Amor: manifestações, representações e conceitos1



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Amor: manifestações, representações e conceitos1

Diego Amorim Novaes2



Resumo

O trabalho descreve a experiência didática interdisciplinar desenvolvida em classes do ensino médio na Escola Estadual João Borges de Sousa em João Pessoa, cujo tema é Amor: manifestações, representações e conceitos. Constituiu-se de três aulas ministradas por duplas de graduandos nos seguintes cursos da UFPB: Biologia, Psicologia, Letras e História. A abordagem temática das aulas foi elaborada de acordo com a respectiva área do conhecimento do graduando, sendo auxiliada por uma análise histórica em par com objetivos e conceitos previamente discutidos.. Ao contrário do que parece prevalecer no senso comum ocidental, não há uma definição única e homogênea do sentimento referido, estando o conceito cristão, o preponderante, inserido numa gradação longa de comportamentos humanos já delineados. Em par com a análise histórica, serão utilizados conceitos psiquiátricos que delineiam o comportamento mental e fisiológico de indivíduos considerados em estado amoroso. Gikovate (2006) parte da ideia de que a suposta necessidade de completude que normalmente motiva os relacionamentos amorosos advém do primeiro, e talvez mais violento, trauma humano: a quebra da harmonia vivenciada durante a fusão uterina. No que tange aos aspectos especificamente biológicos da atividade, podemos perceber que na natureza, em grupos, existe certo altruísmo. Este é, para a etologia, um comportamento no qual um indivíduo aumenta o fitness de outro podendo diminuir o seu próprio. O fenômeno pode ser analisado sob a ótica de alguns conceitos referentes ao amor. Em relação às fontes literárias, o projeto segue o procedimento de análise do Romantismo, que carrega nosso tema já no nome. A literatura do século XVIII reunida nesta escola, apresenta mais uma atmosfera poética única do que certa sistemática específica. Prezava-se pela revolta do sentimento contra a razão seca, as profundezas da alma contra o bom senso superficial. Neste bloco cultural tem-se uma concepção singular, mas extremamente difundida de amor.



Apresentação

Confesso que o tema deste projeto partiu da minha vontade de resolver questões pessoais, investigando de maneira intuitiva os meandros do amor. Busquei na História, minha disciplina, as variações do comportamento amoroso que já subentendia mutantes de acordo com a cultura e com o tempo. Desloquei-me para a psicologia a fim de entender o comportamento dos hormônios, sua função e importância, quando nos encontramos apaixonados ou em estado de completude emocional. Na biologia, procurei entender de que forma esse tipo de comportamento se manifesta em outras espécies, considerando que a humana não é a única capaz de amar; e mais, se existe de fato o que chamamos de amor, que papel possui na manutenção dessas espécies no cenário de competição perpétua. Por fim, me dirigi às produções artísticas do Romantismo europeu, movimento tido como, dentre outras coisas, manifestação efusiva dos sentimentos no intuito de entender como os indivíduos tentam demonstrar o quanto ou de que forma amam.

Não vejo vergonha em admitir a primazia da vontade sobre minhas ações – seria absurdo negá-lo - muito menos a que objeto ela se dirigiu. Tido por muitos como assunto não-convencional e até mesmo inútil na formação do indivíduo, rebato lembrando que a maior – geográfica e temporalmente falando – instituição moral humana, o Cristianismo, tem como base discursiva o amor. Tal sentimento/comportamento é decisivo nas tomadas de decisão dos indivíduos, no entanto, nós parecemos negligenciá-lo tanto por desconsiderar sua importância como por tê-lo como certo, resolvido, ininvestigável. Sobre nossa relação com ele, diz Lins (2013, p. ), “O amor foi normatizado, reprimido, violentado. A ordem moral reinou, exercendo nociva tirania sobre a vida privada.” Nosso medo e vergonha de tratar abertamente do tema aprisionam ainda mais nossos anseios na medida em que são controlados por um discurso monopolista de verdade, de certo e errado, do que é e do que não é.

Ao conversar com os alunos sobre o tema, percebi as mesmas certezas que eu carregava pouco tempo antes. Na sala, elas estavam distribuídas aqui e ali, em casos particulares de relacionamento e em verdades universais de amor paternal. No entanto, quando expostas as opiniões logo houve desacordos. Nesse momento, o chamado da licenciatura foi ouvido e comecei a fazer maliciosos questionamentos. Maliciosos porque minha intenção não era solucionar questões, mas provoca-las. Várias sobrancelhas foram arqueadas e eu pude sentir os neurônios atiçados. Alguns me responderam de pronto, reconfirmando as certezas que já tinham. Outros ainda tentaram instintivamente se desdobrar em retórica para resolver o labirinto em que eu os havia lançado. Aqui e acolá alguns ficaram calados e riram com a interação informal que havíamos estabelecido. Mas o que é importante, não houve apatia.

Uma imensidão de informação interage com o cérebro constantemente, nesse sentido uma série de processos de filtragem sustentou uma consciência capaz de sobreviver à seleção natural. A fim de promover uma aprendizagem significativa é preciso superar esses filtros, não apenas criando “mágicas e espetáculo” diante dos alunos, mas atingindo-lhes no âmago. O sistema radicular, a amígdala e a intervenção da dopamina, responsáveis por tal filtragem, devem ser superados pela incitação de emoções (SELBACH, 2010).

Então perguntei se eles gostariam de aulas sobre o tema. A resposta positiva foi geral. Ainda disse que poderia convidar amigos de outros cursos para dar as aulas em conjunto e que (não sou bobo) haveria uma recompensa em notas para aqueles que comparecessem e cumprissem as atividades. O interesse aumentou.

Este artigo pretende descrever a experiência didática interdisciplinar desenvolvida entre os dias 4 e 6 de maio de 2016 em classes do ensino médio na Escola Estadual João Borges de Sousa em João Pessoa, cujo tema foi Amor: manifestações, representações e conceitos. Constituiu-se de três aulas ministradas por duplas de graduandos nos seguintes cursos da UFPB: Biologia, Psicologia, Letras e História. A abordagem temática das aulas foi elaborada de acordo com a respectiva área do conhecimento do graduando, sendo auxiliada por uma análise histórica em par com objetivos e conceitos previamente discutidos. A análise biológico-evolutiva, liderada pela graduanda Isabela Jerônimo, tomou forma na explicação do aparecimento do altruísmo entre grupos animais, dando destaque para os primatas e hominídeos superiores. Na psicologia, com a graduanda Flávia Cruz, foram discutidas as causas e consequências de uma suposta “necessidade de completude”, tão defendida por instituições que apoiam a monogamia e o casamento, que impulsiona os relacionamentos românticos. Além disso, os efeitos fisiológicos, já delineados pela medicina e psicologia, do estado de “paixão” também foram descritos. A respeito das representações do amor, guiados pelo graduando Lucas Neves, discutimos os ideais do movimento cultural do Romantismo, que eclodiu na Europa no século XVIII. Além de se constituir como um conjunto de novas representações da subjetividade humana, tal movimento desempenhou um papel fundamental na formulação das ideias de nacionalismo moderno além da definição ideológica do grupo social burguês.

Todas essas perspectivas foram balizadas por uma análise histórica, introduzida pelo graduando Diego Novaes, que pretende reconhecer uma narrativa não linear ou evolutiva, mas contínua, das práticas referentes ao amor. A explosão de produção cultural ocorrida entre 60 e 30 mil anos atrás, por exemplo, desencadeada de acordo com Mithen (2002) pelo aumento da sociabilidade derivada das mudanças nas habilidades cognitivas nos homens modernos, corresponde a um período de grande encontro de evidência acerca do altruísmo nos grupos humanos. Indivíduos cujas fraturas ósseas e mandibulares impediam a locomoção e alimentação, eram auxiliados e mantidos por companheiros. Dessa forma, análises sociais estarão atreladas ao desenvolvimento dos temas específicos das outras disciplinas componentes deste projeto.

Todas as aulas foram registradas em fotos e vídeos dando espaço para a reanálise e maior utilidade no que diz respeito ao conteúdo lecionado e as metodologias de ensino aplicadas. Estas não tiveram forma única pré-estabelecida, controlada por uma gerência educativa. Como parte do propósito do projeto, foi dada liberdade ao graduando ministrante da aula para desenvolver seus próprios métodos, de acordo com suas preferências e com as necessidades do conteúdo trabalhado. Em reunião, no entanto, foi concordado que quanto maior a participação dos alunos, melhor seria a aula.

As aulas tomaram lugar do refeitório da escola, convertido em sala devido a problemas estruturais da instituição, e na biblioteca da mesma. Cada graduando ministrou uma aula de cerca de 50 minutos, utilizando os seguintes recursos disponibilizados pelo colégio: quadro branco, data-show e caixa de som. Em cada aula, foi distribuído um questionário que deveria ser entregue para a computação da bonificação na nota da disciplina de História na respectiva turma do aluno. O questionário continha apenas duas indagações a respeito do conteúdo passado na aula e de que forma ele se relacionava com a vida do aluno, e as impressões dos alunos acerca da desenvoltura e metodologia do professor.

A seguir, cada aula será descrita em seus objetivos, conteúdos, métodos e resposta dos alunos, obtida pelo questionário.

Os aspectos psicológicos do amor (04/05)

Nesta primeira aula, não há uma linha divisória muito clara a respeito da disciplina guia dos conteúdos apresentados. Eles transitam entre a História, Química, Filosofia, Artes, Sociologia, Ética e Biologia. Pingam em cada campo de conhecimento, fundamentando um discurso que tem como objetivo caracterizar o amor, mas que acaba sorrateiramente delineando diversos objetos do estudo escolar.

Houve uma preocupação em caracterizar, junto com os alunos, os estágios psicológicos por que passa uma pessoa quando está amando. Mas não descrevendo-os como roteiros pré-programados, e sim desenvolvendo um raciocínio a respeito dos movimentos e ações, tanto das pessoas, como dos hormônios envolvidos, que caracterizem a entrada em tais fases. Indo do Banquete Platão, escrito por volta de 380 a. C., até a ocitocina produzida pelo hipotálamo, buscamos introduzir duas perspectivas gerais de análise do comportamento amoroso. Uma pré-científica, subjetiva e voltada para a análise da linguagem, e outra, moderna, científica e preocupada com a objetividade de seus fatos. De um lado, a perspectiva das disciplinas ditas Humanas e Sociais, do outro, Naturais e Biológicas. Juntas, no entanto, para construir um discurso amplo que tem como único propósito despertar a curiosidade e a insatisfação com o conhecimento até então obtido.

A apresentação começa como tem sido feito a milhares de anos: o contar de uma história. Nesse caso, trata-se do mito do Andrógino de Platão, presente em seu famoso escrito, O Banquete. Com tal narrativa intendemos mostrar como o imaginário da Grécia Clássica, que pode ser estendido grosso modo a todo período Antigo, interpretava certos comportamentos e sentimentos humanos. Para essas populações, emoções significativas como o amor, a inspiração, o ódio e mesmo conceitos como justiça, honra e destino tinham origens divinas. Se não propriamente mitológicas como fruto de ações de deuses, como correspondentes a uma metafísica também inalcançável. O platonismo, vertente filosófica assumidamente pitagórica em sua abstração e veneração das ideias, é um perfeito exemplo de tal cultura política. Moscovici (2015) descreve muito bem a diferença entre a mentalidade dita “primitiva”, pré-científica, e a chamada “moderna”:

“A crença em que o pensamento primitivo – se tal termo é ainda aceitável – está baseado é um crença no ‘poder ilimitado da mente’ em conformar a realidade, em penetrá-la e ativa-la e em determinar o curso dos acontecimentos. A crença em que o pensamento científico moderno está baseado é exatamente o oposto, isto é, um pensamento no ‘poder ilimitado dos objetos’ de conformar o pensamento [...]; numa, o objeto emerge como réplica do pensamento; na outra, o pensamento é réplica do objeto[...]” (MOSCOVICI, 2015, p. 29)

Na história contada, o amor corresponde a uma necessidade de completude proveniente de uma separação mitológica, pré-humana. O andrógino é o seu duplo que foi separado pelos deuses dando origem aos homens e mulheres modernos. Em contraposição à tal visão, a psicologia moderna afirma que o sentimento de necessidade de completude é proveniente do trauma do nascimento. O psicoterapeuta Gikovate (2006) explicita sua opinião afirmando que

“Parece haver em nós a nostalgia de uma perfeição perdida. A hipótese que defendo para explicar essa sensação psicológica é a de que nos sobra, ainda que de forma não verbal, alguma lembrança da harmonia e completude vivenciadas durante a fusão uterina[...].” (GIKOVATE, 2006, p. 22)

Estabelecemos então, para promover a discussão, a oposição entre as duas concepções de mundo, a filosófica e a científica. Neste momento há choque direto de opiniões que aqui se encontram, nas palavras dos alunos, a “alma-gêmea”, o “amor à primeira vista”, “e o felizes para sempre” de um lado, e “ficar”, “dar uns pegas”, “namorar” do outro. As leituras possíveis de cada expressão são inúmeras, e cada uma tem sua simétrica do outro lado. Por exemplo, de um lado temos a ideia de espiritualidade e mágica e do outro a materialidade e o pragmatismo. Da mesma forma temos de um lado expressões que demonstram uma vontade considerável de completude, de atenção a longo prazo e felicidade permanente, e do outro, ocasião, necessidade imediata, o que de certa forma demonstra certa segurança a respeito do porvir. Elas também remetem à ideais de opressão de gênero referentes à delegação de papeis para mulheres e homens em ambas as situações. Estas expressões carregam o peso de milhares de anos de instituições morais e discursivas se gladiando para conformar as ações humanas.

Chegando à conclusão de que existem vários “tipos” de amor, nos deslocamos para a análise fisiológica do comportamento amoroso. Nessa perspectiva esclarecemos de pronto a definição neurobiológica do amor como complexo fenômeno baseado em atividades cerebrais, que incluem principalmente certas moléculas como hormônios e neurotransmissores. Caracterizamos o sistema límbico enquanto estrutura responsável pela regulação das emoções e nos propomos a delinear o comportamento das pessoas identificadas em tais estados emocionais. Atração física acompanhada de elevação dos hormônios Ocitocina, Vasopressina, Progesterona e Testosterona, de acordo com o sexo do indivíduo. Esta “fase” corresponde ao que foi determinado pelo senso comum como “início da paixão.” A paixão propriamente dita, associada a um comportamento obsessivo, conta com a diminuição do pensamento racional, da memória e da atenção e do aumento da Noradrenalina, responsável pela ativação do Sistema de Luta e Fuga3, a Dopamina, associada ao prazer, e a diminuição da Serotonina, responsável pelo controle do humor. Uma terceira fase seria caracterizada pelo estabelecimento do companheirismo, normalização das taxas hormonais e retorno das capacidades racionais regulares. Todos esses momentos neurofisiológicos variam, evidentemente, de acordo com o indivíduo e com as ações tomadas por ele em favor ou contra a manutenção do relacionamento.

Novamente tentando conceituar o amor, tendo em vista que a descrição acima corresponde a apenas “um tipo de amor”, passamos a analisar a pintura do surrealista René Magritte, “A traição das imagens” de 1948. Utilizamos a obra para discutir o caráter representativo da linguagem verbal e imagética. Conversamos sobre a distinção entre um objeto físico como um cachimbo, seu desenho na pintura de Magritte e sua representação fonética na palavra francesa “pipe”. Novamente discutíamos platonismo sem, no entanto, nos dirigirmos à Grécia. Como objeto real, o cachimbo é facilmente percebido como diferente de suas representações, ao tratarmos de amor, entretanto, as coisas ficam turvas e as oposição entre representação e realidade deixam de ser tão claras. Não existe, como um cachimbo, um objeto que se possa manusear, alterar e examinar chamado amor. Este se constitui de uma série de sentimentos e comportamentos que, mesmo com a ajuda da ciência, ainda não foram completamente delineados.

Passando por cultura grega clássica e micênica, psicologia moderna, filosofia platônica, metafísica e materialismo, sentimentos e conduta moral, arte surrealista, linguagem e representação, fomos construindo uma investigação digna de nota. Juntos, alunos e professores, discutiram as mais altas hierarquias intelectuais de modo completamente espontâneo e próximo à realidade social dos envolvidos.

Estiveram presentes nessa aula quinze (15) alunos do ensino médio, no entanto, apenas oito (8) responderam ao questionário aberto sobre as atividades. Composto de duas perguntas amplas que tem o propósito de sondar as reflexões feitas por cada aluno acerca dos conteúdos e das metodologias de ensino dos professores participantes. Em suma, trata-se duplamente de saber se os assuntos foram do interesse dos estudantes e se os professores tiveram postura atrativa para a boa mediação das discussões.

A maior parte dos questionários foi respondida de forma sucinta e generalista. Alguns, no entanto, preencheram todo o espaço reservado às respostas e se propuseram a delinear com certo esmero tudo que haviam concluído sobre o assunto durante as atividades. De modo geral, a aceitação do tema foi positiva, tendo os alunos efetivamente, como demonstrado pelas discussões, se identificado com as situações propostas em sala. Também aprovaram o desempenho dos professores, elogiando nossa desenvoltura e proximidade com as pessoas envolvidas.

Há, evidentemente, o que não ocorreu como planejado e o que pode ser melhorado. Houve, por exemplo, uma ênfase muito grande na abordagem filosófica do tema, o Mito do Andrógino, o mundo das ideias e o platonismo. Alguns alunos tomaram as histórias e raciocínios de forma literal, afirmando muitas vezes que o amor nunca poderia ser compreendido, pois provinha de um plano superior. Houve então uma transmissão irrefletida das informações passadas; de um lado não nos atemos ao efeito estético de espetáculo que as narrativas possuíam e do outro, os alunos não se dispuseram a reconsiderar aquilo que ouviam, tomando as informações ao pé da letra. Também houve certa dificuldade em memorizar as funções e conceitos referentes à linha bio-psicológica da aula. A transmissão de definições e formas de maneira direta e pouco lúdica novamente se mostrou ineficaz. Mesmo, assim a experiência foi positiva para ambos, alunos e professores, de modo que muito foi discutido e certamente armazenado.



A perspectiva evolutiva do amor (05/05)

Discutir o papel que o amor desempenhou num contexto de seleção natural, bem como caracterizar as organizações sociais desenvolvidas em relação a ele foram os principais objetivos desta aula. De um lado, numa perspectiva biológico-evolutiva, identificar ações consideradas amorosas entre animais não humanos e suas devidas consequências, de outro numa análise sociológica, entender o papel destes comportamentos na organização de comunidades nômades.

A primeira discussão referiu-se ao conceito de altruísmo. Tal ideia é normalmente polêmica nas discussões filosóficas na medida em que questionam a sua existência ou suposta pureza, imanência divina ou capacidade humana. Ou seja, discutem se os indivíduos podem realizar ações que gerem consequências benéficas unicamente a terceiros. Essa discussão foi imediatamente iniciada quando a graduanda Isabela Jerônimo perguntou aos alunos se sabiam o que era altruísmo. As opiniões foram múltiplas e compreenderam várias vertentes filosóficas de resposta para o tema. Logo, no entanto, nos voltamos para a definição do altruísmo pela etologia: corresponde a um comportamento que aumenta o bem-estar de um indivíduo semelhante e reduz o do praticante da ação, sendo bem-estar sinônimo de “probabilidade de sobrevivência” (DAWKINS, 2007, p. 42).

Golfinhos ajudam outros golfinhos quando estes estão doentes, primatas possuem longos anos de cuidado parental, lobos dividem comida com aqueles que não foram caçar, alguns pássaros ajudam outros pássaros a alimentarem filhotes que não são seus. Evidências arqueológicas na Córsega, ilha no Mar Mediterrâneo, indicam que uma mulher foi enterrada aos 35 anos, idade regular de morte, e foi coberta com ornamentos e ocre vermelho no túmulo. Exames, no entanto, indicavam fraturas ósseas em um dos braços e na mandíbula que a impossibilitaram de se locomover e mastigar propriamente, estando completamente dependente do trabalho alheio. Mesmo assim, ela foi cuidada e, quando de sua morte, foi enterrada com honrarias. Os exemplos acima foram analisados em parceria com os alunos a fim de que fosse fixado o conceito de altruísmo.

Para entender o peso desse tipo de comportamento na sobrevivência dos indivíduos e das espécies, é preciso compreender alguns conceitos da biologia como o da seleção natural4. Neste momento foi utilizado o exemplo de insetos que se diferenciam aleatoriamente pela cor de suas carapaças e por consequência são mais ou menos identificados por predadores. Aqueles mais visíveis são mais facilmente comidos por pássaros e consequentemente acabam deixando menos descendentes.

Considerando que a evolução age diretamente sobre indivíduos e não sobre grupos, já que a perpetuação dos genes se dá através da prole, o altruísmo na natureza pode parecer algo confuso. De que forma “ajudar” um terceiro pode ser favorável à sobrevivência dos meus descendentes? Essa questão levantada na sala foi contraposta com a teoria da Kin Selection5. Esta teoria compreende em dar destaque ao material genético como real agente envolvido na seleção natural. É ele que é passado, em parte, aos descendentes de forma que é selecionado pelo ambiente. Filhos possuem cerca de 50% da carga genética de cada pai, de modo que, em analogia simples, sua sobrevivência consiste na sobrevivência de metade dos ascendentes diretos. Cuidar da prole compreende, em termos genéticos, em cuidar de metade de si mesmo. Sendo assim, o altruísmo familiar, o cuidado parental, se torna um mecanismo de perpetuação genética factível, filtrado pela seleção natural enquanto forma eficaz de sobrevivência dos genes.

Ao nos dirigirmos aos grupos humanos nômades, a primeira concepção dos alunos diz respeitos a seu caráter primitivo. A diferença tecnológica, bem como o modo de vida migrante são as principais características que, fixadas nos alunos por uma cultura autointitulada progressista, bloqueiam de início qualquer abordagem do assunto. Dessa forma, nossa primeira função foi revelar uma face pragmática e racional desses indivíduos.

O “acidente da agricultura” foi o primeiro pilar derrubado. Discutimos sobre como as populações, através de sua habilidade naturalista, tinham pleno conhecimento do ciclo de vida vegetal, de acordo com a estação, época do ano e ambiente, de modo que a agricultura não foi iniciada de pronto por pura conveniência. Os homens vivendo entre 60 e 10 mil anos tinham pleno conhecimento das técnicas de lascamento que permitiam a fabricação de utensílios precisos às suas necessidades. Longe de habitarem exclusivamente cavernas, esses indivíduos elaboravam complexos abrigos artificiais com ossos de mamute e peles das mais diversas espécies animais. Também sua alimentação era farta e riquíssima em proteína. Suas habilidades enquanto caçadores e coletores, próprias do aprimoramento das inteligências naturalista e social, eram tão eficazes quanto chimpanzés, na recolha de alimentos, e leões na caça, alterando períodos de intensa atividade com longos repousos (HARRIS, 1977).

A discussão sobre amor inicia quando tratamos das relações entre os indivíduos dentro dessas comunidades. Até 10 mil a. C., data da sedentarização, não havia registro em quantidade de mortes violentas nem ferimentos por lançamento de projéteis. Tudo indica haver uma sociedade de cooperação e não de dominação. As relações entre homens e mulheres eram muito mais equilibradas. Não havia a ideia de casal fixo, as pessoas se relacionavam umas com as outras conforme desejavam ou de acordo com contratos pontuais. Não havia, dessa forma, o entendimento de vínculo entre sexo e procriação; os homens não sabiam que desempenhavam participação na geração de indivíduos. A mulher, por outro lado, possuía certo caráter divino, na medida em que gerava indivíduos, sangrava mensalmente e produzia leite, valorizada fonte de alimento (LINS, 2013).

Discussões de gênero e patriarcado tomaram conta da sala. As meninas levantaram questões sobre estrutura familiar e o papel da mulher no mundo do trabalhando, ocupando sempre o posto da dona de casa, deixada à margem de qualquer reconhecimento pelo esforço. As falas ficaram mais acirradas quando introduzimos a seguinte característica dos grupos nômades: a manutenção de baixa densidade populacional.

A fim de manter a comunidade em par com a disponibilidade de recursos naturais, os indivíduos realizavam o infanticídio. As crianças podiam ser afogadas, asfixiadas ou simplesmente negligenciadas. Além disso, o alargamento do período de amamentação mantinha o nível de gordura da mulher constante e baixo evitando assim o retorno da ovulação. Esse mecanismo podia ser mantido por longo tempo, evitando dessa forma futuras gravidezes (HARRIS, 1977).

Os alunos, principalmente as meninas, ficaram estarrecidos. Não entendiam como mães seriam capazes de afogar seus próprios bebês, independente das circunstâncias. Duas situações então foram contrapostas. Se por um lado, esses indivíduos cuidavam de feridos e incapacitados, dobrando seu trabalho para alimentar e transportar os mesmos, também podiam assassinar crianças em favor da própria sobrevivência. Onde está o amor, de que forma ele se materializa aqui, perguntei. Não houve consenso, mas esse nunca foi o plano. Promovemos a discussão. Deixamos que cada um chegasse a sua própria resposta.

Nesta aula estiveram presentes doze (12) alunos e, no entanto, apenas quatro (4) responderam ao questionário. A baixa quantidade de participação nesta fase das atividades é algo a ser pensado para as próximas aulas. De toda forma, a resposta geral foi positiva, tendo vários alunos sugerido a continuação dessas atividades ao longo do ano. A desenvoltura da graduanda Isabela Jerônimo foi particularmente elogiada no que diz respeito à sua empolgação e proximidade com o público discente. Também foram destacados empecilhos estruturais relativos ao próprio ambiente escolar. As discussões acerca do infanticídio e dos métodos de manutenção da baixa densidade populacional foram especificamente salientadas enquanto desagradáveis.

As representações do amor no Romantismo europeu (06/05)

O objetivo central desta aula foi caracterizar o amor romântico. Sendo historicamente associado ao movimento cultural nascente na Alemanha do século XIX, o Romantismo, corresponde a um conjunto de atitudes e concepções normalmente ditas exageradamente sentimentais. Reconhecendo esse suposto caráter efusivo de sentimentos, decidimos utilizar a contraposição do racionalismo francês para delinear o que devem ser concepções racionais e sentimentais de amor.

Tratamos então de fazer uma contextualização histórica dos movimentos referidos, enfatizando os ideais que defendiam. De um lado temos a Revolução Francesa (1789-1799) enquanto marco do desenvolvimento de um racionalismo que resgata a cultura da Grécia Clássica em favor de um objetivismo amalgamado a um idealismo platônico. Do outro lado, os vários principados alemães, de governos absolutistas, burguesias suprimidas, fraca coesão cultural, campesinato explorado e crescente camada intelectual.6 A devastação do território alemão pelas Guerras Napoleônicas (1803-1815) foi também grande responsável pela oposição que o Romantismo fará à França e a tudo que ela defendia.

Primeiro que tudo, o Romantismo é uma revolta contra a predominância do gosto clássico francês na Europa. [...] A revolta estava dirigida contra o racionalismo da literatura francesa; essa literatura parecia, aos jovens alemães, artificial, estreita, falsa, longe da natureza e distante do povo; parecia-lhes sufocar o gênio com as regras e a nobreza petrificada e seca da linguagem. (AUERBACH, 2015, p. 346)

Temos então a oposição entre racionalismo e sentimentalismo. Essa oposição será o guia para caracterizar o amor que temos em mente.

Seguimos para a comparação entre um conto de Machado de Assis, Noite de Almirante7 e o romance Os sofrimentos do jovem Werther8, de Johann Wolfgang von Goethe. O conto narra a aventura amorosa de Deolindo Venta-Grande e Genovena. Guiados pela raposina prosa do autor, os dois jovens apaixonam-se perdidamente e juram, como é de praxe, amor eterno. Deolindo, a serviço da Marinha, passa três meses viajando, confiante de que seu amor está seguro na promessa de ambos. Ao retornar, o rapaz se depara com Genovena apaixonada por outro sujeito, José Diogo. Quando indagada a respeito da veracidade de sua promessa, ela diz “– Pois sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei era verdade.[...]”9 Goethe enquanto representante controverso do Romantismo enverada por outro caminho. Em seu romance, Wether apaixona-se por Carlota, esta, no entanto está prometida em casamento a outro. A solução encontrada pelo rapaz para contornar todo o sofrimento decorrente da paixão não concretizada é o suicídio.

Duas concepções antagônicas de amor se apresentam nas histórias apresentadas. E, apesar de Machado de Assis fazer parte do realismo brasileiro, movimento posterior ao conjunto dos que analisamos, as características do amor apresentadas pelo autor servem a nossos propósitos. Dessa forma, emparelhamos um amor efusivo, dominador, passional e delirante, e um mais comedido, realista, calculado e seguro de si. Ao caracterizarmos ambas as situações em conjunto com os alunos, diversas opiniões sobre ambos surgiram. Muito foi dito em favor da paixão intensa do jovem Werther. Isso poderia ser atribuído à sua pouca idade, entre 14 e 16, mas não acho razoável cometer tal reducionismo psico-biológico. Seria o mesmo que dizer que a Alemanha do século XIX, berço do Romantismo, foi infestada por adolescentes. Mais provável que a opinião dos alunos tenha a ver com a cultura midiática do amor romântico, além da consolidada atmosfera de amor passional cristão.

Mostramos então mais dois exemplos de manifestação artística que reproduzem os ideais românticos aqui explorados. Trata-se da canção de Chicho Buarque e Edu Lobo, A História de Lily Braun10 e o poema de William Blake (1757-1827), The Sick Rose11.

Apesar das diversas interpretações que a semiótica nos instrumentaliza para ver, analisamos a música sob uma perspectiva de descontentamento amoroso. A história é iniciada com o flerte entre a personagem Lily Braun e um desconhecido. Com toda a narrativa da corte que preconiza a paixão, a protagonista deixa-se levar pelos encantos do novo pretendente. Em determinado momento, quando da oficialização social de seu relacionamento, o casamento, a mulher já não parece encantada, mas desiludida, triste e melancólica. Percebe as mudanças que a rotina provoca, a perda da festa, da corte, do romance, das rosas. Para ela, a concretização formal do relacionamento foi a ruína do mesmo.

A música gerou um debate sobre a durabilidade dos relacionamentos e, por consequência, do amor romântico. Para a maior parte dos alunos, o ideal de relacionamento era aquele que mantivesse “a chama acesa”. Para isso, foi dito, deveria haver certo investimento em trabalho no relacionamento; a prática de novas atividades como viagens, jantares românticos, cursos feitos em conjunto como dança ou fotografia. A paixão parecia ser, sob a ótica dos alunos, algo de difícil manutenção perpétua, mas que valia a pena o esforço para tanto.

Além da música, o poema de Blake, pintor e poeta tido como símbolo do romantismo inglês, revelava um lado supostamente danoso do amor. A ambiguidade do sujeito à quem o eu lírico se refere, Rosa enquanto mulher e enquanto flor, é essencial para a significância da obra. Se o amor pode ser tido como responsável por grande felicidade entre pessoas, neste poema é comparado a um verme que devora por dentro aquilo que o abriga. Aqui os aspectos negativos do amor romântico são mais levados em conta pelos alunos que se reconhecem em situação semelhante, em algum momento de suas vidas, à descrita. Quando indagados sobre paixões passadas, a maioria respondeu que já havia sentido. Esse tipo de ligação íntima entre conteúdo proposto pelo professor e a reflexão realizada pelo aluno foi um dos objetivos da aula. Trata-se da apropriação efetiva pelos alunos dos conceitos internos à discussão estabelecida.

Estiveram presentes dezenove (19) alunos e foram entregues seis (6) questionários respondidos. A impressão geral, corroborado pela própria dinâmica na sala, foi que as atividades foram extremamente divertidas. Piadas entre os alunos aliadas à sua grande participação na construção do discurso das aulas foi essencial para a descontração e fixação do assunto. Foi destacado pelos alunos o uso de música e poesia na sala; prática pouco convencional que, pelo que foi expresso, deveria ser constantemente utilizada.

BIBLIOGRAFIA

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BERLIN, Isaiah. As raízes do Romantismo. 1. Ed. São Paulo: Três Estrelas, 2015.

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GIKOVATE, Flávio. Ensaios sobre o amor e a solidão. 10ª ed. rev. São Paulo: MG Editores, 2006.

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LINS, Regina Navarro. O livro do amor, volume 1. 4ª ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2013.

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MOSCOVICI, Serge. Representações sociais : investigações em psicologia social. 11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.



SELBACH, Simone. (org.) História e didática. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

1 Este projeto foi executado dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) fomentado pela CAPES.

2 Graduando em Licenciatura em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bolsista CAPES.


3 Compreende um conjunto de alterações fisiológicas promovidas pelo sistema nervoso autônomo que age quando o indivíduo se vê em situação de perigo eminente. Há aumento da pressão arterial e frequência cardíaca, dilatação dos brônquios, dilatação da pupila, metabolismo da glicose aumenta, dentre outras alterações que possibilitam um maior vigor para situação de estresse extremo.

4 Conceito desenvolvido por Charles Darwin e Alfred Wallace no livro A Origem das Espécies, publicado em 1859. Compreende um mecanismo natural de seleção dos indivíduos de acordo com sua capacidade de sobrevivência e reprodução em determinado ambiente.

5 Seleção por parentesco, em tradução livre.

6 Eaglelton, Terry. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

7 Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias em 1884 sendo posteriormente, em 1896, incluso na coletânea Várias Histórias. Compreende já a fase realista de Machado de Assis

8 Romance epistolar de caráter autobiográfico publicado em 1774, considerado um dos marcos do Romantismo. Diz-se que por sua influência, diversos jovens em situação similar à de Werther cometeram suicídio. O fenômeno ficou conhecido como “Efeito Werther”.

9 ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.

10 A canção faz parte da trilha sonora do espetáculo musical O grande circo místico, de 1983. Teve como inspiração o poema homônimo de Jorge de Lima e foi interpretada por artistas brasileiros como Milton Nascimento, Gal Costa e Zizi Possi.

11 Ó Rosa, estás doente!/ Um verme pela treva/ Voa invisivelmente /O vento que uiva o leva/ Ao velado veludo/ Do fundo do teu centro:/ Seu escuro amor mudo/ Te rói desde dentro. (Tradução livre)


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