Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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No final da sua carta publicada no Spiritualist, o Sr. Beattie chega às mesmas conclusões e acrescenta:

“Essa substância é utilizada por seres inteligentes invisíveis e moldada por eles em diversas formas, como a terra glaise pelo artista; quaisquer que sejam, essas formas, colocadas diante da objetiva, podem ser fotografadas; as pessoas cuja retina é bastante sensível para perceber essas formas dão a sua descrição exata, antes que se tenham tornado visíveis ao olho normal, pela revelação da placa.”

Na expectativa, deixemos de lado a questão dos “seres inteligentes invisíveis”, porque é matéria para discussão; detenhamo-nos nesse momento no fato irrecusável, demonstrado pelas experiências fotográficas, a saber, que sob certas condições mediúnicas há formações materiais, invisíveis ao olho normal, que estabelecem a existência de uma força inteligente, agindo com um fim preconcebido, e que há evidentemente desenvolvimento progressivo de um tipo determinado.

É preciso notar que esse fato é estabelecido por uma dupla prova: de um lado o fenômeno é visto e descrito pelas pessoas sensitivas do círculo experimentador, no momento da sua produção; de outro lado a fotografia dá uma prova material da realidade dos fenômenos observados e confirma a exatidão das descrições feitas por essas pessoas. O Sr. Hartmann não o nega (página 57). Possuímos, por conseguinte, a demonstração exigida pelo Sr. Hartmann, que quer que a placa fotográfica receba simultaneamente o médium e a aparição. Se as experiências fotográficas não tivessem dado esse resultado, o Sr. Hartmann teria podido colocar essas visões do médium no domínio das alucinações, como o faz sem hesitar em qualquer outra ocasião. Eis, por exemplo, os termos que certamente ele teria aplicado às experiências do Sr. Beattie se não fossem acompanhadas de fotografias: “Quando o médium tem a ilusão de que uma nuvem se desprende da cavidade do seu estômago e toma a forma de um Espírito, o espectador fascinado terá a mesma ilusão.” Desde que possuímos agora a prova fotográfica (pelas experiências do Sr. Beattie), de que não estamos em presença de alucinações, adquirimos um fato da mais alta importância; falaremos dele a seu tempo. É útil igualmente fazer observar que esse mesmo fato demonstra que o resultado obtido sobre a placa fotográfica não pode ser atribuído unicamente à ação “de um sistema de forças lineares”, emanando do médium (hipótese pela qual o Sr. Hartmann explica as impressões de corpos orgânicos) e agindo apenas na superfície da placa; fica-se na obrigação de admitir, nesses casos, que objetos reais produziram os resultados fotográficos em questão.

Também é muito notável a conclusão do Sr. Beattie, de que tratamos nesse caso de uma matéria invisível, artificialmente fabricada; a mesma conclusão já tinha sido deduzida de numerosas observações sobre os fenômenos da materialização visível e, entretanto, essa materialização visível, a princípio, dos rostos humanos, e depois do corpo inteiro, começava apenas a ser conhecida, quando em 1872 o Sr. Beattie chegou às mesmas conclusões das quais teremos ainda que falar, pesando o seu valor.

O Sr. Beattie não foi o único a querer verificar, em pessoa, com o concurso de um círculo de íntimos, as notícias sensacionais vindas da América, a respeito da fotografia espírita. Nos jornais ingleses de 1872 e 1873 (Médium, Spiritual Magazine e Spiritualist) encontram-se numerosas referências a semelhantes experiências, feitas por particulares no intuito de verificar esses fenômenos pelos seus próprios olhos. As primeiras fotografias desse gênero foram obtidas pelo Sr. Guppy, autor do livro Mary-Jane, do qual falamos em nosso resumo histórico da literatura espírita. Nesse caso o médium era a Sra. Guppy. (Para as particularidades dessas experiências, ver Spiritual Magazine, 1872, pág. 154, e a descrição que fez delas o Sr. Wallace, que conhecia a Sra. Guppy pessoalmente. Ver o seu livro Defesa do Espiritualismo Moderno. Semelhantes experiências foram feitas pelo Sr. Reeves, que até não tinha idéia alguma da arte fotográfica quando começou. Ele obteve igualmente imagens de objetos inanimados e de rostos humanos (Spiritual Magazine, 1872, págs. 266 e 409); esse jornal faz menção de 51 fotografias desse gênero. Citemos ainda as experiências do Sr. Parmes, sobre as quais interessantes particularidades são publicadas pelo Human Nature (1874, págs. 145-157), assim como no Spiritualist (1875, t. VI, págs. 162-165, e t. VII, págs. 282-285); do Sr. Russell, que fez experiências com pessoas da sua família e com médiuns de profissão, em sua casa (Spiritual Magazine, 1872, pág. 407); do Sr. Slater, óptico de Londres, cujos sensitivos eram também membros de sua família; ele próprio fazia todas as manipulações; encontra-se a sua comunicação no Médium de 1872, pág. 239 e seguintes. Teremos ainda que falar nele mais adiante. Finalmente mencionemos o Sr. Williams, professor de Direito, doutor em Filosofia, sobre as experiências a respeito do qual o Sr. Wallace se exprime nos termos seguintes:

“Uma confirmação não menos comprobatória foi obtida por um outro amador, o Sr. Williams, após tentativas que duraram um ano e meio. No ano passado ele teve o ensejo de obter três fotografias, cada uma das quais com uma parte de figura humana, ao lado da pessoa em exposição; uma só dessas figuras tinha os traços do rosto claramente reproduzidos. Mais tarde, achava uma forma de homem bem visível, ao lado da pessoa exposta; entretanto, depois dos banhos, essa imagem desapareceu do negativo. O Sr. Williams me certifica por escrito que essas experiências excluíam toda a fraude e toda a suposição de que essas imagens tivessem sido obtidas por qualquer processo conhecido.” (Defesa do Espiritualismo Moderno, pág. 54).

Não devemos também deixar em silêncio a experiência pessoal do Sr. Taylor, redator do British Journal of Photography. Sendo o testemunho do Sr. Taylor o de um homem que não só vivia isolado de todas as ocupações referentes ao Espiritismo, como ainda tinha qualificado a fotografia espírita de impostura vergonhosa, reproduzimos aqui textualmente a sua comunicação. Ele dirigiu-se à casa do Sr. Hudson, fotógrafo de profissão, em Londres, que também pretendia produzir fotografias espíritas. O próprio Sr. Taylor fez todas as manipulações e obteve resultados absolutamente concludentes. Deixemos-lhe a palavra:

“Uma vez reconhecida a realidade do fato, achamo-nos em presença desta questão: Como se produzem essas imagens sobre a placa coberta de colódio? A primeira idéia é atribuí-las a uma exposição dupla, arranjada pelo fotógrafo, o Sr. Hudson. Mas essa explicação encontra um desmentido imediato: a presença do Sr. Hudson não é de maneira alguma indispensável ao êxito da experiência; devemos em verdade declarar que o seu gabinete negro estava à nossa inteira disposição todas as vezes que nos achávamos em seu atelier para fazer as experiências em questão. Empregávamos o nosso colódio e as nossas placas; durante todo o tempo da preparação, da exposição e da revelação, o Sr. Hudson conservava-se a uma distância de 10 pés do aparelho.

É certo que em muitas placas obtivemos imagens fora do comum. Qualquer que seja a sua origem – por ora deixamos essa questão de lado –, uma coisa parece evidente: é que o próprio fotógrafo não tem nisso parte alguma. Assim também, a suposição de que o resultado produzido era devido a placas que tinham servido anteriormente não é aceitável nesse caso, pois todas as placas eram novas, compradas na Casa Rouch & Cia., algumas horas antes da experiência; além disso, elas estavam durante todo o tempo sob nossas vistas; o próprio embrulho só era aberto no começo da sessão.” (British Journal of Photography, 22 de agosto de 1873, citado pelo Spiritual Magazine, 1873, pág. 374).

É à mesma época que se referem as experiências que o Sr. Reimers fazia em um círculo íntimo; todas as manipulações eram feitas por ele próprio; os resultados obtidos estavam perfeitamente de acordo com as visões sensitivas do médium, bem como com as observações feitas pelo Sr. Reimers nas sessões de materialização, no decurso das quais aparecia a mesma imagem que sobre as fotografias. (Spiritualist, 1874, I, 238; Psychische Studien, 1874, pág. 546, 1876, pág. 489 e 1879, pág. 399).

Posso mencionar ainda experiências iguais feitas pelo Sr. Damiani, em Nápoles. Eis a sua comunicação:

“Um jovem fotógrafo alemão ficou tão impressionado à vista da minha coleção de fotografias espíritas, que me propôs fazer algumas experiências sobre o terraço da minha casa, se eu me incumbisse de convidar um médium para aceitar a sua proposta. No meado de outubro eu contava com seis médiuns que se puseram à disposição do fotógrafo: a Baronesa Cerápica, o Major Vigilante, o Cônego Fiore e três senhoras ainda. Na primeira placa apareceu uma coluna de luz; na segunda um globo por cima da cabeça de uma das senhoras, médium; na terceira o mesmo globo, com uma mancha no centro; na quarta placa essa mancha era mais acentuada; na quinta e última pode-se distinguir um esboço franco de cabeça no centro de uma mancha luminosa.” (Spiritualist, 3 de dezembro de 1875).

É fácil verificar nessas experiências os mesmos característicos que os que se produziram nas sessões do Sr. Beattie.

Não posso evidentemente entrar nas particularidades de todas as experiências que mencionei; isso tornaria necessário um volume. As experiências do Sr. Beattie nos bastam, porque põem entre as nossas mãos os documentos necessários e, ao demais, as condições nas quais essas pesquisas foram feitas correspondem às exigências da crítica mais severa. Repetimo-lo, essas experiências não tiveram outro intuito além de o de servir à convicção pessoal de um homem esclarecido, pesquisador estudioso, que era, além disso, um fotógrafo distinto. Ele não auferiu lucro algum material dessas experiências; as fotografias espíritas obtidas por ele nunca foram postas à venda; finalmente, nunca foram reproduzidas senão em um número restrito de exemplares, para serem distribuídos entre os amigos da causa; elas são conservadas, esperamo-lo, nos maços de jornais de fotografia aos quais essas provas chegaram ao mesmo tempo que os seus artigos. Não é, pois, de admirar que essas fotografias sejam pouco conhecidas, em geral, e na atualidade esquecidas provavelmente, porque toda a atenção se dirigiu naturalmente para os fenômenos de materialização visível.

Achando-me em Londres, em 1873, dirigi-me a Bristol, com a resolução decidida de fazer conhecimento com o Sr. Beattie. De boa vontade ele me ofereceu 32 fotografias da sua coleção. Para estudar essa questão seriamente, seria útil reproduzir em fototipia a série inteira das experiências do Sr. Beattie, por ordem cronológica. Ele próprio diz: “Essas fotografias, para serem bem compreendidas, demandam ser estudadas em suas séries consecutivas, porque é precisamente a sua evolução que é notável.”

Não possuo, a meu pesar, a coleção completa; deixei de numerar os exemplares que me foram entregues pelo Sr. Beattie, segundo as suas indicações. Presentemente é muito tarde, porque o Sr. Beattie não é mais deste mundo. Por conseguinte fiz a escolha de 16 fotografias conforme a ordem de sua série, segundo a descrição que os artigos dão a seu respeito. Acrescentarei que, na minha opinião, uma ordem rigorosamente cronológica não é de necessidade imprescindível, visto que as diversas fases da evolução não seguem de maneira absoluta a marcha do tempo, conforme pudemos julgar de acordo com os relatórios; elas estão, além disso, sujeitas às condições mais ou menos favoráveis que acompanham cada experiência.

Alonguei-me sobre as experiências fotográficas do Sr. Beattie porque considero que os resultados que ele obteve são a base fundamental de todo o domínio fenomênico da materialização mediúnica, em geral, e da fotografia transcendente, em particular, que nos vai oferecer desenvolvimentos muito significativos, sob outros pontos de vista.

O conjunto das fotografias do Sr. Beattie prova que, durante os fenômenos mediúnicos produzem-se não somente fenômenos intelectuais, de uma ordem particular – o que a crítica está resolvida a admitir, geralmente –, mas também fenômenos materiais, no sentido restrito da palavra, isto é: fenômenos de produção de certa matéria, tomando diversas formas, o que constitui o ponto essencial da questão; essa matéria apresenta-se a princípio sob a forma de vapor nebuloso, luminoso, unicolor, condensando-se pouco a pouco e adquirindo contornos mais definidos – como foi observado e assinalado por numerosas pessoas sensitivas ou clarividentes, principalmente pelos médiuns do Sr. Beattie. No seu último desenvolvimento, essa matéria se apresenta, nessas experiências, sob formas que devem necessariamente chamar-se formas humanas, posto que não sejam ainda perfeitamente definidas. Teremos a prova, nos desenvolvimentos ulteriores desse fenômeno, demonstrada pela fotografia transcendente, de que nos achamos realmente em presença de formas humanas. Mas, não devo esquecer, respondendo ao Sr. Hartmann, que me cumpre observar as condições difíceis e severas – em verdade perfeitamente racionais – que ele impôs como garantia da autenticidade do fenômeno de que se trata.

Felizmente, poderemos proceder mais adiante nas condições requeridas, que serão tão concludentes quanto as das experiências do Sr. Beattie.

Como grau intermediário entre uma forma humana indefinida e uma outra perfeitamente definida, apresenta-se a materialização definida de um órgão humano qualquer. Sabemos que os fenômenos de materialização, visíveis, consistiam – no começo do movimento espirítico – no aparecimento momentâneo de mãos humanas, visíveis, palpáveis, e provocando deslocamentos de objetos. O Sr. Hartmann coloca esse fenômeno no domínio das alucinações. Vemos, porém, na estampa V (adiante), a fotografia de mão – invisível para os assistentes – obtida pelo Dr. N. Wagner, professor de Zoologia na Universidade de S. Petersburgo. Reproduzo aqui o extrato de um artigo que esse sábio publicou no Novoïé Vremia (Novo Tempo) de 5 de fevereiro de 1886, sob este título: A teoria e a realidade; esse artigo apareceu precisamente na ocasião da publicação de uma tradução russa do livro do Sr. Hartmann sobre o Espiritismo:

“Pois que o Sr. Hartmann pede provas objetivas do fenômeno da materialização das formas humanas, suponho que é oportuno publicar os resultados de uma experiência que fiz no intuito de obter, por intermédio da fotografia, a prova de um fenômeno desse gênero.

Fiz essa experiência há cinco anos. Nessa época, preocupava-me em encontrar uma confirmação da minha teoria dos fenômenos hipnóticos, expostos por mim em três leituras públicas. Eu supunha que a individualidade psíquica, desprendendo-se do indivíduo hipnotizado, podia tomar uma forma, invisível para o experimentador, porém real em si mesma, que a placa fotográfica podia reproduzir, porque ela constitui um aparelho muito mais sensível aos fenômenos da luz do que o nosso olho. Não falarei de toda a série de experiências infrutíferas que fiz nesse terreno; referirei apenas uma única experiência, que foi feita no mês de janeiro de 1881 e que deu resultados absolutamente inesperados.

A Sra. E. D. de Pribitkof, a cuja complacência sou devedor da maior parte das minhas observações mediúnicas, me serviu de sensitiva para essa experiência. Na véspera, eu tinha preparado sete chapas fotográficas cobertas com a emulsão de colódio. A câmara escura que emprego é a de Warnerke, construída por Dolmeyer; ela é estereoscópica, e eu a escolhi assim para que as duplas imagens se confrontassem umas pelas outras e para que se pudessem reconhecer as manchas acidentais que podem aparecer na chapa ao revelar-se o negativo. Essa câmara escura é de dimensões maiores do que as usadas pelos fotógrafos da Rússia; por esse motivo, cada vez que preciso de novas chapas, tenho que encomendá-las ao fotógrafo ou ao vidraceiro; elas são cortadas em uma lâmina de vidro inteira, que nunca serviu para as manipulações fotográficas.

Pelo processo psicográfico fomos informados: de que a experiência devia ser feita na manhã seguinte, quantas chapas devíamos expor, enfim, que na terceira chapa se produziria uma imagem mediúnica. Além da Sra. de Pribitkof, eu tinha convidado ainda um sensitivo hipnótico, um aluno de um ginásio de S. Petersburgo, com o qual tinha feito experiências de hipnotismo muito bem sucedidas; destinava-o a substituir a Sra. de Pribitkof no caso em que essa senhora desse mostras de fadiga ou de qualquer desordem nervosa. Eu tinha convidado uma pessoa a quem conhecia intimamente e com a qual fazia freqüentemente experiências de hipnotismo, o Sr. M. P. de Guedeonoff; a sua presença era necessária para adormecer o médium. O último dos assistentes era o meu velho colega de escola, o Sr. W. S. de Jacoby, que se ocupa de fotografia. Todos os meus convidados chegaram à hora indicada, meio-dia, e abrimos imediatamente a sessão. Encerramo-nos em um grande quarto da minha residência, com duas janelas e uma porta.

A médium foi colocada defronte de uma das janelas, e o Sr. de Guedeonoff, por meio de simples passes, mergulhou-a em breve em um sono hipnótico. Tínhamos externado o desejo de que, por meio de pancadas, nos fosse indicado quando seria tempo de abrir a objetiva e de terminar a exposição. Não tivemos que esperar muito tempo: três pancadas muito fortes retumbaram no soalho e, depois de uma exposição que durou dois minutos, pancadas da mesma maneira nos advertiram que era tempo de fechar a objetiva.

Nas duas primeiras chapas que tinham sido expostas – depois da revelação operada imediatamente no gabinete escuro –, só se viu aparecer o retrato da médium, adormecida na sua cadeira. A exposição da terceira chapa durou cerca de três minutos, e depois da revelação encontramos ali a reprodução de uma mão acima da cabeça da médium.

Eis em algumas palavras a posição que ocupavam no quarto, no momento da exposição, as cinco pessoas que tomaram parte nessa experiência: o Sr. de Guedeonoff conservava-se perto da câmara escura; o jovem colegial de quem lhes falei estava sentado à parte, a quatro passos do aparelho; finalmente o meu amigo Jacoby e eu estávamos perto da câmara escura.


Estampa V – Fotografia transcendental


obtida pelo Dr. N. Wagner.

Julgo inútil lembrar que o aparelho era estereoscópico e que na chapa apareceram duas imagens idênticas. A mão, reproduzida acima da cabeça da médium, não podia ser a mão de nenhuma das pessoas presentes. Posto que a fotografia seja fraca e nebulosa – evidentemente porque não esteve exposta por tempo bastante –, vê-se ali a imagem muito distinta de uma mão saindo de uma manga de vestido feminino; mais acima se distingue o braço, mas apenas visível. A estrutura da mão é característica; é realmente mão de mulher, é disforme, porque o polegar se separa dos outros por profunda chanfradura. É evidente que essa mão não foi completamente materializada.

Nenhuma dúvida pode subsistir: a mão fotografada é realmente um fenômeno mediúnico.

Nas outras chapas que bati, nada de insólito apareceu. Fiz ainda, com o mesmo fim, uma série de experiências e expus, nas mesmas condições, 18 chapas; porém nenhuma registrou novos fenômenos mediúnicos.”

Por minha vez, acrescentarei que conheço pessoalmente todos os membros que assistiram a essa experiência, cujo resultado me foi comunicado imediatamente. O professor Wagner veio em pessoa trazer-me um exemplar da fotografia, que é reproduzida na estampa V. Isso se passava no mês de janeiro de 1881. À exceção do Sr. Jacoby, que eu tinha encontrado por muitas vezes em casa do Sr. Wagner, conheço particularmente todas as outras pessoas: a Sra. de Pribitkof é mulher do redator do Rebus, capitão de Marinha, e desde muitos anos mantenho com ambos relações constantes. A Sra. de Pribitkof é médium de efeitos físicos e por muitas vezes assisti às suas sessões; pancadas, reprodução na mesa de pancadas e de sons produzidos pelos assistentes, lançamento da mesa, escrita direta, deslocamento de objetos em plena luz e às escuras: eis as principais manifestações de seu mediunismo.

Permitam-me abrir aqui um parêntesis para assinalar uma experiência recente que foi mencionada no número 1 do Rebus, em 1886: no decurso dessa sessão, às escuras, uma campainha, colocada sobre a mesa em torno da qual estavam sentados os espectadores, foi levantada e começou a soar acima das cabeças. Um céptico, guiando-se pelo som, conseguiu apanhar com destreza a campainha no momento em que ela tilintava perto de si. Ele apanhou bem a campainha, mas não a mão de cuja presença suspeitava. É talvez essa mão intangível que é reproduzida na fotografia do Dr. Wagner. Qual teria sido a conclusão do nosso céptico, se tivesse sentido essa mão em estado de materialização mais grosseiro e com a manga por cima? Certamente teria concluído com “segurança” por uma fraude do médium, como se proclamou com freqüência em casos análogos; acabamos de ver, entretanto, que essa “certeza” está longe de ser absoluta; a fotografia dá testemunho disso.

Volto, porém, ao meu assunto: o segundo dos assistentes do Dr. Wagner, o Sr. Miguel de Guedeonoff, é capitão-tenente da Guarda Imperial; conheço-o há cerca de dez anos; depois de ter feito, na qualidade de oficial, a campanha da Turquia, está atualmente empregado no serviço civil, na Administração Central das Prisões.

O jovem colegial, que devia, em caso de necessidade, substituir a Sra. de Pribitkof, chama-se Krassilnikof; depois ele foi estudante da Academia de Medicina.

Todas as pessoas receberam, como lembrança dessa sessão memorável, um exemplar da fotografia em questão; antes de publicar essas informações, interroguei todas acerca de diferentes particularidades da experiência. O Sr. de Guedeonoff deu-me o seu testemunho por escrito, que reproduzo aqui a título de documento suplementar:

“No mês de janeiro de 1881, o professor Wagner me participou o seu projeto de fazer algumas experiências de fotografia de uma pessoa mergulhada no sono magnético, com a esperança de recolher uma prova objetiva da possibilidade do desdobramento da personalidade. Como, naquela época, eu me ocupasse muito de magnetismo, o professor Wagner propôs-me tomar parte nessas experiências na qualidade de magnetizador, e convidou, para uma sessão próxima, a Sra. de Pribitkof e o Sr. Krassilnikof, que ele desejava fotografar.

Compreendendo toda a importância do projeto do Sr. Wagner, aceitei o seu convite; na véspera da sessão, dirigi-me à casa do professor Wagner para me entender definitivamente com ele acerca das particularidades da experiência e para assistir na minha qualidade de testemunha à preparação das chapas que tinham de servir para os negativos. Encontrei, em casa do professor, o Sr. Jacoby, que se encarregava da parte técnica da fotografia.

Em nossa presença, as chapas foram cuidadosamente examinadas, lavadas, numeradas e cobertas com a emulsão necessária; depois foram encerradas pelo Sr. Wagner em uma caixa.

No dia seguinte pela manhã, a Sra. de Pribitkof, o Sr. Krassilnikof, o Sr. Jacoby e eu nos reunimos em casa do professor Wagner, no seu gabinete, na Universidade; procedemos imediatamente às experiências fotográficas. Para esse fim, a Sra. de Pribitkof sentou-se em uma poltrona, diante da janela; defronte dela, perto da câmara escura, conservavam-se o Sr. Wagner e o Sr. Jacoby; o Sr. Krassilnikof estava sentado à parte, perto de uma mesa. Tendo adormecido a Sra. de Pribitkof, por meio de passes magnéticos, no espaço de oito a dez minutos, dirigi-me para perto do Sr. Jacoby e esperamos o sinal convencionado para descobrir a objetiva.

Durante todo o tempo da exposição – que foi muito longa em razão da fraca luz –, evitei fixar constantemente o rosto da médium adormecida; mas, por duas vezes fui obrigado a olhá-la com fixidez para torná-la completamente imóvel, porque destas duas vezes retumbaram pancadas no soalho, e eu temia que a posição do corpo fosse modificada, se a poltrona se pusesse em movimento, o que teria prejudicado a experiência. Mas, desde o momento em que eu tomei lugar perto do Sr. Jacoby, defronte da Sra. Pribitkof, não me aproximei mais da médium; em suma, até o fim da exposição, ninguém se aproximou da médium e ninguém ficou entre a médium e o aparelho fotográfico. As experiências seguintes foram feitas nas mesmas condições, e sobre um dos negativos apareceu, acima da cabeça da médium, a imagem de mão de mulher, com manga larga, de feitio antigo.

Depois dessa sessão, várias outras ainda se realizaram; mas o fim que o Sr. Wagner se tinha proposto não foi atingido, e em breve a moléstia da Sra. de Pribitkof nos obrigou a interromper essas experiências.

Assinado: Miguel de Guedeonoff,
S. Petersburgo, janeiro de 1886. Foatanka, 52.”

A fotografia de que se trata é notável por muitos títulos. O resultado obtido era inesperado: o alvo mirado pelo professor Wagner era obter um fenômeno de desdobramento psíquico, demonstrado pela fotografia, isto é: ele queria ver aparecer, com o médium, a forma transparente do seu duplo (verificaremos mais tarde que o fenômeno se produziu). Em vez disso, só apareceu na fotografia a mão, que se pode, querendo, considerar como uma parte desse duplo; mas assinalamos aqui uma particularidade que dissipa essa suposição: as aparições de duplo que foram observadas apresentam a imagem perfeita não só da pessoa em questão, porém ainda a reprodução do seu vestido. No caso que nos ocupa, temos a mão que não se assemelha à da médium, porque é disforme, e temos o fato positivo do seu aparecimento em manga de vestido feminino, que não era a manga do vestido que a médium trajava. Se essa manga se semelhasse à da médium, teríamos podido supor que se tratava do desdobramento perfeito da mão com a manga; essa semelhança, porém, não existe. Infelizmente a fotografia está ofuscada no lugar onde se achava o braço direito da médium e não se podem distinguir as particularidades do feitio do vestido; mas informei-me especialmente a respeito dessa particularidade, e os quatro assistentes do Dr. Wagner me afirmaram que a médium trajava um casaco de mangas estreitas, como se usam presentemente. Além disso pedi à Sra. de Pribitkof que me desse um desenho dessa manga; ela ma enviou imediatamente, juntando a notícia seguinte:

“No começo do ano de 1881, fui convidada pelo professor Wagner a servir em experiências de fotografias, em minha qualidade de pessoa que possui faculdades mediúnicas. Cerca das 11 horas da manhã, dirigi-me ao professor Wagner, em seu gabinete, onde encontrei o Sr. de Guedeonoff, o Sr. Krassilnikof e o Sr. jacoby. Logo que esse último acabou de preparar o aparelho fotográfico, o Sr. de Guedeonoff me magnetizou; adormeci e de nada mais sei. O vestido que eu trajava era pardo escuro, com enfeites de veludo preto; as mangas eram estreitas e justas no braço até o punho, com um canhão de veludo na extremidade e um pequeno plissé, da mesma fazenda do vestido. Envio-lhe um desenho reproduzindo essa manga.

Assinado: Elisabeth de Pribitkof.”

Considero a aparição dessa manga como uma particularidade extremamente importante, sob muitos pontos de vista. Sem essa manga, ter-se-ia pretendido sem dúvida alguma que a fotografia tinha reproduzido a mão de um dos assistentes, colocada por acaso entre a objetiva e a médium; essa explicação não era muito aceitável, porque seria preciso supor, para admiti-la, que a mão tivesse sido exposta intencionalmente pelo menos durante alguns segundos nessa posição; porém, por pior que seja, a explicação serviria, porque, uma vez dentro do caminho da negação sistemática, não há razão para que nos detenhamos.

A manga, que a luz não ocultou à sensibilidade das chapas fotográficas, destrói todos esses argumentos sutis. O resultado obtido só poderia ser explicado por fraude intencionalmente cometida pelo professor Wagner (preparando uma chapa antes da sessão), porém, ainda uma vez, admitindo a existência de uma fraude, não se pode acreditar que um dos assistentes tivesse tido a idéia de fazer aparecer a mão de um Espírito em uma manga: seria um meio seguro de fazer acreditar em uma farsa.

Mas a Natureza nos apresenta as coisas à sua maneira e produz fenômenos que não se harmonizam absolutamente com os nossos raciocínios sobre a possibilidade de seu conteúdo objetivo. As aparições tradicionais trajam, ora uma roupagem branca, ora roupa comum; os duplos tradicionais aparecem sempre em um traje qualquer; e eis que a fotografia transcendente nos revela formas humanas vestidas! Veremos mais adiante que esse fato se reproduz em todas as fotografias desse gênero, fato com o qual não poderíamos contar – de acordo com as nossas concepções ordinárias.

Tendo presentemente sob os olhos a prova indiscutível da fotografia transcendente de um objeto, que indubitavelmente tem a forma da mão humana, podemos ocupar-nos do desenvolvimento ulterior desse fenômeno: da revelação pela fotografia das figuras humanas invisíveis e que serão não só perfeitamente definidas, como ainda reconhecíveis. Vamos dar uma prova do que avançamos, observando as condições absolutas de autenticidade exigidas pelo Sr. Hartmann.

Já mencionamos mais acima o nome do Sr. Slater entre as pessoas que fizeram experiências transcendentes para a sua satisfação pessoal. Para dar uma idéia dos resultados notáveis que o Sr. Slater obteve, não temos nada de melhor a fazer do que citar o testemunho do Sr. Wallace:

“O Sr. Tomás Slater, óptico, residente desde muito tempo no Euston Road, em Londres, e ao mesmo tempo fotógrafo amador, trouxe uma nova câmara escura de sua própria confecção, forneceu suas próprias chapas e dirigiu-se à casa do Sr. Hudson. Seguia cuidadosamente tudo o que se fazia em casa do fotógrafo e obteve o seu retrato com uma figura nebulosa a seu lado; depois ele mesmo fez experiências em sua casa e chegou a resultados notáveis. No decurso da sua primeira experiência, obteve o retrato de sua irmã entre duas cabeças, uma das quais era indubitavelmente o retrato do finado Lorde Brougham; a outra, menos parecida, foi reconhecida pelo Sr. Slater ser o retrato de Robert Owen, do qual tinha sido amigo íntimo até à morte. Em um dos negativos apareceu uma mulher como uma roupagem flutuante, preta e branca, que se conservava ao lado do Sr. Slater. Em outra chapa apareceu a cabeça e o busto dessa mulher, apoiando-se sobre a espádua dele. As figuras dos dois retratos eram de uma semelhança absoluta; os outros membros da família Slater reconheceram nelas a mãe do Sr. Slater, morta na época em que ele ainda era criança. Outro negativo trazia a imagem de uma criança, com vestido branco enfeitado, que se conservava perto do jovem filho do Sr. Slater. Essas imagens são completamente idênticas às pessoas que se afirmaram reconhecer? A questão principal não é essa. O simples fato de aparecerem em negativos figuras humanas obtidas no gabinete particular de um oculista conhecido, que é ao mesmo tempo um fotógrafo amador, e que fez com suas próprias mãos todos os preparativos da operação – a qual, além disso, era feita somente na presença dos membros da sua família –, é um fato verdadeiramente prodigioso. Sucedeu de uma outra vez aparecer uma imagem na chapa em que o Sr. Slater tirava o seu próprio retrato, estando absolutamente só. Sendo o Sr. Slater e os membros de sua família médiuns, não tinham necessidade de recorrer ao concurso de outras pessoas; é a essa circunstância que se pode atribuir o êxito particularmente favorável de suas experiências. Uma das fotografias dentre as mais extraordinárias produzidas pelo Sr. Slater foi o retrato inteiro de sua irmã, no qual se via não uma outra figura, mas uma espécie de rendado transparente rodeando essa pessoa. Examinando mais de perto esse rendado, pode-se ver que ele consta de anéis de dimensões diversas que não lembravam de maneira alguma as rendas comuns que vi e das quais me fizeram a descrição. O próprio Sr. Slater me mostrou esses retratos, explicando-me as condições nas quais eles tinham sido feitos. Essas experiências foram feitas sem fraude alguma; nesse ponto não pode haver dúvida. Elas têm um alcance particular, consideradas como a confirmação dos resultados obtidos anteriormente pelos fotógrafos de profissão.” (A Defesa do Espiritualismo Moderno).

Quando eu estive em Londres, em 1886, tive alguma dificuldade em encontrar o Sr. Slater. Ele não possuía mais fotografias; tudo o que me pôde mostrar foi uma série de negativos que tinha conservado.

A propósito do Sr. Slater e das fotografias de Lorde Brougham e de Robert Owen, acima mencionadas, eis uma interessante notícia explicativa de sua origem:

Em recente reunião de espiritualistas, em Londres, Gower Street, o Sr. Slater (óptico, Euston Road, 136) fez a narração seguinte, relativa à sua estréia no Espiritismo:

“Em 1856, achando-se Robert Owen 



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