Amor com Hora Marcada Contract for marriage



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CAPÍTULO X

Frequentemente, Christy se perguntava se já não estava grávida. Será que sentiria alguma coisa? Será que existia alguma misteriosa telepatia que lhe anunciaria a nova vida, sem que precisasse recorrer a um médico?

Numa noite, enquanto arrumava a mesa do jantar, Mark lhe disse que não estava se sentindo muito bem. Ele foi sentar numa poltrona e fechou os olhos. Christy notou que estava com os ombros tensos, e o rosto cansado e teve vontade de correr para lhe fazer uma massagem. Mas algo a impediu. Não conseguia mais ser natural.

Pegou a correspondência que tinha chegado naquele dia e sentou-se ao lado dele: uma carta bancária, uma conta, dois pedidos de donativos e uma propaganda de um estúdio fotográfico. Christy abriu o envelope e pegou a folha que anunciava uma semana de descontos para quem mandasse um filme para o tal estúdio. Uma foto colorida de um menininho ilustrava a carta-proposta. Prendeu a respiração. Como aquele garoto se parecia com Davy! Os mesmos cabelos, o mesmo rostinho... Não, o menino da foto não se parecia tanto com Davy e provavelmente era um ou dois anos mais velho que seu sobrinho. Mas Davy teria aquele rostinho se chegasse a completar quatro anos. Meu Deus, será que pelo resto da vida acharia todas as crianças parecidas com Davy? Tinha planejado que seu próprio filho se pareceria com ele. Ou melhor, ele deveria ser Davy. Faria o possível para que isso acontecesse.

Não, gritou uma voz possante dentro dela. Nem pense nisso. Seu bebê terá uma personalidade própria. Não tente forçá-lo a ser outra pessoa!

De repente, Christy viu que Mark a olhava estranhamente.

— Que diabos você está lendo? — perguntou ele.

— Oh, nada, apenas uma propaganda sem importância.

— Propaganda sem importância! Você devia olhar seu rosto. Deixe-me ver isso.

Relutante, Christy entregou-lhe o papel e ele abriu-o sobre o joelho. Depois de um momento, Mark a encarou.

— Será que você...

— Ainda não estou grávida, se é isso o que está pensando. Por um momento fiquei espantada com a semelhança desse menino com Davy.

— Ainda se culpando, não? — Mark pôs a mão sobre a dela.

Christy assentiu e não conseguiu falar. A morte de Davy perseguia sua vida.

— Eu entendo — disse Mark. — E acho muito bom que você ainda não tenha ficado grávida.

Christy libertou sua mão. Tinha a sensação de que algo parecido com choques elétricos corriam por sua espinha.

Quer explicar o que disse, por favor?

— Calma. Não estou renegando aquele maldito acordo, mas pensei muito sobre nós durante a semana passada e acho que devíamos conversar sobre algumas coisas.

Christy engoliu em seco. Não gostava do rumo que a conversa estava tomando.

— Vamos, fale.

— Não é fácil colocar em palavras — começou Mark com sinceridade. — O que quero dizer é que quando casamos você estava emocionalmente abalada. Ainda está. Admito que eu também estava mais ou menos no mesmo barco com relação ao meu divórcio e à perda da custódia de Carol. Você acredita sinceramente que, junto com tudo isso, nós estamos preparados para termos um filho, Christy? Agora que já teve algum tempo para pensar, não acha que precisamos de alguns meses para nos prepararmos para algo que afetará o resto de nossas vidas? Tenho certeza que sim. Estar casado com você me fez perceber muito bem em que nos envolvemos. Você poderia dizer honestamente que não tem qualquer dúvida?

— Claro que tenho, mas parece que você esqueceu que nós concordamos em deixar de lado os nossos sentimentos. A primeira prioridade era providenciar uma criança para minha irmã!

— Eu não lenho certeza absoluta de que você sabe quais são as suas prioridades atualmente. Estou querendo lhe dizer que nós dois nos envolvemos numa coisa sem medirmos as consequências. Antes de aumentarmos nossos problemas, vamos dar um tempo para pensar melhor,

Pelo amor de Deus, Mark, eu confiei em você. Não posso acreditar que vai fazer isso comigo!

Mark segurou-a pelos ombros e forçou-a a encará-lo.

— Tudo o que estou pedindo é que você não fique grávida durante os próximos meses. Depois, se ainda estiver resolvida, eu cumprirei a minha parte. Foi você mesma quem sugeriu ter um ano para engravidar. Nós só estamos casados há pouco mais de dois meses.

Era difícil pensar quando ele a segurava daquele jeito, com os olhos azuis tão próximos e suplicantes.

— Está bem — disse ela, afinal, sem esconder a irritação. — Mas nada, absolutamente nada vai me fazer mudar de ideia.

— Sei que não vai se arrepender. — Mark deu um sorriso aliviado. — Além disso, há várias outras razões para adiar a gravidez. Como você sabe, este ano vai ser infernal, principalmente os seis primeiros meses. Terei que viajar bastante e, quando estiver em casa, terá que receber muitas pessoas. Por volta de junho ou julho já terei conquistado aquele cargo na Austrália e as coisas ficarão mais fáceis por aqui. Nem que seja só pelo aspecto físico, seria mais fácil para você esperar até lá.

Christy apenas concordou com a cabeça.

Diga o que quiser, pensou ela, mas você não vai quebrar nosso acordo.

Mark foi até o barzinho e serviu dois cálices de licor.

— Nem tenho palavras para lhe dizer como estou aliviado por termos resolvido isso. Nesta altura dos acontecimentos, sua gravidez me deixaria completamente confuso. Confesso que ainda não estou preparado para lidar com isso.

Quando Mark lhe deu o cálice de licor, Christy notou que a mão dele tremia um pouco.

Até aquele momento. Christy pensava que só ela tinha ficado transformada com o acordo que fizeram. Mas Mark havia dito "termos um filho", o que significava que ele também se preocupava com a perspectiva de ser pai de uma criança com a qual não conviveria. Em nenhum momento, Christy tinha pensado nos sentimentos dele em relação à criança. Parecia que aquela decisão era só dela, que ninguém mais estaria envolvido com aquele plano de dar um outro filho a Beth e Richard. Ficou chocada com sua própria insensibilidade.

Nos dias que se seguiram, Christy sentia-se como uma morta-viva caminhando pela casa. Os dois quase não se falavam, até que um dia pela manhã, enquanto comiam, Mark resolveu iniciar uma conversa:

— Quer o pote de mel?

— Não, o de geléia, por favor.

Mark continuou conversando. Era quase um monólogo. Falou do tempo, do carro novo de um conhecido, mas suas palavras ficavam soltas no ar. Parecia não haver mais clima para uma conversa interessante entre os dois. Finalmente ele desistiu e começou a ler o jornal, jogando as partes que não lhe interessavam no chão. Christy não se conformava por ele ser tão desorganizado em certas coisas.

Paciência, pensou. Seria melhor não dizer nada e esperar até que ele fosse para o trabalho para pegar o jornal do chão.

— Ah, você gostaria de ir para Los Angeles de avião, amanhã, comigo? — Mark perguntou de repente. — Vai haver uma reunião de executivos da empresa. Poderíamos ir amanhã cedo e voltar no dia seguinte. Espero que queira me acompanhar desta vez.

Christy ficou surpresa. Mark nunca a convidava para participar de encontros com seus colegas. Eles sempre recebiam clientes, e este era o único contato que Christy tinha com a vida profissional de Mark. O que ele estaria tramando? Mesmo sem saber o que se passava na cabeça dele, respondeu:

— Adoraria ir com você.

— Ótimo! — Ele aplaudiu, satisfeito. — Vou fazer as reservas das passagens. Talvez você possa visitar sua irmã à tarde, enquanto eu participo das reuniões, não é?

— Seria uma boa ideia. — Realmente maravilhoso. San Fernando ficava a poucos minutos de Los Angeles. Seria uma ótima oportunidade para conversar um pouco com Beth.

Mark saiu de casa assobiando, deixando Christy mais intrigada ainda. Ligou para Beth, mas ela tinha uma reunião inadiável com as esposas dos professores da faculdade, na tarde do dia seguinte, e infelizmente não ia poder vê-la. Mas tia Martha, louca de saudades da sobrinha, a convidou para almoçarem juntos.

Mark estava muito falante durante o percurso de carro ate o aeroporto, mas, quando se acomodaram no avião, retirou alguns papéis de sua pasta e os estudou até Los Angeles, trocando apenas poucas palavras com Christy. Uma ou duas vezes ele olhou para ela e sorriu. Na última, disse com voz doce:

— Escute, nós dois tivemos algumas discussões nesses dias, mas vamos esquecê-las, está bem?

Talvez Mark se referisse àquela discussão a respeito da gravidez. Christy ainda se sentia um pouco contrariada com a proposta dele. Por outro lado, sabia que tinha agido de forma egoísta durante todo o tempo. Já estava mais do que na hora de considerar os sentimentos de Mark, as necessidades dele. Era um homem sensível e, de vez em quando, ela tinha certeza que o magoava. Talvez Mark encarasse aquela viagem como uma espécie de ponto final nos erros e tristezas que os envolviam, um novo começo para eles. Se fosse isso. Christy estava disposta a colaborar.

Quando chegaram a Los Angeles, Mark alugou um carro para ela, e depois tirou um convite do bolso do paletó.

— Este convite é para um coquetel que vai acontecer às sete horas da noite, na suíte presidencial. Depois haverá um banquete. Vamos nos encontrar em nosso quarto, a tempo de irmos juntos para lá, certo?

Ele chamou um táxi para levá-la até o hotel onde também já tinha feito reservas e Christy saiu do aeroporto de carro.

Coquetel! E ela só tinha trazido um vestido preto, curto. Será que daria para usar? Seria apropriado para a ocasião?

Como sempre, tia Martha estava alegre e jovial. Assim que a viu começou a desfiar uma série enorme de novidades sobre alguns amigos comuns e prosseguiu assim por todo o almoço.

No fim da tarde, olhando o relógio, Christy resolveu trocar de roupa para voltar pronta para Los Angeles.

— Você não trouxe nenhuma outra roupa? — perguntou tia Martha, olhando o vestido preto com olhos críticos. — Acho que esse coquetel será muito chique, pois senão não estaria marcado na suíte presidencial do hotel.

Christy quase desmaiou. Por que Mark não a havia prevenido? Não podia nem sequer pensar em pedir emprestado um dos vestidos da tia, pois usavam manequins diferentes. Bem, podia ser coisa de tia! Ela já tinha ido a festas com aquela roupa e nunca fez feio.

— Olhe, ponha isso. As jóias sempre ajudam. — Tia Martha lhe entregou um lindo colar de pérolas.

— E como vou lhe devolver, tia Martha?

— Vou visitar você qualquer dia desses. Enquanto isso, vá usando o colar, certo?

Assim que pegou a estrada, Christy notou que não chegaria a tempo para ir com Mark para o coquetel. O trânsito estava horrível e, para piorar a situação, quando chegou em Los Angeles, tomou uma avenida errada e se atrasou ainda mais.

Eram sete e quarenta e cinco quando pegou a chave do quarto no balcão de entrada do hotel. Mark devia estar furioso. Não o encontrou mais no quarto, apenas um bilhete dele dizendo ter telefonado para tia Martha e já ter ido para o coquetel. Pedia para que Christy fosse encontrar com ele lá.

Aliviada, ela retocou a maquilagem rapidamente e tomou o elevador para a suíte presidencial. Como a porta estava aberta, foi entrando. Devia ter umas vinte pessoas lá dentro, e todas as mulheres usavam longo. Um trio tocava uma música discreta.

Mark estava de costas, falando com uma mulher alta, de idade entre os trinta e os quarenta anos. Seus cabelos negros estavam presos num coque, e tinha um rosto interessante e atraente. O vestido coral, talvez de seda chinesa, modelava seu corpo de forma provocante. A mulher parecia muito interessada na conversa de Mark.

Christy ficou parada perto da porta. Ninguém parecia notar sua presença. O que fazer? Mark era a única pessoa conhecida, mas parecia muito entretido na conversa para ser interrompido. Estava sem graça, desambientada e com vergonha de seu vestido curto. Talvez fosse melhor sentar, antes que a confundissem com alguma criada.

Olhou em volta tentando descobrir quem seria o anfitrião. De repente Mark virou, sorriu e fez um pequeno gesto, cumprimentando-a.

— Que bom que chegou — disse ele de longe, voltando em seguida a conversar com a mulher.

Christy continuou parada no mesmo lugar. Passou um garçom e perguntou-lhe se podia lhe servir alguma coisa. Notou que todos na testa tomavam ou Martini ou uísque, mas resolveu pedir um vinho branco.

Quando o garçom lhe trouxe o cálice, Christy sentou-se num sofá para observar as pessoas. Tinha acabado de provar o vinho quando um rapaz muito bonito sentou a seu lado. Embora não tivesse mais de vinte e um anos, era um dos homens mais bonitos da festa.

— Eu a vi assim que entrou — comentou ele. — como poderia não ter visto, não é mesmo? Você é a moça mais linda desta sala. — Seus olhos reforçavam aquele elogio. — Resolvi me aproximar o mais depressa possível. O que está bebendo?

— Vinho — respondeu Christy, sorrindo para aquele jovem que tinha acabado de fazer um enorme bem no seu ego.

— Vinho, quando poderia estar tomando uísque?

— Moro no norte da Califórnia. Tenho que prestigiar a produção local.

— E você é uma grande conhecedora de vinho?

Para dizer a verdade, nem sei distinguir direito um vinho branco de um rose — confessou ela, sorrindo.

— Nem eu. Meu fraco é uísque. Ah, e meu nome é Jeremias. Meus pais estão promovendo este coquetel. Meu pai é o novo diretor nacional da Associação dos Executivos. Você o conhece, não?

— Não conheço ninguém além do meu marido. Sou Christy Brandon — disse ela, talvez um pouco tarde demais,

— Você é a mulher de Mark Brandon! Pensei que ainda estivesse na faculdade. Eu devia saber que Mark casaria com uma garota de classe como você.

— Bem, obrigado, mas estou me sentindo como uma ave frágil no meio de pavões.

— As pessoas aqui desta sala são personagens da farsa social. Para falar a verdade, você é a única pessoa real aqui dentro.

Jeremias pegou-a olhando para Mark.

— Seu marido está tendo trabalho para conseguir convencer Úrsula St. James a aceitar sua proposta.

— Quem é essa tal Úrsula? — Christy quis saber.

— Úrsula St. James é uma advogada muito importante de Washington. A tarefa do seu marido é convencê-la a se tornar uma representante da associação. Parece que está conseguindo. Mark e Úrsula estão juntos desde a hora do almoço e acho que ela está adorando cada minuto da conversa.

— E você também tem alguma tarefa?

— Infelizmente sim. — A voz dele ficou amarga. — Observe com atenção. Você está vendo Jeremias Arlington III em pleno processo de lavagem cerebral, aprendendo a dirigir, mandar, aprendendo o que fazer para uma organização funcionai.

— Parece interessante — disse Christy. simpática.

— Talvez. Papai é dono das três maiores companhias de equipamentos de aluguel do Texas, alugando só maquinaria pesada. Você sabia que um Caterpillar D-9 custa cento e cinquenta mil dólares? Papai tem sessenta tratores desses e me lembra isso diariamente.

Christy não sabia absolutamente nada sobre maquinário, mas concordou.

— Ele dirige o negócio com todo o fervor de um fanático religioso — continuou Jeremias. — Nenhuma decisão jamais é tomada sem considerar o efeito que vai causar em J.B. Arlington.

— Você trabalha com ele? — perguntou Christy, olhando mais uma vez na direção de Mark e da srta. St. James.

— Ainda estou na faculdade, mas devo assumir o lugar de meu pai quando ele se aposentar. O processo de sucessão está no auge. E então, o que você acha?

Christy gostaria de poder escutar a conversa de Mark e Úrsula.

— Pela maneira como você fala, parece não estar com vontade de substituir seu pai.

— É verdade. Você me entendeu perfeitamente. — Jeremias tez uma pausa e depois continuou: — Bem, acho que devo estar lhe aborrecendo com esta conversa, mas é que dificilmente encontro alguém disposto a ouvir meus desabafos. — Ele olhou a sala. — Venha conhecer meus pais. — Jeremias pegou-a pela mão e levou-a até algumas pessoas que estavam no barzinho.

Christy conheceu os pais dele e percebeu que ele havia herdado os olhos cinzentos da mãe e o formato bonito do rosto do pai. Conversaram um pouco e depois Jeremias a levou para outros grupos, fazendo as apresentações. Alguns nomes eram familiares a Christy, pois Mark já os tinha mencionado antes. Ela olhou para onde estava Mark. Jeremias observou seu olhar e fez que não com o dedo.

— Não, não iremos ate lá. É melhor não interrompermos uma conversa de negócios.

Preparou um coquetel esquisito para Christy e insistiu para que ela provasse. Era a bebida mais forte que Christy já linha experimentado.

— O coquetel está ótimo. Só que, se eu beber, não vou conseguir sair daqui.

— Você não vai beber? Quer dizer que vai me deixar sem graça, não aceitando a bebida que lhe preparei com tanto gosto?

— Ora, eu é que ficarei sem graça se beber este coquetel.

— É, você tem razão. Que tal dançarmos um pouco, então?

Jeremias levou-a para perto dos músicos, abraçou-a e começaram a dançar uma música com muito balanço.

O que ela estava fazendo ali com aquele rapazinho? Gostava muito de dançar, mas será que a mulher que conversava com Mark a estava achando ridícula para dançar com um garoto? Felizmente outros casais também estavam dançando! Jeremias abraçou-a com mais força e encostou o rosto no seu. Christy relaxou e começou a entrar no ritmo da música.

Seria ótimo se Mark pudesse perder um pouco de tempo para dançar comigo, pensou. Bem, pelo menos ele não estava dançando com aquela tal de Úrsula.

Minutos depois, Christy notou que Mark olhava para ela disfarçadamente.

— O que você acha dos raios gama? — perguntou ele de repente. Céus! Será que estava tão distante assim da geração dele? Não sabia se Jeremias estava se referindo a algum conjunto de rock ou a algum fenômeno científico!

— Vamos procurar alguma coisa boa para fazer? — disse ele quando a música terminou. — Vou levá-la ao Pedro's, já está quase na hora do banquete. Aposto que não está com vontade de ouvir o discurso que meu pai fará depois do jantar e eu também não estou.

— Mas seus pais não esperam que você fique?

— Provavelmente, mas já está na hora de eles saberem quais são meus planos para o futuro.

— Como assim?

— O mundo dos negócios terá que se virar sem Arlington III. Não quero uma parte nessa hierarquia. Vou me excomungar.

— Agora? Mas você ainda não está na faculdade?

— Tranquei a matrícula. Isso causará algumas confusões em casa, mas não estarei aqui para saber. Vou para a Europa a semana que vem, passear algum tempo. — Os olhos dele pareciam preocupados. — Preciso me encontrar, Christy. Ainda não sei quem eu sou.

— Bem, divirta-se, mas não tenha certeza de que vai se encontrar lá — comentou Christy. — Geografia não tem nada a ver com isso.

— No momento, não estou muito interessado em fazer grandes análises sobre a minha vida. O que acha de irmos ao Pedro's?

Christy estava espantada. Será que Jeremias acreditava mesmo que iria com ele?

— Obrigada, mas pretendo ir ao banquete com Mark.

— Oh, vamos. Ele nem vai sentir a sua falta. Está com outras coisas na cabeça. Olhe, ele vem vindo. Pergunte a ele.

— Não vou, Jeremias, mais uma vez obrigada — disse ela com firmeza.

Mark se aproximou e os três ficaram conversando durante alguns minutos. Jeremias fez um gesto de despedida.

— Ainda vou ficar por aqui mais um pouco. Se mudar de ideia, o convite ainda está de pé — insistiu ele.

— Que convite? — perguntou Mark, quando iam para o elevador.

— Oh, ele queria nos levar para um lugar chamado Pedro's — explicou ela, diplomaticamente passando o convite para o plural.

— Pedro's! É uma discoteca frequentada pela criançada da universidade!

— Acredite ou não, mas ele pensou que eu era uma estudante. — Christy não conseguiu deixar de rir.

Mark franziu as sobrancelhas. Ele não parecia ter achado nada engraçado.

Tomaram seus lugares na mesa principal da sala do banquete. Os outros convidados chegaram e a srta. St. James sentou-se à esquerda de Mark e fez as apresentações. Ela cumprimentou Christy com voz agradável. Tinha um leve sotaque de Boston e a aparência da executiva eficiente, acostumada a ter almoços discretos com senadores importantes. Logo depois, Úrsula e Mark continuaram a conversa e Christy achou que não devia interrompê-los. Resignou-se a não ter o monopólio da companhia de Mark durante o jantar.

Estava acabando de comer uma deliciosa costela quando sentiu falta do colar. Assustada, olhou em volta da cadeira que estava ocupando.

— Tia Martha me emprestou o colar hoje — explicou para Mark. — É uma jóia valiosa, tenho certeza de que estava com ele quando cheguei ao hotel, melhor eu ir imediatamente verificar todos os lugares por onde passei.

— Quer que eu vá com você? — perguntou Mark, depois de ajudá-la a procurar em volta da mesa.

— Se você sair agora, não causará uma boa impressão. Voltarei logo que puder.

Christy saiu por uma porta lateral e correu para o elevador. O mais provável para ter perdido o colar era enquanto dançava na suíte presidencial que a família Arlington estava ocupando.

O rosto de Jeremias iluminou-se quando ela abriu a porta.

— Ótimo! Você resolveu aceitar o convite, afinal.

— Oh, não — disse ela e contou sobre o colar.

— Eu estava aqui quando os empregados fizeram a limpeza e tenho certeza de que não encontraram o colar — ele disse. — Você precisa é de um drinque.

— Não queria beber nada. — Vendo o rosto vermelho de Jeremias, achou que ele também não devia beber nada.

De repente, ele a segurou pelos ombros e beijou-a.

— Você está muito chateada, não é, Christy?

— Sim, estou. — Aquele beijo deixou Christy perturbada. — O colar não é meu. Sinto-me responsável.

— Acalme-se, daqui a pouco a gente torna a procurá-lo. Aposto que vamos encontrá-lo. Vamos com calma, menina. Papai ainda vai discursar no mínimo uma hora e depois virão as inevitáveis perguntas e respostas. Está tudo sob controle.

— Sob controle? — Christy estava ficando impaciente e não gostou do que ele estava insinuando.

— Claro. Temos quase duas horas para nós e você sabia disso, não? — Jeremias passou um braço em volta da cintura dela.

Christy estava tonta. Será que ele estava pensando que tinha voltado por sua causa?

— Por favor, Jeremias — disse ela, afastando-se.

— Mark não espera que você volte. Nem que seja só por motivos comerciais ele ainda deve estar sob domínio de Úrsula.

Christy tentou ignorar aquele comentário e foi para a porta, Jeremias seguiu-a e abraçou-a.

— Você não precisava inventar a desculpa do colar. Eu também queria isso — Jeremias beijou-a outra vez. Christy empurrou-o.

— Você está completamente enganado. Não estou interessada nesse tipo de coisa. Eu sou casada.

— Claro. Conheço seu marido. Ele é um cara incrível.

— Jeremias, eu sou casada — repeliu Christy, espantada com a franqueza dele.

— Então não gosta de mim? — Ele sorriu.

— Claro que gosto. Você é bonito, charmoso e foi muito gentil comigo. É verdade que não sou muito mais velha que você, mas parece que temos dois séculos de diferença de idade.

— Não exagere!

— Bem, para deixar claro de uma vez por todas, eu ainda sigo um princípio ultrapassado chamado fidelidade. Não sei se você acha careta, mas é assim que eu sou. Pensei que fosse o tipo de pessoa que respeitaria minha maneira de ser.

— Está falando sério mesmo, não, Christy?

— Sim, estou.

— Bem, então não se preocupe. Vamos dizer apenas que não deu certo.

— E costuma dar certo?

— Costuma. — Jeremias sorriu sem graça.

— O que aconteceu não tem que significar necessariamente o fim de nossa amizade — disse ele, enquanto a acompanhava até o elevador. — Ainda podíamos ir ao Pedro's.

— Não. E vamos esquecer de uma vez por todas o que aconteceu agora há pouco. Além disso, quero que saiba que você foi um verdadeiro amigo para mim esta noite. Eu não conhecia uma alma viva naquela festa, Mark estava "ocupado" e eu estava me sentindo mal vestida. Na verdade, estava quase indo embora quando você apareceu. Foi maravilhoso ao me fazer companhia, me apresentar para as pessoas, dançar comigo. Nunca vou esquecê-lo, Jeremias. — Christy colocou a mão no braço dele. — Boa sorte na sua viagem.

— Também não vou esquecê-la, Christy. — Ele apertou o botão para chamar o elevador e seus olhos ficaram pensativos. — Gostei muito de conhecê-la. Pude ver que tenho que acertar algumas coisas na minha vida. Uma coisa é verdadeira: não vou considerar que descobri quem sou eu até ter certeza dos meus valores como você tem dos seus. — Jeremias abaixou a cabeça e beijou-a levemente, depois colocou o colar na sua mão. — Encontrei-o embaixo de uma almofada e, caso esteja interessada, fiz uma aposta comigo mesmo de que você não ficaria comigo, nem aqui nem no Pedro's, apesar de eu ser uma pessoa muito interessante.

Enquanto descia pelo elevador, Christy resolveu não voltar para o banquete. Provavelmente Mark não queria dividir sua atenção com ela. Entretanto, achava estranho que, depois de insistir tanto para que o acompanhasse, Mark não tivesse lhe dado nenhum pouco de atenção.

Já no quarto, tomou um banho demorado e vestiu um robe de cetim, uma peça do seu enxoval que nunca tinha usado. Depois sentou-se na frente da penteadeira e começou a se lembrar dos acontecimentos daquele dia estranho enquanto escovava os cabelos. Alguns minutos depois Mark entrou e parou atrás dela. Colocou a mão no ombro e seus olhos se encontraram no espelho.

— Você está linda!

Christy sorriu e afastou os cabelos do rosto.

— O banquete terminou?

— Não, mas eu saí logo depois do discurso. Comecei a sentir claustrofobia. Sabia que ia encontrá-la aqui. — Mark tirou um pacotinho do bolso e colocou-o no colo de Christy. A caixinha dourada tinha a etiqueta da joalheria mais famosa da cidade.

— Mas hoje não é meu aniversário — Christy protestou, começando a abrir a caixa.

— Eu sei, só que tive vontade de lhe dar um presente.

Eram brincos de pérola, realçados pelo veludo vermelho.

— Que lindos! As primeiras pérolas verdadeiras que tenho! — gritou Christy. Colocou os brincos nas orelhas, tão emocionada que nem conseguia falar. — São lindos, mas Mark...

— Mas Christy — imitou ele, depois ficou sério. — Acho que estou tentando lhe dizer uma coisa, mas não sou muito bom para isso. A verdade é que foi muito importante ter você comigo neste encontro de negócios. Sei que não vai acreditar depois do que aconteceu hoje.

— Bem, confesso que tive uma impressão muito diferente.

— Entendo o que você sentiu, mas normalmente esses encontros são assim mesmo. — Mark sentou-se perto de Christy e pegou sua mão. — Não sei explicar muito bem, mas só o fato de saber que você está comigo me deixa mais seguro, me dá uma sensação de ser apoiado. Isso faz algum sentido? E esta noite, quando a vi na festa dos Arlington, não consegui parar de pensar: "Aquela moça bonita que está ali é minha mulher!" Fiquei tão orgulhoso de você!

— Ora, Mark, que gentileza! — A voz de Christy estava rouca e ela sabia que acabaria chorando se ele dissesse mais uma palavra.

Mark puxou os cabelos de Christy para trás das orelhas para ver melhor como os brincos tinham ficado.

— Exatamente como imaginei que ficariam em você — disse ele, notando em seguida que ela estava com os olhos brilhantes. — Ei, que reação é essa?

— Desculpe, só estou emocionada. — Mark era um enigma. Ele sempre dava a impressão de ser tão auto-suficiente, de pertencer a um mundo completamente diferente do dela! E, de repente, ele a surpreendia com sua sensibilidade, como se estivessem em perfeita sintonia. A surpresa que lhe tinha feito com o piano, por exemplo. — Você é tão gentil, Mark — sussurrou ela, enxugando os olhos.

— Você está bem?

— Estou. — Seu coração estava muito cheio para dizer mais alguma coisa.

Mark foi tomar banho. Christy folheou uma revista, sem conseguir ver uma única página. O que era tudo aquilo? Ele estaria se sentindo culpado por tê-la deixado sozinha naquela noite ou havia falado sério? Christy tinha certeza de que ele nunca fora tão sincero. Era como se Mark tivesse dito que precisava dela.

Ele voltou alguns minutos depois de pijama, ainda enxugando a cabeça.

— Está se sentindo melhor? — perguntou ela.

— Muito melhor.

— Missão cumprida, então?

— Úrsula St. James assinou um contrato esta noite, se é isso o que está querendo saber.

— Ela é uma mulher muito bonita.

— E dura. A associação teve sorte de conseguir contratá-la. Você achou o cotar?

— Eu o tinha perdido no coquetel. Jeremias o encontrou.

— Ele ficou seu amigo mesmo, não? — perguntou Mark com um tom cínico na voz.

— Oh, você percebeu?

— Posso apostar que sim.

— Ele foi tão gentil comigo.

— Eu percebi. Acho que ele não sabe danem direito, mas você parece ter gostado.

— Tudo é uma questão de negócios, não é? — replicou Christy cinicamente. — As esposas dos executivos devem ser gentis com os filhos do presidente da associação. Certo?

— Bem, da próxima vez, prefiro que você evite aquele moleque, senão vou precisar enforcá-lo.

Mark estava ridículo, apertando a toalha com força e andando pelo quarto de um lado para o outro. Christy não pôde deixar de rir.

— Oh, Mark, não me venha dizer que ficou irritado por causa de Jeremias. Ele é apenas uma criança inofensiva! — Ainda rindo, ela pegou uma almofada que estava na espreguiçadeira e atirou sobre Mark.

— Ah, então você quer lutar, não é? — disse ele, fingindo estar bravo.

Gargalhando, Christy contornou a espreguiçadeira e saiu correndo pelo quarto com Mark atrás. De repente, ela tropeçou e caiu na cama. Ele se jogou sobre ela e começaram uma luta divertida, entremeada de pequenas mordidas e tapinhas leves. Deus, eles pareciam duas crianças! Mark segurou o rosto de Christy forçando-a a olhar diretamente nos seus olhos. Ela parou de rir, de mexer com as mãos e fechou os olhos quando ele a beijou suavemente no início, mas depois com urgência.

— Posso fazer um comentário? — Mark perguntou minutos depois de terem acabado de fazer amor.

— Só se for sincero — murmurou Christy, puxando um lençol e se aninhando mais nos braços dele.

— Serei honesto. Você é maravilhosa, Christy, e eu tenho uma proposta para lhe fazer: a partir de agora podemos romper todas as barreiras que existem entre nós e partirmos para um relacionamento bom e sadio. — Mark beijou a testa dela e continuou: — Ou então continuaremos a nos magoar, como tem acontecido.

— Acho que você está querendo dizer: faça o amor, não a guerra.

— Sim, é isto o que estou querendo dizer. O que você acha?

— Acho que é uma boa frase para um pôster.

— Também acho, sua chata. Vamos adotá-la?

Oh, sim, Mark, sim! pensou ela, mas não disse nada. Apenas o beijou. Será que aquele beijo o satisfaria? Ela esperava que sim.

Alguns segundos depois, Christy percebeu que Mark dormia.

Ela faria tudo para que aquela noite não terminasse jamais. Queria continuar nos braços de Mark para sempre... Para sempre. Mark esperava ter um relacionamento bom e sadio com ela, mas não para sempre. Com certeza ele desejava viver bem com ela até o fim do contrato que os unia... Não, Mark não tinha proposto um fim e nem havia mencionado o contrato que era um bom sinal. Esperançosa, Christy tocou os brincos de pérola para que eles lhe trouxessem sorte, muita sorte...



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