Amor com Hora Marcada Contract for marriage



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CAPÍTULO III

Christy considerou todos os detalhes. Poderia se sustentar durante a gravidez? Só recebia uma pequena renda da herança de seus pais, mas se fosse para uma cidade onde ninguém a conhecesse e arranjasse um emprego, conseguiria se manter sem maiores problemas.

E quanto à perspectiva embaraçosa de ir pedir para que Mark fosse o pai de seu filho? Estava preparada para aguentar as fofocas, caso alguém viesse a saber do seu plano? E como se sentiria quando chegasse a hora de dar seu próprio filho? Teria coragem para isso? Conseguiria ficar no papel de uma simples tia? Seria capaz de ver o filho crescer sem nunca poder dizer: "Ele é meu! É meu!"?

Não se deixaria envolver por essas questões. Tudo era insignificante quando se lembrava da promessa de colocar uma criança nos braços de Beth!

Sc Mark não aceitasse, claro que havia muitos outros homens ruivos interessados em ter um caso passageiro com uma moça solteira.

Talvez devesse pensar em fazer inseminação artificial, pois seria menos embaraçoso, mas tinha certeza que a lei não permitia uma coisa dessas para mulheres solteiras.

Primeiro tinha que resolver como explicar sua proposta a Mark. Mas deixaria isso para o dia seguinte. Agora precisava dormir.

No domingo, porém, antes de decidir qualquer coisa, Mark lhe telefonou: tinha dois ingressos para um show de música popular e gostaria que ela fosse. Christy foi, mas não tocou no assunto. Duas noites depois, ele a convidou para jantar e ela se sentiu mais reticente ainda. A proposta tinha que ser feita como uma transação comercial e de uma maneira desapaixonada, sem o envolvimento de luzes de velas. Se fosse ao escritório dele como uma cliente e não como amiga, talvez conseguisse falar. Mas quando teria coragem?

Christy odiou a decisão ate o dia em que ouviu soluços angustiados vindos do quarto de Beth e Richard. Ultimamente, chegou a pensar que eles estivessem voltando à vida normal depois de tudo, mas naquela madrugada compreendeu que nada tinha mudado. Era preciso agir.

Na manhã seguinte, escolheu sua melhor roupa arrumou o decote da blusa com cuidado. No espelho, viu a imagem de uma moça discreta, que aparentemente nunca pensaria numa loucura daquela. Depois que Beth saiu com uma amiga para uma reunião de esposas dos professores da faculdade, Christy discou para a Douglas Enterprises. Pediu para falar com a secretária do sr. Brandon. Ela informou que, naquele momento, ele estava em reunião como o sr. Douglas, mas teria tempo para uma entrevista às onze e meia. Tudo estava acontecendo muito depressa!

Agora Mark estava parado na sua frente, evidentemente assustado com a proposta brusca.

— Ora, Christy, devo tomar tudo isso como um pedido de casamento? —- perguntou ele, afinal.

— Oh, não! Não quero casar. Você entendeu mal. É verdade que quero que você... seja o pai da criança. — Christy quase engasgou ao dizer estas palavras. — Mas não precisa me ver nunca mais. Não vou revelar o seu nome, nunca. Posso assinar um documento, ou o que você quiser. Pretendo sair do Estado durante minha gravidez e não vou contar a verdade a Beth, nem quando entregar o bebê a ela.

— Não posso acreditar nisso! — Ele arregalou os olhos e a encarou de um jeito que fez o rosto de Christy queimar. Mark levantou-se, atravessou a sala duas vezes, depois sentou-se na beira da escrivaninha, bem na sua frente.

— Christy, justo você! Que ideia mais maluca! Eu não poderia deixá-la vagando por aí, Deus sabe por onde, carregando um filho meu. Acho que sou muito responsável para fazer uma coisa dessas, principalmente quando suas razões parecem muito suspeitas.

— Não se preocupe com minhas razões. Sou responsável por elas. Pensei em todos os detalhes e me parece que dar uma criança para uma mulher que não pode ter filhos é uma razão mais do que suficiente.

— Meu Deus! — Mark bateu a mão na escrivaninha. — Por que não adotam uma criança?

— Já fui ver isso e Richard também. Existem poucas crianças para serem adotadas. Pode demorar anos e, além disso, o fato de Beth ter tido um começo de câncer conta pontos contra ela.

— Bem, e quanto à criança? Nos seus planos ela é a ovelha do sacrifício?

— Ovelha do sacrifício! — Christy sentiu a raiva dominá-la. — Que criança poderia ser mais querida e amada? Nenhuma criança sofreria numa situação dessas.

— Tem certeza? Pelo que fiquei sabendo, Beth era muito super-protetora. Além disso, você acha que ela estaria em condições de aceitar outra criança tão depressa?

— Ela está muito descontrolada para saber o que quer. Sabendo como adora crianças, tenho certeza que outro filho é a solução.

Mark fechou a cara e Christy sentiu uma barreira erguer-se entre os dois. Ele se levantou da escrivaninha, olhou pela janela durante alguns segundos, depois virou-se:

— É uma proposta e tanto, srta. Christy Steele, mas está percebendo com quantas vidas quer mexer? A sua, a minha, a de Beth e Richard e, antes de tudo, a de uma criança!

— Acho que vale a pena!

— Não brinque com Deus, Christy!

— Você não entendeu nada!

Mark inclinou-se para frente e forçou-a a encará-lo.

— Acho que você está asfixiada por um torturante complexo de culpa e pensa que desse jeito vai se livrar dele.

Christy levantou, com os olhos cheios de lágrimas.

— Se eu precisasse de um psiquiatra não teria vindo procurá-lo!

— Então talvez tenha batido na porta errada!

O orgulho ferido pareceu colocar blocos de cimento sobre seus pés, mas Christy conseguiu sair do escritório. Devia ter agradecido Mark por tê-la recebido, mas não confiava em sua voz nem queria mais saber dele. Não esperou o elevador e desceu as escadas apressada.

Lá fora, decidiu não pegar o carro imediatamente. Não queria voltar para casa naquele estado. Atravessou a rua e caminhou até uma pequena praça, na esquina. Depois, sentou-se num tronco solitário observando a água jorrar de uma fonte. As vezes um ambiente como aquele ajudava a pensar melhor. Ficou olhando algumas gaivotas, distraída.

— Veja só essas gaivotas — disse uma voz calma a seu lado. A voz de Mark Brandon. — Não é verdade que quando se vê uma já se viu todas?

Christy olhou para os sapatos cuidadosamente engraxados dele, mas não conseguiu levantar a cabeça.

— Posso? — perguntou Mark e sentou-se, sem esperar pela resposta. Abriu um saco de papel e tirou algumas maçãs e um pedaço de queijo. Cortou-o com um canivete e ofereceu-lhe um pedaço. — Que tal um almoço rápido? — perguntou amavelmente, como se não tivessem se separado daquela maneira pouco antes. — Experimente este queijo. É digno de um rei!

— Como sabia que eu estava aqui? — perguntou Christy com voz fria.

Mark ficou alguns minutos mastigando um pedaço de maçã.

— Sempre venho aqui tomar um fôlego. Acho a companhia das gaivotas terapêutica. Veja! — jogou uma fatia de maçã.

Todos os pássaros mergulharam rapidamente, mas um maior eriçou as penas de um jeito ameaçador, forçando a passagem entre os outros, enquanto gritava violentamente, até abocanhar o pedaço de fruta.

— Venceu a força bruta — comentou Mark.

Christy notou um pássaro mais tímido fazendo movimentos inúteis para introduzir-se no meio dos outros. Jogou um pedaço de queijo para ele que o bicou, largando-o ao primeiro desafio, porém.

— Dê-lhe um outro pedaço, coitado — disse Mark. — Agora veja aquela bailarina! Mas que senhora de classe! — Ele estava falando de uma gaivota do centro do bando, que levantava para pegar as migalhas que lançava. — Ela realmente é muito esperta. Usa a inteligência para comer mais do que os outros.

— Acho que aqui aprendemos muito mais do que o simples comportamento dos pássaros — disse Christy.

— Não sei, não. Venho aqui só para me distrair, Christy. Acho que aprendemos muito mais observando como certas pessoas reagem em determinadas circunstâncias...

— Desculpe por esta manhã. Será que dá para esquecer tudo o que lhe falei? — Ela corou.

— Não para falar a verdade, fiquei obcecado com o que você me propôs.

— Então somos dois — Christy replicou amargamente, percebendo que Mark estava sendo cínico com ela. Levantou-se para ir embora.

— Preciso ir. Obrigada pelo queijo.

Mark puxou-a pelo braço e fez com que ela sentasse de novo.

— Fique mais um pouco, por favor.

Como Christy não oferecesse resistência, ele continuou:

— Acho que não tinha o direito de julgar suas razões. Sei que o que a motivou a fazer aquela proposta foram sentimentos muito íntimos. Espero que não leve a mal o que eu lhe disse.

— Lógico que não vou levar a mal, Mark — ela disse, sincera.

Ficaram em silêncio por alguns instantes, observando os pássaros, até que Mark voltou a falar:

Desculpe, Christy, mas também espero que você não leve a mal o que vou dizer: só de pensar numa mulher se oferecendo a todos os homens ruivos do país, sinto um arrepio na espinha.

Realmente ele não a conhecia! Ela nunca mais faria aquela proposta a ninguém!

— Você acha que eu terei mesmo que me oferecer a muitos homens até que um deles tenha piedade de mim e aceite minha proposta?

— Não foi isso o que eu quis dizer — Mark replicou, sério. — Fiquei pensando em tudo o que você me disse e cheguei à conclusão que a única coisa que temos a fazer é casar.

— Casar! — Christy exclamou assustada, olhando para Mark.

— E que motivo você pode ter para querer casar comigo?

— Não se preocupe com os motivos. Vamos dizer apenas que sou responsável por eles.

— Tudo bem, então. Só que não estou preparada para o casamento.

— Isso é gozado. Você então é do tipo que prefere colocar a carroça na frente dos bois. Realmente é muito estranho pensar em ter um filho sem se sentir preparada para o casamento.

— Você precisa entender que o que pretendo fazer não tem nada a ver com casamento. Estou tentando ver meu corpo simplesmente como um veículo para conseguir o que quero, que é encontrar um homem para me fazer um filho. Só isso. Não quero colocar emoção no ato. Quando tudo tiver terminado, espero encerrar esse episódio e nunca mais me preocupar com ele.

— Você é mais louca do que eu imagino, se acredita realmente que poderá ter um filho com um homem, sem se envolver com ele.

— Não é caso de loucura, meu caro. Acho que se usar minha cabeça direitinho, se agir objetivamente, não me envolverei emocionalmente. Agirei apenas com o intelecto.

Uma vez me casei, por estar muito envolvido emocionalmente. E foi ludo por água abaixo. — Mark parecia distante, perdido em lembranças do passado. Foi até a fonte e observou a água jorrando. — Talvez você esteja achando meu pedido de casamento um tanto hipócrita, depois do que lhe falei no escritório.

— Você me deixou confusa.

— Tente pensar apenas no pedido.

De repente, Christy se lembrou:

— Com uma esposa, conseguiria o emprego que está querendo?

— Pode acreditar que quero esse novo cargo mais do que qualquer outro que já quis na vida. Dele para a diretoria do escritório na Austrália é apenas um passo.

— E ele já tinha sido prometido para você? — ela quis saber.

— Um mês atrás pensei que esse cargo já era meu.

— E deu tudo errado por causa do divórcio?

— Sam Douglas tem suas manias. Este cargo, em particular, envolve montar centros de equipamentos para aluguel com a concessão dos governos dos Estados do oeste. Grande parte dos negócios são pequenos e realizados para poucas pessoas, quase domesticamente. O mais perfeito desses centros está localizado em San Felipe, perto de San Francisco. As mulheres dos funcionários acabam participando das atividades dos maridos e aprendendo tudo sobre as instalações dos equipamentos, porque parte dos contratos é feita nas casas dos funcionários e não no escritório. E Sam acha que assim funciona melhor.

— E, por que ele pensa assim?

— Porque foi um casal que montou a primeira concessão bem-sucedida de Sam, há anos atrás, e desde então ele acha que só o funcionário trabalhando com o auxílio da esposa, especialmente na fase preliminar dos negócios, tem chance de sucesso.

— Quer dizer que se você tiver uma mulher a seu lado que saiba receber bem os clientes, o emprego será seu?

— Sam Douglas é um homem teimoso.

— Sua secretária disse que você teve uma reunião com ele esta manhã. Ele não cedeu?

— Vamos dizer apenas que se eu falasse que tinha uma noiva em vista, teria dado graças a Deus.

— E os australianos? — perguntou Christy. — Eles só querem diretores casados também?

— Não, o que aumenta minha frustração.

O coração de Christy começou a bater mais forte. Poderiam fazer um trato que beneficiasse os dois. O fator tempo era muito favorável. Um ano seria mais do que suficiente para que ela engravidasse e para que Mark conseguisse o cargo que desejava tanto.

— O que está passando pela sua cabeça? — ele perguntou, observando-a atentamente.

— Estava pensando no seu pedido. Acho que um contrato desses que você me propôs daria certo.

— Contrato?

— Sim. — Christy sentia como se alguém tivesse lhe jogado uma bóia segundos antes de se afogar. — Prefiro chamar esse acordo de contrato, em vez de casamento. É mais honesto. Claro que podemos fazer as cerimônias de praxe, por causa do sr. Douglas, Beth, tia Martha. Mas conscientes de que estaremos celebrando um bom negócio; no ano que se seguirá, cada um de nós realizará seu objetivo e aí o contrato estará terminado, sem nada que nos prenda!

— Espantoso, para não dizer egoísta!

— Bem, às vezes é preciso ser assim para alcançar um objetivo — argumentou ela. — Mesmo assim, preferia que você dissesse que o nosso acordo é prático e não egoísta.

— Você me deixa perplexo. Seu raciocínio é muito diferente do meu.

— Você está complicando uma situação que na realidade é muito simples.

— É mesmo? — Os olhos de Mark brilharam, divertidos. — Você é uma moça muito bonita. E se...

— Se você vai me perguntar se o contrato inclui o que é conhecido como "direitos conjugais", inclui sim — interrompeu Christy.

— É claro que eu não estava pensando que você pretendia engravidar por obra do Divino Espírito Santo.

Christy corou violentamente.

— Estava só querendo dizei que os "direitos conjugais" serão válidos durante todo o período do contrato — disse ela.

Mark ficou serio novamente

— Já lhe ocorreu que um acordo desses pode levar a um certo envolvimento emocional? Sim, sim, sei que você tentara agir "apenas com o intelecto".

— Isso mesmo, e é essencial que essa questão fique clara entre nós. — Christy ignorou o sarcasmo dele. — Talvez, devêssemos escrever isso no contrato e reconhecer em cartório.

Mark levantou as mãos, num gesto de falso desespero.

— Céus. Christy, você é inacreditável! Por que nos fecharmos numa coisa que pode mudar? Acho que devia encarar o fato que passou por uma má experiência este ano e pode vir a mudar de ideia sobre esse plano. Falando por mim, gostaria de pensar na possibilidade do nosso casamento durar.

— Você ainda não entendeu, não é? Nosso objetivo neste momento não é um casamento bem-sucedido, apenas um contrato bem-sucedido. Um casamento bem-sucedido seria um prejuízo para nós dois. Pense nisso: a criança está prometida para outros pais. No fim do ano pretendo voltar para o meu trabalho em Nova York e você estará livre para assumir seu cargo na Austrália. Temos que permanecer fiéis aos nossos objetivos.

Mark suspirou e sentou-se novamente no tronco ao lado dela.

— Não sei. Não tenho certeza se estou preparado para agir dessa forma.

— Pense no contrato como se fôssemos sócios — sugeriu, ansiosa para afastar as reservas de Mark.

— Esse contrato me impedirá de agir como um ser humano! Sua teoria não deixa espaço para a espontaneidade, para o envolvimento! — Ele fez uma pausa e depois continuou: — Vamos ver se entendi sua proposta: não devemos investir nenhuma parte de nós na nossa sociedade, não existirá uma intimidade verdadeira, a não ser no nível puramente físico. — Mark segurou-a pelos ombros e forçou-a a encará-lo. — Tem certeza que pode levar isso adiante?

Christy hesitou por um segundo, mas respondeu com firmeza:

— Concentre-se no seu objetivo. As emoções são caprichosas e têm que ser ignoradas nesta experiência.

Mark fitou-a por um momento e depois largou-a.

— Tenho que voltar para o escritório. Vá para casa, enquanto eu conto para Sam Douglas nossas "grandes novidades" e penso numa maneira de fazer as pessoas acreditarem que nosso namoro é fruto de uma paixão súbita e devastadora.

Pararam diante do prédio da Douglas Enterprises, enquanto ela procurava as chaves do carro. Ao se despedirem, Mark pegou sua mão e apertou com força.

— Então, estamos combinados? — ele perguntou, com os olhos azuis tão distantes quanto os de um estranho.

— Combinados — respondeu Christy. O pacto estava selado.

CAPÍTULO IV

Ela era uma dessas pessoas que planeja tudo na vida. Gostava de agir com calma e no momento exato, sabendo direito o que lazer. Todas suas atividades eram programadas com antecedência e refletidas demoradamente. Sentia-se mais segura assim.

Mas daquela vez, apesar de ter certeza da decisão, Christy estava completamente confusa. Como explicar a Beth e a Richard que ia casar com um homem que praticamente acabava de conhecer? Paixão? Ora, ela não estava com cara de apaixonada. No dia seguinte, porém, viu que não tinha com que se preocupar. Mark cuidaria de tudo. Ele lhe telefonou de manhã dizendo:

— Vou apanhá-la para jantar. Tem um novo restaurante em West Oaks que serve um chiles rellenos delicioso.

— Tudo bem. Espero você.

Um pouco autoritário, pensou Christy, depois de desligar. Não me perguntou se eu queria sair com ele, mas simplesmente informou que vinha me apanhar.

O restaurante era bem simpático, iluminado à luz de velas. Sentaram-se numa mesa de canto e conversaram muito. Mark contou que se formou em economia pela Universidade de Los Angeles e casou com Darcy dois anos depois, quando começou a trabalhar nos escritórios da Douglas Entreprises. Falou pouco sobre o divórcio e pareceu muito triste ao contar que não tinha conseguido ficar com a custódia de sua filha, Carol.

— Sua tia Martha já deve ter lhe contado tudo a esse respeito — disse ele.

— Não mais do que você acaba de me contar.

— Você sabe como são essas coisas. Tudo aconteceu debaixo do meu nariz e eu não tinha percebido nada. Darcy acabou casando com um tal Spencer Freeman, um agente teatral.

— Sinto muito — disse Christy.

— Tudo já acabou e foi melhor assim.

Christy sentiu que Mark estava sendo sincero. Depois de um momento, ele continuou a falar:

— Às vezes fico pensando nessas coisas de arte. Teatro, música... Deve ser uma obsessão. Para Darcy, o palco é a coisa mais importante da vida. Você é pianista. Christy. Será que também vai querei dar o fora depois de um mês ou dois?

Ela olhou com surpresa para Mark. Percebeu que ele estava com medo de ser rejeitado de novo.

— Não se preocupe, Mark. Não fugirei com o primeiro maestro que aparecer... Nós temos um contrato, lembra-se?

Christy teve a impressão de ter tirado uma carga que pesava sobre Mark. Ele parecia tão aliviado! Ela brincou:

— Bem, agora, Mark, já que vamos mesmo casar, você precisa me contar quais as suas principais manias, tirando esta de gostar de comida mexicana! Tenho certeza que aprecia cachimbos fedorentos e que costuma deixar meias sujas debaixo da cama!

Mark riu e comentou:

— Como adivinhou? E fique sabendo que eu também adoro ficar marcando o compasso das músicas com as mãos quando estou num concerto!

— Meu Deus! Por essa mania eu não esperava! — Christy também riu da brincadeira dele.

Mark fez perguntas sobre os anos que ela passou no internato e sobre como tinha sido sua vida ao sair de lá. Christy tentou falar sem tristeza sobre seu apartamento em Nova York, o piano que quase nem usou e o emprego que perdeu. Não queria falar de Davy. Ficava apreensiva quando a conversa ameaçava revelar a pessoa que carregaria para sempre a culpa pela morte de um garotinho.

Não gostava de sobrecarregar os outros com seus problemas. Preferia resolvê-los sozinha. Podia até parecer distante, mas achava melhor do que dividir seus problemas com os amigos.

No internato Juilliard. onde em raros casos a privacidade sobrevivia, Christy procurou forças na solidão. Seu maior prazer eram o piano, os livros e suas composições. Tinha companhia com frequência, mas ruins amizades profundas.

Christy se envolvia poucas vezes com os homens, então, era completamente inexperiente. Tinha sido criada numa escola de meninas, sem pai. A vida inteira só havia tido um caso de amor sério: uma paixão secreta pelo seu professor de piano, Sandor Nagy, que a consumiu durante quase o segundo ano todo da faculdade. Quando finalmente leve coragem de se declarar a ele, Sandor foi gentil, mas encarou como uma mera paixão de adolescente. E, talvez para lhe dar consolo ou ânimo, disse que uma pianista séria não tinha tempo para namorar.

Logo depois, Christy ficou arrasada ao saber do namoro de Sandor com uma ex-aluna já formada. Trocou de professor e jurou que ia evitar qualquer outro envolvimento sério. Passava as horas tocando piano e fazia frequentes apresentações públicas. Sobrava pouco tempo para algo mais complicado do que um ou outro encontro com algum amigo músico, para bater papo ou assistir a um concerto, quase sempre no próprio campus da faculdade.

Porém, as marcas da rejeição de Sandor foram profundas.

O amor é perigoso, pensou Christy, naquele restaurante, ao lado de Mark. E aí gostou da ideia de casar com um homem interessante, sem amor nem envolvimento.

No dia seguinte, Christy tinha acabado de tomar o café da manhã quando Mark ligou.

— Vai ter uma inauguração de uma exposição de arte esta noite. Um amigo meu estará expondo uma escultura. Você gostaria de ir comigo?

Pelo menos daquela vez ele perguntou se Christy queria ir.

Mark conhecia a maioria das pessoas que estavam na galeria. Para completo embaraço de Christy, ele a apresentou a todos como sua noiva.

— Você está dizendo a todos que sou sua noiva e eu ainda nem contei a novidade para Richard e Beth — disse ela, quando ficaram a sós por um instante.

— Ainda não? Bem, então precisamos contar —- comentou Mark segurando sua mão, enquanto caminhavam pela exposição.

Pararam na frente de uma grande tela vermelha, onde apenas uma linha de tinta negra saia do centro, quebrando a monotonia do vermelho vibrante. A tela tinha o nome: Quem tem medo do vermelho?

— Acho que minhas preferências em relação à arte pararam no século passado, com Van Gogh e Cézanne. Não consigo entender pinturas como esta — disse Christy.

— Acho muito opressiva — opinou Mark. — Mas vamos olhar aquela escultura ali.

Ele estava falando de uma obra executada com metal enferrujado, cuja forma não tinha nenhuma semelhança com um objeto real.

— Agora me diga honestamente, Mark, você consegue ver alguma qualidade artística nesta escultura?

— Por que não? Acho que você está sendo injusta com o autor da obra.

— Injusta, eu? Imagine! É que eu gosto de ver trabalhos que tenham realmente honestidade artística, entende?

— Não sei... Acho esta escultura muito interessante. Talvez o artista estivesse querendo provar alguma concepção nova com ela.

— Bom, eu sou da opinião que uma obra de arte, antes de tudo, deve comunicar alguma coisa com estilo, graça e muita perfeição técnica. Esses trabalhos que estão aqui parecem feitos para provocar o público, parecem piadas! — Christy comentou, sentindo-se ultrapassada como sua velha professora de arte.

— Como você é puritana, não, Christy?

— Não sei por que está me dizendo isto.

— Quer dizer que tudo o que é engraçado e divertido não tem valor para você?

Christy ficou muda. Não conseguiu pensar em nada para responder. Depois de alguns minutos, Mark perguntou:

— Por que está tão quieta? É fome? Está cansada?

— Não sou de conversar muito, Mark. Acho bom você ir se acostumando com isso.

— Ah, eu não sabia. Cheguei a pensar que estava arrependida por ter vindo. Parece tão desanimada!

— Acho que estou aborrecendo você, não é, Mark?

— Imagine, Christy — ele respondeu, com um sorriso. — Só acho que está um pouco deprimida e ranzinza. Vamos até a outra sala, onde estão servindo o coquetel. Talvez se você beber alguma coisa, é capaz de melhorar de humor.

Entraram e sentaram numa das mesas. Um garçom trouxe imediatamente uma garrafa de vinho. Os dois beberam com prazer e comeram algumas torradas com queijo.

— Acho bom você tomar apenas uns dois cálices de vinho, madame — brincou Mark. — Acho que não seria bom se ficasse meio alta como naquela noite na casa da sua tia.

— Você sabe que não bebi muito naquela noite.

— Claro que sei. Mas é bom que vá se acostumando a beber pouco a pouco. Vamos morar numa região onde se fabrica muito vinho, você sabe, e teremos que servir muita bebida quando recebermos os clientes em casa.

— Sabe de uma coisa que eu preciso conhecer melhor? — perguntou Christy.

— Não. O quê?

— Vinhos. Eu não sei nada sobre safras, qualidades diferentes, essas coisas. E como é uma terra de vinhos, deve estar cheia de experts.

— Não se preocupe com isso, Christy. É muito fácil desbancar essas pessoas que se dizem grandes entendidas em vinhos. Quando perceber que alguém vai começar a falar da qualidade de bebida que está bebendo, passe na frente dela, e comece você a falar. Diga que o paladar é excelente, que o aroma é suave e eles ficarão de boca fechada num minuto. Pessoas assim detestam contrariar outras que também se mostram conhecedoras.

Christy riu. Continuaram conversando e pouco depois estavam falando do casamento.

— Prefiro que nosso casamento civil seja no cartório. Devido às circunstâncias, acho que devíamos fazer uma cerimônia bem simples — comentou Christy.

— Como você quiser. Minha única exigência é que a gente vá para San Felipe pelo menos um dia antes de eu assumir o novo escritório.

Combinaram tudo. Para alívio de Christy, foi tão impessoal como preparar uma lista de supermercado.

— Tenho um pedido — disse Mark. — Gostaria que Sam Douglas fosse convidado. Ele está muito entusiasmado com o casamento.

— Ele conseguiu o que queria, não?

— Sam quase sempre consegue.

— A impressão que tenho é que Sam Douglas é um tirano.

— Não é verdade. No fundo tem um coração de ouro; e é comovente como ele anseia por uma vida familiar que nunca teve.

Terminaram de beber o vinho, e Christy percebeu que agora estava de melhor humor. Compreendeu que ela e Mark estavam ficando amigos, o que era muito importante, pois teriam que passar um ano juntos.

Ficaram em silêncio enquanto Mark dirigia. Mas Christy sentia-se muito bem. Mark só falou quando parou o carro na frente da casa de Richard e Beth.

— Minha filha, Carol, de vez em quando irá para San Felipe ficar conosco. Gostaria que vocês duas se conhecessem. Prometi fazer um passeio com Carol. Por que não combinamos de irmos juntos ao Zoológico San Diego neste domingo?

Mark a olhava fixamente e Christy percebeu que ele estava testando sua reação. Christy Steele, madrasta. Aquela ideia chocou-a. Como seria Carol, filha de pais tão bonitos como Mark e Darcy?

— Acho ótimo — respondeu finalmente. — Vamos fazer um piquenique!

A não ser por sua pequena experiência com alunos de piano, e pelas semanas preciosas que passou com Davy, ela tinha pouco contato com crianças. Ficou nervosa pensando no encontro que teria com Carol.

Mas enquanto o domingo não chegava, continuou com os preparativos para o casamento. Beth pensava que ia tanto ao centro da cidade para procurar emprego. Era bom que ela pensasse desse jeito por enquanto. Christy ainda não queria anunciar seu casamento repentino. Providenciou os documentos exigidos no cartório e comprou algumas roupas novas, incluindo o vestido para a cerimônia.

No domingo de manhã, Mark apareceu com Carol, que estava quieta, tensa, e parecia que ia ter uma crise de raiva.

Carol estava muito pálida, vestida naquela túnica marrom muito longa, e uma calça larga quase da mesma cor. Seus cabelos amarelados estavam divididos por uma risca torta e presos dos lados. Provavelmente ela mesma o tinha prendido e as mechas caíam em todas as direções. Mas Carol tinha os olhos bonitos, azuis e calmos como os do pai,

Christy tinha imaginado encontrar uma bonequinha vestida com um avental cor-de-rosa, com os cabelos loiros com cachos ou tranças. Lembrou-se de ter ouvido falar de certas mulheres bonitas que gostavam de deixar as filhas mal arrumadas só para realçarem a própria beleza. Seria esse o caso de Darcy?

Christy pensou imediatamente cm pentear direito os cabelos de Carol e arrumar sua roupa, mas ela encarava com olhos tão frios que desistiu. Precisava ter paciência.

Carol dormiu assim que o carro começou a andar, mas acordou no momento em que chegaram ao zoológico, quando fórum atravessar o estacionamento, Christy tentou segurar sua mão, mus Carol retirou-a bruscamente.

— Qual é o animal que você mais gosta, Carol? — perguntou Christy, tentando se aproximar.

Carol não respondeu. Quando Mark foi comprar pipoca, deixando-as sozinhas por alguns minutos, Christy tentou novamente:

— Você tem algum animalzinho de estimação na sua casa?

Carol olhou para Christy como se a estivesse vendo pela primeira vez e não respondeu.

Depois de comer a pipoca que seu pai lhe trouxe, ela começou a puxar Mark pela mão, como se Christy a incomodasse muito e quisesse ver-se livre dela.

— Acho que eu vou sentar um pouco naquele banco e descansar — disse Christy que, na verdade, sentia um pouco de dor na bacia.

— Ficarei observando as pessoas enquanto vocês dois passeiam.

Mark e Carol a deixaram, e Christy viu que a menina começou a conversar e a rir com o pai. E foi assim o dia inteiro: junto de Christy, Carol ficava muda e de mau humor. Se ela se afastasse. Carol voltava a rir.

O dia parecia interminável para Christy. Foi uma tortura ficar ao lado de uma criança que simplesmente a ignorava! Mark fingia não perceber o que acontecia, mas Christy sabia que ele tinha notado perfeitamente que ela não havia conseguido se aproximar de Carol nem por um minuto durante todo o tempo que estiveram juntas. Para Christy, Carol a via como inimiga.

Não vou me preocupar tanto, pensou. Afinal, eu e Mark vamos morar muito longe e pode ser que Carol nunca vá visitá-lo.

Quando anoiteceu, levaram Carol para a casa de Darcy, e Christy convidou Mark para tomar um lanche com ela.

Beth e Richard haviam saído o os dois tinham a casa inteira à sua disposição.

Conversaram sobre várias coisas, mas sem locar em nenhuma questão mais séria. Depois do longo dia que passaram no zoológico, Christy estava adorando ficar ali com ele naquele papo sem compromisso e tinha quase certeza que Mark também.

— Você tem um mapa da Califórnia? — ele perguntou de repente. — Gostaria de lhe mostrar a região onde a gente vai morar.

Christy achou um Atlas no escritório. Sentaram-se no sofá e abriram o livro na mesinha de café na frente deles. Mark apontou San Felipe, as plantações de uvas da região, os bosques e a costa marítima que ficava a alguns quilômetros da cidade.

— Deve ser uma região muito bonita. Acho que vou adorar ir para lá — Christy comentou, percorrendo com o dedo a linha que indicava o percurso de rio Russian.

— Eu também. Ainda mais agora que você vai comigo — disse Mark, segurando a mão dela sobre o mapa.

Christy libertou a mão rapidamente, com uma interrogação nos olhos. Por que ele falara aquilo?

— Estou dizendo a verdade, Christy — ele murmurou antes de beijá-la nos lábios, passando a mão em seus ombros com sensualidade.

Christy conseguiu se libertar e se afastou dele rapidamente.

— O que foi? — ele quis saber.

— Nada. É que eu não esperava que você fizesse isso.

— Ficou brava, Christy?

— Não... Quero dizer... sim... Não sei. Não esperava que você fizesse isso. Afinal, não somos exatamente um casal de noivos. Nossa relação é diferente, é especial!

— É verdade, e eu estou tentando torná-la mais especial ainda. Você não concorda?

— Não sei o que responder. Mark. Considerando a proposta que lhe fiz, qualquer coisa que eu fale pode parecer ridícula.

— Então não diga nada. — Ele passou a mão pelos ombros dela.

— Por que está tão agitada? Relaxe. Eu não vou devorar você.

— Eu sei... — Christy parou de falar e olhou para Mark: seu rosto estava tranquilo, gentil. De repente, os olhos dela encheram-se de lágrimas. — Desculpe. Eu sempre estrago tudo.

— Não é verdade. Você é uma pessoa maravilhosa, e sabe disso. Não sei como tive tanta sorte. E além de tudo, é muito bonita, também. Acho que nunca conheci uma moça como você, que parece não ter a mínima consciência da própria beleza.

Ele não pode estar falando a sério, pensou Christy. Aquilo era o tipo de conversa que se devia esperar de um homem experiente como Mark, mas ele não precisava usar seu charme para ela.

Sentia a garganta seca. Nunca cm sua vida linha recebido um elogio como aquele! Estava completamente confusa!

Quando Mark a abraçou ela ficou mais confusa ainda. Havia algo nos olhos dele com que Christy sempre havia sonhado, mas que nunca pensou ver em sua vida. Aquilo a fazia estremecer. As mãos dele acariciaram sua cintura como se quisessem se certificar de que ela era estreita e delicada. Em seguida Mark desamarrou o laço de sua blusa e beijou seu pescoço com ardor. Depois, apertando-a mais forte, beijou-a com paixão e Christy correspondeu de uma maneira tão intensa que ela própria chegou a ficar chocada com o desejo que repentinamente invadiu seu corpo.

Quando se afastaram, Mark sorriu, como se Christy houvesse respondido afirmativamente à sua pergunta.

Quando ele levantou para ir embora, Christy percebeu que parecia muito cansado.

— Mark, acho que não deve estar sendo fácil para você conciliar esses nossos encontros com sua vida profissional, cheia de compromissos e horários — disse impulsivamente.

— Você acha que estou faltando em alguma coisa? Será que não estou conseguindo conciliar direito minha vida profissional com meus compromissos sociais?

— Lógico que está! Só que me parece cansado.

— Pode ser, Christy, mas é bom que você saiba que também estou muito feliz. Essa semana foi uma das melhores que já passei em toda a minha vida.

Deitada em sua cama, com a luz da lua inundando o quarto, Christy não conseguia pegar no sono. Tentando pensar no passado, chegou à conclusão que tivera poucos momentos como aquele que passou com Mark, na sala. Poucas vezes foi abraçada e beijada, e nunca daquela maneira. O episódio romântico com Sandor tinha existido inteiramente na sua cabeça, não foi algo concreto.

Estava deslumbrada com o que havia acabado de acontecer entre ela e Mark. Ele sabia como envolvê-la num clima de desejo. Tinha certeza que ter um filho com ele não seria muito difícil, mas teria que tomar bastante cuidado, para não se esquecer que ele fazia aquilo somente por causa da combinação que existia entre eles. Precisava não confundir as coisas.

Mark estava representando sua parte na comédia e, por sinal, representava maravilhosamente bem. Aprenderia muito com ele no próximo ano.



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