Amor com Hora Marcada Contract for marriage



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Amor com Hora Marcada

Contract for marriage

Megan Alexander

Super Bianca 06



Se Mark a elogiava, Christy achava que era por delicadeza. Se lhe trazia um presente, imaginava que era por educação. Mas quando a noite caía,e eles estavam sozinhos em seu quarto, ela esquecia todos esses pensamentos para se envolver com os carinhos selvagens de Mark e se perder nos loucos caminhos da paixão! Mark era tudo o que ela queria de um homem. No entanto, sabia que seu casamento com ele estava no fim, por causa de um estranho contrato que haviam feito e pelo qual se comprometiam a ter um filho e depois se separar. O filho já estava a caminho, então, que saída restava a Christy?

Doação: Valeria

Digitalização: Joyce

Revisão: Alice Akeru



194 páginas

Título original: "Contract for marriage"

Copyright: © by Megan Alexander

Publicado originalmente em 1982 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá

Tradução: D. T. Chiarelli

Copyright para a língua portuguesa: 1983

Abril S.A. Cultural e Industrial — São Paulo

Composto e impresso em oficinas próprias

CAPÍTULO I

Uma brisa fria despenteou os cabelos vermelhos de Christy, enquanto ela observava o edifício Douglas, de aço e vidro, refletindo o sol pálido de dezembro. Christy olhou o relógio: onze horas. Ainda faltava meia hora para a entrevista com Mark Brandon, que trabalhava em algum lugar do décimo andar, daquele importante escritório de Los Angeles. O pânico começou a dominá-la.

Talvez uma xícara de café a acalmasse. Precisava estar com a cabeça fria durante aquele encontro. Foi até o bar no térreo, achou uma mesa e fez o pedido. A garçonete a serviu imediatamente. O bar estava cheio. De repente, os rostos dos fregueses pareceram ficar enormes: irritados, aborrecidos, fitando-a como se soubessem exatamente o que ela pretendia fazer; depois voltaram ao normal, sendo apenas manchas e contornos anônimos como num desenho a carvão.

Não posso fazer isso, pensou Christy. Não tenho coragem. Entretanto, havia passado a semana inteira se convencendo de que era capaz de procurar um homem, que mal conhecera uma semana antes, e fazer-lhe um pedido íntimo e pessoal. Até aquele momento tinha se impedido de imaginar qual seria a reação de Mark, mas desconfiava que um plano daqueles provocaria um grande choque até mesmo no controlado sr. Brandon.

Agora, a apreensão estava esfriando suas bravas intenções. Não que as qualidades de Mark não fossem as melhores. Ele tinha charme e inteligência para dar e vender, como percebeu logo ao conhecê-lo numa festinha na casa de tia Martha, na noite do último sábado. Além disso, seus cabelos vermelhos eram um item decisivo! Na verdade, esse detalhe é que reforçou seu grande plano.

Depois, quando ficou sabendo que a transferência de Mark para o escritório do Texas estava em andamento, tomou a decisão de se aproximar dele. Um homem que prometia sumir de sua vista era um candidato irresistível.

Mais uma vez Christy pensou, perplexa, como um único momento poderia dar uma direção totalmente nova à sua vida. Se conseguisse o que queria naquela manhã, talvez o seu longo pesadelo terminasse.

Terminou de tomar a segunda xícara de café e olhou para as pessoas à sua volta. Ali estava o mundo de verdade, pensou. Pois durante a última semana tinha vivido afogada em fantasias.

Não vá adiante com essa ideia maluca, ela se aconselhou de repente. Procure um telefone. Cancele o encontro.

Um coro de crianças cantando Alegria para o Mundo trouxe-lhe uma sensação de bem-estar logo substituída por lembranças de choro desesperado. Com dolorosa lucidez, Christy compreendeu que não podia desistir. Levantou-se da mesa, pagou a conta e saiu do bar em direção aos elevadores.

Mark levantou quando a secretária abriu a porta do escritório para ela.

— Olá, Christy, que surpresa agradável! — Deu um sorriso de boas-vindas, enquanto puxava uma cadeira para ela.

O jeito dele ajudou a diminuir a ansiedade de Christy. Ele não era muito expansivo, mas sua calma a envolveu. Christy precisava daquele clima.

A importância da Douglas Enterprises se refletia no escritório espaçoso: grosso carpete pegando a sala de ponta a ponta, paredes revestidas de nogueira, belos quadros, uma vista maravilhosa da cidade.

A secretária se retirou, fechou a porta e Christy sentou-se na cadeira que Mark indicou. O coração balia descompassadamente e ela não conseguia controlar o tremor na voz.

— Mark... — começou e sentiu a bolsa escorregar do seu colo. Corou por ser tão desajeitada.

— A garota que tem o rubor da safra Cabernet — disse ele, erguendo as sobrancelhas.

Claro que ele se releria ao episódio desconcertante da festa de tia Martha! Christy levantou a cabeça e encarou-o.

— Minha tontura daquela noite não era por causa do vinho.

— Não? Bem, eu até desconfiei que você precisava de mais do que alguns copos de vinho.

— Não foi o vinho mesmo. Eu estava elaborando melhor uma ideia que tinha acabado de me ocorrer e acho que fiquei tão envolvida que acabei me distraindo.

— Oh. Sim? — Mark ficou mais sério e cruzou os braços sobre a escrivaninha para observá-la de um angulo melhor.

— Para ser sincera, é por isso que estou aqui. Sei que o que vou dizer vai parecer muito estranho, mas, oh, Mark, seja lá o que for que você pensar, por favor, tente compreender.

— Diga. — O olhar de Mark Brandon brilhou com algo próximo à desconfiança.

— Imagino que você esteja por dentro dos acontecimentos que envolveram o acidente que matou o meu sobrinho, não?

— Sua tia me contou.

— Imagino que não deve ter contado tudo. Sabe, eu sou responsável pela morte do pequeno Davy!

— Meu Deus! — Mark arregalou os olhos. — Quer me explicar isso, por favor?

Mais uma vez, Christy relembrou os amargos detalhes que perseguiam todos os minutos dos seus dias. Quando terminou, Mark estava sério.

— Isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa — ele comentou.

— Não — ela respondeu com firmeza. — Já recordei tudo o que aconteceu inúmeras vezes e nada muda o fato de que eu não tinha o direito de desafiar a autoridade de minha irmã sobre o filho dela. Se não tivesse insistido, hoje seu filhinho estaria vivo e ela não estaria arrasada física e emocionalmente. O pior é que ela não pode ter mais filhos e terá que esperar anos para poder adotar uma criança. — Christy apertou os braços da cadeira, nervosa, e prosseguiu: — Quero ter uma criança para ela, Mark, um bebê de cabelos vermelhos, que seja o mais parecido possível com Davy e... — Hesitou, incapaz de sustentar o olhar dele por mais tempo.

Mark inclinou-se para frente, subitamente tenso.

— E... ? — ele repetiu.

Christy apertou a cadeira com tanta força que seus braços doeram até os ombros.

— O que estou tentando dizer é... é que a semelhança com a família... seu cabelo ruivo...

— Bem, estou ficando louco ou você quer que eu seja o pai?

Seis meses antes uma ideia destas nunca teria passado pela cabeça de Christy, mas a vida era muito diferente naquela época.

Aos vinte e três anos, ela acabara de se formar com louvor na Juilliard e fora contratada como professora de piano no City College. Algumas semanas depois da formatura, pôde afinal comprar seu piano Steinway à prestação e no mesmo dia em que o instrumento foi entregue, chegou o convite da irmã. Lembrava-se perfeitamente daquele dia. Passou a tarde toda na janela, esperando o caminhão que traria o piano.

Finalmente chegou. Christy colocou-o num lugar de honra em seu pequeno apartamento de Nova York, depois sentou-se e correu os dedos pelo teclado para saborear o som do primeiro instrumento que possuía. Ensaiou uma música, suave, achando o piano perfeito. De repente, o telefone tocou e Christy foi atendê-lo.

— Beth! — gritou ela, reconhecendo a voz da irmã do outro lado da linha.

— Alô, Christy? Como vai, querida?

Beth vivia com o marido, Richard, e o filhinho de dois anos em San Fernando Valley. na Califórnia. Tinham planejado ir até Nova York para a formatura de Christy, mas Beth teve que se submeter a uma operação inesperada, que impediu a viagem na última hora.

— Como está se sentindo? — quis saber Christy.

— Bom, pelo menos estou viva.

— "Pelo menos"? Como assim, Beth?

— Descobriram na operação que eu estava com um tumor maligno.

Um tumor maligno! Então não tinha sido uma operação qualquer!

— Meu Deus, Beth! Mas por que não me contou antes?

— Não se preocupe. O tumor foi descoberto a tempo e já foi estirpado... pelo menos foi o que o médico disse. — Houve uma longa pausa antes que Beth voltasse a falar: — Christy, não poderei ter mais filhos...

Christy sentiu pelo tom de voz da irmã o quanto aquilo devia magoá-la. Beth adorava crianças e, pouco tempo após o nascimento de seu primeiro filho, já tinha começado a pensar no próximo.

— Oh, Beth, querida, não fique triste. Agradeça a Deus por ter lhe dado Davy!

— É o que eu faço a todo instante, Christy. Mas não foi por causa disso que liguei. Resolvemos mandar-lhe uma passagem de avião para vir nos ver, como presente de formatura. O que acha?

— Beth! Que maravilha'

Christy não via a irmã desde o aniversario do sobrinho. O curso que estava fazendo, mais as aulas particulares que dava, não permitiam que ela fizesse longas viagens. Além do mais, raramente sobrava dinheiro para andar de avião. Christy vivia de uma pequena herança e das aulas.

Ela adorava a irmã que, além de tia Martha, era sua única parente. Seus pais morreram num acidente de avião quando eram ainda muito crianças. Ainda se lembrava dos anos tristes que passou com a irmã no colégio interno. Lembrava-se dos odores dos quartos sempre fechados das alunas, da comida sem graça do refeitório e da monotonia das aulas de piano nas tardes quentes de julho.

Christy e Beth não eram muito parecidas, exceto pelos cabelos ruivos. As pessoas sempre diziam que Beth era a mais bonita das duas. Talvez pelo ar de garotinha tímida, que parecia estar sempre necessitando de proteção. Christy, ao contrário, tinha um queixo quadrado, o nariz arrebitado e olhos muito vivos que lhe davam um ar de determinação que intimidava um pouco.

Depois de meses se preparando arduamente para o recital de formatura, os dias que passou ao lado de Richard e Beth pareciam um sonho delicioso. Visitava frequentemente o campus da faculdade onde Richard era professor de biologia, e fazia compras com a querida tia Martha.

Porém um fato começou a preocupar Christy, desde o primeiro dia que chegou na casa da irmã: Beth mostrava uma tendência obsessiva de superproteger o filho. Talvez por ainda não ter se recuperado da frustração de que não poderia ter outros filhos. Mesmo assim, Christy achava que aquilo não era bom para o pequeno Davy.

Certa noite, tinham planejado ir a um concerto na universidade, mas, no último minuto, Beth resolveu não deixar Davy com a baby sitter que Richard tinha contratado. Os dois tiveram uma discussão um tanto violenta, mas Beth não cedeu: disse que só deixaria Davy com tia Martha, que já estava acostumada ficar com ele. Richard tentava argumentar que a garota que ele tinha arranjado era da vizinhança, e responsável o suficiente para tomar conta de Davy.

Mais tarde, quando Beth saiu da sala para colocar Davy na cama, Richard discutiu o problema com Christy.

— Entendo perfeitamente que Beth está passando por uma crise muito séria, mas acho que já está indo longe demais! — Richard falava com calma, mas Christy notou em seus olhos que ele estava realmente preocupado.

Nos dias que se seguiram, Beth passou a não levar Davy para a escolinha que frequentava.

— Está tendo uma onda terrível de catapora na cidade — explicou a Christy.

— Você ficou sabendo que algum coleguinha de Davy pegou catapora?

— Bem, não exatamente. Mas é claro que uma escolinha é o lugar ideal para se pegar uma doença dessas — Beth respondeu, evitando encarar a irmã.

— Acho que você está certa de querer protegê-lo, Beth, mas não pense que vai conseguir impedir que ele tenha as doenças típicas da infância.

— Não é isso, Christy, querida. Eu também estou pensando que você ficará aqui por pouco tempo. É bom que Davy fique com a tia, não é mesmo?

E, na verdade, Christy adorava ficar com o pequeno Davy, que mais parecia um anjo com aquelas bochechas vermelhas, os cabelos ruivos e um sorriso contagiante.

— Davy parece aquelas crianças de quadros antigos — comentou Christy certa vez.

— Sim, ele é lindo! — Beth concordou e em seus olhos havia uma grande tristeza, como se não esquecesse nem por um minuto que não poderia ter mais filhos como aquele.

Os dias passaram sem grandes novidades até quase o final da visita de Christy. Um dia, Beth e Richard foram convidados para um coquetel no final da tarde, em homenagem a um professor. Depois, jantariam todos com tia Martha, que morava num bairro próximo. Christy e Davy deveriam ir para a casa dela mais tarde, no carro de Beth.

Porém,quando Beth e Richard iam sair, começou a chover. Beth tirou imediatamente o casaco.

— Ficarei com Davy — disse ela. — Ele não pode sair com esta chuva. Telefonarei para tia Martha para dizer que não vamos.

Chris olhou surpresa para a irmã. Richard argumentou que aquela era uma chuva de verão que passaria logo. A discussão começou a ficar mais pesada, até que Christy falou:

— Por favor, Beth, não fique assim tão preocupada. Eu agasalharei Davy direitinho, pode ter certeza. Acho uma pena desapontar tia Martha. Você bem sabe o quanto ela adora esses jantares em família.

— Tenho medo que Davy apanhe um resfriado — Beth insistiu.

— Criança fica doente com qualquer ventinho.

— Não seja paranóica, Beth. Do jeito que você anda se comportando, vai acabar se transformando naquelas mães superprotetoras sobre as quais nós já comentamos tanto!

Beth olhou para Davy, depois voltou a encarar Christy seriamente.

— Talvez não tenha problema nenhum Davy sair, se estiver bem agasalhado. Mas acho que você não devia me acusar, só porque me preocupo com a saúde do meu filho. Afinal, ele é e será sempre o meu único filho. Para falar a verdade, acho que vou seguir meu instinto de mãe: ficarei com Davy!

Davy olhava para os adultos sem saber o que fazer. Seus olhinhos inocentes pareciam pedir em silêncio para que o deixassem ir passear, mesmo com chuva.

— Não seja teimosa. Beth, querida. Vá ao coquetel com Richard — Christy disse com calma. — A chuva vai passar daqui a cinco minutos, você vai ver. E, além do mais, você sabe que eu tomarei conta de Davy direitinho, não é?

Richard olhou para Christy e lhe deu um sorriso de gratidão, antes de correr para apanhar o carro. Beth ficou em silêncio, pensativamente distante, com aquele mesmo ar que fazia quando eram crianças, depois que Christy ganhava uma discussão. Ela não disse mais nada, apenas beijou o filho e saiu para esperar Richard com o carro.

Mais tarde, Christy embrulhou Davy numa capa de chuva e correu com ele para o carro de Beth. A chuva continuava. Guiou pelas ruas do bairro até chegar à avenida principal.

Davy parecia muito feliz com aquela aventura de sair com a tia em plena chuva. Olhava a avenida com interesse, e Christy mais do que nunca o achou parecido com um anjo.

A chuva ficou mais forte, impedindo a visibilidade. Christy diminuiu a marcha, tomando o máximo cuidado com o tráfego. Parou no sinal e aproveitou para limpar o vidro da frente com uma flanela. O sinal ficou verde e ela imediatamente deu a partida. De repente ouviu um barulho de freio e então viu que um imenso caminhão desgovernado ia se chocar com eles.

Um terror imenso se apossou do coração de Christy. Ainda sentiu o carro rodopiar como um brinquedinho e ouviu o barulho dos vidros espatifando, mas depois não viu mais nada...

CAPÍTULO II

Num dia quente de setembro, quase um mês mais tarde, Richard e Beth foram buscar Christy no hospital. As contusões que havia sofrido já tinham sarado, mas teria que ficar mais um mês em observação por causa da fratura na bacia. A tristeza que tomava conta do coração de Christy contrastava fortemente com as cores douradas do outono que dominavam a rua tranquila onde sua irmã morava. Era estranho que tudo continuasse a existir como antes...

Richard e Beth a tinham visitado bastante no hospital e embora estivessem sempre muito tristes, Christy nunca notou nenhum sinal de ressentimento nos olhos deles. Tia Martha, que ia diariamente, tentava transmitir um bom humor e uma tranquilidade que absolutamente não sentia.

Nas semanas seguintes à saída de Christy do hospital, todos pareciam viver como sonâmbulos. Christy passava o tempo inteiro acabrunhada e tensa. Seus ombros doíam muito e sentia uma dor de cabeça contínua, que não passava.

Triste, observava Richard mergulhar cada vez mais no trabalho. Ele se ofereceu para dar aulas extras no período noturno e nos fins de semana fazia pesquisas de campo. Todo esse acúmulo de trabalho tinha um objetivo óbvio: passar o mínimo de tempo em casa.

Beth, por sua vez, parecia ter mergulhado num mundo de silêncio, onde só cabiam a tristeza e a solidão.

Christy sentia-se culpada por aquela situação horrível que estavam vivendo. Um remorso profundo tomava conta de seu coração, impedindo que conseguisse um momento de paz. Se não tivesse sido teimosa, Davy estaria vivo, agora!

Era com pesar que se lembrava da hora em que voltou a si no hospital. Uma forma estranha parecia flutuar no quarto, curvada em sua direção.

— Está melhor? — perguntou a sombra que pouco a pouco foi se transformando numa enfermeira vestida de branco.

— Não sei — ela respondeu. — Onde estou? Num hospital? — Sua língua parecia presa. Não se lembrava de nada.

— Sim — a mulher respondeu, balançando a cabeça.

— Faz muito tempo que estou aqui?

— Uns cinco dias, mais ou menos.

Cinco dias! Cinco dias de sua vida que se passaram sem que percebesse!

— Qual é o meu problema? Por que estou aqui?

— Você sofreu uma série de contusões e fraturou a bacia. Seu médico virá visitá-la daqui a pouco.

O sorriso da mulher era tão frio quanto o pequeno quarto branco e apertado. Foi com alívio que Christy a viu sair.

Contusões. Estranho ter sofrido contusões e fraturado a bacia. De repente, um tremor imenso tomou conta de seu corpo e ela ouviu novamente o barulho dos vidros se espatifando, o estrondo da lateral do automóvel...

— Davy! — ela gritou no quarto do hospital. Finalmente tinha se lembrado de tudo! Onde estaria Davy, naquele momento? Seu sobrinho adorado estava sentado na cadeirinha a seu lado, no automóvel! Onde estaria ele, agora? Christy tentou se levantar desesperada, mas percebeu que parte de seu corpo estava engessada.

— Davy! — gritou novamente, à beira da histeria.

Uma enfermeira entrou apressada no quarto e fez com que Christy voltasse a se recostar nos travesseiros. Um homem alto apareceu logo atrás dela.

— Sou o dr. Hill, srta. Steele — disse calmamente, enquanto a enfermeira arrumava as cobertas de Christy. — A senhorita salvou-se de um acidente muito sério. Sua recuperação está indo bem, mas é preciso que continue em repouso, por enquanto.

Acidente! Sim, tinha sofrido um acidente horrível, agora tudo estava claro na sua cabeça!

— Davy está morto — murmurou ela.

Sinto muito, foi uma tragédia — disse o médico. — Seu carro ficou completamente destruído. Foi um milagre ter sobrevivido.

— Milagre! Meu Deus! Eu matei meu sobrinho! — ela gritou. — Oh, Deus, por favor, não leve Davy embora. Ele é e será sempre o único filho de Beth! Não corte uma vida que mal acabou de nascer... Oh. eu o matei, eu o matei!

— Não pense isso, por favor, srta. Steele — o médico aconselhou. — Um caminhão perdeu o freio e avançou o sinal. Não foi sua culpa!

— A culpa foi minha sim, doutor! Eu o matei! Nunca devia ter saído com ele com aquela chuva, nunca! Oh, eu matei o pobre Davy!

O médico preparou uma injeção sonífera e lhe aplicou. Pouco a pouco Christy foi ficando mais calma, até adormecer.

As semanas passavam vagarosamente. Depois que lhe tiraram o gesso, Christy ficava quase todo o tempo fazendo exercícios. Demitiu-se por carta de seu emprego e pediu a uma amiga que entregasse o apartamento e que colocasse o piano num depósito. Nova York, seu trabalho, o apartamento... tudo parecia tão longe e remoto, menos o piano. Sentia uma falta terrível dele, e estava louca de vontade de voltar a tocar.

Mas o pior de tudo era o sentimento de culpa que a torturava o tempo todo, como um câncer maligno. Christy sentia-se a única culpada pela morte de Davy.

A culpa foi minha, foi minha!, ela se repetia, acreditando ter acabado com a vida do sobrinho por causa de sua atitude irresponsável.

Porém, esse sentimento horrível que lhe dilacerava a alma não a impediu de ficar completamente restabelecida o mais rápido possível. Pedia a Deus para sarar logo para poder reparar o mal que acreditava ter feito a Richard e a Beth.

Certa manhã, quando se aprontava para dar um passeio, resolveu deixar as muletas de lado. O céu parecia ter sido feito de puro topázio, e as flores dançavam ao vento, nos jardins das casas. Há quanto tempo não reparava na beleza das manhãs ensolaradas?

Já é tempo de você controlar sua tristeza, e não deixar mais que ela controle você, recomendou a si mesma. Logicamente existiriam momentos no futuro em que iria se deixar levar pelo desespero diante daquela terrível lembrança, mas precisava seguir em frente, senão acabaria morrendo.

Resolvida a tomar alguma atitude para tirar a irmã da profunda tristeza em que também vivia. Christy começou a pensar na possibilidade de adoção. Se Beth se visse com um bebê nos braços, todo o seu sofrimento acabaria! Entusiasmada, foi visitar alguns centros de adoção.

— Vocês terão que esperar uns três anos mais ou menos, se quiserem adotar uma criança — disse-lhe a diretora da primeira instituição que visitou.

Três anos! Mas Beth precisava imediatamente de um bebê!

— Teremos que esperar todo esse tempo porque tem muita gente na fila para adoção? — ela perguntou à diretora.

A mulher deu um sorriso simpático e explicou-lhe que atualmente eram poucas as mães que entregavam os filhos para serem adotados. Depois pediu que Christy levasse Beth para fazer uma entrevista.

As esperanças dela iam caindo por terra a cada instituição que visitava. Em todas, diziam o mesmo: seria necessário esperar anos.

Mas deve existir tanta criança no mundo precisando ser adotada, dizia ela a si mesma, e eu vou encontrar um lindo bebê para Richard e Beth!

Quando finalmente chegou à conclusão definitiva de que estava perdendo seu tempo indo de instituição em instituição à procura de um bebê, Beth resolveu encerrar tudo.

— Esqueça isso. Christy!

— Mas por quê? Sei que vocês planejavam ter mais filhos!

— Não adianta. Christy. Acha que Richard já não pensou em adotar uma criança?

— Então, Beth! Não desanime! — exclamou Christy. — Vou achar um bebê para vocês. Não voltarei para Nova York até encontrar uma criança. Se não conseguir aqui na Califórnia, irei para outros Estados!

— Não posso deixar você fazer uma coisa dessas, querida — respondeu Beth. — Mesmo se encontrasse um bebê, descobri ontem que nenhuma instituição permitiria que eu adotasse uma criança por causa de meu problema de saúde.

— Mas você já tirou o tumor. Está bem, não é mesmo?

— Claro, mas eu só terei alta definitiva daqui há sete ou oito anos! E neste caso, eles não permitem a adoção.

Oito anos! Aquilo era tempo demais!

— Será que não poderíamos recorrer a algum outro médico? Quem sabe você recebe alta imediatamente, e assim poderá adotar uma criança!

— Agradeço seu interesse, mas é impossível, querida.

Christy teria preferido que Beth tivesse lhe dado uma bofetada, ao invés daquele sorriso triste e resignado. Como poderia ajudar a irmã, se ela mesma não procurava algum caminho para solucionar o problema?

O telefone tocou naquele momento, colocando um fim na conversa. Beth foi atender.

— É tia Martha — disse ela, tapando o bocal. — Quer que a gente vá a uma festinha que ela está preparando para sábado à noite. Ela está toda animada. O que você acha?

— Acho que devíamos ir.

Desde que saíra do hospital, Christy quase não tinha encontrado ninguém. Seria interessante ir à festa.

Além do mais, não gostaria de deixar tia Martha frustrada. Gostava muito dela e não esquecia tudo o que fez por elas duas depois que seus pais morreram. Foi tia Martha quem apresentou Beth a Richard e quem providenciou todos os preparativos para o casamento dos dois.

— Tia Martha lhe disse quantas pessoas irão à casa dela? — perguntou Christy, preocupada com a roupa que ia usar.

— Não. Provavelmente ela convidará as pessoas de sempre além de Mark Brandon.

— E quem é ele?

— Um dos executivos mais brilhantes da Douglas Enterprises e novo amigo de tia Martha. Acho que você conheceu a mulher dele no colégio. Darcy Farrell... lembra-se dela? Eles se divorciaram há pouco tempo.

Darcy Farrell. É claro. A loira que tinha o sorriso mais encantador do colégio, atriz do grupo de teatro amador, e rainha da primavera, a garota mais bonita da escola! Devia ser uns dois anos mais velha que Christy.

— Por que os dois se divorciaram? — ela quis saber.

— Ninguém sabe. Mark é seis anos mais velho que ela. Darcy casou com dezenove anos e teve um filho em seguida. Ela não tem o espírito muito doméstico, ou talvez seja um tanto imatura.

— Beth, será que a nossa querida titia não está querendo dar uma de santo casamenteiro? Será que ela não está pensando que esse tal Mark e eu ... ?

— Talvez... — Beth disse sorrindo. — Mas acho que vai ser impossível conseguir alguma coisa com Mark, pois ele está indo para o norte da Califórnia. Parece que arranjou um emprego melhor, por lá.

Aquela era uma boa notícia. Christy não se sentia ainda preparada para encarar os candidatos a marido que tia Martha sempre tentava lhe arrumar.

Christy resolveu vestir um conjunto de saia justa e blusa solta, cor-de-rosa, para ir à festa. Talvez a blusa larga conseguisse esconder sua magreza. Começou a se maquilar na frente do espelho, mas por mais que colocasse sombra nos olhos e brilho nos lábios, sua aparência triste e cansada não melhorava.

De repente, o velho sentimento de culpa voltou. Sentou-se na cama e colocou as mãos na cabeça. Como tinha coragem de ir a uma festa para se divertir, como se nada tivesse acontecido? As pessoas a cumprimentariam sorrindo, mas no fundo estariam se perguntando como ela conseguia viver com o remorso por ter sido a causadora da morte do pequeno Davy?

Richard bateu à porta do quarto, avisando que ele e Beth já estavam prontos.

A vida continua, apesar de tudo!, Christy disse a si mesma e apressou-se para terminar a maquilagem.

Logo eles chegaram à casa de tia Martha que levou-os, satisfeita, para ver as modificações que tinha feito na decoração. Trocou o carpete da sala principal e pendurou quadros e plantas por todo o lado.

Beth e Richard logo se entrosaram com os outros convidados, mas Christy ficou no quarto onde tinha ido deixar seu casaco. Estava arrependida de ter colocado aquele conjunto, pois agora ele lhe parecia simples demais e fora de moda.

Passou a mão pelos cabelos, ouvindo as vozes que vinham da sala. Precisava voltar antes que notassem sua ausência.

Escolheu um lugarzinho no imenso living, atrás de uma grande planta tropical, onde ficava meio escondida, como se um animal observando a caça. Tia Martha sempre convidava alguma pessoa que não fazia parte do seu grupo de amigos íntimos, para dar mais "sabor" à festa.

Àquela noite só tinham sido convidados casais, exceto ela e Mark Brandon, que, sem dúvida nenhuma, seria o seu parceiro durante o jantar.

Christy olhou para o homem alto que estava ao lado da lareira. Então aquele era o tal Mark, o convidado de honra! Ele era a única pessoa que não conhecia. Beth havia dito que ele tinha pouco mais de trinta anos, mas Christy achou que parecia mais velho. Mark era alto, elegante e de porte atlético. Com certeza devia praticar esporte todas as manhãs, antes de ir para o trabalho. Tinha os cabelos ruivos como os dela e o queixo quadrado como o dela.

Nesse instante, tia Martha chegou perto de Christy.

— Venha comigo, querida — disse, levando Christy pelo braço até a lareira, — Este é Mark Brandon. Mark, esta é Christy, minha sobrinha. Sempre quis que vocês se conhecessem e acho que chegou o momento.

Depois das apresentações, tia Martha pediu licença e deixou os dois a sós.

Mark levantou o copo de uísque e falou:

— Um brinde à moça vestida de cor-de-rosa.

Christy reparou que Mark tinha os olhos azuis mais lindos que já vira.

— Obrigada — ela respondeu. — Acho que devo lhe dar os parabéns pelo seu novo emprego.

— Só que não vou mais para o novo emprego — Mark disse, sorrindo. — Fiquei sabendo hoje à tarde que não preencho todas as condições para o cargo.

— Sinto muito — ela murmurou, arrependida do comentário infeliz.

— Acho que vou sobreviver. O contrato seria apenas por um ano, mas era um desafio que eu estava louco para aceitar.

Christy deu um gole no champanhe e tentou pensar em alguma resposta diplomática, mas Mark continuou a falar:

— Era uma oportunidade que eu queria muito. Além disso, a companhia australiana que vai supervisionar a parte comercial do projeto do norte da Califórnia prometeu contratar o diretor no fim do ano para montar um negócio semelhante na Austrália. Isso é o que mais sinto.

— Entendo, principalmente considerando suas excelentes qualificações.

Mark colocou o copo sobre uma mesinha com uma expressão estranha. Christy pensou se tinha dito algo inconveniente.

— Qualificações? Tenho todas, menos uma — disse ele secamente. — Parece que o vice-presidente em exercício das operações não sabia do meu divórcio. Sam Douglas prefere homens casados nesses cargos.

— Então você vai acabar ficando por aqui mesmo.

— Oh, não. — Ele enrugou a testa levemente. — Nunca pense que Douglas Enterprises não cuida do que é seu. Pelo que entendi, quando o sr. Douglas chegar, a semana que vem, me oferecerá uma transferência para o escritório do Texas.

— Bem, é uma bela promoção. O que há de errado com ela?

— O gado, srta. Steele, o gado! — respondeu ele, sem explicar.

Nesse momento, tia Martha anunciou o jantar. Como sempre, a mesa estava linda, igual a essas que se viam em revistas de culinária. Christy ficou surpresa ao descobrir que estava com muito apetite. Durante o jantar, falou a Mark Brandon sobre seus anos de estudante, sua música e seu amado piano que estava tão distante. Sentiu que alguma coisa estava acontecendo dentro dela. A dor pela morte de Davy continuava muito forte, mas conseguia se comportar como uma convidada agradável, sem torturar os outros com suas emoções íntimas.

Depois do jantar, todos tomaram o café e foram para a sala de estar, onde Mark e Beth pegaram uma palavra cruzada sobre uma pilha de livros.

— Todos prestem atenção — disse Mark, segurando uma caneta.

— O que é uma criança de rua? Sete letras.

— Moleque — Richard arriscou imediatamente.

— Isso mesmo. Agora uma palavra com quatro letras: uma criança do sol — disse Beth.

— Inça! — gritaram todos juntos.

Christy ficou tensa, com o tema infeliz do jogo. Mas olhou à sua volta, e viu que nenhuma outra pessoa parecia perturbada com a associação. ;

— Vocês são ótimos, mas a próxima é muito difícil — disse Mark.

— Que filho de um grande músico compôs algo chamado Solfegietto?

As chamas azuis da lareira iluminavam os cabelos vermelhos de Mark e de Beth. De repente, olhando para eles. Christy teve uma ideia que a fez gelar.

— Christy! — disse alguém.

Ela percebeu que seu nome tinha sido dito mais de uma vez.

— O que foi, querida? — Tia Martha veio em sua ajuda. — Não está se sentindo bem?

Christy negou com a cabeça e pediu para que repelissem a pergunta.

— Carl Philipp Emanuel Bach — respondeu. — Filho de Johann Sebastian Bach.

— A deusa da música veio em nossa ajuda! — gritou Mark.

Christy jogou mais um pouco, mas depois se levantou. Tinha tomado muito vinho, estava tonta e perturbada. Atravessou a sala para observar uma reprodução de um quadro de Gauguin, que conhecia muito bem, para não ter que suportar os olhares das pessoas.

Pareceu passar uma eternidade até que se despedisse. Christy não via a hora de ficar sozinha em seu quarto para pensar objetivamente naquela ideia, onde poderia concluir se afinal tinha encontrado um meio de ajudar Beth e Richard ou se perdera a razão.

Finalmente fechou a porta do seu quarto. Durante horas ficou pensando na ideia que teve. Não queria se deixar dominar pela emoção. Queria que as coisas estivessem claras na cabeça.

Finalmente chegou a uma conclusão. Ela, Christy, teria um filho para sua irmã. Se Mark Brandon concordasse em ser o pai, com certeza nasceria um bebê com os cabelos ruivos e encaracolados como os do pequeno Davy.



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