Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo



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A – Materialização e desmaterialização de objetos inanimados


Não me esqueço de que devo tratar desse assunto somente sob o ponto de vista da teoria da alucinação. O Sr. Hartmann não admite os testemunhos harmônicos da vista e do tato, ainda que emanem de muitas pessoas simultaneamente; a materialização de um objeto sob a vista de testemunhas e a sua desmaterialização gradual, observada pelas mesmas testemunhas – o que é para o julgamento e a experiência ordinária o summum da prova exigida e que se produziu freqüentemente nas sessões mediúnicas –, é para o Sr. Hartmann a prova eo ipso da alucinação. Devo, pois, procurar provar o fenômeno por efeitos duradouros (pág. 96), os mais positivos dos quais fossem materializações, não efêmeras, porém permanentes. Entretanto, aqui a prova mais perfeita deixa por isso mesmo de ser uma prova, pois que o objeto, uma vez materializado, não difere em coisa alguma de outro objeto. Dessa forma, a prova do fenômeno não poderia ter outra base além daquela sobre a qual se apóia também o fenômeno da penetração da matéria, isto é, o testemunho humano. Baseando-me neste testemunho, espero poder exibir alguns exemplos suficientemente satisfatórios; é aqui que a fotografia transcendente vem em nosso auxílio; ela nos fornece uma prova positiva da materialização invisível de qualquer espécie de objetos inanimados, às mais das vezes tecidos e flores. Os tecidos que se vêem nessas fotografias geralmente nada apresentam de distintivo, pois que não passam de um acessório; entretanto, algumas vezes eles oferecem particularidades notáveis; é assim que o Sr. Hallock atesta que em uma das fotografias de Mumler, que representa o Sr. Livermore com o retrato de sua mulher falecida (e que já mencionamos), os tecidos que rodeiam a figura são particularmente finos e de um belo desenho, principalmente vistos à lente; poder-se-iam compará-los a uma asa de borboleta (Spiritualist, 1877, I, 239). Dissemos também mais acima que, em uma das fotografias obtidas pelo Sr. Slater, o retrato da pessoa que se tinha exposto estava artisticamente envolto em uma renda transparente; examinada de perto, aquela renda parecia formada por pequenos anéis de diversas dimensões, em nada semelhantes às rendas de confecção ordinária.

Apoiando-nos nesse antecedente, estamos no direito de supor que o fenômeno da materialização de semelhantes objetos deve dar-se também no domínio da materialização apreciável pelos sentidos. Efetivamente, encontramos na categoria dos fenômenos mediúnicos numerosos exemplos da materialização dos tecidos e das flores. Os fatos de transporte desses objetos, em condições que excluem toda a possibilidade de fraude, são inumeráveis. Como o Sr. Hartmann não pôs em dúvida a realidade desse fenômeno, julgo inútil esforçar-me em dar aqui a sua demonstração, citando algumas das experiências feitas. No começo havia disposições de atribuir uma origem supra-sensível aos tecidos usados pelas figuras materializadas; mas em breve chegou-se a discernir a diferença entre o “transporte” transcendente de um tecido e a sua materialização temporária, no sentido estrito da palavra. Conforme acabamos de verificar, o primeiro fenômeno é precursor do segundo, e é desse último que nos devemos ocupar neste momento.

Fomos conduzidos logicamente à hipótese de que o fenômeno da materialização poderia produzir-se à custa de um objeto dado, sem o desmaterializar completamente. E é efetivamente o que sucede, conforme a observação e o dizer das forças inteligentes que produzem esse fenômeno. A materialização temporária de um tecido produzir-se-ia, pois, à custa dos tecidos usados pelos assistentes; é o tecido que serviria de médium à materialização de um tecido. Eis o que encontrei a esse respeito em uma comunicação:

“É impossível formar semelhante matéria a menos que uma matéria correspondente esteja em posse do médium ou dos assistentes, visto que qualquer coisa no mundo da matéria tem a sua qualidade correspondente no mundo espiritual. Geralmente, é a cor branca a escolhida; porém, se, na sala onde se realiza a sessão, se colocam cores vegetais, então quase cada um de nós poderia mudar a cor branca de sua roupa em uma das gradações representadas na sala. Esse fenômeno poderia, depois de uma série de experiências, ser produzido sob a vista dos assistentes, quer com o tecido fabricado por nós, quer com um fabricado em vosso mundo.” (The Spiritualist, 1878, I, pág. 15).

Só conheço uma única experiência feita nesse sentido pelo Sr. Clifford-Smith, obtida pela fotografia transcendente. O fim era provar a materialização transcendente de um tecido natural, reproduzindo, como prova, o desenho desse tecido. Para fazer essa experiência, o Sr. Smith serviu-se de uma toalha de mesa e dirigiu-se com o médium Williams à casa do Sr. Hudson, fotógrafo. Eis a narração que ele fez dessa sessão:

“O Sr. Hudson tinha saído, mas voltou dentro em pouco. Dirigimo-nos imediatamente ao seu gabinete. O Sr. Hudson nunca tinha visto a toalha e não podia conhecer as minhas intenções. Perguntei-lhe: “Esse desenho (da toalha) apareceria claramente em uma fotografia?” Ele me respondeu afirmativamente e me propôs fotografá-la. Consenti nisso com a intenção de estender simplesmente a toalha no encosto de uma cadeira; porém, na ocasião em que ele ia tirar a fotografia, tive a inspiração de pedir ao Sr. Williams que se colocasse ao lado da cadeira, fora do campo da fotografia, ficando inteiramente por trás do tecido. Não desviei os olhos da toalha estendida sobre a cadeira. O resultado foi o aparecimento de uma forma espírita vestida de branco, cujo rosto era claramente reconhecível através da fazenda; mas o fato característico era que sobre os ombros via-se um fac-símile da toalha de mesa, exatamente como eu a tinha colocado em minha casa, sobre o Sr. Williams; o desenho do tecido era muito visível, ainda mais fácil de distinguir sobre a forma espírita do que sobre a cadeira onde estava estendido, e entretanto ele tinha ficado à mostra sobre a cadeira durante todo o tempo.” (The Spiritual Magazine, 1872, pág. 488).

Um dos casos mais autênticos de materialização de tecidos é o que se deu nas sessões do Sr. W. Crookes, com a Srta. Cook, pela forma materializada conhecida com o nome de Katie King. Eis como o Sr. Harrison, editor do The Spiritualist, testifica esse fato:

“A forma feminina, que se apresentava com o nome Katie, estava sentada no soalho, aquém da porta que comunicava com a sala que servia de gabinete escuro. Nesse gabinete podíamos ver, durante toda a sessão, aquela que julgávamos ser a Srta. Florence Cook; sua cabeça não estava voltada para nós, de maneira que não podíamos ver-lhe o rosto, mas podíamos distinguir-lhe os vestidos, as mãos e os sapatos. Katie estava no chão, fora do gabinete; muito perto dela estavam sentados, de um lado o Sr. W. Crookes, do outro o Sr. Tapp. Entre as pessoas presentes achavam-se os pais da médium, a Sra. Ross Church, eu e ainda outras pessoas, cujos nomes me escapam. Katie cortou da aba de seu amplo vestido cerca de dez retalhos e os distribuiu entre os assistentes; os recortes que fez em seu vestido eram de diversas dimensões e podia-se facilmente introduzir a mão em alguns. Irrefletidamente eu lhe disse: “Katie, se pudesses reconstituir o tecido como fazias algumas vezes!...” É conveniente notar que tudo isso se passava à luz do gás e em presença de numerosas testemunhas. Apenas eu tinha externado o meu desejo, ela dobrou tranqüilamente a parte recortada de seu vestido com a que tinha ficado intacta e descobriu-a logo depois; aquela operação não durou mais de três ou quatro segundos. A aba de seu vestido estava inteiramente restaurada: não se via mais um só buraco. O Sr. Crookes pediu para examinar o tecido, no que acedeu Katie; ele apalpou toda a parte recortada, centímetro por centímetro, examinou-a atentamente e declarou que não havia mais ali a menor solução de continuidade, recorte ou costura, nem vestígio de qualquer natureza. O Sr. Tapp pediu permissão para fazer outro tanto e, depois de longo e minucioso exame, deu o mesmo testemunho.” (The Spiritualist, 1877, nº 246, pág. 218).

Convém ler também os testemunhos relativos ao mesmo fato, no The Spiritualist, 1876, I, págs. 235, 258 e 259. Semelhantes experiências foram feitas finalmente com outros médiuns por várias vezes (The spiritualist, 1877, I, pág. 182; Light, 1885, pág. 258).

O Sr. Hartmann, mencionando esse gênero de fenômenos, concluiu “que é claro que, nesses diversos casos, nos achamos em presença de uma combinação da alucinação da vista e do tato (págs. 102 e 103). Mas a objeção é que os retalhos de tecido, cortados, não desaparecem, e eu vi em casa do Sr. Harrison o tecido que ele tinha cortado.

Estamos, pois, em presença desse dilema: ou o vestido era alucinatório, e nesse caso o tecido não pôde ser cortado e subsistir, ou o vestido existia realmente e então o buraco não pôde ser reparado. Para sair dessa dificuldade, o Sr. Hartmann acrescenta: “Quando o fantasma manda cortar o vestido pelos assistentes, e os retalhos apresentam a resistência de tecidos terrestres, surge essa questão: Achamo-nos em presença de uma alucinação do tato ou do transporte de um objeto real?” (pág. 103).

Como o Sr. Hartmann esclarece essa dúvida? Ele diz: “Se os retalhos de tecido desaparecem ulteriormente, ou se não podem ser encontrados depois da sessão, é preciso considerar o seu caráter alucinatório como demonstrado; se, pelo contrário, esses retalhos subsistem e podem ser taxados segundo o seu valor, a sua realidade e proveniência terrestre tornam-se indubitáveis.” (mesma página). Mas como explicar essa proveniência terrestre? O Sr. Hartmann já nos disse que, se não é uma alucinação do tato, é o transporte de um objeto real.

Da parte do Sr. Hartmann essa palavra é imprudente; ele não tem o direito de falar em transporte para a explicação de um fenômeno mediúnico qualquer. O transporte é um fato transcendente, inexplicável – pelo menos o Sr. Hartmann não dá explicação alguma a tal respeito. Por conseguinte, explicar a origem de um tecido pela hipótese do transporte é explicar o inexplicável pelo inexplicável, e o Sr. Hartmann tem o dever de nos dar explicações aceitáveis. Pouco nos importa que ele baseie a sua explicação sobre um fato admitido pelos espíritas: o transporte; ele não tem o direito de fazer essa concessão aos espíritas, porque lançou mão da pena para lhes ensinar “quais são os três princípios de método contra os quais o Espiritismo peca”, e o terceiro dos quais nos ensina que “é preciso permanecer tanto quanto possível nas causas naturais” (pág. 118) e para lhes demonstrar que no Espiritismo “não há a mínima justificação de ir além das explicações naturais “ (pág. 106).

Um fato que provaria que um tecido materializado não é um tecido transportado – de proveniência terrestre – seria o seu desaparecimento gradual, não no decurso da sessão, quando a influência alucinatória do médium sobre os assistentes é predominante, porém fora dessas condições; e essa desmaterialização poderia ser verificada pela fotografia. É uma experiência que deve ser feita. Por enquanto, ficaremos nas declarações, em número limitado, que justificam o fato da materialização de peças completas e em quantidade sob as vistas dos assistentes, na subtração de um retalho desses tecidos por meio de tesouras, em sua permanência durante alguns dias, na sua desmaterialização gradual e finalmente em seu desaparecimento.

Passaremos agora à materialização das flores. O seu transporte, a um quarto fechado, foi verificado por muitas vezes; mas o fenômeno de sua materialização produziu-se raramente. Os primeiros fatos desse gênero foram obtidos pelo Sr. Livermore, com a médium Srta. Kate Fox (ver as suas cartas no The Spiritual Magazine, 1861, 494 e passim).

Conforme o testemunho do Sr. A. J. Davis, no Herald of Progress:

“Em um dos círculos espíritas de Nova Iorque, produziam-se freqüentemente belas flores dotadas de vida momentânea, criadas artificialmente com o auxílio de elementos químicos esparsos na atmosfera. Esses espécimes da criação espírita eram em seguida oferecidos aos membros do círculo; cada uma dessas flores era por conseguinte posta ao alcance dos nossos sentidos; seu perfume impressionava diretamente o olfato; a haste e as folhas podiam ser tocadas, mantidas na mão. No decurso de uma dessas sessões, a comunicação espírita nos convidou a colocar uma daquelas flores em cima do fogão, o que foi realizado por um dos membros do círculo que voltou imediatamente ao seu lugar. Aos olhos dos assistentes, que fixamente olhavam para a flor, ela desapareceu completamente, depois de doze minutos.” (The Spiritual Magazine, 1864, pág. 13).

No livro de Wolfe, Fatos surpreendentes (págs. 508 e 538), lemos a passagem seguinte:

“Por baixo da toalha da mesa, viu-se uma luz tornando-se cada vez mais intensa, até que uma bela flor se materializou completamente; então a flor foi atirada no quarto, a uma distância suficiente para que se pudesse ver completamente a mão que a segurava. Observada durante meio minuto, ela desapareceu, mas para apresentar-se de novo. A flor não estava a mais de 12 polegadas de nossos olhos. Por seu tamanho, forma e cor, a flor assemelhava-se a uma rosa mousseuse.”

Sendo efêmeras, essas materializações não podem servir como resposta à teoria alucinatória do Sr. Hartmann; tenho todo o fundamento para supor que a fotografia teria podido dar a prova necessária de sua existência objetiva; não duvido de que essa experiência seja feita algum dia; mas não cito esses fatos senão porque eles são os antecedentes naturais da materialização das flores e dos frutos, produzida sob os olhos e com o caráter de materialidade permanente.

Os fatos mais notáveis desse gênero são os que se produziram pela mediunidade da Sra. d’Espérance, de Newcastle, e que são referidos, in extenso, no Médium de 1880, págs. 528, 538 e 542, e também no Herald of Progress de 1880, publicado em Newcastle. Esse fenômeno manifestou-se de três maneiras: 1º- em um copo d’água; 2º- em uma caixa com terra fresca; 3º- em uma garrafa com areia e água. Isso se passava em sessões de materialização; a médium se tinha retirado para um gabinete, e o operador era uma figura materializada que se apresentava como uma jovem árabe chamada Iolanda. Eis alguns pormenores sobre as três formas apresentadas pelo fenômeno, sob as vistas de numerosas testemunhas e por várias vezes:

1º – O Sr. Fitton tinha colocado na palma da mão um copo com um pouco d’água, à vista de todos; nada mais havia no copo, porém, depois que Iolanda fez alguns passes, o Sr. Fitton viu um botão de rosa no copo; esse botão entreabriu-se em pouco tempo até o meio, e Iolanda tomou-o e entregou-o ao Sr. Fitton. Este mostrou-o durante alguns instantes à Sra. Fidler e, quando o recebeu de novo, viu que, nesse curto intervalo, a flor tinha desabrochado (Médium, 1880, pág. 466).

2º – Para a reprodução de uma planta inteira, o operador misterioso pediu uma caixa com terra fresca e uma planta viva e sã que serviria de médium, o que foi fornecido por um dos assistentes. Na sessão de 20 de abril de 1880, a caixa que continha a terra foi depositada no centro da sala, e a planta-médium, um pé de jacinto, perto da caixa. Iolanda regou a terra com a água que lhe deram, depois cobriu a caixa com um pano e retirou-se para o gabinete. Ela saía dali de instante em instante, fixava o pano durante alguns momentos ou fazia passes; em seguida retirava-se de novo. Depois de cerca de vinte minutos, o pano pareceu levantar-se e aumentar gradualmente em altura e largura. Então Iolanda retirou o pano e viu-se na caixa um grande e belo pelargonium, em todo o seu frescor, da altura de 25 polegadas, com folhas da largura de 1 a 5 polegadas; ele foi transplantado para um jarro ordinário e continuou a viver, enquanto que a planta-médium não tardou em definhar (Médium, 1880, pág. 306). Foi da mesma maneira que se produziu, na sessão de 22 de junho, no espaço de cerca de meia hora, um belo morangueiro, apresentando frutos em diversos graus de maturação; a planta que serviu dessa vez de médium era um geranium (Médium, 1880, pág. 466).

3º – A produção de uma planta em uma garrafa, na sessão de 4 de agosto, é descrita pelo Sr. Oxley, no Herald of Progress (n. 8):

“Saindo do gabinete, Iolanda pediu, por meio de sinais, que lhe dessem uma garrafa, água e areia (o que acabava de ser obtido justamente antes da sessão); em seguida, agachando-se no soalho, perante todas as pessoas, chamou o Sr. Reimers, que, conforme as suas indicações, deitou na garrafa um pouco d’água e de areia. Iolanda depositou a garrafa no centro da sala, fez alguns passes, cobriu-a com um pano pequeno e leve e dirigiu-se para o lado do gabinete, a uma distância de cerca de 3 pés da garrafa. Naquele mesmo momento, percebemos que o que quer que fosse se levantava sob o pano e ampliava-se em todas as direções, atingindo uma altura de 4 polegadas. Quando Iolanda se aproximou e retirou o pano, verificamos que se tinha desenvolvido, na garrafa, uma verdadeira planta, com raízes, haste e folhas verdes. Iolanda tomou a garrafa entre as mãos, aproximou-se do lugar onde eu estava e ma entregou. Recebi-a em uma das mãos e examinei-a juntamente com o meu amigo Calder; a planta ainda não continha flores. Coloquei a garrafa no soalho, a 2 pés de mim. Iolanda entrou no gabinete, onde ouvimos o som de pancadas que tinham esta significação, segundo o alfabeto convencionado: “Agora, olhai para a planta.” Então Calder, tomando a garrafa e suspendendo-a no ar, exclamou, cheio de admiração: “Vede, há uma flor!” Efetivamente, a planta continha uma grande flor. Durante os poucos minutos em que a garrafa tinha ficado a meus pés, a planta tinha crescido 6 polegadas, lançando muitas folhas novas e uma bela flor de cor vermelho-dourada ou alaranjada.” (Médium, 1880, pág. 529).

Esse fato não era uma alucinação, como o atesta uma fotografia da planta, feita pelo Sr. Oxley no dia seguinte. Verificou-se que a planta era uma Ixora crocata; o seu desenho está anexado ao artigo do Sr. Oxley, no Herald, bem como no livro da Sra. Emma Hardinge-Britten, Os Milagres do Século XIX, e na edição alemã dessa obra.

O Sr. Oxley, a quem eu me tinha dirigido pedindo algumas informações, teve a bondade de me fazer aceitar, por ocasião de me responder, uma bela fotografia representando a planta inteira na garrafa, deixando ver as raízes e a areia na qual elas cresceram. Em sua carta, o Sr. Oxley confirma o fato da origem extraordinária daquela planta; ele diz entre outras coisas:

“Nunca menos de vinte pessoas eram testemunhas desse fenômeno, que se deu à luz moderada, porém suficiente para se ver o que se passava. O pano tocava imediatamente no gargalo da garrafa, e pudemos mui distintamente vê-lo elevar-se gradualmente.”

O Sr. Oxley teve a bondade de enviar-me uma parte da própria planta para ser comparada com a fotografia; era precisamente a parte superior, com a flor e três folhas, cortadas e postas abaixo de um vidro imediatamente após a execução da fotografia. As folhas mediam de 17 a 18 centímetros de extensão e 6 centímetros de largura; quanto à flor, constava de um feixe de quarenta pistilos de uma extensão de 4 centímetros, e terminando cada um por uma flor composta de 4 pétalas. Como o Sr. Sellin, de Hamburgo, assistisse a essa sessão, tive naturalmente a idéia de conseguir o seu testemunho e lhe escrevi a carta seguinte:

“S. Petersburgo, hoje, 7/19 de abril de 1886.

Já que o senhor assistiu, conjuntamente com os Srs. Oxley e Reimers, à sessão da Sra. d’Espérance, no decurso da qual se produziu o notável crescimento de uma planta que Iolanda entregou ao Sr. Oxley, o seu testemunho terá para mim um valor particular, pelo que venho pedir que se digne enviar-me uma resposta aos quesitos seguintes:

1º – Com que grau de luz se produziu esse fenômeno?

2º – O senhor está bem certo de ter visto o próprio vaso no qual a planta se desenvolveu, e está convicto de que não havia nesse vaso mais do que água e areia?

3º – Tem certeza de ter visto a planta elevar-se gradualmente da garrafa, para atingir as dimensões indicadas na descrição?

4º – Reparou bem que não havia flor na planta, quando ela foi entregue ao Sr. Oxley, e que ela só apareceu mais tarde?

5º – Tem qualquer dúvida sobre a autenticidade do fenômeno e, em caso contrário, como o explica?

Ser-lhe-ia muito grato se me desse essas informações.

Queira aceitar..., etc.”

Eis a resposta que o Sr. Sellin se dignou enviar-me:

“Hamburgo, 5 de maio de 1886.

Borgfeld, Mittelweg, 59.

Senhor.


Peço-lhe desculpas por responder tão tarde à sua carta de 19 de abril, que só me foi entregue a 27, por ocasião de meu regresso da Inglaterra, onde passei duas semanas. Espero, entretanto, que a minha resposta lhe chegue às mãos a tempo.

Para melhor compreensão, ajunto à presente missiva uma planta da sala onde se realizaram as sessões, com a indicação do gabinete e dos lugares que ocupávamos. Nesse desenho não observei uma exatidão rigorosa, o que, aliás, não tem grande importância; pretendo principalmente indicar o lugar onde eu me achava e que me colocava em condições particularmente vantajosas, como o senhor pode verificar por si.


Quanto aos quesitos que o senhor me apresenta:

1º – É muito difícil determinar a intensidade da luz. A sala era iluminada a gás, através de uma janela disfarçada por uma cortina vermelha; a chama podia ser graduada no interior da sala; aumentava-se ou diminuía-se.

Enquanto durava o crescimento, a iluminação era fraca, porém suficiente, não só para poder-se ver Iolanda e distinguir a garrafa, coberta pelo pano branco, como ainda para acompanhar a elevação gradual daquele pano à proporção que a planta crescia. Conforme o indica o desenho, eu me achava a uma distância da planta que não excedia de 3 pés e posso, por conseguinte, dizer com segurança que o pano branco se elevou a uma altura de 16 polegadas no espaço de 3 minutos. Quando em seguida Iolanda tirou o pano de cima da planta, o que eu não perdi de vista por um instante, julguei ver um Ficus no lugar da Ixora crocata, planta que eu não conhecia. A claridade existente me permitia distinguir cada folha, de maneira que pude reconhecer o meu engano antes que Iolanda tivesse entregado a garrafa com a planta ao Sr. Oxley.

2º – O vaso empregado naquele caso (uma garrafa com um gargalo de menos de uma polegada de diâmetro) é absolutamente semelhante ao que é reproduzido por um desenho no Herald of Progress; vi-o quer antes, quer depois da sessão e pude examiná-lo minuciosamente, pois quando traziam a garrafa, a areia, a água e a folha de jornal, a luz foi aumentada. Essa circunstância não pode ser posta em dúvida de maneira alguma. Eis a ordem que se observou na sessão: quando, no começo, Iolanda distribuiu as suas rosas, entrou no gabinete, e os objetos precitados foram pedidos por meio de pancadas que saíam do gabinete. O Sr. Oxley diz que antes da sessão ele tinha sido prevenido (provavelmente por meio de escritas automáticas) de que esses objetos deviam estar prontos de antemão. O Sr. Armstrong, de cuja honorabilidade não tenho dúvida, e que dirigia essas sessões, foi quem ofereceu esses acessórios. A Sra. d’Espérance achava-se naquele momento em estado de transe provavelmente parcial, pois que, achando-se no gabinete, conversava e tossia. Logo que se diminuiu a luz, Iolanda saiu do gabinete, chamou com um aceno o Sr. Reimers e lhe fez sinal de colocar a folha do jornal no chão e de encher a garrafa, que foi colocada em cima, com areia até determinada altura, e para deitar nela uma certa quantidade de água. O Sr. Reimers fez o que se lhe pedia, conservando-se de joelhos na margem do jornal, enquanto Iolanda estava defronte dele, do lado oposto, também de joelhos. Logo que o Sr. Reimers terminou, Iolanda lhe deu um beijo na testa e lhe fez sinal para que ele voltasse a seu lugar. Ela própria levantou-se e cobriu a garrafa com o pano branco. Donde o tinha ela tirado? Era uma parte de seu vestido, ou antes o tinha ela produzido naquela ocasião? Eu não desejaria aventurar uma opinião qualquer a esse respeito; mas posso dizer que, a contar do momento em que a garrafa foi coberta, eu estava no caso de examinar perfeitamente, quer a garrafa, quer o fantasma, até a ocasião em que ele retirou o pano.

3º – A resposta ao presente quesito já está dada no que precede.

4º – Posso garantir com toda a convicção que não havia flores na planta, no momento em que o pano foi retirado; a não se ter dado aquele incidente, certamente eu não poderia ter tomado por um ficus aquela grande flor de forma esferoidal, com as dimensões do punho e a forma de uma dália. Não posso, porém, afirmar que a planta não tinha botões; não os vi, mas, se havia um na primeira fase de desenvolvimento, era possível que eu não o notasse. Sobre esse ponto preciso louvar-me completamente no testemunho do Sr. Oxley e do respeitável John Calder. Quando, decorridos alguns minutos, se aumentou a luz e todas as pessoas presentes examinaram a planta pela segunda vez, via-se já ali um botão completamente desenvolvido. Colocou-se a garrafa em cima de um armário, onde ela ficou até ao fim da sessão, no decurso da qual se formaram ainda cerca de meia dúzia de figuras materializadas, que saíam do gabinete e se aproximavam das pessoas presentes. Quando, no fim da sessão, o Sr. Oxley retirou a garrafa do armário para levá-la para casa, eu me aproveitei daquela oportunidade a fim de olhar para a planta ainda uma vez, e verifiquei que naquele ínterim tinham desabrochado mais três botões de cor amarelo-alaranjado. No dia seguinte, levando a planta à casa do fotógrafo, notamos que a copa inteira se tinha desenvolvido, conforme se vê na prova. Depois de exame mais minucioso das folhas, notei com surpresa que uma delas tinha uma dilaceração que tivera o tempo de endurecer. Na sessão de 5 de agosto, na qual se formou da mesma maneira, em um jarro cheio de terra, um Anthurium Scherzerianum, uma planta da América Central, perguntei como semelhante dilaceração tinha podido fazer-se em uma planta que apenas acabava de nascer. Disseram-me em resposta que Iolanda, retirando o pano com muita precipitação, tinha deteriorado a folha e que aquela dilaceração tinha cicatrizado em tão pouco tempo, graças ao crescimento rápido da planta.

5º – Conforme a maneira pela qual as coisas se passaram, não tenho a menor dúvida acerca da autenticidade dos fenômenos; entretanto, no começo, fiquei pouco favoravelmente impressionado pela dilaceração da folha. Quanto ao lugar em que se colocou a garrafa, eu o tinha inspecionado durante o dia, quando visitava o aposento da Sra. d’Espérance, e ali nada descobri que pudesse indicar a existência de um alçapão qualquer. Quanto ao que se refere à explicação dos fenômenos, acho-me naturalmente em presença de um enigma, como na maioria das manifestações espíritas. É possível que fosse um caso de “transporte”, como sucede com as rosas que ela tira do copo, para distribuir. Aquelas rosas eram de origem puramente natural; guardei-as durante algum tempo e deitei-as fora quando murcharam. No presente caso, a grande dificuldade consistia em fazer a planta entrar na garrafa. O gargalo dela era tão estreito, que considero quase impossível introduzir nele as raízes de uma planta completamente formada e implantá-las na areia úmida, dando-lhes uma direção inteiramente natural. Confesso que tal suposição me parece estar em contradição com a elevação gradual do pano, em sentido vertical, fato que pude observar com toda a perfeição.

Poder-se-ia ainda supor que, durante o tempo em que Reimers enchia a garrafa com areia molhada, ou antes, no momento de cobri-la com o pano, o fantasma tivesse introduzido uma vergôntea ou uma semente de Ixora – não sendo botânico, não posso dizer qual das duas hipóteses é mais plausível –, e que depois, com o auxílio de uma força que nos é desconhecida, tivesse conseguido efetuar uma germinação e um desenvolvimento extraordinariamente rápido da planta. Detive-me nessa suposição, tanto mais porque ela apresenta alguma analogia com a aceleração do crescimento de uma planta por meio da eletricidade (experiência feita pelo Sr. Reimers).

Aceite..., etc.



G. W. Sellin.”

Certamente, nada se faz do nada, e aquelas plantas não se formaram do nada. Não nos achamos em presença de um simples (!) fenômeno de transporte, isso é evidente, pois que houve desenvolvimento gradual, o que é precisamente um dos caracteres do fenômeno da materialização, como se pode julgar pelas experiências acima descritas, nas quais o fenômeno se produziu sob as vistas de todos os observadores. Esse desenvolvimento gradual é cada vez mais evidente quando se verifica que a planta, depois de ter sido posta a descoberto e bem examinada, ainda cresceu 6 polegadas, produziu muitas folhas e uma grande flor de 5 polegadas de diâmetro, constando de cerca de cinqüenta flores pequenas – o que prova que havia na parte da planta produzida na primeira fase uma grande concentração de vitalidade e de elementos materiais que ainda estavam em estado latente. Como as plantas materializadas, de que acabamos de falar, não se assemelhavam às plantas que serviram de médium, e como a Ixora foi produzida, conforme parece, sem o concurso de nenhuma outra planta, somos levados a supor que assistimos aqui a um fenômeno misto de transporte e de materialização; poder-se-ia, pois, supor que essas plantas foram desmaterializadas na ocasião e que, sendo conservada a sua essência típica, elas foram gradualmente rematerializadas durante a sessão, com o auxílio da essência vital de outra planta, ou mesmo sem isso. Como quer que seja, trata-se sempre de um fato de materialização produzida sob os olhos dos observadores, e o seu caráter não alucinatório fica estabelecido.

O insucesso de uma experiência desse gênero nos servirá para demonstrar que não se trata de simples transportes; para uma dessas sessões, tudo foi preparado como de costume: a caixa com a terra, a água, uma cobertura e a planta-médium. Iolanda apareceu, executou todas as manipulações habituais e finalmente repeliu a caixa com um aborrecimento tão manifesto que teria excitado a hilaridade em qualquer outra circunstância menos interessante. Ela nos disse, em explicação, que a terra era de má qualidade e cheia de bolor; que, por conseguinte, só se tinha produzido bolor sob sua influência (Médium, pág. 466). É evidente que um transporte nada teria tido de comum com a terra e com a sua qualidade.

Para completar a série de materializações de objetos inanimados, falta-me mencionar a materialização de um metal pela mediunidade de um metal. Encontramos o antecedente desse fenômeno nos transportes ou desaparecimentos e reaparecimentos de objetos metálicos, que se produziram muitas vezes durante as sessões; porém, em assunto de materialização, só conheço o exemplo seguinte, e como se trata de um anel de ouro, posso mencionar o seu antecedente especial: a desmaterialização de um anel de ouro, enquanto o conservavam na mão. Eis o que atesta o Sr. Cateau Van Rosevelt, membro do conselho Privado da Guiana Holandesa, o qual, estando em Londres, teve uma sessão com a jovem Kate Cook (irmã da célebre Florence Cook), no decurso da qual se deu o seguinte fenômeno:

“A Sra. Cook, mãe da médium, entregou-me, diz o Sr. Van Rosevelt, dois anéis de ouro, que eu dei a Lili (forma materializada), que os meteu nos dedos. Eu lhe disse que ela, já que não podia usar aquelas jóias no mundo dos Espíritos, procederia mais acertadamente se mas devolvesse para que eu as restituísse à Sra. Cook. Ela tirou os anéis e eu os recebi com a mão direita: “Segura-os bem – disse-me ela –, pois que eu vou dissolvê-los.” Eu apertava os anéis com força entre os dedos, porém eles se tornaram cada vez menores e desapareceram completamente no fim de cerca de meio minuto. “Ei-los”, disse Lili, mostrando-me os anéis em sua mão. Recebi-os e restituí-os à Sra. Cook.” (The Spiritualist, 1879, pág. 159).

Passemos agora ao fato que se refere à materialização de um anel de ouro. Eis um fenômeno que foi observado em uma série de sessões, inteiramente íntimas, dadas por um círculo com um médium amador, o Sr. Spriggs; esse fenômeno é referido por um dos membros do círculo, o Sr. Smart, em carta publicada no Light de 1886, pág. 94:

“A mesma figura materializou certo dia um anel de ouro cuja dureza ela demonstrou, batendo com ele no abajur da lâmpada e comprimindo com ele as nossas mãos. O que há de curioso nesse fato é que, para auxiliar a materialização, ela pediu a corrente de ouro de um assistente, colocou-a na mesa e fez passes da corrente à sua própria mão, como se quisesse tirar dela uma parte dos elementos mais sutis.” (ver também o Médium, de 1877, pág. 802).

É conveniente supor que aquele anel tenha desaparecido com a figura, e esse fenômeno não pode, por conseguinte, me servir de prova na minha resposta ao Sr. Hartmann; mas, para todos aqueles que não partilham da sua teoria de alucinação, ele terá uma significação particular. Não será a essa categoria de fenômenos que se liga o fato curioso a que se poderia chamar “desdobramento de um corpo”, do qual fez menção o Sr. A. R. Wallace em seu livro Defesa do Espiritualismo Moderno?

Compreendo muito bem que tratando dessa questão das materializações de objetos inanimados, no ponto de vista da alucinação, as provas que mostrei aos leitores não são numerosas, e que não podem ser consideradas como perfeitamente satisfatórias, ou ainda menos produzidas em condições que correspondam às exigências de uma ciência positiva; conforme já disse, a dificuldade reside no próprio caráter do fenômeno a estabelecer e também na penúria de experiências feitas nesse sentido, tendo-se concentrado todo o interesse e toda a atenção, muito naturalmente, na materialidade das formas humanas. Só menciono fatos que se produziram por acaso, de tempos a tempos, e não como resultado de uma investigação sistemática e especial com o fim de provar que não se trata de alucinações; eu as menciono porque, em todos os tempos, o testemunho dos sentidos e de muitas pessoas que assistiram a um fenômeno foi considerado como suficiente.

Meu objetivo foi somente demonstrar que, quando a fotografia transcendente nos apresenta o fenômeno surpreendente de imagens de objetos inanimados invisíveis aos nossos olhos, esse fenômeno pode encontrar a sua justificação no fenômeno correspondente e não menos estranho da materialização e da desmaterialização visível de objetos inanimados, e vice-versa. Eu ainda estou admirado de ter podido reunir, extraindo dos materiais existentes, os poucos fatos que me permitiram completar a série das analogias no conjunto desse domínio.




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