Ambiente escolar e currículo



Baixar 35.85 Kb.
Encontro19.07.2018
Tamanho35.85 Kb.



Globalização ou crise global?
18 maio 1993A Dinamarca, após muitas hesitações, reticência e garantias recebidas, cedeu à pressão do pânico coletivo e disse sim a Maastricht. Mas o Tratado continua sendo um pecado mortal na consciência de muitos signatários, e um pesadelo ainda mais angustiante para as almas do resto …
Miguel Torga, Diário, Vol. XVI
A unificação é ainda somente um nome, uma marca registrada. Ninguém pode avaliar os benefícios reais de uma associação como essa. Se nós estamos falando de um novo uniforme, uma nova cor unificada, então eu estou fora. A Europa é feita de muitos campos que trazem muitas flores de múltiplas cores e de muitas espécies diferentes.
István Szabó, Entrevista, 25ª Semana do Cinema, Budapest 1994.
To sum up, what is Free Trade under the present conditions of society? Freedom of capital.
Marx, Speech at the Democratic Association of Brussels, January 9, 1848
A palavra e o conceito
Globalização acabou se tornando uma das palavras-chave mais em voga dos anos oitenta e sobrevive nos anos noventa, ao lado de outras tais como, privatização, ecologia, desenvolvimento sustentado ou o fim da história, além dos inúmeros neo- e pós-ismos, como neo-liberalismo, pós-fordismo, pós-industrial ou pós-moderno. No entanto, no caso da globalização assim como no dos demais neologismos citados, uso freqüente ou largamente difundido não é garantia de significado claro ou sequer emprego consistente. De maneira geral, neologismos são utilizados como se fossem novos conceitos quando na verdade procuram apenas encobrir o sentido de conceitos pré-existentes bem definidos, substituindo-os. Eis como no início dos anos 70 Hugo Radice argumentava contra o uso da expressão firmas multinacionais ao invés de internacionais:
O termo geralmente usado para descrever companhias com instalações fabris em mais de um país é empresa – corporação, firma – multinacional. Eu uso o termo empresa internacional, em parte porque é mais acessível, e em parte porque o mesmo enfatisa o movimento de capital através e entre nações da economia mundial, enquanto que multinacional tem uma falsa conotação de mais de uma nacionalidade”.
Introdução, Radice (Ed, 1975):9
No caso da globalização, o termo é usado a torto e a direita, para explicar fenômenos do capitalismo contemporâneo, para justificar medidas econômicas de governos nacionais e até políticas urbanas de governos locais. O que é geral é que na maioria dos casos a palavra globalização vem com uma conotação de inexorável, acompanhante inevitável do rolo compressor da modernidade.
Afim de demarcar o terreno de sua definição, e também a guisa de introdução, vamos passar em breve revista os possíveis significados da palavra globalização, ou mais exatamente, os significados compatíveis com o uso corrente da palavra, para dar um primeiro passo para sua clarificação. Vamos relembrar também algumas formulações clássicas da Economia Política que foram soterradas na avalanche neo-liberal que vem tomando conta do discurso sobre o capitalismo contemporâneo.
O aprofundamento da generalização da forma-mercadoria
Uma das características mais arraigadas do capitalismo é a tendência fundamental para a generalização da forma-mercadoria, na tentativa de produzir tanto valor de uso – materializado no objeto útil – enquanto valor de troca – materializado na mercadoria, forma em que o mesmo objeto é produzido – quanto possível. Esse movimento se concretizou historicamente dentro de mercados unificados no âmbito de nacões-Estado; e a história do capitalismo até hoje pode ser vista, como a história do desenvolvimento dos mercados nacionais e dos conflitos entre os mesmos e as nações que os suportam. O mercado mundial, não-obstante freqüentemente invocado e sonhado a partir da segunda metade do século passado pelas nações-Estado mais fortes, continuou fugidio e chegou a submergir na confrontação das mesmas nações-Estado disputando seu domínio. Ainda assim, a ausência de Guerras Mundiais – globais? – desde a Segunda – não obstante inúmeras guerras localizadas – produziu um período relativamente longo de relativa paz, o que pode ter levado muitos a ver – finalmente – a miragem do mercado mundial. Fronteiras nacionais teriam sido derrubadas por certo número de mercadorias mundiais – carros, gravadores vídeo, computadores –, cujos folhetos estão impressos em meia dúzia de línguas, ligações a cabo permitem a transmissão de sinais de televisão e de computador ao redor do planeta e isto é somente o começo… Há alguns anos, o efeito do último acordo GATT de 1993 foi jubilantemente estimado em 200 bilhões de dólares de comércio internacional adicional para a próxima década. Veremos, que tais abordagens entusiastas precisariam ser submetidas ao crivo de parâmetros concretos dos processos a que se referem.
Livre-comércio – ou tendência para
O último acordo comercial do GATT, a chamada Rodada Uruguai, assinado a muito custo após oito anos de barganha, logo se tornaria obsoleto, mas já na época de sua assinatura em 15 de dezembro de 1993 tinha significado dúbio e era sujeito a interpretações subjetivas. Em outras palavras, o significado do GATT era tudo menos global. Assim, enquanto um representante dos países centrais comemorava:
Hoje o mundo escolheu abertura e cooperação no lugar de incerteza e conflito.
Peter Sutherland, Diretor-Geral do GATT
Ecos bem menos otimistas vinham das ex-colônias, ou países periféricos. No relato da Gazeta Mercantil, em continuação ao citado acima:
Com toda franqueza, devemos dizer que os resultados da Rodada Uruguai nos deixaram algumas vezes com sentimentos contraditórios, disse, em tom muito mais austero, o embaixador do Brasil no GATT, Luiz Felipe Lampréia, no discurso final no plenário.
Ele não foi uma exceção. Os países em desenvolvimento, de forma geral, reclamaram das poucas concessões obtidas – especialmente nas áreas agrícola e têxtil.
O que era verdade. Efetivamente, nos últimos estágios da negociação eles simplesmente dispersaram, na nítida – e bem fundada – impressão de que os acordos tornaram-se um assunto privado entre os três grandes: os EEUU, a Comunidade Européia e o Japão.
De fato, em acordos de última hora com a CE, os EEUU negociavam acordos bilaterais que mantinham subsídios compensados de parte a parte principalmente à produção agrícola – um item de particular interesse aos países menos industrializados – em flagrante contradição ao espírito do acordo. Livre comércio continua sendo, como sempre foi, mais retórica que fatos. Nem os supra-referidos 200 bilhões de dólares de reforço ao comércio mundial suscitou consenso mesmo entre os países mais ricos. Os franceses logo assinalaram, que
Près de 200 milliards de dollars… Un chiffre martelé par les dirigeants britanniques mais qui a laissé sceptique la plupart des responsables politiques en France, M. Balladur notamment, qui l’a qualifié de ‘littéraire’”.
Le Monde, 92.11.28:23
Assim, nesse caso, a globalidade não chegou a abarcar nem sequer os 42 km que separam os dois lados do Canal da Mancha... Recentemente – relativo à revisão deste texto para publicação, em 2000 – tem surgido reações populares às políticas e da Organização Mundial do Comércio – OMC, que sucede ao GATT –: pela primeira vez em Seattle na reunião anual da OMC, houve verdadeira batalha campal entre a polícia e manifestantes vindos dos mais diversas organizações e cantos do mundo – uma reação global à globalização? –, fato que se repetiu no ano subseqüente na Suíça. O rolo compressor da globalização parece estar perdendo ímpeto, ou mais exatamente, o consenso em torno da idéia da globalização está se rompendo. Ao nível da produção acadêmica e dos meios de divulgação, levantam-se algumas vozes também, referidos abaixo em alguns exemplos, a começar pela Monthly Review, de longa tradição na crítica da ideologia liberal.
A Monthly Review
Uma rara visão, não-apologética, da globalização, foi expressa em um editorial em 1992 – tomando a oportunidade do quincentenário do descobrimento da América – pela revista Monthly Review. Começava por resumir as características fundamentais do processo de globalização como sendo...
...a rápida expansão do investimento estrangeiro, a importância relativa crescente das finanças quando comparadas à produção real na economia global, a luta sempre mais ferrenha entre as três maiores potências capitalistas pela primazia, a manutenção da divisão do mundo entre nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, e o fosso sempre mais largo que separa o core (centro) da periferia do capitalismo.
Mas lembrava o fato, já sugerido na própria data de publicação do número especial, que aquilo a que comumente se refere como globalização começou há 500 anos, uma idéia à qual voltamos abaixo. Porém mais importante, e acima de tudo, o artigo da MR coloca um ponto de vista, raramente assumido e ainda mais raramente enfatizado, a saber, que globalização tem sido largamente usada como um eufemismo – para capitalismo tardio – ou simples neologismo – como uma alternativa a uma visão histórica do capitalismo, uma visão que forçaria até mesmo os mais recalcitrantes a enxergar a crise que está diante dos próprios olhos.
A título apenas de alguns exemplos de outros estudos no mesmo veio, vale lembrar aqui a coletânea de ensaios organizado por Henk Overbeek (Overbeek, 1993) cujo enfoque geral é uma avaliação do estado e das perspectivas do capitalismo contemporâneo; e para as implicações dos últimos desdobramentos desse ao nível do processo urbano, estudos de Les Budd (Budd, 1995,1998).
O que é novo, na verdade?
Muitos dos fenômenos que em conjunto passam por constituintes da globalização não são absolutamente novos. Nem a própria idéia da globalidade é tão nova, ao fim das contas. Muito antes da aldeia global descoberta por McLuhan nos anos 60, havia, por exemplo, a Liga das Nações organizada pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial – se bem que a mesma não foi capaz de orquestrar os interesses conflitantes das nações-Estado do mundo – como o provou o reinício da guerra mundial em 1939 –, nem, por outro lado, em sustar a eclosão ou debelar a eclosão das revoluções socialistas em encubação, à exceção da Alemanha – 1918 –, da Hungria – 1919 – e da Grécia – 1923 – e talvez na Espanha – 1936. Mas, na verdade, a última grande notícia a respeito de globalização é muito anterior ainda: é a descoberta e implantação do telégrafo no início dos anos 1850, que reduziu o tempo de percurso de uma notícia de Londres para, digamos, a recém-fundada colônia de Hong Kong, de 40-50 dias em um barco a vela – o vapor estava só começando – a uma fração de segundo através de um cabo no fundo do mar, informando a cotação da seda, pimenta do reino, açúcar ou das ações na Bolsa de Londres pelo mundo inteiro. Foi então que o globo ficou pequeno – há cento e cinqüenta anos – e seguia-se o progresso rápido nas técnicas de transporte de carga – vela para máquina a vapor, carroça para estrada de ferro – para também reduzir substancialmente o tempo de transporte de mercadorias para todos os cantos do planeta.
Não obstante, também não foi o telégrafo, por certo, o primeiro passo em direção à globalidade. Cinco anos antes de sua invenção, uma descrição das tendências contemporâneas do capitalismo por Marx e Engels soa como se tivesse sido escrito hoje:
Ao invés das necessidades antigas, satisfeitas por produtos do próprio país, temos novas demandas supridas por produtos dos países mais distantes, de climas os mais diversos. No lugar da tradicional auto-suficiência e do isolamento das nações surge uma circulação universal, uma interdependência geral entre os países.
Marx e Engels, O manifesto comunista, 1848
Na verdade, os primórdios da unificação da economia mundial são muito anteriores ainda, e é difícil discordar de Samir Amin para quem a globalização, começou de fato em 1492 e foi rapidamente dominada pelo próprio capitalismo, vindo a seguir, a ser praticamente identificada com o mesmo:
(Se fosse para designar uma data para o nascimento do mundo moderno,) Eu escolheria 1492, o ano em que os europeus começaram sua conquista do planeta – nos sentidos miltar, econômico, político, ideológico, cultural, e até, num certo sentido, étnico. Mas o mundo em questão é também o mundo do capitalismo, um sistema social e econômico qualitativamente diferente de todos os sistemas da Europa ou alhures. Esses dois traços são inseparáveis, e esses fatos colocam em xeque todas as análises e respostas à crise da modernidade que deixam de reconhecer sua simultaneidade.
Samir Amin, 1992
Independentemente de tal associação analítica – discutível – entre europeus e capitalismo – poderia haver algo como uma ideologia européia? –, é sempre bom lembrar que o que quer que esteja acontecendo hoje, na época contemporânea, acontece no e ao capitalismo.
Toda essa discussão em torno da questão da globalização, apesar da imprecisão dos termos em que ela tem sido levada, pode ser aproveitada de alguma forma. O que quer que seja entendido por globalização, os aspectos acima arrolados – a ampliação da intermediação financeira, a perda relativa do peso das manufaturas, a ampliação do papel do Estado e a desesperada reação neoliberal – são, na verdade, quaisquer que sejam suas possíveis interpretações, indicadores de algumas das principais características do estágio atual de desenvolvimento capitalista. A sua colocação em perspectiva histórica, ou a avaliação de seus potenciais desdobramentos futuros a partir desse estágio, exige uma periodização do capitalismo, assim como, em particular, uma interpretação do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo mundial. A proposição aqui colocada é que o presente estágio se caracteriza pelo término da transição, iniciada há pouco mais de um século, do processo de acumulação predominantemente extensiva para um processo de acumulação predominantemente intensiva em todos os principais centros de acumulação capitalista, ou em outras palavras, que o atual estágio de desenvolvimento é caracterizado pela exaustão do estágio de acumulação predominantemente intensiva. Uma vez que não há indicação, e menos ainda, garantia, de algum possível terceiro estágio de desenvolvimento capitalista – acumulação pós-intensiva – só poderia ser concebida como piada –, coloca-se um ponto de interrogação referente às perspectivas futuras da produção de mercadorias sob regulação capitalista.
Antes de esboçar uma interpretação do capitalismo contemporâneo dento de uma perspectiva histórica, no entanto, vamos recordar algumas formulações anteriores, hoje ditas clássicas, das mais relevantes, porém hoje soterradas sob debaixo de espessa camada de produção da ideologia liberal.

 
(...)



Referências Bibliográficas
AGLIETTA, Michel (1976) A theory of capitalist regulation New Left Books, London, 1979
AMIN, Samir (1992) "1492" Monthly Review 44 (3): 10-19
BALL, Michael, Gray F & McDowell, L (1989) The transformation of Britain. Contemporary economic and social change Fontana, London
BUDD, Leslie (1995) "Territory and Strategic Alliances in Different Financial Centres" Urban Studies 32 (2)
BUDD, Leslie (1998) Territorial competition and globalization: Scylla and Charybdis of European cities" Urban Studies 35(4):663-85
DEÁK, Csaba (1985) Rent theory and the price of urban land/ Spatial organization in a capitalist economy PhD Thesis, Cambridge
DEÁK, Csaba (1989) "O mercado e o Estado na organização espacial da produção capitalista" Espaço & Debates, 28:18-31
DEÁK, Csaba (1990) "Acumulação entravada no Brasil/ E a crise dos anos 80" Espaço & Debates 32:32-46
EDWARDS, Michael (1984) "Planning and the land market: problems, prospects and strategy" in Ball, Michael et alii (Eds, 1984) Land rent, housing and urban planning Croom Helm, London
FAINSTEIN, Norman & FAINSTEIN, Suzanne S (Ed, 1982) Urban policy under capitalism (Urban affairs annual review, Vol.20) Sage, Beverly Hills, Ca
FERNANDES, Florestan (1972) "Classes sociais na América Latina" in Fernandes (1972) Capitalismo dependente e classes sociais na América latina Zahar, São Paulo, 1981
GILL, Stephen (1993) "Neo-liberalism and the shift towards a US-centered transnational hegemony" in Overbeek, Henk (Ed, 1993) Restructuring hegemony in the global political economy/ The rise of transnational neo-liberalism in the 1980s Routledge, London
GORENDER, Jacob (1977) "Globalização e Trabalho" Seminário Globalização e Estrutura Urbana, FAUUSP, setembro
GOUGH, Ian (1982) "The crisis of the British welfare state" in FAINSTEIN & FAINSTEIN (Ed, 1982)
HILL, Christopher (1967) Reformation to industrial revolution Penguin, Harmondsworth, 1969
KEMENES, Egon (1981) "Hungary: economists in a socialist planning system" History of Political Economy 13 (3):580-99
LENIN, Vladimir I (1915) "Introduction" to BUKHARIN, Nikolai (1915) Imperialism and world economy Merlin, London, 1972
LUZ, Nícia Vilela (1961) A luta pela industrialização do Brasil Alfa-Omega, São Paulo, 1975
MAGDOFF, Harry (1969) The age of imperialism/ The economics of U.S. foreign policy Monthly Review Press, New York
MANDEL, Ernest (1972) Late capitalism Verso, London, 1978
MASSEY, Doreen (1974) "Social justice and the city: A review" Environment & Planning, traduzido em (1990) Espaço & Debates 28.
Monthly Review, The Editors (1992) "Globalization – to what end? Parts I-II" Monthly Review 43 (9-10)
OVERBEEK, Henk (Ed, 1993) Restructuring hegemony in the global political economy/ The rise of transnational neo-liberalism in the 1980s Routledge, London
SEKINE, Thomas T (1977) "Translator's foreword"; "An essay on Uno's dialectic of capital"; "A glossary of technical terms" in Uno (1964)
RADICE, Hugo (ed, 1975) International firms and modern imperialism Penguin, London
UNO, Kozo (1964) Principles of political economy/ Theory of a purely capitalist society Harvester, Essex

Fonte
DEÁK, Csaba. Globalização ou crise global?. Disponível em: docentes/depprojeto/c_deak/CD/3publ/01glob-cr/>. Acesso em: 18 set. 2004.

 






Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal