Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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F – Identidade da personalidade verificada por comunicações que não são espontâneas, como as que precedem, mas provocadas por apelos diretos ao morto e recebidas na ausência de pessoas que conheciam este último


A existência dos fenômenos desta categoria é uma necessidade lógica derivada do que procede. Sendo admitido que se produzem casos de comunicações espontâneas, é preciso admitir que as comunicações provocadas são igualmente possíveis e deveriam ser tanto mais concludentes. Mas, para que a resposta obtida adquira esse caráter comprobatório, é preciso que se tenha produzido na ausência das pessoas que conheceram o morto e que o evocam, a fim de que a hipótese da transmissão e da leitura dos pensamentos seja completamente banida.

Para chegar a esse resultado, é indispensável que a pergunta seja formulada por uma pessoa que não conheceu o morto, ou antes, escrita por uma pessoa ausente, dentro de um sobrescrito cuidadosamente fechado, que tornasse a sua leitura impossível pelos meios ordinários. Preencher a primeira dessas condições é coisa muito menos simples e menos fácil do que parece à primeira vista, pela razão de que – como o veremos mais tarde – a mensagem desejada não pode ser obtida em qualquer momento desejado e também porque essa pessoa estranha não ofereceria espécie alguma de laço entre o vivo e o morto, quando é certo que é necessário existir uma relação entre eles.

O único meio prático que nos resta é, por conseguinte, recorrer à carta lacrada; por isso esta experiência foi posta em prática desde muito tempo. Mas os médiuns capazes de provocar essas manifestações são raríssimos. Mais atrás, no capítulo I, citei o exemplo de uma resposta dada a uma carta fechada, dirigida ao médium, o Sr. Flint. Outro médium, o Sr. Mansfield, adquiriu nomeada especial para esta categoria de fenômenos; porém, a despeito de todas as precauções imagináveis tomadas no intuito de se certificarem de que as cartas não podiam ser lidas pelo médium, a dúvida, sempre possível, subsistiu apesar disso. Que coisa mais simples, dizia comigo mesmo, do que reduzir a nada todas as suspeitas, estabelecendo uma observação direta? E dizer que ninguém se tinha preocupado com isso! Ainda mesmo que só se tratasse de um simples (!) fenômeno de clarividência, não valeria a pena estudar-se o fato de maneira mais séria? Pode-se encontrar, para estabelecer a realidade desse fenômeno, um meio mais simples, um método mais objetivo?

Estou muito satisfeito por ter descoberto esse observador e poder, por conseguinte, falar desta categoria de comunicações. De outro modo eu não teria criado esta rubrica.

Quando o digno Sr. N. B. Wolfe começou a estudar os fenômenos espiríticos, dedicou uma atenção toda especial ao Sr. Mansfield e, com o fim de certificar-se melhor de suas faculdades mediúnicas particulares, instalou-se na casa deste último e observou-o de perto durante muitos meses. Eis o que lemos, a esse respeito, em sua obra Startling Facts in Modern Spiritualism (Fatos admiráveis no domínio do Espiritualismo moderno):

“Essa faculdade desconhecida de responder a uma carta, sem saber uma única palavra do que ela contém, tinha para mim o atrativo de uma coisa nova. Sucedia que o Sr. Mansfield e eu íamos juntos ao correio procurar o carteiro. Ele levava as minhas cartas, eu as suas. Dessa maneira eu era o primeiro a ter em mãos as cartas dirigidas ao “fator espírita”. As cartas que eu ia levar quase nunca as perdia de vista, até o momento em que eram depositadas no Correio para serem reconduzidas aos expedidores, com as respostas respectivas. As pessoas que se dirigiam ao Sr. Mansfield, com esses pedidos, tomavam evidentemente todas as precauções contra qualquer fraude e tomavam cautelas para que suas cartas não pudessem ser abertas e lidas pelo destinatário (como o prova o emprego da cola, da pintura, do verniz e do lacre, até das costuras à máquina). Não pude descobrir nada que justificasse, nem de leve, a suposição de uma fraude; é certo, entretanto, que eu estava bem colocado para isso.

Seria, suponho, de interesse geral saber como o Sr. Mansfield se havia para responder às cartas lacradas:

Enquanto ele está sentado diante de sua mesa de escrever, coloco abaixo de seus olhos uma meia dúzia de cartas, vindas, a julgar pelos selos do Correio, de diversas partes dos Estados Unidos. Os invólucros exteriores são rasgados e lançados na cesta; ele tem diante de si todas essas cartas bem lacradas, sem menção alguma nem qualquer sinal que lhe possa dar a chave quanto aos seus autores ou quanto ao morto ao qual são dirigidas. Ele passa a extremidade dos dedos, geralmente da mão esquerda, sobre essas cartas, e em seguida as toca ligeiramente, e com tanto cuidado quanto teria se reunisse pó de ouro, grão a grão. Passa assim em revista todas as cartas, uma após outra. Se não há resposta, ele as tranca em uma gaveta. Meia hora depois ou mais, renova suas tentativas para obter uma resposta. As cartas são colocadas de novo diante dele; toca-as ainda uma vez com a extremidade dos dedos, passando de uma a outra como uma abelha que vai de flor em flor, recolhendo mel. Vira-as e revira-as, apalpando os invólucros. A cola, a pintura ou o lacre destruíram geralmente toda a virtude magnética da carta, mas o médium acaba por descobri-la, e sua mão esquerda contrai-se convulsivamente. É um sinal de bom êxito: isso quer dizer que a personalidade evocada na carta, e que produziu essa sensação estranha na mão do médium, está aí presente, prestes a ditar sua resposta. As outras cartas são postas de lado e esta fica só, diante do médium, que colocou em cima dela o indicador da mão esquerda. Ao alcance da mão, ele preparou longas tiras de papel branco e um lápis. Toma o lápis na mão direita e fica à espera. O interesse principal é dirigido sobre o indicador de sua mão esquerda, que toca na carta e começa por dar-lhe pequenas pancadas, semelhantes às que dá a chave de um aparelho telegráfico. Ao mesmo tempo, a mão direita começa a escrever, continuando assim, sem interrupção, até o fim da comunicação. Vi-o encher assim até doze tiras de papel, com escrita miúda, no decurso de uma só sessão; porém, na média, o número de tiras empregadas em uma sessão elevava-se a três ou quatro. A escrita é feita rapidamente e o estilo das comunicações é tão variado quanto na vida ordinária.

Desde que está terminada a escrita, a mão esquerda, que se conservou convulsivamente fechada até então, abre-se, e a força deixa de agir, mas por alguns instantes somente, pois que ela volta imediatamente para pôr o endereço do destinatário sobre o invólucro. Introduz-se sem demora a carta, assim como a resposta, no invólucro, e tudo é prontamente expedido pelo Correio. Observei esse modo de proceder cerca de mil vezes, do princípio ao fim.” (págs. 43-45).

No ponto de vista do Sr. Hartmann, este fato não passaria de um efeito da clarividência. A carta lacrada seria, pois, o “intermediário sensorial” que estabelece a relação entre o médium clarividente e o autor, vivo, da carta. E certamente não seria fácil nos prevalecermos deste argumento enquanto não soubermos, até suas particularidades mínimas, qual foi o modo de operação e quais seus resultados. É desnecessário dizer que uma certa “relação” devia ter existido, mas será ela semelhante à que se estabelece nos fenômenos da clarividência? Eis o ponto a resolver. Se, no caso que precede, tivesse havido clarividência, o Sr. Mansfield deveria ter-se achado nesse estado antes da experiência, ou antes, deveria ter esperado que sobreviesse esse estado, pois que o fato não se dá por ordem de alguém; somente então teria podido achar-se em condições de dar respostas sucessivamente a todas as cartas. No entanto, não verificamos alteração alguma manifesta no estado psíquico do Sr. Mansfield: sua mão está sempre pronta para escrever, como um instrumento dócil; mas ele deve esperar que ela caia sob a influência de tal ou qual carta. Pudemos verificar que não responde sempre, nem a todas as cartas, em sua ordem sucessiva, porém somente às que dão um sinal anunciando a presença da personalidade reclamada. Por conseguinte, esta faculdade especial de receptividade é constante nele, somente não é ele quem a dirige à vontade, é uma influência estranha que dispõe dela e a domina, e esta influência pode faltar, segundo a ocorrência.

Protesto contra o abuso que as teorias antiespiríticas fazem da faculdade de clarividência, desde que se lhes depara uma dificuldade que não podem superar. A clarividência é a quintessência das faculdades psíquicas do homem; só mui raramente ela se manifesta e está subordinada a causas e a condições determinadas; tem seus modos próprios de manifestar-se e, antes de tudo – assim como o afirma o próprio Sr. Hartmann –, ela deve ter o caráter da alucinação visual; demais, a clarividência manifesta-se geralmente enquanto os sentidos exteriores do médium estão entorpecidos e seus acessos são de curta duração. No presente caso, pelo contrário, o médium escreve todos os dias, acha-se em perfeito estado de vigília. Por que motivo pretenderíamos que ele se acharia em estado permanente de clarividência, sem que tivesse havido para isso motivo psíquico? Seria uma licença filosófica absolutamente injustificável.

Vamos fazer o exame do fenômeno que nos ocupa, partindo do ponto de vista do Sr. Hartmann.

Eis como as coisas deveriam então se passar:

O Sr. Mansfield apalpa com os dedos uma carta lacrada, a qual reage sobre sua “emotividade sensitiva” (sensitives gefühl).

A “consciência sonambúlica latente” deve, antes de tudo, tornar-se clarividente, a fim de poder conhecer o conteúdo da carta. Se a resposta, escrita pela mão do Sr. Mansfield, não fosse mais do que uma perífrase da carta lacrada, ainda que fosse munida com a assinatura do morto ao qual é dirigida, a explicação não apresentaria dificuldade alguma e a hipótese da clarividência seria perfeitamente aplicável, pois que nada mais haveria a fazer do que atribuir os diversos efeitos produzidos a tal carta ou a tal outra. Seria a “razão suficiente”.

Mas desde que a carta contém questões precisas, referentes ao morto, por que meio as respostas podem ser obtidas? Aqui as coisas se complicam consideravelmente, porque o médium deve pôr-se em relação com o autor da carta, a fim de tirar em sua consciência normal e latente os pormenores necessários a respeito do morto, pois que este só existe na memória dos vivos.

O problema apresenta, desde então, uma experiência de clarividência combinada com uma leitura de pensamentos a distância. Como se passaria isso? É preciso admitir que a carta que o Sr. Mansfield segura na mão lhe servirá de “intermediário sensorial” para estabelecer uma relação entre ele e o autor da carta. Mas que resultado essa relação poderia dar? Suponhamos que o Sr. Mansfield está em estado de sonambulismo completo. Sucederia isto, como a experiência no-lo ensina e assim como o Sr. Hartmann o diz textualmente:

“Quando um sonâmbulo é posto em relação com uma pessoa que lhe é totalmente estranha, quer por meio de contato direto com ela, quer por intermédio de um magnetizador, quer pelo contato de um objeto que está impregnado pela atmosfera (aura) individual dessa pessoa, ele forma desta última uma idéia geral, e uma imagem mais ou menos imperfeita, vaga e inexata, porém não completamente dessemelhante, de seu caráter, de seus sentimentos e de seu humor, naquele momento preciso, e às vezes mesmo pensamentos (representações) que existem nele nesse mesmo momento.” (Der Spiritismus, pág. 96).

Por conseguinte, a carta que o Sr. Mansfield guarda na mão não pode servir para outra coisa mais do que pô-lo em relação com os sentimentos e pensamentos que existem no autor da carta, no mesmo momento em que esse contato se produz. Esses sentimentos e pensamentos podem nada ter de comum com o texto da carta, escrita muitos dias antes.

Perguntamos a nós mesmos: de que maneira a consciência sonambúlica do Sr. Mansfield conseguiu isolar, no labirinto das idéias que passam pela consciência sonambúlica do autor da carta, as informações de que precisa? Nessa multidão de idéias ou de imagens que estão acomodadas ali, e que se referem às pessoas mortas e vivas que o escritor conheceu ou conhece ainda, como procederia o médium para reconhecer as que se referem precisamente ao morto a quem diz respeito a carta? Não há nada que possa guiá-lo nesse esforço. Essas relações não existem mesmo para ele.

Admitamos mesmo, com o Sr. Du Prel, que “a leitura dos pensamentos não fica limitada às imagens que atualmente estão na presença da consciência sonambúlica, porém se estende igualmente ao conteúdo da memória latente; poderemos responder, com o Sr. Hartmann, que se apresenta aí uma grave dificuldade, a de saber por que processo “se poderia fazer a seleção das recordações que têm um certo valor e um certo encadeamento, nessa miscelânea confusa de imagens conservadas na consciência sonambúlica, e aí coexistindo, umas importantes, outras sem valor.” (Der Spiritismus, pág. 74).

Essa dificuldade refere-se especialmente às recordações referentes a uma pessoa viva. A mesma dificuldade de seleção subsistiria para o caso em que as recordações tivessem relação com a vida de um morto.

Admitamos que essas dificuldades tenham sido superadas e que a leitura dos pensamentos, com o auxílio da clarividência, tenha finalmente encontrado na memória normal ou latente do vivo – se bem que este esteja longe do médium – todos os elementos necessários para formular, em nome do morto interrogado, a resposta desejada, compreendendo todos os pormenores pedidos, pormenores que a pessoa viva reconhece como exatos. Mas, eis uma nova complicação: encontramos na resposta das particularidades que o interrogador vivo não tinha perguntado, que não se conclui do conteúdo de suas cartas, e cuja exatidão ele não pode atestar pela simples razão de que não as conhece. Somos levados a verificar essas particularidades dirigindo-nos a terceiras pessoas, que tinham conhecido o morto. Qual é o processo psíquico que teria permitido ao médium obter tal resposta? É preciso ainda uma vez recorrer à clarividência, esse Deus ex machina do Psiquismo, que teria posto o médium em relação com o Absoluto, com “a onisciência do Espírito absoluto”?

Não esqueçamos, entretanto, que a clarividência obedece a certas leis e que essa comunicação com o Absoluto não pode efetuar-se de outra maneira a não ser sobre o terreno das relações, que existe, exclusivamente, entre duas pessoas vivas, que se conhecem, ao passo que aqui o médium não conhece nem a pessoa viva que evoca o morto nem seus amigos; quanto à personagem principal, o morto, não existe: é igual a zero. Por conseguinte, o terreno que deve servir de base à clarividência lhe falta inteiramente.

Além disso, se quisermos levar em conta as leis formuladas pelo Sr. Hartmann, a saber, que “as idéias abstratas não podem transmitir-se, como tais, a distância”, que “a clarividência pura só se manifesta sob uma forma alucinatória”, que o motivo de toda a clarividência reside “em um intenso interesse da vontade”; se levarmos em consideração que a operação psíquica em questão se produz enquanto “a consciência sonambúlica percipiente do médium é dominada pelo estado de vigília da consciência normal” – condição sob a qual a leitura dos pensamentos e a clarividência se efetuam mais dificilmente – então seremos coagidos a concluir que essas hipóteses não podem explicar todos os fatos expostos sob esta categoria.

Para não ampliar aqui o número de exemplos – eles abundam no Banner of Light de Boston –, envio o leitor a esse mesmo livro do Dr. Wolfe, que ali cita, de maneira circunstanciada, experiências verdadeiramente notáveis, nas quais ele obtinha respostas a suas cartas. O valor dessas experiências é atenuado, sem dúvida, sob certo ponto de vista, pelo fato de sua presença. Não obstante, as respostas às cartas se fizeram esperar, até o momento em que a influência invocada pôde manifestar-se. De um outro lado, essas experiências merecem uma atenção tanto maior, por isso que foram feitas em condições que excluíam toda a possibilidade de fraude, como se poderá julgar conforme o extrato seguinte que fazemos da obra do Sr. Wolfe, onde ele se refere às experiências que fez com o Sr. Mansfield:

“Em dado momento, eu tinha entre mãos cerca de 25 cartas, todas prontas para serem submetidas às manifestações do Sr. Mansfield. Eu as levava comigo; estavam encerradas em invólucros de couro, que não continham inscrição alguma. Sendo esses invólucros absolutamente semelhantes quanto ao formato e à cor e não sendo marcados com sinal algum, eu não podia distingui-las uma das outras. Quando a ocasião era favorável, isto é, quando o médium não estava muito esgotado pelas fadigas do dia e quando podia dispor livremente de seu tempo, eu colocava defronte dele todo o maço de cartas, com o fim de verificar se uma das 25 personalidades às quais as cartas eram dirigidas se acharia presente e poderia efetuar a escrita mediúnica. Nessas condições era muito raro que os esforços feitos para provocar pelo menos a resposta de uma ou de outra personalidade não fossem seguidos de resultado algum. O Sr. Mansfield passava a mão sobre as cartas, tomava uma delas, como já ficou dito, e procedia às manobras necessárias para obter a resposta. Acentuo este fato: nunca, em minhas experiências, o médium deixou de obter o nome exato da personalidade a quem se dirigia e, em seguida, uma comunicação da dita pessoa, ou a exposição do motivo pelo qual a resposta pedida não podia ser comunicada. A mensagem dava testemunho sempre de um perfeito conhecimento de causa e provava que seu autor era muito familiar com todas as circunstâncias, pessoas e datas. As respostas eram às vezes surpreendentes; não eram somente precisas e exatas, mas continham também novos pensamentos, novos fatos, novos nomes acompanhados de pormenores e de datas novas. Dizendo novos, quero dizer que as informações recebidas não poderiam, de maneira alguma, ser tiradas do conteúdo da carta, ainda mesmo que ela tivesse sido submetida aberta ao exame do escrutador mais meticuloso.”

O reverendo Samuel Watson cita em seu livro The Clock struck one (O relógio deu 1 hora) (nova Iorque, 1872) grande número de comunicações que recebeu em resposta a suas cartas, por intermédio do Sr. Mansfield. Elas foram escritas também em sua presença, mas este inconveniente – no ponto de vista de nossa crítica – é compensado pelo fato de as respostas conterem freqüentemente pormenores biográficos que o Sr. Watson desconhecia; sucedia também serem dadas essas respostas, não por aqueles aos quais as perguntas eram dirigidas, mas por outras pessoas que o Sr. Watson tinha conhecido e mesmo por pessoas que lhe eram desconhecidas, mas que o morto conhecera (veja-se a continuação dessa mesma obra: The Clock struck three (O relógio deu 3 horas), Chicago, 1874, págs. 79-85).

Estou longe de afirmar, bem entendido, que todas as respostas dadas pelo Sr. Mansfield às cartas lacradas sejam de origem espirítica. É preciso saber atender a todas as explicações – compreendendo nesse número o processo fraudulento – propostas para tal ou qual caso, segundo as circunstâncias. Quero dizer somente que certos fatos apresentam, em minha opinião, todas as condições requeridas para que se lhes procure a causa eficiente fora do animismo.

Como corolário desta categoria de fenômenos, há as respostas a perguntas que não são submetidas à percepção sensorial do médium, com a complicação de serem as respostas obtidas por via de escrita direta. Nesses exemplos encontramos sempre a mesma particularidade: o médium não responde, indiferentemente, a todas as perguntas, porém apenas àquelas cuja influência ele experimenta; e, além disso, verificamos esta particularidade importante: o médium nem sequer toca no papel onde a pergunta está escrita.

O Sr. Colby, diretor do Banner of Light, relata, como se segue, uma sessão com o Sr. Watkins (número de 9 de março de 1889):

“Muito recentemente tivemos uma segunda sessão com o Sr. Watkins; levamos para o local das sessões as nossas ardósias, que se fechavam por meio de charneiras. Éramos três. Quando nos colocamos à mesa, o Sr. Watkins pediu-nos que escrevêssemos em tiras de papel os nomes de alguns de nossos amigos mortos. Escrevemos cerca de vinte nomes, cada um sobre uma tira de papel separada que enrolamos em seguida em forma de tubo, de maneira que não pudessem distinguir-se umas das outras por sua aparência. Em uma das tiras, tínhamos escrito o seguinte: “G. W. Morill, queres comunicar alguma coisa a teu amigo o Capitão Wilson, em Cleveland?”

Enquanto eu designava os diversos rolos com um lápis, foi-me pedido pelo médium que tomasse um e o conservasse bem seguro na minha mão esquerda. O médium pediu-nos então que colocássemos nossas ardósias em cima da mesa. Em seguida, disse-nos que puséssemos as mãos em cima, enquanto que ele próprio apoiava os dedos sobre a outra extremidade da ardósia. No mesmo instante ouvimos o ranger do lápis, no espaço compreendido entre as duas ardósias, como se alguém escrevesse. Quando cessou o rangido, fomos convidados a abrir as ardósias. Na face interna da que estava em cima da mesa, havia a comunicação seguinte, escrita e assinada por mão vigorosa e ágil:

“Meu caro amigo, Capitão Wilson, em Cleveland:

Desejaria que ficasses convicto, ao ler estas linhas, de que a força que guiou o lápis foi realmente a minha, a de teu velho amigo; ao mesmo tempo, peço-te o obséquio de dizer a meu genro Wasson que sua mulher deseja comunicar-se com ele, que a menina há de adoecer muito gravemente, mas que não se deixe dominar pela tristeza se ela morrer, pois que minha filha guardá-la-á melhor do que ele pode fazê-lo. Desta vez não te disse lá grande coisa, meu amigo, pelo motivo de minha filha estar tão impaciente por entrar em comunicação com seu marido e com Franck!

Geo. W. Morill

De acordo com esse pedido, demos parte da comunicação à Sra. Morill, a qual nos declarou que, para ela, não havia a menor dúvida de que a comunicação fora escrita por seu marido: a escrita assemelhava-se muito à dele e, ao demais, ele sempre tinha assinado “Geo. W. Morill”. Quanto à criança de que se trata, estava doente efetivamente, em sua casa, em Amesbury, e receava-se um desenlace fatal.”

Não pretendo fazer do exemplo que precede uma prova de identidade, pois que o Sr. Colby devia evidentemente ter conhecido o Sr. Morill e o Capitão Wilson, e desde que ele estava presente à experiência, a comunicação transmitida poderia encontrar sua explicação, parte na clarividência, parte na leitura dos pensamentos; mas não percebo de que maneira, no meu modo de entender, a clarividência poderia explicar a primeira fase desta manifestação psíquica: a escolha e a leitura de um rolo determinado, tomado dentre os vinte, sem qualquer “mediação sensorial”, pois que o médium não tocava nos rolos.

Cito este exemplo, primeiro que tudo, por causa do método de experimentação que aí é aplicado, método que é suscetível de conduzir à prova absoluta, se se tiver a cautela de rodear-se de precauções necessárias para ficar-se certo de que nenhuma relação pôde estabelecer-se e de que nenhuma sugestão inconsciente foi exercida. É preciso para isso que os rolos sejam preparados de antemão, e não por aquele que os apresentar na sessão, mas por outra pessoa ausente; convém igualmente que a pessoa incumbida de levá-los à sessão ignore completamente o seu conteúdo. Duvido, porém, que nessas condições a experiência possa dar bom êxito, visto que toda relação com o morto ficará destruída. Ora, é indispensável que uma relação de qualquer natureza sirva de base à manifestação; e, no caso suposto, o laço único seria a presença, no aposento, da carta na qual o médium não deve mesmo tocar.

Posso entretanto indicar um fato que está perto de preencher essas condições, visto que a carta foi enviada por uma terceira pessoa – coisa muito rara. Em meu Índex, esse fato figura como único no gênero e eu o considero bastante notável para ser citado. A narração seguinte a respeito desse fato é publicada no jornal Facts, de Boston (1886, tomo V, pág. 207):

“Em uma sessão particular, feita há poucos dias com o médium Powell, de Filadélfia, deu-se um fato muito curioso. Os assistentes eram habitantes daquela cidade, mui sobejamente conhecidos.

A maneira de que se usava o Sr. Powell para obter respostas às perguntas encerradas nos pequenos rolos foi exposta nessas colunas. Limitamo-nos a lembrar que os rolos que contêm os nomes dos mortos, aos quais se dirigiam, são preparados sem que o médium os conheça. Para a sessão de que se trata, um dos assistentes tinha pedido a uma senhora de seu conhecimento que escrevesse um nome em uma tira de papel, que a enrolasse e lha entregasse. A senhora de quem se trata não se achava na sessão e ele próprio não sabia que nome ela tinha escrito. No decurso da sessão, o dito rolo foi clandestinamente misturado com os outros. O Sr. Powell aplicou à fronte a extremidade daquele rolo de papel, e então fomos testemunhas de um espetáculo estupefaciente: sua face empalideceu de maneira horrível, ele levantou os braços e caiu para trás sobre o soalho, indo dar com a cabeça de encontro a uma cadeira. A queda era semelhante à de um homem morto subitamente. Ele se conservou imóvel durante alguns instantes, atordoado, depois se levantou lentamente, com os olhos desmedidamente abertos e brilhantes; tomou a mão de uma das senhoras presentes e disse-lhe, com voz fraca, penosamente:

– Dize a Hattie (a senhora que tinha escrito a pergunta) que não foi um acidente nem um suicídio, porém um covarde assassínio... e foi meu marido quem o cometeu. Existem cartas que o provarão. Essas cartas serão encontradas. Eu sou a Sra. Sallie Laner.

Era o nome escrito na tira de papel, o nome da mulher que se tinha encontrado morta, alguns dias antes, em Omaha, morta por um tiro; porém, naquele momento se ignorava ainda se aquela morte era devida a um suicídio ou a um crime cometido por seu marido.

Ela tinha morado em Cleveland e conhecera a senhora que escreveu a pergunta. O desenlace desta história encontrará seu lugar em ocasião ulterior; por ora, o ponto essencial é saber como o médium pôde ter conhecimento dos fatos contidos em sua resposta. Ele não abriu o rolo; desconhecia os acontecimentos de que se tratava; nenhuma das pessoas presentes sabia que nome estava escrito na tira de papel. E entretanto esse fenômeno se produziu imediatamente, desde que o médium levou à fronte a tira enrolada. O nome era exato; a resposta, quer tenha sido ou não exata, era precisa e oportuna; e, no dia seguinte, Laner, o marido, era detido sob a incriminação de ter assassinado sua mulher. Não havia conhecimento algum prévio dos fatos, nenhuma conivência, nenhuma adivinhação ou leitura de pensamento. Qual era, pois, a força inteligente que se manifestou? Foi o Espírito da mulher assassinada? Foi um outro? Mas então qual?” (Extrato do Cleveland Plaindealer).

Na prática do magnetismo ou do sonambulismo espirítico encontram-se experiências análogas à precedente: veja-se Cahagnet, Arcanos da vida futura desvendados, tomos II e III, e mais particularmente as experiências de evocação de pessoas desconhecidas dos assistentes (t. II, págs. 98, 245). Nas páginas 167-187 do tomo III lemos a narração interessante da evocação do abade Almignana, relativamente a uma questão de dinheiro, com todos os pormenores e documentos em apoio. Em uma brochura que publicou em 1858 (?) sob o título Do Sonambulismo, das mesas girantes e dos médiuns, ele próprio refere este mesmo caso em resumo e faz também menção de uma outra evocação que se realizou em sua presença, por intermédio de uma sonâmbula à qual ele só tinha comunicado o nome de um morto, nome que ele conhecia por ter ouvido dizer e que perguntara unicamente atendendo a essa sessão e cujo dono lhe era completamente desconhecido (veja-se a Revista Espírita, 1889, nºs 4 e 5, onde a brochura inteira do abade Almignana é reproduzida; para o caso acima mencionado, veja-se a pág. 135).



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