Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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11 em minha casa em companhia de Lorde Brougham, recebeu uma comunicação espírita por meio de pancadas; durante esse tempo eu estava ocupado com alguns aparelhos fotográficos. As pancadas comunicaram que chegaria um momento em que eu faria fotografias espíritas. Robert Owen declarou que, se ele se achasse então em um outro mundo, apareceria na chapa. No mês de maio de 1872, ocupei-me efetivamente em tirar fotografias espíritas. Fiz inúmeras experiências e em uma das chapas apareceram as figuras de Robert Owen e de Lorde Brougham, o qual, como se sabe, foi, durante longos anos, um dos amigos mais íntimos de Robert Owen e tinha vivo interesse por sua carreira pública.” (Spiritual Magazine, 1873, pág. 563; Spiritualist, 1875, tomo II, pág. 309).

Antes de tratar da última parte do capítulo da fotografia transcendente de formas humanas, parece-me útil citar as sábias palavras com as quais o Sr. Russel Wallace, em sua obra A Defesa do Espiritualismo Moderno, faz preceder essa parte da obra que cogita da fotografia espírita; essas palavras reproduzem um argumento muito conhecido pelos espíritas, porém ordinariamente ignorado pela crítica. Ei-lo:

“O Sr. Lewes aconselhou ao comitê da Sociedade Dialética que tinha sido incumbido de ocupar-se da questão espírita que distinguisse cuidadosamente entre os fatos e as deduções. Isso é particularmente necessário na questão das fotografias espíritas. Não sendo obra da mão humana, as formas humanas que aí aparecem podem ser de origem espírita sem que sejam por isso as imagens de “Espíritos”. Muitas coisas militam em favor da suposição de que, em certos casos, essas imagens resultam da ação de seres inteligentes, invisíveis, mas que se distinguem deles. Em outros casos, esses seres revestem uma espécie de materialidade perceptível aos nossos sentidos; mas, ainda nesses casos, não se segue que a imagem criada seja a verdadeira imagem do ser espiritual. É admissível que seja a reprodução da antiga forma mortal com os seus atributos terrestres aos quais o Espírito recorreu para estabelecer a sua identidade.” (Wallace, On Miracle and Spiritualism, 1875, pág. 185).

Pois que adquirimos agora, por três fontes (os Srs. Beattie, Wagner e Slater) perfeitamente seguras – e nas condições exigidas pelo Sr. Hartmann – a prova irrefutável, por processo fotográfico, da possibilidade de formações materiais invisíveis aos nossos olhos e revestindo a forma humana, temos o direito de acompanhar o desenvolvimento desse fenômeno em todos os graus de perfeição que ele atingiu entre certos fotógrafos de profissão, aceitando a prova de sua autenticidade, não mais sob a única afirmação de um operador de boa fé, mas sob os testemunhos das pessoas às quais as fotografias se referem diretamente, e que são as únicas que podem decidir de seu valor intrínseco.

Não falarei do fotógrafo inglês Hudson, de Londres, porque as opiniões dos próprios espiritualistas se dividem a seu respeito: uns o acusam de fraude, outros enumeram casos em que a semelhança com a pessoa, havia muito tempo morta, era evidente, ou ainda casos em que a aparição da figura na fotografia, em posições ou com acessórios impostos mentalmente pela pessoa que se expunha, exclui toda a suposição de fraude.

Grande número de fenômenos desse gênero são enumerados no tratado do Sr. M. A. (Oxon): A Fotografia Espírita, publicado no jornal Human Nature, 1874, pág. 393 e seguintes. Prefiro referir-me a Mumler, cuja reputação ficou intacta durante a sua longa carreira profissional; a autenticidade das provas fotográficas obtidas por esse fotógrafo é estabelecida por uma prova cujo valor é igual ao de uma investigação científica.

As fotografias de Mumler motivaram um processo e, apesar da animosidade dos detratores, escudados na opinião pública e por todo o poder do preconceito, elas saíram triunfantes dessa luta. Não posso entrar aqui em todas as particularidades do caráter de Mumler e de seu processo; é assunto que por si só daria matéria para uma obra completa. Entretanto, alguns dados nos são necessários, e é sobretudo interessante lembrar a origem das experiências fotográficas de Mumler; tiraremos a sua explicação da própria narrativa de Mumler, segundo a sua declaração perante o tribunal, depois do seu processo. É útil notar que as manifestações de fotografia transcendente se produziram na época em que Mumler exercia a profissão de gravador e não tinha conhecimento algum de fotografia. Eis o que ele diz:

“Em 1861, em Boston, onde eu exercia a profissão de gravador, freqüentava a casa de um moço que trabalhava no gabinete fotográfico dos Srs. Stuart, Washington Street; então eu era incumbido dos aparelhos e das substâncias químicas. Certo domingo, achando-me na galeria, procurei tirar meu retrato e, revelando o negativo, notei, pela primeira vez, que a chapa apresentava uma segunda imagem. Nessa época, eu ainda não tinha ouvido falar em fotografia espírita, posto que me interessasse já pelo Espiritismo. O meu primeiro pensamento foi, como muitas pessoas o supõem até hoje, que a imagem que estava reproduzida ao lado da minha se achava já na chapa antes da operação. Era isso que eu respondia a todas as perguntas que me eram dirigidas.

Entretanto, as experiências seguintes, que fiz em condições que excluíam essa suposição de um modo absoluto, me convenceram de que a força produtora dessas imagens existia fora do poder humano; peritos, chamados para trabalhar nas mesmas condições, nada de semelhante puderam produzir.

Eu quisera aqui atrair a atenção para essa circunstância: quando revelei essas imagens, eu era inteiramente novel na arte fotográfica e nenhuma noção tinha das composições químicas que empregava; servindo-me de tal ou qual produto químico, mais não fazia do que imitar as manipulações do meu amigo. Depois de ter recebido as imagens de que falei, repeti essas experiências, segundo os conselhos de alguns amigos aos quais mostrei minhas chapas, e sempre obtive resultados surpreendentes. Resolvi então abandonar a minha profissão para consagrar-me à fotografia.” (Spiritual Magazine, 1869, págs. 256 e 257).

O próprio fato da origem dessas fotografias é corroborado pelos testemunhos dados nessa época e que se acham nos artigos do Herald of Progress (1º de novembro de 1862), editado por Davis, e do Banner of Light (8 de novembro de 1862), que publicaram os primeiros relatórios sobre esse fenômeno inesperado; esses documentos foram acolhidos pela redação dos jornais acima mencionados sem entusiasmo algum e, antes, com cepticismo e reserva.

É sobretudo interessante saber sob que forma se produziram as primeiras fotografias transcendentes de Mumler. Sobre esse ponto, os dados nem são numerosos nem circunstanciados; entretanto, elas existem, e eis a descrição das duas primeiras fotografias, devida a um correspondente do Banner:

“A primeira apresenta um retrato do médium, o Sr. Mumler, apoiando-se com uma das mãos sobre uma cadeira, enquanto que a outra sustém o pano preto que acabava de ser retirado da câmara escura. Em uma cadeira estava sentada uma forma feminina, que parecia ser uma menina de 12 a 14 anos. Reconhecemos nela uma parenta morta; acima de sua cabeça havia uma nuvem, efeito que ainda não tínhamos observado até então nas fotografias. Em outra chapa a cabeça estava rodeada por um fraco disco de luz, como se raios luminosos brotassem em todos os sentidos e se perdessem a uma determinada distância. Em duas outras fotografias apareceu ainda o mesmo efeito, com a diferença de que o círculo luminoso era de um diâmetro tal que teria envolvido a forma inteiramente se a chapa tivesse sido maior.”

Possuo uma prova dessa primeira fotografia de Mumler e posso acrescentar que o contorno da parte superior do corpo salienta-se com certa nitidez, sendo a própria figura confusa e desfeita. Vê-se distintamente a cadeira através do corpo e dos braços, assim como a mesa na qual repousa um dos braços. Abaixo da cintura, a forma – que aparentemente está vestida com uma túnica decotada com mangas curtas – funde-se em uma espécie de nevoeiro, que não se vê mais abaixo da cadeira. Uma parte do encosto da cadeira é visível através do braço esquerdo; pequena parte do encosto fica completamente desfigurada pela espádua esquerda, que é tão opaca quanto o pescoço e o peito. Acima da cabeça distingue-se um vapor nebuloso esbranquiçado, que circunda a cabeça de uma a outra têmpora, desce até a mão de Mumler, que está apoiada sobre o encosto e que ela cobre. A fotografia que possuo é uma cópia feita em Londres pelo original e, por conseguinte, menos nítida.

“Na segunda fotografia acha-se a forma de uma mulher sentada em uma cadeira, tendo, por trás, uma espécie de massa branca indefinível, alguma coisa semelhante a dois ou três travesseiros.” (Banner of Light, 1862, 29 de novembro, reproduzido no Spiritual Magazine, 1863, págs. 35 e 36).

Podemos, pois, verificar esse fato notável: que as fotografias de Mumler mostram os traços dessas massas luminosas que vimos nas do Sr. Beattie, e que precederam a formação das figuras humanas. É mais do que provável que o que se apresenta nessas duas fotografias como um “vapor nebuloso esbranquiçado”, um “disco de luz” ou uma “massa branca assemelhando-se a dois travesseiros” tivesse sido descrito por um sensitivo como se fosse massa luminosa.

Mas voltemos às origens. Desde que se espalhou a notícia de que essas fotografias tinham sido feitas, o Sr. J. A. Davis, que editava nessa época, em Nova Iorque, o Herald of Progress, mandou, especialmente, a Boston um fotógrafo seu amigo, o Sr. Guay, para fazer um inquérito acerca desse fenômeno e assegurar-se da sua autenticidade. O resultado dessa primeira investigação técnica foi publicado, in extenso, no Herald de 29 de novembro de 1862, e resumidamente em uma carta do Sr. Guay, publicada no Banner da mesma data, que reproduzimos aqui:

“Boston, 18 de novembro de 1862.

Senhor editor:

Tendo sido informado pelo Sr. Mumler de que o senhor desejava publicar os resultados das minhas pesquisas acerca das fotografias espíritas obtidas pelo Sr. Mumler, comunico ao senhor, com prazer, as minhas observações pessoais. Pode ficar persuadido de que, procedendo a pedido do Sr. Davis, eu me entreguei a minhas investigações com a firme determinação de conduzi-las o mais rigorosamente possível, a fim de que nada pudesse escapar à minha atenção. Depois de uma experiência ininterrupta de dez anos, durante os quais eu fazia negativos em vidro e impressões positivas em papel, julgava-me em condições de descobrir qualquer fraude.

Não me opondo o Sr. Mumler dificuldade alguma, eu mesmo fiz, na chapa escolhida para o meu retrato, todas as operações de banhos, viragem e montagem. Durante todo esse tempo não perdi de vista a chapa e não deixei aproximar-se dela o Sr. Mumler, senão depois de terminada a operação. Em seguida, submeti a minuciosa inspeção o gabinete escuro, o caixilho, o tubo, o interior das cubas, etc. E, apesar de tudo, obtive, com grande admiração, a minha fotografia acompanhada por uma outra imagem.

Tendo continuado depois as minhas pesquisas, nas mesmas condições, com resultados ainda mais comprobatórios, vi-me obrigado, com toda a sinceridade, a reconhecer a sua autenticidade.

Aceite, etc.

W. Guay
(
The Spiritual Magazine, 1863, págs. 34 e 35).”

Acrescentaremos somente que no papel negativo apareceu a imagem da falecida mulher do Sr. Guay, e na segunda a imagem de seu pai. E o Sr. Guay acrescenta: É impossível que Mumler tenha obtido um retrato de minha mulher ou de meu pai.” (Herald, 29 de novembro).

Podemos passar agora em silêncio a longa série de todos os testemunhos dados a favor de Mumler e de todas as investigações empreendidas com o intuito de descobrir a fraude, como era natural supô-lo, mas que chegaram sempre a um resultado negativo. Bastar-nos-á reproduzir aqui um artigo do British Journal of Photography, mandado a esse jornal pelo seu correspondente de Filadélfia, o Sr. C. Sellers, que não se pode acusar de predileção pelo Espiritismo. Eis esse artigo:

“Há alguns meses, certos jornais publicaram a comunicação de um fotógrafo de Boston que tinha obtido uma imagem dupla, durante os ócios do domingo; a imagem suplementar representava o retrato de um parente morto. Depois ele notou que todas ou quase todas as fotografias que tirava apresentavam a mesma imagem, mais ou menos distinta. Tendo-se espalhado por toda parte os rumores desse prodígio, o seu gabinete foi em breve invadido por curiosos que desejavam obter os retratos de seus falecidos amigos. Os fotógrafos divertiam-se com isso e afirmavam que a fraude seria em breve descoberta. Fizeram-se muitas imitações com o auxílio do processo ordinário que a princípio tinha sido proposto por Sir David Brewster. Fez-se mais ainda: por meio de duas chapas superpostas, uma das quais continha a segunda imagem, e explicava-se o fenômeno por um desses dois processos; homens conhecidos por sua instrução científica ocuparam-se em procurar a sua explicação e não puderam descobrir a impostura...

No que diz respeito às imagens em si, elas se distinguem essencialmente de todas as que eu já tinha visto e não conheço processo algum para imitá-las. O fantasma nunca aparece de pé; não se reproduz além da cintura ou, quando muito, até os joelhos, e não se pode entretanto dizer, com precisão, em que região do corpo a imagem desaparece. À primeira vista, muitas pessoas crêem distinguir claramente a imagem inteira, mas, depois de exame mais minucioso, ela parece menos distinta. Não vi os negativos; mas, julgando conforme as provas e conforme o tom fraco da imagem do “espírito”, seria tentado a afirmar que essa imagem devia ser a primeira a se revelar na chapa. Os contornos não são absolutamente distintos; os traços principais são muito visíveis, mas, à exceção do rosto, que é completamente opaco, as outras partes da forma são bastante transparentes para se poder ver claramente através. E entretanto nenhum desses traços se mostra com tanto vigor quanto sobre as imagens das segundas chapas nas falsificações de fotografias espíritas. Verifica-se indubitavelmente que essas imagens não são formadas no foco quando se acham atrás da pessoa que se expôs, ou diante dela; são um pouco mais nítidas quando se acham no mesmo plano. Mas, em todos os casos, há excesso de exposição.

Os adeptos do Espiritismo explicam esse fato da maneira seguinte: Os “espíritos” não podem produzir sua própria imagem na chapa sensível; mas podem dar a forma desejada aos elementos mais sutis da matéria, e essa matéria, posto que invisível ao olho nu, pode refletir os raios químicos da luz e assim agir sobre a placa. Em apoio eles citam o que sucedeu com o retrato, que eu vi em casa do Dr. Child e que representa uma senhora que desejava ardentemente obter a imagem de uma guitarra em seus braços: a forma desejada apareceu! Os espíritas dizem que, certamente, o “espírito” de um corpo inanimado não pode existir, mas que os “espíritos” podem formar iguais objetos, segundo o seu desejo; todas as imagens que aparecem não são, pois, senão modelos expostos pelos “espíritos”, diante do aparelho, mas de maneira alguma os retratos dos próprios espíritos; eles afirmam igualmente que os “espíritos” tiram essas imagens da memória das pessoas presentes. Teria sido um assunto digno da pena de Bulwer; que maravilhosa história ele teria tirado desses estranhos fenômenos!



C. Sellers. (Reproduzido no
The Spiritualist Magazine, 1863, págs. 125 a 128).”

Abreviei a carta, que é um pouco longa; mas reproduzi as particularidades técnicas que têm seu valor e, sobretudo, a hipótese, já formulada nessa época, da matéria invisível trabalhada e modelada – hipótese que encontramos dez anos depois em Beattie e que terá para nós uma importância capital quando se tratar das materializações visíveis.

Para terminar com o que diz o Journal of Photography, reproduzirei ainda uma nota que ele publicou na época do processo de Mumler e que me parece ter o seu cabimento aqui:

“A propósito das fotografias espíritas de Mumler, disseram-se muitas coisas absurdas, pró e contra. Um autor dessa última categoria chegou a afirmar que tudo o que é visível para o olho do gabinete escuro, e por conseguinte suscetível de ser reproduzido em fotografia, deve necessariamente, por essa mesma razão, ser visível ao olho humano; esse autor não tem certamente noção alguma desse ramo importante das ciências físicas que compreende os fenômenos conhecidos sob o nome de fluorescência. Ora, há muitas coisas totalmente invisíveis ao olho físico e que, entretanto, podem ser fotografadas. Por exemplo, em um quarto onde só têm acesso os raios ultravioleta do espectro solar, uma fotografia pode ser tirada por meio dessa “luz obscura”. Em um quarto assim iluminado, os objetos são claramente visíveis à lente da câmara escura; em todos os casos, eles podem ser reproduzidos em uma chapa sensível, sem que por isso o menor átomo de claridade seja percebido no quarto por uma pessoa dotada da agudeza visual fisiológica. Por conseguinte a reprodução fotográfica de uma imagem invisível, a de um Espírito ou a de uma massa de matéria não é cientificamente impossível; se ela não reflete senão a fluorescência ou os raios ultravioletas do espectro, a imagem será facilmente fotografada, sendo completamente invisível à vista mais penetrante.” (Reproduzido no The Spiritual Magazine, 1869, pág. 421).

Eis-nos finalmente chegados ao processo que fez a glória de Mumler; ele lhe foi intentado pelo jornal The World de Nova Iorque, no mês de abril de 1869. O Sr. Mumler foi detido por suspeita “de ter cometido fraudes e trapaças à custa do público, por meio de fotografias espíritas”.

Eis os tópicos salientes do processo: Os queixosos produziram oito fotografias para provar que o Sr. Mumler era um impostor e indicaram seis métodos diversos, por meio dos quais podiam-se obter essas pretendidas fotografias de Espíritos. Entretanto, nenhum dos queixosos tinha visto Mumler em trabalho nem inspecionado seu gabinete e seus aparelhos; finalmente, ninguém provava que as imagens de Mumler fossem produzidas por meio de qualquer dos processos indicados; pelo contrário, quatro fotógrafos, os Srs. Slee, Guay, Silver e Gurnay, que tinham estado em casa do Sr. Mumler e que o tinham visto trabalhar, testemunharam que nenhum dos seis métodos mencionados tinha qualquer relação com o método de Mumler, em tudo semelhante ao método ordinário. Melhor ainda, o Sr. Slee, fotógrafo em Poughkeepsie, tinha convidado o Sr. Mumler para ir à sua casa de Poughkeepsie, e ali produziram-se com o gabinete escuro do Sr. Slee, seus vidros e produtos químicos, os mesmos efeitos. O Sr. Guay passou três semanas com o Sr. Mumler para estudar esses fenômenos; ele atestou que tinha visto essas imagens se produzirem, quando ele mesmo dirigia as operações, desde a lavagem da chapa até a revelação. O Sr. Silver declarou que, quando o Sr. Mumler ia à sua galeria e empregava os seus aparelhos e as suas drogas, aparecia uma imagem ao lado do Sr. Silver; fotografias espíritas produziram-se mesmo quando o Sr. Silver, em pessoa, fazia todas as manipulações com os seus próprios aparelhos, em presença do Sr. Mumler.

Enfim, o Sr. Gurnay, fotógrafo conhecido de Nova Iorque (nº 707, Broadway), fez o depoimento seguinte:

“Ocupo-me de fotografia há vinte e um anos; examinei os processos do Sr. Mumler e, posto que eu tivesse ido com a intenção de fazer uma pesquisa rigorosa, nada descobri que se assemelhasse a uma fraude ou a uma trapaça. Seu modo de fotografar era o modo comum, e a coisa única que não combinava com a rotina do ofício era que o operador colocava a mão sobre a câmara escura.”

Porém, ainda outro fato foi peremptoriamente estabelecido pelas testemunhas: todos os fotógrafos chamados pelos queixosos, como peritos, estiveram de acordo com reconhecer que imagens de sombras, semelhantes às que apareceram nas chapas, não podem ser refletidas de uma chapa negativa para a chapa sensível com outra luz a não ser a do gás, das velas ou do dia. E foi afirmado por meia dúzia de testemunhas – que tinham assistido às experiências de Mumler, em seu gabinete e no intuito de descobrir a fraude – que não tinham empregado em sua câmara escura nem a luz do gás, nem a das velas e das lâmpadas, nem a luz do dia, e que a luz única que penetrava no quarto provinha de pequena janela velada por um pano amarelo-escuro; entretanto, Mumler produzia suas imagens e, em muitos casos, mostrava-as aos visitantes, alguns minutos depois da exposição.

No caso do Sr. Livermore, banqueiro conhecido em Nova Iorque, que era uma das testemunhas, o Sr. Mumler revelou três retratos de sua falecida mulher, em três posições diferentes, menos de dez minutos depois de o Sr. Livermore se ter exposto.


Estampa VI – As quatro figuras acima foram obtidas


a partir de fotografias transcendentais do Sr. Mumler.

Não só o inquérito judiciário estabelece o fato da produção na chapa de figuras humanas invisíveis ao olho nu, porém doze testemunhas declararam ainda que tinham reconhecido nessas figuras as imagens de seus parentes ou amigos mortos. Ainda mais, cinco testemunhas, entre as quais se achava o juiz Edmonds, depuseram que produziram-se imagens e foi reconhecido ainda que as pessoas que eram representadas nunca tinham sido fotografadas em vida.

Grande número de testemunhos semelhantes teriam podido ser obtidos, mas o juiz, julgando que os testemunhos produzidos eram suficientes, proferiu a sentença seguinte:

“Depois de ter examinado cuidadosamente a causa, tinha chegado a essa conclusão: que o detido devia ser posto em liberdade; ele verificava que ainda mesmo que o acusado tivesse cometido fraudes e trapaças, ele era obrigado, em sua qualidade de magistrado, a decidir que o réu não comparecesse perante o Tribunal Superior do Júri, pois, em sua opinião, a parte queixosa não tinha conseguido comprovar o fato.” (Ver, para todas as particularidades, o relatório do processo nos jornais: Banner of Light, 1º e 8 de maio e 28 de agosto de 1866; e The Spiritual Magazine, 1869, págs. 241 e 260).

Eis uma carta do Sr. Bronson Murray,12 publicada no Banner of Light, de 25 de janeiro de 1873:

“Sr. Diretor:

Nos últimos dias de setembro passado, a Sra. W. H. Mumler, de sua cidade (170, West Springfield Street), achando-se em estado de transe, no decurso do qual dava conselhos médicos a um dos seus doentes, interrompeu-se subitamente para me dizer que, quando o Sr. Mumler tirasse a minha fotografia, na mesma chapa apareceria ao lado do meu retrato a imagem de uma mulher, sustendo com uma das mãos uma âncora feita de flores; essa mulher desejava ardentemente anunciar a sua sobrevivência ao marido, e inutilmente tinha procurado até então uma ocasião de se aproximar dele; ela acreditava consegui-lo por meu intermédio. A Sra. Mumler acrescentou: “Por meio de uma lente, poder-se-á distinguir, nessa chapa, as letras: R. Bonner.” Em vão lhe perguntei se essas letras significavam Roberto Bonner. No momento em que eu me preparava para tirar o meu retrato, caí em transe, o que nunca me tinha sucedido; o Sr. Mumler não conseguiu, apesar de todos os seus esforços, colocar-me na posição desejada. Foi-lhe impossível conseguir fazer-me ficar direito e apoiar a minha cabeça no sustentáculo. O meu retrato foi, por conseguinte, tirado na posição que a prova o indica, e ao lado apareceu a figura de mulher com a âncora e as letras, formadas por botões de flores, assim como me tinha sido predito. Desgraçadamente eu não conhecia pessoa alguma com o nome de Bonner, ninguém que pudesse reconhecer a identidade da figura fotografada.

De volta à cidade, contei a muitas pessoas o que tinha acontecido; uma delas me disse ter encontrado recentemente um tal Sr. Bonner, da Geórgia; ela desejava mostrar-lhe a fotografia. Quinze dias depois, mandou-me pedir que passasse por sua casa. Alguns instantes depois, entrou uma visita, era um Sr. Roberto Bonner. Ele me disse que a fotografia era a de sua mulher, que a tinha visto em casa da senhora de quem se fala e achava a semelhança perfeita. Ninguém aqui contesta, aliás, a semelhança que essa fotografia apresenta com um retrato da Sra. Bonner, tirado dois anos antes de sua morte (nas provas fotográficas a semelhança é mais pronunciada do que nas fototipias).

Mas ainda não é tudo. Desde que o Sr. Bonner viu a minha prova, escreveu uma carta a sua mulher, à qual ele fazia diversas perguntas. Tomou todas as precauções para ficar convicto de que a carta não seria aberta e enviou-a pelo Correio ao Dr. Flint, em Nova Iorque.13

No dia seguinte a carta lhe chegou de volta, intacta, e com uma resposta de sete páginas.

Nessa comunicação – assinada com o seu apelido: Ella – a Sra. Bonner dizia a seu marido que tinha pedido a permissão de aparecer na chapa, como o tinha feito; ela lhe afirmava que os dois irmãos do Sr. Bonner, William e Hamilton, achavam-se com ela, assim como o seu velho amigo, o simples e bom Sam Craig; ela devia escrever, em breve, por intermédio do Sr. Flint, uma carta a seu jovem filho Hammie; acrescentava que o Sr. B. tratava-a bem e lhe pedia ainda que se dirigisse a Boston, à casa do fotógrafo espírita, afirmando que ela apareceria com ele na mesma chapa, segurando uma coroa de flores em uma das mãos, trazendo uma segunda coroa na cabeça, enquanto que a sua outra mão apontava para o céu. Li tudo o que precede nessa carta. O Sr. Bonner acrescentou: “Amanhã irei a Boston, sem dizer meu nome a quem quer que seja.”

Quatro dias depois, o Sr. Bonner veio procurar-me. Ele tinha estado em Boston sem se ter dado a conhecer a quem quer que fosse e, entretanto, tinha obtido a fotografia prometida, com a imagem de sua mulher, exatamente como ela o tinha descrito. A coroa que a sua mulher sustém na mão é apenas visível na fotografia.

Todas as pessoas que desejarem convencer-se do fato podem ver essas fotografias em casa do Sr. Mumler, em Boston, ou em minha casa, em Nova Iorque. O Sr. Bonner é um homem muito conhecido na Geórgia e no Alabama... Os que me conhecem sabem que não tiro lucro algum em publicar essa narração, cuja exatidão certifico.

238, West 52 d. Street, New York City, 7 de janeiro de 1873.



Bronson Murray.”

A outra fotografia, na mesma estampa, representa o Sr. Moses A. Dow, morto em 1886, editor de uma revista muito conhecida na América: The Waverley Magazine. Quanto à imagem da pessoa colocada a seu lado, ler-se-ão todas as particularidades que lhe são referentes na carta seguinte do Sr. Dow ao Sr. A. (Oxon), residente em Londres, personagem que ocupa lugar saliente na literatura espírita:

“Boston, 28 de setembro de 1874.

Senhor:


A sua carta de 17 do corrente me foi entregue hoje de manhã. Em resposta vou procurar fazer-lhe um esboço das experiências de fotografia espírita de que fui testemunha. Nos escritórios da impressão e da redação do Waverley Magazine, emprego cerca de quinze moços; uns fazem a composição, outros são ocupados na máquina, na expedição ou na correção dos manuscritos. Entre esses últimos havia uma moça que foi empregada nos meus escritórios, de 1861 a 1870; ela adoeceu de repente e morreu na idade de 27 anos. Durante os últimos anos, ela se tinha desenvolvido muito a tornara-se uma senhora de muita inteligência, amável e de exterior muito agradável. O zelo e desinteresse de que dava prova em seu trabalho despertavam em mim a mais viva admiração por ela; essa simpatia foi recíproca, como me disse ela por muitas vezes. Incluso vai um retrato seu, tirado duas semanas antes de sua morte. Não me alongarei sobre as circunstâncias que acompanharam o seu passamento e sobre a saudade que experimentei.

Sete dias depois da sua morte, estive com um médium, cujo Espírito-guia (uma moça indiana) me disse: “Uma pessoa bela vem ver-te; tem na mão rosas que são para ti; era a ti a quem ela mais estimava neste mundo, por teres sido bom para ela.” Fiquei muito surpreso com essas palavras, porque não acreditava que uma afeição terrestre se perpetuasse no espírito de nossos amigos mortos, depois de terem deixado o seu invólucro humano, admitindo, porém, a realidade de certas manifestações póstumas.

Um mês depois, dirigi-me a Saratoga, cerca de cinqüenta léguas distante de Boston. Ali fiz conhecimento com o célebre médium Slade, que não me conhecia. No decurso de uma sessão que fiz, ele sustinha, em sua mão direita, uma ardósia comum por baixo da mesa; a mão esquerda estava colocada na mesa, em contato com a minha. Ouviu-se imediatamente o ranger do lápis de pedra na ardósia. Quando essa foi retirada, continha estas palavras: “Estou sempre perto de ti”, com a assinatura.

De regresso a Boston, conforme me tinha aconselhado em Saratoga, dirigi-me à Sra. Mary M. Hardy, o médium de transe mais conhecido dessa cidade.

A minha amiga apresentou-se imediatamente e disse-me que me tinha dado uma prova demonstrativa em Saratoga, por intermédio do Sr. Slade, em uma ardósia. Ela acrescentou que estava constantemente presente, para me guiar e me aconselhar, não tendo estimado a ninguém tanto quanto a mim, durante a sua vida terrestre. Em outra sessão, ela me disse espontaneamente que desejava oferecer-me o seu retrato. Não prestei atenção alguma a essa promessa, supondo que o tal retrato seria executado a pincel por um pintor da cidade. Durante três meses fiz sessões com a Sra. Hardy, uma vez por semana, sem que se tratasse desse retrato. No fim desse lapso de tempo, perguntei-lhe se ela ia oferecer-me o seu retrato. Respondeu-me que estava pronta a fazê-lo.

– Como será obtido esse retrato? – perguntei-lhe então.

– Pela fotografia – foi sua resposta.

– Será o mesmo artista que te fotografou em vida?

– Não, deve ser feito por um artista médium.

Uma semana depois, a minha amiga me disse, por intermédio da Sra. Hardy, em estado de transe:

– Vai à casa da Sra. Mumler e dize-lhe que voltarás para ser fotografado, uma semana depois, à 1 hora; irás ao meio-dia (hora habitual de minhas conversas com ela) e teremos então tempo de conversar.

Dirigi-me imediatamente à casa do Sr. Mumler, onde só encontrei a Sra. Mumler. Disse-lhe que desejava obter uma fotografia espírita. Ela me perguntou quando eu voltaria e eu respondi:

– De hoje a uma semana, à 1 hora.

– Qual é o teu nome?

– Não desejo dizer-te o meu verdadeiro nome, mas podes chamar-me Sr. Johnson.

Ela me disse que os desconhecidos pagavam adiantado. Paguei os 5 dólares pedidos e voltei para casa. Uma semana depois, voltei à casa da Sra. Hardy, conforme tinha sido combinado. Ela caiu em transe. A minha amiga, que já estava presente, me perguntou:

– Como vai, Sr. Johnson? – e em seguida acrescentou: – Sr. Dow, eu nunca tinha notado, dantes, que tivesse vergonha de teu nome.

– Desejo muito obter o meu retrato, mas não estou certo de obter o teu na mesma chapa – respondi-lhe.

– Oh! que céptico! – respondeu ela.

Despedi-me e dirigi-me à casa do Sr. Mumler, chegando 15 minutos antes da hora convencionada. Encontrei-o só e nos entregamos imediatamente ao trabalho. Quando me coloquei na posição indicada, ele pôs o aparelho a uma distância de sete pés, colocou a chapa e me indicou o ponto que eu devia fixar. A exposição durou dois ou três minutos; ele levou a chapa ao quarto vizinho e voltou pouco tempo depois, dizendo que nada tinha obtido; colocou uma segunda chapa; a duração da exposição foi a mesma. O Sr. Mumler disse-me que havia um contorno indeciso. À minha observação de que me tinham prometido um retrato, ele me respondeu que era preciso continuar as experiências, que lhe sucedia recomeçar cinco ou seis vezes antes de ser bem sucedido.

A terceira exposição durou justamente cinco minutos, marcados a relógio; ele me voltava as costas, tendo a mão sobre o aparelho.

Terminada a exposição, ele levou a chapa e, enquanto estava ausente, a Sra. Mumler entrou; parecia estar em um meio transe. Perguntei-lhe se ela via alguém; ela me respondeu que via perto de mim uma bela Moça. Em seguida, caiu em um transe completo e a minha amiga me falou de novo:

– Agora terás o meu retrato. Conservar-me-ei perto de ti, com a mão sobre o teu ombro; na cabeça terei uma coroa de flores.

Nesse momento o Sr. Mumler entrou com a chapa e me disse que daquela vez havia uma imagem; no negativo eu distingui claramente o meu retrato e uma forma feminina que se conservava perto de mim. O Sr. Mumler prometeu-me mandar uma prova no dia seguinte. Pedi-lhe que a mandasse dirigida ao Sr. Johnson, posta restante. Dois dias depois, passei pelo Correio e recebi um embrulho dirigido ao Sr. Johnson. Abrindo-o, encontrei uma prova. De volta a casa, examinei-a com uma boa lente, através da qual a imagem me aparecia de tamanho natural: era um retrato excelente da minha amiga morta.

Escrevi ao Sr. Mumler para lhe dizer que eu estava satisfeito com a fotografia e assinei o meu verdadeiro nome. Considero esse retrato autêntico; além disso, a minha amiga mo afirmou e por muitas vezes. As fotografias inclusas pô-lo-ão com a possibilidade de ajuizar da semelhança.

Aceitai, etc.



Moses A. Dow.
(
Human Nature, 1874, págs. 486 a 488).”

Eis a carta que o Sr. Dow enviou ao Sr. Mumler:

“Boston, 20 de janeiro de 1871:

Caríssimo Sr. Mumler.

No sábado passado fui ao Correio e lá recebi o embrulho com a prova que me mandaste. É um retrato fiel da minha amiga. Incluso encontrarás uma fotografia sua, tirada uma semana antes de sua moléstia; ela tinha visto apenas o negativo. Sua moléstia durou justamente nove dias. Na quinta-feira passada, ao meio-dia, ela me dizia, pelo médium, que se conservaria a meu lado, com uma flor na mão e com o braço descansando sobre o meu ombro. Olhando para o meu ombro esquerdo, distinguirás uma fraca reprodução de sua mão, sustendo uma flor; mas, para ver bem, é preciso usar de uma lente.

Parece-me que o exame desses dois retratos pode convencer o espírito mais céptico. Deixo o pseudônimo de Johnson para assinar o meu verdadeiro nome.

Com a minha perfeita estima

Moses A Dow (editor do Waverley Magazine).
Médium, 1872, nº 104.”

Possuo um exemplar da fotografia de Mabel Warren, tirada em sua vida, que Dow enviou a Mumler para comparar as duas imagens; a semelhança é tão patente quanto na do Sr. Bonner.

No Banner, de 18 de março de 1871, lê-se longa carta de Moses Dow, na qual ele conta, com as mais minuciosas particularidades, a história dessa fotografia; ele nos informa que a jovem senhora em questão chamava-se Mabel Warren, que morreu em julho de 1870, e que foi só no começo desse ano que circunstâncias diversas puseram o Sr. Dow em presença de algumas manifestações espíritas; ele era tão ignorante dessas coisas que não compreendeu mesmo de que “retrato” se tratava, e quando foi à casa de Mumler, não lhe disse o seu verdadeiro nome, acreditando, como muitos outros, que ele era um impostor.

Os espécimes que apresento das fotografias transcendentes de Mumler bastam para dar uma idéia do caráter geral desse fenômeno, obtido por meio de sua mediunidade. Tenho em minha coleção cerca de trinta fotografias dessas que confirmam as observações feitas pelo Sr. Sellers, correspondente do British Journal of Photography, observações que reproduzimos mais acima.

Acrescentarei, ainda – e esse fato é essencial para as nossas pesquisas ulteriores – que geralmente uma espécie de vestimenta faz parte da imagem que aparece, assim como se vê nas fotografias das senhoras Bonner e Mabel Warren; mui freqüentemente flores ornam a imagem; assim, em uma fotografia da Sra. Conant, célebre médium da redação do Banner, vêem-se três mãos perfeitamente formadas, com a metade dos braços, os quais aparecem acima da cabeça da médium e que parece lançarem sobre ela flores, uma parte das quais cai sobre a sua cabeça e peito, enquanto que a outra fica suspensa no espaço. Uma dessas mãos sai de uma manga, como o vemos na fotografia do professor Wagner, mas essa manga é estreita, espessa, e finalmente branca, como a própria mão.

Quero mencionar ainda três fotografias que têm uma importância especial: em uma delas vê-se uma senhora sentada, a Sra. Tinkham; no momento da exposição, ela viu uma parte da manga de seu braço esquerdo levantar-se, e seus olhos dirigiram-se para aquele ponto; nota-se na fotografia, ao lado dessa senhora, a imagem – digamos, a imagem astral – de uma menina, na qual a Sra. Tinkham reconheceu a sua filha; vê-se perfeitamente que a manga do vestido da Sra. Tinkham está levantada pela pequena mão da menina. Possuímos, pois, a fotografia de um objeto material posto em movimento por mão invisível. (Vede Médium, 1872, pág. 104). Na segunda fotografia vê-se de novo a Sra. Conant; no momento em que a chapa ia ser revelada, ela se voltou para a direita, exclamando: “Oh! eis a minha pequena Wash-ti!” (uma menina indiana que se manifestava com muita freqüência por seu intermédio) e estendeu-lhe a mão esquerda, como para lhe tomar a mão. Vê-se na fotografia a figura perfeitamente reconhecível da pequena indiana, com os dedos da mão direita na mão da Sra. Conant. Aqui temos, pois, a fotografia de uma figura astral assinalada e reconhecida pelo sensitivo, no momento da exposição, como em Beattie. (Médium, 1872, pág. 104).

Encontra-se a descrição de um fenômeno do mesmo gênero no relatório de um caso notável de fotografia transcendente, dirigido pelo professor Gunning (geólogo americano), à Tribune, jornal de Nova Iorque, por ocasião do processo de Mumler, e reimpresso no The Spiritual Magazine, de Londres (1869, pág. 260). Essa carta contém fatos tão interessantes que citarei a sua parte essencial:

“Em fevereiro de 1867, fiz conhecimento com um fotógrafo morador no Connecticut; entrando em seu gabinete para me fazer fotografar, notei que o fotógrafo estava particularmente inquieto enquanto eu me expunha. Quando a chapa foi revelada, achava-se ao lado da minha imagem uma forma feminina, clara, porém nebulosa. Eu ainda não tinha ouvido falar no Sr. de Mumler, nem, em geral, em fotografias espíritas. Perguntei ao fotógrafo como essa imagem tinha aparecido na chapa e ele me respondeu que a tal respeito nada sabia, mas que, ao me fotografar, tinha visto aquela imagem a meu lado. Ele não queria deixar sair esse retrato de seu gabinete e pediu-me que a ninguém dissesse coisa alguma. E contou-me, então, que desde alguns anos lhe sucedia freqüentemente obter iguais fotografias, mas que não tomava parte alguma naquilo. Podia finalmente obtê-las quando queria; bastava-lhe para isso entregar-se à influência de seres a que ele chamava “Espíritos”, mas que não desejava entreter relações com eles. Não queria que o seu nome se envolvesse no Espiritismo.

Eu estava tão persuadido da boa fé de meu amigo que tive desejo de estudar a virtude singular que ele tinha. Só depois de longas instâncias foi que consegui persuadi-lo a conceder-me algumas sessões e submeter-se aos “invisíveis”. Eu tinha a intenção de recompensá-lo muito bem por essa perda de tempo; ele, porém, recusou todas as minhas ofertas, dizendo que não julgava ter o direito de explorar a sua força misteriosa com intuito mercantil. Aquiesceu em todas as condições imagináveis para as minhas experiências e, por conseguinte, convidei um de meus amigos para a elas assistir. Durante quatro dias, todas as tardes do fotógrafo nos pertenceram; estávamos convencidos da sua boa fé, mas, entretanto, tomamos cautelas como se tratássemos com um hábil impostor. O preparo das chapas e a revelação delas se efetuavam em minha presença e, em geral, não omitíamos medida alguma de prudência para evitar toda fraude. Em quase todas as sessões obtínhamos a imagem da mesma mulher; a mesma forma clara, porém melhor, quando eu supunha estar só. O fotógrafo caía em transe quase de cada vez. Que poderíamos dizer? É um homem cuja posição está bem sólida e que goza de irrepreensível reputação.

Não posso admitir a menor dúvida acerca de sua probidade. Ele não tinha finalmente razão alguma para me enganar. Não queria negociar com o seu poder oculto, e mesmo se eu o suspeitasse de fraude, não estaria em condições de explicar a origem de suas fotografias.

Só conheço dois meios para obter uma imagem fotográfica em uma chapa sensível: ou um objeto capaz de refletir a luz deve ser posto a uma distância determinada da objetiva, ou a chapa sensível é exposta à luz e coberta por uma outra fotografia. A luz que penetra através da fotografia superposta produz uma imagem turba; o fotógrafo também pode empregar uma chapa que já tivesse batido, e então a imagem antiga pode algumas vezes reaparecer. Essa explicação tinha sido proposta recentemente por um correspondente da Tribune.

Meu fotógrafo não empregava chapas servidas; por conseguinte, uma só das duas primeiras explicações indicadas lhe é aplicável; ora, eu sei, tanto quanto possível, que ele não colocou nenhum outro negativo sobre a chapa sensível. Assim sendo, ele obtinha essas imagens por outro meio. Resta ainda outra suposição: não haveria, muito simplesmente, um objeto qualquer colocado defronte da máquina? Mas é certo que as únicas pessoas presentes eram o fotógrafo, meu amigo e eu; não é provável que tenhamos podido ser enganados tão grosseiramente durante quatro dias. E, admitindo mesmo que tivéssemos sido enganados, pergunta-se de que maneira o cúmplice misterioso, que representava o papel de Espírito, teria podido tornar-se tão transparente? Como podia apresentar-se suspenso no espaço, pois que em uma das fotografias aparece uma mulher nessa posição? Todas as imagens são tão transparentes como tecidos de gaze; como eram produzidas? Não me apressei em tirar conclusões.

Um outro caso chega ainda a meu conhecimento: uma moça de Chelsea se fez fotografar em casa de um fotógrafo de nomeada naquela cidade. Ela chegou no momento em que ele se preparava para fechar o seu gabinete. A moça colocou-se diante da câmara escura, e durante a exposição percebeu uma espécie de sombra que deslizava à sua frente. Falou nisso ao Sr. A., que estava perto do gabinete, e esse lhe respondeu que isso nada valia, que ela podia pestanejar, mas que não se devia mover. Na chapa revelada a moça apresentava duas mãos sobre o rosto. Essa fotografia é notável; examinei quatro provas dela, uma das quais está em meu poder. As mãos transparentes tocam a nuca; elas são visíveis até o punho, onde desaparecem em um vapor informe. Uma dessas mãos adianta-se até o queixo da moça, que se vê claramente através dessa mão. Todas essas fotografias oferecem uma particularidade comum: é a sua transparência.

O juiz Edmonds garante que os Espíritos que lhe aparecem são transparentes; um outro de meus amigos, homem de grande instrução, disse-me que os tinha visto exatamente assim.

É igualmente inadmissível que essas mãos tenham sido previamente fotografadas na chapa metálica. O fotógrafo me dizia que a chapa era nova, que nunca tinha sido usada; admitindo que ele não dissesse a verdade, não se pode, entretanto, compreender como essas mãos puderam aparecer diante da face. Pode-se admitir que ele as tivesse fotografado depois da moça? Pode-se ver que o dedo mínimo e o anular da mão esquerda estão colocados por baixo do colarinho, o que prova, com toda a evidência, que a moça e as mãos foram fotografadas simultaneamente. Admitindo mesmo que uma mulher tivesse deslizado imperceptivelmente e tivesse rodeado com as mãos a cabeça da pessoa em exposição, então como poderia ela ter escapado à vista do fotógrafo?

Ele garante que no gabinete só estavam ele e a moça; admitindo por um momento que uma mulher tivesse entrado sem se saber de que modo, como pôde ela tornar as mãos transparentes e o resto do corpo invisível?

O fotógrafo é um homem que merece toda a confiança. Ele declara que nunca teve a intenção de fazer fotografias espíritas e que nunca cogitou de uma opinião teórica sobre essa questão; apenas sabe que não tomou parte no aparecimento dessas mãos.”

Informações sobre este último caso, inteiramente extraordinário, são dadas mais extensamente em uma carta do Sr. Gunning, ao Banner, 6 de julho de 1867, da qual só tirarei as duas linhas seguintes, que têm para nós um interesse especial:

“A mão esquerda é mui distintamente visível, até o punho, e mais acima está envolta em um véu.”

O redator do The Spiritual Magazine acrescenta que o professor Gunning, depois de um passeio a Londres, lhe confirmou de viva voz esses mesmos fenômenos e que lhe mostrou os daguerreótipos de que se tratava; a imagem de mulher, que tinha aparecido na primeira fotografia de que ele faz menção, era a de sua mulher, e é de semelhança incontestável. (The Spiritual Magazine, 1869, pág. 329).

Falta-me mencionar, finalmente, uma fotografia de Mumler, na qual é representado o Sr. Herrod, um médium moço, dormindo em uma cadeira, em estado de transe. Vê-se atrás do médium a imagem astral de sua própria pessoa, ou de seu “duplo”, conservando-se de pé, quase de perfil, com os olhos fechados, a cabeça um pouco inclinada para o médium. (Médium, 1872, pág. 104).

Outro caso de fotografia de um “duplo”, em casa de outro fotógrafo, é confirmado pelo juiz Carter em sua carta do Banner de 31 de julho de 1875, e reproduzida no Human Nature, de 1875, págs. 424 e 425. Um terceiro caso de fotografia de um “duplo” é assinalado pelo Sr. Glendinning, e como se produziu em um círculo privado, merece a nossa atenção, e aqui reproduzirei a sua descrição:

“Há cerca de 20 anos, um de meus amigos, bom médium, e eu nos ocupamos de fotografias espíritas. Nossas experiências foram coroadas de algum êxito.

No começo, obtínhamos na chapa manchas bizarras. Se eu tivesse sido mais versado na questão, teria conservado certamente essas chapas para submetê-las a minucioso exame; todas as vezes que não obtivemos um resultado bem comprovado, esfreguei a chapa com os dedos e lavei-a em seguida. Os vidros e os produtos nos eram fornecidos pelo Sr. Methuish, secretário de uma sociedade fotográfica escocesa. Todos nós éramos de boa fé, como sói suceder entre homens que se prezam.

Certo dia obtivemos o retrato do médium em posição que ele tinha ocupado dez ou quinze minutos antes da exposição, isto é, à meia distância entre a câmara escura e o fundo. Tínhamos nessa sala o que se chama prancheta, conhecida com o nome de indicator, que indicava com muita rapidez, por meio do alfabeto, o que devíamos fazer, porque os “Espíritos” nos diziam que eles próprios não sabiam ainda como produzir essas imagens; que era preciso fazer alguns ensaios; deram-nos o conselho de mesmerizar a câmara escura, os produtos químicos e tudo o mais. Seguimos essas indicações, tanto para nos divertirmos quanto por curiosidade. Quando lhes perguntamos por que tínhamos obtido o retrato do médium na posição que ele ocupava antes da exposição da chapa, responderam-nos que era nessa posição que ele tinha deixado a sua “influência” e que, se tivesse achado um clarividente na sala, ele teria percebido o médium precisamente nessa posição. Não compreendo isso, mas não obtivemos outra explicação.” (The Spiritualist, nº 234, Londres, 16 de fevereiro de 1877, pág. 76).

Essas fotografias de “duplosinvisíveis ao olho humano são os precursores das fotografias de “duplosvisíveis e tangíveis de que nos ocuparemos mais tarde. Como vimos, os fenômenos da fotografia transcendente produziram-se com grande número de pessoas, tanto na América como na Europa. Há muitos casos dos quais não fiz menção; notarei somente, no ponto de vista histórico, até onde são fundadas as minhas pesquisas. Os primeiros indícios desse gênero de fenômenos remontam a 1855; encontro efetivamente, no Spiritual Telegraph, editado em Nova Iorque, em casa de Brittan, no volume VIII, 1855, pág. 152, um artigo intitulado Daguerreotipia de imagens espíritas:

“Numerosas experiências foram feitas para saber se formas e aparições espíritas podem ser reproduzidas pela daguerreotipia; mas todas foram infrutíferas, à exceção de um caso que foi comunicado ao redator por uma carta pessoal de um estimado amigo de Nova Orleães. Os principais fatos são os seguintes: o Sr. H., daguerreotipista e médium, quis, a 8 de março, tirar o retrato de seu filhinho de dois meses de idade e colocou-o nos joelhos de sua avó. Na terceira sessão, obteve um belo retrato; mas, coisa curiosa, acima do daguerreótipo, surge, de uma espécie de nuvem pequena, uma larga faixa luminosa, descendo até ao ombro da criança, onde desaparece. Essa faixa é larga e vigorosa, assemelhando-se a um raio de sol surgindo de uma abertura estreita... Depois de exame mais atento, observa-se que ela é um pouco transparente... Nenhum dos resultados precedentes tinha apresentado coisa semelhante e a mais minuciosa observação dos objetos circunvizinhos não pôde fornecer uma explicação desse resultado, por pouco plausível que fosse.”

Encontro um segundo caso mencionado na página 170 do mesmo volume:

“Alguns dias antes, o Sr. Henri Hebhard, desta cidade, tinha apresentado em nosso escritório de redação uma bela fotografia de seu filho, da idade de cerca de 10 anos, a qual apresentava um fenômeno singular, que consistia em uma luz intensa, de forma elíptica, atravessado obliquamente a região do tórax, uma extremidade da qual termina no exterior, perto da espádua esquerda, e a outra abaixo do braço direito. A claridade é mais intensa no centro e diminui gradualmente, aproximando-se dos bordos. Esse fenômeno estranho não pôde ser explicado; pelo menos, nem o fotógrafo nem as outras pessoas descobriram uma causa qualquer.”

É fácil reconhecer nesses dois casos as mesmas particularidades que apresentam as primeiras experiências feitas pelo Sr. Beattie.

Não posso terminar o capítulo sobre a fotografia transcendente sem citar o caso que se segue, um dos mais recentes. Quero falar das fotografias espíritas obtidas pelo Sr. Jay J. Hartman, Cincinnati (Ohio). Não poderia deixar em silêncio essas experiências, pelo fato de terem elas sido submetidas ao exame mais severo por uma comissão de fotógrafos e porque foram feitas em condições que o Sr. Hartmann não poderá recusar-se a achá-las concludentes.

Eis o que lemos no Spiritual Scientist, de Boston, de 6 de janeiro de 1876:

“Sabe-se que o Sr. Jay J. Hartman obteve fotografias espíritas no gabinete do Sr. Teeple (110, West Fourth Street, Cincinnati). Ele se tornou o alvo de violentos ataques dirigidos por pessoas cépticas, que o acusavam de praticar trapaças. Recentemente ainda, um jornal da manhã publicava um artigo de três colunas que continha diversos argumentos e arrazoados tendentes a demonstrar que tudo aquilo não passava de uma mistificação banal e que Hartman não era mais do que um charlatão cínico. Apesar das sessões de averiguação que ele organizava por intermédio de um círculo de íntimos, e que pareciam suficientemente convincentes, muitos dentre os seus amigos tiveram dúvidas quanto ao caráter das suas experiências. Foi por isso que ele inseriu, à semana passada, um anúncio dirigido ao público em geral e aos fotógrafos em particular, convidando-os a uma sessão pública gratuita, que se realizaria no sábado de manhã, 25 de dezembro. Ele anunciava que a maneira de proceder com essas experiências seria determinada pelas pessoas que fizessem parte delas; as ditas pessoas escolheriam a sala para as experiências e teriam a liberdade de levar as suas chapas marcadas, a sua câmara escura e produtos químicos; finalmente, forneceriam tudo o que fosse necessário.

O Sr. Hartman reservava para si somente o preparo das chapas, sob a vigilância de fotógrafos experimentados, a fim de evitar toda a suspeita.

No dia do Natal, por um tempo claro e de manhã cedo, dezesseis pessoas estavam reunidas em casa do Sr. Hartman, cinco das quais fotógrafos nessa cidade. Deliberaram de comum acordo dirigir-se ao gabinete do Sr. Van Cutter (28, West Fourth Street). Considerando que por muitas vezes o Sr. Cutter tinha descoberto as imposturas de pretendidos fotógrafos espíritas, e que o Sr. Hartman nunca havia ido a seu gabinete, as condições nas quais era chamado a trabalhar tornavam-se duplamente difíceis; ele se via em um gabinete estranho e, além disso, rodeado de cépticos, homens da profissão, que facilmente teriam feito descobrir a menor fraude.

O Sr. Hartman acedeu a tudo de boa vontade, mas com uma só condição: abster-se-iam de toda discussão, brincadeira ou qualquer outra interrupção, por palavra ou por obra, o que poderia romper a calma e a harmonia indispensáveis ao bom êxito das experiências. Essa condição do Sr. Hartman, perfeitamente justa, foi aceita sem dificuldade alguma e todos os associados se dirigiram à casa do Sr. Cutter.

Ao entrarem na sala onde as experiências deveriam ser feitas, os assistentes foram convidados a sentar-se dos dois lados da câmara escura e a darem as mãos. O Sr. Hartman manifestou o desejo de lhe vendarem os olhos, mas essa cautela foi julgada inútil. O Sr. Hartman escolheu o Sr. Moreland para auxiliar e ao mesmo tempo testemunha da lealdade da operação. Escolheu-se, além disso, o Sr. Murhman, fotógrafo de profissão, um dos mais incrédulos. Os três entraram no gabinete escuro, levando o Sr. Murhman as suas próprias chapas. Quando essas foram preparadas, os três operadores voltaram para as proximidades da câmara escura; o Sr. Murhman colocou a chapa no lugar próprio e sentou-se para a exposição. Esta se fez em silêncio profundo, depois do que, levaram a chapa para o gabinete escuro, para onde também se dirigiu o Sr. Hartman. Pouco depois, ouviu-se a exclamação: “Não deu resultado.” Os cépticos estavam radiantes.

Preparou-se uma segunda chapa; o Sr. Murhman continuava a vigiar todos os movimentos do Sr. Hartman. Ainda dessa vez o resultado foi nulo. O cepticismo triunfava.

Depois disso as manipulações foram feitas pelo Sr. Cutter, proprietário do gabinete, um incrédulo consumado e, parece, o melhor fotógrafo prático da cidade. Hartman parecia abatido; recusou entrar no gabinete e permaneceu perto do aparelho, engolfado em profunda meditação. Os peritos entraram, pois, sem ele, no gabinete; foi o Sr. Cutter quem preparou a chapa. Entregaram o caixilho ao Sr. Hartman, que estava tão comovido que teve dificuldade em colocá-lo no lugar próprio. Ele pediu a dois dos assistentes que colocassem as mãos sobre a câmara escura, ao mesmo tempo que ele. Essa terceira exposição foi tão estéril quanto as precedentes.

As coisas tomavam um mau aspecto para o pobre Sr. Hartman e seus amigos. Ele propôs, entretanto, expor ainda uma chapa, mas tornou-se ainda mais pensativo. O Sr. Murhman estava sentado perto da câmara e do Sr. Hartman, escrutando todos os seus gestos, como tinha o hábito de fazê-lo durante a sua longa carreira de “desmascarar médiuns profissionais”.

Quando o Sr. Cutter terminou os preparativos da quarta chapa no gabinete escuro, em presença do Sr. Moreland, saiu e entregou o caixilho ao Sr. Hartman.

Era a vez da exposição do Dr. Morrow; um outro dos assistentes devia colocar a mão sobre a câmara escura. Durante a exposição da chapa, reinava sempre profundo silêncio. O Sr. Hartman tremia visivelmente e parecia absorver-se em uma prece muda. As mãos das pessoas que tocavam na câmara tremiam do mesmo modo, como se estivessem sob a influência de misteriosa força. Finalmente o Sr. Hartman interrompeu essa expectativa penosa, fechando a câmara escura. Então o Sr. Cutter retirou a chapa e dirigiu-se, acompanhado pelo Sr. Moreland, ao gabinete, para fazer a revelação. O Sr. Hartman tinha ficado perto do aparelho, mostrando na fronte grandes gotas de suor. Os demais assistentes aguardavam silenciosamente a sentença que devia destruir definitivamente as crenças mais caras dos espiritualistas.

Em breve tempo, porém, ouviu-se uma exclamação de admiração e de surpresa dos Srs. Moreland e Cutter: “Há um resultado!” A fisionomia do Sr. Hartman iluminou-se como um relâmpago, de satisfação; os seus amigos, que apenas ousavam acreditar na agradável notícia, assim como os incrédulos, acercaram-se do Sr. Cutter, que sustinha a chapa contra a luz. Efetivamente, perto da cabeça do Sr. Morrow, podia-se ver a forma de uma jovem inclinada para ele: e essa imagem era ainda mais visível e distinta do que o seu próprio retrato. Esse resultado inesperado encheu de pasmo todas as pessoas. O Sr. Murhman e o Sr. Cutter olharam-se maravilhados. O último dos dois garantia que não tinha tomado parte no que sucedia; que aquela chapa era uma das suas e que ele sabia que ela nada continha quando ele a levou para o gabinete. Entretanto, a imagem estava ali. Quanto ao Sr. Hartman, nem sequer tinha tocado na chapa, nem mesmo tinha entrado no gabinete durante os preparativos. De que maneira se tinha produzido aquela imagem? Ele nada sabia a respeito; mas, realmente, ela ali estava! Quer cépticos, quer espíritas, estavam surpresos com esse resultado notável, resultado decisivo.

Decisivo nesse sentido é que os Srs. Cutter, Murhman e os outros, ainda que se tivessem recusado sempre a reconhecer uma origem espírita à imagem obtida, estavam todos, porém, de acordo sobre esse ponto: que, nas condições de que se tratava, o Sr. Hartman não tinha podido obter fraudulentamente aquele resultado, visto que ele não tinha entrado no gabinete e nem tocado na chapa. Todas as pessoas presentes aquiesceram em lhe passar um certificado, assinado com os seus nomes, dando testemunho do resultado obtido.



Certificado

Nós, abaixo assinados, tendo feito parte da sessão pública de fotografia espírita, organizada pelo Sr. Jay J. Hartman, certificamos pelo presente que seguimos minuciosamente todas as manifestações às quais foram submetidas as nossas próprias chapas sensíveis, que estavam marcadas; que fiscalizamos as operações no gabinete escuro assim como fora dele, e que não descobrimos o mínimo indício de fraude ou de prestidigitação empregada pelo Sr. Hartman. Certificamos também que durante a última experiência, no decurso da qual o resultado foi obtido, o Sr. Hartman não tocou na chapa e não entrou sequer no gabinete escuro.

Cincinnati, Ohio, 25 de dezembro de 1875.

J. Slatter, C. H. Murhman, V. Cutter, J. P. Weckman,
F. T. Moreland, T. Teeple, fotógrafos de profissão;
E. Saunders, Wm. Warrington, Joseph Kinsay, Benjamin
E. Hopkins, E. Hopkins, G. A. Carnahan, W. Wm. M. D. e
James, P. Geppert, D. V. Morrow, Sullivan, Robert Leslie
.”

(Reimpresso no Spiritualist, nº 179, vol. VIII, número 4, Londres, 28 de janeiro de 1876, págs. 37 e 38).

O público, porém, nunca julga as provas suficientes; sempre exige novas provas, e os testemunhos pessoais não são bastantes quando se trata de fatos relacionados com o miraculoso. Alguns meses após haver recebido o certificado precitado, assinado por seis fotógrafos, o Sr. Hartman viu-se obrigado a publicar um novo convite, no “Cincinnati Enquirer”. Organizou-se uma nova comissão, com o mesmo intuito, tendo à frente o Sr. Slatter; essa investigação foi um novo triunfo para o Sr. Hartman, como o prova o certificado que lhe foi dirigido, publicado no Spiritual Scientist de 25 de maio de 1876, I, pág. 314.

O que expusemos no presente capítulo nos dá o direito, segundo me parece, de considerar a fotografia transcendente como um fato estabelecido de modo positivo; por conseguinte, a hipótese das alucinações, que serve de apoio às teorias do Dr. Hartmann, fica fortemente abalada.

Por minha vez, posso também servir-me da frase que ele emprega, falando da insuficiência da hipótese espírita; posso dizer que “o terreno começa a fugir da hipótese das alucinações e que só lhe resta um espaço acanhado, da extensão de um pé”. Veremos dentro em pouco, no final do capítulo sobre a materialização, se lhe resta alguma coisa desse “espaço acanhado”.

Notícia importante – Acabo de saber, muito tarde para mencioná-lo no corpo da obra, que o Sr. Taylor, diretor muito conhecido do Jornal Britânico de Fotografia, acaba de publicar nesse jornal, número de 17 de março de 1893, um artigo intitulado “A fotografia espírita”, no qual expõe suas experiências com M. D., médium escocês. Os resultados obtidos por ele confirmam peremptoriamente a possibilidade da fotografia transcendente. Será necessário insistir sobre a importância desse testemunho? A fotografia pode fornecer-nos todos os elementos requeridos para demonstrar que os fenômenos mediúnicos não apresentam sempre um caráter subjetivo, que um certo número dentre eles oferecem todos os atributos de realidade objetiva. Por esse meio se nos torna possível tirar a prova da existência de formas ou de seres invisíveis inteligentes. Foi também por esse motivo que considerei as experiências feitas pelo finado Sr. Beattie, em 1872, como pedra angular de todo o edifício. E eis que 20 anos depois de ter publicado em seu jornal o relatório das experiências do Sr. Beattie, cuja boa fé não era posta em dúvida por ele, o Sr. Taylor recomeçou as mesmas experiências.

O Sr. Taylor certamente teve que fazer seus ensaios em condições rigorosamente científicas.




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