Amor à primeira vista



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Amor à primeira vista
Sexualidade dos deficientes visuais envolve as sutilezas do dito popular

Cega desde a adolescência, Camila imagina Flávio, que não é portador de deficiência visual, com os traços da sua imaginação

Quando os olhos de Camila de Morais estão abertos, ela vê apenas duas paisagens. Pelo olho direito, avista um infinito mar de branco, bem intenso. Pelo olho esquerdo, vê uma chuva de azuis e um vagar de manchas negras ou alaranjadas. "Pelo meu olho interno vejo umas coisas nubladas", explica. Em certos momentos, Camila tem lá seus métodos para alcançar nuvens bem mais altas. Escondida por entre as cobertas junto ao seu marido, ela prefere encobrir os olhos cegos com os lençóis de pálpebras. "Ele sempre me pergunta porque eu fecho os olhos na hora do sexo. É porque assim, o imagino melhor".

Cega desde os 17 anos, Camila pôde aprender com a vida que nem toda visão está limitada às imagens que se projetam na retina. Afinal, ela não é cega nos sonhos, na imaginação, nem nas fantasias. "No meu sonho, eu vejo Flávio perfeitamente". Já no sexo, seus olhos são como uma tela em branco, e precisam de cores e tintas. Por isso, o toque não lhe serve apenas como forma de acariciar o parceiro. É com as mãos e os dedos que ela pinta, no fundo dos olhos, cada detalhe do corpo do marido. Com as descrições dadas pelos amigos, retoca sutis desvios. E, no toque final, acrescenta os detalhes que só ela viu. Está pronta sua obra-prima. "Eu imagino exatamente como ele seja. Um galeguinho lindo".

Quando conheceu seu esposo, Camila já não enxergava. Sua visão se fora por conta de uma cirurgia mal-sucedida. Um pouco antes da operação, ela ainda perguntou ao oftalmologista: - Doutor, eu vou continuar enxergando? A voz da confiança estava vestida de guarda-pó e máscara de cirurgia. "Claro que vai". Mas ao despertar da anestesia, as cores do mundo já iam diminuindo. "Todo dia, na hora que eu acordava, meus pais me perguntavam se eu estava enxergando melhor, e nada. Doía muito em mim ter que dizer a verdade para eles". Esperançoso, o pai ainda via uma última chance de brilho nos olhos da filha. "Ele sempre me pedia: ô, minha filhinha, tenta fazer um esforcinho". Mas não adiantavam esforços, porque o ato de enxergar era um dom, um talento singelo que, aos poucos, Camila perdia. Até o dia em que tudo se apagou. Ironicamente, o mundo escureceu em sete dias, o mesmo tempo da criação divina.

"Quando fiquei cega, quis morrer. Achei que nunca iria arranjar ninguém". Mas aconteceu diferente. Camila curtia a Praia de Piatã quando Flávio Gomes apareceu na sua vida. Ela mal o percebeu. Mas da parte de Flávio, foi amor à primeira vista. Os olhos dele esqueceram o mar, e não paravam de contemplar aquela moça de olhar distante, sentada na areia. "Me encantei logo. Achei a Camila linda".

Ausência do olhar

Embora o ditado diga que o amor é cego, é difícil imaginar a ausência do olhar numa conquista. Mesmo a metros de distância, os olhos correm ligeiros - podem até se esbarrar no caminho - mas seguem à velocidade da luz por entre a multidão, e são sempre os primeiros a tocar na pessoa escolhida. O que seria de Capitu, de Machado de Assis, sem seus olhos de cigana oblíqua? O que seriam das musas do poeta Vinícius de Moraes?

"O olhar é um estímulo muito importante no despertar da sexualidade", explica Clayton Melo, um dos autores da pesquisa científica realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais, A sexualidade do adolescente deficiente visual de Belo Horizonte: um novo olhar?. A pesquisa da UFMG foi o único trabalho que a reportagem localizou sobre o tema. "Fizemos um levantamento bibliográfico e não encontramos nada que tratasse da sexualidade do deficiente visual", diz Clayton. A omissão acadêmica assusta por ocorrer num país onde cerca de 16,5 milhões de pessoas convivem com algum grau de deficiência visual, o que corresponde a aproximadamente 68% dos portadores de deficiência do Brasil.

Durante o trabalho, Clayton observou que os adolescentes cegos entrevistados costumavam vincular sexo a amor, a carinho e a troca de sentimentos de forma mais intensa que os adolescentes videntes. "Talvez a percepção do sexo vinculado ao amor esteja ligada à sensibilidade aguçada, desenvolvida pela falta de visão", diz Clayton. Na pesquisa, também se destacou a importância de o deficiente visual explorar outros órgãos, não apenas como compensação, mas como uma forma de exteriorizar parte do conteúdo adormecido no subconsciente. "A falta da visão possibilita que essas pessoas percebam mais sutilezas no que ouvem, tocam ou cheiram", diz Clayton. É como se houvesse um pouco dos olhos em cada sentido. É um novo ponto de vista.

"Quando eu enxergava, fazer sexo era muito diferente. Hoje, para sentir prazer, preciso me concentrar muito mais. O toque e as palavras são fundamentais", explica Jamilton Moreira, companheiro de Conceição do Carmo, que também é cega. Na primeira vez que dormiram juntos, os dois vivenciaram uma cena muito inusitada. Tudo porque Conceição teve a santa ingenuidade de confiar demais na cegueira de Jamilton. "Eu não queria fazer sexo com ele naquele dia". Por isso, ela fez parecido com Úrsula, personagem de Gabriel García Márquez, que, em Cem anos de solidão, usava uma calça de lona fechadas com uma grossa fivela de ferro, para evitar contatos íntimos com o marido. Mas em vez de vez de radicalizar com todos esses aparatos - que, por sinal, teriam sido mais seguros - Conceição achou que estaria bem protegida ao vestir nada menos que três camisolas e três calcinhas. Depois, para garantir, se cobriu com duas toalhas e uma coberta. Mas o excesso de panos não foi empecilho. "Tirei tudo pacientemente", diz Raimundo.

Alguns anos depois da união, o casal teve uma filhinha. Na maternidade, a assistente social dificultou a entrega da menina. "Eles achavam que nós não teríamos condição de cuidar, por conta da cegueira". Hoje, passados tantos anos, os dois lembram do contratempo de mal gosto como um detalhe remoto em suas vidas. E, guardado no relicário da memória, o excesso de vestimentas nas núpcias se transformou numa piada muito divertida, uma dessas histórias de alcova que transformam os amantes em cúmplices das travessuras lúbricas. É justamente para evitar novos cúmplices que Conceição e Raimundo sempre praticam um ritual imprescindível antes do sexo: conferem o quarto com bastante cuidado, e só começam a diversão quando estão certos de que não ficou nenhum menino lá dentro.

É assim, cheio de sutilezas, curiosidades, diferenças. Se o amor de um cego é diferente, é diferente da mesma forma como são os amores de qualquer casal. Afinal, são justamente as peculiaridades que dão um brilho, um contraste e um colorido muito especial a qualquer relação. Seria muito sem graça se, independentemente dos seus personagens, o sexo fosse sempre igual.

Marcas do desejo

Se Camila pudesse mudar um só detalhe no sexo, ela gostaria de enxergar os olhos do homem por quem é apaixonada. "Queria muito ver aquele olhar de desejo, quando a gente sente que o homem está nos despindo com os olhos", explica. "Acho que não me casaria com um cego. Não é preconceito, só que eu não me sentiria desejada". Deytivan Cardoso, 24 é cego desde os 12, discorda que a falta de visão impeça a atração física: "Beleza importa sim". Ele sente quando uma mulher é atraente através da pele, do rosto, dos cabelos, do delineamento do corpo, e também pela voz. "Se eu estiver numa festa, por exemplo, o barulho me atrapalha de analisar se a mulher é sedutora".

A audição também é muito importante no relacionamento de Marina*. Afinal, ela nunca sequer encostou no seu atual namorado. Conhece-o apenas pela voz ao telefone e pelas fotos que chegam ao seu e-mail. Ou melhor, por descrições das fotos, feitas por suas amigas. "Tenho certeza que ele é bonito". A história de Marina começou com um ponto. Ela tentava mandar um e-mail para um colega, que nunca a respondia. Um dia, fez um questionamento comum quando se desconfia de e-mails extraviados: - será que havia um ponto separando o endereço eletrônico? Não custava tentar. No dia seguinte, na tela do computador, brilhava uma resposta, que ela ouviu pela voz feminina do seu micro adaptado. "Não sou quem você procura. Mas posso te conhecer melhor?" Marina respondeu falando de si, e contou que era cega.

Daí em diante, foram fotos, e-mails, ursinhos de pelúcia, roupas, perfumes preferidos, centenas de declarações de amor e correspondências. Marina era cega, mas enxergava o Rio de Janeiro pelos olhos de Maurício*. "Ele sempre me descrevia como a cidade tinha amanhecido". Com o tempo, as cartas cresceram. Cresceram também a intimidade e a duração dos telefonemas. "Às vezes, ele me liga com a voz toda manhosa e me pergunta o que eu estou fazendo". E se ela não estiver fazendo nada, ele trata logo de matar seu tempo. "Ele vai perguntando se eu não quero fazer sexo bem gostoso", diz ela, com um sorriso assanhado. "Fui no sex shop e comprei um vibrador com as mesmas medidas dele. Uso durante os telefonemas". Marina* não vê a hora de encontrar Maurício. Quer abraçá-lo, beijá-lo, e também fechar os olhos, quando for o momento preciso. "Sei que estamos distantes e que, mesmo se um dia estivermos perto, eu nunca poderei vê-lo. Mesmo assim, continuo apaixonada", diz, convicta. E de pensar que tudo começou com um ponto. Justo com um ponto, que é como terminam as frases. Mas é também com um ponto que começam todas as histórias narradas em braile.

CEGOS


Em termos médicos, cego é quem apresenta desde ausência total de visão até perda de percepção luminosa. Várias podem ser as causas da cegueira, e as mais comuns são ferimentos, vazamentos nos olhos, traumatismos, catarata e glaucoma. No período da gestação, doenças como rubéola e sífilis podem causar a deficiência visual na criança.

Anjos lúbricos
Senso comum estranha namoro entre portadores de deficiência mental e síndrome de Down

Cercado por lápis de cor e hidrocores, Carlos*, 21 anos, escreve sem parar

Os dedos gordinhos movem uma caneta Bic, que delicadamente vai deixando sua tinta azul no papel. Num esforço minucioso de evitar rasuras ou palavras borradas, os olhinhos puxados de Carlos acompanham, atentos, cada contorno traçado. "É uma carta para minha namorada". Quando a carta fica pronta, logo se vê que não é uma mensagem de amor convencional. Primeiro, porque o papel não tem desenhos de flores, corações, nem é perfumado. É um simples papel de sugestões, desses que são distribuídos nas saídas dos mercados. E as palavras da carta não seguem as regras da gramática convencional; são infinitas espirais cuidadosamente escritas. A caligrafia de Marcelo é incompreensível aos alfabetizados que não sabem ler as entrelinhas. "Aqui está escrito: Carolina* , eu te amo".

A destinatária Carolina*, 20 anos, entende cada palavra do alfabeto de espirais de Carlos. Tanto que retribui o mimo com um abraço e um beijo de língua, escondido e roubado. A falta de cerimônia e o beijo de assalto colocam um sorriso muito sem jeito na boca de Carlos* . "Beijei igual os artistas de Celebridade", diz ela, com a língua enrolada. Nada disso, foi muito mais original. Ou alguém já assistiu, em qualquer novela da Globo, a um belo beijo de um casal com síndrome de Down?

Com certeza, ninguém viu. Poucos são os que, algum dia, já imaginaram um romance - quanto mais uma cena de sexo - entre um casal com síndrome de Down. Filmes como O oitavo dia, que sugere uma relação sexual entre um casal com a síndrome, são uma raridade. Com seus inconfundíveis olhinhos puxados, pescoços roliços e modos afáveis, os portadores da síndrome parecem estar condenados à eterna fama de coitados, fofinhos, bonzinhos - doces anjinhos. E como os anjos não têm sexo, muitos acabam obrigados a viver justamente o lado infernal do paraíso: uma vida bem comportada e casta. O mesmo acontece com as demais pessoas tidas como deficientes mentais.

Valmar dos Santos, 22 anos, e Carla Dias, 21 anos, têm o olhar distraído e o pensamento distante, o que é típico nos apaixonados. Os dois se conheceram na Apae, e, há cerca de cinco meses, começaram o romance. Mas, por enquanto, só têm permissão para namorar nos estreitos limites do portão e da laje da casa de Carla. E mesmo assim, o casal está sempre acompanhado de uma espécie de "platéia de bolso": os primos de Carla - com idades de 11, 6 e 3 anos - são os responsáveis pelo patrulhamento do namoro. "Eles ficam seguindo a gente. E se virem a gente se beijando, reclamam. São tipo uns seguranças", define Valmar.

Namoro no portão

Silvio* , 26 anos, namora há dois anos com uma colega da Sociedade Pestalozzi. Ele aprendeu que namoro, só do portão do colégio para fora. E mesmo assim, nada que vá além dos beijinhos e abraços. "A pró ensinou que não podia fazer `aquilo`. Antes de fazer `aquilo`, tem que ter trabalho, dinheiro...", diz ele, com a fala arrastada. Enquanto não tem trabalho nem dinheiro, Silvio realiza programas mais familiares junto com a namorada. "No domingo, vou para a casa dela e a gente assiste ao Didi junto dos pais dela".

Pelo diagnóstico médico, tanto Silvio* como Valmar e Carla possuem deficiência mental, mas não têm síndrome de Down. Eles não trazem, estampados no rosto, todos os traços do estigma. "Na síndrome de Down, a condição genética interfere nas feições", diz a geneticista Lília Moreira. Por conta da aparência, a rejeição amorosa tende a ser maior nos portadores da síndrome. "Eles acabam namorando mais com outras pessoas de SD, e muito raramente se desvinculam de suas famílias", diz Moreira. Já os deficientes mentais sem síndrome estão um pouco mais livres da máscara da segregação, e criam mecanismos próprios para se proteger de uma sociedade que deforma as diferenças. "Eu não digo que sou deficiente. Nunca mostrei minha carteira de passe livre ao meu ex-marido", conta Gildete Conceição, separada e mãe de um filho. Daniele Conceição, 22 anos, casada, também já teve vergonha de si mesma, mas hoje, ela arrebata com uma lógica óbvia e genial: "Descobri que ninguém é perfeito".

Silvana*, 42 anos, aluna da Sociedade Pestalozzi, vibra quando encontra uma criança no seu caminho. Logo abraça, beija e faz a maior festa. "Fico doida quando vejo um menino". Mesmo tão apaixonada por crianças, ela não pretende ter filhos. Prefere se contentar com algumas migalhas de maternidade, curtindo os meninos pequenos dos seus parentes e amigos. Por alguns instantes, diverte-se com os bebês dos outros, com o mesmo sentimento de uma criança que toma emprestado o brinquedo caro do vizinho. Silvana já se conformou, ter filhos é um sonho impossível; ela não nasceu para isso. "Imagine, eu ter um filho, com esse problema na cabeça. Como ia nascer essa criança?".

O namorado de Silvana é um jovem de 21 anos, seu colega de escola. Atualmente, eles aboliram o ato de fazer os meninos. "Eu parei de fazer "aquele negócio". Minha irmã diz que é pecado fazer sem casar". Então sexo nunca mais, porque Silvana também teve que tirar o casamento do seu rol de sonhos. "Não posso casar, porque senão deixo de ganhar a pensão de minha mãe".

Diversão proibida

Para muitos deficientes, o casamento é somente um sonho distante, e o sexo, uma diversão proibida. Várias famílias impedem os relacionamentos. As justificativas costumam ser as mesmas: os pais têm receio de que seus filhos não estejam preparados para um envolvimento afetivo, e temem demais a gravidez; se vêem cuidando dos netos, e sentem muito medo de um novo caso de deficiência na família.

Quando o homem e a mulher possuem deficiência mental leve, a chance de uma criança nascer com o mesmo quadro é de 42%. Se a mulher for portadora de síndrome de Down, existe 50% de chance de o filho também apresentar a síndrome. Ao contrário de muitos deficientes mentais, os portadores de síndrome de Down apresentam uma diminuição de fertilidade. As mulheres têm sua fertilidade diminuída em 50%, e os homens, na maioria das vezes, são estéreis.

Mesmo assim, muitos pais preferem não arriscar. "Uma mãe queria comprar uma boneca inflável para o filho. Ela achava que a aquisição resolveria todos os seus problemas", conta a psicóloga Zilda Maria Soares, que na época, cuidava do rapaz de 27 anos, portador de síndrome de Down. Zilda convenceu a mãe a desistir da compra. Mas a boneca foi substituída por um equipamento mais macabro. A mãe comprou um ursinho de pelúcia e, com uma tesoura, fez um buraco. Nem precisa dizer que o ursinho não servia apenas para o menino dormir abraçado.

A cena é chocante. Fica difícil dizer onde está a doença: se na cabeça do deficiente, ou nos pensamentos turvos de quem é tido como normal. Não se trata de culpar os pais, parentes e amigos. Afinal, o problema é muito maior: o país inteiro ainda não tem mentalidade para conviver com a deficiência mental. É bem verdade algumas associações especiais, como a Apae e a Sociedade Pestalozzi, já procuram oferecer oficinas de educação sexual. Também não há como negar que, por conta das dificuldades de aprendizado, os deficientes podem até se atrapalhar na utilização da camisinha, por exemplo. Mas na maior parte das vezes, todas as incapacidades são apenas projeção; existem somente na imaginação das mentes sãs.

Para vários estudiosos, a sexualidade dos portadores de deficiência mental não é diferente das outras pessoas. Mas a proteção excessiva dos pais tende a atrasar, interferir ou mesmo impedir a vivência sexual. "Os jovens até podem vir a namorar, mas não deixam de morar com suas famílias", explica a geneticista e professora da Ufba Lília Moreira. Em trabalho intitulado Aspectos genéticos e sociais da sexualidade em pessoas com síndrome de Down, Lília cita um estudo segundo o qual 50% dos pais de jovens com síndrome de Down acreditam que seus filhos deveriam ser esterilizados, ou, pelo menos, passar por algum controle de natalidade. Em outro estudo citado, os pais de portadores de deficiência mental enxergam seus filhos como "sexualmente infantis", com atitudes assexuadas ou essencialmente fundadas na afetividade. Já alguns educadores visualizaram o deficiente mental como "exibicionista" ou sem afetividade.

Há muito de preconceito e desinformação em tudo isso. Como o deficiente mental não absorve, com a mesma facilidade, as convenções sociais - e pode vir a se masturbar em público, por exemplo - as pessoas tendem a achar que a deficiência está relacionada a exibicionismo e a uma exacerbação da sexualidade. Em sentido inverso, há também uma crença de que os deficientes mentais são assexuados ou impotentes. Essa falsa impressão ocorre porque a sexualidade desses jovens demora um pouco mais de aflorar - a depender do comprometimento mental, eles começam a despertar para o sexo a partir dos 23 ou 24 anos. Além disso, num casal de deficientes, a relação sexual tende a acontecer mais tarde que num casal convencional. "Às vezes, pode demorar de quatro a cinco anos", explica o psiquiatra José Belisário, autor do livro Inclusão - uma revolução na saúde.

Toda assanhada, Carolina* ressalta o ponto máximo da sua libidinagem: "A gente beija muuuuuiiitttoooo", diz. Sua paquera com Carlos começou com umas caronas inocentes, já que os dois moravam próximos, e eram colegas na Apae. Depois, o destino quis que eles estudassem em turnos opostos. Mas mesmo assim, a paixão continuou, alimentada pela troca de cartas com caligrafia em espiral, e intermediadas pela professora. Hoje, Carolina e Carlos voltaram a estudar no mesmo horário, e vivem cheios de planos. "Eu vou ganhar uma aliança que ele vai comprar".

Por enquanto, o casamento ainda não tem data marcada. Ah, mas se esse dia chegar! Logo que ela aparecer na porta da igreja, os olhinhos puxados vão se cruzar. Ele, no altar, de fraque. E ela, andando em sua direção, com um vestido todo branco. Um longo beijo, a troca de alianças e a chuva e arroz vão selar a união do casal. Será uma celebração sem precedentes, uma festa incomparavelmente mais bonita que qualquer casamento global.



Caminhos do corpo
Deficientes físicos descobrem novas formas de conseguir prazer no sexo

Quando Antônio Jorge Alves perdeu o movimento das pernas, lhe doeu muito saber que precisaria usar um outro tipo de cadeira, diferente de todas nas quais ele já havia se sentado

"Quando me deram a cadeira de rodas, eu disse que não ia querer", lembra. Mas tão difícil quanto usar cadeira de rodas foi trocar o modelo da sua cama. Logo depois do acidente, a esposa de Antônio tratou de vender o leito de casal em que os dois se deitavam. "Esse gesto foi a maior decepção de quando eu fiquei deficiente", diz, com um tom magoado.

A situação enfrentada por Antônio Jorge Alves é a imagem precisa para definir as dores que a deficiência física pode causar. Afinal, há lesões muito mais graves de que aquelas que tiram o movimento das pernas, braços, ou mesmo de todo o pescoço para baixo. Se não receber apoio da família e não encontrar força psicológica para superar o problema, o deficiente pode ficar mutilado em sua estima, e se sentir incapaz para várias realizações, inclusive para amar.

"No amor, o deficiente precisa aprender a valorizar outras sensações", explica o psicólogo Adriano Baratta, que atuou no Sarah. Além de estudioso do tema, Adriano viveu na própria pele essa realidade. Foi tudo muito rápido. Um mergulho de cabeça, uma forte pancada, o sangue misturado com a água. A medula se comprimiu, e Adriano ficou tetraplégico. Ele ganhou um novo corpo, e a cadeira de rodas virou companheira constante. Foi preciso recomeçar. "Quando retomei a vida sexual, tive a mesma sensação e insegurança de minha primeira vez", lembra. "O sexo mudou. A mulher passou a assumir um papel mais ativo na relação".

A sexualidade do deficiente físico é muito mais complexa do que se pode imaginar. Assim como ocorre com todas as pessoas, não dá para dizer que os corpos reagem de forma igual aos estímulos da carne. Tudo depende de inúmeros fatores, como altura da lesão na medula, gravidade da fratura, capacidade psicológica para enfrentar o problema, e qualidade no processo de reabilitação. "Nem todas as pessoas chegam a ter comprometimento da função sexual após a lesão", explica o urologista Márcio Josbete Prado.

Lógica complexa

Apesar do incidente da cama de casal, Antônio Jorge não deixou de ter um leito grande o suficiente para caber outras necessidades que não o sono. Em 1994, ele se separou da mulher e hoje, com uma certa freqüência, troca de namoradas. Mas, como sua cama, o sexo ficou pela metade. Ou melhor: assim como sua cama, o sexo mudou de formato. "Eu consigo manter ereção, mas não ejaculo nem sinto prazer. Atualmente, meu prazer maior é satisfazer minha parceira".

Até hoje, Antônio tem, guardada nas costas, uma bala de revólver, triste lembrança daquele assalto. Foi tudo muito rápido, sempre é rápido. De repente, o pequeno pedaço de metal quente atravessou seu corpo, e ele caiu por cima das próprias pernas. "Foi horrível. Não sei porque, me senti como uma câmara de ar". O tiro atingiu a coluna, e a medula ficou lesionada. A lesão impediu a comunicação entre os membros inferiores e o cérebro, e por isso Antônio deixou de movimentar as pernas. Mas, se é assim, como se explica o fato de ele ter ereção?

"Na ereção reflexa, não é preciso a comunicação com o cérebro", diz Josbete Prado. O problema é que, muitas vezes, as ereções reflexas não são suficientes para o estabelecimento de uma relação sexual. "Às vezes, esse tipo de ereção dura pouco e não tem a rigidez necessária", completa Prado. Mas para isso, existem vários santos remédios, como alguns não deficientes bem sabem. Viagra, papaverina, e mesmo a utilização de um anel que funciona como um garrote, mantendo o sangue dentro do pênis. Há também a possibilidade de colocação de prótese, feita com um fio de platina dentro de um tubo de silicone.

Há ainda muitos outros tratamentos. Quase todos têm suas contra-indicações e possíveis efeitos colaterais, e precisam de recomendação médica. Além do mais, "nada disso promove a ejaculação nem o prazer", explica Prado. Adriano Barata completa: "Enquanto a pessoa acreditar que a sexualidade se limita apenas à genitalidade, será muito difícil descobrir novas formas de sentir o sexo".

Novas possibilidades

Depois que ficou paraplégico, Sandro Mota, 28 anos, passou a se preocupar muito mais com as preliminares. "Com Sandro, eu aprendi que sexo não é apenas penetração", diz Rafaela Cunha, 23 anos, sua namorada. Sandro e Rafaela se conheceram na faculdade. Quando, pela primeira vez, ele a convidou para sair, Rafaela ficou mentalizando como Sandro iria lhe buscar. "Fiquei imaginando se alguém teria que ir junto com a gente, dirigindo o carro". Para a sua surpresa, ele chegou sozinho, comandando um automóvel adaptado. No dia que fizeram sexo pela primeira vez, Rafaela também ficou um pouco preocupada. "Não sabia direito como eu devia agir, tem toda a questão das sondas. Mas ele foi natural, e não me deixou nem um pouco constrangida".

Sandro teve que aprender muita coisa sozinho depois do acidente. Logo no início, ele não ejaculava. "Já tinha me acostumado com a situação. Até que um dia, aconteceu", lembra. "Fiquei muito feliz, porque o médico me disse que eu poderia ter filhos". A possibilidade de ter filhos é outra preocupação muito comum entre os deficientes físicos. Prado explica que até mesmo o deficiente que não consegue ejacular pode vir a ter filhos, desde que a zona da medula responsável pelo reflexo da ejaculação não tenha sido lesionada. "É preciso que se induza o reflexo da ejaculação", explica. Isso pode ser feito com o estímulo de um vibrador que atinja a freqüência de 60Hz.

No caso das mulheres, a deficiência física não as faz perder a fertilidade - pode acontecer a dificuldade de manter a gravidez. Em termos fisiológicos, outra conseqüência é a perda da lubrificação - e esse problema pode ser resolvido com o uso de lubrificantes externos. E, se a lesão for total, a capacidade de alcançar o orgasmo acaba. Mas prazer é algo que pode ser reinventado - e, nas mulheres, isso é mais fácil. Afinal, culturalmente, o sexo feminino aprendeu a dar mais importância a outros aspectos que vão muito além da simples penetração.

Tesouro escondido

Mesmo depois do fatídico acidente de carro, Mara Gabrilli continua experimentando subidas bem íngremes, com emoções de montanha russa. "Eu não sinto aquela descida do prazer". Faz pouco tempo que Mara descobriu que essa subida incessante, sem um ponto final, era sua nova sensação de orgasmo. "Um dia percebi, é isso!", diverte-se. Todo dia, Mara aprende alguma coisa com seu corpo. Desde que ela sofreu o acidente, passou a ver o sexo por outros ângulos, literalmente. "Da primeira vez foi estranho. Via muito o teto do quarto!". Querendo alcançar um céu bem mais alto que o telhado, Mara se esforçou para desvendar os segredos do seu corpo, como se ele fosse um complicado mapa de escondidos tesouros. Com o tempo, ela mesma foi se descobrindo. E atualmente, sempre entrega o mapa da mina aos seus namorados. "Eu levo na esportiva. Vou dizendo, passo a passo, o que ele tem que fazer, pra onde ele precisa me carregar". Às vezes, os pedidos são bem simples. "Peço um abraço".

O casal abraçado no porta-retrato da estante logo chama a atenção de quem entra no apartamento de Sulamita Prado. Na foto, os dois estão bem alegres, com o sorriso típico dos apaixonados. "Essa foto foi tirada no dia do nosso casamento", lembra Sulamita. Seria uma foto comum, se ela não estivesse com o rosto mais baixo em relação ao seu esposo. Por conta do enquadramento, o motivo da diferença de altura dos dois não é retratado. É a cadeira de rodas, que não aparece na foto.

DEFICIÊNCIA física

O nosso sistema locomotor envolve o sistema ósteo-muscular, o sistema nervoso e o sistema muscular. Por isso, doenças e lesões que afetem esses sistemas podem resultar em deficiência física, em diferentes graus. Algumas das causas mais comuns dessa deficiência são a esclerose múltipla, malformações congênitas, lesões cerebrais e lesões medulares, como é o caso das tetraplegias e paraplegias.



Delicado amor
Portadores de deficiência e transtornos mentais superam estigmas e vivenciam prazeres do sexo

Joana Virgínia não era tão louca quanto parecia

E, como todo ser humano, tinha direito ao amor. Por isso, em 1877, burlou as regras do Asilo João de Deus e engravidou dentro do manicômio. A história pode servir como metáfora de superação compulsória do preconceito enfrentado até hoje por todos aqueles vistos como anormais. O episódio envolvendo a loucura rebelde de Joana poderia ainda ser considerado um escândalo não fosse a coragem dos deficientes - físicos, visuais e mentais - de enfrentar o estigma e exercer a vida sexual.

Senhora de si
Terezinha Norberto, 67 anos, descobriu na pintura o caminho para o resgate da alegria de viver
Silvia Noronha

Terezinha: `Quando a pessoa envelhece, muda até de nome. É `aquela velha`. As pessoas, com raríssimas exceções, não têm consideração com os idosos`

ssarmento@correiodabahia.com.br

Parecia tudo certo. A filha, já crescida, estudava na faculdade e não precisava mais tanto de seus cuidados. Missão cumprida. Por que, então, aquela incômoda sensação de vazio no peito? "Eu estava estressada, sei lá, acho que fiquei deprimida. Parecia que estava faltando alguma coisa em minha vida", lembra Terezinha Marques de Moura Norberto, uma simpática senhora, hoje com 67 anos de idade. Há cerca de quatro anos, ela se deparou com um sentimento de inatividade, que atinge muita gente quando a idade vai chegando. Os dias pareciam sempre iguais, sempre cinzentos, como se a vida não tivesse nada mais para oferecer além da velhice e do esquecimento. Felizmente, Terezinha tomou uma decisão que acabou mudando um bocado sua vida. Tomou coragem e procurou o Centro de Referência Estadual à Saúde do Idoso (Creasi). A partir dali, sua vida incorporou outras cores.

"Quando encontrei a assistente social, ela me perguntou: o que a senhora quer fazer para acabar com essa tristeza? bordado? costura? artesanato? Eu disse: eu quero pintar", lembra Terezinha. Ela nunca havia pintado na vida, mas a assistente social, chamada Neide, levou a idéia a sério. Conseguiu uma vaga para Terezinha no curso livre de pintura da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), na turma da professora Bete. Lá, num ambiente tão diferente, a senhora desanimada sentiu o coração remoçar. Depois de tantos anos, voltou a fazer amigos. "É porque, quando a pessoa vai envelhecendo, os amigos vão morrendo, ou estão em casa, cuidando dos netos... Para mim, foi ótimo fazer novas amizades. Hoje, a maioria dos meus amigos é de pessoas bem mais jovens".

Moça prendada

Conversando com Terezinha hoje, é difícil imaginar que ela esteve deprimida um dia. Bonita, sempre maquiada, ela passa a imagem de uma mulher confiante e batalhadora. E ela sempre foi mesmo assim, desde a juventude, quando teve que trabalhar num banco para sustentar o pai doente. Era uma moça com educação básica sólida - estudou no tradicional Colégio Dois de Julho, dirigido por austeros americanos presbiterianos. Na escola, Terezinha estudou inglês, francês e até latim. "Eu sei até hoje as cinco declinações", garante. O gosto pelo estudo, porém, não pôde ser prosseguido num curso universitário porque ela precisava trabalhar. "Fui trabalhar no Banco de Londres porque meu pai estava doente. Lá, os ingleses não deixavam a gente fazer faculdade porque o horário de trabalho não permitia", recorda. Depois, ela foi trabalhar no Banco do Povo e, por fim, no Banco da Bahia, que pertencia a Clemente Mariani.

Lá, o trabalho de Terezinha era intenso. "Eu fazia folha de pagamento, INSS, todas aquelas contas, à mão. O gerente dizia para a gente não usar a máquina de somar para não quebrar, imagine...", conta. A saída do emprego foi traumática. "Eles me botaram para fora grávida, uma injustiça. Mas quando o gerente me disse que eu ia sair, não chorei. Saí de cabeça erguida", lembra. A partir daí, a vida de Terezinha foi cuidar da casa, da filha, do marido, anos a fio.

Desrespeito

A idade foi chegando lentamente até que, sem aviso, se instalou no rosto, nos cabelos, na alma. Terezinha sentiu na pele o preconceito, o desrespeito dos mais jovens diante dos mais velhos. "Quando a pessoa envelhece, muda até de nome. É `aquela velha`. As pessoas, com raríssimas exceções, não têm consideração com os idosos", aponta. "Duas vezes, eu briguei numa loja de departamentos por causa disso. Eu passei na frente da fila e um cliente mais jovem reclamou. Eu achei aquilo um absurdo, briguei mesmo. Eu perguntei se ele era filho de chocadeira, se ele não tinha uma mãe mais velha para respeitar".

Terezinha sabia que tinha que fazer alguma coisa para driblar a chegada da velhice. "Eu pensei em trabalhar fora de novo, mas, na minha idade, é difícil", comenta. Foi aí que o Creasi entrou. "O pessoal de lá é ótimo. Foi muito importante o apoio deles na minha vida. Acho que outras pessoas que estão passando pela mesma situação também deveriam dar um pulinho lá", recomenda. A mudança foi tão grande que Terezinha chegou a se eleger Miss Creasi. "Eu nunca tinha pensado em subir numa passarela na minha vida! De repente, lá estava eu. Brilhei na festa e ainda ganhei o prêmio do vestido mais bonito", lembra, orgulhosa. Tantas conquistas reativaram a vaidade. Terezinha Norberto, hoje, é uma especialista em receitas caseiras para a pele e os cabelos. "Ah, minha filha, eu leio e pesquiso muito sobre isso. Faço um monte de coisa, pego óleo de uva, aveia, faço uma receita para o rosto... Outro dia, eu te ensino", promete.

O orgulho estende-se aos quadros, verdadeira paixão. "A pintura virou meu almoço, meu jantar. Adoro pintar, é uma terapia para mim", conta. Ela mostra seus quadros, alguns abstratos, outros com paisagens. Os mais criativos são os quadros que ela desenha com lápis-cera sobre um bastidor, aquela armação circular geralmente usada para tecer bordados. "Ah, eu inventei isso. Não ficou bom?", pergunta.

Atualmente, Terezinha deu um tempo nos pincéis e tintas. O marido, que sofreu um derrame, precisa de cuidados. Ela está se sentindo um pouco mais triste nos últimos tempos, mas tem certeza de que vai conseguir enfrentar mais essa. Afinal, Terezinha já descobriu que a fonte da juventude, de onde brota a alegria de viver, está ali bem pertinho, dentro dela mesma.

Superando tabus
Portadores de deficiência desafiam sociedade e assumem publicamente vida sexual

Tetraplégica, a psicóloga Mara Gabrilli foi fotografada para a revista `Trip`

Mesmo que as pupilas de um cego sejam feitas de vidro, é difícil enxergar algum brilho em seus olhares. Também não se imagina um deficiente mental apaixonado, ainda que sua cabeça esteja sempre nas nuvens. E nunca se dirá que o corpo de um tetraplégico é escultural, mesmo que seja imóvel como uma estátua de mármore. No imaginário da sociedade, a cama do deficiente é sempre um lugar de repouso, leito de tratamento que uma pobre alma necessita para enfrentar seus males. Nunca é espaço de diversão, templo de impulsos lúbricos onde os lençóis desarrumados são a memória recente de que ali houve noites bem melhores.

Se sexo ainda é tabu, imagine quando ocorre entre eles. Eles, que para a ciência, são deficientes mentais, visuais, auditivos, físicos. Eles, que para os politicamente corretos, são portadores de necessidades especiais. Eles que, para o senso comum, são cegos, surdos, dementes, aleijados. Eles, que são sempre "eles", pronome na terceira pessoa que os torna ainda mais párias. Apesar de alguns avanços, a sexualidade dos deficientes ainda é pouco discutida em escolas, famílias, hospitais, na imprensa, nas pesquisas das universidades, e mesmo nas artes. Não é simples preconceito. Parece mais uma cegueira coletiva - o mundo ainda não enxerga que muitos deficientes também se apaixonam, têm desejo e podem, sim, ter vida sexual.

Quando Jurânia da Silva ficou grávida de seu marido, em vez de ouvir os tradicionais "Parabéns!" ou "É menino ou menina?" tão ditos às futuras mamães, ela escutou um outro tipo de comentário. "Quando viam a gravidez, as pessoas diziam: coitadinha, quem fez isso com você?". Vítima de uma poliomielite que atrofiou seus membros inferiores logo na infância, Jurânia tem como pernas mais ágeis duas muletas de metal. Por conta disso, ainda criança se viu negada no sexo e na humanidade. Sua mãe teve quatro filhas, mas só lembrava de três na contagem. "Ela sempre dizia: tenho três filhas mulheres e uma aleijada", lembra. Mas Jurânia nunca viu como maldade. "Sei que ela não fazia por mal. Era uma pessoa da roça, sem entendimento". Contrariando as expectativas da família, Jurânia estudou até a escola técnica, casou-se, teve dois filhos. Hoje, é apaixonada por seu marido, também deficiente. E ela garante que, quando o assunto é sexo, tudo vai muito bem, obrigada.

Mas o mundo segue a passos mais lentos que as muletas de Jurânia. É claro que já não se faz como em Esparta, cidade da guerra, onde os bebês com qualquer tipo de deficiência eram sacrificados, atirados em precipícios ou, na melhor das hipóteses, abandonados, porque supostamente não estariam preparados para a vida nem para a luta. Os esquimós também abandonaram um hábito estranho; em outros tempos, eles deixavam os ursos brancos devorar os deficientes e os velhos. O urso branco era tido como sagrado, e a população ártica acreditava que, alimentando-o com os velhos e deficientes, o animal teria uma pele de melhor qualidade.

Hoje, tanto os banquetes humanos na região ártica como os precipícios de Esparta são apenas mitos distantes e macabros. Mas persistem outras formas sutis de isolamento. "A sexualidade do deficiente ainda não é plenamente aceita na sociedade", diz Lília Moreira, geneticista e pesquisadora da Ufba. Ela explica que é mais freqüente os deficientes namorarem com pessoas também portadoras de deficiência, os quais conhecem nas escolas especiais ou nas associações comunitárias que freqüentam.

Essa foi a história de Conceição do Carmo, 45 anos, deficiente visual. Na Associação Baiana dos Cegos (ABC), Conceição conheceu seu atual companheiro, o aposentado Jamilton Moreira, 51 anos, que também é cego. "Nos aproximamos mais pela afinidade que por atração", diz Jamilton. Melhor assim, porque Conceição não é vaidosa. Ela tem lá seus motivos; ainda guarda na mente a razão pela qual passou a não gostar de maquiagem. "Quando eu colocava batom, o pessoal dizia: pra que batom, se nenhum homem vai olhar pra você?". Era como se a cegueira de Conceição contaminasse os olhos sãos de todos os homens.

Conceição é uma das 24.600.256 pessoas no país com algum grau de deficiência. Estipulado pelo IBGE, o número corresponde a cerca de 14,4% da população do Brasil. A pesquisa abrangeu desde tetraplegias até mesmo a amputação do dedo polegar. O critério mostra como é difícil definir, precisamente, o que é deficiência. Pelo Decreto 3298/99, que regulamenta a Lei 7853/99 e dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, "deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano". Mas o que é ser normal?

Pelo conceito médico, a psicóloga Mara Gabrilli é tetraplégica. Mas ela não se acha anormal só porque não movimenta o corpo do pescoço para baixo. "Claro que meu corpo é diferente, mas acho ele bonito". Em setembro de 2000, Mara foi fotografada para a revista Trip, e enfeitou várias páginas da publicação com um ensaio para lá de sensual. Tudo começou quando uma amiga, funcionária da Trip, sugeriu que Mara posasse para a capa. "No começo, achei que não ia rolar. Fiquei pensando: esse povo tá viajando!" O ensaio acabou sendo publicado com o sugestivo título Curvas perigosas, um trocadilho que fazia alusão ao acidente de carro que a deixou sem os movimentos. Ela não achou o título de mal gosto. Muito pelo contrário. "Adorei. Havia sugerido Essa mulher é uma parada!".

Ao longo da reportagem, o leitor saberá mais sobre essa e outras histórias. Histórias como a de Joana Virgínia, que causou um estardalhaço quando engravidou dentro do manicômio, em 1877; histórias anônimas e escondidas entre as cobertas de preconceito da sociedade. Nessa matéria, os surdos e mudos ficaram de fora, porque, após algumas entrevistas, pôde-se perceber que a falta de audição não interfere, de modo tão considerável, na questão da sexualidade. Vamos, então, a todos os outros enlaces. Mas antes, é preciso lembrar que, sejam quem for seus personagens, a sexualidade humana é sempre um tema complexo, fascinante, inesgotável. Vai desde um olhar malicioso até uma infinidade de fetiches, posições, fantasias e perversões. No mundo, não há assunto mais farto e apetitoso que os prazeres da carne. Que o digam os escritores Alfred de Musset, Bocage e Marquês de Sade. E também Augusto dos Anjos, que flutuou em devaneios pelos seios de virgem; Machado de Assis, que deixou um pouco de lado as ironias para descrever o sutil movimento de mãos e olhares. Que o leitor não se engane; há sexo desde o romantismo ingênuo do remoto Petrarca às cartas picantes de Jaymes Joyce a Nora Barnacle. Mas há algo universal dentre tantas possibilidades. Quando se apagam as luzes, o coração dispara, os olhos se perdem, o pensamento vai longe. Mesmo que os olhos sejam de vidro, as cabeças estejam eternamente nas nuvens e os corpos sejam imóveis como estátuas de mármore.

Tórridos romances
Vítimas de transtornos mentais burlam regras dos hospitais psiquiátricos

Regina* , 21 anos e interna do Hospital Juliano Moreira, carrega, na ponta das orelhas, do pescoço e dos lábios, a cor dos romances mais tórridos

"Uso batom, brinco, colar, tudo vermelho. Agora, estou louca por um vestido vermelho", conta. Vermelho é a cor preferida de Regina. Mas no manicômio, nenhuma boca pode encostar no vermelho dos seus colares e brincos, e nenhuma mão poderá arrancar seu futuro vestido. Lá dentro, Regina também não pode gastar o vermelho intenso e opaco que preenche seus lábios grossos.

Embora os loucos não sejam deficientes - a loucura é um transtorno mental, e não um déficit cognitivo - não se poderia deixar de falar deles, que, tão comumente, também são vistos como pessoas anormais. Seja nos manicômios ou mesmo entre a própria família, a sexualidade de quem é tido como louco costuma ser encarada com uma certa esquizofrenia e muitos equívocos. Qualquer manifestação de desejo acaba virando mais um sintoma do transtorno mental, como se a vontade de se masturbar e de fazer sexo fosse um privilégio das pessoas tidas como normais. "Quando alguém entra num Hospital Psiquiátrico, tudo vira sinal da doença. Alguns loucos são amarrados só porque estão se masturbando", diz Edna Amado, assistente social do Hospital Juliano Moreira, e representante do movimento antimanicomial.

Fantasma da gravidez

Dentro dos manicômios, o sexo costuma ser completamente proibido. "Querem que o Hospital Psiquiátrico seja um lugar onde reina a paz dos cemitérios", exaspera Edna. Então, às 21h, todo mundo tem que estar dormindo, para que não apareçam os fantasmas da gravidez nem da contaminação por doenças venéreas. A intenção de impedir a relação sexual pode até ser boa. Afinal, o transtorno mental pode mesmo causar o esquecimento do uso dos preservativos. E não há como negar que a total liberação do sexo poderia sair do controle da administração dos hospitais. Mas não seria melhor a educação sexual? Ou será que a simples proibição resolve alguma coisa?

"Conta-se a história de um casal de loucos que ficava separado por uma grade. Os dois se masturbavam um de frente para o outro, e ele passava o esperma numa folha de bananeira", diz Edna. "Eu já transei escondido", confidencia Regina*. De manhã, pelos corredores do manicômio, tudo que Regina consegue é trocar alguns beijos. Mas às vezes, no silêncio da noite, o seu namoro esquenta. "Um casal de amigos faz a barreira. Depois, a gente faz a barreira para eles".

Não é de hoje que a sexualidade dos internos enlouquece os administradores e funcionários do manicômio. Em 1877, no antigo Asilo São João de Deus, a gravidez da interna Joana Virgínia causou um verdadeiro estardalhaço na cidade. Ao menos em tese, o São João de Deus era um local onde os membros do sexo masculino nem sequer se encontravam com o sexo feminino - e se Joana estava grávida, a regra fora burlada. Para se ter uma idéia, a confusão foi tanta que a cena ficou conhecida como o "escândalo de 1877". O fato caiu na boca do povo e, no final das contas, uma enfermeira, um médico adjunto, um ajudante de enfermagem não agüentaram a pressão, e renunciaram seus cargos. O diretor do Asilo na época, Demétrio Tourinho, acabou pedindo a exoneração, profundamente magoado com o ocorrido. A história de Joana foi uma espécie de bisavó do recente dramalhão mexicano de Gloria Trevi. Uma confusão tremenda por causa de uma simples gravidez, tão inocente quanto as que acontecem todos os dias.

O episódio acima é comentado e narrado na tese A prática psiquiátrica na Bahia (1874-1947), de autoria de Ronaldo Jacobina. Na tese, ele analisa que "a sexualidade subvertia a rígida moral do asilo", e "a direção assumiu o fracasso de não ter conseguido separar adequadamente os alienados pelos sexos".

Um pouco depois, a cena tragicômica se repetiu. Em 1920, calhou de outra interna ter um filho, que nasceu no Hospício São João de Deus. Mais uma vez, o diretor do estabelecimento - à época, Barreto Praguer - pediu exoneração. Além disso, dois médicos foram demitidos. Na tese, Ronaldo Jacobina interpreta a situação: Relações sexuais no hospício, sendo a gravidez de uma doente sua prova material, continuavam a ser um acontecimento altamente explosivo nessa "instituição total".

Tempos modernos

Voltemos aos tempos modernos. De algum dos quartos do Hospital Juliano Moreira, ecoam vários gritos. É uma voz feminina. "Socorro, me ajudem!". Mas ninguém viu nada. Depois, a interna contou que havia sido abusada sexualmente por um médico, e abriu-se uma sindicância para apurar a denúncia. "O médico me disse: que absurdo! Como você dá crédito à fala de uma doente mental?", lembra Edna. No final da sindicância, ficou provado o estupro. "Descobrimos que ele tinha feito isso em outros hospitais", diz Edna. Num caso desses, quem é anormal? A quem o sexo deveria ser proibido?

"Eu não acho que sexo devia ser proibido para a gente não...", diz o interno Jair, com a fala um pouco lenta. Jair assegura que fez sexo pela primeira vez com quatro anos. Segundo a sua história, fantástica e mirabolante, ele flagrou a prima junto com o namorado, e chantageou: - Se você não fizer isso comigo, eu conto para todo mundo. Morrendo de medo do dedo-duro, a prima soltou a pérola: - Então vamos fazer neném. "Eu topei na hora".

De uma hora para outra, no meio da entrevista, Jair retira, de dentro do calção, uma Bíblia. Por entre as páginas do livro, está um papel bem amassado, todo dobradinho e emendado com durex, que ele desdobra com o maior cuidado. Há o desenho de dois corações, e a frase: "Você é como o ar que eu respiro, é como a água que eu bebo como o sal (sic) que me aquecer (sic) e como a Lua que me ilumina, por isso e muitas coisas que eu (sic) ti digo eu te amo com toda foça do meu coração". Ao ler a carta que seu amor lhe mandou, Jair fica triste, entre saudoso e apaixonado. É que ela já foi embora do manicômio. "Eu transava escondido com ela. A gente vai se casar. Eu só não liguei para ela porque não tenho cartão".

Regina também não pode telefonar para o amor de sua vida, nem tem a menor idéia de como encontrá-la. "Ela já foi para casa". Toda a paixão contida de Regina é por uma mulher que conheceu dentro do manicômio. "Eu tirei uma foto junto das flores e dei para ela. Eu amo muito ela". Sem nenhum papel fotográfico que registre a imagem de sua namorada, Regina a fotografou com a própria mente, e tem, no melhor espaço da sua cabeça, o retrato muito bem guardado. "Ela é linda. É morena, tem o cabelo castanho e cacheado". Tudo parecia perfeito. O fato de serem duas mulheres só ajudava, porque assim elas podiam ficar na mesma ala, e era um pouco menos difícil fazer amor escondido. Até que chegou o triste dia da despedida. "Eu tive que me esconder embaixo da cama, porque ela não queria ir embora". Hoje, Regina espera sua vez de receber alta do manicômio, para sair à procura da namorada. "Tenho muita saudade dela", diz, com os olhos cheios de lágrimas. Regina sempre trata sua namorada como "ela". Mas qual é o nome dela? Pensativa, a interna pede a ajuda a um amigo. "Como é o nome dela, que eu me esqueci? Eu não consigo me lembrar!", diz, nervosa. Mas o nome é o que menos importa. Se um dia Regina se encontrar com ela, "ela" deixará de ser um pronome na terceira pessoa do singular. As duas serão "elas", no plural. Mais felizes e menos párias.

loucura


Loucura não é deficiência, porque não se trata de déficit cognitivo, mas sim transtorno mental. Pelo conceito psiquiátrico, a loucura é a expressão não técnica que define a psicose. Nesse transtorno, que, apesar de muitos estudos, não se sabe exatamente qual a causa, o indivíduo pode enxergar uma outra realidade, diferente da compartilhada pelo resto da sociedade. Existem vários tipos de psicose, e a espécie mais comum é a esquizofrenia, que atinge cerca de 2% da população mundial. A depender do caso, o indivíduo esquizofrênico pode ver imagens que os outros não vêem, pode sentir cheiros que ninguém sente, e escutar sons inaudíveis aos ouvidos comuns.



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