Alexandre Gazineo



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Alexandre Gazineo




Q U A R T E T O

Salvador-Bahia

1985

... o que importa é ouvir, a voz que vem do coração.

Pois Seja o que vier,

Venha o que vier,

Qualquer dia amigo, eu volto

A te encontrar,

Qualquer dia amigo, a gente

Vai se encontrar.
CANÇÃO DA AMÉRICA – M. Nascimento


CAETANO

Eu me pergunto, algumas vezes como agora, qual a maneira mais certa de saber que o tempo passou e que continua a passar?

Então respondo que talvez seja o que faço agora, quando me lanço esta pergunta. Recordar fatos e pessoas no mais absoluto silêncio, na mais completa imobilidade. Eis uma boa solução para a questão. Talvez eu nem estivesse me fazendo esta indagação íntima e silenciosa se o que aprendi a entender como idéia real de tempo não houvesse escoado suavemente à minha volta, cercando aos poucos os meus passos com águas profundas, cheias de anos, dias e semanas, descartados ao vento incessante que invariavelmente nos empurra para frente, transformando-nos em seres diferentes do que um fomos um dia.

Ao mesmo tempo em que me pergunto e me respondo, encosto o rosto no vidro frio da janela do apartamento e o toque gélido, refletindo o inverno lá fora, acrescenta uma sensação inédita. Percebo a real face e o verdadeiro gosto das recordações. Vejo que esta magia de resgatar passagens estanques do passado, pessoas do passado, hábitos do passado, idéias do passado, é um exercício supremo de sobrevivência e de integridade individual contra o caminhar dos acontecimentos que, uns após os outros, transformam-se em décadas e gerações, embranquecendo os cabelos, descolorindo sonhos e ambições forjados na juventude incendiária. Eis aí o processo insidioso dos dias! E é contra ele, capaz de nos fazer sentir alienígenas diante dos nossos iguais, que se levanta o edifício redentor da memória.

Enquanto percorremos os corredores desta infindável construção ideológica somos senhores absolutos de nossos momentos passados; momentos de afeição, de tristeza, de revolta ou de esperança. Nós os dominamos por inteiro justamente por serem tão somente ecos dos gritos quase apagados da nossa vida de ontem. Este é o principal prazer de se recorrer às recordações. Exercitamos um poder intangível sobre todas as situações, enxergamos nossa história em dimensões absolutas. De certa maneira, tornamo-nos quase divinos e esta divindade é sentida ao alcançarmos a essência das coisas lembradas, por conseguirmos manter frente aos fatos do passado uma ascendência e domínio impossíveis frente aos fatos do presente. Talvez por tudo isso eu exercite minha memória, rebuscando com tanta insistência o que passou. Para que eu me sinta, ainda que por instantes, de certa forma divino, de certo modo intocável.

Decido interromper meus devaneios para dar uma última volta pelo apartamento, verificar se esqueci algum detalhe, se tranquei bem as portas e janelas. Vou de um lado a outro do meu refúgio (muitos pensam nesta palavra “refúgio” quando se referem ao lugar em que moram. Eu também faço isto. Sempre fiz. Ou por uma insistência terminológica ou por pura teimosia) e não gasto mais do que poucos minutos. Tudo certo. Portas trancadas, janelas fechadas, certo ambiente de lugar vazio já invadindo o apartamento, como uma neblina insistente que aos poucos penetrasse pelos vãos das portas. Qualquer lugar silencioso, imóvel pela ausência ou quase ausência de pessoas, transmite-me esta impressão de abandono, de esquecimento ferido, como se cada componente do cenário fossem gestos de protesto, convulsões de indignação, gritos de revolta por tudo estar de tal maneira repleto de ausências e faminto por presenças.

Assim é que se encontra meu apartamento enquanto dou outra volta para me certificar de que tudo está em ordem (como se fizesse alguma diferença, como se eu soubesse...); um lugar farto de inquietude, deformado pelas muitas ondas de indignação e marcado por uma revolta que não nasce em mim, mas que me é conhecida, que me procura e me descobre, atingindo-me em qualquer lugar onde eu esteja.

Volto ao quarto e observo a mala aberta sobre a cama. Não muito grande - viagem de poucos dias - levo comigo só o necessário para não me ver obrigado a entrar em lojas, farmácias ou quaisquer outros fornecedores de artigos pertencentes às necessidades humanas. Sento-me ao lado da mala e olho em volta buscando ver se esqueci alguma coisa importante. Não. Tudo já foi colocado, tudo pronto para a viagem. Mas, e quanto a mim? Estarei preparado ou será que dou estas voltas pelo apartamento como manifestação de uma vontade distante de, quem sabe, me atrasar e me atrasando, perder o avião? Será que estou me escondendo atrás de desculpas tolas para não fazer algo tão importante, algo que esteve presente nos meus últimos quinze anos de vida? Será que este tempo me fez tão frágil, tão covarde, que chego a me sentir assustado com a perspectiva de reacender no presente momentos passados, rostos e vozes que me reconduziriam a outro tempo, não este, a outro lugar, não este? Será que recordar se tornou uma experiência insuportável para mim?

Não adianta qualquer julgamento, qualquer decisão. A mala já está pronta desde o início da manhã e agora já são três horas de uma tarde nublada. Levanto da cama disposto a tomar o elevador, descer até a rua e comprar cigarros. Mas paro no meio dos meus movimentos. Por que estes cigarros tão urgentes, já que chove lá fora e o meu avião parte dentro de duas horas?

“Camaleões que me perseguem eu objeto vulgar e cego enquanto acendo meu cigarro e trago minha impotência.”


Melhor fazer assim. Nada como um poema quando a nossa consciência entra em pane. Guardá-lo para depois rever suas idéias, seu ritmo, sua história. Cada poema é um retalho de carne manchada de sangue; sim, aprendi isto há mais de quinze anos. Fecho a mala e deixo o quarto, fechando a porta atrás de mim. Sim, eu vou e nada mais a pensar sobre o assunto. Vou ao encontro e mesmo que ninguém mais vá, eu terei ido e cumprido com a minha parte do pacto. Mas não quero ser o único a vencer o rolo compressor do tempo, o único que lembrou e cumpriu o prometido. Não quero para mim esta solidão. Ela será a mais melancólica, dolorosa e irrecuperável solidão que já enfrentei.

Fecho o apartamento e descubro que sinto medo. Medo de estar sendo mais do que devo ser.





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