Amor e honra (2005) Série: Homens de Honra 02 Título Original



Baixar 0.58 Mb.
Página1/6
Encontro19.07.2018
Tamanho0.58 Mb.
  1   2   3   4   5   6







Amor e honra (2005) Série: Homens de Honra 02

Título Original: Cinderella's sweet talking mariner

Gênero: Contemporâneo

Protagonistas: Ben Kozlowski e Ellie Jensen



Disponibilização: Nutri

Tradução: Yuna, Gisa, Mare e Rosie

Revisão: Adma

Revisão Final e Formatação: Iara

Argumento:

Como era possível que a promessa que tinha feito a um amigo o tivesse levado até o altar?

O mariner Ben Kozlowski não estava muito seguro, mas sabia que os maravilhosos olhos castanhos e a suave pele de Ellie Jensen tinham algo ver com o que lhe acontecia: cada vez que se aproximava dela lhe acelerava o pulso. Do momento que a conheceu esteve inventando contos de fadas para sua filha e havia sentido como lhe derretia o coração com sua pequena família. Aquela tinha se convertido na missão mais arriscada de sua vida. Se atreveria a baixar a guarda e render-se ao amor de Ellie e de sua filha?
CAPITULO 1
Ben KOZLOWSKI era mariner do exército dos Estados Unidos e tinha muito dinheiro, mas não era feliz. Quando se inteirou da fortuna que ia herdar de seu avô, um rico petroleiro, sentiu-se culpado. Não tinha feito nada para merecê-la.

Mas aquele sentimento de culpa não era nada comparado com o que lhe tinha levado a aquela comunidade rural na metade do Carolina do Norte, a um povoado chamado Pene Hills. Não tinha ido ali para afogar suas magoas em uma garrafa de uísque, embora a idéia fosse tentadora. Tinha chegado ali procurando uma mulher.

E não uma mulher qualquer. Procurava Ellie Jensen.

Um vizinho havia dito que estava trabalhando e lhe tinha dado o nome daquele lugar.

Ben tinha estado em muitos bares em sua vida, desde cantinas no Sul da América a exóticos refúgios na Ásia. Cada um tinha seu aroma característico misturado com a habitual fumaça de tabaco. Aquele lugar em particular cheirava a cebolas queimadas. Um quadro negro anunciava que a especialidade da casa eram os hambúrgueres, picantes e suculentos.

O bar estava cheio de gente e a música country saía a todo volume de um toca discos. Havia tipos em jeans, com camisetas coladas ao corpo e barrigas cervejeiras que mal cabiam nos tamboretes do balcão. Luziam uma grande variedade de bonés com as marcas de suas bebidas alcoólicas favoritas. O resto do local estava lotado de mesas que mal deixavam espaço às garçonetes para manobrar.

Mas isso não parecia importar aos clientes. As garçonetes, todas as mulheres, vestiam saias jeans muito curtas e ajustas e diminutas camisetas de suspensórios. Quanto menos espaço houvesse, mais fácil resultava ser roçado por uma delas ao passar.

Ben tirou da carteira uma foto desgastada e a acariciou com um dedo. John Riley tinha sido um de seus amigos mais íntimos, e Ellie era sua irmã, sua única família.

«Cuida de minha irmã. Prometa-me que cuidará de minha irmã».

John tinha pedido quando jazia em seus braços mortalmente ferido. Por isso estava ali.

E ali estava ela. Localizou-a do outro lado daquela estadia cheia de fumaça, esforçando-se por manter o equilíbrio com uma bandeja cheia de grandes jarras de cerveja e por manter longe a saia das mãos um cliente.

-Deixe em paz à senhorita.

Sua voz séria de mariner atraiu a atenção do cliente, apesar de que este tinha bebido algumas cervejas a mais.

-E você quem é? - balbuciou o tipo.

-Sou o que o fará lamentar ter nascido se não a soltar agora mesmo.

O tipo obedeceu. Levantou as mãos com gesto de render-se.

-Vamos, tio. Não estava fazendo nada mal.

Ben ignorou o tipo e olhou Ellie. Ela já estava atendendo outra mesa, pondo as jarras na mesa com rapidez. Assim que terminou se apressou a voltar para o balcão por mais cervejas.

Tinha as pernas incrivelmente longas e seus movimentos eram elegantes. Tinha o cabelo escuro e o tinha preso com presilhas, mas uma mecha escapou. Tinha a pele muito branca e as costas tão retas como a de qualquer soldado do corpo de mariner em formação.

Que demônios fazia uma garota como aquela nesse lugar?

Ellie se deu conta de que aquele homem a olhava. Fixou-se nele no mesmo instante de sua chegada. Era um desses homens que atraem irremediavelmente os olhares. Tinha o cabelo escuro e era perigosamente bonito, seus olhos eram de cor avelã e chamaram sua atenção mesmo do outro lado de um bar cheio de fumaça.

Também se deu conta, por seu cabelo raspado, de que devia ser um militar. Isso explicava sua compleição musculosa e a aura de homem perigoso que projetava. Camp LeJeune, um dos mais importantes centros de treinamento de mariners, estava à uma hora dali, por isso de vez em quando, algum deles aparecia pelo povoado.

Ellie se sentiu agradecida com o desconhecido que a tinha resgatado daquele bêbado. Mas isso não significava que queria começar algo com um recém-chegado. Sabia de sobra que o importante era saber defender-se sozinha.

Esqueceu-se de algo tão importante ao apaixonar-se por seu ex-marido, Perry Jensen. Tinha-a conquistado com suas doces palavras e seu encanto pessoal. Nada bom tinha saído daquela relação, exceto sua filha, Amy, seu motivo para levantar-se a cada manhã. Especialmente depois da morte de seu irmão Johnny. Ainda não podia acreditar que se foi para sempre. Gostava de acreditar que estava com os mariners, em algum destino muito longínquo. Mas a chegada de um representante do corpo de mariners para lhe comunicar a notícia do falecimento assim como a gratidão de seu país e as condolências dos membros do corpo, tinha sido dolorosamente real.

Fogo não inimigo. O caso estava sendo investigado. Aquilo era quão único tinha conseguido entender do que lhe havia dito aquele militar fazia já seis semanas. Johnny tinha sido enterrado com honras militares e ela tinha recebido uma bandeira cuidadosamente dobrada como comemoração oficial.

Mas Ellie não podia pensar nisso naquele momento. Tinha muito trabalho. Não podia permitir o luxo de dar razões ao dono do local para que a despedisse. Precisava de dinheiro.

O forasteiro seguia olhando-a fixamente. Podia sentir seus olhos cravados nela, mas não era um olhar baboso como dos outros. Usava jeans e camiseta negra, muito pouco habitual naquela zona rural, mas os usava com uma presença que destacava entre outros.

E se aproximava dela!

Genial, não gostaria de falar com ele. Mas pensou que seria melhor enfrentar a ele, assim com um sorriso, e tratando de manter a calma, falou primeiro.

-Obrigado por sua ajuda.

-Preciso falar contigo.

Sim, claro. - Quantas vezes tinha ouvido essas palavras desde que era garçonete? -Sinto muito, mas agora estou muito ocupada.

-Ellie...

-Como sabe meu nome?

-Podemos ir falar em algum lugar?

-Não.


Ficou nervosa ao sentir a intensidade com que a olhava.

-Não quero lhe fazer mal. Vim para ajudar.

Sim, claro.

-Já lhe disse, agora estou muito ocupada.

-Está lhe incomodando este homem? - interveio Earl, o corpulento barman.

Tinha sido lutador de luta livre e sua calva era tão reluzente como os músculos de seus braços. Mas o recém-chegado não parecia absolutamente intimidado.

-Onde estava você quando esse bêbado a estava incomodando?

-Servindo taças - respondeu o corpulento -. Não vi nada, mas se for necessário também posso dar seu castigo se me obrigar.

-Isso não será necessário - disse Ellie posando a mão no grosso braço do homem, entre uma tatuagem de arames farpados e outro de um bulldog.

-Ex mariner? - perguntou o forasteiro a Earl.

Este assentiu e o recém-chegado levantou a manga da camiseta para lhe mostrar sua própria tatuagem de um bulldog.

-Hurra! - gritou Earl sobressaltando Ellie e metade das pessoas do bar.

-Hurra! - repetiu o forasteiro com tanto entusiasmo como Earl, estreitando a mão que este lhe oferecia.

-Importa-se que fale com Ellie uns minutos? É um assunto oficial.

O coração de Ellie se deteve.

-É por Johnny? Foi um engano? Está vivo?

Só alcançou ver Earl negando com a cabeça. Depois tudo se voltou negro.
Ben agarrou Ellie antes que ela desabasse no chão e a levou nos braços apressadamente à saída de empregados, seguindo as indicações de Earl. Fora fazia mais de vinte graus, e isso que estavam em primeiro de março. A luz do sol iluminava o pálido rosto de Ellie. Parecia tão frágil em seus braços...

Ben se amaldiçoou por não ter levado melhor as coisas. Mas ultimamente tudo lhe saía errado. Além disso, não estava ali por um assunto oficial dos mariners, e sim para cumprir o último desejo de seu amigo morto.

Dirigiu-se com Ellie nos braços a seu carro. Sentou-a no assento junto ao motorista e, rodeando-a com um braço, empapou em água uma toalha de papel que tinha ali e a pôs sobre a testa. Tomou o pulso lhe pondo as pontas dos dedos no pescoço. Sua pele era muito suave.

-me tire às mãos de cima! - exclamou ela de repente, empurrando-o com uma força surpreendente.

-Tranqüila - disse ele tentando acalmá-la -. Não vou fazer lhe mal.

Isso não era certo. Sua só presença ali já lhe tinha feito mal. Ellie se sentia furiosa com ele por ter aparecido em seu lugar de trabalho. Sentia-se como uma idiota por haver desmaiado daquela maneira. Olhou-o com raiva. Odiava mostrar debilidade.

-Desde quando os mariners enviam gente sem uniforme para fazer algo oficial? Será melhor que me diga o que quer ou farei que Earl se ocupe de você. A que idiota ocorre entrar em um bar e falar assim a alguém que acaba de perder um irmão?

-Tentarei de novo. Meu nome é Ben Kozlowski. Conhecia seu irmão. Era um bom amigo meu.

-Quanto de bom? Estava com ele quando morreu?

Ben assentiu com a cabeça.

-E por que não fez nada para salvá-lo?

Ben sentiu que se fazia um nó no estômago. Ele mesmo tinha se feito aquela pergunta milhares de vezes desde que ocorreu a tragédia.

-Sinto muito.

-Isso não me vai devolvê-lo.

-Sei.

-Não seria você quem lhe disparou?



-Não, não fui eu.

Entretanto, sentia-se tão mal como se tivesse sido ele. Mas não estava ali para limpar sua consciência, e sim para cumprir uma promessa.

Assim Ben tratou de conter suas próprias emoções e centrar-se nas de Ellie. Ela estava zangada com ele e não podia culpá-la. Não estava fazendo muito bem as coisas.

Ela seguia pálida, mas absolutamente parecia uma mulher débil. Seu queixo erguido era orgulhoso. Ele a olhou atentamente. Ellie sentiu aquele olhar e se manteve desafiante.

-Johnny me falava de você em suas cartas - disse ela tentando manter a voz firme.

Já tinha feito bastante ridículo desmaiando e lhe perguntando depois se ele tinha disparado em seu irmão. Estava desfeita dos nervos, e isso não era próprio dela. Tinha que recompor. Aquele dia não tinha tido tempo para comer. Uma queda de açúcar, isso era o que lhe tinha passado.

-Não esteve no funeral.

-Não pude. Sinto muito. Estava no estrangeiro cumprindo destino.

-Para isso veio até aqui? Para me dar os pêsames?

-Queria me assegurar que estava bem.

-Agradeço por isso - disse ela em um tom que parecia dizer justamente o contrário -. Mas não era necessário.

-Eu acredito que fosse muito necessário. Não deveria trabalhar em um lugar como esse.

-Posso me cuidar sozinha.

-Não foi isso o que me pareceu.

Ellie estirou a muito curta camiseta que usava antes de responder.

-Não necessito que ninguém apareça em minha vida para me dizer o que tenho que fazer. O que preciso é voltar para o trabalho.

-Acaba de perder os sentidos!

-Porque você me assustou dizendo que tinha vindo para me dizer algo de Johnny.

Tinha sido uma reação ridícula acreditar que o exército tinha cometido um engano. Ela tinha estado junto a sua tumba, tinha visto o féretro afundar-se na terra. Mas aquela mesma noite tinha tido um sonho muito real no qual seu irmão, com aquele sorriso travesso que tinha, anunciava-lhe que sua morte tinha sido um grande engano.

-Sinto muito, não devia me expressar daquela maneira.

-Sim, bom...

Ellie tirou as pernas do carro, escapando assim do braço dele. Ele se levantou rapidamente e lhe ofereceu a mão para ajudá-la a sair do carro, mas Ellie preferiu sair sozinha.

Era mais alta do que lhe tinha parecido à primeira vista. Chegava-lhe mais acima do queixo. Afastou-lhe uma mecha de cabelo do rosto.

-Desde quando não come nada?

-Estou bem — insistiu ela, dando um passo atrás.

-Não estará grávida?

-Não, não estou grávida - disse ela ofendida.

-Olhe só tento compreender o que é que se passa.

-O que passa é que está me fazendo zangar-me. O que lhe dá direito a aparecer aqui e começar a me interrogar como se eu fosse um de seus mariners? Não sou. Sou uma mãe responsável por uma menina de cinco anos. Posso enfrentar qualquer coisa.

Ellie confiava em que, à força de repetir, aquelas palavras se fizessem realidade.

Possivelmente ela pudesse fazer frente a algo, mas Ben não. Não podia suportar que Ellie mal pudesse sustentar-se em pé, que tivesse que trabalhar tanto para sobreviver.

-por que trabalha aqui? Johnny me disse que trabalhava em um agradável restaurante familiar.

-E assim era, mas fechou faz uns meses, e isto foi o único que pude conseguir. Não tenho estudos.

Tinha deixado a escola para trabalhar, para que Perry pudesse tirar seu título universitário. Uma prova mais das coisas estúpidas que se pode chegar a fazer por amor.

-Não queria que Johnny se preocupasse assim não lhe disse nada do novo trabalho. O que me recorda... como me encontrou?

-Tinha seu endereço. Pelo Johnny. Não estava em casa e um vizinho me disse que trabalhava aqui. Deixe-me que a ajude. Posso lhe dar um pouco de dinheiro até que as coisas melhorarem.

-Não posso aceitar dinheiro de você. Quem acha que sou?

-Johnny teria querido que a ajudasse e teria gostado que aceitasse minha ajuda.

-Não se atreva a me dizer o que meu irmão teria gostado - soltou ela com ferocidade-. Conhecia-o melhor que você. Crescemos juntos, andando ao léu de uma casa de acolhida a outra. Só tínhamos um ao outro. Conheci meu irmão durante vinte e cinco anos. Assim nem ocorra tentar me convencer de alguma coisa usando seu nome.

Ellie disse isso golpeando com o indicador o peito de Ben. Ele tomou suas mãos entre as suas.

-Sinto muito. Não deveria ter dito isto. Faço tudo errado hoje.

Ela sim que estava fazendo todo errado, pensou. Primeiro o desmaio e agora perdendo os nervos daquela maneira.

E agora que ele tinha seus dedos em suas mãos, sentiu algo novo... o comichão de uma atração. Aquela reação inesperada a desconcertou. A dolorosa necessidade de sentir-se abraçada, consolada, amada, ameaçava afligindo-a por completo.

Seu olhar confuso se encontrou com o dele. Estavam tão perto que podia distinguir brilhos esverdeados naqueles olhos de cor castanhos claro, podia ver as finas linhas de expressão ao redor de seus olhos, podia ver uma tênue cicatriz na mandíbula.

O calor daqueles dedos despertou nela certos desejos traiçoeiros. Fazia muito tempo que não sentia uma atração tão poderosa, um torvelinho semelhante de sensações perigosas.

Não podia deixar-se levar. Tinha que ser forte.

Mas era difícil, posto que tinha as emoções à flor de pele desde a morte de seu irmão. Cada vez se sentia mais e mais apressada pelos problemas que lhe vinham em cima ameaçando afogá-la.

Não podia derrubar-se. Tinha que pensar em Amy.

Só pensar em sua filhinha lhe devolvia as forças. Amy era a melhor menina do mundo. E Perry era escória por não dar-se conta, por não cuidar e adorar aquela menina como merecia e abandoná-la quando se inteirou de que tinha asma fazia dois anos.

Não. Tinha que ser forte, não só por si mesmo, mas também por sua filha. Não podia deixar-se levar por um momento de química sexual.

-Tenho que voltar para o trabalho - repetiu afastando sua mão.

-por que não deixa que a ajude?

«Porque poderia terminar dependendo de você e de sua ajuda, e quando for, estarei pior que agora. Já vivi Isso antes».

-Porque é melhor que me eu cuide sozinha.

-Está me dizendo que tem tantos amigos que não necessita outro? Pode contar comigo, Ellie. Não vim até aqui só para saudá-la e partir. Vim para ficar.

-É um mariner, Ben. Mariners não ficam em nenhum lugar muito tempo.

-Tenho destino relativamente perto daqui, em Camp LeJeune. Não se liberará de mim tão facilmente.

Tinha um sorriso encantador, e seu tom de voz era realmente reconfortante. Mas já tinha ouvido aquilo antes. Perry também lhe havia dito que podia contar com ele, que sempre estaria ali apara ajudá-la. Falar não custava nada.

Para demonstrar que estava decidido a manter sua palavra, Ben ficou em La Taberna até que ela terminou seu turno. Abriu-lhe a porta quando saiu e insistiu em acompanhá-la até o carro. Era um veículo tão velho que parecia manter-se funcionando por milagre. Não era exatamente uma preciosidade. As portas eram prateadas e o resto estava pintado com uma multidão de cores de entre os quais se destacava o verde. Um amigo de um amigo se ofereceu a lhe arrumar a carroceria depois que alguém se chocou contra ele no estacionamento de um supermercado. Ela não tinha dinheiro para arrumá-lo, e não quis comunicar a sua companhia de seguros para que não lhe subissem as cotas, que com muita dificuldade conseguia pagar.

-Quantos quilômetros tem? - perguntou Ben como se não pudesse acreditar que aquele veículo pudesse agüentar um quilômetro mais.

-O velocímetro parou em 299.999. Pode ser que não seja muito bonito, mas me leva de um lugar a outro.

-Vai diretamente para casa?

Ela assentiu. Já não tinha vontade de discutir.

-Gostariam você e sua filha jantar comigo esta noite? Me disseram que há uma churrascaria muito boa perto daqui.

As forças a abandonaram. Em casa a esperava uma lata de macarrão com queijo e outra de feijões verdes. O mesmo que tinha jantado no dia anterior. No dia seguinte era dia de pagamento, e poderia comprar mais comida, mas até então...

Um filé. Quanto tempo fazia que não comia um? Que dano podia lhe fazer aceitar a generosidade do Ben só aquela vez? Amy poderia jantar bem.

O que podia lhe fazer dano era imaginar que Ben ficasse por ali uma ou duas semanas mais, acreditando em suas amáveis palavras. Isso seria um tremendo engano.

Mas Ellie se fez mais sábia nos últimos tempos. Por muito que gostasse do contato daquelas mãos, pela química que houvesse entre eles, sabia que a única pessoa em que podia confiar era ela mesma.

E isso era o que tinha que ter no presente... por muito atraente que fosse o capitão Ben Kozlowski.


CAPÍTULO 2
-O que me diz? -disse Ben com voz tentadora -. Jantarão comigo? As duas, você e sua filha?

Ellie se sentiu muito tentada. Pesou suas opções: o macarrão com queijo e feijões de lata... ou um bife. Dizer que sim não significava que fosse débil. Significava que podia ser realista dadas as circunstâncias. Jantar com Ben não ia fazer que voltasse a acreditar nos finais felizes.

-Vamos, gostaria de ter companhia para jantar - insistiu ele.

Ben fez que parecesse que era ele quem necessitava algo, e não que estava fazendo um ato de caridade.

Nesse momento, a valor que Ellie tinha de Ben aumentou. Mas era normal que tivesse coisas positivas. Afinal, era amigo de seu irmão, e Johnny era muito bom julgando às pessoas. Como ela, não confiava facilmente nas pessoas e, entretanto, tinha acreditado em Ben.

Ellie não queria que lhe notasse a profunda dor que sempre sentia ao recordar Johnny. Já tinha demonstrado muita debilidade aquele dia, nada próprio dela.

Só tinha duas debilidades: sua filha e seu irmão. E seu irmão se foi. Assim Ellie teria que trabalhar mais que nunca por sua filha. Nesse momento suas tripas se queixaram, recordando que não poderia cuidar de Amy se não cuidasse dela mesma.

-Está bem. Aceito.

Ben sorriu.

-Estupendo. Sigo-a até sua casa e vamos juntos dali.

Ben olhou com desconfiança o carro de Ellie enquanto se dirigia ao dele. Mas aquele carro levava toda a vida ao serviço de Ellie. O comprou de segunda mão quando ia começar a ir à universidade e ainda seguia com ela. Não podia dizer o mesmo de seu marido. Levava-a onde queria, sempre que não fosse muito longe, carregava as compras, os móveis se fosse necessário uma mudança, podia ouvir a rádio, embora só três emissoras... Era um carro de confiança, embora às vezes fizesse alguma ou outra má jogada.

Desgraçadamente, aquela foi uma dessas vezes. A Toyota se negou a arrancar. Ellie desceu do carro, abriu o capô e agitou um cabo.

-O que faz? - perguntou Ben aproximando-se dela.

-Magia.


Ben acreditou. Já tinha operado um pequeno milagre com ele. Não era absolutamente como a tinha imaginado. Imaginou-a uma doce jovem. Sabia que tinha um filho, e, portanto não era tão inocente, mas não imaginou que teria uma vontade de aço. E que soubesse de carros. Nunca tinha conhecido uma mulher que levantasse o capô do carro para solucionar um problema sozinha.

-Já está.

Ellie se surpreendeu ao ver que Ben lhe baixava o capô do carro, como se ela fosse uma flor delicada. Não estava acostumada a que cuidassem dela. Seu ex estava acostumado a lhe abrir as portas e separava a cadeira da mesa para sentar nos restaurantes quando eram noivos, mas tinha deixado de fazê-lo gradualmente quando se casaram.

Ellie respirou fundo e afastou Perry de seus pensamentos. Tinha que concentrar-se no presente. Graças a Deus, o carro arrancou por fim e não voltou a lhe dar nenhum susto no curto trajeto até a casa.

Ellie vivia em um bloco de apartamentos de tijolo de dois andares. De fora não chamava especialmente a atenção, mas tinha um parque do outro lado da rua. Além disso, tinha chão pavimentado, muito apropriado para a asma de Amy. E também tinha Frenchie Sánchez.

Aos seus sessenta e poucos anos, Frenchie não era absolutamente a típica avó. Não era alta e esbelta, mas se movia como se fosse. Estava orgulhosa das poucas rugas de seu rosto e usava o cabelo muito curto, um cabelo que se tingia cada vez que se aborrecia. No mês anterior tinha sido loira platina e aquele dia era ruiva. Tinha os olhos castanhos, uma risada escandalosa e grande afeição por brincos grandes. Tinha vestidos vaporosos e calças de cores fortes, como mamão e limão.

Frenchie atribuía sua colorida aparência a seu matrimônio com um trompetista cubano fazia muitos anos com o qual foi a viver na Europa. Tinha o gosto de uma parisiense para os cachecóis e um coração de ouro.

Ellie sabia quão afortunada era por ter uma vizinha como Frenchie, que a ajudava com Amy e ficava com a pequena quando ela ia trabalhar. Frenchie se negava a aceitar dinheiro por isso, dizendo que a menina fazia muita companhia. Ellie insistia e lhe pagava algo de vez em quando, embora nunca tanto como merecia aquela boa mulher.

Frenchie recebeu Ellie com um enorme sorriso.

-Que tal o trabalho, ma chérie?

-Mami, olhe o que desenhei! -disse Amy correndo com uma folha de papel na mão.

Era pequena para seus cincos anos. Tinha o cabelo e os olhos escuros como Ellie e aquele dia usava seu conjunto favorito, umas calças curtas e uma camiseta com um gato com olhos brilhantes.

Ellie sentiu que o coração lhe saía do peito ao olhá-la. Parecia ontem quando deu a luz e a teve em seus braços pela primeira vez, maravilhada de ver aquelas mãozinhas com dedos e unhas perfeitas, afligida pela intensidade de seu amor por ela.

O tempo tinha passado muito rápido. Sua menina já não era nenhum bebê, tinha crescido muito rápido e odiava perder momentos importantes de seu crescimento.

-me deixe ver - disse Ellie lhe dando um forte abraço antes de olhar sua obra de arte-. É um desenho precioso.

-É um gato.

-Já o vejo.

Não era certo. Só distinguia um círculo com olhos, mas se o tinha feito sua pequena, era maravilhoso.

-Quem é? - perguntou Amy assinalando a Ben.

-É um amigo do tio Johnny. Chama-se Ben.

-O tio Johnny está no céu agora - disse Amy assinalando para cima -. Vem do céu?

-Sou mariner.

-Então não é um anjo?

-Não.


-Que pena. Pensei que poderia levar uma mensagem a meu tio de minha parte. E mostrar meu desenho.

-Oxalá pudesse.

Ellie se deu conta do gesto de dor contido de Ben.

Frenchie interrompeu a tensão do momento com sua habilidade habitual.

-Bem-vindo a minha casa, Ben. Gostaria de beber algo?

-Não, obrigado, senhora.

-me chame Frenchie. Assim me chamam meus amigos. Puseram-me o apelido por todos os anos que vivi em Paris com meu marido.

-É um prazer a conhecer, Frenchie.

A voz do Ben tinha recuperado seu tom normal. Era profunda e masculina.

-Carinho - disse Ellie acariciando com suavidade o cabelo a sua filha - Ben nos convidou para jantar fora esta noite.

-Não teremos que comer feijões verdes outra vez? Bom! - exclamou Amy enquanto recolhia sua pequena mochila - Já estou preparada.

-Primeiro temos que ir em casa para que me troque - disse Ellie confiando que seu rubor não fosse evidente.

O entusiasmo de Amy fazia pensar que vivia comendo feijões o mês inteiro.

-Está bem, mas se troque rápido, ta, mamãe? Posso pedir um Happy Meal?

Para a Amy, um restaurante de comida rápida era o melhor lugar do mundo.

-Não, vamos a um lugar ainda melhor.

-Não sabia que havia um lugar melhor.

-Quer vir conosco, Frenchie? - perguntou Ben.

-É muito amável de sua parte me convidar, mas não, obrigado, há uma maratona de filmes do Antonio Bandeiras em um canal a cabo e não posso perder isso.

-Obrigado uma vez mais por cuidar de Amy, Frenchie.

-De nada, ma chérie. Passe bem. Merece isso.

Amy saiu correndo pelo corredor do edifício até a porta de sua casa. Ellie abriu, Ben agarrou a mochila da menina e sustentou a porta até que Ellie tivesse entrado.

-Só demorarei um ou dois minutos. Sente-se e ligue a televisão se quiser enquanto me troco.

Ellie tentou não pensar no que Ben opinaria de seu apartamento. Era mariner, não decorador de interiores, mas seguro que se deu conta de que não havia quase móveis.

-Não demoro nada. Vamos, Amy.

Ellie sentou à menina em sua cama com um de seus livros, agarrou alguns objetos de roupa limpa de seu dormitório e se meteu no banheiro. O aroma de tabaco que lhe impregnava a roupa e o cabelo por trabalhar em La Taberna não era bom para Amy. Nem tampouco para Ellie, mas cada vez que tinha solicitado que a área de não fumantes fosse maior, tinha recebido por toda resposta as gargalhadas de seu chefe.

Ellie enxaguou o cabelo, fechou o chuveiro e agarrou uma toalha. Utilizou o secador uns três minutos e com o cabelo ainda úmido fez uma trança. Vestiu-se rapidamente. De qualquer forma, em seu armário não havia muito onde escolher. Não recordava a última vez que comprou roupa. Quando tinha um pouco de dinheiro extra, comprava coisas para Amy.

Ellie vestiu umas calças negras, um Top de ponto vermelho e umas sandálias que tinha comprado faziam dois anos em uma loja de saldos. Deu-se uma rápida olhada no espelho do banheiro. Limpa e respeitável. Justo o efeito que procurava. colocou um pingo de maquiagem, aplicou com ágeis movimentos um pouco de sombra nos olhos e de batom e deu por terminado...

-Mamãe! Está pronta? — perguntou Amy do outro lado da porta.

-Pronta - disse Ellie saindo do banheiro

Ben deixou de olhar os esportes na televisão e ficou em pé.

-Está muito bem.

A Ben deu a impressão de que suas palavras soavam torpes, porque na realidade Ellie estava melhor que bem. E cheirava a limões frescos. Sentiu quando ela passou junto a ele para agarrar sua jaqueta e sua bolsa.

-me permita.

Ben lhe tirou a jaqueta jeans das mãos e a ajudou a vesti-la.

-Mamãe, necessita ajuda para se vestir? Acreditava que sabia.

-Claro que sei. Ben só está sendo amável.

Ellie jogou os braços atrás, mas não pôde encontrar os buracos das mangas. Seus dedos chocavam uma e outra vez com a perna de Ben.

-Perdoa.

-Não aconteceu nada - disse ele aproximando-se dela para guiar sua mão até a jaqueta.

Deixou às mãos um instante no ombro dela, e Ellie sentiu seus dedos nos ombros nus quando tirou a trança da jaqueta. Um calafrio lhe percorreu todo o corpo, desde o começo da nuca até os pés.

-Assim. Que tal agora? - disse Ben.

Que tudo bem? Supõe-se que tinha que manter a objetividade, não derreter-se.

Ellie não se acalmou até que estiveram sentados à mesa no restaurante. Amy observava o menu infantil como se pudesse ler todas as palavras. Levou duas bonecas ao restaurante e as tinha sentadas olhando o menu com tanto interesse como ela.

-Quer os palitos de frango? - perguntou-lhe Ellie.

-Quero polvo - anunciou Amy orgulhosamente.

-Aqui não servem polvo.

-Frenchie diz que ela o comeu em Paris.

-Quando for mais velha como Frenchie poderá comer polvo.

-Mas então terei duzentos anos!

-Não - disse Ellie contendo a risada - O que prefere palitos de frango ou um cachorro quente?

-Frango. Mas sem feijões. Por favor, mamãe. E brócolis tampouco, que eu não gosto.

Depois de pedir, Amy se inclinou cheia de curiosidade sobre Ben.

-Quer brincar com minha Barbie? Tenho duas.

A menina lhe ofereceu uma e Ben não se atreveu a lhe dizer não.

-Minha Barbie trabalha em um hospital. E a tua?

-A minha é mariner.

-O que tem vestido?

-Um uniforme.

-Irá também ao céu como meu tio Johnny?

A Ben lhe fez um nó no estômago.

-Não, só quando for muito, muito velhinha.

-Pode trabalhar no hospital com minha Barbie?

-claro que sim.

-Muito bem. Você primeiro.

Ben estava tão perdido que a menina lhe explicou o que tinha que fazer.

-Sua Barbie fala com minha Barbie.

-Olá.


-Tem que fazer que soe mais como uma garota.

-Olá - repetiu Ben com a voz mais aguda.

-Como se chama?

-Barbie.


-Eu também me chamo Barbie. Vamos lanchar. Tem o aparelho para fazer tortas? É assombroso. Não se pega nada.

-Viu-o em um desses anúncios que fazem pela manhã - explicou Ellie.

-Tem asma sua Barbie? - disse Amy - Deveria levá-la ao médico. Alguns médicos são muito amáveis. Minha Barbie é médica - continuou arrumando a roupa da boneca - Por isso trabalha em um hospital. Vamos dar um passeio de carro. A minha conduz.

A menina continuou com um incessante monólogo ao qual Ben só tinha que responder com algum «sim» ou «não» com voz aguda.

-Capitão Kozlowski?

Ben levantou o olhar e encontrou com um companheiro do corpo e sua esposa, que o olhavam como se fosse um inseto estranho. Ben soltou a boneca como se o queimasse e se levantou imediatamente.

-Não esperava encontrá-lo aqui, senhor - disse o sargento Handley.

-Estou aqui com umas amigas.

-Não o interrompo. Alegro-me de vê-lo, senhor.

Ben assentiu com a cabeça e esperou a que o mariner e sua esposa se afastassem antes de sentar-se.

-Deveria ter visto a cara que fez. Não tinha preço — afirmou Ellie.

-Alegra-me ter proporcionado um momento jocoso a esta noite.

-O que é jocoso? - perguntou a menina.

-Jocoso significa divertido.

-Eu posso ser divertida. Sei fazer caras de riso. Quer ver?

Amy esmagou o nariz com a mão.

-Aqui vem seu jantar - disse Ellie, tirando as bonecas da mesa.

Amy as sentou em seu colo.

A comida foi bem. Ellie comeu até o último bocado de seu enorme bife e de sua guarnição de batatas assadas e verduras grelhadas. Amy comeu quase toda sua comida e não insistiu em dar de comer a suas Barbies.

-vão tomar sobremesa? - perguntou a esperta garçonete enquanto recolhia os pratos vazios - Nossa especialidade são as delícias de chocolate.

-Soa bem - disse Ben.

Quando a garçonete retornou com o enorme prato de sobremesa, os olhos de Amy quase saíram das órbitas.

-Posso comer a amora?

-Afirmativo - respondeu ele.

-O que quer dizer isso?

-Significa que sim.

-O que se diz? - disse Ellie quando Ben deu à menina a amora que adornava a sobremesa.

-Obrigado.

Amy sorriu de orelha a orelha e apoiou a cabeça no ombro do Ben.

-Cai-me bem.

O coração de Ben deu um pequeno salto de alegria. Sempre tinha sido um sentimental, com debilidade pelos que necessitavam ajuda. Tinha sido assim desde que, sendo menino, resgatou um gatinho assustado de um estacionamento ao ar livre em um supermercado. Uma turma de meninos maiores tentavam cravá-lo com um pau e o pobre animal, aterrorizado, escondeu-se debaixo de um contêiner de lixo. Ben brigou com eles. Resgatou o gatinho de seu esconderijo e o levou para casa metido debaixo do casaco. Ainda recordava como o animalzinho tinha deixado de tremer apoiado contra seu peito.

Sim, ajudar o mais fraco sempre tinha sido sua especialidade. E ver o agradecimento naquele rosto infantil tinha despertado seu instinto protetor.

À saída, Ellie olhou discretamente para ver se havia pôsteres de «necessita-se garçons» no restaurante. Mas não os havia. O caminho de volta foi curto e tranqüilo.

-Pode ficar Ben? - perguntou Amy quando chegaram à porta do apartamento.

-Tinha que estar na cama já faz tempo - disse Ellie.

-Quero que Ben me conte um conto.

Amy o arrastou ao interior do apartamento e puxou ele até seu quarto.

-Céu, o mais seguro é que Ben não saiba nenhum conto. O que lhe parece se leio A Cinderela?

-Não. Quero um conto novo.

-Primeiro ponha o pijama e lave os dentes - disse Ellie, levando-a brandamente ao banheiro.

-Não vá, Ben - gritou Amy antes que se fechasse a porta do banheiro.

Ben esperou no quarto da menina. Sentia-se como um elefante em uma louçaria A colcha era rosa com babados franzidos. Um bichinho de pelúcia desgastado ocupava o lugar de honra junto ao travesseiro. Havia uma manta com desenhos de gatos dobrada aos pés da cama. Na mesinha de noite havia uma pilha de livros de contos.

-por que Ben não pode ler um conto? - perguntava Amy de volta ao quarto, saltando em cima de sua cama.

-Porque ele não tem filhos, assim não conhece nenhum conto.

-Sim, conheço algumas historia — disse Ben.

Pode ser que não fossem apropriadas para uma menina de cinco anos, mas, como mariner, era homem de recursos.

-Posso fazê-lo. Não há problema. Era uma vez, faz muitos anos, em um país maravilhoso, um senhor malvado com grande poder. Tinha sido bom há muito tempo, mas se deixou arrastar pelo caminho do mal. Seu nome era... conde Muito mau.

-Era mau?

-Muito mau - assentiu Ben com solenidade.

Ellie interrompeu Ben e o arrastou a uma canto do quarto.

-O objetivo dos contos não é que minha filha tenha pesadelos - sussurrou-lhe - As crianças nesta idade tomam tudo ao pé da letra.

-Entendo. Não é minha intenção assustá-la. Confia em mim, de acordo?

Ben retornou à cama de Amy com Ellie colada a ele.

-E o que aconteceu ao conde Muito mau?

-Porque ele e sua turma de cavalheiros negros saíram em seus cavalos ao anoitecer e capturaram Rosalinda, a filha de... do duque Bonachão, que era um homem muito bom.

-Era um papai bom?

-Sim.

-E amava Rosalinda?



-Muitíssimo.

-Mami diz que meu papai me ama, mas eu não acredito que seja um papai bom.

Ben não sabia como reagir ante semelhante confissão.

-me conte mais - pediu a menina.

-Bom, como dizia, o duque Bonachão era bom, fazia coisas boas e as pessoas o amavam. Muito mais que ao conde Muito mau. E isso enfurecia ao conde. Assim por isso foi ao castelo de Bonachão para raptar Rosalinda.

-Era uma princesa?

-Um pouco parecido. Assim que o duque Bonachão estava fora de si. Sabia que só havia uma pessoa que podia lhe devolver a sua filha. E esse era o cavalheiro Branco.

Ben estava começando a meter-se realmente em sua própria história.

-O cavalheiro Branco tinha um esquadrão de cavalheiros, conhecidos como os cavalheiros da Pedra Negra, que tinham vivido muitas aventuras. Aceitou ajudar ao duque Bonachão a resgatar Rosalinda, e se reuniu com outros cavalheiros para planejar o que deviam fazer.

Ben não se deu conta de que estava tratando de temas logísticos e militares com muito detalhe até que sentiu a mão de Ellie em seu braço.

-dormiu.

-Tinha que fazer contos pequenos - disse Ben com voz triste-. Dormiu de aborrecimento.

-É muito criativo para ser um mariner.

-Mariners podem ser criativos se a situação o requerer.

Saíram sigilosamente do quarto. Ellie deixou a porta entreaberta.

-De onde tirou os nomes?

-Meus irmãos riem porque dizem que sou muito criativo.

Ben esboçou um enorme sorriso com covinhas. Ellie olhou aqueles lábios. Nunca antes tinha esquecido todos seus problemas só olhando a boca a um homem.

-Né... eu... só queria te agradecer por esta noite - disse afastando o olhar para não perder o equilíbrio - O jantar estava delicioso e obrigado por inventar essa historia para a Amy. Foi muito bonito.

-Posso ser um bom tipo quando faz falta.

-Um cavalheiro com sua brilhante armadura, não é? Como o cavalheiro Branco.

Ben levantou uma sobrancelha com gesto desafiante.

-Tem isso algo de mau?

-Nada. Sempre que for consciente de que não sou nenhuma donzela em apuros.

-Quer dizer que não necessita um cavalheiro que a resgate?

-A armadura não me viria mau. Mas não quero nenhum cavalheiro.

-Não pensa em voltar a se casar?

-Não.


-por que não? É jovem e bonita. Por que não quer um final feliz para você mesma?

-esteve casado alguma vez?

-Não.

-Confia em mim. O matrimônio nem sempre significa final feliz.



-Amy diz que não acredita que seu pai seja um bom pai. Por quê? Batia nela?

-Não, nada disso.

-Batia em você? –

perguntou com a mandíbula tensa.

-Não.

Perry nunca tinha recorrido à violência física. Não lhe tinha feito falta. Seus comentários sarcásticos podiam ser quase igualmente destrutivos. Nunca soube se sua intenção era lhe fazer mau ou simplesmente era tão egoísta que não importava como se sentisse ela. Provavelmente era o último.



-Então, o que aconteceu?

-por que se importa tanto?

-Porque amava Johnny e você é sua irmã. O que tem de mau falar comigo de seu matrimônio? A não ser que siga tão apaixonada que lhe custe falar dele.

-Não quero falar disso, mas não porque esteja apaixonada por Perry. Amava-o a princípio. Cegamente. Conheci-o em meu primeiro ano de universidade. Eu queria estudar Literatura Inglesa. Pediu-me os apontamentos e nunca me devolveu. Isso me tinha que ter servido de aviso: Perry só preocupava ele mesmo. Mas podia ser muito doce e era incrivelmente bonito. Conquistou-me por completo. Prometeu-me o mundo inteiro. Casamo-nos uns poucos meses depois e eu deixei os estudos para mantê-lo. Sei que parece estúpido, mas Perry fazia que parecesse um plano sensato. Ele ia obter um título em Economias, ia conseguir um bom trabalho e eu poderia ficar em casa e ter a família que desejávamos. A princípio fomos muito felizes. Então, fiquei grávida, e isso não entrava em seus planos, ao menos até depois de licenciar-se. Ainda assim, fingiu estar contente, e tudo funcionou até que nasceu Amy.

-O que aconteceu então?

-Perry se comportava como se estivesse muito orgulhoso de sua filhinha. Mostrava suas fotos a todo mundo, mas começava a haver sintomas de que as coisas não foram bem. Sempre andávamos mal de dinheiro. Perry maquinava planos que nos faria ricos, um atrás do outro. «Esta vez sairá, neném», dizia-me. Mas nunca funcionava nada. Formou-se quando Amy tinha dois anos. Umas semanas mais tarde lhe diagnosticaram asma.

Ellie suspirou. Falar de seu matrimônio a entristecia e a fazia sentir ridícula.

-Perry não aceitou muito bem. Era um perfeccionista, e, de repente, Amy já não era sua garotinha perfeita. Largou-se de casa poucos meses depois e não soubemos muito dele depois.

-Não mantém contato com sua filha?

-Não. Eu sempre digo a Amy que seu pai a ama, e possivelmente seja certo, a sua maneira. Mas a verdade é que Perry é incapaz de amar ninguém mais que a si mesmo.

-Ao menos manda dinheiro que corresponde para sua manutenção?

Ellie não se moveu, mas Ben sentiu que estava se afastando dele.

-Olhe, não deveria ter falado tanto. Às vezes, quando estou cansada, solto a língua. Quer beber algo? -perguntou ela levantando-se no sofá -. Um refresco?

-Se acalme - disse pondo a mão em seu braço para impedir que fugisse para cozinha -. Estou bem.

Ben concluiu por sua reação que o descarado do Perry não pagava a pensão da menina. Não o surpreendia. Por isso sabia dele, não parecia um tipo responsável. Johnny nunca tinha entrado em detalhes sobre o ex de sua irmã, além de dizer que era escória e coisas muito piores. Tampouco sabia se Johnny sabia tudo. Suspeitava que Ellie tivesse oculto a seu irmão os detalhes mais dolorosos daquela ruptura. Sentiu tal raiva contra o ex-marido de Ellie que esteve a ponto de perder a compostura.

-Precisa de dinheiro - disse tirando a carteira do bolso-. Mais do que eu possa necessitar ou usar. Aqui tem - disse estendendo um punhado de notas de cem dólares-. Toma.

-Não estou à venda! -gritou Ellie ficando de pé em um salto e assinalando a porta -. Fora daqui!



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal