Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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E – Identidade da personalidade de um morto verificada pela comunicação de fatos que só puderam ser conhecidos pelo próprio morto e que somente ele podia comunicar


Por certas particularidades, o caso de Violeta teria podido ser classificado sob esta categoria, do mesmo modo que certos casos citados no item 8 do capítulo III, como por exemplo o caso certificado pela junta da Sociedade de Dialética, relativo ao irmão da dona da casa onde se davam as sessões, o qual, falecido quatorze anos antes, se lhe manifestou para informá-la de que ela não tinha herdado absolutamente o bem que lhe tocava, e que seus executores testamentários tinham-na privado de uma parte dessa herança; esse fato foi reconhecido como exato.

O caso do Dr. Davey refere-se à mesma categoria: o leitor deve recordar-se que seu filho, falecido a bordo, manifestou-se-lhe no decurso de uma sessão, para dizer-lhe que tinha falecido não de moléstia, como dizia o relatório do comandante, mas que fora envenenado e que o comandante não restituíra todo o dinheiro que se achava em seu poder – fato igualmente reconhecido como exato.

Sob a mesma categoria mencionei um fato que se deu à minha vista e do qual darei aqui a narração completa, conforme foi publicado nas Memórias da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres (1890, tomo XVI, páginas 353-355); trata-se da descoberta do testamento do Barão Korff.

Desejando expor este fato com o maior número possível de pormenores, dirigi-me ao Barão C. N. Korff, meu colega, o qual me respondeu que eu podia obter as informações mais exatas do Barão Paulo Korff, filho do falecido, que habitava em Petersburgo. Eis o que este último me referiu:

Seu pai, o General Paulo Ivanovitch Korff, faleceu em Varsóvia a 7 de abril de 1867; sabia-se que tinha feito um testamento, mas não foi possível encontrá-lo por ocasião de seu falecimento, a despeito das mais minuciosas pesquisas. Em julho de 1867, a irmã do Barão Korff filho, a Baronesa Carlota Wrangel, morava com a irmã de seu marido, a Sra. Oboukhof, em Plotzk, perto de Varsóvia. Sua mãe, a viúva do General Korff, achava-se nessa ocasião no estrangeiro; ela tinha o hábito de mandar a filha abrir sua correspondência. Dentre essas cartas havia uma do Príncipe Emílio Wittgenstein, que também estava no estrangeiro. Ele lhe participava, nessa carta, ter recebido em nome do marido dela, falecido, uma comunicação espirítica indicando o lugar onde se achava o testamento.

A Sra. Wrangel bem sabia que a ausência desse testamento era a causa de muitos dissabores para seu irmão mais velho, o Barão José Korff (falecido depois), o qual tinha sido incumbido de dirigir a liquidação da herança e achava-se naquela ocasião em Varsóvia; por conseguinte, ela se dirigiu imediatamente para onde ele se achava, levando em companhia sua cunhada para lhe dar parte do conteúdo, tão importante, da carta do Príncipe Wittgenstein. As primeiras palavras de seu irmão foram que ele acabava de encontrar o testamento e, pela leitura da carta do Príncipe Wittgenstein, verificou-se, com surpresa geral, que o lugar indicado na comunicação mediúnica era realmente o mesmo em que o barão o tinha encontrado.

O Barão P. Korff filho prometeu-me procurar essa carta do Príncipe Wittgenstein que ele tinha tido entre mãos dois anos antes, quando classificava papéis de família; até hoje não tornou a encontrá-la e receia tê-la destruído juntamente com papéis inúteis.

Quanto à data da dita carta, obtive as informações seguintes: o casamento da Baronesa Carlota Korff com o Barão Wrangel foi celebrado em Varsóvia a 5/17 de junho de 1867; uma semana depois, a Baronesa Wrangel dirigiu-se a Plotzk, acompanhada por seu marido e por sua cunhada, a Sra. Oboukhof, e sua mãe partiu para o estrangeiro. Nessa ocasião o testamento ainda não tinha sido encontrado. Ora, desde que a carta, reproduzida abaixo, dirigida pelo Príncipe Wittgenstein a seus parentes, e na qual ele lhes dá parte da descoberta do testamento por via espirítica, é datada de 5 de julho de 1867, segue-se daí que a carta do Príncipe W. à viúva Sra. Baronesa Korff, fazendo menção da comunicação espirítica, e, por conseguinte, a própria comunicação, foram recebidas entre 5 de junho e 5 de julho de 1867.

No que diz respeito ao lugar em que o testamento foi encontrado, interroguei o Barão P. Korff filho para saber se era com efeito no armário, assim como a comunicação o tinha anunciado. Ele respondeu: “Ambos, minha irmã e eu, o entendemos assim.”

Documentos em apoio

I – Enquanto eu me ocupava com esse caso, as Memórias e Correspondência do Príncipe de Sayn-Wittgenstein Berlesbourg (livro que acabava de ser editado em Paris, em 1889) me caíram sob os olhos e eu encontrei na página 365, tomo II, a carta seguinte:

“Varsóvia, em 5/17 de julho de 1867.

Há séculos, meus caros pais, que não tenho notícias suas; a última carta de mamãe era datada de 5 de junho.

Ocupei-me muito com o Espiritismo nestes últimos tempos e minhas faculdades mediúnicas desenvolveram-se de maneira admirável. Escrevi por muitas vezes com bastante facilidade em diferentes espécies de escrita; tive diretamente comunicações do Espírito que aparece em Berlesbourg, uma mulher de nossa casa que se suicidou há cento e dois anos. Obtive ainda um resultado muito curioso. Um de meus amigos, o Tenente-General Barão de Korff, falecido há poucos meses, manifestou-se a mim (sem que eu pensasse nele absolutamente), para pedir-me que indicasse à sua família o lugar em que, por malevolência, tinham escondido o seu testamento, isto é, em um armário da casa em que ele faleceu. Eu não sabia se procuravam seu testamento e que não o tinham encontrado. Ora, descobriram-no no próprio lugar que o Espírito me tinha indicado. É um documento extremamente importante para a gestão de suas terras e para as questões a resolver por ocasião da maioridade de seus filhos. Eis aí fatos que desafiam qualquer crítica...

Até logo, meus caros pais; eu os abraço.



Emílio Wittgenstein.”

II – Carta do Barão Paulo Korff filho e de sua irmã à Baronesa Carlota Wrangel, dirigida ao Sr. Alexandre Aksakof, para confirmar a narração que precede, e cujos originais foram enviados ao Sr. Myers, secretário da Sociedade de Pesquisas psíquicas, em Londres, a 27 de fevereiro de 1890.

“Senhor:

Li com grande interesse sua comunicação publicada no Psychische Studien de 1889, na página 568, e relativa ao testamento do finado meu pai. Os fatos que o senhor cita são absolutamente exatos, mas receio ter queimado a carta do Príncipe Wittgenstein quando há dois anos classifiquei os papéis de meu pai.

Aceite, etc.

São Petersburgo, 29 de janeiro de 1890.



Barão Paulo Korff.”

“Junto minha assinatura à de meu irmão, para confirmar o que ele disse.



Baronesa C. Wrangel, Korff de nascimento.”

Os casos em que os mortos vêm auxiliar, por suas indicações, a regularização de seus negócios terrestres são muito freqüentes. Eis outro desse gênero, tão simples quanto concludente, e que eu tiro, do mesmo modo, de Dale Owen, que o possui de primeira mão e cuja narração ele publicou em seu livro The Debatable Land, sob o título: “Um morto que vem pôr em ordem seus negócios terrestres”. Esse artigo não pode ser abreviado, pois que seu valor principal está nos pormenores. Reproduzo-o, por conseguinte, na íntegra:

“A Sra. G., mulher de um capitão das tropas regulares dos Estados Unidos, morava, em 1861, na cidade de Cincinnati, com seu marido. Naturalmente, ela tinha ouvido falar por mais de uma vez de fenômenos espíritas; porém até então evitara sempre fazer experiências por si mesma, convicta como estava de que procurar comunicar-se com o outro mundo era um pecado. Ela nunca se tinha achado em presença de um médium profissional.

Sucedeu que naquele ano uma de suas amigas, a Sra. S., descobrira possuir a faculdade de provocar comunicações por meio de pancadas, e de vez em quando organizava sessões espiríticas com alguns amigos, nas quais a Sra. G. também tomava parte. Essas sessões duraram até o fim do ano de 1862 e deram em resultado vencer, até certo ponto, a aversão que a Sra. G. experimentava pelo Espiritismo. Elas despertaram sua curiosidade, sem que, entretanto, a convencessem.

Em dezembro de 1863, o irmão de seu marido, “Jack” (como lhe chamavam em família), morreu subitamente.

Em março de 1864, a Sra. G., que vivia retirada em uma casa de campo, nos arredores de Cincinnati, recebeu a visita de uma amiga, a Srta. L. B. Esta moça era dotada de certo poder mediúnico e a Sra. G. organizou uma sessão com ela. No fim de certo tempo, a moça deixou a mesa e a Sra. G. ficou só, continuando a experiência. Então a mesa, tocada de leve por suas mãos, começou a mover-se e dirigiu-se, pela porta aberta, ao aposento vizinho. Mais tarde deslocou-se em presença da Sra. G., mesmo sem o mínimo contato. Foi assim que a Sra. G. teve conhecimento de suas próprias faculdades mediúnicas.

Quando de novo se colocou diante da mesa, com a Srta. B., com o fim de obter frases por meio do alfabeto, as pancadas soletraram, de maneira inteiramente inesperada, o nome de “Jack”.

À pergunta da Sra. G.: “Desejas incumbir-me de alguma missão?”, obteve a resposta seguinte: “Dá este anel a Ana.”

Ana M. era o nome de uma jovem da qual o irmão da Sra. G. tinha sido noivo algum tempo antes de sua morte e a Sra. G. nada sabia a respeito daquele anel, mas recordou-se de que seu marido, depois da morte de seu irmão, tinha dado uma aliança de ouro, a única que o falecido usou, ao Sr. G., um amigo deste último. Ela perguntou se era realmente desse anel que se tratava, e a resposta foi afirmativa.

Alguns dias depois, a mãe de Jack foi visitá-los. Não lhe falaram da comunicação recebida. No decurso da conversação, essa senhora lhes disse que a jovem Ana M. tinha ido visitá-la e lhe referira que, depois de seus esponsais com Jack, ela lhe havia dado uma aliança de ouro e que desejaria muito vê-la outra vez. Nem a Sra. G. nem seu marido sabiam que o anel em questão era um presente da Srta. M., pois que Jack nunca falara nisso. Combinaram-se de maneira a poderem restituir o anel.

Depois da morte de Jack, três pessoas, G., C. e S., apresentaram-se separadamente em casa do Capitão G. e lhe declararam que seu irmão falecido lhes tinha ficado a dever dinheiro. O Capitão G. pediu-lhes que lhe dessem provas por escrito.

Entretanto, o Capitão G., não sabendo que quantias podiam ser devidas por seu irmão, pediu à sua mulher que fizesse uma sessão, na esperança de obter algumas informações a esse respeito.

Quando Jack se manifestou, seu irmão lhe perguntou:

– Ficaste devendo alguma coisa ao Sr. G.?

– Sim.

– Quanto?



– Trinta e cinco dólares.

– Deves alguma coisa ao Sr. C.?

– Sim.

– Quanto?



– Cinqüenta dólares.

– E ao Sr. S.?

– Nada.

– Entretanto, S. pretende que lhe deves dinheiro!



– Não é exato. Eu lhe tomei emprestado 40 dólares e pouco depois lhe dei 50. Ele me pagou 7 dólares somente e me deve 3 dólares, por conseguinte.

O recibo apresentado pelo Sr. G. era do valor de 35 dólares, com efeito; o de C. de 50. Quanto a S., ele mostrou uma cautela de 40 dólares. Observando-lhe o capitão que Jack já tinha pago 50 dólares, o Sr. S. manifestou um mau estar evidente e respondeu que não tinha tomado em consideração aquela quantia, supondo que era um presente para sua irmã.

Em outra ocasião, o capitão perguntou, por meio da mesa:

– Jack, tens ainda outras dívidas?

– Sim; devo a John Gr. 10 dólares por um par de calçados. (Nem o capitão, nem sua mulher tinham ouvido falar nessa dívida.)

– E alguém te deve?

– Sim; C. G. me deve 50 dólares.

O capitão indagou do Sr. G. se devia a seu irmão.

– Sim – foi a resposta –, eu lhe devo 15 dólares.

– Porém meu irmão lhe emprestou 50!

– É verdade, mas eu lhe restituí o dinheiro por prestações e lhe sou devedor ainda de 15 dólares.

– O senhor não tem os recibos?

O Sr. C. G. prometeu procurá-los; mas finalmente se apresentou e pagou 50 dólares.

Enfim, o Capitão G. dirigiu-se à casa de John Gr., sapateiro, o qual ainda não tinha apresentado conta. Desejando tornar o mais completo possível a prova, fez a pergunta nos seguintes termos:

– Ainda tenho uma conta a saldar, Sr. Gr.?

– Não; o senhor me pagou tudo.

O capitão fez gesto de partir; então o sapateiro replicou:

– Mas há uma pequena dívida por conta de seu irmão, o Sr. Jack.

– De quê?

– De um par de sapatos.

– Quanto é isso?

– Dez dólares.

– Eis aqui seu dinheiro, Sr. Gr.

Todos esses pormenores me foram fornecidos pelos próprios Sr. e Sra. G., durante uma visita que lhes fiz, em sua casa de campo, a 9 de abril de 1865. Inscrevi tudo conforme suas palavras e reconstituí a narração com as notas que tomara no lugar; em seguida fiz a sua leitura ao Capitão G., que a verificou e deu a sua aprovação. Ele inseria em seu jornal todas as comunicações que obtinha e tudo quanto se lhes referia de qualquer maneira, o que o colocava em condições de fornecer-me dados absolutamente exatos. Os nomes de todas as pessoas, que designei por iniciais, me são conhecidos; se não estou autorizado a publicá-los, esta falta se explica pelos preconceitos da nossa sociedade.”

Em todos os casos que acabo de citar, trata-se apenas de uma simplificação de método para um gênero de manifestação de além-túmulo que se produziu em todos os tempos e cuja comparação se impõe aqui involuntariamente pela força da analogia; quero falar das mensagens por meio de revelação ou aparição, em sonho, ou de outra maneira, de fatos conhecidos unicamente pelo morto, começando pela revelação de uma dívida de três xelins e dez pence (veja-se Owen, Footfalls, página 294) para chegar à denúncia de um assassínio.49 Um fato semelhante ao que se deu com o testamento não encontrado do Barão Korff é o célebre caso do recibo do Sr. de Harteville que não se tinha encontrado, descoberto pelas indicações recebidas por Swedenborg, em conseqüência das informações dadas pelo morto. J. H. von Fichte, falando deste caso em suas Memorabilia, considera-o com razão um fenômeno eminentemente espirítico e dá as razões disso.

Volto, porém, ao meu assunto; quero terminar esta categoria pela narração de um fato que possuo de primeira fonte. Ele não pertence à categoria dos fatos que só são conhecidos pelo morto, mas aos que só podiam ser comunicados pelo morto, pois que se trata de um segredo político a respeito de um vivo, revelado pela amiga falecida desse vivo, no intuito de salvá-lo. Exporei esse caso com todos os pormenores que conheço, pois que o considero não só como um dos mais concludentes em favor da hipótese espirítica, mas ainda como uma prova de identidade absoluta, tão absoluta quanto pode sê-lo uma prova desse gênero.

Meus leitores já conhecem minha parenta, a Sra. A. de W., que tomava parte em minhas sessões íntimas, durante os anos de 1880-1883. A Sra. W. tem uma filha, a jovem Sofia, a qual, na época em que se faziam essas primeiras sessões, ainda estava no colégio; ela nunca assistira nem a essas nem a outras sessões, e nunca tinha lido coisa alguma referente ao Espiritismo; era tão ignorante nesse assunto quanto sua própria mãe, que, além das nossas sessões, nunca se tinha ocupado com o assunto.

Em uma noite de outubro de 1884, por ocasião da visita de um de seus parentes, a conversação veio cair sobre o Espiritismo e, para agradar a seu hóspede, essas senhoras tentaram uma experiência com a mesa. A tentativa foi pouco satisfatória: provou unicamente que as Sras. W. podiam obter um resultado.

No dia 1º de janeiro de 1885, uma terça-feira, à noite, a Sra. W., achando-se só com sua filha, e desejando distraí-la das preocupações que a tornavam um pouco nervosa, propôs-lhe renovar a sua tentativa. Improvisou-se um alfabeto sobre uma folha de papel; um prato de pé com um risco preto como indicador serviu de prancheta e, logo após o começo da experiência, o nome “André” foi soletrado. Era muito natural, André era o nome próprio do marido falecido da Sra. W., pai da jovem Sofia.

A comunicação não foi além das banalidades, mas as Sras. W. decidiram, apesar disso, repetir as sessões uma vez por semana, todas as terças-feiras. Durante três semanas, o caráter das comunicações não se modificou; era sempre em nome de André que elas eram recebidas.

Na quarta terça-feira, a 22 de janeiro, em vez do nome André, o nome Schoura é que foi soletrado, com grande surpresa da Sra. W. Depois, por movimentos rápidos e precisos do indicador, a comunicação continuou assim:

Estás no caso de salvar Nicolau!

– Que quer isso dizer? – perguntaram as duas senhoras admiradas.

Ele está comprometido com Miguel e morrerá como este! Um bando de vagabundos arrasta-o!

– E que é preciso fazer?

Irás ao Instituto Tecnológico antes das 3 horas, mandarás chamar Nicolau e conferenciarás com ele no gabinete de sua casa.

Como todas essas instruções pareciam dirigir-se diretamente à jovem Sofia, ela respondeu que lhe seria difícil proceder de acordo com essas indicações, em vista das relações de simples polidez que tinham sua mãe e ela com a família de Nicolau. Mas a esta observação Schoura respondeu desdenhosamente:

Absurdas idéias de conveniências!

– Mas de que maneira poderia eu influir sobre ele? – perguntou a jovem Sofia.

Pela força da palavra; tu lhe falarás em meu nome.

– Quais são esses que te merecem o epíteto de “vagabundos”? – perguntaram as Sras. W.

O bando a que Nicolau está filiado.

– Não tens mais as mesmas convicções?

Erro revoltante!...

Antes de continuar, devo explicar o sentido desta misteriosa comunicação. “Schoura” é o diminutivo russo de Alexandrina; é o nome de uma jovem prima de Nicolau e Miguel. Este último, muito moço, teve a desgraça de se deixar arrastar por nossos anarquistas ou niilistas na corrente revolucionária; ele foi preso, julgado e condenado à prisão em uma cidade afastada; tendo tentado evadir-se, foi morto. Schoura, que o estimava muito, partilhava de suas convicções e tendências e proclamava-o francamente. Depois da morte de Miguel, em setembro de 1884, ela se sentiu muito desiludida em suas esperanças revolucionárias e envenenou-se, na idade de 17 anos, a 15 de janeiro de 1884, apenas uma semana antes da sessão de que se está tratando. Nicolau, o irmão mais moço de Miguel, era nessa ocasião estudante no Instituto Tecnológico.

A Sra. W. e sua filha conheciam todas as circunstâncias do drama que acabo de referir resumidamente, pois que tinham relações que datavam de muito tempo com os pais de Schoura e com os de seus primos, que pertencem, todos, à melhor sociedade de São Petersburgo. (Compreender-se-á a que escrúpulos obedeço não dando os nomes dessas famílias, e o motivo pelo qual modifiquei os nomes próprios dos jovens.)

As relações entre as Sras. W. e as duas famílias estavam longe de ser íntimas; essas pessoas encontravam-se, às vezes, raramente. Mais tarde me alongarei sobre outros pormenores, mas por ora continuo em minha narração.

Nem a Sra. W. nem sua filha sabiam coisa alguma, naturalmente, acerca das opiniões secretas e a conduta de Nicolau. Por conseguinte, a comunicação era para elas tão inesperada quanto importante: tal comunicação lhes impunha grande responsabilidade, e a posição da jovem Sofia era muito difícil. Executar à letra as instruções de Schoura, em sua situação de moça solteira, era simplesmente impossível, primeiro que tudo no ponto de vista das conveniências mundanas; e, depois, com que direito se teria ela envolvido, não estando intimamente ligada a essa família, em assuntos tão delicados? Além disso, tudo podia não ser exato, ou, ainda que o fosse, o fato seria muito simplesmente e muito provavelmente negado por Nicolau. Em que posição ficaria ela então? A Sra. W. sabia perfeitamente, pelas sessões nas quais tomara parte em minha casa, quão pouco se deve confiar nas comunicações espiríticas. Assim, tomou a resolução de aconselhar à filha que se certificasse antes de tudo da identidade de Schoura, o que foi aceito imediatamente, como um meio de resolver a dificuldade.

Na terça-feira seguinte, Schoura manifestou-se imediatamente, e a jovem Sofia pediu-lhe uma prova de sua personalidade. Schoura respondeu incontinenti:

Convida Nicolau, prepara uma sessão e eu irei.

Vê-se, por esta resposta, que Schoura, desprezando enquanto vivia todas as conveniências da sociedade, como é de uso entre os niilistas, exigia de novo uma coisa inadmissível; Nicolau nunca teria ido à casa da Sra. W. À frente dessa nova dificuldade, a jovem Sofia pediu à sua interlocutora uma outra prova de sua personalidade, sem a intervenção de Nicolau e que esta prova fosse concludente.

Eu te aparecerei! – respondeu Schoura.

– Como?

Vê-lo-ás!



Alguns dias depois, a jovem Sofia, ao ir deitar-se – eram cerca de 4 horas da manhã, de volta de uma reunião dançante –, achava-se na porta que comunicava seu quarto de dormir com a sala de jantar, onde não havia mais luz, quando divisou na parede deste último aposento, defronte da porta, à entrada da qual ela se achava, um globo luminoso que parecia descansar em cima de ombros e que se conservou durante dois ou três segundos, e desapareceu em seguida, subindo para o teto. Aquilo não era decerto o reflexo de uma luz qualquer proveniente da rua; e a jovem Sofia convenceu-se disto imediatamente.

Na sessão seguinte, pediu-se a explicação daquela aparição, e Schoura respondeu:

Eram os contornos de uma cabeça com ombros. Não pude aparecer mais distintamente, ainda estou fraca.

Se bem que muitos outros pormenores, que devo omitir aqui, tendessem a robustecer a convicção da jovem Sofia quanto à identidade de Schoura, ela não podia, entretanto, decidir-se a proceder de acordo com a opinião desta última, e propôs-lhe – como meio mais conveniente – dar parte de tudo isso aos pais de Nicolau.

Esta proposta provocou por parte de Schoura um descontentamento muito pronunciado que se traduziu por movimentos bruscos do prato de pé (que servia como prancheta) e, depois, por esta declaração:

Isso não dará resultado algum!...

Esta frase foi seguida por epítetos desdenhosos que é impossível traduzir aqui, aplicando-se todos a pessoas de um caráter fraco e indeciso, e que Schoura – dotada de caráter enérgico e decidido – não podia suportar; todos esses qualificativos, que não se encontram nos dicionários, eram com efeito as expressões características da linguagem de Schoura quando viva, como se verificou depois.

A uma pergunta relativa a seu pai, Schoura respondeu com impaciência:

Não fales nele, não fales nele...

Como quer que seja, a jovem Sofia hesitava sempre e, por sua vez, em cada uma das sessões seguintes, Schoura insistia cada vez mais, exigindo que a jovem Sofia agisse imediatamente. Aquela insistência tinha uma significação particular, como se soube mais tarde. A indecisão da jovem Sofia era atribuída por Schoura à influência da Sra. W., para com a qual a interlocutora se mostrava, desde o começo das comunicações, de uma evidente má vontade; ela havia declarado, desde a primeira sessão, que só queria entender-se com a jovem Sofia, não permitindo à Sra. W. nenhuma pergunta, e desde que esta última tentava intervir, ela a repreendia asperamente, dizendo-lhe:

Cale-se! Cale-se!

Ela se dirigia à jovem Sofia em termos que revelavam uma viva ternura, cuja razão e origem saberemos mais adiante, e essas expressões eram ainda as que Schoura tinha o hábito de empregar.

Quais não foram a surpresa e a consternação destas senhoras, quando, na sessão de 26 de fevereiro, a comunicação começou assim:

É muito tarde; tu te arrependerás disso amargamente, e os remorsos de tua consciência te perseguirão. Conta com o seu juízo.

Foram as últimas palavras de Schoura; em seguida, ela se calou completamente. Tentaram ainda uma sessão na terça-feira seguinte, porém sem resultado. Desde então as sessões da Sra. W. e de sua filha foram definitivamente abandonadas.

Enquanto duravam essas sessões, a Sra. W. me ia tornando ciente de tudo quanto se passava, consultando-me acerca do que era preciso fazer em presença das exigências extraordinárias de Schoura. Algum tempo depois de cessarem as comunicações e para tranqüilizar sua filha, a Sra. W. resolveu dar parte desse episódio aos pais de Nicolau.

Estes não tomaram precaução a tal respeito: sendo a conduta do moço irrepreensível, a família estava absolutamente tranqüila nesse ponto. (É importante consignar que essas revelações espiríticas foram levadas ao conhecimento dos pais muito antes do desenlace fatal desta história.)

Quanto à jovem Sofia, como durante todo o ano tudo se passasse regularmente, convenceu-se de que as comunicações de Schoura não tinha passado de mentiras e prometeu a si mesma nunca mais se ocupar de Espiritismo.

Um ano ainda decorreu sem incidente; mas, a 9 de março de 1887, a polícia secreta fez subitamente uma busca em casa de Nicolau; ele foi preso em seu domicílio e conduzido em 24 horas para longe de São Petersburgo. Conforme se soube mais tarde, seu crime tinha sido ter tomado parte em reuniões niilistas que se tinham feito nos meses de janeiro e fevereiro de 1885, isto é, precisamente durante os dois meses em que Schoura tinha insistido tanto para que se dessem imediatamente as passadas que deviam impedir a co-participação de Nicolau naquelas reuniões.

Foi então que as comunicações de Schoura foram apreciadas em seu justo valor; as notas tomadas pela Sra. W. foram lidas e relidas pelos pais de Schoura e de Nicolau; a identidade de sua personalidade em toda esta manifestação foi reconhecida como incontestável, tanto pelo fato capital que se referia a Nicolau e por outras particularidades da vida íntima, quanto por todo o conjunto dos traços particulares que a caracterizavam. Esse triste acontecimento caiu sobre a família de Nicolau como um raio, e ela agradeceu a Deus, porque as loucuras do moço não tiveram conseqüências mais funestas ainda.

Para a apreciação crítica deste caso é extremamente importante precisar as relações que existiam entre a jovem Sofia e Schoura. Pedi às Sras. W. o obséquio de me darem a esse respeito, por escrito (do mesmo modo que para tudo o que precede), uma memória tão completa quanto possível, e eis o que soube:

Em 1880, no mês de dezembro, perto do Natal, a Sra. W. e sua filha tinham ido visitar o avô de Schoura; foi então que a jovem Sofia a viu pela primeira vez; Schoura era mais moça que a jovem W., que tinha então treze anos. A jovem Sofia ficou muito admirada vendo a mesa de Schoura cheia de livros; eram, conforme dizia esta última, seus melhores amigos; ela apreciava apaixonadamente os livros de História e maravilhou a jovem Sofia por sua memória, pois que lhe citava sem dificuldade passagens inteiras e seus autores favoritos. Naturalmente a jovem Sofia não pôde recordar-se de todos os pormenores de sua conversação no decurso daquela entrevista, que foi – insisto neste ponto – a primeira e única, no verdadeiro sentido desta palavra. A jovem Sofia recorda-se somente da impressão favorável que lhe produziram o desenvolvimento precoce e os gostos sérios de sua jovem amiga; mas, apesar desse desenvolvimento prematuro, Schoura não manifestava então a menor tendência a ocupar-se da política ou do movimento niilista: tinha, pelo contrário, caráter alegre e descuidado. Foi só muito mais tarde, depois do episódio de 9 de março, que a jovem Sofia soube que Schoura lhe tinha votado a mais viva simpatia – sentimento desperto provavelmente pelas disposições afetuosas que lhe tinha testemunhado. Daí, essa expressão de carícia empregada nas comunicações.

As duas meninas, freqüentando o mesmo colégio, viram-se no decurso daquele inverno algumas vezes, de longe, na sala de recreio; mas, em breve Schoura foi para outro colégio, de maneira que mesmo esses encontros fugitivos não mais se reproduziram. Dois anos depois, durante o estio de 1882, elas se encontraram uma vez em uma casa amiga, no campo, mas não se falaram. E ainda dois anos depois, em outubro de 1884, elas se reviram de longe, no teatro; foi três meses antes da morte de Schoura.

As relações dessas duas meninas resumem-se, pois, propriamente falando, em uma só e única entrevista, de duração de uma ou duas horas talvez, na idade respectiva de doze e de treze anos, e isso, quatro anos antes da morte de Schoura. Quanto à Sra. W., ela não teve sequer o proveito de semelhante entrevista com Schoura, pois que as duas meninas se tinham retirado para o aposento de Schoura, enquanto ela tinha ficado com os pais, e, além daquela ocasião, ela não a viu mais freqüentemente do que sua filha. Vê-se, pelo que fica exposto, que as relações destas senhoras com Schoura tinham sido muito espaçadas e que, por conseguinte, elas nada podiam saber de seus segredos políticos; foi só depois de sua morte que elas souberam o que eu referi no começo desta narração.

Em minha opinião, o caso que acabo de expor reúne todos os dados necessários para fazer que se destruam todas as hipótese, a não ser a hipótese espirítica.

Examinemo-lo de mais perto, no ponto de vista das hipóteses naturais e do método indicado pelo Sr. Hartmann.

Este caso, por sua simplicidade, oferece à crítica facilidades excepcionais. Temos que examinar o jogo das forças inconscientes em três agentes somente, cujo principal – objeto especial da comunicação – está ausente, nunca assistiu às sessões das Sras. W., nunca entrou em sua casa e até ignora, como toda a família dele, a existência daquelas sessões.

A primeira fonte do saber mediúnico, segundo o Sr. Hartmann, é a hipótese da memória. Ela é aqui absolutamente inadmissível, pois que os segredos políticos são bem guardados: o silêncio dos agentes revolucionários é proverbial. Não só as Sras. W., cujas relações com a família de Nicolau não passaram de relações de civilidade, como também os próprios pais de Nicolau não suspeitavam de maneira alguma das relações do moço com os chefes niilistas. E entretanto vigiaram-no atentamente, como se pode imaginar, depois da perda dolorosa do primeiro filho, Miguel.

Passemos, pois, à segunda fonte: a transmissão de pensamentos. Dos quatro casos possíveis, mencionados pelo Sr. Hartmann, é claro que é preciso pôr fora de questão os três primeiros:

1º – percepção voluntária com transmissão igualmente voluntária;

2º – percepção voluntária de um lado, sem o desejo de transmiti-la do outro lado;

3º – percepção espontânea com transmissão desejada.

De uma parte, as Sras. W. não tinham desejo algum de perceber; da outra, Nicolau não podia ter o desejo de operar a transmissão. Fica, pois, logicamente possível somente a quarta suposição, a mais difícil de admitir:

4º – percepção espontânea, fora de uma vontade que determinasse a sua transmissão (Spiritismus, pág. 61).

É preciso observar antes de tudo que as quatro explicações possíveis, propostas pelo Sr. Hartmann, aplicam-se somente a comunicações mediúnicas obtidas na presença das pessoas às quais essas comunicações se dirigem e que, por conseguinte, estas quatro possibilidades não são, como princípio, aplicáveis ao caso que nos ocupa; aqui essa transmissão de pensamento só se teria podido efetuar a distância; porém, nós sabemos: 1º- que “os pensamentos abstratos não podem, como tais, ser transmitidos a distância” e 2º- que “todas as transmissões a distância consistem em imagens alucinatórias”, o que não tem nada de comum com o nosso caso. Por conseguinte, mesmo fazendo todas as concessões sobre a questão de distância, o caso considerado não pode ser explicado por nenhuma dessas quatro suposições.

O Sr. Hartmann não pôde citar um único exemplo de transmissão de pensamento abstrato a grande distância, mesmo quando há desejo de obtê-lo; para que a coisa seja em geral possível, é preciso, diz ele, antes de tudo, que haja uma relação simpática entre o agente e o percipiente, como entre um magnetizador e um sonâmbulo. Ele diz categoricamente: “As pessoas entre as quais não existe relação alguma psíquica não podem conseguir a transmissão de pensamentos a grande distância.” E da mesma maneira, para as transmissões de pensamentos a grande distância, que se produzem fora de toda a vontade consciente (por exemplo, quando um homem adormecido transmite seus sonhos a uma pessoa afastada, quer adormecida, quer no estado de vigília), é sempre a “relação psíquica” que serve de base ao fenômeno. “Com o desaparecimento do sentimento determinante (nostalgia, amor), há geralmente desaparecimento da inconsciente vontade de transmitir pensamentos.” Aqui, porém, nós o sabemos, não houve relação psíquica: muito pelo contrário, o motivo determinante agiria antes no sentido oposto, isto é, levaria o agente a ocultar suas ações e convicções políticas a todas as pessoas. Não se pode nem compreender nem admitir que as partes médias do cérebro, onde reside a consciência sonambúlica, se tornem repentinamente denunciantes inconscientes dos segredos da consciência em estado de vigília.

Então, admitindo-se mesmo que as “idéias abstratas”, que formam o fundo das comunicações de Schoura, tenham podido ser implantadas “mesmo a distância”, “ainda mesmo sem o desejo de transmiti-las”, a base essencial, a relação psíquica e o motivo determinante faltam completamente de uma e de outra parte.

As hipóteses de transmissão de pensamentos são, pois, insuficientes.

Mas os fatos do animismo vão mais longe do que as hipóteses do Sr. Hartmann. Eles nos provam que a transmissão de pensamentos pode efetuar-se a grande distância, sem revestir o caráter alucinatório, porém conservando todas as formas da linguagem. Entretanto, para as manifestações deste gênero, a relação e o motivo determinante são necessários; por conseguinte, a dificuldade subsiste. Além disso, o caráter distintivo das transmissões a distância, operadas pelos vivos, é que elas conservam plenamente seu caráter pessoal: fazem-se sempre em nome daquele que fala, nunca emanam de uma pessoa estranha nem personificam esse estranho.

Por conseguinte, o caso de Schoura não pode ser classificado entre as manifestações anímicas, nem pela forma, nem, ainda menos, pelo conteúdo. Determo-nos por mais tempo nesta hipótese equivaleria em cair no absurdo.

Resta, como supremo recurso, a clarividência. O primeiro grau de clarividência “produzido por uma percepção sensorial qualquer” ou por “uma percepção sensitiva de gênero especial” (Spiritualismus, pág. 74-76), não pode, evidentemente, aplicar-se ao nosso caso. Só resta, por conseguinte, admitir a clarividência pura, que, segundo o Sr. Hartmann, é “a faculdade do saber absoluto”, isto é, do saber independente do espaço e do tempo. E, uma vez admitido esse fato, “qualquer auxílio vindo do exterior, da parte de um intermediário qualquer, torna-se supérfluo e, com mais razão, o que se atribui às almas dos mortos”. E ainda esta faculdade transcendente da alma deve ter, como tudo na Natureza, suas condições e modos de manifestação. O Sr. Hartmann no-los indica: é sempre “o interesse intenso da vontade” e “a imagem alucinatória”. (Spiritualismus, págs. 78-79). Eis aí os dois atributos essenciais da clarividência – nada há de igual em nosso caso.

Efetivamente, o clarividente ; é este o traço especial, característico dessa faculdade transcendente, a qual tem, além disso, diversos graus de lucidez e está subordinada ao entorpecimento mais ou menos completo dos sentidos exteriores. Não se pode, pois, racionalmente, apelar para esse gênero de explicação quando o médium nada vê absolutamente, quando não há imagem alguma alucinatória, quando ele se acha às vezes em seu estado normal completo, ocupado em escrever, em indicar as letras do alfabeto, quando é ele próprio quem dirige a conversação; na verdade não se poderia razoavelmente sustentar que é uma conversação com o Absoluto, ou seja, com Deus!!! Quando “André” se manifestava, seria uma operação inconsciente da consciência sonambúlica; quando, na terça-feira seguinte, era Schoura quem se manifestava e fazia suas revelações, seria um acesso de clarividência, de “saber absoluto”, uma “relação telefônica no Absoluto”, entre a jovem Sofia e Nicolau, estabelecida no intuito de tornar possível “a relação psíquica inconsciente entre eles, sem o auxílio direto dos sentidos” (Spiritualismus, pág. 79), se bem que, de uma e de outra parte, não houvesse o mínimo desejo de uma “comunhão psíquica”.

E isto em cada terça-feira, durante muitas semanas; depois, cessação completa, apesar do desejo de continuar as sessões. Por que isso? É preciso aqui uma razão adequada.

Enfim, essa incrível contradição interior: uma mentira flagrante proferida pelo saber absoluto! O Sr. Hartmann disse-nos que “a clarividência distingue-se da leitura dos pensamentos pelo fato de não ser mais o conteúdo de uma consciência estranha que é percebido, mas fenômenos reais objetivos, como tais, sem o auxílio normal dos órgãos dos sentidos”.

Eis, pois, a jovem Sofia tornada subitamente clarividente, percebendo os segredos políticos de Nicolau e os perigos que o ameaçam, porém não tendo percebido que Schoura não existe e que, por conseguinte, suas afirmações de personalidade não passam de uma mentira, uma usurpação, uma comédia inteiramente fora de tempo. O saber absoluto não tinha necessidade alguma, para atingir seu alvo, de recorrer à fraude, de disfarçar-se em uma personalidade que era para ele uma não existência absoluta. Esse disfarce era, pois, para ele uma impossibilidade metafísica. Conforme o disse, perfeitamente bem, o próprio Sr. Hartmann, “o saber absoluto não tem necessidade de um auxílio proveniente de um intermediário qualquer e, com muito mais razão, da parte das almas dos mortos.

Os fenômenos que examinamos não podem, pois, ser atribuídos a um efeito de clarividência.

Assim, eu o disse, as hipóteses “naturais” são, pois, impotentes para explicar as comunicações de Schoura. Ao contrário, a hipótese espirítica pode, aqui, fazer face a todas as dificuldades; ela é tão simples quanto racional.

Que coisa mais natural, com efeito, que Schoura – tendo reconhecido, depois da morte, o erro de que tinha sido vítima, do mesmo modo que Miguel e muitos outros, e sabendo que Nicolau se deixava seduzir, talvez por suas próprias instigações, para o mesmo caminho (o que ninguém em sua família, à exceção dela que era a depositária dos planos e dos segredos de Miguel, podia saber) –, se tenha aproveitado da primeira ocasião que se oferecia de salvar seu amigo de uma sedução que lhe devia ser fatal. Aqui “interesse intenso da vontade” e o “sentimento determinante” são evidentes.

A simpatia que ela havia sentido pela jovem Sofia, desde sua primeira e única entrevista, eis a “relação psíquica” que a tinha atraído para ela para torná-la um instrumento de comunicação. Tudo neste caso corresponde ao critério de personalidade que estabelecemos mais acima (comunicação de fatos que somente o morto podia fazer; traços distintivos do caráter, tais como desprezo das conveniências sociais, simpatias individuais, expressões particulares da linguagem, etc.). É por isso que, até à prova do contrário, considero este fato como verdadeiro caso espirítico, estabelecido sobre a base do “conteúdo intelectual das manifestações”, como o exige o Sr. Hartmann.



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