Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Considerações finais


Agora que ficou estabelecido o fato da existência individual do espírito humano depois da morte, a questão da identidade de sua personalidade, no ponto de vista subjetivo, adquire direitos que lhe foram recusados até o presente. O ponto de vista objetivo é implacável; suas exigências são peremptórias, ele só atende à lógica, e esta afirma que a prova absoluta é impossível O ponto de vista subjetivo é muito diferente; suas exigências estão longe de ser tão rigorosas; o que não é suficiente para a lógica, verifica-se que o é para um veredicto que satisfaz a consciência íntima, a convicção pessoal, que se baseia em um conjunto de dados intangíveis para o julgamento objetivo, porém de força irresistível para a convicção subjetiva. O que para mim é inteiramente concludente e demonstrativo, nada é para um outro. Por exemplo, no que me diz respeito pessoalmente, eu nunca tive prova alguma de identidade que possa apresentar. Mas, em uma sessão completamente ordinária, mesmo com pessoas que me eram muito conhecidas, o nome de minha irmã falecida foi apresentado; ela só me disse quatro palavras muito comuns, porém nessas quatro palavras, na maneira pela qual foram ditas, havia todo o drama de minha vida íntima, e tenho a convicção profunda de que nenhum jogo inconsciente da consciência das pessoas que assistiam à sessão teria podido formular essas quatro palavras, que eram muito simples para aquelas pessoas.

Há milhares de fatos comprobatórios que se deram da maneira ordinária, pela escrita ou pela palavra, na presença das pessoas que conheciam o morto, e para as quais as hipóteses mais sutis, a não ser a hipótese espirítica, são meros subterfúgios; deixei de apresentá-los porque o meu intuito era exibir provas objetivas, incontestáveis, obtidas na ausência de pessoas que conheciam o morto. Mas essas provas são muito difíceis de fornecer e muito raras; só o acaso as fornece algumas vezes; exigi-las a todo o custo é um ato de violência, porque elas são contrárias à própria natureza e essência do assunto e é evidente que o desejo supremo de um morto deve ser anunciar, fazer verificar sua existência àquele e por aquele que o conhece, àquele para quem somente esse fato tem valor.

Não esqueçamos de lembrar-nos que aqui, como no animismo, a realidade dos fatos que se referem a esse assunto acha-se confirmada por fatos espontâneos, fora da experimentação direta; do mesmo modo, a realidade da existência de seres supraterrenos ou supra-sensíveis, repousando sobre fatos espiríticos, também se acha confirmada por fatos espontâneos, fora de qualquer experimentação, por fatos que existiram em todos os tempos, mas que foram considerados supersticiosos, em conseqüência da impossibilidade de submetê-los à experimentação: quero falar das aparições de pessoas mortas, em sonho, ou no estado de vigília. A analogia desses fatos com os do animismo e do Espiritismo é perfeitamente evidente.

Nos fatos de telepatia, é freqüentemente difícil precisar o momento no qual o fato anímico se torna um fato espirítico. É a energia de um moribundo ou de um morto que se manifesta? A Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, que se ocupou com especialidade com os “Fantasmas dos vivos”, admite que até mesmo os “fantasmas” que aparecem doze horas depois da morte podem ser considerados ainda no número dos vivos (Edição francesa, tradução Marillier, págs. 60 a 219). Além desse limite, “a prova não se impõe”. Eis a opinião dos laboriosos autores dos “Fantasmas dos vivos”; mas eles estão longe de negar a possibilidade do fato. “A morte, dizem eles, pode ser considerada de certa maneira não como uma cessação, mas como uma libertação de energia. (...) Como a nossa teoria telepática é puramente psíquica e nada tira à física, ao corpóreo, também poderia ser aplicada ao estado de desencarnação.”

Por conseguinte, o efeito telepático pode ser igualmente atribuído a uma causa extraterrestre. As exigências desses autores são muito menos elevadas do que as nossas para a admissão de uma causa extraterrestre. “O caso, dizem eles, deve apresentar traços especiais e muito característicos para permitir que se estabeleça pelo menos uma presunção em favor de uma causa eficiente exterior ao próprio espírito do percipiente. Por exemplo: a mesma alucinação deverá impressionar a muitas pessoas independentemente uma da outra e em momentos diferentes; ou antes, o fantasma deverá revelar um fato que se reconheça em seguida como verdadeiro e que o percipiente não conheceu, sendo esta última condição provavelmente a única suscetível de provar a existência de uma causa inteligente exterior.” Notamos com prazer a confissão que acompanha estas palavras: “Existe um certo número de casos comprobatórios desses dois tipos, o que nos impõe o dever de deixar esta questão em discussão para pesquisas ulteriores.” Encontrar-se-á um esboço crítico do estado atual da questão em uma memória da Sra. Sidgwick, intitulada “Provas, reunidas pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, da existência dos fantasmas dos mortos”, no volume VIII, página 512 dos Proceedings.

Por conseguinte, é uma questão de tempo; chegará o momento em que os fenômenos desse gênero serão seriamente reunidos e estudados, e não mais condenados de antemão pelo preconceito desdenhoso da Ciência e da opinião pública.

Agora que conhecemos os fenômenos do animismo e do Espiritismo, a questão das aparições apresenta-se sob aspecto muito diverso. Os nossos conhecimentos atuais acerca da força e da matéria deverão passar por uma modificação radical. Em um fenômeno de materialização temos uma demonstração ad oculos de um fenômeno de criação, por assim dizer; uma demonstração de “metafísica experimental”, como se exprimiu Schopenhauer; está provado para nós, por fatos, que a matéria nada mais é do que uma expressão da força, um movimento progressivo da vontade, ou, em outros termos, que a matéria não passa da objetivação, da representação da vontade. Podemos admitir que uma aparição não passa de um fenômeno psíquico, uma “alucinação verídica”, ocasionada por uma “sugestão proveniente de um centro de consciência supraterrestre”, e do mesmo modo podemos admitir que esta aparição tem a faculdade de produzir um efeito físico, se bem que então ela nada mais seja do que uma objetivação material da vontade proveniente do mesmo centro de ação. As duas manifestações são possíveis, segundo as condições que se realizarem.

Não será inútil recordar aqui, no fim de meu trabalho, o que já disse no começo do capítulo I, a propósito da fotografia transcendente: é, de um modo particular, que as formas humanas que se supõe representarem “Espíritos”, quer apareçam à visão mental, quer se obtenham pela fotografia transcendente ou pela materialização, não são absolutamente as formas reais desses Espíritos, as que são próprias a seu modo de existência; não passam de formas temporárias, criadas por um esforço de memória e de vontade no intuito especial de serem reconhecidas em a nossa esfera. É a palavra “Espírito” que ocasiona a confusão quando se trata de Espiritismo. Estamos habituados a associar as palavras “Espírito”, “alma”, com as idéias habituais que formamos de um ser humano, e transportamos as mesmas imagens para o domínio transcendente. Na realidade, não sabemos absolutamente o que é um “Espírito”, nem o que supomos animar o corpo do homem, nem o que supomos segui-lo.

Esta concepção vaga que temos de um “Espírito” nos vem ainda de outra causa de confusão que se manifesta desde que se trata de Espiritismo: idéias que formamos do tempo e do espaço, que vêm condicionar involuntariamente a nossa idéia a respeito de um “Espírito”.

Admitimos perfeitamente como lógico que um “Espírito” deve achar-se fora do tempo e do espaço, e ao mesmo tempo lhe emprestamos um corpo, uma forma, isto é, atributos que dependem necessariamente do espaço e do tempo. É uma contradição evidente. A filosofia crítica prevalece-se justamente desta contradição para zombar da doutrina dos “Espíritos” e de suas manifestações. Ela nega a existência individual depois da morte, baseando-se precisamente no axioma kantiano, isto é, que o espaço e o tempo nada mais são do que formas de nossa intuição 53 dependentes do nosso organismo terrestre; uma vez desaparecido esse organismo, essas formas de intuição não mais existem e, por conseguinte, a personalidade dependente das idéias de tempo e de espaço desaparecem também. Mas, se a coisa em si existe, como essa mesma filosofia o admite, não na unidade, porém na multiplicidade, podemos supor que o espírito humano, o princípio individual, também é uma dessas coisas em si e, por conseguinte, suas relações com as outras coisas em si determinarão também formas de intuição e de concepção que são próprias e que nada mais terão com as nossas. Uma mônada – um centro de força e de consciência em um grau superior de desenvolvimento, ou então uma entidade individual dotada de inteligência e de vontade –, eis a única definição que poderíamos arriscar-nos a dar da concepção de um Espírito. Desde que ela se manifesta de novo no plano terrestre, deve necessariamente revestir a forma humana terrestre. Pelo que, uma aparição visível e tangível não passaria da objetivação temporária de uma mônada humana, revestindo um caráter de personalidade no mundo fenomênico.




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