Allan Kardec Viagem Espirita em 1862



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Allan Kardec

Viagem Espírita em 1862




El Greco

Adoração dos Pastores



Conteúdo resumido


Esta obra é o relato da viagem realizada pelo Codificador no ano de 1862, que o levou a mais de vinte cidades, nas quais presidiu aproximadamente 50 reuniões.

Para Kardec essa viagem teve a finalidade de avaliar a situação em que se encontrava a Doutrina Espírita e levar ao conhecimento geral as orientações necessárias aos organizadores dos diferentes Centros.

Nos três discursos pronunciados por Kardec, em Lyon e Bordeaux, foram feitas valiosas considerações sobre a conduta dos espíritas, as atividades dos grupos e importantes temas que envolvem os adeptos.

O Codificador oferece, também, instruções particulares aos grupos em resposta a diversas questões propostas e, por fim, um Projeto de Regulamento para o uso de grupos e pequenas Sociedades Espíritas.



Sumário
»

Prefácio 4

Impressões Gerais 16

Discursos
pronunciados nas reuniões gerais
dos espíritas de Lyon e Bordeaux. 33

Discurso I 33

Discurso II 47

Discurso III 54



Instruções particulares
dadas aos Grupos, em resposta a
algumas das questões propostas. 72


Projeto de Regulamento
para o uso de Grupos e
pequenas Sociedades Espíritas 97




Prefácio


Não obstante quanto de bom, respeitável e digno já se tenha escrito, a “História do Espiritismo” dorme ainda no teclado de um autor desconhecido.

No decurso dos últimos cinqüenta anos houve a brava tentativa de Sir Arthur Conan Doyle, na qual, todavia, o trabalho gigantesco de Kardec, por contraste, é quase impalpável, diluído, e apenas se insinua entre as páginas bem elaboradas, nas quais constata-se que o grande escritor absorveu, cronologicamente, todo o essencial a partir de 1848, mas que, geograficamente, não foi capaz de ir além do que um inglês, limitado pelas fronteiras de sua língua, pôde alcançar. Em verdade, ao invés de ser uma História do Espiritismo, diríamos que a obra de Doyle faz parte dessa “História”, exatamente pela admirável confissão e a inflexível segurança com que esse homem, famoso pela sutileza do raciocínio científico, apôs sobre ela o seu nome celebrizado.

Mas essa “História”, em contexto integral, haverá de ser escrita e nela nos impressionaremos com o capítulo dos que se dispuseram a sair pelo mundo, a enfrentar a enigmática substância das platéias, para transmitir a doutrina dos Espíritos, ainda que ao preço de danos morais e físicos. A esse capítulo se intitulará, talvez, os “Atos dos Espíritas”, parafraseando, por um simples impulso de descobrir o futuro no passado, os “Atos dos Apóstolos”.

Doyle menciona o curioso fenômeno da oratória em transe que, em azado momento, fez um arrepio de perplexidade eriçar as platéias anglo-saxônicas. Jovenzinhas em flor, tais Cora Poldge, Emma Britten, Nettie Colburn adormeciam em face de ávidas assistências e só vinham a despertar, ruborizadas e confusas, depois que os aplausos espoucavam. Haviam feito revolucionárias abordagens de temas filosóficos, teológicos ou científicos que, ao lhes serem mencionados, faziam-nas quase perder o fôlego em seus rigorosos espartilhos. Em contrapartida, certamente porque o mundo spiritual leva em conta, até onde não podemos imaginar, certos condicionamentos de caráter psicológico e social, essa ocorrência não tem nenhuma significação mais profunda no ambiente kardecista, e é o próprio Codificador, lúcido e desperto, que se encarrega de iniciar a divulgação das verdades espíritas através das tribunas. Em seguida a ele, em perfeita coordenação, surgirá Léon Denis.

Em um como em outro, e tal como sucede ainda em nossos dias, a preocupação se converge para uma ética que, em sendo, até certo ponto, patrimônio das mais antigas culturas, era, praticamente, apenas “letra que mata”; agora vai ser “espírito que vivifica”, subversiva no sentido de arremeter do exterior para o interior, da teoria para a ação. Seu caráter renovador torna-a evangelicamente desmistificada e autenticamente apostolar, o que nos leva a estabelecer a comparação com o livro dos “Atos”, essa crônica de viagem, durante a qual os inúmeros personagens têm, o tempo todo, os lábios entreabertos, como que preparados para traduzir em palavras o pensamento da Boa Nova, em especulações sobre ações passadas e presentes, que se acumulam em seus espíritos com a força do rio comprimido contra as paredes de uma barragem.

Esta Viagem Espírita em 1862 é qualquer coisa de semelhante e assim Allan Kardec nela se comporta.

Entretanto tudo começa, não exatamente em 1862, como o título sugere, mas, dois anos antes. O Novo “Atos” se inicia nos derradeiros dias do outono de 1860.

*

O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns tinham-se constituído, desde os seus lançamentos, em êxitos de livraria e o seu autor se fez, de imediato, notado. Dilacerada por uma acabrunhante tristeza, a humanidade disputava pensamentos capazes de oferecer uma nova e veraz interpretação para tudo quanto pudesse ser julgado de real importância. As religiões apresentavam os sinais de uma incurável senilidade e deixavam de ser o “freio” esterilizante; mas a ética que tresandava do ensino comunicado pelos Espíritos Superiores podia ser considerada não como “uma religião”, mas a própria “Religião”, surgindo de uma tenebrosa noite sufocada pelo fumo acre que tresandava a carne humana assada nas fogueiras. O seu símbolo não era o “freio”, porém a “chave”, e nisso estava implícito ao mesmo tempo uma esperança e uma ameaça. Havia algo de esgotante e doentio naquele decisivo século XIX, em que o homem alcançara o superlativo de uma técnica elaborada em um suceder inimaginável de gerações: a de amar tão bem, amando tão pouco.

Allan Kardec, com seu olhar acobreado e fosforescente, não apreciava ver-se colocado na galeria marcial dos filósofos e enfrentava os louvores que lhe tributavam como algo de perigoso e inquietante. Era taciturno, e a única coisa que parecia interessá-lo – ele haveria de ser sempre um pedagogo! – era um processo de educação ao qual se engajara com tanta paixão quanto dantes o fizera em relação ao de Pestalozzi. Consistia em varrer do homem e das instituições sociais um fator tão simples quanto terrível: o egoísmo, substituindo-o por outro igualmente tão simples que faria muita gente, durante anos de insensatez, rir-se à socapa: a caridade. Em seu sentido global essas duas categorias breves guardam em si toda a complexidade da dor e da alegria humana, da mais negra miséria e da mais estuante felicidade. A negação de um e a afirmação da outra eram a garantia do Reino prometido e, por isso, o professor sentia-se impelido a escrever milhares de palavras, a deixar após si livros capazes de, nas coordenadas mesmas dos Evangelhos do Cristo, enfrentar os séculos. Em conjunto esse trabalho deveria contar com um fator decisivo para sua definitiva conclusão: o tempo. E os ponteiros do relógio, como dedos acusadores, muitas vezes apontavam em riste para o professor. Por esse motivo suas viagens de propaganda se reduziram a menos de meia dúzia. Não podia comprometer a feitura da obra, toda ela dependente de introspecção, toda ela educação, recursos do intelecto para lutar contra as intimações do coração violento.

Como sucedeu à maioria dos grandes reformadores, uma parte de seus contemporâneos soube ver nele as qualidades exigidas ao predestinado. E um desses homens foi o Sr. Guillaume, residente em Lyon. Guillaume guarda a honra histórica de ter motivado a primeira viagem de propaganda do Espiritismo kardecista. Cartearam-se a respeito em agosto de 1860. Kardec partiu sozinho, deixando para trás uma Paris envolta nas brumas de mortiço outono.

Pode-se imaginar como voltou a pisar o solo de sua cidade natal. Nas vésperas da partida, exprimindo sua surpresa pelo desenvolvimento do Espiritismo na terra em que vira a luz, ouviu de uma entidade comunicante o comentário seguinte: “Por que te espantas? Lyon é a cidade dos mártires. A fé ali ainda é viva! Ela dará apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lyon é o coração!”

Cem anos depois, escrevendo sua admirável obra, Ave Cristo, o Espírito Emmanuel, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, ofereceria ao mundo, por um enfoque que só os arquivos da espiritualidade superior permitiriam, a crônica dos heróis do Cristianismo nascente e que fizeram de Lyon a “cidade dos mártires”.

Cortada em duas pela fita nebulosa do Rhône, Kardec deve ter percebido que a cidade de sua infância já não existia mais. Quarenta anos se tinham passado e da casa da Rua Sala nº 76, onde nascera, nem um único vestígio podia ser encontrado. Fora posta abaixo logo em seguida às inundações de 1840. O mesmo destino sofreram o estabelecimento de águas minerais de Fréderico Syriaque Dittmar e a residência de François Targe, os dois amigos de seu pai que tinham firmado, no Tribunal, a certidão de nascimento do menino Hippolyte. Por outro lado as escassas notas históricas não informam se o velho juiz Rivail ou a dama Jeanne Duhamel, seus pais, ainda viviam. Allan Kardec é sempre extremamente econômico acerca de Hippolyte Léon Denizard Rivail, de sorte que a biografia do segundo se dilui na obra do primeiro, um alicerce tenaz e insólito, mas fatalmente oculto e desapercebido. Como Saulo possuído de vertiginosa incerteza e que se transforma em Paulo pela decisão de agir!

A caminho detivera-se em Sens, Mâcon e Saint-Ettiene. É ainda o presidente da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris. Sua renúncia ao cargo fora, pouco antes, negada e Kardec vira-se reeleito por quase unanimidade: um voto em contrário, um em branco.

*

Noite de 19 de setembro de 1860. Kardec é recebido no Centro Espírita de Broteaux, o único existente em Lyon. À porta esperam-no Dijou, operário, chefe de oficinas, e sua esposa.

Este é, na História, o primeiro encontro de dirigentes espíritas. Dijou encontra-se à testa do grupo lionês, Kardec desempenha as funções maiores na Societé parisiense. A mão do emérito pensador aperta vigorosamente os dedos calosos e ásperos do companheiro, a quem chama “irmão”. No olhar grave que trocam vê-se que mutuamente se entendem: embora em planos diferentes, suas responsabilidades se equivalem.

Transpostos os portais, o coração de Kardec se rejubila. O “milagre” a que tantas vezes já fizera menção, sempre com arrebatamento e orgulho, o grande feito que compete à Doutrina Espírita realizar, consubstancia-se ali, ante seus olhos, e é um mentor espiritual, Erasto, em sublime epístola dirigida à comunidade lionesa, quem vai encontrar palavras para vestir a emoção do Codificador: “Não podeis imaginar quanto nos é doce e agradável presidir ao vosso banquete, onde o rico e o operário se abraçam, bebendo a fraternidade!”

Kardec dirige-se à tribuna singela e o Centro Espírita de Broteaux, pelo futuro em fora, será lembrado como o local da pira. Ali é aceso o fogo sagrado que empunharão, através dos séculos, todos aqueles que se compromissaram, mesmo ao preço de injúrias, suor e lágrimas, a divulgar as glórias do Espiritismo pela bênção da palavra.

Todavia a noite inesquecível transcende em significações.

A mulher, perfumada de amor e vestida de renúncia, vai ser a valiosa companheira do Espiritismo. Os dois cúmplices, de mãos dadas, descerão as escadas sombrias ou baterão, docemente, às portas das mansardas. Secarão lágrimas e reacenderão esperanças. Mais e melhor do que o homem, ela comporá a galeria torturada dos grandes médiuns que abalarão os negadores mais recalcitrantes. Tinha seguido os passos de Jesus e se mantivera solitária aos pés da cruz até que as roucas invocações subiram ao Gólgota quando as cortinas do templo se partiram.

Agora que o Consolador prometido se anunciava, pressurosa ela corria a ocupar o lugar de seu destino. Se ontem chamara-se Maria de Magdala, Marta, Maria ou Salomé, hoje chama-se Sra. Dijou. Por isso todo o encanto se prejudicaria se, naquela noite outonal de 1860, imprescindível presença, ela não tivesse descerrado a Allan Kardec as portas do Centro Espírita de Broteaux.

Todavia ali está a Sra. Dijou. Seu sorriso sem artifícios é como um maravilhoso diálogo, seu olhar resoluto é cheio de convicção. Pode-se imaginar que tenha descido da Croix-Rousse para os Terreaux, nos grupos tumultuosos de operários quando lhes faltou o trabalho. Agora, firmemente especada ao lado do marido, ela é a segunda potência nesse momento histórico. Qual é o seu prenome? Por que veio a partilhar essa situação da qual, em obediência ao status social vigente no tempo, apenas o homem deveria ser o ator visível?

Não se pode saber! A Sra. Dijou caminhou através dos anos e o tempo tudo ou quase tudo apagou. Ele tem, afinal, o poder de transformar em um enigma mesmo a mais simples dentre as mulheres do povo.

Kardec, entretanto, pressentiu que ela se tornaria em um monumento. E, por isso, bem ao seu modo, guardou-lhe, não os traços físicos, mas os traços morais. Do jantar amável que lhe foi oferecido pelo operariado de Lyon, transcreveu na sua Revue o pequeno discurso do Sr. Courtet, um negociante, no qual a Sra. Dijou se encontra de corpo inteiro.

“Senhores! Na qualidade de membro do grupo Espírita de Broteaux e em seu nome, venho vos propor um brinde em honra do Sr. e da Sra. Dijou.

Senhora! Cumpro um dever muito agradável, servindo de intérprete de toda a nossa sociedade, que vos agradece por tudo quanto fizestes em nosso favor! Quantas consolações haveis feito brotar entre nós! Quantas lágrimas de ternura e de alegria nos fizestes derramar! Vosso coração, tão bom e tão modesto, não se orgulhou com os vossos sucessos e, com isso, vossa caridade aumentou.

Bem sabemos, senhora, que apenas sois o intérprete dos Espíritos superiores, que a vós estão ligados, mas, também, com que devotamento realizais essa tarefa! Por vosso intermédio nos iniciamos a essas altas questões de moral e filosofia, cuja solução deve trazer o reino de Deus e, por conseqüência, a felicidade aos homens neste mundo.

Também vos agradecemos, senhora, a assistência que dais aos nossos doentes. Vossa fé e vosso zelo disso recebem a recompensa pela satisfação que experimentais em fazer o bem e aliviar o sofrimento. Nós vos pedimos a continuação dos vossos bons ofícios: ficai certa de toda a nossa gratidão e de nosso eterno reconhecimento.”

Na história do Espiritismo kardecista, essa mulher do povo, essa esposa e mãe de operários, é a primeira figura feminina que se projeta na linha de um horizonte difuso, no qual, entretanto, firmemente acendem-se as luzes das mais altas aspirações e expectativas jamais oferecidas ao gênero humano. A Sra. Dijou sobrepõe-se às personalidades torturadas, para além do suportável, às mulheres de sua classe, em seu tempo, e cerrando as portas do Centro Espírita de Broteaux, à saída de Allan Kardec, finda a sessão memorável, cerra também as portas do passado.

Em verdade todas as mulheres que hoje vivem e abençoam a “situação” e a “condição” de espíritas, devem-lhe gratidão, pois que a Sra. Dijou é um ser distinto, marcado com os sinais precisos e irrefutáveis de uma ação que lhe deve ter custado a ameaça de mil perigos invisíveis.

*

Essa primeira viagem de Kardec tem o dom de acender entusiasmos além do imaginável. Já agora o homem não pode deixar de pensar.

Uma imprensa teúda e manteúda por interesses bem conhecidos, também em Lyon acaba de se despertar. Mas em torno do casal Dijou e do Sr. Guillaume, o Espiritismo é feliz e espontâneo, arregimenta adeptos e estes se unem por uma teia de fidelidade, de idéias sem hesitações. Nada e ninguém já poderá afastá-los.

Pela Revue Kardec escreverá estas impressões de viagem: “Eu bem sabia que em Lyon os adeptos eram em grande número, porém estava longe de suspeitar que fosse tão considerável, pois se contam por centenas e, em breve, espero, serão incontáveis”.



*

E foi para verificar se o seu prognóstico se tornara em realidade, que Kardec retorna à “cidade dos mártires” no ano seguinte, 1861. Como anteriormente, escolhe o outono para a excursão. O vento frio soluça entre os ramos que se enrijecem e as folhas cor-de-cobre pingam melancolicamente dos plátanos e castanheiros quando ele desce de novo em Mâcon e Sens para abraçar, depois de um ano, os companheiros espíritas. Exatamente a 19 de setembro encontra-se de novo entre os amigos lioneses. Mas agora, como predissera, os grupos multiplicam-se. Há-os em Guillotière, em Perrache, em Croix-Rousse, em Vaise, em Saint-Juste, sem contar o grande número de reuniões familiares.

Kardec sente-se invadido por indefinível sentimento. A sua Lyon é, para ele, um doce tormento, uma dessas congeminações que traduzem o triunfo da causa pela qual dá sua vida e a ira deletéria de seus críticos impotentes. O tema predileto de Kardec é a caridade, porém ele bem sabe que o despeito pode ser tão clarividente quanto a bondade.

Um operário de Saint-Juste emociona-o profundamente discursando com admiráveis palavras: “Viemos de longe e subimos as alturas de Saint-Juste com um calor extenuante. Trouxemos conosco as nossas ferramentas de trabalho juntamente com o pão e o queijo. Queríamos partilhá-lo convosco, um verdadeiro ágape oferecido com a simplicidade antiga e o coração sincero. E um copo de vinho que essa brava gente não pode beber todos os dias. Ah! Uma verdadeira festa! Iríamos ouvir falar de Espiritismo”

Mas, pela Gazeta de Lyon, um certo Sr. C. M. chama aos espíritas “... alucinados que romperam com todas as crenças religiosas de seu tempo e de seu país...”

A resposta de Kardec é serena. O Espiritismo não é uma seita política, como não é uma seita religiosa. É a constatação de um fato, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões, em todos os tempos, em todos os países. A moral que ensina é boa ou má? É subversiva? Estudem-na e saberão do que se trata. Todavia, desde que é a moral do Evangelho desenvolvida, condená-la será condenar o Evangelho.



*

Em Kardec não há pusilanimidade. No outono de 1862 deixa Paris para sua terceira viagem de propaganda espírita. Esta será a mais extensa a ser feita em toda a sua vida e se alongará até Bordeaux. Precisa constatar o processo de fermentação. O mundo do homem encarnado era um mundo enfermo que se tentava analisar dentro dos quadros da psicologia ou da filosofia. Mas tudo aquilo era susceptível de mais de uma explicação.

Kardec preparou, com zelo habitual, o material de sua oratória e, de fato, o seu tema de eleição está, melhor do que nunca, expresso no legado dessa viagem.

Tudo quanto vai dizer é fruto de uma experiência pessoal. Essa experiência caminha para nós e a voz que a expressa, apesar dos anos, nada tem de debilidade. Entre o homem e sua felicidade, ergue-se a sombra, a terrível paixão: o egoísmo. Isto é uma espécie de grito que precisa ser mil vezes repetido, até que o grande obstáculo, a sombra, seja reconhecida como o pior dos inimigos. Enquanto isso não se faça todos estaremos excluídos da felicidade que desejamos partilhar.

Todavia é inútil repetir o tema que o leitor vai encontrar neste livro.

*

A Viagem Espírita em 1862 levou Allan Kardec a mais de vinte cidades diferentes, nas quais presidiu a cerca de cinqüenta reuniões. Um convite subscrito por 500 assinaturas, efetuado mais uma vez pelo grupo lionês, promoveu-a. No decorrer dessas seis semanas de 1862, ao outono sucedeu o inverno, e foi através da chuva, do frio e da neve que o grande missionário se locomoveu pela província francesa.

Em novembro do mesmo ano, pelo editorial da Revue, prestava conta de seus passos, escrevendo:

“Acabamos de fazer uma visita a vários centros espíritas da França, lamentando que o tempo não nos tenha permitido ir a toda parte onde nos haviam convidado, nem prolongar nossa visita a cada localidade tanto quanto desejávamos, dada a acolhida simpática e fraterna recebida. Durante uma viagem de mais de seis semanas e um percurso de 693 léguas, estivemos em vinte cidades e assistimos a mais de cinqüenta reuniões. O resultado nos deu uma grande satisfação moral, sob o duplo aspecto das observações colhidas e da constatação dos imensos progressos do Espiritismo.

O relato dessa viagem, que compreende principalmente as instruções por nós oferecidas aos vários grupos, é muito extenso para ser publicado na Revista, pois absorveria quase dois números. Fizemos uma separata, do mesmo formato, a fim de, caso necessário, a ela ser anexada.”

Esse editorial é fechado com chave de ouro através de dois magníficos parágrafos:

“Parece-nos indicado aproveitar esta circunstância para retificar uma opinião que se nos afigurou muito generalizada.

Várias pessoas, principalmente na província, tinham pensado que o custo dessas viagens corria por conta da Sociedade de Paris. Tivemos que explicar esse erro, sempre que se apresentou. Aos que possam ainda pensar assim, lembramos o que foi dito em outra ocasião: a Sociedade se limita a cobrir as despesas correntes e não possui reservas. Para que pudesse constituir um capital, teria que visar o número de adesos: é o que não faz, nem quer fazer, pois seu objetivo não é a especulação, e o número não dá importância aos seus trabalhos. Sua influência é toda moral e o caráter de suas reuniões dá aos estranhos a idéia de uma assembléia grave e séria. Este é o seu mais poderoso meio de propaganda. Assim, não poderia ela prover nenhuma despesa. Os gastos de viagem, como todos os decorrentes das relações que estabelecemos em favor do Espiritismo, são cobertos por nossos recursos pessoais e nossas economias, acrescidos do produto de nossas obras, sem o que ser-nos-ia impossível enfrentar todos os encargos conseqüentes da obra que empreendemos. Digo isto sem vaidade, mas unicamente em homenagem à verdade e para edificação dos que imaginam que entesouramos dinheiro.”



*

André Moreil, o mais recente biógrafo de Kardec, comenta a Viagem Espírita em 1862 nos seguintes termos: “Essa grande viagem foi, mais tarde, publicada em obra especial, que se tornou auxiliar indispensável aos grupos espíritas, tanto no que concerne à doutrina, quanto no que diz respeito à organização e administração das sociedades espíritas.”

Cremos que este livro não foi, até o momento, editado em língua portuguesa. Lançamo-lo não apenas por sua alta qualidade doutrinária, mas ainda como uma adesão da “Casa de Cairbar Schutel” às comemorações do 1º Centenário de Desencarne de Allan Kardec, ocorrido em 1869.

Os conceitos nele contidos são tão atuais e frescos, tão fundamentais à boa conduta das entidades espíritas, que poderiam ter sido escritos em 1952. O leitor arguto e atento fará aqui mil descobertas de transcendental valor. Cem anos transcorridos, as instruções de Kardec são ainda perfeitamente aplicáveis e uma garantia para a pureza doutrinária. Caracterizam-se pela firmeza, lucidez e responsabilidade. Finalmente, o seu curioso modelo de Regulamento, o antepassado dos atuais estatutos das sociedades espíritas, é um exemplo de ponderação, de repulsa ao misticismo e uma revelação de alto espírito universalista.

A Viagem Espírita em 1862 é obra em que, de singular maneira, o “homem” Allan Kardec se nos revela com sua consciência histórica e, em súbitos clarões, permite que o vejamos bem próximo de nós, o ser que já realizou o que intentamos, isto é, a substancial reforma interior que, só ela, possibilita a mágica interação: a criatura vivendo no Espiritismo, o Espiritismo vivendo na criatura.

Araraquara, maio de 1968.




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