Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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Materialização e desmaterialização
de objetos acessíveis aos nossos sentidos


No presente capítulo vamos ocupar-nos especialmente dos fenômenos de aparecimento efêmero de corpos ou de objetos acessíveis aos nossos sentidos, e de seu desaparecimento mais ou menos rápido.

Esses fenômenos são tão contrários a todas as crenças, a todas as probabilidades e mesmo tão diferentes da série dos fenômenos ordinários do mediunismo, que o próprio Dr. Hartmann, que admite a responsabilidade dos fenômenos ordinários, aceitando integralmente os testemunhos humanos citados, recusa-se a admitir esses testemunhos quando se trata dos fenômenos de que nos ocupamos. O Sr. Hartmann recusa a estes últimos todo o valor objetivo e opina que é necessário transportá-los na íntegra para o domínio subjetivo.

Antes de passar ao estudo de fenômenos tão extraordinários, devemos procurar nos anais do mediunismo outros fatos mais simples, aproximando-se das idéias já admitidas e pertencentes ao mesmo domínio, que poderiam servir-nos de antecedentes para fazer admitir e compreender fenômenos mais complexos; foi assim que procedemos na demonstração da fotografia transcendente. Esses fenômenos mais simples existem e são conhecidos geralmente sob o nome de “fatos de penetração da matéria”; eles se apresentam as mais das vezes sob a forma de transporte e de desaparecimento de objetos em um quarto fechado.

Os fatos desse gênero ocupam grande espaço no repertório dos fenômenos mediúnicos; eles se produziram, assim como os fatos de materialização parcial, desde o começo dos estudos espíritas. Mas o estudo desses fenômenos simples, comparativamente falando, já estava muito adiantado, quando os fatos de materialização se apresentavam ainda no estado rudimentar, admitindo-se a natureza complexa desses fenômenos e sua dependência de um princípio de evolução.

Posto que muito simples, na aparência, os fatos de penetração da matéria têm entretanto grande importância. E devemos preocupar-nos profundamente com a sua significação, porque eles nos fornecem a prova evidente e positiva de que estamos em presença de um fato transcendente, isto é, de um fenômeno produzido por forças que têm sobre a matéria um poder, mas cuja origem, natureza e extensão não conhecemos.

É importante para a nossa crítica verificar que o princípio que serve de base à demonstração desse fenômeno já é admitido, ao menos tacitamente, pelo Dr. Hartmann.

Depois de ter falado da “ação expansiva da força nervosa mediúnica, que ataca a coesão das partículas da matéria”, o Sr. Hartmann passa em revista os fenômenos mediúnicos referentes à “penetração da matéria”, que classifica em uma “categoria de fatos particularmente inverossímeis”; e cita as experiências concludentes feitas por Zöllner, entre outras o transporte de objetos de um quarto fechado, que foi observado freqüentemente, em condições que impõem a convicção.

E quando o Sr. Hartmann teve que ocupar-se com os fenômenos de materialização e explicá-los por alucinações produzidas pelo médium, prevaleceu-se largamente do fato mediúnico da penetração da matéria, admitido pelos espíritas, para negar a objetividade real de todos os fenômenos de materialização observados durante a reclusão do médium; nenhum laço pode reter este último em seu lugar, quer um saco, quer uma gaiola na qual o médium fosse encerrado, “pois que desde o momento em que o médium sonâmbulo pode penetrar aquela matéria, pode também mostrar-se aos espectadores sob a forma de aparição, a despeito de todas as medidas de precaução”.

Assim, o Sr. Hartmann admite, como princípio, a possibilidade do fato mediúnico da penetrabilidade da matéria, como também admite a possibilidade de todos os outros fatos, baseando-se no testemunho de outrem. Mas, tratando desses fatos e prevalecendo-se deles para a sua teoria da alucinação, não nos dá a seu respeito explicação alguma; ele só tem em vista combater a hipótese da quarta dimensão do espaço, imaginada por Zöllner, e pronuncia-se a favor da uma “comoção molecular das combinações da matéria”, que pode mesmo ir até a uma explosão, como foi observado. Mas, uma vez que se admite o fato da penetração de um corpo sólido por um outro semelhante, ainda que como princípio, é certo que não podemos no-lo representar de outra maneira a não ser supondo uma desagregação momentânea da matéria sólida, no momento da passagem de um objeto, e sua reconstituição imediatamente depois, isto é – em linguagem mediúnica –, sua desmaterialização e sua rematerialização. Fica bem entendido que essa definição é apenas convencional – aceita na falta de outra melhor –, visto como não se aplica senão à aparência do fenômeno e não à sua essência.

É inútil multiplicar aqui os exemplos de iguais fenômenos, pois que o Sr. Hartmann cita um número suficiente deles. Citarei, entretanto, dois dentre eles, que têm o mérito de se terem produzido sob os olhos do observador, não de maneira inesperada, mas em condições fixadas de antemão.

Eis um testemunho devido ao Rev. Sr. Collex, em carta publicada no Medium and Daybreak, ano de 1877, página 709, e relativa ao fato que demonstra a penetrabilidade da matéria. Depois de ter feito a narração de uma sessão com o médium Dr. Monck – no decurso da qual ele tinha verificado o desenvolvimento de uma força considerável, o que o tinha induzido a conservar por baixo da mesa uma ardósia com um pedaço de lápis ordinário (à falta de lápis de ardósia), na esperança de obter uma escrita direta –, continua assim:

“Mas nenhum resultado foi obtido; não encontrei na ardósia senão uma espécie de curva, como para me fazer compreender que o lápis não podia servir. Esse lápis inútil tinha provavelmente irritado a Samuel (o inspirador invisível), porque ele me perguntou pela boca do médium, que estava em transe:

– É preciso queimar ou mergulhar o lápis?

– Mergulhá-lo! – respondi.

– Coloca a mão sobre o gargalo da garrafa (a louça da ceia ainda não tinha sido retirada); agora olha atentamente!

O lápis estava sobre a ardósia, a meus pés, e o médium, que se achava a alguma distância, não tinha tocado nele, uma só vez.

– Muito bem! – replicou Samuel, falando pelo Sr. Monck, que ele tinha conduzido ao outro extremo do quarto, e cuja mão estava estendida na direção da garrafa – presta atenção, olha bem!

Em um abrir de olhos, o pequeno lápis, que não tinha mais de uma polegada de extensão, foi, por assim dizer, lançado através da minha mão até à garrafa, onde ficou, flutuando na água.

Londres, 1º de novembro de 1877.

Thomaz Colley.”

Algum tempo depois, o Rev. Sr. Colley publicou a experiência seguinte:

“Em uma sessão com o médium Monck, escrevi em uma ardósia: “Podes transportar esta ardósia ao quinto degrau da escada que vai dar no corredor?”

Tendo deposto a ardósia no chão, com o lado escrito voltado para baixo, perguntei em voz alta se íamos obter uma comunicação escrita naquela ardósia. Apenas eu tinha voltado ao meu lugar e tomado as mãos do Sr. Monck entre as minhas, senti as pernas levadas para um lado sob o impulso de um corpo pesado e divisei uma luz mais brilhante do que a dos dois bicos de gás que nos iluminavam, emergindo subitamente por baixo da mesa, na direção da porta fechada; no mesmo instante retumbou um estalido semelhante ao que tivesse sido produzido por uma ardósia violentamente atirada de encontro a uma porta, conforme verifiquei depois. Entretanto, apesar de termos visto a luz e ouvido o estalido, não pudemos acompanhar o deslocamento da ardósia; foi só no momento em que se produziu o choque que senti um dos lados do caixilho (que tinha sido lançado para trás) dar de encontro à minha perna e cair no chão. O que acabava de passar-se fez-me supor que a ardósia tinha sido atirada, segundo o meu desejo, através da porta, que estava fechada à chave, e que eu era, por uma vez ainda, testemunha do fenômeno surpreendente da penetração de uma matéria por uma outra; levantei-me, aproximei-me da porta e abri-a, conservando sempre a mão do Sr. Monck; efetivamente, a ardósia estava no quinto degrau da escada! Levantando-a, pude verificar que a inscrição que ela continha estava perfeitamente de acordo com o fato misterioso que acabava de passar-se, pois que à minha pergunta: “Podes transportar a ardósia ao quinto degrau da escada?”, encontrei a seguinte resposta: “Julga por ti mesmo. Ei-la. Adeus!” (Médium, 1877, pág. 741).

A mesma experiência foi repetida por duas vezes ainda, em presença de outras testemunhas (idem, páginas 761 e 786); na segunda sessão, a ardósia foi instantaneamente transportada ao quarto de uma das pessoas presentes, à distância de duas milhas do lugar onde se achavam os experimentadores.

O fato da penetrabilidade da matéria, isto é, da desmaterialização e rematerialização momentânea de um objeto, uma vez admitido, leva-nos logicamente a apresentar esta pergunta: Por que razão a força produtora daquela desmaterialização não teria o poder de dar aos corpos desmaterializados, rematerializando-os, outra forma diferente da que eles tinham dantes? Se a força que produz esse fenômeno é a força nervosa – como o Dr. Hartmann se inclina a admitir –, devemos lembrar-nos que a força nervosa pode produzir, sobre os corpos, impressões persistentes, isto é, produzir certas mudanças moleculares, correspondendo não só à forma dos órgãos do médium, donde emana essa força, como ainda a qualquer outra forma estranha que aprouvesse à fantasia sonambúlica do médium dar semelhante impressão. Assim, pois, a força nervosa, por isso mesmo que é suscetível de desagregar um corpo qualquer, disporia à sua maneira de todos os átomos desse corpo e, reconstituindo-o por intermédio desses átomos, poderia dar-lhe a forma que a vontade sonambúlica do médium se dispusesse a produzir. Essa conclusão não seria contrária à lógica da hipótese do Sr. Hartmann, e não descobrimos os motivos que ele poderia invocar para combatê-la –admitindo, repito-o, que estejamos aqui em presença da força nervosa com as propriedades que o Sr. Hartmann lhe atribui.

Baseando-nos no mesmo raciocínio, temos o direito de modificar essa conclusão da maneira seguinte: A força que exercesse sobre a matéria tal poder de desagregação não seria absolutamente obrigada a desagregar toda a massa de determinado objeto: bastar-lhe-ia utilizar certa quantidade de átomos dessa matéria para produzir, quer um simulacro de objeto, quer um objeto de outra forma. Efetivamente, o Espiritismo nos oferece esses dois gêneros de fenômenos conhecidos com o nome de desdobramento e com o de materialização no sentido próprio, e que se observa do mesmo modo nos objetos inanimados e nos animados. A linha de delimitação entre essas duas séries de fenômenos não pode, naturalmente, ser determinada com precisão, pois que se estaria sempre em presença de um certo grau de materialidade.

Em matéria de desdobramento de objetos inanimados, o observado mais freqüentemente foi o desdobramento dos tecidos. É um fato muito freqüente ver – sendo os médiuns mantidos pelas mãos – o duplo da mão do médium com a manga do vestido. Posso citar, como fato mais bem verificado desse gênero, o que se deu depois da experiência elétrica do Sr. Crookes com a Sra. Fay. O Sr. Hartmann é de opinião que esse exemplo é perfeito no ponto de vista da exclusão de toda a co-participação pessoal por parte do médium. “O controle por meio do contato com os eletrodos, como o aplicaram Crookes e Varley em sua sessão física com a Sra. Fay, pode ser considerado como uma garantia suficiente.” (pág. 18). Apesar disso, a mão que se mostrou entre as cortinas e que apresentou os livros aos assistentes estava revestida por um punho de seda azul, idêntico ao do vestido do médium; temos sobre esses pontos o testemunho do próprio Sr. Cox (Spiritual Magazine, 1875, pág. 151). Segundo a hipótese do Sr. Hartmann, isso deveria ser o resultado de uma alucinação; ela, porém, não tem razão de ser aqui; sem dúvida alguma, o médium teria evitado produzir a alucinação do seu próprio vestido. Quanto aos assistentes, não contavam com aquela surpresa.

Outro fato desse gênero, igualmente precioso, produziu-se por várias vezes, em uma sessão de Davenport, feita às escuras: tendo sido aceso um fósforo, de repente, viu-se Davenport sentado em uma cadeira e ligado pelas mãos e pés, e o duplo perfeito de seu corpo – com a roupa – perdendo-se no corpo do médium. (Spiritual Magazine, 1873, págs. 154 e 470; Ferguson, Supra-mondane Facts, pág. 109; ver também o testemunho interessante de Cliford-Smith, Spiritual Magazine, 1872, pág. 489, e finalmente o mesmo jornal, 1876, I, pág. 189).

Falando do desdobramento dos vestidos, somos levados naturalmente a mencionar, ao mesmo tempo, o desdobramento das formas humanas, do qual já encontramos antecedentes nos fenômenos da fotografia transcendente; abster-me-ei, porém, de fazer aqui um estudo minucioso desses fenômenos, pois que teremos de voltar mais adiante a esse ponto. Vamos passar imediatamente ao estudo da série dos fenômenos de materialização e, antes de tudo, ao estudo da materialização e desmaterialização de objetos inanimados.




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