas positivas da identidade do autor, ainda quando se deixem de lado as outras provas ainda mais concludentes, que eu obtive.”

Mais tarde, em outra carta, o Sr. Livermore acrescenta:

“Sua identidade foi estabelecida de maneira a não deixar subsistir a sombra de uma dúvida: a princípio por sua parecença, depois por sua escrita e finalmente por sua individualidade mental, sem falar de numerosas outras provas que seriam concludentes em casos ordinários, das quais não fiz menção, salvo como prova em apoio.”

O Sr. Livermore, enviando algumas dessas comunicações originais ao Sr. Coleman, tinha-lhe mandado também espécimes da escrita de Estela, quando viva, para compará-los, e o Sr. Coleman julga os primeiros “absolutamente semelhantes à escrita natural”. (B. Coleman – O Espiritualismo na América, Londres, 1861, págs. 30, 33, 35). Os que possuem cartas de Kate Fox podem convencer-se de que sua escrita nada tem de comum com a das comunicações da Sra. Livermore.

Além desta prova intelectual e material, encontramos ainda outra em muitas comunicações escritas por Estela em francês, língua completamente desconhecida da médium. Eis a esse respeito o testemunho decisivo do Sr. Livermore:

“Uma folha de papel que eu próprio tinha trazido foi retirada de minha mão e, depois de alguns instantes, me foi visivelmente restituída. Eu li nela uma comunicação admiravelmente escrita em francês correto, de que a Sra. Fox não conhecia uma palavra.” (Owen, The Debatable Land, Londres, 1871, pág. 390).

E em uma carta do Sr. livermore ao Sr. Coleman, leio ainda:

“Recebi também, não há muito tempo, muitas outras cartas escritas em francês. Minha mulher conhecia perfeitamente o francês; escrevia-o e falava-o corretamente, ao passo que a jovem Fox não tinha a menor noção da dita língua.” (O Espiritualismo na América, pág. 34).

Encontramos aqui uma dupla prova de identidade: ela é verificada não só pela escrita em todos os pontos semelhante à da pessoa morta, mas ainda pelo fato de ser feita em língua desconhecida da médium. O caso é extremamente importante e apresenta aos nossos olhos uma prova de identidade absoluta.

Os fac-símiles desse gênero que foram publicados são pouco numerosos. Entretanto, existe um livro intitulado Doze mensagens do Espírito de John Quincy Adams a seu amigo Josiah Brigham, por Joseph D. Stiles, médium, impresso em 1859. Ao prefácio são anexados fac-símiles dos escritos de Adams e de sua mãe, antes e depois de sua morte, que apresentam notável semelhança; o fac-símile da escrita normal do médium encontra-se do mesmo modo na dita obra. Encontramos no Spiritualist de 1881, II, página 111, uma notícia sobre essa obra, devida ao Sr. Emmette Coleman, que não é conhecido como crítico indulgente e que externa a conclusão seguinte:

“Este livro é único na literatura espírita, e a meu ver contém provas concludentes da identidade da Inteligência que é autora dessas comunicações, tendo as provas interiores e materiais um valor igual sob esse ponto de vista.”

No Spiritual Record de 1884, páginas 554 e 555, encontro os fac-símiles de uma comunicação recebida pelo Dr. F. L. Nichols, da parte da sua finada filha Willie, pela escrita direta entre duas ardósias. Ela é perfeitamente idêntica ao espécime da escrita de Willie, quando viva, e não tem semelhança alguma com a escrita do médium Eglinton, espécime do qual é anexo. Outro fac-símile de uma comunicação de Willie encontra-se no mesmo jornal do ano de 1883, página 131. Eis aí tudo quanto encontro, por ora, em meu registro, a respeito de semelhantes fac-símiles.

Desde que o processo da escrita direta foi simplificado e facilitado pelo emprego das ardósias, esse fenômeno, batizado com o nome de psicografia, tornou-se muito constante, e os casos de identidade de escrita foram referidos com mais freqüência; faltam somente os fac-símiles justificativos. Como exemplo, citarei uma experiência que traz em si, além da prova exterior da escrita, uma prova interior característica. Eis o fato que o Sr. J. J. Owen publicou no Religio Philosophical Journal de 26 de julho de 1884, e que tiro de Light de 1885 (pág. 35), onde foi reproduzido. Abrevio essa narração, dando completamente a palavra ao próprio Sr. Owen:

“Há cerca de doze anos eu contava no número de meus amigos íntimos um senador da Califórnia, muito conhecido e que era diretor de um banco próspero em São José. O Dr. Knox – é seu nome – era um pensador profundo e partidário resoluto das teorias materialistas. Ele estava acometido de uma afecção pulmonar progressiva e, sentindo aproximar-se seu fim, falava freqüentemente do sono eterno que o esperava, e com ele o esquecimento eterno. Ele não temia a morte.

Certo dia eu lhe disse: “Façamos um pacto, doutor: se, lá em cima, vos sentirdes viver, fareis a diligência possível de comunicar-me as palavras seguintes: Eu vivo ainda.” Ele me fez esta promessa solenemente... Depois de sua morte, eu esperava impacientemente que me desse notícias suas. Esse desejo se acentuou mais com a chegada à nossa cidade de um médium de materializações, vindo do oriente da América. Eu tinha absoluta confiança no caráter sério desse médium; ele declarou que podia às vezes obter provas de identidade por meio da escrita direta, sobre uma ardósia, e propôs-me tentar a experiência, pois que se oferecia ocasião... Limpei uma ardósia, coloquei em cima um lápis, de ardósia também, e conservei a dita ardósia de encontro à face inferior da mesa.43 O médium colocou uma das mãos em cima de uma das minhas, por baixo da mesa, e a outra em cima do móvel. Ouvimos o ranger do lápis atritando a ardósia e, retirando-a, nela encontramos as linhas seguintes:

“Amigo Owen:

Os fenômenos que a Natureza nos oferece são irresistíveis, e o pretendido filósofo, que luta freqüentemente com um fato que se opõe diretamente às suas teorias favoritas, acaba por ser lançado em um oceano de dúvida e de incerteza. Não é precisamente o caso que se dá comigo, se bem que minhas antigas idéias acerca da vida futura estejam presentemente transformadas por completo; entretanto, confesso-o, minha desilusão foi agradável e eu sou feliz, meu amigo, por poder dizer-te: Vivo ainda.

Sempre teu amigo



Wm. Knox.”

Convém notar que o médium de quem se trata foi a Califórnia três anos depois da morte de meu amigo, que nunca o tinha conhecido e que a escrita da comunicação era a tal ponto igual à de meu amigo morto, que foi reconhecida como sua pelo pessoal do Banco a que ele presidira.”

Se não tivesse havido identidade de escrita, teríamos podido explicar esse caso, como tantos outros, pela transmissão de pensamentos; mas, nessas condições, a manifestação torna-se pessoal.

Relativamente a comunicações transmitidas pelo mesmo processo, porém em grande quantidade, da parte de uma só e mesma pessoa, apenas conheço o caso notável da Srta. Mary Burchett, que ela mesma refere em Light de 1884 (pág. 471) e 1886 (págs. 322, 425). No decurso de dois anos ela recebeu cerca de cinqüenta comunicações com a escrita de um amigo íntimo, falecido em 1883. Em vida ele não acreditava mais do que o Sr. Knox “na possibilidade de uma vida depois da morte”; e é por isso que diz em sua segunda comunicação: “É uma revelação, quer para mim, quer para ti; não ignoras quão refratário eu era a qualquer fé em uma existência futura.”

Anteriormente à minha viagem a Londres, em 1886, escrevi à Srta. Burchett e fiz-lhe diversas perguntas, às quais respondeu bondosamente pela carta seguinte, que contém numerosos pormenores inéditos:

“The Hall, Bushey, Herts (Inglaterra), 20 de maio de 1886.

Senhor:

Lamento não poder fazer jus ao desejo que externaste de possuir alguns espécimes da escrita póstuma e natural de meu amigo falecido, visto que as mensagens que me dirigiu, sendo de ordem puramente pessoal, são sagradas para mim. Além disso, ele me pediu por muitas vezes que não as mostrasse a ninguém. Quanto às perguntas que me fazes, responderei a elas com a maior boa vontade.



1) Relativamente à escrita de meu amigo: até hoje recebi dele trinta e quatro cartas, pela mediunidade do Sr. Eglinton; as duas primeiras eram escritas em ardósias, todas as outras em papel. Uma dessas cartas é escrita em uma folha de papel de carta que eu tinha colado pelos ângulos, com um pouco de goma, em uma das ardósias, de maneira que pudesse ser retirada sem dificuldade (veja-se Light, 1884, pág. 472). Quanto ao que diz respeito a algumas das primeiras cartas, se bem que a sua escrita se assemelhasse muito à de meu amigo e que sejam concebidas em estilo e linguagem que lhe eram próprios, descobri nelas ao mesmo tempo certa semelhança com a escrita de Ernesto, um dos Espíritos-guias do médium, o que me desorientou um pouco. Mas essa vaga semelhança não tardou a diminuir gradualmente e acabou por desaparecer inteiramente: e então a escrita das comunicações se tornou igual à de meu amigo, em vida, tanto quanto uma escrita a lápis pode assemelhar-se a que é feita com uma pena. Meu amigo era austríaco de nascimento e sua escrita, notavelmente bela e fina, tinha o cunho de sua origem alemã.

2) Todas as comunicações, à exceção de uma, são escritas em inglês, com muitas frases em língua alemã. Durante sua vida, ele tinha igualmente o hábito de escrever-me em inglês. Em vésperas do Natal, em 1884, recebi, com grande surpresa, uma carta em alemão, escrita com caracteres góticos muito belos e de estilo impecável.44 Experimentando alguma dificuldade em compreender o alemão, pois que naquela época eu só conhecia essa língua imperfeitamente, externei o meu pesar pelo fato de ser a carta em alemão, acrescentando que teria desejado muito receber algumas linhas em minha língua materna. O Sr. Eglinton propôs bondosamente fazer a experiência. A folha só estava escrita de um lado; ele a voltou do lado oposto sobre a ardósia, que seguramos da maneira habitual, e pouco tempo depois ouvi o ranger do lápis e encontrei algumas palavras apenas, em inglês, no estilo habitual.45

3) Essas comunicações contêm alusões tão numerosas à sua vida na Terra, que bastaram para convencer-me de sua identidade, sem que eu tivesse tido necessidade de outras provas que, entretanto, não faltavam. Talvez o senhor tenha lido no livro de J. Farmer: Between two Worlds (Entre dois Mundos; a vida e os atos de W. Eglinton) (Londres, 1886, pág. 167), a história de uma materialização notável. Foi eu quem a comunicou.46 Em uma de suas primeiras cartas encontrei uma prova notável: ele me nomeou, incidentemente, um lugar na Alemanha, e lembro-me então de que ele me dissera tê-lo visitado. É um nome muito esquisito e eu nunca o ouvi citar, nem antes nem depois. Certo dia em que eu estava sentada, só, em uma sessão de escrita automática – desde o último outono, desenvolvi em mim essa faculdade, em grau ainda fraco –, fiz alusão a esse fato e perguntei a meu amigo se queria escrever, por minha mão, o nome do país em que se achava esse lugar. Esforcei-me por tornar minha mão tão passiva quanto possível, a fim de não exercer influência alguma sobre a resposta, contudo eu esperava ler “Áustria” ou “Hungria”. Com grande surpresa, minha mão escreveu lentamente o nome de uma cidade, e então me lembrei de que no decurso da conversação mantida com ele, quando lhe fiz observar a consonância extravagante dessa palavra, ele me dissera que esse lugar se achava perto da cidade de D. Eu sempre considerei esse incidente como muito curioso, se bem que na espécie não apresentasse muita importância.47

Aceite, etc.,



Mary Burchett.”

Falta-me acrescentar que, depois de minha estada em Londres, em 1886, aproveitei-me da ocasião que se me apresentava de fazer conhecimento com a Srta. Burchett. Como se pode pensar, ela me confirmou o que precede e mostrou-me espécimes da escrita de seu amigo, antes e depois de sua morte; mas não me foi permitido ler o seu conteúdo, de maneira que não pude examinar e comparar as duas escritas tão cuidadosamente quanto teria desejado; pude comparar somente a maneira pela qual estava escrito o artigo the, e julguei-a idêntica; quanto ao restante, verifiquei uma semelhança no aspecto geral das duas escritas; mas semelhança não é identidade e, demais, a escrita a lápis difere sempre um pouco da escrita à tinta.

Eis outro exemplo em que a falta de fac-símile é compensada até certo ponto por alguns pormenores precisos que nos são fornecidos acerca da forma de algumas letras, circunstância que nos prova que a comparação das escritas foi feita com cuidado.

Esta experiência é publicada in extenso em Light de 1884 (pág. 397). Só darei aqui o resumo: O Sr. A. J. Smart (autor do artigo) morava, desde sua estada em Melbourne (Austrália), em casa do Sr. Spriggs, médium bastante conhecido. Eles ocupavam o mesmo quarto.

A 27 de março daquele ano (1884), acabando ambos de deitar-se, o Sr. Smart notou que seu amigo tinha caído em transe subitamente. Depois de ter trocado algumas frases com os invisíveis, por meio de pancadas, aqueles anunciaram que “se estava em condições de escrever” e que era preciso “verificar dentro de dez minutos”. Pouco depois o médium voltou a seu estado normal, e acendeu-se a vela. Em cima de uma mesa, colocada a alguma distância do leito, o Sr. Smart encontrou uma comunicação, em nome de sua mãe, falecida no mês de fevereiro passado, escrita à tinta, em uma folha de papel, e concebida nos seguintes termos:

“Caso Alfredo:

Harriet acaba de escrever-lhe para lhe anunciar que eu deixei a Terra. Eu estava satisfeita por partir. Sou feliz. Falar-lhe-ei em breve. Dize a Harriet que eu vim. Deus te abençoe. – Tua mãe sempre afeiçoada.”

Eis as observações que o Sr. Smart fez em relação à escrita:

“Comparei minuciosamente a escrita dessas comunicações com as cartas escritas por minha mãe, enquanto viva, letra por letra, palavra por palavra. Efetivamente, verifiquei que além da semelhança perfeita do aspecto geral da escrita, que salta aos olhos de qualquer pessoa, à primeira vista, havia identidade completa no talho das letras das palavras, assim como na composição das frases. Ali, como aqui, se encontra a maneira antiga de escrever a letra r, o hábito (pouco comum) de começar a palavra “afeiçoado” por uma maiúscula, de voltar à esquerda e não à direita a perna do primeiro f dessa palavra e, coisa particularmente notável, as duas escritas denotam o hábito de escrever todas as letras separadas, em vez de ligá-las, e hábito que minha mãe tinha contraído em conseqüência de uma fraqueza no braço direito, ocasionada por uma entorse. E omito muitos outros pontos de semelhança, evidentes para a vista, mas difíceis de definir. Quanto ao estilo, no qual a comunicação é redigida, é caracterizado pela mesma concisão que lhe era própria durante a vida.”

O diretor do Harbinger of Light (Mensageiro da Luz), jornal de Melbourne onde apareceu o artigo do Sr. Smart, acrescenta por sua vez:

“Vimos a comunicação em questão e comparamo-la com muitas outras cartas autênticas da Sra. Smart. Achamo-las idênticas e todas as particularidades da composição ali se reproduzem.”

O lado fraco dessa narração, no ponto de vista da hipótese de uma fraude, é que o Sr. Smart e o médium estavam intimamente ligados por amizade e que este último pôde ter entre mãos as cartas da Sra. Smart.

A identidade de uma escrita ante mortem e post mortem só poderia ser estabelecida de maneira absoluta se a comunicação se tivesse dado na ausência de qualquer pessoa que conhecesse a escrita do morto. Em meu Índex ou Registro, não encontro um só exemplo de uma comunicação inteira desse gênero que corresponda a essas condições, do princípio ao fim; mas posso citar casos em que a escrita obtida foi absolutamente idêntica à do morto, pela forma de certas letras do alfabeto. Submeto ao leitor um fato tirado de minha experiência pessoal.

Durante um período de dois ou três anos, organizei habitualmente sessões de escrita automática com minha mulher, que era médium; ninguém era admitido a essas experiências, à exceção do professor Boutlerow, que nelas tomava parte, de vez em quando. Delas falei mais acima. No começo, empregávamos a prancheta, porém deixamo-la em pouco tempo, notando que me bastava colocar a mão em cima da mão direita da de minha mulher, que segurava no lápis, para que ela adormecesse, no fim de 10 a 15 minutos, e pouco tempo depois sua mão começava a escrever. Eu nunca fazia evocação de espécie alguma, nem formulava qualquer pedido: esperava simplesmente e, quando aparecia uma escrita, eu fazia perguntas em relação com a mensagem, de viva voz; o lápis traçava as respostas e o diálogo continuava assim até o momento em que o lápis caía da mão de minha mulher.

Ora, o outono do ano de 1872 foi extremamente penoso para mim; voltando a São Petersburgo, da cidade de Oufa, corri o risco de afogar-me no rio Cama, em conseqüência de um abalroamento de vapores. Era noite, e quinze minutos depois do choque o navio a bordo do qual eu me achava ia-se afundando. Por felicidade, eu viajava sozinho. Chegando em são Petersburgo, soube que a casa em que vivia meu velho pai, em sua propriedade, Governo de Penza, tinha sido presa das chamas e que a mobília fora destruída pelo incêndio, inclusive os arquivos da família e uma bela coleção de livros que meu pai e eu tínhamos levado cinqüenta anos a organizar. Diante de tal notícia, resolvi partir de novo dentro de poucos dias, para ir ter com meu pai e auxiliá-lo a sair-se de embaraços.

Na véspera de minha saída de São Petersburgo, tive a lembrança de fazer uma sessão de escrita mediúnica, curioso de saber se haveria uma comunicação que se referisse à minha viagem projetada. Assim não sucedeu: logo que minha mulher adormeceu, obtive a comunicação seguinte, de mão firme e desembaraçada, que não era a escrita habitual de minha mulher:

“Estou aflito por causa de meu rebanho, sofro por ele, com meu filho Dieu-donné, que procurava os caminhos do Senhor.

Nicolau, sacerdote.”

Eu não pude penetrar no sentido de tais palavras e pedi esclarecimento. Em resposta obtive as linhas seguintes:

“É em vão, senhor, que pensas em uma advertência; a coisa era impossível, porque ela teria podido fazer evitar o que aconteceu; ora, isso era inevitável; estava predeterminado pela Providência misericordiosa para o bem da alma... que tem necessidade de preces a todo custo!...”

À pergunta que fiz em relação à minha viagem, recebi a resposta seguinte:

“Teu sacrifício é grande, mas é indispensável.”

Quando minha mulher voltou a si, pusemo-nos a decifrar a mensagem, fazendo conjecturas quanto à sua proveniência. Concluímos, finalmente, que o sacerdote Nicolau não poderia ser outro senão o finado sogro do cura da paróquia de Repiovka, na propriedade de meu pai, e onde este morava permanentemente. E eis por que a mulher do sacerdote atual da nossa paróquia rural tem o nome de Olga Nicolaïevna (filha de Nicolau); sabíamos, além disso, que seu pai tinha sido sacerdote da mesma paróquia, que ele a tinha cedido a seu genro, segundo o uso adotado na Rússia. Além disso, o sacerdote Nicolau tinha sido o confessor de meu pai. Havia, pois, todo o fundamento para acreditar-se que era ele o autor da comunicação que nos tinha sido transmitida. Desde então tivemos a explicação de ter ele designado seu sucessor como “filho Dieu-donné”. Quanto às palavras “Estou aflito, etc.” e restante da comunicação, têm significação inteiramente íntima, que não posso divulgar, mas que no-las tornava perfeitamente compreensíveis. As palavras: “É em vão que pensas em uma advertência” referiam-se provavelmente a um pensamento que eu tinha externado certo dia, noutra ocasião, dizendo que no caso de não ser o fogo proveniente de um acidente, mas obra de um incendiário, os agentes invisíveis bem teriam podido prevenir os interessados.

A comunicação acima apresenta duas singularidades: em primeiro lugar, seu estilo antigo, que tem curso nos seminários e que ninguém mais emprega atualmente; nunca nos teria ocorrido a lembrança, a mim ou à minha mulher, de fazer uso dessas expressões e circunlóquios (que são absolutamente intraduzíveis); em segundo lugar, o próprio caráter da escrita, por certos traços particulares, que me impressionaram: é uma espécie de miscelânea da escrita de minha mulher e da escrita de uma pessoa estranha; certas letras tinham forma inteiramente diversa da que minha mulher usava.

Desejei ardentemente comparar essa escrita com a do sacerdote Nicolau, a quem eu conhecera ainda muito moço, quando eu ia passar as férias em nossa propriedade. Ele faleceu em 1862, mas, desde 1851, tendo encontrado um substituto, na pessoa de seu genro, não mais tinha morado em Repiovka. Eu nunca vira escrito algum de sua mão; quanto à minha mulher, nunca o conhecera. Pedi, pois, a seu “filho Dieu-donné” que me mostrasse algumas de suas cartas ou outros papéis autógrafos; ele, porém, não conseguiu encontrar outra coisa além de uma página de antigo almanaque na qual seu sogro tinha feito alguns apontamentos. Ele arrancou a folha e enviou-ma. Essa simples folha me fornecia elementos preciosos para a comparação das duas escritas. Muitos anos depois, em 1881, eu mesmo fiz pesquisas nos arquivos da igreja, e consegui encontrar páginas inteiramente escritas pela mão do reverendo padre Nicolau. Comparei esses manuscritos com a comunicação que tínhamos recebido e verifiquei os pormenores seguintes:

Na comunicação, a letra russa correspondente ao “l” latino é sempre escrita com a letra grega lambda.

No manuscrito do padre Nicolau, essa letra tem, ora a forma adotada pelo alfabeto russo, ora a forma grega. Em uma folha do registro dos óbitos, a assinatura do “padre Nicolau” é repetida 35 vezes; em 8 casos a letra “l” é feita à maneira russa e em outros 27 como um lambda.

Minha mulher nunca a escreveu com essa última forma.

A letra “d” (correspondente à mesma letra do alfabeto latino) é escrita na mensagem, invariavelmente, como um “g” latino, como faziam outrora.

Nos manuscritos, encontrei essa letra também escrita de duas maneiras: mas a forma “g” predomina, só raramente se encontrando a outra. Tenho sob os olhos uma página de manuscrito in-fólio, onde a letra “d” é repetida 44 vezes, 3 vezes das quais sob a forma de um “g”.

Minha mulher nunca escreveu o “d” como um “g” latino.

Deixo de lado outras particularidades menos acentuadas; por exemplo: a maneira de escrever a letra russa correspondente ao “b” latino: minha mulher traçava a curva superior sempre para cima, ao passo que na comunicação, bem como nos autógrafos do padre Nicolau, ela é sempre dirigida para baixo, como na letra grega delta.

A que atribuir essa concordância singular na maneira de escrever essas letras? Importa encontrar-lhe uma explicação plausível. Seria muito fácil pretender que a consciência sonambúlica da médium, penetrando na vida íntima de um velho sacerdote, tenha empregado uma caligrafia antiquada; o emprego do gama não caiu completamente em desuso, e o “d” antigo escrevia-se quase sempre como um “2” com a curva inferior por baixo da linha, e só raramente o encontramos sob a forma “g”.

Não se trata, por conseguinte, da imitação de um gênero de escrita; a questão que se apresenta é saber por que razão a forma dessas letras concorda com a que o padre Nicolau tinha adotado.

Em Light (1887) há um artigo intitulado “Self-proving Messages” (Mensagens que contêm sua prova em si mesmas), no qual encontramos, à página 107, um exemplo análogo ao que precede, isto é, em que a escrita da mensagem se assemelha à escrita ante mortem da personalidade em nome da qual a mensagem é transmitida, pela forma de algumas letras apenas (o autor dá a descrição das ditas letras); o médium nunca tinha visto essa escrita. O artigo não menciona se a experiência foi feita na ausência da pessoa que conhecia o morto.




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