Amor com Hora Marcada Contract for marriage



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CAPÍTULO XV

O último ensaio da peça foi até um pouco mais tarde. Como sempre, Ryan levou Christy embora, mas em vez de parar em frente à casa dela, passou direto.

— Para onde vai? — perguntou Christy.

— Vou levá-la para ver a rainha de Sabá — disse ele brincando.

— Acho que você acabou ficando com a idade mental dos seus alunos. Estou cansada, Ryan. Me leve para casa.

— Ora, Christy, você não está sendo delicada comigo. Pensei que os ruivos fossem gentis.

— E somos. Mas não gostamos que decidam as coisas por nós.

— Ora, mas é uma honra decidir as coisas por você, boneca — respondeu ele, sorrindo.

Era difícil resistir ao charme de Ryan. Além de bonito, ele era muitíssimo simpático.

Ele seguiu por uma avenida, virou à esquerda, parou em frente à casa dele e desligou o motor do carro.

Cuidado!, pensou Christy.

— Alguma coisa deve estar preocupando você, Ryan — disse ela.

— Você está absolutamente certa.

— Espero que não seja nada de grave. ?Já está tarde.

— É você que anda me preocupando, menina. Faz tempo que ando com uma impressão que precisa desabafar alguma coisa. Estou disposto a lhe oferecer meus ouvidos, uma confortável poltrona de couro e o fogo da lareira.

— Muito obrigada, mas já é tarde.

— Ainda é cedo!

— Não é verdade. — Christy foi para mais perto da porta.

— Se você pensa que estou lhe passando uma cantada, Christy, enganou-se! — disse ele calmamente.

— Não disse isso, mas você está criando um clima meio suspeito, não e?

— Só por que a convidei para entrar um pouco? Imagine!

— Acho ótimo ter esclarecido isso. Não acredito em sexo como passatempo.

— Eu também não. Acho que sexo pode até estragar uma boa amizade, e eu não quero que isso aconteça entre nós.

— Tudo bem, Ryan — disse Christy. — Você pode me chamar de mal-educada de novo, mas eu sou bastante direta: por que, afinal, você me trouxe até aqui, então?

— Você, ao meu ver, finge ser uma pessoa tranquila. Você passa uma imagem para as pessoas de alguém sem problemas, mas eu percebo que bem no fundo guarda alguma coisa muito triste. Algo que talvez não esteja conseguindo suportar sozinha, e. por isso, estou disposto a ouvi-la.

— O'Rourke, o psicólogo! — brincou Christy.

— Não zombe, Christy. Observar as pessoas também faz parte da minha profissão. Você guarda alguma coisa e quer desabafar, só que não sabe como. Quanto a Mark, não sei se você está se recusando a desabafar com ele, ou se é ele que não está querendo lhe oferecer ajuda. Mas, por favor, não recuse a minha, Christy.

Aquelas palavras tocaram fundo o coração de Christy. De repente, um soluço quase de dor ecoou no carro e ela então encostou a cabeça no ombro de Ryan e chorou as lágrimas que vinha guardando há muito tempo. Depois, mais calma, falou de Davy e do acidente que mudara sua vida. Quando terminou, Ryan também chorava.

— Oh, querida — disse ele abraçando-a e entendendo perfeitamente o sofrimento de Christy, pois passara por uma experiência semelhante.

— Desculpe — murmurou ela. — Perdi o controle sem querer.

— Você devia ter feito isso há muito tempo. — Ele beijou-a e a estreitou ainda mais nos braços. — E garanto que tudo isso que me contou é só o começo, não é mesmo?

— Sim, mas eu gostaria de não falar mais. — A voz de Christy estava rouca. — Você é o meu melhor amigo, Ryan. Nem pode imaginar o quanto me fez bem conversar com você.

— Sou uma caixa de segredos. Quando sentir necessidade, é só abrir a tampa e despejar tudo o que quiser.

Ele ligou o carro e a levou embora. Quando chegaram em frente à casa de Christy, ele desceu e a acompanhou até a porta. Antes que ela entrasse, Ryan abaixou e beijou-a nos lábios.

— Este é um beijo de amor, boneca, não de desejo.

Ryan deu meia-volta e foi para o carro.

Christy simplesmente não estava entendendo mais nada. Primeiro ele deixava claro que o que existia entre eles era amizade, e agora falava de amor. Que homem estranho era aquele Ryan!

Mas ela também agia esquisito. Afinal, deixar que ele a abraçasse e a beijasse!

E seu amor por Mark, onde ficava nisso tudo? Aqueles pensamentos a deixavam completamente confusa! Ela amava Mark, tinha certeza! De Ryan só queria ser amiga, apenas isso. Pelo menos, por enquanto...

Como as apresentações de sexta e sábado, a matinê de domingo também foi um sucesso. Todos os atores interpretaram seus papéis com perfeição, alguns com brilhantismo. O público delirava em algumas passagens e não poupava aplausos no final das cenas.

Mas Christy estava magoada: Mark não tinha ido. Queria tanto que ele assistisse à peça, principalmente o número de Karen, dançando a música que ela compôs.

Por que Mark não havia ido? Será que ela significava tão pouco? Ele tinha dito hoje mesmo, que não perderia a peça por nada no mundo!

Christy achou que não teria graça nenhuma ir à festa na casa de Ryan sem Mark. Pediu a Karen que dissesse a todos que não estava se sentindo bem e foi a pé para casa. Por mais que tentasse fingir que a ausência de Mark na plateia não a tinha deixado chateada, era impossível se enganar. Argumentava que ele na verdade não tinha obrigação nenhuma de apoiá-la nas coisas que gostava de fazer. Afinal, não foi ela mesma que disse que não queria envolvimentos emocionais no contrato entre os dois?

Quando virou a esquina de sua rua, viu um Mercedes parado na frente da casa. Algum dos clientes de Mark? Christy torceu para que fosse, pois isso justificava a ausência dele. Apressou o passo.

Parou na porta da sala e viu uma típica cena de família. Mark estava com Carol no colo, lendo um jornal infantil. Carol parecia tranquila e contente, com a cabeça encostada no ombro do pai. Darcy estava sentada numa poltrona com um copo de bebida em uma das mãos e um cigano na outra. Usava um conjunto branco e uma encharpe azul no pescoço, extremamente elegante.

Christy apoiou-se na porta quando os três a.viram. Sentia-se uma intrusa.

— Surpresa! — exclamou Darcy.

— Olá, Carol, como vai? — perguntou Christy, estranhando sua voz bastante calma.

— Olá. — Carol cumprimentou-a sem muito entusiasmo, continuando recostada no pai.

— E você, Darcy, está bem?

— Até que sim. Estou indo para Reno por mais de uma razão — disse ela. — Os amantes se tornam maridos horríveis, Christy, pode escrever isso.

Christy sorriu sem jeito, não entendendo exatamente as palavras de Darcy. Mark foi em seu auxílio.

— Darcy está com um contrato para trabalhar numa boate em Lake Tahoe, perto de Reno, o que parece coincidir com seus planos de divórcio. Eu concordei que Carol ficasse conosco.

— É claro. Será um prazer ficar com Carol.

Naquele instante, Carol começou a falar:

— Estou com fome, papai. Estou com fome!

— Calma, meu bem. Nós vamos jantar fora. Espere um pouquinho, certo?

— Oh, não, papai. Por que não comemos aqui? Eu quero comer aqui — insistiu a menina.

Darcy olhava a cena, parecendo aborrecida. Christy chegou a pensar que ela fosse tomar uma atitude com a filha, mas, ao invés disso, apenas acendeu um outro cigarro e não falou nada.

— Vou preparar alguma coisa — disse Christy, achando que aquela seria uma desculpa ótima para sair da sala. Estava muito nervosa.

— Qualquer coisa para nós está bem — disse Darcy. — Frutas e bolachas, por exemplo.

— Talvez você pudesse ir ao mercado, Mark. Acho que não temos muito a oferecer — Christy falou.

— Ora, vamos, Christy, você teve um dia cheio. Não queremos um banquete. Sirva o que tiver. Frutas e bolachas, por exemplo.

Christy ficou furiosa. Mark precisava usar as mesmas palavras que Darcy? Foi para a cozinha sem uma palavra e abriu a geladeira. Havia uma dúzia de ovos, metade de um queijo e alface. Poderia fazer uma omelete e uma salada. Serviria leite para acompanhar.

Depois de alguns minutos. Mark apareceu na porta.

— Mas o que está fazendo? Não me venha dizer que está preparando uma daquelas receitas malucas e demoradas que andou lendo nos livros! O que aconteceu com as frutas e as bolachas?

— Só temos meia banana e nem um farelo de bolacha. Se o senhor fizer o favor de esperar mais uns dez minutos, a criada aqui vai resolver a situação.

Mark voltou para sala. Depois de preparada a salada e feita a omelete, Christy colocou tudo numa bandeja junto com os pratos e talheres e levou para a sala.

Darcy olhou admirada para a omelete com queijo, decorada com folhas de alface bem pequenas.

Christy, apesar do enjoo, resolveu servir. Todos estavam comendo, quando Mark percebeu que Carol olhava para o prato, sem tocar na omelete.

— Coma sua omelete, querida. Sei que você gosta de ovos.

— É sim, Carol. Você adora ovos! — exclamou Darcy.

— Mas odeio ovos com queijo, mamãe. Por que ela não faz omeletes como você faz, sem queijo? — Carol segurou a barriga e começou a choramingar. — Estou com fome, mas não quero a omelete dela!

Enquanto Mark tentava acalmá-la, Darcy tirou todo o queijo do pedaço de omelete que estava no prato de Carol. Finalmente a fome venceu e ela acabou comendo tudo.

Christy ficou pensando se Carol se comportaria sempre daquele jeito, enquanto ficasse ali com eles.

Depois do incidente de Carol, ficaram conversando sobre a peça de Christy. Darcy perguntou cada detalhe da produção, mas Christy achou que aquele interesse não era sincero. Darcy parecia se divertir com a história de um bando de simples amadores que consegue realizar uma peça de teatro.

— Bom, acho que vou subir para deitar — disse Christy, depois de um breve silêncio. — Estou muito cansada, hoje. Carol, vou arrumar sua cama no escritório, certo?

— Vá deitar sossegada, Christy — disse Mark. — Eu arrumo tudo para Carol.

— É, sim, Christy. Vá deitar sossegada. A gente sempre fica muito cansada depois de uma apresentação — Darcy falava com uma entonação de voz muito suspeita. Pelo menos para Christy.

Como era ótimo deitar quando se está cansada! Assim que deitou, Christy foi envolvida por um torpor delicioso. Só de vez em quando ouvia uma risada mais alta lá em baixo, como se viesse de um outro mundo. Mais tarde, Mark entrou no quarto. Ela o sentiu em pé a seu lado.

— Christy?

— Sim? — disse ela, sonolenta.

— Você está bem?

— Só ficarei em forma depois de ter descansado bastante.

— Quero pedir desculpas por tudo isso. Eu não as esperava, você sabe.

— É claro, Mark. Está tudo bem.

Mark pigarreou e depois falou:

— Uh, já pusemos Carol para dormir. Darcy quer conhecer meu escritório na firma antes de ir para o hotel. Vou levá-la e volto em seguida.

— Está bem — resmungou Christy. Por que ele precisava dar tanta explicação?

— Christy, espero que ficar com Carol enquanto Darcy estiver em Reno não altere seu dia-a-dia.

— Não se preocupe, Mark. Carol não vai nos dar tanto trabalho assim. Boa noite. — Christy virou para o outro lado e o ouviu sair do quarto.

Mais tarde Christy acordou. A luz da lua penetrava pela janela do quarto e seu relógio de cabeceira marcava duas horas da manhã. Mark não estava na cama.

Pode pensar o pior, que foi isso mesmo o que aconteceu, disse a si mesma, lembrando que Mark ainda devia estar com Darcy.

Desceu para tomar um copo de leite e encontrou a cozinha arrumada. Na certa Mark e Darcy se divertiram muito lavando os pratos e relembrando os velhos tempos de casamento.

Terminou o leite e foi ver se Carol estava bem acomodada no escritório. Dormia como um anjo.

Christy estava arrumando melhor a coberta de Carol quando ouviu Mark abrir a porta da rua e subir a escada. Sem pensar direito no que fazia, escondeu-se num canto escuro do escritório. Teria sido melhor correr para o quarto, pois Mark entrou no escritório no momento seguinte.

Christy o viu olhando Carol com carinho.

De repente ele a viu.

— Christy, você me assustou!

— Carol é uma menina linda, Mark.

— É sim — murmurou ele, olhando-a. — Por que levantou? Carol acordou?

— Não, só vim ver se ela estava bem. Já é tarde e eu fiquei preocupada.

— Acabamos demorando mais tempo do que pensávamos, Darcy e eu.

— Compreendo.

Voltaram para o quarto. De repente Mark falou, olhando para ela:

— Você está linda com essa camisola transparente.

Ele e aproximou e abraçou-a. Christy até pensou em resistir, mas na verdade ansiava por tê-lo bem juntinho dela, e por isso correspondeu às suas carícias com desejo.

— Você é linda, Christy — murmurou Mark ao seu ouvido.

— Não sou nada — respondeu ela, deixando que ele tirasse sua camisola.

Mark a levou para cama sem uma palavra. Christy observou-o enquanto se despia. O corpo de Mark é que era lindo sob a luz do luar. Não podia negar-se a ele àquela noite. Não podia e não queria. Abraçaram-se forte e começaram de novo as carícias, que foram crescendo em intensidade, até envolverem seus corpos num enorme desejo...

Christy acordou de madrugada ainda nos braços de Mark. Continuava se sentindo numa atmosfera mágica. O que teria acontecido com Mark? Por que foi tão ardente com ela à noite? Será que Darcy o excitara tanto que ele teve que satisfazer com alguém seu desejo? Aquele pensamento tirou toda a alegria de Christy. Sentou-se na cama, triste.

Mark acordou e sentou-se a seu lado. Pegou a mão de Christy e beijou-a com carinho.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.

— Não, só que achei que o que aconteceu entre nós dois foi uma representação.

— Uma representação? Então você é mesmo uma boa atriz — disse ele, levantando e indo até a janela. — Para mim, você tinha gostado de fazer amor comigo hoje.

Christy sentiu vontade de magoá-lo.

— Ora, Mark, faz parte do nosso contrato fazer amor, não é? Agi segundo as normas, só isso. O que acontece é que agora não estou me sentindo recompensada.

— Eu sempre me esqueço do nosso contrato, Christy, e isso é uma pena, pois você nunca o esquece. — Ele pegou uma coberta e o travesseiro e saiu do quarto, na certa para dormir no sofá da sala.

Os olhos de Christy se encheram de lágrimas quando Mark fechou a porta. Por que tinha dito aquilo? Para magoá-lo. E por que quis magoá-lo? Para vingar-se. Mark queria ter feito amor com Darcy àquela noite, não com ela.

CAPÍTULO XVI

Christy acordou ao amanhecer. Passou a mão no corpo, e sentiu que sua barriga estava começando a ficar mais volumosa.

Apesar dar criança que crescia dentro dela, de Carol que dormia no escritório, de Mark no sofá da sala, Christy se sentia sozinha como sempre em sua vida.

Não saberia dizer quanto tempo ficou deitada, pensando que era infeliz e solitária. Afinal, levantou, vestiu-se e desceu para a cozinha. Começou a preparar panquecas, que Mark adorava.

Arrumou a mesa do café e quando Mark e Carol apareceram. Christy os cumprimentou Com naturalidade, como se estivesse tudo bem. Mark respondeu seco e Carol não disse nada. Não tirava os olhos do pai como se tivesse medo que ele sumisse de uma hora para outra.

Os três começaram a comer em silêncio.

— Mais café, Mark?

— Sim, Obrigado.

Depois de uma briga, Christy sabia que não havia muito o que dizer.

Após ter lido quase todo o jornal, Mark levantou-se, pegou a pasta e foi para a porta. Carol o acompanhou.

— Não esqueça, papai.

— Não esquecer o quê?

— Você sabe.

— E como eu poderia esquecer? — perguntou Mark abaixando e beijando-a- — Eu adoro você, minha gatinha.

Carol ficou observando Mark partir. Depois voltou para a mesa e terminou o copo de leite que estava tomando.

— Papai vem jantar em casa? — perguntou ela depois de um minuto.

— É claro que vem.

— Tem certeza? Você promete?

— Bem, sim, a menos que ele lenha que fazer algum serviço urgente fora da cidade.

— Ótimo, pois os pais devem estar em casa nos dias de aniversário — falou Carol, mais aliviada.

— Hoje é seu aniversário?

Será que Mark tinha esquecido do aniversário da menina? Era então que Caro! estava pedindo para ele não esquecer.

— A mamãe falou que o papai vai me trazer um presente.

— Claro que vai.

— Mamãe vai me mandar um presente muito especial de Reno.

— Que bom que hoje é seu aniversário! Isso merece uma festa!

— Se papai não vier jantar eu não vou chorar! — exclamou Carol, que em certos momentos se parecia muito com Mark.

— Bem, mas não tem nada de mal chorar de vez em quando. Há horas em que faz bem.

— Não — replicou Carol firmemente. — Se papai ficar sabendo que eu chorei, ele vai sumir da minha vida de novo.

Christy olhou para aquele rostinho sério. Carol devia ter tantos problemas!

— Oh, meu amorzinho, você está errada. Seu papai adora você!

Christy colocou a mão na cabecinha de Carol, num gesto de extremo carinho. Sabia que crianças de pais divorciados tinham problemas, mas não sabia que podiam ser tão graves.

— Mamãe falou para eu não deixar estranhos passarem a mão em mim — disse Carol se afastando de Christy.

— Sua mãe está certa, Carol. Mas eu não sou uma estranha, não é? Agora faço parte da sua família e vou ajudar a tomar conta de você.

Carol ficou em silêncio, observando Christy com olhos desconfiados. Depois de um momento, disse:

— Mamãe não vai mais ficar com tio Spencer. Pode ser que papai agora volte para ela.

— Pode ser — replicou Christy. Será que aquilo era apenas uma fantasia infantil, ou fazia parte de algum plano secreto de Carol? — Acho melhor você ir se vestir agora, querida. Hoje vamos transformar o escritório num belo quarto para você.

— Papai vai poder dormir no meu quarto?

— Acho que não.

— Por quê? Acho que lá e melhor do que no sofá da sala.

Bem, Christy devia mesmo esperar que Carol tivesse percebido as coisas. As crianças observam tudo. Subiram para o escritório e Christy começou a guardar as roupinhas de Carol. Gozado, o bom gosto de Darcy não aparecia nas roupas que escolhia para a filha. Carol só tinha trazido calças compridas e camisetas sem nenhum charme.

— O papai chega em casa por aquele lado? — perguntou Carol da janela.

Christy foi até ela e olhou para a rua.

— Sim, ele vem por ali.

— Então vou ficar esperando por ele.

— Carol, querida! Você vai ficar cansada de esperar Mark o dia inteiro!

Mas Carol foi pegar uma cadeira e colocou em frente à janela. Era mesmo bem determinada!

Christy saiu do escritório e telefonou para a secretária de Mark.

— Estou telefonando para que você o lembre de chegar cedo para a festinha de aniversário da filha, está bem?

Mais tarde conseguiu convencer Carol a deixar seu posto de observação e ir com ela até o mercado. Potie, um cachorrinho da vizinhança, resolveu ir com elas. Carol abaixava de vez em quando e acariciava a cabecinha dele. Potie abanava o rabo, todo feliz.

Você tem sorte, pensou Christy, olhando para o cachorrinho. Carol dá mais atenção a você do que a mim.

Mas estava determinada a não encarar a frieza de Carol como algo pessoal. Por que Carol permitiria que outro adulto entrasse na sua vida? Nunca teve muita sorte com os adultos: seu pai tinha ido embora, seu tio Spencer, o novo marido de Darcy, não veria nunca mais. Por que então se preocuparia em ficar amiga de outro adulto? Só para sofrer?

Christy comprou algumas coisas para fazer um jantar de aniversário e, sem Carol perceber, comprou-lhe uma caixinha de música com bailarina de presente. Quando voltaram para casa, duas horas depois, o telefone estava tocando.

— Sra. Brandon — Era a secretária de Mark. — O sr. Brandon tentou ligar para aí mas a senhora não estava. Ele tomou o avião do meio-dia para Los Angeles pura participar de uma reunião urgente.

— Oh, não! — exclamou Christy. — E a que horas ele volta?

— Ele pretende tomar o avião das dez da noite.

— Entendo. Bem, obrigada.

Não teve coragem de contar a mudança de planos para Carol. Começou a preparar um bolo, como se nada tivesse acontecido. Sofria só de pensar o quanto a garotinha ficaria desapontada quando soubesse que seu papai não passaria a noite de seu aniversário com ela.

Quando tirou o bolo do forno, a campainha tocou.

Era o entregador de uma floricultura.

— Aqui é a casa da família Brandon?

— Sim, é — respondeu ela pegando a caixa e entrando. Não viu cartão nenhum, mas a letra que tinha escrito o endereço na caixa era de Mark. Era um pequeno buquê de botões de rosa. Sentiu o perfume das flores e fechou os olhos, quase morta de felicidade. Mark tinha mandado aquelas flores para se desculpar por ter saído do quarto naquela noite. Não precisava de cartão, ela tinha entendido tudo perfeitamente.

Carol a observava cheia de curiosidade quando Christy retirou o buquê da caixa. De repente um cartão caiu no chão. Ela o apanhou e viu que no envelope, escrito com a caligrafia de Mark, estava em nome de Carol. Christy empalideceu e engoliu em seco. Como tinha sido idiota!

— Seu pai lhe mandou um buquê pelo aniversário. Ele não é um encanto de pessoa? — disse ela, depois de um minuto.

Carol pegou as flores e segurou-as como se pudessem quebrar. Pegou o cartão das mãos de Christy, olhou e depois entregou-o novamente.

— Não sei ler.

Christy pegou o cartão e leu a mensagem:

"Meu amorzinho. Estou mandando essas flores para dizer a você que mesmo sem estar a seu lado no dia do seu aniversário, penso em você o tempo todo. Preciso ir para Los Angeles a negócios, e só voltarei quando você já estiver dormindo. Mas amanhã passaremos o dia todo juntos. Pense no que você gostaria de fazer amanhã. Beijos do seu pai."

— Você prometeu que ele estaria aqui em casa hoje — disse Carol, desapontada.

— Eu sei, querida, mas ele teve que viajar a negócio. O que você quer que eu faça? — Christy sentia-se absurdamente culpada com aquela situação.

Carol tirou uma soneca, mas não desgrudou do buquê que Mark tinha lhe mandado.

Christy terminou de cobrir o bolo e começou a embrulhar a caixa de música. Talvez o bolo e o presente pudessem tirar a tristeza dos olhinhos de Carol.

Tinha terminado de embrulhar o presente quando a campainha tocou. Era Ryan, com uma dúzia de rosas numa mão e várias partituras embaixo do braço.

— Ora, ora, você não está de cama! — disse ele surpreso. — Karen disse que você estava doente. Sentimos sua falta ontem à noite, menina.

Ontem à noite? Christy encarou-o por um momento pensando no que tinha acontecido com sua memória. A última apresentação de Catherina parecia ter acontecido mil anos atrás e não no dia anterior.

— Entre, Ryan. Acho que foi só um alarme falso. Já estou bem. — Ele a seguiu até a cozinha, onde Christy pegou um vaso e começou arrumar as flores. — Como sabia que adoro rosas? Você é mesmo um amor!

— Oh, sempre fui um amor, você nunca tinha percebido? — Ryan colocou as partituras sobre a mesa e começou a ajudar a arrumar as flores.

— As rosas estão lindas, muito obrigada. O que está fazendo com todas estas partituras, sr. O'Rourke?

— Oh, só trouxe o novo musical em que estou pensando para a nossa nova produção. É aniversário de alguém hoje?

— É aniversário de Carol, a filhinha de Mark, e acho que não vou querer trabalhar em nenhum outro espetáculo por algum tempo.

— Compreendo, mas pelo menos dê uma olhada nas partituras, quando tiver tempo. Confio muito na sua opinião.

— Quando vai ser mesmo a grande entrevista em Los Angeles? — perguntou Christy, indo para a sala.

— Na última sexta-feira do mês. Estou ansioso.

— Não deixe de me contar, Ryan.

— Você já soube de algum dia eu ter ficado de boca fechada?

Carol entrou na sala naquele momento, com o rostinho corado.

— Deus me perdoe se não estou diante de uma princesa — comentou Ryan, sorrindo para Carol.

Christy apresentou os dois e foi para a cozinha. Ryan em dois minutos estava conversando animadamente com Carol e logo depois já estava com ela sentado a seu lado no piano, ensinando-lhe a tocar dois acordes fáceis. Aí ele cantou uma música engraçada sobre um ursinho covarde, e Carol acompanhou. Pela primeira vez, Christy ouviu-a rir com alegria.

— Parabéns, princesa — disse Ryan, no fim da música.

O sorriso de Carol sumiu de repente.

— Papai não vem no meu aniversário.

Christy explicou o que tinha acontecido. Imediatamente Ryan levantou o nariz na direção da cozinha e respirou o aroma do bolo.

— Me convide, princesa. Eu posso vir. A gente não deve comemorar um aniversário no dia seguinte. O velho O'Rourke adora aniversários.

Carol sorriu como se tivesse acabado de ganhar a chave de uma porta mágica. Virou-se para Christy.

— Tudo bem? — perguntou.

— Claro que sim — disse Christy. — Com uma condição. Você deve vir acompanhado. Tente trazer Karen ou Margô, de preferência com um monte de alunos ou sobrinhos. Caso contrário não, Ryan. — Christy tinha medo de acontecer algum imprevisto e Mark chegar antes da hora marcada. O que ele pensaria se encontrasse Ryan lá, sozinho?

— Está certo, vou fazer o que você está me pedindo — falou ele, fingindo estar ofendido. Fez uma reverência para Carol.

— Gostei do sr. O'Rourke — observou Carol quando Ryan foi embora. — Ele é engraçado e pensa que eu sou uma princesa. — Ela riu.

E com charme transformou você numa menininha de verdade, pensou Christy, não sem inveja. Ficou imaginando o que serviria aquela noite e perguntou-se se devia tentar preparar um prato mais especial do que lasanha, mas resolveu que não. Pelo menos lasanha ela já tinha pronta. Colou-a no fogo e apressou Carol a subir.

— Já para o banho e seja rápida. Uma princesa tem que estar sempre limpinha.

Enquanto a menina tomava banho, Christy olhou as roupas que Carol tinha trazido e escolheu a menos ruim. Depois ajudou Carol a se vestir, escovou seus cabelos, fazendo um rabo-de-cavalo, e amarrou com um laço de fita azul que combinava perfeitamente com a cor de seus olhos.

— Você está linda! — comentou Christy. — Acho que o sr. O'Rourke conhece uma princesa quando vê uma!

— Ora, você me deixou bonita — disse Carol, tímida.

Foi naquele instante que Christy se lembrou da lasanha. Correu para a cozinha, apagou o forno e lavou alguns legumes e verduras para uma salada.

Às seis horas em ponto a campainha tocou. Era Ryan, trazendo Geoff, o rapaz que tinha feito o papel principal da peça, e seus dois filhos, Robbie e Kent, de seis e quatro anos.

— Bem-vindos — disse Christy, apresentando Carol para os meninos e para Geoff. — Que bom que vocês vieram!

— O prazer é nosso! — respondeu Geoff. — Minha mulher foi passar quinze dias na casa da minha sogra e a única coisa que temos feito esses dias é ficar na frente da televisão.

— Quer dizer que abandonaram o aconchego do lar? — Christy perguntou rindo.

— É... Para falar a verdade, viemos em busca de comida! Estamos loucos para comer alguma coisa bem gostosa!

Ryan começou a brincar com as três crianças. Fingiu que era um cavalo e fez com que todos subissem nas suas costas. Depois fingiu que estavam numa floresta e que era um leão e os três caçadores...

A festinha foi um sucesso. Carol com os olhinhos brilhantes, brincou com Robbie e Kent como se fossem velhos amigos. Depois do jantar Ryan e ela apresentaram a Canção do Urso Covarde e depois, Carol apagou as velinhas. Gostou da caixinha de música que Christy lhe deu, mas não largou mais o ursinho de pelúcia que ganhou dos quatro convidados.

Mais tarde, Ryan ajudou Christy a limpar a mesa e a carregar as coisas para a cozinha.

— Não se preocupe, eu termino de limpar tudo mais tarde — falou ela, de repente, um pouco preocupada. Tinha quase certeza que Mark não ia gostar de ficar sabendo daquela festinha.

— Você mal tocou na lasanha — disse Ryan.

— Não? Bem...

— Para falar a verdade, você está pálida. Tem certeza que está bem?

Christy começou a empilhar os pratos. Não queria conversar nenhum assunto mais sério com Ryan, pois tinha medo que acontecesse o que aconteceu naquele dia no carro dele. E, afinal, Mark já devia estar quase chegando.

— Estou cansada, só isso. Acho que a peça foi mais cansativa do que eu estava esperando. Tínhamos um diretor que era um tirano, você sabe. — Christy sorriu.

— Ah, não acho. Você tem capacidade suficiente para conciliar o trabalho doméstico com os ensaios. — Ryan ficou sério e fitou-a fixamente. Depois deu um sorriso imenso. — Quer saber de uma coisa? Para mim, você está grávida.

Christy empalideceu. Não teve como negar as palavras de Ryan, Como ele era sensível! Tinha conseguido juntar sua falta de apetite ao cansaço e tirou a conclusão óbvia.

— Certo, Ryan, você venceu. Estou grávida.

Ele não disse nada, pegou a mão dela e levou-a para a sala. As crianças estavam sentadas na frente da televisão, assistindo a um filme de cowboy no último volume. Do outro lado da sala, Geoff tocava alguma coisa ao piano, como se estivesse o maior silêncio.

— Toque uma música alegre! — pediu Ryan para Geoff. — Nossa Christy está esperando um bebê!

— Que maravilha! — exclamou Geoff, começando a tocar uma valsa imediatamente.

Ryan começou a dançar com Christy pela sala, enquanto as crianças continuavam a gritar pelo mocinho do filme, ignorando os três adultos.

Naquele momento, a porta, da frente abriu e Mark entrou.

— Que diabo está acontecendo aqui? — perguntou em voz alta, mas simpático.

Christy e Ryan pararam de dançar, mas continuaram abraçados. Ela fez as apresentações rapidamente e explicou que estavam comemorando o aniversário de Carol.

Ryan caminhou até Mark, tomou sua mão e cumprimentou-o:

— Parabéns. Mark. Acabamos de saber a novidade. Estou torcendo para que seja uma menina bonita como Christy.

Mark ficou pálido.

— Obrigado — disse ele, olhando para Christy atentamente.

Christy quis morrer de vergonha e odiou a sensibilidade de Ryan.

Por que ele teve que descobrir a verdade?

Inspirados pelo filme, Carol, Robbie e Kent fizeram um círculo em volta de Mark, fingindo que eram índios e Mark o mocinho.

Sempre tranquilo, Ryan agradeceu o jantar, pegou o casaco e se despediu, Geoff conseguiu vestir as jaquetas nos filhos e, depois de se despedir, também foi embora.

Christy desligou a televisão e um silêncio pesado caiu sobre a sala. Foi para a cozinha e Mark levou Carol para a cama. Quando saiu da cozinha, Christy encontrou Mark colocando os lençóis no sofá.

— Sinto muito por você ter ficado sabendo de tudo desse jeito, Mark.

— Estou surpreso. Acho que mereço uma explicação, não é? Está grávida de quantos meses?

— De acordo com o médico estou entrando no quarto mês. — Christy estava sentindo a garganta seca e a voz abafada.

— Quatro meses! Mas em fevereiro você disse que não estava grávida.

— Eu não sabia. Descobri quando você estava em Oregon.

— Por que não me contou, pelo amor de Deus? — Mark arrumou o cobertor. — Não gosto de surpresas desse tipo, Christy. Tenho certeza que O´Rourke percebeu que você ainda não tinha me contado.

— Oh, não! Como poderia ter percebido? Além disso, ele intuiu que eu estava grávida minutos antes de você chegar e eu admiti que era verdade. — Christy fez uma pausa. — Tentei lhe contar várias vezes.

— Oh, tentou? Quando?

— Isso tem alguma importância? Você estava tão ocupado que eu detestava atrapalhá-lo. Afinal de contas, deixou bem claro que não estava preparado para uma notícia dessas nesse momento.

Mark balançou a cabeça, levantou as mãos, aproximou-se dela e encarou-a.

— Oh, Christy, querida, que carga terrível eu joguei sobre os seus ombros! Gostaria que você tivesse me contado. Me sinto um oportunista, sabe?

Christy ficou com os olhos cheios de lágrimas. Desviou o rosto e se forçou a parecer indiferente.

— Isso tudo não tem importância.

— Não tem importância? Acho que consigo entender, embora seja difícil de aceitar. Se a sua gravidez tivesse alguma relevância para a nossa vida, você estaria mais preocupada em dividir tudo o que sente comigo. — Mark deu um sorriso triste e ela teve que desviar o rosto outra vez.

— Isso estava previsto desde o início em nosso relacionamento, Mark.

— Continue — disse Mark secamente. — Vamos, siga em frente!

— Boa noite, Mark. — Christy foi para o quarto. O que mais teria para dizer? Se aprontou para dormir, sentindo que a vida estava sendo muito dura com ela.

Assim que deitou, caiu num sono agitado. Virava de um lado para outro na cama e de repente estava num carro numa avenida. Chovia. Os faróis dos automóveis a cegavam, ela queria ir embora dali, mas os carros vinham na sua direção... De repente o barulho de vidros se quebrando, o estrondo das latarias...

— Não, não! — gritou ela, desesperada.

— Christy, acorde, querida! — exclamou Mark entrando no quarto e sentando-se na cama ao lado dela.

— Desculpe. Sonhei com o acidente. Que pesadelo!

— Imagino. — Mark pegou um copo de água para ela. — Pare de se culpar. Christy. Você está se matando.

— Preciso dar o bebê a Beth, você sabe, ou então esse pesadelo vai povoar todas as minhas noites.

Mark a abraçou em silêncio e assim ficaram durante alguns instantes. De repente ouviram um choro.

— É Carol. Ela deve ter acordado com meu grito e agora está com medo — falou Christy.

— Vou até lá — disse Mark.

Christy ouviu a conversa dos dois no escritório durante algum tempo.

Quando acordou na manhã seguinte, Mark não estava a seu lado.



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