Amor com Hora Marcada Contract for marriage



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CAPÍTULO XI

Na semana seguinte, Mark leve que ir para Oregon resolver uns problemas da companhia.

Assim que ele foi embora. Christy começou a contar os dias que faltavam para o seu regresso. Sabia que não podia ficar se atormentando com a ausência dele e por isso foi para o piano. Por mais que tentasse, suas mãos pareciam rígidas demais para os exercícios.

Subiu para escrever para Beth e Richard, mas acabou telefonando para a irmã. Richard estava bem. Tinha sido convidado para dar uma conferência em Washington e Beth falou com animação de suas atividades de voluntária no hospital infantil, junto com crianças convalescentes. Christy percebeu como a voz de Beth tremia quando falava de algumas das crianças. Não havia dúvidas: Beth precisava de um filho urgentemente.

Desceu e começou a mexer nos móveis, nas gavetas, à procura de algo que não sabia exatamente o que era. De repente, numa das gavetas, encontrou um cartão escrito com a letra de Mark. O que seria? O'Rourke. Aquele nome lhe era familiar. Então lembrou quando Mark mencionou um grupo teatral que precisava de integrantes. Será que já era tarde demais? Sem pestanejar, pegou o telefone e ligou.

— Escola Primária Oak Knoll — falou uma voz feminina do outro lado da linha.

— Gostaria de falar com o sr. O'Rourke.

— Com o diretor O'Rourke? Pois não. Aguarde um instante.

Christy esperou um pouco.

— Ryan O´Rourke falando,

— Aqui é Christy Steele, ou melhor, Christy Brandon — começou ela, embaraçada. Meu marido disse que estava procurando pessoas para trabalhar num grupo teatral. Toco piano. Será que posso ajudar em alguma coisa?

— Brandon? É claro! Encontrei seu marido no Rotary. Ele me disse que é uma grande pianista.

— Nem tanto, mas tenho alguma experiência — disse Christy, orgulhosa por Mark ter falado bem dela.

— Fabuloso! Por sorte estamos precisando de uma pianista para a nossa peça. A pessoa que trabalhava conosco teve que ir para o sul da Califórnia.

— Gostaria de saber quanto tempo o grupo costuma ensaiar.

— A gente se reúne à noite, duas vezes por semana, no auditório da escola. Mais tarde precisaremos de mais reuniões por causa dos números musicais e de dança, mas aí você combina os horários conforme puder.

Christy sabia como os ensaios de teatro costumavam demorar, e por isso falou:

— Talvez fosse melhor eu conversar com meu marido primeiro.

— Imagine! Tenho certeza que ele não vai colocar nenhum obstáculo — replicou O´Rourke. — Percebi que está louco para que você encontre uma forma de mostrar seu talento. — Ele fez uma pausa e depois continuou: — Não sei se seu marido lhe falou, mas o trabalho é voluntário. Tudo bem?

— Ah, claro, isso não é problema.

— Bem, então está combinado. Vou lhe levar as músicas da peça esta noite para você ter uma ideia. A que horas posso ir até sua casa, e qual o seu endereço?

Aquele tal O'Rourke estava indo rápido demais na opinião de Christy, mas, mesmo assim, marcou o encontro num horário conveniente para os dois.

Exatamente às oito horas da noite a campainha tocou. O gigante loiro barbudo à sua porta não parecia nem remotamente com a imagem mental que Christy fizera de Ryan O'Rourke. Só o identificou pela voz.

— Sr. O'Rourke, é claro. Entre — ela convidou.

O'Rourke devia ter uns trinta e cinco anos. Era simpático e tinha um corpo lindo.

— Me chame de Ryan — pediu ele, olhando-a dos pés à cabeça e depois examinando a sala. — Vocês têm uma sala agradável.

— Apenas o piano e os livros são nossos — ela explicou. Pensou que ninguém se preocuparia em comprar móveis só por um ano, mas Ryan não tinha que ficar sabendo daquelas coisas. — Posso lhe servir um café? Uma bebida, talvez?

— Mais tarde, quem sabe. — Caminhou até o piano e abriu a partitura que havia trazido. — Vamos trabalhar um pouco em cima de Catherina. — Indicou um lugar para ela a seu lado no banco e tocou alguns acordes agressivos. — Que instrumento bom! Eu toco um pouco de violoncelo, mas não sou pianista.

— Fale um pouco desta composição — pediu Christy.

— Bem, ela foi escrita por dois estudantes de música e é baseada na família de S. Bach.

— Que interessante!

— Como você deve saber, os filhos de Bach foram muito famosos na Europa, mas a premissa do espetáculo é que sua filha mais velha, Catherina, é que era realmente um gênio.

— Mas pelo fato de ser mulher...

— Exatamente! Pelo fato de ser mulher teve que ficar em casa cuidando das crianças.

A música intrigou Christy profundamente. Era uma maravilhosa mistura de barroco e rock. Enquanto ela tocava a partitura, Ryan ia cantando as partes com letras, preocupando-se em dar uma boa interpretação.

Christy ficou encantada com a obra. Quando terminou, disse a Ryan que também tinha admirado muito a interpretação dele.

— Oh, a atuação é só um dos meus vários talentos. Peca-me para fazer qualquer coisa, e eu a farei direito. Mas não se esqueça: antes de mais nada, sou um professor.

Você é muito convencido, meu amigo, pensou Christy.

— Onde está Mark? — perguntou Ryan de repente.

Christy ficou estranhamente sem graça para explicar a ausência do marido. Não tinha pensado nele durante toda noite e sentiu-se culpada.

— Será que aquele drinque que você me ofereceu ainda está de pé? — disse Ryan, olhando-a muito interessado, como se pretendesse colocá-la numa classificação particular.

Christy serviu um cálice de vinho para ele e para ela. Enquanto bebia pensou se Mark ficaria bravo se viesse a saber que ela estava tomando vinho em companhia de um lindo estranho, quase à meia-noite.

O Grupo Cívico e Teatral San Felipe era composto por estudantes e outras pessoas que, como Ryan, tinham uma grande paixão pelo palco. Christy logo se sentiu à vontade com o grupo. Estava feliz por fazer parte dele.

No segundo encontro, Geoff, o ator principal, pediu que ela treinasse com ele seu primeiro solo antes que Ryan desse início ao ensaio.

— Esse não é o seu tom — disse Christy, quando terminaram a música. — Vamos tentar agora num tom mais baixo.

— Puxa, que diferença! — Geoff se admirou, depois de ter terminado de cantar novamente.

— É, Christy tem bastante experiência. Ela dá uns palpites excelentes — comentou um dos atores que estava por perto.

Christy ficou vermelha com aquele elogio.

— Olhem, ela ficou vermelha! — exclamou Geoff.

— Sou uma pianista muito tímida — ela replicou, ainda mais sem graça.

— Uma garota bonita e inteligente. Isso é muito difícil de se encontrar hoje em dia — disse -Ryan, antes de começar o ensaio.

Durante o intervalo para o café, Karen, que iria fazer o papel de Catherina, sentou-se no banco do piano, ao lado de Christy.

— Será que você poderia me fazer um favor, Christy?

— Mas é claro. Qual é?

— Ryan quer acrescentar um número de dança depois da minha canção; alguma coisa meditativa, triste, pois os irmãos de Catherina recebem toda a instrução musical que querem e ela só pode assistir às migalhas das aulas porque tem outros afazeres. Estive pensando numa coreografia e achei que talvez você pudesse bolar um arranjo para acompanhar meus movimentos. Observe.

Karen se levantou, foi para o meio do palco e começou a dançar com gestos delicados e livres. Christy imediatamente tocou alguns acordes ao estilo das pavanas do século dezesseis, e todo o teatro ficou mudo de repente.

— Está errado! — gritou Ryan da plateia.

— Mas é um solilóquio. Ryan. E eu conseguirei expressar melhor as angústias da minha personagem se utilizar de alguns movimentos do bale moderno.

O grupo parecia concordar com o argumento de Karen.

— Karen está certa — disse uma garota chamada Margô. — Os movimentos livres conseguem expressar as emoções muito melhor.

— Mas o que é isso? — Ryan olhou para o grupo. — Catherina é de uma época quando as mulheres viviam sob regras de conduta muito rígidas. Por isto, neste ponto da história precisamos mostrar os sentimentos dela através dos movimentos disciplinares do bale clássico. — Ele fez uma pausa e depois continuou: — Mais tarde, quando ela resolver os problemas da vida dela, aí, sim, poderemos usar o bale moderno.

Depois de muita discussão e de algumas brincadeiras, todos voltaram ao ensaio.

Quando chegou em casa, Christy ficou até de madrugada ao piano, exercitando a música que Karen ia dançar. Sentia-se tão bem de ter entrado no grupo! Estava tão feliz por poder participar de um espetáculo criativo, ao lado de pessoas talentosas e cheias de boa vontade! Já na cama, deu graças a Deus por Mark ter sugerido que ela procurasse Ryan O'Rourke.

Na manhã seguinte, acordou com dor de cabeça. Devia ter comido alguma coisa estragada, pois tinha sentido um pouco de náusea no dia anterior... De repente, uma intuição terrível a assaltou. Correu no calendário e viu que sua menstruação estava atrasada... Oh, Deus, o que Mark ia dizer?

Por favor, meu Deus. Não posso ficar grávida agora. Mark ficaria furioso!, rezou ela, voltando para a cama.

Mais tarde procurou um ginecologista na lista telefônica e escolheu um cujo primeiro nome também era Mark. Marcou uma consulta para a semana seguinte, pois queria dar um tempo para ver se a menstruação não chegava normalmente.

No dia da consulta teve medo e quase não foi. Mas uma força interior a impeliu a encarar os fatos de uma vez por todas.

O dr. Mark Hamilton confirmou suas suspeitas e receitou alguns comprimidos para náusea. Segundo o médico, estava no primeiro mês de gestação, o que significava que teria a criança dentro do prazo do seu contrato com Mark.

Quando Christy tinha pensado em ter aquele bebê para preencher o lugar que Davy deixara vago nas vidas de Beth e Richard, imaginou que ficaria louca de alegria quando engravidasse. Mas agora uma tristeza incrível tomava conta do seu coração. Será que teria coragem de dar a alguém a criança que seria parte dela e de Mark? Não seria tão fácil!

Mark ligou naquela noite e disse que voltaria no domingo. Contaria a ele assim que chegasse? Não, não contaria. Talvez fosse melhor esperar um momento mais apropriado.

No sábado à noite, já era bem mais de onze horas quando o ensaio terminou. Ryan resolveu pedir pizzas e cervejas num restaurante próximo e Christy, mesmo não suportando provar nenhuma espécie de bebida ou massa, ficou com os companheiros, já eram mais de duas horas da manhã quando Ryan a levou de volta para casa.

— Você esteve quieta esta noite — ele comentou. — Parece cansada. Tenho uma casinha à beira-mar e se você e Mark quiserem mudar um pouco de ares, eu a emprestaria a vocês com enorme prazer.

— Obrigada, Ryan, mas só estou cansada por causa do ensaio desta noite. Você é sempre tirano assim com os atores? .

— Não. Sou mais enérgico com as crianças da minha escola.

— Pobres crianças!

Ele virou a esquina do quarteirão de Christy e parou em frente a casa.

— Escute, você não me parece muito bem — ele insistiu, antes que Christy saísse do carro. — Será que existe alguma coisa que eu possa fazer?

— Não, só estou cansada. Não dormi bem esta noite.

— Bem, então cuide-se, boneca — disse ele, beijando-a no rosto.

Boa noite, Ryan.

Quando entrou na casa escura, teve que se equilibrar para não cair. Estava completamente tonta. Talvez fosse melhor deitar no sofá. Não tinha coragem de subir até o andar superior.

De repente a luz do andar de cima acendeu, e Mark desceu a escada rapidamente.

— Meu Deus. Christy, onde esteve até agora? Já estava pensando em telefonar para a polícia.

Christy colocou a mão na cabeça.

— Bem, Mark, você me disse que só chegaria amanhã.

— Amanhã! Você não recebeu o bilhete que lhe mandei? Como não pude lhe telefonar esta manhã, pedi ao balconista do hotel que lhe enviasse um bilhete pelo correio.

Christy balançou a cabeça. Não tinha olhado na caixa de correspondência. Mark foi até o jardim e trouxe o bilhete, mostrando-o com olhos acusadores.

Desculpe, Mark. Estive muito ocupada.

— Tão ocupada que não teve tempo nem para dar uma olhada na caixa de correspondência?

— Mark. Eu falei para você ao telefone, não se lembra? Entrei como pianista naquele grupo teatral. Ensaiamos até agora.

— Grupo teatral! — Mark parecia furioso.

— Por favor, Mark, foi você mesmo quem sugeriu que eu me filiasse ao grupo. Você me deu o telefone do diretor, lembra-se?

— Bom, mas eu não sabia que você iria transformar esse grupo na coisa mais importante da sua vida!

— Mas eu não o transformei! Você, a casa, seus clientes também são importantes para mim!

— Não sei, não. Christy, não sei, não!

— Escute, por três meses eu trabalhei nesta casa como uma escrava, mantendo tudo limpo e brilhando. Por três meses procurei fazer pratos deliciosos para os nossos convidados. Adorei fazer isso tudo. Foi muito importante para mim. Só que isso não me basta, entende? Como você mesmo disse, sou uma pianista. A música faz parte de mim. Adoro o que estou fazendo no grupo. E, além do mais, você passou três semanas fora, e não tem o direito de ficar bravo só porque, quando chegou, eu não estava em casa. Não reclamei quando você viajou!

— Acho melhor você sentar. Está muito pálida e transtornada. — Seu tom de voz era gelado. — O que prefere para acalmar os nervos, uma xícara de café forte ou um cubo de gelo?

Mark continuava nervoso, e agora estava querendo ser irônico. Christy sentou-se numa poltrona, sentindo a sala girar ao seu redor.

— Mark escute. Não estou transtornada e nem com os nervos abalados. A verdade é que... — Não conseguiu continuar. Tinha que ir ao banheiro. Imediatamente correu e conseguiu chegar a tempo para vomitar no vaso.

Depois tomou um banho, vestiu uma camisola longa e resolveu descer para contar a verdade a Mark. Sabia que ele reagiria pessimamente à notícia, ainda mais pelo fato de estar cansado e nervoso. Mas tinha que contar-lhe sobre a criança ainda aquela noite, antes que ele perdesse a confiança nela.

Quando chegou na sala, Mark estava deitado no sofá, dormindo. Não teve coragem de acordá-lo. Ele ia ficar sabendo de tudo mais cedo ou mais tarde. Ela não conseguiria esconder a sua gravidez por muito tempo.

Christy foi dormir sozinha naquela noite.



CAPÍTULO XII

A certeza de que em breve seria mãe comandava agora a vida de Christy. Tentava equilibrar a alimentação, tomava vitaminas diariamente e já pensava em comprar roupas novas, pois logo começaria a engordar.

Às vezes, se sentia como parte de um fenômeno sobrenatural e pensava em seu filho como uma reencarnação de Davy. Davy, que estaria se preparando para renascer. Davy, que brevemente voltaria para perto dos pais.

De vez em quando tinha medo que algum problema físico interrompesse a gravidez e era com muito sacrifício que conseguia tirar aquelas ideias da cabeça.

A primavera tinha chegado, e com ela toda a vitalidade da natureza. Até ficar grávida, Christy não gostava dessa estação. Tinha luz e cores em excesso! Preferia o outono, que era calmo e silencioso. Mas, agora, a primavera lhe mostrava que a natureza também ficava grávida a cada ano!

Quando Christy não estava às voltas com a gravidez, era o teatro que ocupava seu tempo e sua cabeça. Os preparativos para a apresentação estavam se acelerando.

Uma tarde, depois de ensaiar bastante com Geoff, ela trancou o auditório do teatro da escola e foi levar a chave no escritório de Ryan. Encontrou-o com um traje de mergulhador, segurando algumas ferramentas e se preparando para sair.

— Para onde vai? — perguntou ela.

— Vou para o litoral. Quer ir?

— Infelizmente não vai dar. O que pensa fazer com esse pé-de-cabra que está segurando?

— Vou caçar moluscos. Este é um dos esportes mais populares do litoral. Uso o pé-de-cabra para tirá-los debaixo das pedras submarinas.

— Moluscos? Sei que as conchas deles são usadas para fazer botões e outras coisas desse tipo. Mas com que eles se parecem?

— Parecem gomas de forma oval. São feios, mas deliciosos. Agora chega de lições de história natural. Estou louco para ir para o mar.

— Deve ser bem relaxante mergulhar.

— Se é. Parece que você está em outro mundo, quando está debaixo d'água. E existe um lugar maravilhoso para mergulho bem perto da minha casa de praia.

Naquele momento, Christy se lembrou da última carta que tia Martha tinha lhe escrito, falando de uma amiga dela, chamada Ida Travener, que havia doado uma fazenda à beira-mar ali perto para a Universidade Southern Sierra com a condição de que a propriedade fosse transformada num centro de artes. A tal fazenda devia ficar perto da casa de praia de Ryan.

— Você sabe de alguma coisa sobre um lugar chamado Rockledge, uma fazenda da família Travener?

— Claro que sim! — exclamou Ryan, — Fica perto da minha casa de praia. Tem uma casa imensa, em estilo colonial. Estudei com uma das netas da família, chamada Alicia Travener. Chegamos até a ter um namorico, mas depois ela acabou casando com um milionário. Estive naquele lugar uma porção de vezes. Por que você perguntou?

Christy lhe explicou sobre a carta de tia Martha. Ryan encostou seu equipamento na parede e seu corpo parecia elétrico de excitação.

— Conte de novo. Simplesmente não acredito nisso tudo. Você acreditaria se lhe dissesse que passei metade da minha vida pensando naquele lugar como um grande centro de artes? Você saberia dizer em que pé estão os preparativos?

— Não estou bem certa de nada. Tia Martha disse que os diretores estão entrevistando os candidatos para a equipe administrativa. Parece que o centro será financiado por uma fundação. O projeto é transformá-lo num dos centros mais importantes do país.

— Tenho que conseguir um lugar nessa equipe! — Ryan falou, tremendo de emoção. — Seria a melhor coisa que poderia me acontecer. Realizaria um velho sonho, Christy! Você acha que é tarde demais? Será que já encerraram as entrevistas?

— Não sei, mas acho que não. Acabei de receber a carta de tia Martha. Você é um candidato perfeito, Ryan, pelos seus conhecimentos de música e teatro, além de seu mestrado cm administração. Por que não manda uma carta para lá, perguntando se as inscrições para entrevista ainda estão abertas?

Ryan virou-se para a secretária que tinha ficado prestando atenção na conversa toda.

— Harriet, sei que você escutou tudo. Faça uma carta para a Universidade Southern Sierra antes de ir para casa, certo? Pergunte-lhes sobre as entrevistas e cite todas as minhas altas qualificações.

A secretária franziu os lábios em sinal de desaprovação. Harriet era uma mulher que já devia estar beirando os quarenta, e parecia ser muito eficiente, porem intrometida.

— Quer dizer que você está querendo dar o fora daqui? — perguntou ela, num tom ofendido. — Seu lugar é nesta cidade e não no litoral.

— Não faça comentários e bata a carta, madame. E não faça essa cara de mártir! Sei que você adora escrever minhas cartas.

Harriet balançou a cabeça conformada, olhando Ryan com adoração. Aqui tem coisa, pensou Christy.

Harriet bateu a carta rapidamente e entregou-a a Ryan.

— Perfeita — disse ele. — Coloque-a num envelope e leve no correio antes das cinco, que é para chegar o quanto antes. E obrigado, boneca.

Ryan e Christy saíram do escritório e foram juntos até o pátio da escola, conversando sobre o centro de artes.

Já em casa, Christy pensou no quanto seria bom para Ryan conseguir o cargo de administrador do centro. Torcia para que ele conseguisse o lugar, embora tivesse quase certeza que Harriet, a secretária, não facilitaria as coisas para ele. Será que Ryan já tinha percebido que Harriet era apaixonada por ele?

Na tarde do dia seguinte, ela e Karen passaram duas horas inteiras treinando. A sequência da dança parecia que ia ser o ponto alto do espetáculo. Christy estava contente com aquilo, pois todos prestariam atenção na música que ela mesma compôs. Depois de dançar bastante, Karen sentou-se no palco e encostou a cabeça nos joelhos.

— Não sei se esse bale vai ficar bom. Nunca dançaria essa coreografia, se Ryan não tivesse mania de ser perfeccionista.

— Ryan parece adorar desafios.

— Acho que ele deve se considerar um gênio.

— Sem dúvida — concordou Christy, sorrindo.

— Mas, no fundo, temos que concordar que ele sempre é muito bom naquilo que faz, não é mesmo? Você sabia que ele é considerado o melhor diretor de escola primária do Estado?

— Não, mas já imaginava — retrucou Christy. — O que não entendo é como ele consegue lidar com crianças, sendo solteiro. Ele é severo com os alunos, mas sei que adora cada criança da escola. Como será que Ryan consegue conciliar sua vida livre de solteiro com o amor que sente pelos alunos?

— Talvez a escola preencha o lugar de uma família — comentou Karen. — Talvez esse amor pelos alunos venha suprir ou compensar algum problema pessoal de Ryan.

— Problema? — perguntou Christy.

— É. Ryan foi vítima de uma grande tragédia, você não sabe? Alguns anos depois de ter se tornado diretor, a garota com quem ia casar morreu num acidente de carro, dias antes do casamento. Ryan dirigia o carro, mas não sofreu nem um arranhão. Acontecimentos como esse podem marcar a vida de uma pessoa para sempre.

Christy não pôde responder. Deixou sua mão correr pelas teclas do piano, num acorde dissonante, que era como um grito.

Os compromissos de Christy com o grupo de teatro felizmente não lhe deixavam muito tempo livre para pensar no clima de frieza que tinha se instalado entre ela e Mark desde o dia que ele chegou de Oregon. Queria entrar no escritório dele e lhe contar de uma vez por todas que estava grávida, mas não tinha coragem. Queria também lhe falar sobre os sentimentos que nasciam em sua alma, agora que um ser vivia dentro do seu corpo. Mas acabava deixando para outra hora, para outra ocasião, com medo da reação dele.

Na verdade, Christy ainda não entendia direito todos os sentimentos que a assaltavam, mas percebia um desejo crescente aos poucos: queria aquela criança para ela. Ao mesmo tempo, tinha medo de pensar naquilo. Talvez fosse melhor esperar a estreia da peça, quando estaria mais calma para resolver todos aqueles problemas.

Faltava uma semana para a estreia. Mark continuava trabalhando demais e quando chegava em casa se trancava no escritório, só indo dormir bem depois da meia-noite. Quase não conversavam.

Naquele dia, Christy correu para casa, depois de um ensaio com Karen, antes que os rapazes do quarteto chegassem para trabalhar com ela uma música que estavam achando difícil cantar.

Ryan não tinha gostado do último ensaio deles e estava resolvido a cortar a música da peça quando Christy insistiu para que lhe desse mais uma chance. Para conseguir convencê-lo que estava disposta a cooperar com os rapazes, propôs que o quarteto fosse até sua casa. O teatro ia estar tomado com outros ensaios.

Os rapazes chegaram na hora marcada e Christy começou a treinar com eles. A música era muito difícil, embora seguisse as linhas melódicas de Bach. Christy estava fascinada com a melodia e todos sentiram-se encorajados pelo entusiasmo dela. Depois de uma hora de ensaio, os rapazes já tinham feito bastante progresso e Christy ouvia com satisfação suas vozes em perfeita sintonia.

Ryan passou por lá, vindo da escola, e sentou-se para ouvir o ensaio. Quando os rapazes terminaram de cantar, ele exclamou:

— Bravo! Bravo! — Olhou para Christy e comentou: — Você realmente é excelente!

— Não, sou apenas uma professora que teve a sorte de ter bons alunos — respondeu sorrindo, muito orgulhosa com o elogio.

Tocou novamente, acompanhando os rapazes. Uma hora virou o ombro e notou que Mark estava na porta. Perguntou-se há quanto tempo ele devia estar lá. Voltou a prestar atenção no piano e, quando olhou novamente para a porta, Mark tinha desaparecido.

Já era mais de sete e meia da noite quando o grupo foi embora. Christy correu para arrumar alguma coisa para o jantar e foi chamar Mark no escritório. Ele não estava em casa.

Talvez tivesse saído para comer fora, ou então tinha ido ao escritório buscar alguma coisa esquecida. Christy sentou e pegou um jornal para ler, enquanto o esperava. Depois de algum tempo comeu alguma coisa, só para dizer que tinha se alimentado, pois não estava com muita fome. Mark chegou duas horas depois e não parecia de bom humor.

Christy levantou-se assim que o viu.

— Por Deus, Mark, estava preocupada! O que aconteceu?

Ele colocou a pasta que carregava Ele colocou a pasta que carregava sobre a mesinha da lareira.

— Ora, Christy, nós tínhamos um convite para jantar esta noite. Como é que você pôde esquecer? Eu vi você marcando o compromisso em sua agenda!

Christy ficou olhando para ele por um momento e depois colocou a mão na cabeça. Agora estava lembrando. Um executivo de fora linha combinado levá-los para jantarem no clube. Mark tinha avisado na semana passada. É claro! O homem era um representante da organização australiana para a qual Mark planejava trabalhar no próximo ano. Deus! Esperava não ter quebrado o protocolo! Suas pernas começaram a tremer e ela sentou-se novamente.

— Desculpe, Mark. Sinceramente, lamento muito isso!

— Eu também lamento — disse ele indo até o barzinho e servindo um cálice de licor. — Era uma boa oportunidade.

— E eu estraguei tudo?

— Bom, você deveria ter ido, pois o homem levou a mulher no jantar. Eu disse que você estava participando de um grande ensaio, mas não sei se foi suficiente para consertar a situação. — Um leve tremor em seus lábios indicava que ele estava furioso.

— Estava tão absorvida no ensaio que acabei esquecendo completamente do compromisso. Mas, por que não me interrompeu e me lembrou, Mark?

— Ora, você parecia estar adorando o ensaio. E, além do mais, já era tarde, e percebi que não estava pronta. Por falar nisso, só homens participam dessa peça?

— Não, claro que não. Mas é que a peça conta a história dos filhos de Bach, e muitos dos filhos dele eram homens.

— Quantos filhos ele teve, afinal?

— Bem, vinte, mas não eram todos ho...

— Vinte! Meu Deus, isso é obsceno!

— Talvez, mas isso foi muito bom para a música universal. — Ela suspirou e depois perguntou: — O que eu posso fazer para me desculpar, Mark? É que eu fico completamente absorvida quando estou ensaiando.

— Percebi. E O'Rourke vai fazer o papel de algum dos famosos filhos de Bach?

— Não. O sr. O'Rourke é o diretor do espetáculo.

— Ah, sim. Ele é o chefão, então. Mas, pelo que pude notar, você está dando a maior força para os atores, não é?

— Faço o que posso, não é? Mas na verdade, sou apenas a pianista. Ryan é que sempre tem a palavra final sobre tudo.

— Ryan? — perguntou ele, franzindo as sobrancelhas.

— Sim. Ryan O'Rourke — murmurou ela, sem saber por que seu rosto tinha ficado vermelho de repente.

— Sei. — Mark abriu a pasta, tirou alguns papéis e começou a estudá-los.

Depois de alguns minutos em silencio, Christy falou:

— Esses ensaios logo irão acabar. Aí eu prometo que o que aconteceu hoje não se repetirá mais.

— Esqueça. Não precisa lazer um drama por causa disso.

Mark levantou-se e foi para o escritório, no andar de cima. Christy demorou para dormir naquela noite, pensando no seu esquecimento. Será que traria algum problema para Mark? Talvez o executivo da empresa australiana tomasse sua ausência como um insulto...

Nos dias seguintes, Mark continuou mergulhado no trabalho. Parecia sempre muito cansado e trocava poucas palavras com Christy. Na noite de quarta-feira, antes de ir para o ensaio, ela parou na porta do escritório e falou:

— Você anda trabalhando muito. Talvez fosse bom se distrair um pouco. Por que não vai comigo ao ensaio?

Mark olhou para ela e respondeu:

— Não dá, Christy. Tenho muito o que fazer.

— Está tão ocupado assim?

— Estou, Preciso fazer uma série de relatórios das atividades da companhia para os australianos. O representante deles pediu para que eu os fizesse, naquele jantar.

Christy olhou para o monte de papel em cima da escrivaninha.

— Mas será que ele mesmo não poderia fazer esses relatórios?

— Ele não tem muita experiência.

— Então, por que o mandaram para cá?

— É que ele é filho de um grande investidor.

— Ah, entendo! — replicou ela, desejando poder consolar Mark de alguma forma.

— Mas, tudo bem, não me importo em fazer os relatórios. — ele a observou por um instante e depois perguntou: — E quando vai ser a apresentação?

— Na semana que vem. Apresentaremos na sexta e no sábado à noite e terá uma matinê no domingo.

— Reserve uma entrada para mim no domingo.

— Oh, que bom, Mark! Queria muito que você fosse! Fomos convidados para um jantar na casa de Ryan, onde você poderá conhecer todos os integrantes do grupo. Pode acreditar que eles são muito simpáticos!

Ele concordou com a cabeça e voltou a se concentrar no trabalho.

Christy desceu, pegou a bolsa e foi para o ensaio. Agora entendia melhor por que Mark andava tão ocupado e quieto. Era muita responsabilidade fazer todos aqueles relatórios.

Sentindo-se um pouco culpada por não estar ajudando o marido naquela fase de trabalho árduo, prometeu a si mesma que depois das apresentações iria se propor a fazer qualquer coisa para aliviá-lo um pouco. Talvez bater à máquina o relatório, ou quem sabe reunir e catalogar as informações? Precisava ajudá-lo, pois queria ficar mais tempo ao lado dele!




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